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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Sunitas e xiitas: o mito dos ódios remotos e novo mapa do Oriente Próximo

Por Martí Nadal

elordenmundial.com-14/11/2016

O oriente próximo encontra-se afundado em uma guerra total entre as duas correntes do Islã? Investigar os conflitos da região é necessário para desfazer os relatos que desconectam a violência atual de eventos contemporâneos e em seu lugar associam a ódios étnicos ancestrais.

Sunitas e xiitas seguem lutando desde o cisma que dividiu os muçulmanos depois da morte de Maomé no ano de 632? Dando uma olhada no mapa dos conflitos da região, temos a impressão de que nos países onde convivem Sunitas e Xiitas, acabam se enfrentando sem remédio. Na Síria, o regime de Bashar al Assad, dominado pela maioria alauíta, um ramo distante do xiismo, enfrenta uma oposição formada majoritariamente por grupos islamitas sunitas. No Iraque, a caída do sunita Saddam Hussein elevou ao poder a maioria Xiita, que agora deve fazer frente a uma insurgência liderada pelo grupo terrorista Estado Islâmico nas regiões sunitas do país. E, no esquecido Yemen, os huties uma milícia pertencente ao ramo do xiismo, tem tomado a capital do país e desde janeiro de 2015 sofrem os bombardeios de uma coalizão liderada pela Arábia Saudita. A tudo isso deve-se somar a guerra fria que protagonizam a República Islâmica xiita doIrã com a Arábia Saudita, bastião do fundamentalismo sunita, cujas disputas espalham-se por todos os campos de batalha do oriente próximo.

As divisões étnico religiosas do oriente próximo:fonte https://thesinosaudiblog.files.wordpress.com/2011/05/mid-east-religion.jpg

O sectarismo entendido aqui como um enfrentamento entre as distintas correntes do Islã é sem dúvida um componente vigoroso nos conflitos atuais, O auto denominado Estado Islâmico e suas pretensões genocidas tem convertido em habituais os ataques suicidas em bairros xiitas de Damasco, Bagdá ou Sanar, que tem deixado milhares de civis mortos. A isto se deve somar a proliferação de milícias xiitas que frequentemente molestam e aterrorizam aspopulações sunitas, antes controladas por grupos jihadistas. A retórica sectária também se assenta no atual alvoroço regional, promovido por clérigos e autoridades fundamentalistas e difundida através de cadeias por satélite e redes sociais. O teólogo e figura televisiva Yusuf al Qaradawi, que apresenta o programa mais popular da Al Jazeera, a cadeia mais vista do mundo árabe, tem acusado os alauitas de serem “mais infiéis que os judeus e cristãos”; por sua parte, outro célebre locutor da mesma emissora tem pedido em mais de uma ocasião a limpeza étnica de xiitas e alauítas sírios.

Respaldados por esta linguagem sectária, os meios ocidentais assumem que os conflitos na Síria, Iraque e Iêmen formam parte de uma guerra histórica de aniquilação étnica de onde os estados e as milícias se alinham em um grupo e outro dependendo de sua afiliação religiosa. Esta leitura etno-religiosa da violência que hoje sacode o oriente próximo é denominada ”relato dos ódios remotos” ( ancient hatreds, em inglês), porém, tal e como veremos, essa história é na realidade um mito.

O relato dos ódios remotos: da Iugoslávia ao Oriente Próximo

A origem desta teoria sobre conflitos étnicos perenes se encontra no final da Guerra Fria e não se tem aplicado só a sunitas e xiitas. O primeiro caso que se popularizou ocorreu depois da desintegração da Iugoslávia comunista. Autores como Samuel Huntington ou Robert Kaplan ajudaram a definir a guerra na Bósnia como um conflito plenamente étnico religioso entre croatas católicos, bósnios muçulmanos e sérvios ortodoxos. Também se construiu um relato sugerindo que o comunismo foi só um remendo transitório que unia alguns grupos étnicos que realmente seguem se odiando desde séculos atrás.

O colapso do forte governo central precipitou a violência, que só havia sido contida, porém nunca erradicada.

Hoje em dia, muitos artigos que pretendem explicar a violência atual entre sunitas e xiitas no oriente próximo seguem pautas similares.O relato geralmente se repete assim:depois de morrer o profeta Maomé, alguns muçulmanos consideraram que Abu Bakr amigo do profeta, devia ser o novo líder, enquanto que outros fiéis eram partidários de seu primo Ali.Os seguidores de Abu Bakr venceram e acabaram convertendo-se nos sunitas; os partidários da linha familiar de Ali, os xiitas, seriam derrotados, convertendo-se numa minoria freqüentemente perseguida dentro do islã.Nascia assim um ódio eterno e inalterável, agora desatado pela ausência de uma autoridade superior que os mantivessem unidos.

Em sua pretensão de responder a pergunta ‘’Porque matam-se sunitas e xiitas?, os meios ocidentais freqüentemente consideram as guerras na Síria e Iraque como de aniquilação étnica, com origem nas disputas sucessórias à morte de Maomé, na veneração de santos, nas interpretações distintas do Corão e demais diferenças doutrinais.O impacto dos eventos históricos e políticos contemporâneos são erroneamente descartados.

Em nenhum dos conflitos no oriente médio há só dois grupos definidos pela confissão religiosa.O intento de explicar de forma simples a violência por parte de alguns meios de informação a levado freqüentemente a reducionismos absurdos.Fonte: Chappatte (International New York Times).

As guerras que ocorrem no oriente próximo desde a 1.400 anos não são fruto de antipatias
sectárias, irracionais e intermináveis.Tais ódios não constituem o motor dos conflitos, mas sua consequência.O relato dos ódios remotos está baseado em conceitos errôneos, amplia inimizades sectárias e ignora os elementos geopolíticos e sociais e os interesses dos Estados do Oriente Próximo.

Esta teoria é herdeira do orientalismo clássico, que pressupõe que o oriental, o muçulmano, guia-se por sua identidade mais primária, a religião, em todos os aspectos de sua vida.Deste modo, os meios ocidentais tendem a buscar explicações étnicos e religiosos em conflitos que explodem por problemas socioeconômicos e políticos e que se espalham devido aos cálculos políticos interessados de potências exteriores.Os sírios não se levantaram contra Al Assad porque é alauíta nem o Irã saiu a seu resgate porque compartilham certas crenças.

A principal consequência dos relato dos ódios remotos é a construção em nosso imaginário de dois grandes blocos monolíticos e antagônicos constituídos por sunitas e xiitas.Não existem raízes nacionais, ideológicas, linguísticas ou socioeconômicas dentro destes dois grupos e pressupõe-se uma inimizade e um fervor religioso a indivíduos, à milícias e inclusive a países que na realidade carecem deles.

Rivalidade dentro da seita e alianças intersectárias

Em realidade, os países e milícias que os meios atribuem dentro do sunismo ou no xiismo não são nem comportam-se como blocos homogêneos e por utilizarem as duas seitas como as duas principais unidades de análises nas relações internacionais da região conduzirá a mais equívocos que a acertos.

Sunitas

Por um lado, o grupo sunita na realidade está repartido em três frentes visíveis.De entrada,a Wahabita Arabia Saudita exerce a liderança de um grupo de países que pretendem preservar o status quo regional.Junto a Riad caminham o governo secularista egípcio de Abdel Fatah al Sisi e as monarquias da Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrein.Entre suas prioridades figura dizimar o expansionismo iraniano onde ele surge.Por isso que derrubar Al Assad, um fiel aliado de Teerã, é um de seus principais objetivos.Ademais, esses países viram as revoluções árabes de 2011 como um grave desafio à sua hegemonia.

Não obstante, os partidários do statu quo devem lidar com rivais dentro de sua própria seita.O pequeno reino do Qatar a anos vem exercendo uma política exterior potente, porém flexível, que a levado a se unir com os islamitas da Irmandade Muçulmana e Turquia.Esse grupo, que em teoria é ideologicamente próximo ao islamismo da Arábia Saudita, envolve uma de suas maiores dores de cabeça.A diferença de seus vizinhos, o Qatar percebeu as malogradas Primaveras Árabes como uma oportunidade para estender sua influência.É por isso que celebraram a caída do regime de Mubarak no Egito e a ascensão ao poder do islamita Morsi.Seu contínuo apoio a agora deposta Irmandade Muçulmana egípcia trouxe em 2014 a pior crise entre as monarquias do golfo:Arábia Saudita, os Emirados e Bahrein retiraram seusembaixadores da capital do Qatar.

Líbia é um caso que evidencia as fissuras dentro do denominado bloco sunita.O país é esmagadoramente sunita, todavia encontra-se profundamente dividido e afundado em uma guerra civil desde as revoltas populares e a operação da Otan que derrubaram Kadafi em 2011.Atualmente, Líbia está dividida entre dois governos.Por umlado, os Emirados e Egito dão apoio a um executivo secular a leste,enquanto Turquia e Qatar apoiam a um governo de tribunal islâmico emTrípoli.Líbia é a prova de que o aumento da violência tem menos que ver com brigas sectárias do que com cálculos geopolíticos de países vizinhos.

Estas dissonâncias também se evidenciaram durante o golpe de estado contra Erdogan no verão deste ano.Arábia Saudita demorou 15 horas para condenar a ação do exército e alguns meios têm acusado aos Emirados de financiar os responsáveis do fracassado golpe.Enquanto o Irã, que há anos luta indiretamente com a Turquia na Síria, foi o primeiro país a condená-lo.

Finalmente, existe um terceiro grupo dentro do sunismo que em realidade está composto por centenas de organizações que minam a suposta unidade sunita.Trata-se das numerosas milícias jihadistas que, apesar de receberem apoio logístico ou financeiro por parte dos Estados sunitas, seguem considerando esses regimes ilegítimos.A relação entre os governos e os grupos jihadistas deve entender-se mais como de benefício mútuo e não baseada numa concepção similar de religião.O Estado Islâmico, por exemplo, dedica mais tempo e recursos a derrotar outros grupos rebeldes sunitas que a lutarem contra Al Assad.

Apesar dos evidentes sentimentos sectários que possuem, esses grupos são capazes de ações pragmáticas para perseguir seus interesses.Em2016, o ex-chefe dos serviços secretos israelenses admitiu que seupaís ajudou aos jihadistas da Frente AL Nusra, filial da Al Qaeda emSíria, e nas colinas de Golan.Esta assombrosa aliança obviamente não é baseada em um sentimento de afinidade, porém em interesses comuns, neste caso, arrebatar posições chaves à milícia libanesa Hezbollah, que combate junto ao governo sírio e envolve um dos maiores riscos para a segurança de Israel.

Xiitas

O denominado grupo xiita tampouco está isento de dissonâncias.Recentemente popularizou-se a expressão ‘’meia lua xiita’’ para se referir a aliança entre Hezbollah, Síria, Iraque e Irã.Embora certamente esses atores são estreitos aliados, os motivos dessa união não devem se buscar em simpatias dogmáticas.A coalizão original entre o regime laico, baathista e pan árabe da Síria com a teocracia persa do Irã nunca se á baseado no credo, mas que é herdeira da suposta ameaça comum do regime laico, baathista e pan árabe de Saddam Hussein.

A rivalidade entre Arábia Saudita e Irã que se espalha por todo oriente próximo não baseia-se em diferenças religiosas surgidas depois da morte de Maomé, mas nos interesses regionais opostos.Fonte: Kal (The Economist).

É comum também reduzir os alauítas ou os zaides a um ramo do xiismo, porém seus credos ortodoxos são bastante distintos do xiismo majoritário.Em realidade, as crenças dos alauítas tem permanecido ocultas durante séculos aos principais clérigos do xiismo.Não foi até 1948, quando os primeiros estudantes alauítas assistiram pela primeira vez a seminários religiosos na cidade iraquiana de Nayaf, centro da teologia xiita.Os alunos foram insultados e humilhados por suas crenças e, ao fim de pouco, a maioria deles voltaram à Síria.Recentemente um grupo de líderes religiosos alauíta emitiuum comunicado onde negavam sua condição de ‘’ramo do xiismo’’ com o objetivo de se distanciar do regime de Al Assad e do Irã.

Tampouco é estranho encontrar alianças entre grupos sunitas e xiitas que não se encaixam no molde do relato dos ódios remotos.Irã há décadas vem sendo o principal provedor do grupo islamico Hamas, e Al Qaeda e os Talibãs também colaboram com Teerã quando a sido necessário.Em Síria, grupos palestinos sunitas lutam junto com Al Assad e seu exército segue formado majoritariamente por sunitas; no Iraque várias tribos sunitas do oeste colaboram com Bagda para frear os terroristas do Estado Islamico.
Se bem é verdade que afinidades religiosas ou ideológicas podem ajudar na hora de costurar alianças e, sobretudo, justificá-las discursivamente, a geopolítica do oriente próximo segue regendo-se majoritariamente pelos interesses particulares dos estados.

Implicações políticas:um país para cada grupo étnico

Poderia parecer que o mito dos ódios remotos é simplesmente uma ocorrência devido a periodistas ou pretensos especialistas sem um conhecimento profundo da região, porém sua propagação não é inócua e tem consequências políticas.Bill Clinton, influenciado enormemente porum livro de Robert Kaplan, planejou a política estadunidense naguerra da Bósnia baseando-se na crença de que muçulmanos,católicos e ortodoxos massacram-se há séculos.Barack Obama também atua influenciado pelo relato dos ódios remotos entre sunitas e xiitas.Durante o último discurso sobre o estado da união, assegurouque parte da atual agitação no oriente próximo está ‘’originadaem conflitos de a milhares de anos’’ e em mais de uma ocasião manifestou sua preocupação pelos ódios entre países sectários.

A percepção de que os distintos grupos étnico religiosos não podem coexistir devido a ódios eternos é em primeiro lugar errônea e em segundo lugar perigosa.Por um lado, pretende negar qualquer suspeita de culpabilidade europeia e estadunidense sobre o estado atual da região.Dado que seguem lutando desde há milhares de anos, o apoio ocidental à ditaduras opressoras, a grupos rebeldes partidários de limpezas étnicas ou a calamitosa guerra do Iraque que oxigenou o sectarismo, não são responsáveis do estouro sectário atual.

Também, a consolidada imagem dos orientais como seres movidos por paixões étnicas e religiosas propensos a se matarem implica outra grave consideração: a corrente -crescente- opinião que pede que o mapa do oriente próximo seja redesenhado baseando-se nas fronteiras de seita.Desde a invasão do Iraque, mas especialmente depois das revoluções de 2011, tem-se popularizado vários mapas que pretendem redesenhar as fronteiras da região para assim salvá-los desses ódios étnicos.Numerosos políticos e especialistas defendem o desmembramento do Iraque* e Síria*, apesar de que tais pretensões secessionistas não figuram nas agendas dos grupos sunitas, xiitas e alauítas.Esses cartógrafos amadores culpam o acordo Sykes-Picot, que partiu as províncias otomanas depois da Primeira Guerra Mundial, por todos os males na região.Em suas opiniões, o grande erro das potências coloniais foi criar Estados ‘’artificiais’’ onde as seitas e outros grupos étnicos mesclavam-se, impossibilitandoassim a concepção de um estado homogêneo para a Europa*.O que muitos desses artigos esquecem de mencionar é que a criação do Estado-Nação europeu se baseia em séculos de limpezas étnicas e genocídios culturais para atingir tal nível de uniformidade.

Em 2016, um tenente coronel do exército estadunidense , Ralph Peters, publicou versão do que deveria ser a região argumentando que, ‘’sem esta revisão considerável das fronteiras não conseguiremos um oriente próximo em paz’’.No entanto recentemente, o New YorkTimes publicou um mapa onde cortava 5 países em 14 pedaços.


Proposta de Ralph Peters https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/7/7c/Ralph_Peters_solution_to_Mideast.jpg


É ilusório pensar que a única via para a paz na região é colocar cada grupo étnico em sua própria caixa, fechada e separada das demais.A história do Oriente Próximo está atormentada de violência dentro das mesmas seitas; você só precisa ver países como Argélia, Líbia e Egito, que, apesar de não terem minorias xiitas relevantes, possuem um passado recente com abundante violência.Este artigo não pretende argumentar que qualquer tipo de modificação de fronteiras na região é prejudicial nem nega a existência da violência sectária.Sua intenção é evidenciar o perigo de que as políticas ocidentais na região estão baseadas nos mesmos princípios orientalistas de cem anos atrás, que reduzem a identidade e os interesses dos atores da região ao sectarismo levando a um ponto absurdo.Paradoxalmente, o uso do prisma sectário conduz a políticas sectárias.Estabelecer cotas de poder confessionais, como no Iraque, ou fazer um país para cada etnia só implica a criação de novas minorias ao qual negaram-lhes a plena consideração de cidadãos por não pertencerem à nação.

Tradução: Elvis Braz Fernandes

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Conheça as meninas por trás das fotos de Nabi Saleh


"As fotos se tornaram virais. Isso é importante", disse Ahed Tamimi, 14 anos, "assim o mundo pode ver o que acontece". Ahed é a garota loura à esquerda na foto amplamente publicada de um violento confronto entre mulheres e crianças palestinas contra um soldado israelense na vila Nabi Saleh, Cisjordânia. No quadro Ahed está mordendo no soldado depois que ele a espancou no rosto. Desde que agora imagens não famosas foram primeiramente publicadas, Tamimis, e Ahed em particular, foram visitadas por multidões de jornalistas querendo saber como a família palestina se sentiu ao ver o pequeno Mohammed Tamimi, de 12 anos, também conhecido como Abu Yazan, despencou no chão.

Nas fotografias as garotas e as mulheres palestinas olham em pânico, e a expressão do soldado israelita é frenética. Abaixo dele está Abu Yazan, que olha como se gemesse de dor, amassado e empurrado pelo solado, seu braço amassado como se estivesse pressionado contra uma pedra. As quatro mulheres Tamimis - Nariman e Nawal, mães de meia-idade, e as garotas, Ahed e Nour, adolescentes - enfrentaram o soldado que tentava deter Abu Yazan por ter jogado pedra durante um protesto semanal contra os confiscos de terras.

"Quando você vê alguém da sua família em perigo, você não tem tempo para pensar", disse Nour Tamimi, 16 anos, quando sentamos no pátio da casa de Ahed. Ela é prima de Ahed e aparece na extrema direita, vestindo um top preto nas imagens virais.

"Ele estava me batendo e eu vi sua mão no meu rosto, então eu o mordi", disse Ahed com sua voz suave.

Ahed e Nour pareceram dolorosamente envergonhadas quando conversamos, Ahed mais que Nour. Ambas vestidas em seus jeans e camisetas, Ahed com uma estampa de Lola Bunny, interesse amoroso de Bugs Bunny. Ahed gosta de jogar futebol e dançar. Ela estuda inglês na escola, mas se envergonha de falar. Quando crescer, ela quer ser juíza. As duas foram a sofás ao ar livre, então se mudaram para uma cozinha para fazer um lanche da tarde, sanduíches com lebane, um iogurte típico do Oriente Médio, e shata, um tempero vermelho apimentado. Quando preparavam o lanche, elas fofocaram como meninas fazem. A noite estava fresca e agradável , um agradável mudança com relação à onda de calor que recentemente cobriu a região. O risto das duas, e a chegada de dúzias de visitantes das cidades ao redor da Cisjordânia deram um tom festivo à noite. Estava bem diferente do tumulto que passaram quatro dias atrás.

Ainda assim, os militares de Israel empoleiraram-se num checkpoint aéreo, procurando carros que entravam e saíam de Nabi Saleh. Alguns residentes foram proibidos de deixar a vila, inclusive os parentes de Ahed na terça-feira pela manhã. As duas foram detidas por uma hora e meia, antes que as forças israelitas as mandassem de volta para dentro da sua cidade.

Quando as fotos explodiram nas redes, a mídia internacional legendou o uso da força contra uma criança com um braço quebrado como o conto de "Davi e Golias", enquanto a mídia israelita ficou consternada que um grupo de mulheres botou um soldado pra correr. As mulheres morderam, arranharam, estapearam e socaram o soldado. Então elas tiraram a balaclava do rosto dele. Embora não tenha sido fotografado, e não incluso em um vídeo que também capturou a cena do fim de semana, foi Bassem Tamimi (marido de Nariman e pai de Mohammed e Ahed) e seu filho mais novo de nove anos, Salam Tamimi, quem também foram golpeados pelos soldados.

Em seguida o ministro da cultura e de esportes de Israel, Miri Regev, clamou por regulamentações perdidas no uso de fogo vivo por soldados, caluniando a "humilhação" que as fotos trouxeram ao exército israelita.

Agora para a família de Tamimi o incidente que se tornou um espetáculo na internet foi tão somente em uma outra sexta-feira vivendo na ocupação, nem mais nem menos. Começou com uma demonstração e terminou com cinco membros da sua família no hospital. Nariman tem asma e usa muletas, depois ela foi baleada por soldados israelitas meses atrás na rótula do joelho. Ela precisou de tratamento. Bassem, Ahed e Abu Yazan também sofreram estilhaços nos seus corpos. Como foi com Salam, ele foi baleado com uma bala de borracha, deixando seu dedo quebrado.

Uniformemente toda a família Tamimi ficou surpresa que tanta gente da mídia estrangeira tenha chegado para seguir as fotos icônicas. Além disso, que o protesto chamou atenção do governo israelita.

"Eles fizeram um grande estardalhaço com a 'humilhação' do soldado, mas estão matando o povo palestino", disse Nour, fazendo referência ao que disse Regev. Às adolescentes de Nabi Saleh, o exército israelita já é visto como belicoso. Em 2013, quando o jornalista e autor Ben Ehrenreich escreveu uma característica sobre Nabi Saleh para o The New York Times Magazine, Nariman estimou que umas 100 pessoas da vila tinham sido presas, e em torno de 500 violadas durante as demonstrações. Recentemente, dois dos membros da cidade - também parte do clã Tamimi - foram mortos por soldados israelitas. Mustafa Tamimi, 27, foi espancado na cabeça com uma bomba de gás lacrimogênio em 2011 e Rudshi Tamimi, 31, foi morto com tiro à queima-roupa no ano seguinte.

Para jovens em Nabi Salah, a morte de Mustafa e Rudshi causaram uma última impressão e as dificuldades a pioraram. "Depois de seis anos começaram a saber como lidar", disse Nour, indicando o tempo que os residentes de Nabi Saleh protestaram, que começaram em 2009 depois do fechamento do acesso ao povo à paisagem natural.

"Três anos e meio atrás meu amigo foi morto por soldados israelitas, então eu me tornei mais forte. Assim eu disse pra mim mesma 'por que não ser uma jornalista' que manda mensagem de todas as crianças, para todas as pessoas no mundo?" disse Janna Jihad, 9 anos, prima e amiga de Ahed. "Mustafa", Jihad continuou, "ele foi um amigo para todas as crianças em Nabi Saleh".

Jihad, uma irada e confidente garota que cresceu entre Nabi Saleh e West Palm Beach, na Flórida, então disse "sou a menor jornalista do mundo!" Ela tem uma página no facebook com em torno de 20.000 seguidores que leem suas postagens e veem suas fotos dos protestos de Nabi Saleh. Sua linha do tempo é cheia de imagens de seus parentes e colegas correndo do gás lacrimogênio tipicamente lançados em protestos durante as marchas semanais. Quando ela crescer, Jihad disse que quer reportar à CNN ou Fox, para ter uma plataforma a fim de alcançar pessoas divulgando sobre os modos com que as crianças sofrem com a ocupação. A morte de Mustafa, o baleamento de Nariman, o de Salam, o de outro parente três semanas antes que foi fuzilado com cinco balas no peito, deixou Jihad com a impressão de que sua vila está no caos "todo dia, todo dia, todo dia. Não é vida". Como falamos Ahed se uniu ao grupo de crianças que se reuniram em uma colina para ver Halamish, construída sobre as terras de Nabi Saleh. A construção foi feita por linhas-duras de Gush Emunim nos anos 1970 e desdeentão se tornou um subúrbio equipado com piscinas, caminhadas e guardas armados nos portões. Em Nabi Saleh, a maioria das ruas não são pavilhadas. A disparidade na riqueza é radicalmente aparente.

Voltando a Bassem, o pai de Ahed quando jovem costumava brincar nas encostas que agora estão cobertas por casinhas Halamish. O baixo vale era coberto por campos e jardins floridos.

"Há uma relação entre nós e esta terra", ele disse, entre conversas com vizinhos sobre um futuro Estado único ou dois Estados em Israel e no território palestino e sobre quão se ampliaram os conflitos não-violentos das demonstrações semanais. Bassem apoia o Estado único, o que ele vê como um fim lógico à ocupação que começou quando era criança. Sua esperança é que as demonstrações como Nabi Saleh se espalhem furiosamente e inaugurem condições, urgentemente, para o fim de uma ocupação sobre a qual comentadores estão dizendo que mudou de temporária para permanente. Até então ele continuará protestando toda sexta-feira - venha o que vier.

via mondoweiss

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Butão: O Obscuro Segredo para a Felicidade

Cidadãos de um dos países mais felizes na Terra são surpreendentemente confortáveis em contemplar um tópico que muitos preferem evitar. É esta a chave para a alegria?

por Eric Weiner

Em visita a Thimphu, capital de Butão, estive sentado diante de um homem chamado Karma Ura, derramando minhas tripas. Talvez fosse o fato de que seu nome é Karma, ou então o ar puro, ou o caminho da viagem que embrulha o estômago, mas eu decidi confessar algo muito pessoal. Não muito antes, do nada, experimentei sintomas desconfortáveis: respiração curta, tontura, formigamento nas mãos e nos pés. Em primeiro lugar, temi estar tendo um ataque cardíaco ou ficando louco. Talvez ambos. Então fui ao médico, que fez vários exames e descobriu que...

"Nada", disse Ura. Ainda antes que eu pudesse completar minha frase ele soube que meus medos não tinham fundamento. Eu não estava morrendo, pelo menos não tão rápido como eu temia. Eu estava tendo um ataque de pânico.

O que eu queria saber era: por que agora - minha vida estava indo incomumente bem - e o que eu poderia fazer em relação a isto?

"Você precisa pensar sobre a morte por cinco minutos ao dia", respondeu Ura. "Isto te curará".

"Como?", eu disse, estupefato.

"É essa coisa, esse medo da morte, esse medo de morrer antes de alcançar o que desejamos ou de ver nossas crianças crescerem. Isso é o que te atormenta."

"Mas como eu desejaria pensar em algo tão depressivo?"

"Pessoas ricas no Ocidente, eles nunca tocaram em corpos mortos, feridas frescas, coisas podres. Isto é um problema. Essa é a condição humana. Nós precisamos estar prontos para o momento de deixar de existir."

Lugares, como pessoas, têm um jeito de nos impressionar, desde que estejamos abertos à possibilidade de surpresa e não presos em noções preconceituosas. O reino Himalaia é melhor conhecido por sua inovadora política da Grande Felicidade Nacional; é uma terra onde o contentamento supostamente reina e a tristeza é proibida. Butão é de fato um lugar especial (e Ura, diretor do Centro de Estudos de Butão, uma pessoa especial), mas cuja especialidade é mais matizada e, francamente, menos radiante que a sonhadora imagem de Shangri-La que nós projetamos nele.

Na verdade, sugerindo que eu pensasse sobre a morte uma vez por dia Ura estava sendo leve comigo. Na cultura butanesa, é padrão pensar na morte em torno de cinco vezes ao dia. Seria digno de nota para qualquer nação, mas especialmente para uma tão bem classificada em questão de felicidade como Butão. Seria esta, secretamente, uma terra de escuridão e desespero?

Não necessariamente. Algumas pesquisas recentes sugerem que, ao pensar na morte com bastante frequência, o butanês não o faz sem razão. Em um estudo de 2007, os psicólogo da Universidade de Kentucky, Nathan DeWall e Roy Baumesiter dividiram algumas dúzias de estudantes em dois grupos. Um grupo foi ordenado a pensar sobre uma dolorosa visita ao dentista enquanto o outro grupo foi ordenado a contemplar a própria morte. Depois, ambos os grupos foram ordenados a completar palavras-chave, como "jo_". O segundo grupo - aquele que pensou sobre a morte - estava muito mais propenso a construir palavras positivas, como "joy" (alegria, júbilo, em inglês). Isto levou pesquisadores a concluir que "a morte é um fato psicologicamente ameaçador, mas quando as pessoas a contemplam, aparentemente o sistema automático começa a buscar por pensamentos alegres".

Estou certo de que nada disso surpreenderia Ura ou qualquer butanês. Eles sabem que a morte é parte da vida, queiramos ou não, e ignorar sua verdade essencial tem um custo psicológico bem pesado.

Linda Leaming, autora do maravilhoso livro A Field Guide do Happiness: What I Learned in Bhutan About Living, Loving and Waking Up, sabe disso também. "Descobri que pensar na morte não me deprime. Faz-me apreender o momento e ver coisas que eu não teria visto ordinariamente", ela escreveu. "Meu melhor conselho: vá. Pense o impensável, [pense] muitas vezes por dia aquela coisa que atormenta você".

Diferente de muitos de nós no Ocidente, os butaneses não sequestram a morte. A morte - e as imagens da morte - estão por toda a parte, especialmente na iconografia budista, onde você encontrará ilustrações coloridas e macabras. Ninguém, nem mesmo as crianças, é protegido destas imagens, ou das danças rituais que reencarnam a morte.

O ritual providencia um recipiente para o pesar, e em Butão esse recipiente é grande e popular. Depois que alguém morre, há um período de 49 dias, pela manhã, que consiste em elaborar, cuidadosamente, rituais orquestrados. "É melhor que qualquer antidepressivo", contou-me Tshewang Dendup, um ator butanês. Os butaneses podem parecer isolados nesses tempos. Eles não estão. Eles estão de luto através do ritual.

 Por que uma atitude diferente com relação à morte? Pensa-se que o butanês pensa sobre a morte só porque ela está por toda parte em torno deles. Para uma pequena nação, ela oferece muitos modos de morrer. Você pode encontrar sua morte nas sinuosas e traiçoeiras estradas. Pode ser atacado por um urso; comer cogumelos venenosos; ou morrer de exposição.

Outra explicação são as profundas crenças budistas, especialmente a reencarnação. Se você sabe que terá outra vida, temerá menos o fim dessa vida particular. Como dizem os budistas, você não deveria temer a morte mais do que o descarte de roupas velhas.

Não quer dizer que os butaneses não experimentam medo ou tristeza. Claro que eles as têm. Mas, como Leaming me contou, eles não fogem destas emoções. "Nós no Ocidente queremos remediar se estamos tristes", ela disse. "Tememos a tristeza. É algo a ser ultrapassado, medicado. No Butão há aceitação. É parte da vida."

O ensinamento de Ura, por enquanto, está comigo. Tornei regra pensar sobre a morte uma vez ao dia. A menos que eu esteja especialmente estressado, ou tragado em um medo inexplicável. Pois daí eu passo a pensar nela duas vezes ao dia.

via BBCtravel

domingo, 7 de junho de 2015

O Riso do Idiota

por Manuel Ochsenreiter

Muitos políticos e jornalistas europeus do sistema hoje choram lágrimas de crocodilo sobre a antiga Palmira síria sob controle terrorista. Expressam sua preocupação porque os militantes armados do "Estado Islâmico" destruíram a Palmyra, que alberga as ruínas de uma grande cidade que uma vez foi um dos centros culturais mais importantes do mundo. Não seria a primeira vez que o "Estado Islâmico" destrói o patrimônio cultural.

Mas essas preocupações são profundamente hipócritas: porque muitos dos que agora estão "preocupados" são em verdade os spin doctors [1] ideológicos do "Estado Islâmico" e outros grupos terroristas na Síria e no Iraque. Com seu apoio à chamada "Revolução Síria" eles alimentaram estes grupos.

O "Estado Islâmico", hoje em dia simplesmente executa seu trabalho: destruindo a civilização, desintegrando uma nação inteira, matando tudo o que representa a "ordem" da maneira mais brutal possível. Eles atomizam a Síria, o obstáculo geopolítico aos olhos de Washington e Bruxelas.

Esse padrão não é de forma alguma novo:

- Em Kosovo, extremistas albaneses não só atacam os sérvios, atacam e destróem igrejas servio-ortodoxas e cemitérios. Eles não só querem se desfazer da população sérvia, querem desfazer-se da presença história da Sérvia. Os albano-kosovares profanam tumbas sérvias pondo nelas cadáveres de animais.

- No Cáucaso Sul, as igrejas e monastérios armênios foram objetos das forças de Azerbaijão durante a guerra de Nagorno-Karabaj. A catedral armênia de Sushi foi profanada e convertida em um arsenal de armas pelas forças azeris.

Não é uma coincidência que esta guerra bárbara e anti-cultural fora apoiada por "voluntários" (como johadistas chechenos e afegãos) em ambos os casos, da ex Iugoslávia e do sul do Cáucaso.

A destruição do patrimônio cultural, histórico, religioso e nacional é uma forma eficaz de criar um "fato consumado" nos campos de batalha geopolíticos. O propósito dessas "medidas de guerra" é tirar à força a população inimiga de suas identidades e vínculos coletivos históricos, culturais e religiosos.

E este é exatamente o conceito ideológico do Ocidente pós-modernista e liberal. Eles fazem o mesmo na Europa - por suposto com outros meios, com o "poder brando". Aqui nossas elites políticas e culturais negam a existência e a importância das identidades coletivas, fantaseiam em nossas universidades sobre holografias intelectuais como "identidades híbridas", e assim sucessivamente. Lutam contra a religião, "desconstróem" a família, inclusive criaram incontáveis gêneros para negar a existência do "macho" e da "fêmea". Eles convertem igrejas em grandes armazéns ou edifícios de apartamentos. Adoram o "indivíduo", que é "livre" para atuar em uma "sociedade aberta", que em verdade significa: "mercado livre".

O filósofo e politólogo russo Professor Alexandr Dugin descreveu uma vez este processo como uma maneira de difundir um "idiotismo" moderno. Na antiga Grécia o termo "idiota" faz alusão a um "cidadão particular, que não tem conhecimento profissional, um profano". "Idiota" foi utilizado na antiga Atenas para se referir a quem recusava tomar parte na vida pública, alguém sem vínculos coletivos.

O "Estado Islâmico" é hoje o bulldozer desse tipo de guerra para destruir qualquer vínculo coletivo no Oriente Médio. Não é outra coisa que a ala militante do liberalismo ocidental.

[1] Spin doctors: manipuladores de informação. Normalmente são os assessores de imprensa ou de imagem dos políticos.

via paginatransversal

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Geopolítica por trás da guerra do Yemen - um front anti-iraniano

Por Mahdi Darius Nazemroaya

EUA e Reino da Arábia Saudita se incomodaram consideravelmente quando o movimento yemeni ou yemenita dos huties ou Ansar Allah (Os Partidários de Deus, em árabe) conseguiu o controle da capital de Yemen, Sanaa/Saná em setembro de 2014. O presidente yemenita Abd-Rabbuh Man S our Al-Hadi, apoiado pelos EUA, foi humilhantemente obrigado a compartilhar o poder com os huties e com a coalizão de tribos do norte de Yemen, que os tinha ajudado a penetrar em Sanaa. ALl-Hadi declarou que havia negociações para um movimento yemenita da unidade nacional e seus aliados, EUA e Arábia Saudita, trataram de usar um novo diálogo nacional e negociações mediadas para cooptar e pacificar os huties.

A verdade sobre a guerra no Yemen foi posta de pernas para baixo. A guerra e a derrota do presidente Abd-Rabbuh Man S our Al-Hadi no Yemen não são resultado de um 'golpe huti' no Yemen. É bem pelo contrário, Al Hadi foi derrotado porque, com apoio saudita e estadunidense tratou de esquecer-se dos acordos para compartilhar o poder que tinha feito e de devolver ao Yemen um regime autoritário. A derrota do presidente Al-Hadi executada pelos huties e seus aliados políticos foi uma reação inesperada diante do apoderamento do poder que Al-Hadi estava planejando com Washington e com a Casa de Saud.

Os huties e seus aliados representam um corte transversal diverso da sociedade yemenita e a maioria dos yemenitas. A aliança interior do movimento huti contra Al-Hadi inclui muçulmanos shiitas e sunitas. EUA e a Casa de Saud nunca pensaram que os huties se imporiam e derrubariam Al-Hadi do poder, mas essa reação se desenvolveu durante uma década. Com a Casa de Saud, Al-Hadi tinha se envolvido na perseguição dos huties e na manipulação de políticas tribais no Yemen, inclusive antes de ser presidente. Quando chegou a ser presidente do Yemen, ampliou os negócios e trabalhou contra a implementação dos acordos que tinha fechado mediante consenso e negociações no Diálogo Nacional do Yemen, que foi convocado depois que Ali Abdullah Saleh foi obrigado a ceder o poder em 2011.

Golpe ou contragolpe: o que passou no Yemen?

Em primeiro lugar, quando tomaram Sanaa no final de 2014, os huties rechaçaram as propostas de Al-Hadi e suas novas ofertas para um acordo formal de compartilhamento do poder, qualificando-o de personagem moralmente corrupto que em realidade tinha renegado suas promessas anteriores de compartilhar o poder político. Nesse momento, as tentativas do presidente Al-Hadi de obedecer Washington e a Casa de Saud o tinham convertido em profundamente impopular na maioria da população de Yemen. Dois meses depois, em 8 de novembro, o próprio partido do presidente Al-Hadi, o Congresso Geral Popular Yemenita, também despojou Al-Hadi de seu cargo.

Os huties finalmente deteram em 20 de janeiro o presidente Al-Hadi e ocuparam o palácio presidencial e outros edifícios do governo yemenita. Com apoio popular, um pouco mais de duas semanas depois, os huties formaram formalmente um governo de transição yemenita em 6 de fevereiro. Al-Hadi foi obrigado a renunciar. Os huties declararam em 26 de fevereiro que Al-Hadi, EUA e Arábia Saudita estavam planejando a devastação do Yemen.

A renúncia de Al-Hadi foi um revés para a política externa dos EUA. Levou a uma retirada militar e operacional da CIA e do Pentágono, que foram obrigados a retirar pessoal militar e agentes de inteligência do Yemen. Los Angeles Times informou em 25 de março, citando funcionários estadunidenses, que os huties tinham capturado numerosos documentos secretos quando ocuparam o Secretário de Segurança Nacional yemenita, que trabalhava em estreita colaboração com a CIA, o que afetou as operações de Washington no Yemen.

Al-Hadi fugiu da capital yemenita Sanna para Adén em 21 de fevereiro e declarou em 7 de março que essa cidade-porto era a capital temporal do Yemen. EUA, França, Turquia e seus aliados europeus ocidentais fecharam suas embaixadas. Pouco depois, no que foi provavelmente uma ação coordenada com EUA, Arábia Saudita, Kuwait, Bahréin, Qatar e Emirados Árabes Unidos transferiram suas embaixadas de Sanna para Adén. Al-Hadi anulou sua carta de renúncia como presidente e declarou que estava formando um governo no exílio.

Os huties e seus aliados políticos se negaram a aceitar as demandas dos EUA e da Arábia Saudita, articuladas através de Al-Hadi em Adén e por Riad, cada vez mais histérica. Como resultado, o ministro de assuntos internacionais de Al-Hadi, Riyadh Yaseen, pediu em 23 de março que Arábia Saudita e os petro-emirados árabes interviessem com suas forças armadas para impedir que os huties obtivessem o controle do espaço aéreo do Yemen. Yaseen disse ao porta-voz saudita Al-Sharq Al-Awsa que necessitava de uma campanha de bombardeio e que tinha-se que impor uma região de não-voo sobre Yemen.

Os huties deram conta que ia começar uma luta militar. Por isso os huties e seus aliados nas forças armadas yemenitas se apressaram em controlar o mais rapidamente possível a maior parte dos aeroportos e bases aéreas yemenitas, como Al-Anad. Se apressaram em neutralizar Al-Hadi e penetraram em Adén em 25 de março.

Quando os huties e seus aliados entraram em Adén Al-Hadi tinha fugido da cidade-porto yemenita. Al-Hadi reapareceu na Arábia Saudita quando a Casa de Saud começou a atacar Yemen em 26 de março. Desde Arábia Saudita, Abd-Rabbuh Man S our Al-Hadi voou então para o Egito a uma reunião da Liga Árabe para legitimar a guerra contra Yemen.

Yemen e a mutante equação estratégica no Oriente Médio

A ocupação huti de Sanaa aconteceu no mesmo período como uma série de êxitos ou vitórias regionais para o Irã, Hezbollah, Síria e o Bloco da Resistência que estes e outros protagonistas locais formam coletivamente. Na Síria, o governo conseguiu reafirmar sua posição enquanto no Iraque o movimento EI/ISIL/Daesh era obrigado a retroceder pelo Iraque com a evidente ajuda do Irã e de milícias iraquianas aliadas com Teerã.

A equação estratégica no Oriente Médio começou a mudar na medida em que ficava claro que Irã começava a ocupar uma posição central para a arquitetura e estabilidade de sua segurança. A Casa de Saud e o primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu começaram a choramingar e a queixar-se de que o Irã controlava quatro capitais regionais - Beirut, Damasco, Bagdad e Sanaa - e que tinha-se que fazer algo para deter a expansão iraniana. Como resultado da nova equação estratégica, os israelitas e a Casa de Saud se alinharam perfeitamente com o objetivo estratégico de neutralizar o Irã e seus aliados regionais. "Quando israelitas e árabes se encontram na mesma página, a gente devia prestar atenção", disse em 5 de março o embaixador israelita Ron Dermer a Fox News sobre o alinhamento de Israel com Arábia Saudita.

A campanha de medo israelita e saudita não teve resultado. Segundo a pesquisa Gallup, só 9% dos cidadãos dos EUA viam o Irã como o maior inimigo dos EUA, quando Netanyahu chegou a Washington para falar contra um acordo entre EUA e Irã.

Os objetivos geoestratégicos dos EUA e dos sauditas depois da guerra no Yemen

Enquanto a Casa de Saud considerou há tempo Yemen uma espécie de província subordinada e parte da esfera de influência de Riad, EUA quis assegurar-se de poder controlar o Bab Am-Mandeb, o Golfo de Adén e as ilhas Socotra. O Bab Al-Mandeb é um importante ponto crítico para o comércio marítimo internacional e os embarques de energia que conecta o Golfo Pérsico através do Oceano Índico com o Mar Mediterrâneo através do Mar Vermelho. É tão importante como o Canal de Suez para as vias de transporte marítimo e para o comércio entre África, Ásia e Europa.

Israel também estava preocupado porque o controle do Yemen poderia cortar o acesso de Israel ao Oceano Índico através do Mar Vermelho e impedir que seus submarinos chegassem facilmente ao Golfo Pérsico para ameaçar o Irã. Por isso o controle do Yemen foi em realidade um dos temas de discussão de Netanyahu quando falou diante do Congresso dos EUA em 3 de março, quando precisamente New York Times apresentou em 4 de março como "o pouco convincente discurso de Netanyahu diante do Congresso".

Arábia Saudita temia visivelmente que Yemen poderia chegar a se alinhar formalmente com Irã e que os eventos poderia conduzir a novas rebeliões contra a Casa de Saud na Península Arábica. EUA também estavam preocupados, mas também pensavam em termos de rivalidades globais. Impedir que o Irã, Rússia, ou China tivessem um ponto de apoio estratégico no Yemen, como meio de impedir que outras potências controlassem o Golfo de Adén e se posicionassem em Bab Al-Mandev, era uma preocupação importante para os EUA.

Acrescenta-se à importância geopolítica do Yemen na supervisão de corredores marítimos estratégicos seu arsenal de mísseis militares. Os mísseis do Yemen poderia alcançar quaisquer barcos no Golfo de Adén ou Bab Al-Mandeb. Nesse sentido, o ataque saudita contra os depósitos de mísseis estratégicos do Yemen serve tanto aos interesses dos EUA como os de Israel. O objetivo não é apenas impedir que sejam utilizados para tomar represálias contra o uso de força militar saudita, mas também impedir que estejam em disposição de um governo yemenita alinhado com Irã, Rússia ou China.

Em uma posição pública que contradiz totalmente a política síria de Riad, os sauditas ameaçaram empreender uma ação militar se os huties e seus aliados políticos não negociassem com Al-Hadi. Como resultado das ameaças sauditas, protestos estalaram em todo Yemen em 25 de março contra a Casa de Saud. Portanto, a situação se preparou para outra guerra no Oriente Médio, quando EUA, Arábia Saudita, Bahréin, os EAU, Qatar e Kwait começaram a se preparar para reinstalar Al-Hadi.

A marcha saudita rumo à guerra no Yemen e um novo front contra Irã

Apesar de tudo o que se diz sobre Arábia Saudita como potência mundial, é muito débil para enfrentar sozinha o Irã. A estratégia da Casa de Saud foi erigir ou reforçar um sistema de aliança regional para um prolongado enfrentamento contra Irã e o Bloco da Resistência. Por isso, Arábia Saudita precisa do Egito, da Turquia e do Paquistão - uma mal chamada aliança ou eixo "sunita" - para que ajudem a enfrentar o Irã e seus aliados regionais.

O príncipe herdeiro Mohammed bin Zayed bin Sultan Al Nahyan, o príncipe herdeiro do Emirado de Abu Dabi e vicecomandante supremo das forças armadas dos EAU, devia visitar Marrocos em 17 de março para falar de uma resposta militar coletiva ao Yemen por parte dos petro-emirados árabes, Marrocos, Jordânia e Egito. Em 21 de janeiro, Mohammed bin Zayed se reuniu com o rei da Arábia Saudita Salman bin Abdulaziz Al-Saud para discutir uma resposta militar ao Yemen. Isso ocorreu enquanto Al-Hadi chamada Arábia Saudita e o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) para que ajudassem mediante uma intervenção militar no Yemen. As reuniões foram seguidas por negociações sobre um novo pacto regional de segurança dos petro-emirados árabes.

Dos cinco membros do CCG, só o Sultanato de Oman se manteve distante. Oman se negou a unir-se à guerra contra o Yemen. Muscat tem relações amistosas com Teerã. Além disso os omanitas estão cansados do projeto saudita e do CCG de utilizar o sectarismo para provocar um enfrentamento contra Irã e seus aliados. A maioria dos omanitas não são muçulmanos sunitas nem shiitas; são muçulmanos ibaditas, e temem o avivamento da sedição sectária feita pela Casa de Saud e os outros petro-emirados árabes.

Os propagandistas sauditas se mobilizaram afirmando falsamente que a guerra era uma resposta à intrusão iraniana nas fronteiras da Arábia Saudita. Turquia também anunciaria seu apoio à guerra contra Yemen. No dia em que se lançou a guerra, Erdogan da Turquia afirmou que Irã estava tratando de dominar a região e que a Turquia, Arábia Saudita e o CCG se sentiam irritados.

Durante estes acontecimentos, Sisi, no Egito, declarou que a segurança de Cairo e a segurança da Arábia Saudita e dos petro-emirados árabes eram idênticas. De fato, Egito disse em 25 de março que não participaria em uma guerra no Yemen, mas no dia seguinte Cairo se somou à Arábia Saudita no ataque de Riad contra Yemen ao enviar seus jets e barcos a este país.

Do mesmo modo, o primeiro ministro paquistanês Nawaz Sharif publicou em 26 de março uma declaração dizendo que qualquer ameaça contra Arábia Saudita "provocará uma forte reação" do Paquistão. A mensagem se dirigia tacitamente contra o Irã.

O papel dos EUA e de Israel na guerra contra Yemen

Em 27 de março anunciou-se no Yemen que Israel estava ajudando Arábia Saudita no ataque contra o país árabe. "É a primeira vez que os sionistas [israelitas] realizam uma operação conjunta em colaboração com árabes", escreveu na Internet o chefe do Partido Al-Haq do Yemen, para destacar a convergência de interesses entre Arábia Saudita e Israel. A aliança israelita-saudita sobre o Yemen, não obstante, não é nova. Os israelitas ajudaram a Casa de Saud durante a Guerra Civil do Norte do Yemen que começou em 1962 financiando armas para Arábia Saudita para ajudar os realistas contra os republicanos no Norte do Yemen.

EUA também estão metidos e comandam desde longe. Enquanto trabalham para chegar a um acordo com Irã, também querem manter uma aliança contra Teerã utilizando os sauditas. O Pentágono financia o que chama de "inteligência e apoio logístico" à Casa de Saud.

Não há que equivocar-se: a guerra contra o Yemen é também a guerra de Washington. O CCG foi desencadeado contra o Yemen pelos EUA.

Desde há muito tempo se fala da formação de uma força militar pan-árabe, mas propostas para sua criação foram renovadas em 9 de março pela dócil Liga Árabe. As propostas para forças armadas árabes unidas servem os interesses estadunidenses, israelitas e sauditas. As propostas em favor de forças armadas pan-árabes foram motivadas por seus preparaticos para o retorno de A-Hadi e para enfrentar regionalmente o Irã, Síria, Hezbollah e o Bloco de Resistência.

A instabilidade no Yemen é causada não por Irã ou pelos huties, mas pela interferência estadunidense e saudita no país - desde a invasão por Arábia Saudita em 2009 aos ataques com drones dos EUA - e as décadas de apoio que Arábia Saudita financiou ao regime autoritário e impopular do Yemen.

"Linhas de batalha estão sendo determinadas no Yemen, o país mais pobre do mundo árabe e o último candidato no Oriente Médio para o fracasso do Estado. Sim, como parece cada vez mais provável, a guerra aberta estala em breve, só será piorada pela competência pela supremacia regional entre Arábia Saudita e Irã. Ambas potências mostraram seu desejo de armar grupos que consideram que podem controlar, apesar do legado que esta destrutiva rivalidade já tem causado em Síria e Iraque" afirmou a revista Foreign Policy em 6 de março.

A aliança huti com Irã: pragmatismo ou sectarismo?

Os huties não são de nenhum modo capachos do Irã. O movimento huti é um protagonista político independente que emergiu como resultado da repressão. Qualificar os huties de capachos iranianos não é empírico e ignora a história e a política do Yemen. "Se estourar uma guerra seguindo linhas sectárias, não será porque ali se estabeleceram divisões históricas no Yemen, será porque os financiadores estrangeiros da guerra inflamam divisões que antes careciam de importância", inclusive admite Foreign Policy.

Reconhece-se que dirigentes hutis rechaçaram afirmações de que aceitam ordens de Teerã. Isso não impediu que funcionários e mídias sauditas e khalijis (do Golfo) utilizassem e manipulassem as declarações de funcionários iranianos, como a comparação dos huties com os basijs do Irã; que apresentam os huties como agentes ou clientes iranianos.

Precisamente como os huties não são capachos iranianos, não existe nenhuma aliança shiita entre Teerã e eles no Yemen. Histórias que se concentram nessa narrativa sectária simplista ocultam a natureza política e as motivações do conflito no Yemen e deforma de maneira insultante a luta dos huties contra a repressão. Desde os anos 70 a Casa de Saud apoiou realmente as facções realistas no Yemen, que eram predominantemente muçulmanos shiitas.

Ademais, os muçulmanos shiitas no Yemen ou são imamitas ou duodecimanos como a maioria dos muçulmanos shiitas no Irã, na República de Azerbaijão, Líbano, Iraque, Afeganistão, Paquistão e a região do Golfo Pérsico. Além de focos de shiitas ismaelitas - que também podem ser chamados septimanos - nas governações de Saada, Haja, Amran, Am-Mahwit, Sana, Ibb e Al-Jawf a maioria dos muçulmanos shiitas no Yemen são zaiditas. Os ismaelitas no Yemen são em sua maioria membros de seitas davidianas e salomônicas do islailismo mustalita que se distanciou do grupo maior dos ismaelitas nizaritas.

A hostilidade estadunidense e saudita contra o movimento huti é o que fez com que inadvertidamente os huties se envolvessem pragmaticamente com Irã em busca de ajuda como contrapeso. Em palavras de Wall Street Journal, "militantes huties que controlam a capital yemenita estão tratando de forjar laços com Irã, Rússia e China para contrabalancear o apoio ocidental e saudita em prol do presidente deposto do país". "O governo interino dos huties enviou delegações ao Irã em busca de financiamento de combustível e à Rússia em busca de investimento em projetos energéticos, segundo os altos funcionários huties. Outra delegação planeja visitar China nas próximas semanas, disseram", informou também o Wall Street Journal em 6 de março.

Como resultado do esforço do movimento huti, Irã e Yemen anunciaram que farão voos diários entre Teerã e Sanna desde 2 de março. É uma importante linha aérea de apoio para o movimento huti.

A narrativa sectária e a carta sectária

A instabilidade no Yemen não é causada por Irã ou pelos huties, mas pela interferência estaunidense e saudita nesse país - a invasão em 2009 pela Arábia Saudita e os ataques de drones dos EUA - e as décadas de apoio que Arábia Saudita financiou ao regime autoritário e impopular no Yemen.

Yemen não é um país completamente envolvido. Além do apoio à Al-Qaeda pela Arábia Saudita e pelos EUA, não existe nenhum divisão ou tensões shiitas-sunitas. Para impedir que Yemen se torne independente, os sauditas e EUA apoiaram o sectarismo na esperança de criar uma divisão shiita-sunita no Yemen.

A diferença da falsa narrativa, as alianças do Irã no Oriente Médio não são realmente sectárias. Todos os aliados palestinos de Teerã são predominantemente muçulmanos sunitas enquanto no Iraque e na Síria, além dos governos, Irã apoia uma variedade transversal de grupos étnicos e religiosos que incluem não-árabes e cristãos. Isso inclui os predominantemente muçulmanos sunitas curdos sírios e iraquianos e a ala assíria Sutoro do Partido da União Siríaca (SUP) na Síria. No Líbano, além do Hezbollah, os iranianos também são aliados de partidos muçulmanos sunitas, drusos, e cristãos, inclusive o Movimento Patriótico Livre de Michel Aoun - que é o maior partido cristão no Líbano.

Se alguém está metido no sectarismo como política, é EUA e seus aliados nos petro-emirados. Tanto EUA como Arábia Saudita tinham metido os huties antes contra a Irmandade Muçulmana no Yemen. Além disso, durante a Guerra Fria, tanto Washington como a Casa de Saud trataram de usar os shiitas yemenitas contra os republicanos no norte do Yemen e a República Democrática Popular do Yemen no sul . EUA e Arábia Saudita iniciaram sua hostilidade contra ele quando o movimento huti demonstrou que não ia ser um cliente de Washington ou Riad.

Preparando a invasão do Yemen

Em 20 de março, atacantes suicidas atacaram as mesquitas Al-Badr e Al-Hashoosh durante asr salat (orações da tarde). Morreram mais de trezentas pessoas. Abdul Malik Al-Huti acusou EUA e Israel de apoiar os ataques terroristas e EI/ISIL/Daesh e Al-Qaeda no Yemen. Também culpou-se Arábia Saudita.

Enquanto teve silêncio em Marrocos, Jordânia, e os petro-emirados árabes, a porta-voz do Ministério de Relações Internacionais iraniana Marziyeh Afkham condenou os ataques terroristas no Yemen. De uma ou outra maneira, Síria, Iraque, Rússia, China também condenaram todos os ataques terroristas no Yemen. Para mostrar o apoio de Teerã a Yemen, dois aviões de carga iranianos com carga humanitária enviados ao Yemen e a Sociedade da Meia Lua Vermelha iraniana levou mais de cinquenta vítimas yemenitas dos ataques terroristas a hospitais dentro do Irã para tratamento médico.

O fracasso da Casa de Saud no Yemen

O movimento dos huties é o resultado das políticas da Arábia Saudita no Yemen e de seu apoio para o regime autoritário. A respeito disso, os huties são uma reação à brutalidade saudita e ao apoio da Casa de Saud ao autoritatismo yemenita. Emergiram como parte de uma rebelião que foi dirigida por Hussein Badreddin Al-Huti em 2004 contra o governo yemenita.

Os regimes yemenitas e sauditas afirmaram falsamente que os huties queriam estabelecer um imanato na Arábia como meio para satanizar o movimento. Isso, não obstante, não conseguiu repelir que este se fortalecesse. Os militares yemenitas não puderam dominá-los em 2009, o que conduziu a uma intervenção saudita, chamada Operação Terra Calcinada, lançada em 11 de agosto de 2009.

Arábia Saudita não conseguiu derrotar os huties quando enviou seus militares ao Yemen para combatê-los em 2009 e 2010. Não conseuiu obrigar o Yemen e o movimento huti a se pôr de joelhos em sinal de obediência. Quando exigiu que os huties e o governo de transição yemenita seguissem a linha saudita e forssem a Riad para negociar, foi diretamente rechaçada pelos huties e pelos Comitês Revolucionários do Yemen, porque as negociações e qualquer sistema de compartilhamento do poder apoiado pelos sauditas realmente marginariam aos huties e outrs forças políticas no Yemen. Por isso a União de Forças Populares, o próprio Congresso Geral do Povo de Al-Hadi, e o Partido Baaz de Yemen apoiaram todos a posição huti contra Arábia Saudita.

Dividindo Yemen?

Yemen viveu numerosas insurreições, intervenção militar pelos EUA e Arábia Saudita, e o fortalecimento de um movimento separatista em suas governações do sul. Os militares do Yemen se fragmentaram e existem tensões tribais. Se fala cada vez mais sobre sua transformação em um Estado árabe falido.

Em 2013, New York Times propôs que Líbia, Síria, Iraque e Yemen fossem divididos. No caso do Yemen a proposta era que voltasse a ser dividido em dois. O New York Times disse que isso poderia acontecer ou aconteceria depois de um possível referendo nas governações do sul. O New York Times também propôs que "tudo ou parte do Yemen poderia então converter-se em parte da Arábia Saudita. Quase todo o comércio saudita é por via marítima, e o acesso ao Mar Arábico diminuiria a independência do Golfo Pérsico - e os temores da capacidade do Irã de fechar o Estreito de Omuz".

Arábia Saudita e Al-Hadi agora apoiam os separatistas do sul no Yemen, que contam com o apoio de mais ou menos 10% da população. A próxima opção para EUA e Arábia Saudita seria dividir Yemen como meio para mitigar a mudança estratégica causada por uma vitória huti. Isso asseguraria que Arábia Saudita e o CCG teriam um ponto de trânsito meridional ao Oceano Índico e que EUA conservaria um ponto de apoio no Golfo de Adén.

via paginatransversal: parte 1 e 2

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Sunitas versus Shiitas: quem está por trás do conflito?

 
Nos últimos anos pudemos observar um agravamento no conflito Sunita-Shiita no Oriente Médio, que tomou forma de guerra fratricida na Síria, em ataques terroristas no Iraque e no Líbano, e protestos, agitação pública e confrontos violentos envolvendo represálias contra ativistas no Bahrain e na Arábia Saudita. O que está por trás da próxima onda de violência na região e quem está provocando uma guerra entre os islâmicos? Uma breve excursão na história de relações entre as duas principais denominações do Islã mostra que hoje não existem razões óbvias ou precondições objetivas para a guerra entre eles.

As diferenças entre os Sunitas e os Shiitas tê suas raizes no passado distante. Depois da morte do Profeta Muhammad em 632 surgiu uma disputa entre seus seguidores sobre quem deveria herdar sua autoridade política e espiritual sobre as tribos árabes. A maioria apoiou o candidato da companhia do Profeta e pai de sua esposa - Abu Bakr, que subsequentemente formou a dominação dos Sunitas, que hoje são em torno de 85% dos islâmicos. Entretanto, outros apoiaram o candidato do primo e genro do Profeta - Ali, declarando que o Profeta apontou ele como sucessor. Este grupo depois se tornou conhecido como Shiita que, em arábico, literalmente significa "seguidores de Ali". Os Sunitas venceram a disputa, e permaneceram no poder no califado árabe (islâmico) por centenas de anos, enquanto que os Shiitas permaneceram às sombras. Na história posterior de relações entre Sunitas e Shiitas não houveram sérios conflitos.

Hoje os Shiitas, divididos em pequenos movimentos (Ahmadiyya, Alawitas, Islaelitas, etc.) são em torno de 15% do número total de islâmicos. Os seguidores deste ramo do Islã são grande maioria na população iraniana, dois terços do Bahrain, mais da metade no Iraque, uma porcentagem significativa no Líbano, Azerbaijão e no Yemen.

Além do Alcorão, os Sunitas vivem de acordo com a "Sunnah" - um conjunto de regras e práticas baseadas em exemplos de vida do Profeta Muhammad. Apesar disso, os Sunitas geralmente compreendem seus textos sagrados literalmente, não deixando espaço para alegorias. Em alguns ramos do islã Sunita isso chega ao extremo. Por exemplo, durante o reinado Talibã no Afeganistão muita atenção foi prestada para o tamanho da barba dos homens, cada detalhe de vida foi estritamente regulamentado de acordo com a Sunnah.

Por causa das contradições mencionadas os Sunitas costumam acusar os Shiitas de heresia, e o último por sua vez expõe o excessivo dogmatismo da doutrina Sunita, que dá origem a vários movimentos extremistas como o Wahabismo.

A mídia ocidental está tentando convencer-nos de que o esparramamento de sangue no Oriente Médio é resultado do conflito Sunita-Shiita baseado em suas diferenças religiosas. Esta versão remove a responsabilidade do Ocidente na interferência de relações internacionais de países na região, bem como a aplicação de padrões duplos e alianças dúbias com os regimes mais reacionários e grupos radicais, incluindo os extremistas. O conflito (fomentado pelo estrangeiro) entre os Sunitas e Shiitas ameaça engolir a região no caos e violência por muitos anos. O conflito Sunita-Shiita está sendo manipulado por jogadores externos, que de tal forma realizam seus próprios interesses nacionais e corporativos (controle de recursos, militarização da região, enriquecimento dos "senhores da guerra" etc.).

Não apenas os Sunitas se opõe aos Shiitas, mas as elites políticas conectadas com o Ocidente por dúzias de vínculos econômicos, políticos, militares, financeiros e outros. Ademais, mitos sobre o "fanatismo Shiita" foram fabricados por motivos de propaganda, bem como os mitos sobre "ditaduras sangrentas dos aiatolás", "povo anti-Bashar al Assad", uma base ideológica inteiramente nova foi criada para esta "caça às bruxas". Os objetivos de longo prazo do conflito Sunita-Shiita são muito transparentes: a destruição ou enfraquecimento dos aliados do Irã na região, como o governo do Assad na Síria, bem como o "Hezbollah" no Líbano; o aumento da pressão sobre o governo da maioria Shiita no Iraque; e o isolamento do Irã no Golfo Pérsico e em toda a região.

O fundador da República Islâmica do Irã, Imam Khomeini precisamente estabeleceu: "O conflito entre os Sunitas e Shiitas é uma conspiração do Ocidente. O desacordo entre nós é financiado somente pelos inimigos do Islã. Aquele que não compreender isto - não é um Sunita nem um Shiita."

Dever-se-ia notar que o "front Sunita" contra os Shiitas é encabeçado pela Arábia Saudita e pelo Qatar (aliados regionais dos EUA). O Bahrain, Kuwait, Emirados Árabes Unidos estão também envolvidos nisto, mas em um nível menos. Quais são as razões para a boa vontade de Riyadh e seus aliados no Golfo para seguir a política tradicional "dividir e governar"?

Primeiramente, Riyadh e seus aliados não estão satisfeitos com o aumento do prestígio e influência do Irã na região e no mundo islâmico (o regime Shiita no Iraque, Alawi na Síria, o papel e importância dos Shiitas no Líbano) em geral.

Segundo, as monarquias do Golfo se amedrontaram com os eventos da "Primavera Árabe" que chocou o mundo árabe no seu núcleo e causou uma onda de protestos nos países do Golfo. A maioria dos protestos de maior escala aconteceram na Província Oriental da Arábia Saudita, que é densamente povoada por Shiitas. Apoiados pelos poderosos Sunitas, os governantes do Golfo não quiseram compartilhar poder e renda com a população Shiita e se utilizaram de métodos violentos para oprimir as demonstrações.

Os monarcas destes países acreditam que o confronto abertamente armado entre os Sunitas e Shiitas não apenas ajuda a se manter no poder, mas também os ajuda a assumir a absoluta liderança do mundo islâmico. Além disso, os monarcas não dispensam gastos na guerra e não hesitam em recrutar soldados mundo a fora e cooperar com grupos terroristas como Al-Qaeda, Jahbhat al Nusra, etc.

O contínuo conflito Sunita-Shiita não pode ser interrompido por quaisquer encontros internacionais ou conferências que servem como véu para cobrir crimes internacionais na Síria. Milhões de vidas de civis poderiam ser salvos se o Conselho de Segurança da ONU adotasse uma resolução para banir qualquer intervenção estrangeira nestes conflitos, e se os países que apoiam terrorismo forem submetidos a sanções como as que estão sendo aplicadas contra o Irã.

Via Globaldiscussion

domingo, 19 de janeiro de 2014

A verdade sobre o programa nuclear secreto de Israel

Israel andou roubando segredos nucleares e dissimuladamente fabricando bombas desde 1950. E os governos ocidentais, incluindo o Reino Unido e os EUA, fecham os olhos. Mas como podemos esperar que o Irã freie suas ambições nucleares se os israelitas não jogam limpo?

Dimona
Muito abaixo das areias desérticas, um Estado do Oriente Médio preparado para o combate constrói bombas nucleares às escondidas, usando tecnologia e materiais providenciados por poderes aliados ou roubados por redes clandestinas de agentes. É o tipo de coisa e de relatos usados para caracterizar os piores medos com relação ao programa nuclear iraniano. Na verdade, nem os EUA nem a inteligência britânica acreditam que Teerã tenha decidido construir uma bomba, e os projetos atômicas iranianos estão sob constante monitoramento internacional.

No entanto, o conto exótico da bomba escondida no deserto é verdadeiro. É apenas algo que se aplica a um outro país. Em uma façanha de subterfúgio, Israel conseguiu montar um arsenal nuclear subterrâneo - agora estimado em 80 ogivas, em par com Índia e Paquistão - e ainda testaram uma bomba a quase meio século atrás, com um mínimo de alarido internacional ou sequer consciência pública do que estava acontecendo.

Apesar do fato de que o programa nuclear israelense tem sido um segredo aberto desde um técnico descontente, Mordechai Vanunu, difundiu em 1986, a posição oficial israelense até hoje nunca confirmou ou negou sua existência.

Quando o ex-portavoz de Knesset, Avraham Burg, quebrou o tabu mês passado, declarando a posse de Israel tanto de armas nucleares como de armas químicas e descrevendo a política oficial não-divulgada como "antiquada e infantil" um grupo de direita formalmente o chamou para uma investigação policial por traição.

Enquanto isso, os governos ocidentais ajudaram com a política de "opacidade" evitando toda menção do fato. Em 2009, quando uma repórter de Washington veterana, Helen Thomas, perguntou ao Barack Obama no primeiro mês de sua presidência se ele sabia de algum país no Oriente Médio que tenha bombas nucleares, ele desviou do assunto dizendo apenas que não gostaria de "especular".

Os governos do Reino Unido seguiram esse comportamento. Perguntado na House of Lords em Novembro sobre as armas nucleares israelenses, Baroness Warsi respondeu tangenciando. "Israel não declarou um programa de armas nucleares. Nós temos discussões regulares com o governo de Israel no domínio de questões nucleares", disse a ministra. "O governo de Israel está sem dúvida nas nossas visões. Nós encorajamos Israel a participar no Tratado de Não Proliferação [NPT em inglês]".

Mas através das rachaduras na parede, mais e mais detalhes continuam a emergir de como Israel construiu suas armas nucleares contrabandeando partes e roubando tecnologia.

O conto serve como um contraponto histórico na atual luta prolongada sobre as ambições nucleares iranianas. Os paralelos não são exatos - Israrael, diferentemente do Irã, nunca assinou o Tratado de Não Proliferação de 1968, então não poderia violá-lo. Mas quase certamente quebrou um tratado banindo testes nucleares, bem como incontáveis leis nacionais e internacionais restringindo o tráfico de materiais nucleares e tecnologia.

A lista de nações que secretamente venderam a Israel material e tecnologia para a fabricação de ogivas, ou quem fechou os olhos ao seu roubo, inclui hoje os partidários mais ferrenhos contra a proliferação: EUA, França, Alemanha, Reino Unido e até mesmo a Noruega.
Mordechai Vanunu

Enquanto isso, os agentes israelenses comandam a compra de material e a tecnologia encontrada, em alguns dos mais sensíveis estabelecimentos industriais do mundo. Este ousado e incrivelmente bem sucedido anel de espionagem, conhecido por Lakam, o acrônimo hebreu para o som-inócuo de Science Laision Bureau, incluiu figuras coloridas como Arnon Milchan, um bilhonário, produtor de Hollywood e de filmes tais como Pretty Woman, LA Confidential e 12 Years a Slave, que finalmente admitiu seu papel mês passado.

"Vocês sabe o que é ser uma criança de vinte e poucos anos e seu país deixá-lo ser James Bond? Uau! A ação! Foi incrível", disse ele no documentário israelita.

A história de vida de Milchan é colorida, e diferente o bastante para ser sujeito de um sucesso que ele banca. No documentário, Robert de Niro relembra a discussão do papel de Milchan na aquisição ilícita de ogivas nucleares. "Em algum ponto eu perguntei sobre aquilo, sendo amigos, mas não de uma forma acusatória. Eu apenas gostaria de saber", disse De Niro. "E ele disse: sim, eu fiz. Israel é meu país".

Milchan não estava envergonhado sobre usar as conexões de Hollywood para ajudar sua segunda e sombria carreira. Em certo ponto, ele admitiu no documentário, ele usou a isca de uma visita ao ator Richard Dreyfuss para conseguir um cientista top dos EUA, Arthur Biehl, para se juntar ao trabalho de uma de suas companhias.

De acordo com a biografia de Milchan, feita pelos jornalistas Meir Doron e Joseph Gelman, ele foi recrutado em 1965 pelo presidente israelita, Shimon Peres, com quem ele encontrou em Tel Aviv em um bar noturno (chamado Mandy's, nomeado depois que sua própria esposa, Mandy Rice-Davis, se envolveu num escândalo de sexo). Milchan, que então comandou a companhia, nunca olhou para trás, ocupando um cargo central no programa de aquisição clandestina israelita.

Ele foi responsável por garantir tecnologia de enriquecimento de Urânio, conseguir projetos centrífugos que um executivo alemão foi subornado a extraviar em sua cozinha. Os mesmos diagramas, pertencendo ao consórcio europeu de enriquecimento de Urânio, Urenco, foram roubados em uma segunda vez por um empregado paquistanês, Abdul Qadeer Khan, que usou para encontrar seu programa de enriquecimento e para estabelecer um contrabando nuclear global, vendendo o design para Líbia, Coreia do Norte e Irã.

Por esta razão, as centrífugas israelitas são muito parecidas com as iranianas, uma convergência que permitiu aos israelitas desenvolver um vírus de computador, de codenome Stuxnet, nas suas próprias centrífugas antes de deixá-la para o Irã em 2010.

Indiscutivelmente, as façanhas de Lakam foram ainda mais ousadas que as de Khan. Em 1968, organizou o desaparecimento de um cargueiro cheio de Urânio em minério no meio do Mediterrâneo. No que ficou conhecido como o caso Plumbat, os israelitas usaram uma rede de companhias para comprar uma consignação de óxido de Urânio, conhecido como Yellowcake, em Antwerp. O Yellowcake foi concedido em tambores etiquetados por 'Plumbat', um derivado de Chumbo, e carregado em um cargueiro arrendado por uma companhia de telefone liberiana. A venda foi camuflada como transação entre companhias da Alemanha e Itália com ajuda de oficiais alemães, em troca de uma oferta israelita para ajudar os alemães com tecnologia centrífuga.

Quando o barco, o Scheersberg A, ancorou em Rotterdam, todo pessoal foi demitido sob pretexto de que o navio foi vendido e um pessoal israelita tomou seu lugar. O barco embarcou em direção ao Mediterrâneo onde, sob a guarda naval israelita, a carga foi transferida para outro barco.

Documentos britânicos e estadunidenses desclassificados ano passado também revelaram um prévio desconhecimento da aquisição israelita de mais de 100 toneladas de yellowcake da Argentina em 1963 ou 1964, sem as salvaguardas tipicamente usadas em transações nucleares para prevenir o material usado em armas.

Israel teve algumas vertigens sobre a proliferação de armas nucleares bem conhecidas e materiais, dando ao regime de apartheid sul-africano ajuda no desenvolvimento de sua própria bomba nos anos 70 por 600 toneladas de yellowcake.
Dimona, planta camuflada

O reator nuclear israelita também exigiu óxido de Deutério, também conhecido como água pesada, para moderar a reação de fissão. Para isso, Israel foi atrás da Noruega e do Reino Unido. Em 1959, Israel conseguiu comprar 20 toneladas de água pesada que a Noruega vendeu ao Reino Unido, mas foi escessivo para o programa nuclear britânico. Ambos governos suspeitaram de que o material seria usado para fabricar armamento, mas decidiram olhar de outra forma. Em documentos vistos pela BBC em 2005, oficiais britânicos argumentaram que seria "zeloso demais" impôr salvaguardas. Por sua vez, Noruega se encarregou de apenas uma visita de inspeção em 1961.

O projeto de armas nucleares israelita nunca poderia ter ficado oculto, embora, sem uma enorme contribuição da França. O país que tomou a mais ferrenha linha na contra-proliferação quando se tratou do Irã, dirigido por um senso de culpa sobre permitir a queda de Israel em 1956 no conflito de Suez, simpatia dos cientistas franco-judaicos, compartilhamento de inteligência sobre Algéria e um direcionamento para a venda de especialistas franceses e estrangeiros.

"Houve uma tendência para tentar exportar e houve um sentimento geral de apoio a Israel", contou Andre Finkelstein, ex-vice deputado n no Comissariado Francês de Energia Atômica e deputado diretor geral na Agência Internacional de Energia Atômica, a Avner Cohen, um estadunidense-israelita historiador nuclear. O primeiro reator francês foi crítico como em 1948, mas a decisão de construir armas nucleares parece ter sido tomada em 1954, depois que Pierre Mendès France fez sua primeira viagem para Washington como presidente do conselho de ministros da caótica Quarta República. Na volta ele contou a um assessor: "É exatamente como um encontro de uma quadrilha. Todo mundo põe sua arma na mesa, e se você não tiver arma você não é ninguém. Então temos que ter um programa nuclear."

Mendès France deu ordem para começar a construir bombas em dezembro de 1954. E conforme construíra seu arsenal, Paris vendeu material de assistência para outros Estados aspirantes, não apenas Israel.

"Assim foi muitos, muitos anos até que tenhamos feito exportações estúpidas, incluindo Iraque e a planta no Paquistão, o que foi uma loucura", lembrou Finkelstein em uma entrevista que pode agora ser lida em uma coleção dos papeis de Cohen em um thintank Wilson Centre em Washington. "Nós tivemos sido o país mais irresponsável na não-proliferação".

Em Dimona, engenheiros franceses resolveram ajudar Israel a construir um reator nuclear e uma planta de reprocessamento secreto ainda mais secreta capaz de separar Plutônio do combustível gasto no reator. Essa foi a real doação que o programa nuclear israelita visava na produção de armas.

No fim dos anos 50, haviam 2500 cidadãos franceses em Dimona, transformando-a de uma vila para uma cidade cosmopolita, completa com liceus franceses e estradas cheias de Renaults, e já todo empenho foi conduzido sob um grosso véu de segredo. O jornalista investigador estadunidense Symour Hersh escreveu em seu livro The Samson Option: "Trabalhadores franceses em Dimona foram proibidos de escrever diretamente a parentes e amigos na França ou em qualquer lugar, mas enviam correio a uma caixa-postal na América Latina".

Os britânicos foram mantidos fora desse laço, sendo informados em diferentes momentos que a enorme construção estava em institutos de pesquisa em pradarias desérticas e em uma planta de processo de Manganês. Os estadunidenses, também mantidos no escuro tanto por Israel como pela França, mandaram aviões espiões U2 sobre Dimona em uma tentativa de encontrar o que estavam buscando. Os israelitas admitiram possuir um reator, mas insistiram que tinha propósitos totalmente pacíficos. O combustível gasto foi enviado para a França para reprocessamento, eles diziam, ainda providenciando filmagens do que supostamente estava sendo carregado em cargueiros franceses. Durante toda a década de 60 foi negada a existência de uma planta de reprocessamento subterrânea em Dimona que produzia Plutônio para bombas.
Produtor Arnon Milchan com Bred Pitt e Angeolina Jolie

Israel recusou visitas de compostura feitas pela Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), assim no início dos anos 60 o presidente Kennedy exigiu que aceitassem inspetores estadunidenses. Físicos estadunidenses foram despachados para Dimona, mas foram atrasados desde o início. As visitas nunca foram duas vezes ao ano como combinado com Kennedy e foram sujeitas a repetidos adiamentos. Os físicos norteamericanos enviados para Dimona não foram permitidos trazer seu próprio equipamento ou coletar dados. O inspetor líder estadunidense, Floyd Culler, um especialista em extração de Plutônio, notou em suas anotações que foram novamente engessadas e pintadas paredes em uma das construções. Concluiu-se que antes de cada visita estadunidense, os israelitas construíam falsas paredes em torno dos elevadores que desciam seis andares para a planta de reprocessamento subterrânea.

Conforme mais e mais evidência de um programa de armas isralita emerge, o papel estadunidense progrediu de um joguete involuntário para cúmplice. Em 1968 o diretor da CIA, Richard Helms, contou ao presidente Johnson que Israel de fato construiu armas nucleares e que sua força aérea levou tipos a largarem eles.

A cronometragem não poderia ter sido pior. O NPT, tentado a prevenir muitos gênios nucleares de escapar das suas garrafas, compôs-se e se notícias surgissem que um dos Estados supostamente sem armas nucleares secretamente tivesse construído sua própria bomba, teria que se tornar letra morta que muitos países, especialmente árabes, recusariam a assinar.

A Casa Branca de Johnson decidiu não dizer nada, e a decisão foi formalizada em 1969 no encontro entre Richard Nixon e Golda Meir, no qual o presidente estadunidense concordou em não pressionar Israel a assinar o NPT, enquanto que o primeiro ministro israelita concordou que seu país não seria o primeiro a "introduzir" armas nucleares no Oriente Médio e não fazer nada para tornar pública sua existência.

De fato, o envolvimento dos EUA se tornou mais profundo que mero silêncio. No encontro em 1976 que teve só recentemente se tornado público conhecimento, o diretor deputado da CIA, Carl Duckett, informou uma dúzia de oficiais da Comissão de Regulamento Nuclear dos EUA que a agência suspeitou que algumas das bombas de fissão israelitas foram de urânio, roubadas diante do nariz estadunidense de uma planta de processamento na Pensilvânia.

Não apenas foi uma quantidade alarmante de material de fissão sendo perdida na companhia, Corporação de Materiais e Equipamento Nucleares (Numec), mas foi visitada por um verdadeiro agente de inteligência israelita, incluindo Rafael Eitan, descrito pela firma como ministro de defesa "química" israelita, mas, na verdade, um alto agente do Mossad da chefia de Lakam.

"Foi um choque. Todo mundo ficou de boca aberta", lembra Victor Gilinsky, que foi um dos oficiais norteamericanos informados por Duckett. "Foi um dos casos mais flagrantes de material nuclear desviado, mas as consequências pareceram tão surpreendentes para as pessoas envolvidas e para os EUA que ninguém realmente quis saber o que estava acontecendo".

A investigação foi adiada e nenhuma cobrança foi feita.

Poucos anos mais tarde, em 22 de setembro de 1979, um satélite dos EUA, Vela 6911, detectou o duplo-flash típico de um teste de arma nuclear na costa da África do Sul. Leonard Weiss, um matemático e especialista em proliferação nuclear, estava trabalhando como assessor no momento e depois tendo sido informado sobre os incidentes pelas agências de inteligência dos EUA e dos laboratórios de armas nucleares do país, ele se tornou convicto de um teste nuclear, em contravenção sobre o Tratado Limitado de Teste (Limited Test Ban Treaty).

Foi apenas depois de ambas administrações, de Carter e depois de Reagan, tentarem silenciá-lo sobre o incidente e tentarem caiar com um não-convincente painel de inquérito, que raiou sobre Weiss que foram os israelitas, e não os sul-africanos, que detonaram a bomba.

"Foi dito que isto criaria um problema de política externa muito sério para os EUA, se fosse dito que foi um teste. Alguém deixou claro que os EUA quisessem que ninguém ficasse sabendo", disse Weiss.

Fontes israelitas contaram a Hersh que o flash pego pelo satélite Vela foi o terceiro de uma série de testes dos testes nucleares da Índia Oceânica que Israel conduziu em cooperação com a África do Sul.

"Foi fodido", uma fonte lhe contou. "Houve uma tempestade e nós pensamos que bloquearia Vela, mas houve uma brecha no tempo - uma janela - e Vela se cegou pelo flash".

A política estadunidense de silêncio continua ainda hoje, ainda apesar de Israel parecer continuar a agir no mercado negro nuclear, embora em volumes reduzidos. Em um documento no mercado ilegal de material e tecnologia nuclear publicado em Outubro, o Instituto de Ciência e Segurança Internacional baseado em Washington (ISIS) notou: "Sob a pressão dos EUA nos anos 1980 e 90, Israel... decidiu amplamente parar sua procura ilícita pelo programa de armas nucleares. Hoje, há evidência que Israel pode ainda fazer procurações ocasionais ilícitas - operações ferroadas dos EUA e casos legais mostram isto".

Avner Cohen, autor de dois livros sobre bombas israelitas, disse que a política de opacidade tanto de Israel como de Washington é mantida agora por inércia. "Em nível político, ninguém quer tratar disso com medo de abrir a caixa de Pandora. Isto se tornou de muitas formas um fardo para os EUA, mas pessoas em Washington, todo caminho até Obama não irá tocar nisto, por causa do medo de se comprometer com muitas bases do entendimento Israel-EUA".

No mundo árabe e além, cresce a impaciência com o enviesado status quo nuclear. O Egito em particular ameaçou rumar ao NPT a menos que haja progresso com relação a criar uma zona livre de força nuclear no Oriente Médio. Os poderes ocidentais prometeram manter uma conferência na proposta em 2012, mas foi jogada fora, largamente no comando estadunidense, para reduzir a pressão sobre Israel a atender e declarar seu arsenal nuclear.

"De alguma maneira o kabuki vai em frente", disse Weiss. "Se é admitido que Israel tem armas nucleares ao menos você pode ter uma discussão honesta. Parece a mim ser muito difícil manter uma resolução sobre o Irã sem ser honesto sobre o assunto".

Via Theguardian