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sexta-feira, 3 de maio de 2019

O Holismo Político: O Conceito de Sistema da Quarta Teoria Política

Por Álvaro Hauschild
Comunicação à dissidência de Porto Alegre em dezembro de 2017 (via Forçasdaangústia)

Nossa comunicação tem por objetivo tornar mais clara a Quarta Teoria Política, buscando compreender como ela funciona em termos de prática política, isto é, compreender como o sistema político pensado pela QTP se organiza socialmente.
Para isto, começaremos por construir uma 1) breve introdução à QTP; 2) em seguida, nos aprofundando mais, trataremos um pouco sobre o conceito de Mitseinencontrado em Heidegger e, por fim, 3) entraremos no nosso objeto de estudo, que é o sistema holístico subjacente na QTP.

1) Introdução à Quarta Teoria Política

Ao fundar a QTP, Aleksandr Dugin busca apresentar um modelo político para substituir os modelos já existentes.
Estes modelos já existentes são a) o liberalismo (a 1ª teoria política), b) o socialismo (a 2ª teoria política) e c) o fascismo (a 3ª teoria política). Destes, só o liberalismo continua vigorando, enquanto os demais foram enterrados para nunca mais voltar.
Dugin difere estes modelos a partir da concepção de sujeito político que cada uma tem.

a) O sujeito político do liberalismo está fundamentado no indivíduo. É a função do indivíduo, enquanto átomo formador da sociedade, que determina toda gerência da sociedade. É em função dele que as normas são desenvolvidas. Não há, assim, reconhecimento de identidade ou comunidade qualquer: cada homem é um átomo, um indivíduo separado dos demais.

b) O sujeito político do socialismo é a coletividade. Não é mais o indivíduo solitário que serve de base para a gerência estatal, mas é o agrupamento geral e universal de todos os indivíduos em conjunto. Contudo, esta coletividade compreende a classe social, sobretudo a classe proletária, que deve lutar contra as demais em benefício de uma tomada de poder.

c) Por fim, o sujeito político do fascismo é a raça, ou, no caso dos nacionalismos burgueses, o cidadão, compreendido em sentido genérico.

Todas estas três teorias políticas são modernas. Estão estabelecidas sobre a concepção de sociedade civil, que não existia ainda no período medieval.
Contrapondo estas três teorias, a QTP, buscando negar a concepção de sujeito delas, estabelece um novo sujeito: o Dasein.
Dasein é um conceito do filósofo alemão Martin Heidegger, um conceito existencial, metafísico do homem. Para Heidegger, o homem não é um ser isolado do mundo nem das outras pessoas, não é um sujeito fechado em si mesmo, independente, e muito menos completo.
Para ele, o homem já nasce determinado por características que o ultrapassam e que o definem enquanto pessoa. Isto inclui genética, religião, cultura, nacionalidade, tradição familiar, contexto histórico, político e social, etc. O modo de pensarmos e de existirmos está determinado por estas características. O homem que é gaúcho não tem como se colocar no lugar de um nordestino para avaliar um objeto determinado; eles têm maneiras diferentes de enxergar as coisas. Mas nenhum está errado em si; ambos estão corretos.
Dessa forma, o homem está intrinsecamente conectado com aquilo em que ele está inserido, isto é, com sua tradição. O que ele determina vale para sua tradição, mas não vale para as outras.

Mas existem níveis distintos de identidade.

Podemos diferenciar estes níveis chamando um de a) microcósmico e outro de b) macrocósmico.

a) A identidade microcósmica é a identidade imediata do povo. Ela é a identidade subjacente de cada homem, estando no nível mais enraizado e imanente. É a identidade primeira, aquela que diz o que cada um de nós é em verdade. Por exemplo: o índio Pataxó, o caipira, o gaúcho hibérico, o teuto-brasileiro, o quilombola e assim por diante.

b) A identidade macrocósmica é uma identidade com um nível de abstração maior e tem um caráter imperial. No nosso caso aqui é o Brasil, cuja história também foi determinante para a caracterização dos povos regionais; em um nível mais abstrato, mais distante, todos pensamos como brasileiros.

Poderíamos acrescentar ainda uma nova identidade, que apesar de ser mais abstrata que a brasileira tem uma importância não apenas geopolítica, mas também étnica, e é a latino-americana.
De modo que, naquilo que compete a cada brasileiro, todos são capazes de avaliar questões objetivas de forma semelhante, pois são brasileiros, se transformaram, cada qual a seu modo, junto com o Brasil ao longo das gerações, adquirindo no nível macrocósmico também a identidade brasílica e latino-americana.
Todos estes níveis, cada um em seu lugar, são identidades enraizadas[1], porque pertencem ao homem e definem sua maneira de ser.

2) O Fundamento Coletivo do Dasein: o Dasein é um Mitsein

O sujeito da QTP é o Dasein. Este termo alemão costuma ser traduzido por “ser aí”, e designa a natureza do homem como um ser diferenciado capaz de se empenhar na busca pelo ser.
Em outras palavras, o homem é o ser capaz de tomar consciência sobre sua própria existência. A partir daí, surge a questão: mas o que é o homem? E como alcançar o objeto desta busca?
Para Heidegger, este Dasein é essencialmente Mitsein[2]; traduzindo: um ser-com. Desse modo, não há nada na natureza humana que preceda, existencialmente falando, a relação com os demais seres. Não há antes um homem e depois sua relação com os demais seres[3].
Já vimos que as três teorias políticas modernas se fundamentam no sujeito individual, considerado fechado em si mesmo, independente. Para elas, as relações sociais são acidentais, isto é, são irrelevantes para a caracterização da natureza do homem enquanto homem.
Para Heidegger, porém, e para a QTP, inspirada nele, as relações entre os homens e entre o homem e a natureza fazem parte da própria constituição existencial do homem. Desse modo, Heidegger define o homem como ser-no-mundo (In-der-Welt-sein). Este “no” quer dizer pertença: o homem pertence ao mundo, e podemos ainda concluir: o homem é filho do mundo, expressão do mundo. E todas suas características “individuais” são dadas pelo próprio mundo, pré-existindo no ser antes de se manifestar como homem.
Assim, ao se falar sobre as necessidades humanas, deve-se considerar também as necessidades do mundo, da natureza e dos outros homens. Deve-se considerar também uma história, uma pertença social (o Volk), que determinam a maneira do homem de encarar seu próprio presente e seu próprio futuro. E esta determinação envolve toda uma comunidade social, uma tradição.
Portanto, se o homem é ser-no-mundo e se ele se caracteriza, assim, por uma existência comum, compartilhada com outros que também pertencem à mesma tradição, pode-se dizer que tudo o que se pode pensar sobre o Dasein pode-se pensar também sobre a comunidade, e tudo o que se aplica ao Dasein serve também para a comunidade[4]. Pois o homem, enquanto Dasein, é um ser em comunidade com outros seres.

Heidegger distingue, assim, dois tipos de Dasein: a) o Dasein inautêntico e b) o Daseinautêntico.

a) O Dasein inautêntico é o homem médio, medíocre, esquecido de si mesmo. E “esquecido de si mesmo” quer dizer, de acordo com o que vimos até aqui, o homem não desperto para sua pertença ao mundo e à tradição. Ele é, de certo modo, a figura do indivíduo, o homem que abandonou sua identidade, por uma questão de esquecimento.

b) O Dasein autêntico, pelo contrário, é o homem que vive na Verdade. E Verdade, do grego aletheia, significa “des-esquecimento”[5], isto é, rememorar, relembrar -- recordação. É o homem que está sempre recordando sua própria natureza, que vive ativamente na comunidade a qual ele pertence, sendo quem ele é.

Pelo fato de o homem não se definir ontologicamente como um átomo, como um indivíduo apartado do mundo, mas, pelo contrário, por se definir justamente como um ser que pertence ao mundo e que pertence a uma tradição, e desse modo o mundo como um todo participar de um modo de existência complementar com o do homem, podemos enxergar neste aspecto da teoria heideggeriana, muito caro à QTP, que a maneira quarto-teórica de visualizar os sistemas metafísicos, científicos, políticos, tem um caráter genuinamente holístico.
E é sobre isto que vamos falar agora.

3) O Holismo Político: O Conceito de Sistema da Quarta Teoria Política

Para se compreender um pouco melhor como a Quarta Teoria Política concebe a estrutura política, é necessário fazermos uma breve regressão na história e na filosofia para alcançarmos os conceitos principiais.
A palavra “política” vem do grego polis, que significa cidade-Estado. Não é uma cidade, não é um Estado, mas é como se fosse um Estado em escala muito reduzida, com um centro urbano que funciona como uma instituição de unificação do Estado, onde todas as atividades direcionadas ao público, isto é, a política em sentido amplo, que inclui administração, formação intelectual, moral, religiosa e militar daquele povo. Eram “cidades” independentes em todos os sentidos, autossuficientes. Por isso elas constituem uma espécie de universo: a cidade-Estado é um universo à parte. E este é o sentido primitivo e originário do termo “política”: ser um universo, um microcosmo.
Nosso interesse aqui é buscar compreender um pouco de que modo as teorias modernas compreendem este universo e de que modo a Quarta Teoria o compreende. Porque são teorias completamente diferentes, que levam a consequências radicalmente distintas na estrutura, na organização e, assim, na administração desta estrutura.
E para compreender isto é necessário ter em mente o seguinte: em toda a história do pensamento e da política, bem como de todas as instituições subsequentes, como as ciências, o Direito etc., o que está em jogo nesta estrutura sistêmica (e metafísica) é uma tensão entre dois polos opostos: o indivíduo, de um lado, e o coletivo de outro. As disputas políticas, por essência, estão baseadas nesta tensão, pois os lados enxergam aspectos diferentes nela ou partem de interesses divergentes.

Comecemos por pensar as teorias liberais.

As teorias liberais compreendem a estrutura política de um Estado segundo o conceito de indivíduo. “Indivíduo” aqui tem o significado do átomo, isto é, um elemento independente, autossuficiente e (é importante isto aqui) fechado em si mesmo.
Ao mesmo tempo, cada um dos indivíduos tem um valor idêntico ao dos demais: não há uma personalidade individual, uma característica distintiva. Cada indivíduo é apenas uma bolinha em uma piscina de bolinhas, sendo que nessa piscina de bolinhas todas as bolas têm a mesma cor, o mesmo tamanho, a mesma densidade, etc.
Não há, em um sistema liberal, a importância da personalidade. Vale apenas a pessoa enquanto número. Isto torna o individualismo igualmente universalista, uma vez que ele nivela as diferenças ontológicas, utilizando um mesmo padrão distintivo e valorativo para todos os indivíduos.
O Estado seria então um agrupamento de indivíduos que se reúnem para organizar tarefas em conjunto[6]. Como estas tarefas não levam em consideração a personalidade da pessoa, tanto faz quem executa tal e tal função. E, deste modo, as atividades dos indivíduos se caracterizam por ser de um tipo baseado em competição individual: e o modo de fazer isso nos moldes dos Estados modernos é a especulação financeira ou o alpinismo social.
O que nos interessa aqui é que as teorias liberais dão ênfase para o indivíduo, nesta tensão entre o indivíduo e o coletivo. Vale, então, o livre-arbítrio, o desejo subjetivo e o manejo das leis por parte de cada indivíduo em benefício próprio.

Nas teorias socialistas, comunistas, a coisa é um pouco diferente, mas não muito.

A concepção de indivíduo que os socialistas têm é idêntica à dos liberais, isto é, a ideia de que cada homem é um átomo em um sistema, e que o sistema é, por definição, uma composição artificial de átomos.
Por isso a ênfase deles na sociedade civil: para fazer a revolução russa, é necessário desenvolver uma classe proletária, para levar socialismo para a Sibéria é necessário desenraizar os povos xamânicos e encaixotá-los em apartamentos, pois, segundo eles, não haveria “igualdade” de outra forma; isto é, não haveria o nivelamento individual-universal que torna cada pessoa um número em uma massa de composição homogênea.
Deste modo, se distinguindo do liberalismo, no socialismo, nas teorias “vermelhas”, não é o indivíduo em si que têm a preeminência sobre o coletivo, mas o coletivo em si. Abrindo mão da liberdade individual, o socialismo briga pela igualdade genérica de todos os átomos entre si: não é mais a bolinha na piscina que tem a liberdade de fazer o que bem quiser, mas a piscina quem lhe dá ordens para executar funções outorgadas de um centro administrativo.
No liberalismo, bem como no socialismo, o homem continua sendo apenas um número. O que muda é a tensão na polaridade: o primeiro tende a sucatear o coletivo em benefício do indivíduo, então surgem as privatizações, o descaso com o espaço público, com a ordem pública, com a saúde pública; enquanto o segundo tende a abandonar o indivíduo em benefício do coletivo, de modo que a ordem coletiva se torna abstrata e os indivíduos, que são diferentes, nivelados por baixo, para desenvolver uma igualdade genérica no interior do sistema político e social[7].

Algo semelhante pode-se falar sobre a terceira teoria política: trata-se de uma coletividade artificial e abstrata, com a diferenciação de receber um distintivo, também artificial e abstrato, como por exemplo o nacionalismo “ucraniano” e o “finlandês”, cuja nacionalidade, embora vise descrever uma característica geral para todos aqueles que se encontram no interior da “nação”, está longe de fazer o recorte adequado, pois em primeiro lugar 1) não há homogeneidade étnica em nenhum destes Estados, e em segundo 2) há maior parentesco entre etnias de certas regiões ucranianas com povos de outros países, como é o caso do leste ucraniano, que se considera definitivamente russo e ortodoxo. Assim, o homem na terceira teoria política também é apenas um número dentro de uma massa artificial e abstrata.
            Em suma, a terceira teoria política pode tender nesta polaridade tanto ao polo individual, se aproximando do liberalismo, quanto ao polo coletivo, se aproximando do socialismo. E a base por meio da qual ela se desloca no eixo polar é a unidade abstrata da nacionalidade, o ser “ucraniano”, por exemplo.

Já na Quarta Teoria Política, o conceito de sistema é completamente diferente.

A QTP se baseia no conceito de holos, que também é um termo grego e significa “o todo”. Este todo, porém, é uma síntese entre os dois polos combatentes, o indivíduo de um lado e o coletivo de outro. O conceito de holos é, assim, o modelo primitivo de organização política, é o modelo de um uni-verso, em que a unidade e a diversidade constituem dois aspectos de uma mesma realidade que, no escopo político, constitui apolis, a cidade-Estado ou organização política primitiva e originária.
Assim, o sistema político da QTP constitui um holismo.
O homem, neste sistema, não é mais considerado um indivíduo. Pois, como vimos, o indivíduo é um ser fechado em si mesmo, e o homem, pelo contrário, é um ser orgânico, cuja essência inclui o respirar, o evacuar, atividades essencialmente relacionadas com o meio “externo” ao “indivíduo”.
Assim, o homem não pode ser considerado um ser autossuficiente, fechado em si mesmo, pois morreria se o fechássemos em um saco plástico e o enviássemos ao vazio do espaço sideral, além de sua existência não fazer o menor sentido sem a vivência com o mundo “externo”. O homem vive através dos olhos, dos ouvidos e dos demais sentidos; o homem vive para ver, para ouvir, para sentir, portanto não tendo nada para ver, ouvir, sentir, sua existência deixa de ser vida, propriamente falando.
O homem, então, não mais se define por ser um átomo. Sua definição e sua essência devem incluir o universo “externo” a ele mesmo, pois ele depende, existencialmente falando, do mundo “externo”.
E o mundo “externo”, em contrapartida, também depende do homem. Inclusive a natureza depende do homem, que ao longo dos milênios evoluiu e se transformou em adaptação às atividades humanas, passando a depender ela mesma da simbiose com a atividade humana[8].
Desse modo, isto a que chamamos de “mundo externo” não mais é, estritamente falando, um mundo externo, mas um componente partícipe de um todo (holos) do qual o homem, também, faz parte.
Neste sentido, todos os elementos deste uni-verso são seres simpáticos entre si, cuja amizade e cooperação mútua é essencial para sua própria constituição enquanto elementos.
E o homem, então, não sendo mais um número, será valorizado e terá importância de acordo com sua personalidade, sua figura, isto é, sua pessoa, que é a expressão viva daquilo que ele é no corpo deste universo. A personalidade dele determina aquilo que ele é, e esta personalidade inclui características genéticas, formação cultural, história, idade, habilidades especiais, religião etc. São estes os parâmetros, também, por meio dos quais o valor e o caráter do homem são determinados.
O que isto significa, em termos políticos, podemos visualizar com alguns exemplos: enquanto no liberalismo e no socialismo é o interesse e a astúcia individual que determinará as ações do homem na sociedade, no holismo, que compõe a QTP, cada ser humano terá seu lugar natural no grande universo político, determinado por suas características pessoais.
Assim, as habilidades pessoais, por exemplo, determinarão a vocação profissional de um homem, e sua constituição étnica determinará sua terra e seu povo de pertencimento, isto é, sua pátria. Tomando mais um exemplo específico, um alemão como eu, por exemplo, tenho meu lugar no Brasil, e até aí minha pátria é brasileira, mas se avançarmos mais a fundo, veremos que minha característica é ainda mais específica que isso, porque sou alemão e pertenço à comunidade alemã, tenho uma mentalidade alemã, vivo como alemão, e neste sentido específico minha pátria é a comunidade teuto-brasileira.
Se estivéssemos dialogando de acordo com os princípios modernos, haveria contradição neste raciocínio, pois a pátria de alguém não pode ser considerada brasileira e ao mesmo tempo teutônica. Mas o holismo tem um lugar natural para tudo, tanto em níveis macrocósmicos quanto em níveis microcósmicos, de modo que sempre é possível avançar para a universalidade bem como para a particularidade, sem que incorramos em conflitos lógicos.
Voltando à profissão: não mais deve haver uma desigualdade de renda como ocorre nos sistemas modernos, dissolvendo a luta de classes ao mesmo tempo em que se resolve os motivos que gerara as lutas de classes. Entra aí também um certo tipo de distributismo econômico, que tem raízes cristãs.
Mas acontece que, de acordo com o holismo, cada uma das profissões e cada um dos trabalhadores nestas profissões determinadas, tendo sua importância particular, não apenas econômica, mas também espiritual, deverá encontrar sua dignidade, isto é, seulugar natural no sistema como um todo, de acordo com seu caráter, tanto moral quanto funcional.
Pois vejamos: nós, homens da cidade, precisamos comer. E para tanto, precisamos de agricultores, pois se agricultores não plantarem, nós não comeremos. Assim nós precisamos do povo no campo, trabalhando lá com aquilo que eles sabem fazer de melhor, tendo conhecimento e habilidade para isto.
Da mesma forma acontece com o homem do campo, que sem a cidade não terá tecnologia, não terá escolaridade, não terá indústria, não terá organização política, portanto não terá segurança, tanto interna quanto externa, através das forças armadas. Assim também o homem do campo precisa do homem da cidade[9].
No sistema holista, todos os elementos são determinados por sua função, e sua função é sua personalidade. Lembramos de novo que esta função não se reduz à econômica, mas se estende à psicológica, intelectual, política e espiritual. Há, portanto, neste sistema, um lugar para cada elemento, e não deve haver problemas tais como desemprego, altas concentrações de renda, especulação financeira, etc., pois tudo está regulamentado em função do todo, e não mais do interesse individual das partes, enquanto este todo não é mais o coletivo, pois neste coletivo tudo o que não se encaixa no conceito abstrato de indivíduo está excluído enquanto ser existente.
E todos os elementos necessitam dos demais, da mesma forma que um pé precisa de um fígado, pois se não fosse o fígado não haveria o homem a quem pertence o pé. E assim não haveria também o pé. Este é o espírito da sociedade orgânica e do sistema holístico.

Agora façamos algumas considerações com respeito às relações internacionais, ou interétnicas, de acordo com este conceito de holos.

Ultrapassado o paradigma moderno do Estado-nação, a QTP põe os olhos sobre a simpatia entre as comunidades étnicas, cada uma tendo seu lugar natural no universo[10]. Dessa forma, dispensa-se o separatismo político-econômico para a defesa de tradições regionais, pois dentro de cada Estado-nação, como são exemplos paradigmáticos muito semelhantes entre si a Rússia e o próprio Brasil, há na QTP uma autonomia maior para a regulamentação administrativa por parte de cada comunidade em particular, de modo a permitir que cada comunidade governe a si mesma de acordo com seus próprios costumes, permitindo e proibindo costumes alógenos.
Em nível internacional, os Estados-nação estão relacionados de acordo com o conceito de multipolaridade: cada Estado tem seu lugar natural no sistema do mundo, que é o uni-verso em escala macrocósmica. Há uma amizade entre Estados, uma coparticipação no universo. Isto contraria os sistemas modernos, que são por definição universalistas e unipolaristas, buscando adequar o mundo inteiro de acordo com seus sistemas abstratos e individualistas (e exemplo disto são tanto a OTAN, liberal, quanto a União Soviética, socialista).
Os Estados-nação, assim, se tornam ideologicamente vazios, tornam-se ferramentas para a defesa das comunidades étnicas. O separatismo ou o unionismo se tornam vazios de sentido em si mesmos. Separatismo e unionismo são indiferentes para a determinação e preservação dos povos, de modo autônomo. O único fator que pode alterar a balança dos povos internamente aos Estados é o interesse dos governantes destes mesmos Estados.
Mas por quê, devemos falar agora, não devemos fomentar o separatismo na América do Sul? Porque, além de ser vazio e não significar a proteção de nenhuma comunidade, prejudicará a união político-militar tão necessária em tempos de avanço da ingerência estrangeira em solo pátrio. Ao mesmo tempo, é esta união, não étnica, mas política e econômica, que será capaz de representar uma resistência às forças estrangeiras, que superam hoje o poder de qualquer Estado-nação, como é o caso de empresas como a Microsoft e a Apple[11] e a rede de bancos dos Rothschild[12], cujo poder aquisitivo é maior que muitos Estados-nação e já superam a casa dos trilhões de dólares.
Caso nos separarmos, tornar-nos-emos uma região fraca, dissolvida em conflitos e dívidas, incapaz de vencer os desafios do jogo geopolítico, que hoje acontece apenas a nível de grandes blocos econômicos. Caso separarmos, nosso destino será ser como o sul da Ásia, onde manda a pirataria escravagista de modo mais cruel, ou então, no máximo, nos tornaremos uma Meca comercial, de acordo com o Plano Andinia, e passaremos a ser escravos de cheiques e barões bilionários, senão expulsos da nossa terra e massacrados em um processo de limpeza genocida muito comum na África e no sul da Ásia[13]; mas já comum também nas nossas florestas, assaltadas por empresários que eliminam tribos indígenas inteiras com o objetivo de se apossar das terras, dos minérios.

Finalizando, o que se deve tirar desta palestra é sobretudo a diferenciação entre, de um lado, 1) a) o individualismo liberal e b) o coletivismo socialista, ambos fundamentados na polarização entre indivíduo e coletividade, e de outro 2) o holismo da QTP, que é a síntese originária de onde a polaridade foi construída historicamente por meio de análise abstrata da sociedade. Deve-se ter em mente a diferença essencial entre ambos, pois ela é fundamental para se compreender o tipo de relação política sobre a qual a QTP se baseia. É esta relação política que deve servir de princípio para os projetos políticos que se seguem da QTP.
Com o advento do século XXI, o paradigma que antes era nacional (“nacional” de Estado-nação) se tornou definitivamente geopolítico, e isto significa uma abertura no sistema moderno para uma reavaliação das relações políticas e da própria essência existencial, metafísica e espiritual do homem. Esta nova reavaliação possibilita um retorno ao princípio natural e orgânico de holos, um conceito essencialmente pré-moderno e, agora também, pós-moderno, segundo a pós-modernidade da QTP.




[1] Dugin distingue três tipos de identidade, 1) a difusa, 2) a extrema e 3) a enraizada. Apenas a última tem o caráter de uma identidade, enquanto a primeira constitui a perda de uma consciência identitária por parte dos indivíduos, que se tornam cosmopolitas, e a segunda significa uma falsa-identidade desenvolvida em laboratório, típica dos nacionalismos burgueses e da terceira teoria política. [https://legio-victrix.blogspot.com.br/2017/10/aleksandr-dugin-as-raizes-da-identidade.html?spref=fb] 28/10/2017.

[2] [http://caae.phil.cmu.edu/Cavalier/80254/Heidegger/DivisionOne/BeingWith.html] 28/10/2017

[3] Aqui podemos contrapor o pensamento heideggeriano e a QTP às teorias contratualistas, tipicamente liberais, que distinguem um estado de natureza e uma sociedade civil originada através de um contrato. Deste modo, o contratualismo se relaciona às vertentes individualistas, que concebem o indivíduo autossuficiente que forma sociedades de modo acidental, não tendo nascido já pertencente a elas.

[4] [https://paginatransversal.wordpress.com/2017/04/19/la-dimension-colectiva-del-dasein/] 28/10/2017

[5] Lethos, do grego: esquecimento.

[6] Aqui se manifesta o contratualismo nas teorias individualistas. Como para elas o indivíduo é o elemento primordial, o Estado se torna uma construção artificial que ocorre entre indivíduos.

[7] Abrindo um parêntesis: é por isso que a arquitetura soviética tende a ter este aspecto de missão astronômica no espaço sideral. É o meio que o socialismo encontrou para desenraizar todas as culturas diferenciadas e encaixotá-las dentro de um padrão único e abstrato.

[8] Há suspeitas, inclusive, de que as montanhas ao redor do mundo tenham sido fruto do trabalho humano e que, no caso do Brasil, os “acidentes” geológicos não tenham sido senão construções de impérios antigos e desaparecidos, como montanhas. Ler Crônicas de Akakor.

[9] Façamos um parêntesis: isto é assim, evidentemente, desde que passaram a existir cidades, que transformaram os princípios que caracterizam as relações humanas a partir de então.

[10] O “grande universo” astronômico, não mais a cidade-Estado enquanto universo.

[11] Só o valor de mercado de duas empresas juntas, a Microsoft e a Apple, é 1,2 trilhão de dólares, o que praticamente equivale ao PIB do Brasil, que ainda é uma das maiores economias do mundo e está em torno de 1,4 trilhão, ou pelo menos estava antes das reformas dos últimos anos. (Fonte: Notícias ao Minuto, 15/fev./2017). De 2014 para 2015, o PIB do Brasil caiu de 2,34 trilhões para 1,8 trilhão e seguirá caindo aceleradamente, enquanto o das empresas seguirá crescendo aceleradamente (Fonte: Correio Braziliense, 24/11/2015). Considerando isto, em finais de 2017, ou já em 2018, estas duas empresas terão superado em muito longe o PIB brasileiro.

[12] Que ninguém é capaz de calcular em valores financeiros, por estas acima dos limites nacionais, portanto fugir dos limites fiscais. Mas provavelmente está há muito tempo já na casa dos trilhões, com certeza superando Estados como o Brasil. [Para ler sobre a rede Rothschild: https://portal-legionario.blogspot.com.br/2017/02/seu-banco-pertence-aos-rothschild-eis.html] 28/10/2017

[13] Vale a leitura de Eduardo Velasco: A Rota da Seda, o Colar de Pérolas e a competição pelo Índico [http://europasoberana.blogspot.com.br/2013/09/a-rota-da-seda-o-colar-de-perolas-e_28.html] 29/10/2017

sábado, 5 de novembro de 2016

TSIDMZ: A Busca por Beleza, Majestade e Metafísica

por Mindaugas Peleckis

TSIDMZ significa THULESEHNSUCHT IN DER MASCHINENZEIT, isso quer dizer Sehnsucht (nostalgia) por Thule em um Tempo de Máquinas. Thule é um “espaço primordial”, provavelmente um lugar físico, mas indubitavelmente, um domínio metafísico. De acordo com a mitologia indo-europeia, os povos indo-europeus que outrora habitaram as terras da Eurásia eram descendentes de Thule, a última terra remanescente do continente Hiperbórea. De uma maneira muito breve e grosseira, podemos dizer que Thule é equivalente ao Éden bíblico. É o lugar da “perfeição” original, o lugar dos ancestrais e heróis que viveram próximos ao divino. A TSIDMZ expressa exatamente esse tipo de nostalgia de um ponto de vista pessimista, significando “ausência”, e também de um ponto de vista construtivo, significando uma nova realização. Portanto, essa nova realização deve ser alcançada em nossos tempos, “In Der Maschinenzeit”. Será possível realizar uma sociedade justa, sublime e “espiritual” na era pós-atômica? Será possível combinar a máquina com a Tradição? De acordo com a TSIDMZ uma possível resposta pode ser encontrada no Futurismo, a nível artístico e cultural, e no Socialismo, a nível político e social. Como consequência, música eletrônica e toda forma de arte “industrial” tornam-se imperativos. No que tange aos níveis social e político o Homem deve ser o mestre da máquina, e não mais um escravo ou vítima. Da mesma forma, a nível cultural o Novo Homem precisa se integrar com a máquina, que deve tornar-se parte de sua nova cultura com o objetivo de dar continuidade aos valores tradicionais com essa nova ferramenta. Como resultado, isso irá criar uma identificação artística e estética, que dará uma nova identidade apropriada ao Arbeiter, como Jünger o entendeu (o Arbeiter é o conceito de E.Jünger sobre o Novo Homem que combina técnica e visão ascética/metafísica). “A técnica é o meio pelo qual a figura do trabalhador mobiliza o mundo.” – E. Jünger. Como consequência, a TSIDMZ apreciou a ideia, o conceito e o tema eurasianos: equilíbrio social, superar todas as ideologias, uma weltanschauung metapolítica e metafísica para reconquistar a Eternidade na pós-modernidade. A TSIDMZ é parte da Associação de Artistas Eurasianos: https://www.facebook.com/EurasianArtistsAssociation. [Fonte: página da TSIDMZ no facebook]. Em minha opinião, a TSIDMZ é uma das melhores e mais interessantes bandas da atualidade: letras profundas, temas sérios, música dramática: é uma bomba que irá explodir sua mente se ela está sob o controle do Big Brother. A entrevista com o líder da banda, Tetsuo, também conhecido como Uomo D’Acciaio (ideias, música, atmosferas, amostras, distorções, efeitos) foi feita em 17 de Outubro de 2016.

Você trabalhou com uma pletora de artistas ao longo dos anos. Quais colaborações foram/são as mais interessantes e importantes pra você, e por quê?

Eu tive a chance de trabalhar com muitos artistas e amigos que eu sempre gostei e apreciei. Cada colaboração foi importante para o enriquecimento cultural e musical do som da TSIDMZ e teve uma origem e história excepcional.

Das primeiras colaborações com Lonsai Maikov, Rose Rovine e Amanti, Heiliges Licht, [distopia], Narog, etc. até as últimas com Gregorio Bardini, barbarossa Umtruk, Order Of Victory, L’Effet C’Est Moi, The Wyrm, Corazzata Valdemone, Gnomonclast, Strydwolf, Suveräna, Horologium, Porta Vittoria, Sonnenkind, Le Cose Bianche, Valerio Orlandini, Winterblood, the Serbian poet/writer Boris Nad etc, eu posso dizer com orgulho que a música sempre foi e é muito variada e em constante evolução e enriquecimento.

Você pode me dizer, resumidamente, quais são as principais ideias por detrás de sua música? Você poderia mencionar suas composições, álbuns e colaborações favoritos?

Por detrás da música da ThuleSehnsucht há a fascinação pela relação dos opostos, a descoberta do desconhecido e a busca pela beleza, majestade e metafísica.

Eu gosto de tudo que fiz ainda se em uma viagem hipotética ao passado eu quisesse melhorar ou mudar algumas coisas. Cada música, CD, compilação, trabalho avulso e colaboração possui uma história, origem, desenvolvimento e esforço único, então é difícil dizer o que eu prefiro. Tudo foi útil para o nosso crescimento.

Uma menção especial vai para Barbarossa Umtruk. Um artista francês muito prolífico, original e talentoso que eu amava antes de começar minha própria música. Ele encontrou uma alquimia de sons única e temas que me fascinaram muito e influenciaram profundamente minha abordagem pessoal à música e a alguns temas.

Por essa razão e em primeiro lugar pela amizade que estabelecemos de maneira espontânea, nós fizemos muitas músicas em colaboração e por isso ele é o único artista presente em toda a trilogia da TSIDMZ (Pax Deorum Hominumque, Ungern Von Sternberg Khan, René Guénon et la Tradition Primordiale) com duas músicas em cada álbum. Da mesma forma, eu tive a chance de estar em alguns de seus trabalhos: La Fosse De Babel, Der Talisman Des Rosenkreuzers: La Mission Secrete Du Baron Sebottendorf, Tagebuch eines Krieges (2005-2015).

O novo álbum está indo bem, mas não como os últimos três CD’s físicos. Ele é menos marcial e muito mais meditativo. Se Pax Deorum Hominumque, por exemplo, possui uma abordagem fácil, o álbum René Guénon et la Tradition Primordiale requer maior concentração e interesse sobre o assunto que eu trato em cada música. Uma boa maneira seria escutar o álbum acompanhando os textos (disponíveis através do Facebook e Bandcamp da TSIDMZ). E dali em diante minha esperança é que todos comecem uma pesquisa e um estudo de maneira profunda e pessoal, interessando-se pelos temas.

O som é mágico. Você provou isso. Porém, o que resta quando não há música?

Som é energia e Deus é pura energia (pensante) então talvez o som puro nunca irá acabar.

O que é e o que não é um som artístico?

Arte em geral deveria estar em primeiro lugar na promoção/educação da beleza, natureza e espiritualidade. As artes deveriam elevar a humanidade, deveriam proporcionar visões do todo e da eternidade e ao mesmo tempo deveriam exorcizar a realidade. Esses são os elementos menos presentes nas “artes” modernas.

Arte, nesse caso, arte musical, significa também trazer algo (em ideias, ou sons, ou em textos em um estilo específico de voz) do “mundo das ideias” platônico para esse mundo. Imitar outro artista, repetir o que já foi dito por outros e “copiar e colar” não é arte. É muito mais uma questão de ser bom ou ruim tecnicamente ou como banda cover.

O que você pensa sobre as relações entre a arte antiga e a arte de computador? Elas são compatíveis?

O computador, como toda coisa inanimada, é uma ferramenta. Uma arma não mata até que alguém a utilize para matar e o computador não mata a arte ou a música até que você o utilize para fazê-lo. Em toda coisa inanimada o que importa é qual o “espírito” que há por detrás dela. Com qual espírito, valor, princípio, visão de mundo e filosofia você utiliza o laptop, a arma, o carro, a família, música, sexo, matemática etc. Aqui se encontra a questão principal e a primeira de todas.

Ferramentas são só coisas inanimadas até que você decida como e quando usá-las. É claro que algumas ferramentas são mais perigosas que outras e requerem mais atenção e mais consciência, mas uma sociedade doente não deveria usar sequer uma colher. Tudo o que uma sociedade doente ou uma filosofia doente ou uma pessoa moralmente doente usa e faz estará errado. De maneira oposta, uma sociedade saudável ou uma pessoa saudável ou uma Weltanschauung saudável irão usar de uma maneira apropriada até mesmo o fogo. Para concluir, tudo pode ser feito (não por todos), mas depende como é feito.

O que você pensa a respeito dos milhares de projetos de bandas eletrônica, neofolk, industrial, ambient, tribal, eletroacústico, avant-guarde etc? É um tipo de tendência, ou uma inclinação em direção à músicas melhores?

Em todos os lugares e em todas as épocas da história sempre houve muitos artistas, músicos, instrumentistas e assim por diante. A única diferença é que agora com as tecnologias, internet, plataformas web e etc. é mais fácil divulgar a própria música e as performances. O que você escutava na taverna, na festa do vilarejo ou nas ruas, hoje pode ser escutado em casa através de um dispositivo, porque as tecnologias permitiram gravar o que uma vez só podia ser tocado e escutado em um evento público.

Agora nós podemos ter tudo imediatamente e a primeira consequência disso é a produção em série e desvalorização de tudo, a falta de entendimento profundo acerca do que escutamos.

O problema toca a questão da socialização e da qualidade.

Se outrora a música foi um agregador social e cultural, agora o homem pós-moderno pode isolar-se completamente de qualquer contexto social e pode escutar o que quiser no momento em que quiser (e na maioria das vezes, o que o sistema quer que você escute. É o zeitgeist! A solidão pós-moderna, consequência do extremo individualismo, a desintegração social e a falta de valores tradicionais e naturais controla mais e mais as nossas vidas. É claro que até no passado a música era tocada e escutada em solidão ou em situações muito privadas, mas o que era uma exceção ou apenas uma das muitas formas de se escutar música agora se tornou a norma.

Então nós chegamos na qualidade. O fato de que agora podemos gravar qualquer coisa que quisermos não significa que estamos indo em direção a uma música superior ou a coisas de maior qualidade. Quantidade raramente significa qualidade. Nós temos uma sobrecarga de álbuns que saturam a escuta. Muitos desses álbuns são só boas composições técnicas, repetição das estruturas habituais de grandes artistas históricos que são chamadas incorretamente de arte.

Imitação não é arte, é apreciável e legal, mas não é música ou arte superior. Ter uma atitude de “banda cover”, uma “atitude de DJ” ou possuir uma boa técnica no que tange à música não é suficiente para preencher a palavra arte. Um som original, textos originais ou músicas originais ou composições originais não são poucas, mas também não são propriedades de qualquer músico. Como eu disse, arte significa trazer algo do “Mundo das Ideias” para esse mundo; quantos dos ditos artistas fazem isso?

Então com a internet a qualidade definitivamente caiu. A internet deveria ser uma maneira de promover e começar para observar como a sua arte funciona; a pós-modernidade é um mundo líquido (dinheiro falso que não existe; o deus invisível chamado mercado que hoje governa tudo; a ideia de que tudo é permitido e não há certezas) e o mp3 sem graça e de baixa qualidade em uma plataforma web que hoje existe, mas amanhã talvez não, é outro elemento da decadente “sociedade líquida” em que vivemos. Não se tem certeza sobre nada, nada mais é qualitativo, tudo é massivo, quantitativo, plastificado, em série, sem nenhum entendimento profundo e mensurável unicamente através do dinheiro... e hoje nem o dinheiro possui um valor real; dinheiro líquido, sem ouro ou um papel correspondente, devido ao fato de que uma grande quantia de dinheiro é criada diariamente na virtualidade (com a consequente usura e especulação).

Concluindo, o primeiro passo urgente é retornar à natureza, nos tornarmos “muito humanos”, e libertarmo-nos desse mundo desumanizado e cada vez mais mecanizado. Referente às artes, um bom ponto de partida poderia ser recuperar o prazer de ler um livro físico ou escutar música em um vinil ou em um CD; na verdade, é impossível ter um controle total e uma compreensão completa de algo até que esse algo esteja somente na virtualidade ou em estado líquido.

Quando conseguirmos re-descobrir o valor de uma sociedade real-concreta que raciocina pelo bem comum, para a beleza física e metafísica e para as raízes das pessoas e identidades e não para os interesses do mercado, talvez será mais fácil iniciar um novo caminho em que a música também se incline ao melhor e em direção a ideias mais originais...

 O que mais inspira você?

Deus, beleza, majestade, eternidade, opostos, filosofia, metafísica, metapolítica, geopolítica, mitologia, religiões, tradições, identidades, pessoas, ideias e ideologias, história, arqueologia corrente e arqueologia oculta, futurismo, cinema, a relação homem-máquina, surrealismo, vida e morte, música industrial, clássica, folk, étnica, eletrônica e rock (metal).

No que você está trabalhando agora?

Está sendo planejado um novo álbum com um som novo, novas ideias e novos temas, mesmo que os anteriores ainda estejam sempre presentes de uma forma ou de outra. Além disso, o projeto está sempre ativo em suas colaborações, compilações temáticas e trabalhos separados.

O que o nome da sua banda significa para você? Que ideologia/religião/visão de mundo você segue?

Significa tudo que eu fui e ainda sou. Significa minha principal Weltanschauung. TSIDMZ é um acrônimo para ThuleSehnsucht in Der MaschinenZeit; isso quer dizer Sehnsucht (nostalgia) por Thule em Tempos de Máquinas. É uma frase que une a parte espiritual com a parte filosófica e a parte artística e musical da minha pessoa. Em poucas palavras, sou eu.

É uma frase que também foi influenciada profundamente por esta famosa frase de E. Jünger: “A técnica é o meio pelo qual a figura do trabalhador mobiliza o mundo.”.

“O Trabalhador” é o Novo Homem de E. Jünger, que combina a técnica moderna e visão ascética/metafísica; em um nível cultural esse Novo Homem precisa se integrar com a máquina, que se tornou parte de sua nova cultura, para que ele possa dar continuidade aos valores tradicionais com essa nova ferramenta.

Eu não me prendo a nenhuma definição. Nem na filosofia e nem na música. Para todo campo humano há muitos rótulos como se fossem marcas comerciais e muitas pessoas que não pensam, são monótonas, iguais em tudo (iguais de maneira inferior e não superior).

As pessoas estão cada vez mais cegas que nunca irão ver o quanto já está condicionado pelos contravalores pós-modernos e antinaturais e pela miríade de mentiras e pseudomitos modernos e pós-modernos em que vivemos. Pensar com seu próprio cérebro significa ser humilde para escutar, descobrir, ler, comparar e entender profundamente (e não com um punhado de frases encontradas nas mídias sociais) o que é totalmente oposto ao que a mídia e o presente sistema orwelliano mandaram você pensar até agora. Esse é só o primeiro ponto para começar a dizer: “Eu penso”.

A humanidade pós-moderna está no ápice da desumanização, no ápice do afastamento da natureza e da vida concreta e real.

Iluminismo, uma espécie de nova religião sem um deus transcendente (como todo materialismo, progressismo, evolucionismo, internacionalismo, ideologias de liberação, feminismo, veganismo e assim sucessivamente com todo o resto de “religiões” modernas construídas ao redor de falsas construções mentais e elementos singulares transformados em absolutos para toda realidade), realizou o primeiro passo para o afastamento de Deus (com o slogan/desculpa frequente de “oh como são ruins as religiões”... seria a bomba atômica ou todo o mal materialista e “laicista” dos últimos séculos uma consequência das religiões!?), e o último passo foi dado com a atual desconexão pós-moderna em relação à vida, à natureza, ao pensamento lógico e simplesmente de sermos humanos.

Em suma, nós podemos dizer que de um deus transcendente no centro do universo nós ganhamos o mercado no centro do universo.

A melhor solução é ter fortes princípios tradicionais e só então considerar qualquer tipo de música, qualquer filosofia e qualquer ideologia. Quando você possui princípios fortes, identitários, naturais, eternos e espirituais, quando você possui uma filosofia holística verdadeira (e não sectária como muitos modernos erroneamente chamam as “filosofias”/conhecimentos), quando você sabe que tudo possui uma origem divina ou espiritual (apenas leia Platão) e limites muito específicos impostos por princípios metafísicos (e portanto você é forçado a não fazer qualquer coisa permitida pela tecnologia ou humanos comuns) quando você entende que a matéria é limitada e o ilimitado (como é o mercado) é um contravalor antinatural, quando você entende que o bem comum é o valor mais alto em uma sociedade, quando você entende que primeiro existe a família e os povos com suas histórias/identidades próprias, únicas, específicas que precisam ser preservadas para que sobrevivam (esse sentimento deveria ser instintivo e padrão, e o fato de que a modernidade o destruiu em muitos povos, é outro sinal da completa desconexão com tudo que é natural e lógico), você também é capaz de compreender o melhor de cada situação e construir a sua “vontade de poder” / moralidade e talvez estar “além do bem e do mal”.

É claro que o mundo pós-moderno não ajuda de modo algum. O “pensamento fraco” e o pior relativismo dominam.

O Novo Homem, o “Übermensch” deve lidar com isso, é a última luta.

“Atualmente nós não estamos em guerra contra uma nação, contra um fenômeno, contra um partido ou uma ideia política, mas sim contra o surgimento de um novo e apavorante aeon, um aeon que irá varrer tradições, irá inverter valores, irá aniquilar e substituir a essência profunda, real e espiritual do ser humano com identidades falsas, baixas e demoníacas. Como consequência nós precisamos ser Futuristas: assistindo ao futuro e à técnica como uma continuação em relação ao passado e à tradição.”

TSIDMZ –ThuleSehnsucht In Der MaschinenZeit-


Obrigado

Tradução: Maurício Oltramari