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sábado, 29 de junho de 2019

Fusaro: 'Tontos de esquerda combatem fascismo inexistente e apoiam o mercado'


Diego Fusaro é um dos intelectuais mais polêmicos da Itália, uma vez que ocupa uma posição ideológica que aglutina posições conservadoras e de esquerda. É marxista e suas referências são Gramsci, Pasolini e Costanzo Preve, ao mesmo tempo que é antiglobalista e soberanista, e isso o levou a sustentar posições com as quais muitos salvinistas não estão em desacordo. Vários livros seus foram editados na Espanha, tanto por editoras ligadas à esquerda, como 'Antonio Gramsci, la pasión de estar en el mundo' (Ed. Siglo XXI) ou 'Todavía Marx' (Ed. El Viejo Topo), ou à direita, como o recém publicado 'El contragolpe' (Ed. Fides). O pensamento de Fusaro é um tanto heterodoxo, que está destinado a receber críticas de um lado e de outro, e em não poucas ocasiões foi tachado de vermelho e de fascista, como também se fez com quem o entrevistou, que acusam de branqueamento. Mas aqui assumimos com gosto este risco, porque as ideias do filósofo na moda na política italiana também merecem ser conhecidas.

PERGUNTA. Acaba de publicar 'La notte del mondo'. Explica-me, por favor, por que estamos em uma noite escura, em que ponto se cruzam Marx e Heidegger.

RESPOSTA. Meu livro 'La notte del mondo. Marx, Heidegger e il tecnocapitalismo' (UTET, 2019) é uma tentativa de raciocinar segundo as categorias de Marx e Heidegger sobre o que o próprio Heidegger, com os versos de Hölderlin, define "A noite do mundo". A noite do mundo é uma época na qual a escuridão está tão presente que já não vemos mais sequer a escuridão em si e, portanto, não somos conscientes desta escuridão. Heidegger o expressa dizendo que "é a noite da fuga dos deuses", na qual já nem sequer somos conscientes da pobreza e da miséria nas quais nos encontramos. Esta é uma situação de máxima emergência. Por sua vez, Marx nos 'Grundrisse' dizia que "o mundo moderno deixa insatisfeito, ou, se satisfaz em algo, é de modo trivial". É outra maneira de dizer que estamos efetivamente na noite do mundo, onde sequer vemos o enorme problema em que nos encontramos. No livro eu emprego as categorias de dois autores muito diferentes, como Marx e Heidegger, para tratar de expressar quais são as contradições de nosso presente em que todo o mundo calcula e ninguém pensa. No qual a razão econômica e técnica, técnico-científica, se impôs como a única razão válida e pretende substituir todas as demais.

P. Insiste que o eixo político não deve ser esquerda e direita, mas os de cima e os de baixo. E que ideologicamente devemos ser conservadores nos valores (enraizamento, lealdade, família, eticidade, pátria) e de esquerda [na economia] (emancipação, socialismo democrático, dignidade do trabalho). Essa é a forma de ser marxista hoje?

R. Sim, creio que a geografia da política atual mudou profundamente. Hoje há uma espécie de totalitarismo liberal que nos permite ser liberais de direita, liberais de esquerda, liberais de centro, sempre e quando formos liberais, sempre, portanto, esquerda e direita se convertem em duas formas diferentes de ser liberais ou, precisamente, em liberalismo político e econômico, em prática libertária nos costumes e, claro, em atlantista na esfera geopolítica. Creio que hoje devemos repensar uma recategorização da realidade política de acordo com a dicotomia alto/baixo ou a categoria elite/povo, que às vezes se utiliza como sinônimo. Isso implica que se a elite, o senhor globalista, é precisamente cosmopolita, a favor da abertura ilimitada da livre circulação, o servo, pelo contrário, deve lutar pela soberania nacional-popular como base da democracia dos direitos sociais. Hoje é necessário restabelecer o vínculo entre o Estado nacional e a revolução socialista. Este é o ponto fundamental.

P. Qual vai ser o futuro da UE? Romper-se-á? Quais opções se abririam? Acredita ser possível uma aliança dos países do norte, como Alemanha, Países Baixos, Suécia e outros e outra [aliança] dos países do sul? Como recompor-se-á a ordem internacional se a UE se tornar ainda mais fraca ou se vier a se romper?

R. Devemos ser muito claros ao dar uma definição da União Europeia. A União Europeia é a união das classes dominantes europeias contra as classes trabalhadoras e os povos da Europa. É a vitória pós-1989 de um capitalismo que se realiza completamente, dissolvendo os últimos bastiões de resistência: os Estados soberanos nacionais com o primado do político e da democracia sobre o automatismo total do tecnocapitalismo. Esta é a União Europeia. Um processo de globalização, de despolitização da economia e da imposição do interesse do capital cosmopolita contra os interesses das comunidades nacionais. Por isso, a luta contra o capitalismo em nosso continente hoje não pode deixar de ser uma luta contra a União Europeia. A tragédia é que a esquerda abandonou esta luta, na medida em que passou do internacionalismo proletário ao cosmopolitismo liberal e, portanto, deixa a luta contra a União Europeia, contra a globalização capitalista, para as forças que, muito frequentemente, não querem a emancipação humana nem a solidariedade dos trabalhadores, tratam simplesmente de reagir, olhando para um passado que já não existe.

P. Como deveriam atuar os países da Europa diante dos EUA e da China?

R. Creio que a Europa pode se salvar apenas se recuperar, por um lado, suas próprias identidades culturais e sua pluralidade estrutural e, por outro lado, se se libertar da ditadura chamada União Europeia, que é a ditadura do capital, dos mercados contra os trabalhadores e os povos, e se se libertar do jugo mortal do atlantismo de Washington. Temos que apontar para um eixo eurasiático que vá desde a Rússia de Putin até a China em função antiatlantista. Devemos nos libertar disso e mudar nosso ponto de vista.

P. Insiste que deve-se combater o globalismo, mas tampouco deve-se apoiar o nacionalismo. Qual é a opção?

R. Creio que hoje devemos ir mais além do globalismo e do nacionalismo. Afinal de contas, o globalismo não é mais que o nacionalismo estadunidense que se tornou mundo e, portanto, é uma forma de nacionalismo levado a seu máximo desenvolvimento. Creio que é necessário fazer valer, contra estes dois opostos, um modelo de internacionalismo entre Estados soberanos solidários, baseados na democracia, no socialismo e nos direitos das classes mais frágeis e, em consequências, em uma espécie de soberania internacionalista, democrática e socialista, distanciada tanto do cosmopolitismo que destrói as nações, quanto do nacionalismo que é um egoísmo pensado a nível da própria nação individual.

P. O Estado é o primado do político sobre o econômico. Por isso o mundo global quer acabar com os Estados?

R. Os Estados nacionais soberanos, na modernidade, não apenas foram os lugares do imperialismo, do nacionalismo e das guerras, como repete a ordem do discurso dominante, que quer destruir os Estados para impor o primado do capital globalista, onde os Estados se converteriam unicamente nos mordomos do capital. Esta é a visão liberal do Estado. Na verdade, os Estados nacionais soberanos também foram lugares das democracias e das conquistas salariais das classes fracas. E por essa razão que hoje o capital quer destruí-los, certamente não para evitar as guerras ou o imperialismo que, de fato, prosperam mais que nunca no marco pós-nacional. Hoje o Estado pode representar o único vetor de uma revolução opositora contra o capital mundialista, tal como demonstram perfeitamente os acontecimentos dos países bolivarianos, como Bolívia, Venezuela ou Equador que, apesar de seus limites estruturais, estão criando formas de populismo soberanista, socialista, patriótico, anti-globalista e identitário [identitário: de identidade étnica].

P. Por ideias como estas você foi chamado de fascista. Suas posturas políticas assustam mais a esquerda que a direita. Por quê? Nessa demonização, que papel desempenham os meios de comunicação e a Academia?

R. Claro, hoje em dia a categoria de 'fascismo' é usada de maneira completamente a-histórica e descontextualizada, para demonizar simplesmente ao interlocutor. Hoje quem reafirma a necessidade de controlar politicamente a economia e, portanto, reintroduzir a soberania contra a abertura cosmopolita, é vilipendiado e tachado imediatamente de 'fascista', 'vermelho-pardo' e 'estalinista'. A categoria de fascismo está, pois, completamente a-historizada, apenas serve para ocultar o verdadeiro rosto do que Pasolini já havia identificado como o verdadeiro fascismo de hoje: o da sociedade de mercado, o totalitarismo dos mercados e das bolsas de valores especulativas. Este é o verdadeiro rosto do poder hoje em dia, e muitos tontos que se intitulam de 'esquerda' lutam contra o fascismo, que já não existe, para aceitar completamente o totalitarismo do mercado. Estes últimos são os que lutam na França contra Le Pen para aceitar de bom grado Macron. Lutam contra um fascismo que já não existe para poder aceitar a nova porrada invisível da economia de mercado. E, claro, a classe intelectual, o circo midiático e o clero intelectual desempenham um papel fundamental neste processo; a tarefa da classe intelectual, acadêmica e periodística é garantir que os dominados aceitem o domínio da classe dominante ao invés de se rebelar. De modo que, como na caverna de Platão, amem suas próprias correntes e lutem contra qualquer libertador.

P. Insistiu que com uma mão nos dão direitos civis e com a outra nos cortam direitos sociais. Nisto consistem as chamadas políticas da diversidade?

R. Os chamados 'direitos civis' [LGBT, feminismo e afins] são hoje em dia, na verdade, nem mais nem menos que os direitos do 'burguês', que Marx havia descrito em 'A questão judaica'. Em outras palavras, são os direitos do consumidor, como diríamos hoje, os direitos do indivíduo que quer todos os direitos individuais que pode comprar concretamente. Estou pensando nos ventres de aluguel, por exemplo, na custódia das crianças segundo a lógica de custo do consumidor. Pois bem, hoje estamos assistindo a um processo mediante o qual o capital nos corta os direitos sociais, que são direitos vinculados ao trabalho, à vida comunitária da pólis; anula estes direitos e, em troca, aumenta os direitos do consumidor, sempre vinculados a um consumo que se leva a cabo de maneira individual, sem questionar nunca a ordem da produção e o fato de que, realmente, terminam fortalecendo o sistema capitalista ao invés de debilitá-lo.

Além disso, criam uma espécie de microconflitualidade generalizada que atua como uma arma de distração massiva e, também poderíamos dizer, como uma arma de divisão massiva permanente. Por um lado, distrai da contradição capitalista que já nem sequer se menciona, e, por outro lado, por assim dizer, divide as massas em homossexuais e heterossexuais, muçulmanos e cristãos, veganos e carnívoros, fascistas e antifascistas, etc. E enquanto isso ocorre de maneira natural, o capital deixa que as pessoas saiam às ruas pelo orgulho gay, pelos animais e por tudo, mas que não se atrevam a fechar as ruas para lutar contra a escravidão dos salários, contra a precariedade ou contra a economia capitalista? De ser assim, aí está a repressão, como aconteceu na França com os Coletes Amarelos.

P. Salienta que os laços estáveis, representados no matrimônio, se converteram hoje em revolucionários. Por quê? Como mudaram as coisas para que algo radicalmente frequente na História se converta hoje em revolucionário? Em que consiste o consumismo erótico?

R. O capitalismo atual é flexível e precarizador. Desagrega toda a comunidade humana e quer ver em todas as partes o indivíduo sem identidade e sem vínculos, o consumir que trava relações descartáveis baseadas no consumo. Por isso, o capitalismo hoje declarou a guerra ao que eu, em meu livro 'Storia e coscienza del precariato. Servi e signori della globalizzazione' (Bompiani, 2018) chamo de raízes éticas em sentido hegeliano; quer dizer, aquelas formas comunitárias de solidariedade que vão desde a família até os organismos públicos como os sindicatos, a escola, a universidade, até se completar no Estado. Tem como objetivo rompê-las para reduzir o mundo a um mercado único, como disse Alain de Benoist: a sociedade se converte em um único mercado global. Esta é a razão pela qual hoje em dia a reetização da sociedade, quer dizer, a revalorização das raízes éticas em sentido hegeliano é um gesto revolucionário.

P. Afirma que deve-se recuperar Gramsci e distanciá-lo das esquerdas liberal-libertárias que hoje dominam e que são quem mais o utilizaram ultimamente e que encarnam exatamente o que Gramsci combateu. Definiria também, por ir ao caso espanhol, a Pablo Iglesias, ou Íñigo Errejón, e a Podemos em geral, como um fenômeno cultural de glorificação do capitalismo globalizado?

R. Sim, no essencial, Gramsci é todo o oposto do que está fazendo a esquerda na Itália e em grande parte da Europa, as esquerdas já não são vermelhas, mas fúcsias, já não são a foice e o martelo, mas o arco-íris. Lutam pelo capital e não pelo trabalho, lutam pelo cosmopolitismo liberal e não pelo internacionalismo das classes trabalhadoras. O caso específico de Podemos em Espanha me parece bastante interessante, porque começou como força soberanista e socialista, mais além da direita e da esquerda, mas me parece que ultimamente está entrando cada vez mais no fronte único do partido único do capital, e é realmente uma lástima porque o partido Podemos originalmente parecia ser um partido de ruptura.

P. Que papel deve desempenhar o intelectual neste cenário?

R. Na minha opinião, o intelectual de hoje deve restabelecer o que Gramsci chamada de 'conexão sentimental com o povo-nação', quer dizer, deve voltar a conectar o povo à política, à intelectualidade mesma, para que o povo saia da passividade e se transforme em subjetividade ativa, como já está acontecendo, na medida em que o povo está se rebelando contra a elite cosmopolita. Isso ele faz votando por Brexit, votando por Trump, votando na Itália contra o referendo constitucional, na Grécia pelo referendo contra a austeridade da União Europeia. Mas o povo, disse Gramsci, deve ser 'interpretado', necessita de uma filologia viva, o povo é um texto que deve ser interpretado e não dirigido de maneira unívoca. Deve-se escutar suas necessidades, suas exigências, o que a esquerda hoje não está fazendo; a esquerda é demofóbica, quer dizer, odeia o povo, odeia o povo porque o povo lhe escapa das mãos, já não se sente representado por uma esquerda amiga do capital e dos senhores, ao invés dos trabalhadores e do povo.

P. Propõe recuperar a utilização do italiano frente ao inglês, e além disso de um italiano bem falado ou escrito. Entende isso como uma batalha cultural imprescindível. Por quê?

R. Sim, eu proponho, contra a neolíngua dos mercados que fala o inglês do 'spread',  do 'spending review', da 'austerity' e da 'governance', uma veterolíngua baseada na recuperação do italiano com toda sua riqueza, o italiano de Dante e de Maquiavel. É uma batalha cultural de resistência á globalização e a este 'genocídio cultural', como chamada Pasolini, que a globalização está levando a cabo ao destruir as culturas em nome do único modelo permitido: o consumidor de mercadorias, apátrida, pós-identitário, que fala o inglês anônimo dos mercados financeiros apátridas.

Tradução: Álvaro Hauschild

via Elconfidencial

domingo, 2 de dezembro de 2018

Alexandr Dugin: "Síria é importante para acabar com a hegemonia ocidental de destruição de países árabes"

Alexandr Dugin (nascido em Moscou, 7 de janeiro de 1962) é um dos grandes ideólogos da Rússia contemporânea. Analista político, filósofo político e historiador de religiões com estreitas conexões com o Kremlin e os militares. É um homem vinculado à alta política há anos sendo, além disso, o grande ideólogo da Quarta Teoria Política, do Neo-eurasianismo, com uma grande e crescente influência e autoridade entre o povo russo, dentro do Kremlin e, cada vez mais, fora da Rússia. Teve a graça de conceder uma entrevista para a Oltracultura.com.(Tradução: Álvaro Hauschild)
1- Quais foram os desafios internos que Rússia teve que operar, particularmente desde a chegada de Vladimir Putin ao poder depois da década dos anos noventa (a década Yeltsin) na qual a Rússia teve uma brutal crise econômica, viu-se nas mãos de oligarquias ou de países estrangeiros (Estados Unidos enviava grandes quantidades de dinheiro para a Rússia), viu-se com um gravíssimo problema na Chechênia e com grande descrédito internacional. Quais foram os desafios que Putin teve que superar e como se chegou a essa situação tão delicada e perigosa para a Rússia de aberto comprometimento com a grande superpotência internacional que são os Estados Unidos? Como a Rússia se recuperou nestes quinze anos de governo de Putin?
Dugin: Sim, este foi o momento mais difícil, mais dramático da história da Rússia atual. Quando Putin chegou ao poder, foi o momento de mudança total do curso, mas, paradoxalmente, Putin foi posto lá por Yeltsin, não veio de fora do sistema, era membro do grupo dos liberal-democratas de São Petersburgo, trabalhava com Anatoly Sobchak, que era figura simbólica do liberalismo ocidentalista demagógico russo, dos piores; interessante que Putin chegou ao poder não como a alternativa a Yeltsin, mas como o representante de seu sistema, de seu grupo. Desde os anos noventa, [este grupo] era chamado "a família" de Yeltsin, não no sentido de sua família real, natural, mas no sentido da gente, dos oligarcas que sustentavam Yeltsin.
O liberalismo, esta ocupação do país pelo Ocidente, precisamente porque nos anos noventa foi a ocupação... Gorbachov quis fazer um acordo com o Ocidente para deixar a Guerra Fria, mas Ocidente entendeu isto como uma capitulação da Rússia, e a resposta foi a expansão da OTAN, da pressão sobre a Rússia para acelerar seu término, seu fim. Brzezinski declarou abertamente que se deveria destruir totalmente a Rússia. Era a política geral do unipolarismo ocidental nos anos noventa. A elite que chegou ao poder, liberal-democrata, era uma elite pró-ocidentalista que ajudava o Ocidente com a destruição do país, eles venderam quase tudo, e Putin era um deles; é muito importante compreender, entender, o que se produziu no momento de sua chegada ao poder.
Era uma parte deste sistema. Este sistema rumava no sentido da destruição total do país, a posição era fraca, não se pôde opor em nada contra este caminho dos liberais, dos oligarcas, dos traidores, e Putin era parte deste grupo. Mas quando ele chegou ao poder, ele mudou tudo de supetão, completamente. Sendo o homem de Yeltsin desde seus primeiros passos no poder, Putin começou a seguir uma linha completamente oposta à linha de Yeltsin.
Yeltsin não pôde nem quis acabar com a guerra na Chechênia, o que ele quis era continuar colaborando com o Ocidente, e Putin transformou tudo isso imediatamente, com vontade e decisão acabou com a guerra na Chechênia, começou a reconstruir a Rússia, saindo do Fundo Monetário, dos preceitos do Banco Mundial, e começou a reafirmar, reconstruir a soberania nacional da Rússia. Nisso ele foi apoiado completamente pelo povo russo, totalmente; faltava a Putin o partido, a estrutura, a ideologia, a elite também lhe faltava; foi apenas posto pelos liberais, os oligarcas e Yeltsin mesmo, mas mudou tudo, era uma forma.
Não era a oposição que vencera as eleições; pelo contrário, era integrante do grupo de Yeltsin nos anos noventa que se revoltou, depois de chegar ao poder, contra tudo isso e, desde então, começa outra história para a Rússia. A história de Putin com o conservadorismo, a soberania nacional, o patriotismo, com o curso em geral, com a multipolaridade, com a integração do espaço pós-soviético no sistema eurasiático. Uma mudança completa e radical com respeito ao curso de Yeltsin. Putin era o oposto, mas há que compreender que Putin não mudou a elite; a elite é a mesma. É a elite liberal dos anos noventa que não pode se revelar abertamente contra Putin, mas conserva suas opiniões e ideias liberais. Putin não criou outra elite, não criou instituições para o apoio de seu decurso.
Por isso devemos considerá-lo um líder solitário, um Czar solitário, que tem o apoio do povo geral, mas da elite nas instituições não têm qualquer apoio nem mesmo estrutura, exceto talvez o exército, o círculo dos militares, do Estado profundo russo, mas no nível da elite não tem apoio.
2- Há um tema muito interessante, falando sobre os liberais na Rússia, como muitos desses oligarcas como, por exemplo, citando nomes, Abramovitch (que comprou o Chelsea, um time de futebol britânico), como Berezovsky; eles abandonam a Rússia e se refugiam no Reino Unido, assim como Ahmad Zakaev, que foi presidente da Chechênia quando foi independente e que obviamente fugiu da Rússia para o Reino Unido; e do Reino Unido quero falar porque há pouco, há apenas uma semana se difundiu uma notícia sobre uma operação do Estado profundo britânico na Europa, cuja função consistia, precisamente, em evitar através de diferentes lobbys na Europa continental (entre eles Espanha) que a influência russa fosse avançando. Por acaso estamos agora mesmo na Europa, evidenciando o caso da Ucrânia, sobre o qual falaremos depois, por acaso estamos assistindo a uma guerra entre um eixo que é o Reino Unido e os Estados Unidos, de um lado, e a Rússia por outro?
Dugin: Sim, você perguntou muitas coisas em uma só questão; para começar, falemos dos oligarcas. Putin não destruiu os oligarcas, ele apenas fez uma diferenciação, uma divisão entre os oligarcas. Uns aceitaram sua inclinação, como Abramovitch, os outros se revelaram contra Putin, como Berezovsky. Putin não é anti-oligarquista, sua política consiste na promoção dos oligarcas leais à sua inclinação, à ideia da soberania da Rússia; o reconhecimento dos valores conservadores soberanos lhes deixa viver. Os que se revelam contra esta inclinação, contra Putin e os valores que esta inclinação representa, saem do país, como Berezovsky.
Berezovsky foi assassinado, creio eu, pelos britânicos porque quis voltar à Rússia. Ele tinha saudades, pensava que tinha cometido o erro de se mostrar contra Putin, quis voltar e foi assassinado; ele tinha os contatos com os serviços secretos britânicos e americanos, e foi assassinado porque enviou uma carta a Putin com a explicação de sua saudade pela Rússia, com o reconhecimento de seus erros etc. etc., e foi assassinado por isso.
Sobre o Reino Unido agora. A Inglaterra sempre foi o inimigo geopolítico da Rússia, o ponto central do imperialismo anglosaxão, e esta tradição continua. No Reino Unido, recentemente se publicaram documentos que mostram que Reino Unido quis apresentar a Rússia como agressora, apresentá-la também como influenciadora das eleições na Catalunha para destruir a Europa, apoiando os elementos extremistas. Tudo era mentira, tudo era completamente falso e foi organizado com fakenews e propaganda pelos britânicos.
Não creio que as relações com os Estados Unidos sejam muito diferentes das relações com o Reino Unido, porque, apesar de certa simpatia entre Trump e Putin, Trump não pode sair dos limites do atlantismo e da elite americana. A elite norte-americana não deixa Trump se aproximar de Putin e ele entende isto perfeitamente, por isso [Putin] busca o apoio mais a oriente, na China, no Irã, na Turquia e outros países orientais e com alguns representantes conservadores alternativos antiglobalistas europeus de esquerda ou direita. Por isso, apesar de que Putin não faz grandes coisas para o apoio do movimento alternativo no Ocidente, creio que este movimento de esquerda e de direita vê em Putin precisamente este símbolo da luta contra a globalização, o globalismo, contra a hegemonia das elites liberais mundiais que destroem não apenas o mundo asiático, africano ou latino-americano, mas também a própria Europa.
A Europa começa pouco a pouco a se revelar, como os gilets jaunes na França atual. Putin, como o defensor da ordem multipolar, é o inimigo geopolítico do globalismo e da hegemonia americana, e representa um símbolo nesta luta. Os britânicos estão em pânico precisamente porque a autoridade de Putin cresce no mundo e na Europa. A Europa quer um líder como Putin, forte, popular, que defenda a sociedade e que luta contra os que querem debilitar as sociedades. Creio que hoje Putin seja o líder mais popular em toda a Europa; apesar das pretensões dos liberais e dos oligarcas europeus que querem demonizar Putin, ele não é um demônio, é um líder muito querido na Rússia precisamente porque representa o povo, não tanto as elites, mas o povo.
3- Sobre isso eu quis falar. Durante muitos anos na Europa os líderes se encontraram distanciados dos diferentes povos da Europa porque se encontram ao serviço de organizações internacionais, em muitos casos dentro desta ordem mundial também imposta pelo liberalismo estadunidense, falo de presidentes que seguiam diretamente as diretrizes do Banco Central Europeu, do FMI etc...o domínio dos Estados Unidos sobre a União Europeia e, agora, o fato de que Reino Unido saiu da União Europeia também levou a que os países da União Europeia se encontrem sob controle dos Estados Unidos, evita boas relações de dependência entre Rússia e a União Europeia a nível financeiro, a nível econômico, enquanto Europa necessita de recursos naturais que Rússia possui, e Rússia precisa do financiamento que a Europa tem. Essa ruptura, completamente artificial, é devido ao liberalismo vindo dos Estados Unidos, o atlantismo. Qual é a opção que a ideologia, o movimento Eurasiático, que você tem desenvolvido em seus textos para salvar estas relações entre União Europeia e Rússia, oferece?
Dugin: Sim, estou de acordo que Rússia e Europa têm todos seus interesses regionais comuns ao serem aliados, porque a Rússia contemporânea não tem mais ideologia radical comunista ou socialista, não é mais imperialista ou colonialista como nos tempos passados. A Rússia contemporânea é bastante fraca para representar perigo para a Europa.
Essa fraqueza é muito importante para compreender que Rússia não representa perigo, mas que representa a possibilidade positiva, os recursos, grande mercado para os produtos, investimentos, frandes recursos naturais para apoiar a economia europeia. Graças ao desenvolvimento das relações normais, naturais, entre a Europa contemporânea e a Rússia, que não representa mais este perigo para a Europa, lutam com esta elite liberal dos americanos, porque as elites europeias lutam contra os interesses regionais de seus povos, são não tanto antirussos, mas sobretudo antipopulares e antieuropeus estas elites, são traidores dos interesses regionais dos europeus, e por isso querem trazer mais e mais imigrantes para destruir esta classe média europeia e destruir as sociedades tradicionais e democráticas europeias, querem destruir a Europa essas elites, os governantes atuais da Europa não são europeus, não são representantes dos povos.
Macron, Merkel e todos os demais. Creio que com líderes com responsabilidade, que defendam os interesses da Europa, seria necessário um pacto comum com a Rússia, desenvolver as relações. Contra isso estão mobilizadas as forças antieuropeias e antirussas. Querem mostrar a Rússia como o perigo, como o poder autoritário e totalitário, e creio que o problema com a Ucrânia foi criado artificialmente, precisamente para destruir essa imagem (positiva da Rússia) e provocar a guerra civil dentro da Rússia. Nós somos o povo eslavo, cristão, eslavos orientais. Creio que os líderes europeus que apoiaram o Maydan, este golpe de Estado dos ultranacionalistas, ultraliberais ucranianos contra Rússia, quiseram precisamente destruir completamente as relações entre Rússia e Europa.
Sobre a ideologia, a Rússia atualmente não tem qualquer ideologia, não tem ideologia comunista, nacionalista ou liberal. O Eurasianismo, sobretudo a Quarta Teoria Política, está se desenvolvendo como a teoria política do Estado profundo ou da corrente nacional patriótica independente da Rússia contemporânea, porque no nível das elites a Rússia está na situação de confusão com muitos aspectos do liberalismo dos anos noventa, os restos do comunismo e socialismo, e não está organizada intelectualmente, mas o grupo dos patriotas desenvolveram esta ideia do eurasianismo. A teoria do mundo multipolar, a Quarta Teoria Política, fora do liberalismo, fora do comunismo e do fascismo.
(A Quarta Teoria Política) propõe superar estas teorias do mundo moderno para unir a pré-modernidade com a pós-modernidade, a fim de criar uma crítica radical da modernidade ocidentalista. A Europa precisa desta nova ideologia para sair da modernidade política, no interior da qual o liberalismo mostra sua essência niilista, sua essência suicida; porque o liberalismo, depois de vencer o comunismo e o fascismo, mostrou a essência da própria modernidade na Europa moderna, que representa, como disse Heidegger, o niilismo puro, total.
O liberalismo hoje se mostra como a ideologia totalitária que impõe os princípios da correção política como a forma necessária junto com a política de gênero ou a imigração, que não correspondem em nada aos interesses dos europeus normais, concretos. Contra esta ideologia liberal há que lutar, mas sem cair no comunismo ou no fascismo, que são duas formas superadas desta visão antiliberal. Precisamos de uma forma mais atualizada e totalmente diferente, totalmente fora do comunismo e do fascismo, porque ambos são, também, produtos da modernidade, da Europa moderna e do niilismo que operam com os sujeitos artificiais de classe, nação ou raça, que são artificialmente compostos na mesma medida em que o conceito de indivíduo, que é o conceito central do liberalismo.
Não existe, na verdade, indivíduo nem raça nem classe. Tudo isso são abstrações; existe homo, existe o Dasein heideggeriano, existe a existência pensante, a presença pensante como Heidegger dizia. Precisamos construir a Quarta Teoria Política, baseando-a nesta instância nova e ao mesmo tempo eterna.
4- Sobre esta Quarta Teoria Política, e na verdade que foi muito interessante sua resposta, eu gostaria de lhe perguntar: quais seriam as respostas desta Quarta Teoria Política para os problemas que transcorrem agora mesmo na Europa ocidental, por exemplo, respostas do Eurasianismo frente à problemática migratória que está acontecendo agora na Europa, frente aos movimentos homossexuais e feministas histriônicos que estamos encontrando desproporcionalmente belicosos, frente à questão econômica; falo de salários muito baixos, vida muito cara que cada vez mais está destruindo a classe média que, em muitos casos, se perdeu -- qual seria a resposta para estes problemas citadinos concretos que seriam resolvidos pelo Eurasianismo na Europa ou na América Latina?
Dugin: sim, para começar em ordem, primeiramente deve-se compreender que o problema é o liberalismo, o liberalismo é o mal absoluto. Todos os problemas que afetam hoje as sociedades ocidentais provêm diretamente da ideologia liberal, que traz os imigrantes, que destrói a classe média pela política liberal, que faz com que os ricos se tornem mais e mais ricos enquanto os pobres se tornem mais e mais pobres, sem pensar na justiça social, porque o liberalismo leva ideologicamente, dogmaticamente, a ideia da justiça social. Quando não há mais justiça social. Não se deve estranhar que quando aceitamos os liberais de esquerda e direita, a ambos, votamos para que não haja justiça social.
Deve-se entender que a política de gênero também é consequência direta do liberalismo, porque o liberalismo é a ideologia que insiste que devemos liberar o homem, o ser humano, de todos os vínculos com a identidade coletiva. A identidade coletiva da igreja, da nação, mas também a identidade coletiva do sexo, porque o sexo também é coletivo, identidade coletiva. Os homens e as mulheres são tais como são enquanto coletivos, não individualmente. A política de gênero é a política liberal; em breve, o último passo será o de que ser humano também é uma opção, assim como hoje é a respeito do gênero, da nação, da religião. Isso é liberalismo.
Temos o mesmo a respeito dos imigrantes; são indivíduos iguais aos demais, não há qualquer diferença entre os imigrantes europeus tradicionais, aos olhos dos liberais, porque não existe qualquer identidade coletiva (neles). Esta é a ideia dos Direitos Humanos, que é uma forma de ideologia que destrói o ser humano. É uma ideologia totalitária a dos Direitos Humanos, porque insiste sobre a identificação entre os direitos dos cidadãos e a dos não-cidadãos. Desta maneira, os liberais destroem os Estados, as nações e as identidades, destroem os povos.
O povo começa a compreender que se trata de uma forma de política completamente destrutiva e começa a se revoltar, mas não pode encontrar a ideologia correspondente para explicar e dar um apoio a esta revolução, porque a ideologia de direita, o fascismo, perdeu sua luta historicamente e é muito fácil demonizar os que estão a favor do Estado fascista e acabar com eles; a mesma coisa ocorre com os comunistas, socialistas tradicionais, uns são traidores e aceitaram ser liberais como muitas da esquerda tradicional, e os outros são marginalizados como os stalinistas etc. etc.
A esquerda anticapitalista e a direita conservadora perderam a possibilidade de estarem presentes na estrutura política, e não podemos, nem devemos, salvá-los. A Quarta Teoria Política propõe lutar contra o liberalismo sem se apoiar no fascismo ou no comunismo. Como salvar a situação? Por exemplo, deve-se mudar o poder na Europa, deve-se mudar as elites que estão contra o povo, para que o poder seja tomado por um governo popular, como na Itália.
A Itália é um exemplo. Se a elite não quer sair, deve-se organizar os protestos e as revoluções como na França hoje, com os gilets jaunes, mas é muito importante que a exemplo do êxito ocorrido na Itália, a revolução popular dos gilets jaunes na França não seja nem de direita nem de esquerda. O governo italiano está criado com os populistas de direita e os populistas de esquerda, a fim de criar o populismo integral; os gilets jaunes também não são de esquerda ou de direita, são os representantes do povo. A Quarta Teoria Política quer dar o apoio ideológico, a doutrina ideológica, para que o povo se revolte contra as elites; tudo deve ser mudado, todo este dogmatismo liberal, em todos os aspectos, na economia, na política cultural, na política de gênero, mas não deve ser o retorno para trás, e sim o passo em direção ao futuro.
Podemos imaginar a vida depois do liberalismo, depois dos liberais, depois do fim do dogmatismo e do totalitarismo contemporâneo. Podemos encontrar respostas fáceis para salvar a situação, porque a raiz do problema está precisamente no liberalismo. O liberalismo deve ser aniquilado completamente, os liberais não porque não são responsáveis. Precisamos lutar contra a ideologia, contra a ideia, mais que contra a pessoa; não deve ser brutal, deve ser a mudança ideológica e política acima de tudo, e só depois podemos salvar o problema de quem deve governar, não as identidades dos políticos, dos grupos ou partidos, mas as ideias. Precisamos começar com as ideias e mudar o idealismo.
Somente depois poderemos salvar os problemas, quando os liberais deixarem de estar em seus cargos; enquanto nada puder ser mudado, nada absolutamente, este sistema não tem a possibilidade de evolução. Insistirá sobre seus princípios, imigração ilimitada, política de gênero mais extremista, o enriquecimento dos mais ricos até o momento último da catástrofe; esta elite catastrófica leva a Europa ao abismo; para salvar a Europa desta situação devemos destruir o liberalismo, não os ideais, mas a ideologia e a dogmática.
Com isso, também, devemos entender que as raízes desta situação está na modernidade política europeia, o modernismo; a modernidade que destruiu os vínculos com a tradição, o sagrado, a identidade profunda europeia era o começo do fim.
5 De fato, temos visto, durante um tempo, tentativas por parte de diferentes organizações internacionais vinculadas a serviços secretos ocidentais de introduzir esta ideologia na Rússia com a mão das famosas Pussy Riot, por um lado, FEMEN por outro. De fato, FEMEN foi um dos elementos desestabilizadores nos protestos contra Viktor Yanukovitch. Em chave geopolítica, como poderíamos ler a situação na Ucrânia, a ruptura da Ucrânia, a aparição do Estado da Novorrússia, por um lado, e, por outro, a reintegração da Crimeia ao território da Federação Russa, as relações diplomáticas e de inteligência entre Rússia e Europa, isto é, entre Quarta Teoria Política e liberalismo?
Dugin: Na Rússia, os que se opõem a Putin diretamente, como o Pussy Riot ou outros, não representam o perigo, não são perigosos, são muito pouco conhecidos e sua importância é exagerada demais no Ocidente, são nada. Pussy Riot não representa coisa alguma. Neste sentido, nós chamamos isto de quinta coluna e não representa perigo; um perigo maior representa a sexta coluna, que são os liberais que estão em torno de Putin e que não compartilham de seus princípios, seu conservadorismo ou a ideia da soberania. Eles calcularam que não é possível se voltar contra ele diretamente, sem Putin não é possível conservar sua posição, por conformismo são leais, porém são os representantes da rede ocidentalista-liberal pró-atlantista e representa mais perigo do que a quinta coluna.
A quinta coluna não representa tanto perigo, já a sexta sim é perigosa de verdade. Contudo, mais perigosa é a forma geopolítica. Por exemplo, o fato de que temos vencido a situação na Chechênia não apenas com armas, mas que propusemos aos chechenos uma lealdade à Rússia e, ao mesmo tempo, permitimos que conservassem e desenvolvessem sua própria identidade islâmica e étnica etc. etc.
Kadyrov é leal a Putin, não por sua servidão, mas, pelo contrário, pelo cálculo lógico de que Putin é a única possibilidade de assegurar a independência e a identidade dos chechenos, e porque o Ocidente nunca poderia assegurar o mesmo porque está contra a religião, a tradição, a etnicidade e a cultura tradicional. O Ocidente utiliza as minorias para destruir as grandes identidades, mas depois de destruir as grandes identidades, as grandes nações, acabará com as pequenas, após usar os pequenos nacionalismos contra os grandes nacionalismos. Os chechenos entenderam isto perfeitamente, são leais baseando-se no entendimento de seu futuro, porque são tradicionalistas, são muçulmanos, querem conservar sua identidade, e a Rússia, tradicional, eurasianista, permite esta possibilidade.
O que acontece na Ucrânia? Na Ucrânia, a situação é muito difícil, porque, depois do Maydan, começou a guerra civil entre os povos irmãos, que são dois ramos do mesmo povo dos eslavos orientais, pequenos russos e grandes russos. É catastrófica a tragédia organizada pelos ocidentais atlantistas e os elementos extremistas da Ucrânia ocidental; depois da reunificação com a Crimeia e a declaração de independência das repúblicas do Donbass, a situação é muito, muito difícil. Não é a vitória do eurasianismo, a Quarta Teoria Política, não, de modo algum; é uma tragédia, porque a maioria da Ucrânia permaneceu sob o controle da junta de Poroshenko, dos pró-ocidentalistas liberais e neonazistas ucranianos, e a maioria da população sofre esta pressão de Kiev.
Nós libertamos uma parte pequena da Ucrânia, mas seria muito melhor não libertar, e sim ter uma Ucrânia integral, inteira e unificada, porém neutra ou aliada da Rússia. Não obstante, depois do Maydan não era possível contar com sua neutralidade ou amizade, e era necessário realizar os passos que Putin fez, embora não fosse o ideal. Devo reconhecer que teve muitos erros por parte da própria Rússia, que não entendia a importância da Ucrânia e que não desenvolvera uma política efetiva para salvar a Ucrânia como um país neutro ou irmão. A situação de hoje não é boa para os dois povos, porque não corresponde à visão natural, nem é harmônica, porque a Ucrânia está separada internamente.
Estão os que aceitam a junta e os que estão contra a junta ucraniana, que hoje declarou o estado de emergência e a militarização plena em sua guerra contra a Rússia. Mas é uma provocação, porque Poroshenko perde suas posições e não há qualquer possibilidade de ser reeleito, por isso precisa de um estado de emergência para salvar sua posição política; mas, apesar disso, nada está de verdade decidido na Ucrânia, a situação catastrófica está congelada, mas não está, ainda resolvida.
6- O papel de Lukashenko foi muito interessante nas conversações entre Rússia e Ucrânia. Mas me chama muito a atenção uma coisa, e eu gostaria de perguntar sobre isso, e é o fato de que com Crimeia, a Rússia assegura uma posição de superioridade no Mar Negro, porém, realmente, também Sebastopol é o início de uma rota muito interessante que termina em Tartous, na Síria. Estaríamos dizendo que Sebastopol era necessário para assegurar o interesse russo tanto no Mar Negro quanto no no leste do Mediterrâneo, e para poder ter uma rota segura para a Síria, a fim de ajudar o presidente legítimo Bashar al Assad dentro da guerra que está lutando contra os mercenários e grupos terroristas pagos pelo Ocidente?
Dugin: Sim, acredito precisamente nisto, e que a Síria era necessária não apenas para assegurar os interesses estratégicos da Rússia, mas também para acabar com esta hegemonia ocidental de destruição de países árabes; era necessária para poder fim ao unipolarismo, porque os americanos destruíram Afeganistão, destruíram Iraque, sem quaisquer explicações, e depois interviram na Líbia e mataram o presidente Gaddafi, depois começaram a fazer o mesmo no Egito e na Síria.
Era necessário, era absolutamente necessário acabar com isso e demonstra que existem outras potências que não estão de acordo com estas maneiras de intervir onde bem entenderem, matando líderes, querendo impor sua visão vem perguntar as população, criando massas de refugiados, imigrantes, criando o caos, governar com o caos. Rússia interveio na Síria não tanto para assegurar seus interesses nacionais egoístas, mas para pôr fim ao caos organizado ou manipulado que os Estados Unidos e o Ocidente, os liberais globalistas usaram em toda parte com as revoluções coloridas, com as redes apoiadas pelo fanático, totalitário, maníaco, terrorista Soros, cuja organização Open Society é criminosa. Ele apoiou feitos ilegais e se trata de uma organização terrorista, sendo reconhecida em alguns países como organização terrorista, George Soros é mais perigoso que Bin Laden.
É o perigo à estabilidade dos países, à liberdade, à lei, e deve ser julgado. Deve ser preso e julgado por seus feitos, seu apoio ao terror e às mortes da gente, milhões de pessoas que são vítimas das revoluções organizadas com seu apoio, suas redes, seus grupos de influência e financiados por este grande capitalista, é um criminoso número um.
Isso acontece na história: se começas a lutar contra Hitler, pouco a pouco surge um Hitler em ti mesmo. Esta velha história da transformação do herói que luta contra o dragão e se converte ele mesmo em dragão. Soros é a demonstração desta forma de loucura, porque seu antifascismo e anticomunismo pouco a pouco se tornaram fascistas e comunistas, totalitário. Sua luta contra o totalitarismo é totalitária e se transformou na nova forma de totalitarismo. Por isso creio que nossa intervenção na Síria foi a intervenção contra esta forma de governo pelo caos imposta aos países árabes pelo Ocidente.
E era o caminho necessário para a afirmação da ordem multipolar das coisas, e Putin é a forma e a garantia não tanto para o presidente Assad, mas também para todos os povos árabes para elegerem. Podem optar pelos Estados Unidos, pela Rússia ou pela China, com isso obtêm a liberdade de escolha, creio que a Rússia se torna mais e mais o polo mais atraente, simpático quase a todos os grupos no mundo. Os árabes eu vejo, mais e mais, os representantes dos países muçulmanos que vêm para Moscou para encontrar com os representantes russos e estabelecer contatos conosco, e estão muito interessados na Quarta Teoria Política, no Eurasianismo e na Teoria do Mundo Multipolar.
7- De fato, isso explica as boas relações entre a Rússia e outro Estado do Oriente Médio, como o Irã. É mais para os muçulmanos em geral o exemplo da Chechênia como comentávamos há pouco, o respeito que se oferece desde Moscou em relação a Grozny, e como Ramzan Kadyrov responde a este respeito com uma lealdade total. Pois também está penetrando nos países islâmicos, porque, obviamente, a diplomacia russa é muito mais sofisticada, muito menos agressiva que a norte-americana ou liberal, mas, ao mesmo tempo, consegue muitas más coisas; ganha a adesão destes países e, para is terminando, gostaria de perguntar sobre George Soros e sua implicação nesta onde de imigrantes que atravessaram os balcãs desde a Turquia e chegaram no centro da Europa, falamos de entre um e dois milhões de pessoas. Como Soros instrumentalizou este problema dos refugiados e como ele e certos serviços de inteligência penetraram em países europeus e nos submeteram a seus planos de introdução destes refugiados que vêm de fora da União Europeia?
Dugin: Seria, a meu ver, um erro identificar gentes como George Soros como estando a favor do islã e que desejam desenvolver ou fortalecer a influência muçulmana na Europa. Soros é o inimigo jurado de todas as religiões e tradições, dos valores verticais transcendentes do cristianismo, do islã, mas também do judaísmo, porque Soros está muito mal visto em Israel também.
Soros é um fanático dogmático do liberalismo que quer destruir todas as identidades coletivas, todas. Precisamente o livro que é mais caro a Soros é o livro de Karl Popper, que Soros considera seu mestre, que se chama "A Sociedade Aberta e seus Inimigos"; os inimigos da sociedade aberta é a gente que tem religião, pátria, identidade, consciência de classe, nação, valores tradicionais. Todos são representantes para esta ideia do liberalismo radical extremista, eles são os inimigos.
Para destruir a Europa com os valores tradicionais e sua identidade, Soros quer, praticamente, organizar esta corrente de imigração artificial para destruir a identidade europeia, mas com os imigrantes, que representam outras sociedades tradicionais religiosas como islã e outras tradições. Os curdos tradicionalistas, e tenho visitado o Curdistão, são profundamente tradicionalistas, mas quando chegam na Europa, os curdos, afegãos, árabes, africanos, sírios, todos, todos perdem sua identidade e começam a se dissolver em sociedade pós-moderna, liberal, de gênero, perdem sua religião ou transformam esta religião na forma radical, na caricatura do islã.
Porque o islã, sem o ambiente cultural oriental, se transforma em uma caricatura, um simulacro. Precisamente esta é a ideia de Soros e suas redes, destruir ambas as identidades. Destruir a identidade da sociedade europeia com os imigrantes de identidades opostas ou diferentes, e assim também destruir a identidade dos povos tradicionais do Oriente, como muçulmanos principalmente, ou ainda africanos, com esta confusão na sociedade pós-moderna europeia. Depois de voltar da Europa para seus países, os imigrantes levam com eles também os aspectos desta pós-modernidade que destrói sua identidade. Soros quer destruir todas as sociedades tradicionais, todas as identidades coletivas, porque a identidade coletiva é o inimigo maior da sociedade aberta.
É seu fanatismo, mas Soros é muito forte que representa parte do governo mundial, sua força não é tanto seu dinheiro, mas seus princípios liberais. O liberalismo é uma ideologia criminosa, e Soros é um dos manipuladores, por detrás dele estão Rothschild, Rockefeller, os grandes monopólios globais, o governo mundial que em sua campanha eleitoral Trump declarou que esta era a coisa mais poderosa, maior que o presidente dos Estados Unidos. A organização é mais forte que os Estados Unidos, seu exército... sua estrutura é mundial, a seita dos globalistas, e Soros é um dentre os quais controlam toda a terra atualmente.
Por isso têm também relações com os serviços secretos, governos e chefes dos Estados que são seus escravos. Macron foi posto por Rothschild, Macron é um algoritmo. O homem é um servo, uma forma de ordenador, é virtual, criado por gente como Rothschild e Soros, por isso a maioria dos deputados europeus estão pagos por Soros, para promover a agenda de destruição das identidades coletivas, por isso é muito perigoso.
Os povos não são livres até o momento em que este governo mundial caia, precisamos lutar todos contra este governo em todos os países. Temos o governo italiano, temos na Hungria a Orban, temos Vladimir Putin com o apoio do povo russo, temos Irã, temos em novo curso Erdogan, temos a grande China que representa a potência, a segunda economia do mundo, que rechaça e nega esta hegemonia unipolar, este globalismo ocidental. Temos Trump, Bannon, temos a revolução da América profunda que se mostrou nas eleições de Trump, temos muito, mas não devemos subestimar sua força atual.
Os grupos do Soros são muito poderosos, podem influenciar os governos. Tenho esperança de que um dia na Espanha também apareça a frente populista comum entre a direita populista e a esquerda populista, mas precisará superar o antifascismo e o anticomunismo, porque servem aos liberais para dividir entre os populistas de direita e de esquerda, portanto em luta comum contra os liberais, os populistas podem ter vitória.
8- Para ir terminando, por exemplo, desde a frente liberal, desde a União Europeia, existe uma tendência de alarmar a população sobre o papel da Rússia, sobre a infiltração da Rússia na U.E., o papel da Rússia no movimento de extrema direita, movimentos de extrema esquerda, no nacionalismo catalão etc...., mas quando nos atemos aos fatos, vemos que o peso dos lobbys em Bruxelas recai sobre os Estados Unidos, apenas Rússia tem presença em Bruxelas ou Londres. Temos que ver, por exemplo, que a União Europeia está fagocitada pela CIA e pelo MI6. Ao mesmo tempo, qual é a maneira que a Rússia terá de aumentar sua presença na Europa Ocidental? por exemplo, temos o canal Russia Today, mas essa presença da Rússia aumentando na Europa Ocidental não pode fazer com que os liberais busquem uma guerra com a Rússia, que estão desejando-a, atendendo aos fatos que estamos vendo com a expansão da OTAN em direção a leste, a presença da OTAN na Estônia, Letônia e Lituânia e a situação na Ucrânia?
Dugin: Sim, é tradicional para os criminosos dizer que as vítimas são os criminosos eles mesmos, por isso os serviços secretos britânicos que se ocupam das fakenews, de acusar a Rússia de intervir nas eleições, apoiar os movimentos radicais. São eles que fazem estas coisas, que se ocupam da desinformação, da propaganda, das provocações etc. etc. isso é tradicional.
Eles querem fazer da Rússia o monstro ou o inimigo, dizendo que a Rússia quer dominar a Europa Oriental e Ocidental etc. etc., todos estes mitos existem para não mostrar diante dos olhos dos europeus o verdadeiro inimigo, que são os liberais. Querem mobilizar a consciência europeua contra a Rússia porque não representa qualquer perigo, não representa tampouco a salvação nem a alternativa, entretanto, o que é seguro é que a Rússia não representa perigo.
Se não representa o perigo, qual é o grande problema? Pois é o governo que é completamente incapaz de satisfazer os interesses dos povos, e Rússia não têm nada que ver com tudo isso, por isso creio que os europeus conscientes devem compreender que se trata de propaganda pura, mas não de propaganda russa, porque os russos não estão promovendo propaganda. Russia Today e outros meios dizem mais verdades, mas não se trata de propaganda. Não dizem que Rússia é o melhor de tudo ou que as ideias da Rússia devem ser aceitas pelos demais, nada que ver com a propaganda liberal, a propaganda comunista ou fascista.
A Rússia se defende com esses meios e também mostra outra versão, outra posição, não é propaganda. É muito neutro. Creio que importa compreender mais e mais uma coisa: o que de fato a Rússia pode ser -- não é amiga da Europa ainda, não é inimiga nem o perigo. O perigo maior são os liberais. Depois de entender isto, amar ou odiar a Rússia não importa nem para os russos nem para os europeus. A Rússia é uma civilização à parte, ao lado.
Pode provocar interesse, simpatia, amor, ou pode ser totalmente indiferente para os europeus, mas qual é a verdade concreta? que Rússia não representa perigo. Não quer e não pode invadir a Europa ou submeter a Europa Oriental, não temos tantos desejos ou capacidades. Não queremos e não podemos fazer isto. Não somos mais comunistas nem imperialistas, somos russos que queremos defender nossa identidade e nossa soberania nacional -- e isso é tudo.
Isso é mais importante, mas é verdade que, depois disso, o problema europeu se tornará totalmente diferente, o problema serão os liberais, o governo mundial da maneira que não corresponde aos interesses de seus próprios povos. Por isso creio que não são o problema os grupos extremistas. Os verdadeiros extremistas são a gente do Soros, são os liberais que organizam e utilizam, às vezes, estes grupos como utilizam o radicalismo islâmico, wahabismo, salafismo, fundamentalismo, muçulmano para chegar a seus próprios interesses e ter a razão de intervir em todos os países para desestabilizar a situação nas sociedades. Eles são os verdadeiros criminosos, a Rússia é o poder neutro que luta para sobreviver e pelo mundo multipolar -- não bipolar, mas multipolar, o que é muito importante.

sexta-feira, 23 de março de 2018

O que representa a candidatura de Ciro Gomes

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Ciro Gomes e Leonel Brizola
Por Leonardo Benitz

Diante da grave crise que assola o país, que deixou de ser somente econômica, tornando-se política, institucional e social, onde os grandes poderes da mídia, baronato e bancos digladiam-se oferecendo cada um a sua própria narrativa. Narrativa que oculta um jogo de interesses muitas vezes difícil de ser compreendido até por um estudioso do assunto quanto mais para a grande maioria da população que, fatalmente, torna-se refém das simplificações grosseiras e das reações emocionais a uma situação justamente percebida como insuportável. Uma situação caótica é sempre propícia ao surgimento não somente de arrivistas políticos, mas de ideários estrangeiros propagados por parcela da elite ligada aos interesses internacionais que procura mistificar sua dominação sobre o restante do povo. 

Uma das simplificações mais comuns, com maior adesão por parte de grande parcela da população que está irritada, talvez a mais perigosa dela, é aquela que liga o protagonismo, ainda que atualmente deprimido, que o Estado tem na economia com escândalos de corrupção, ineficiência, burocracia excessiva, e que, portanto, o Estado deveria ser mínimo, isto é, apenas louvar pela aplicação sadia das regras do mercado, e, no máximo, realizar um papel de assistência social, apequenar-se. Acreditar que um país de proporções continentais como o Brasil, com uma das desigualdades mais brutais do mundo, onde 6 pessoas concentram a mesma renda que 100 milhões de pessoas como mostram os dados de pesquisa recentemente realizada pela ONG britânica Oxfam, deve relegar seus problemas a espontaneidade do mercado é inocência ou má-fé. Dentre as duas opções, acredito que a primeira ocorre na grande parte do povo que propaga esse ideário por ignorância e por despercebidamente introjetar valores contrários aos seus próprios interesses através da intoxicação midiática, enquanto a segunda, que tem representantes de peso nos grandes órgãos midiáticos e instituições empresariais e bancos, que age de forma organizada para fazer com que seus interesses tenham aparência de ciência neutra e objetiva, merece ser analisada com mais cuidado. 

Para compreender esse movimento, devemos notar que, no caso específico brasileiro, a ideia já datada do neoliberalismo volta com força, após um breve período de experimentação com os governos de esquerda da América Latina que, na maior parte dos casos, entraram em descrédito. Essa ideia é datada porque os próprios órgãos de governança global que fizeram parte da propagação do ideário do Consenso de Washington, como o FMI, Banco Mundial e Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, já a criticaram em relatórios recentes. O relatório "Neoliberalism:Oversold?" lançado por três economistas do FMI em junho de 2016, estabelece que as políticas de austeridade defendidas ; com base na ideia de rigidez orçamentária dos gastos do governo prejudicou a demanda e aprofundou o desemprego, a remoção das restrições do fluxo de capital -- abertura financeira -- contribuiu para o aumento da desigualdade e do número de crises financeiras, e, para fechar o caixão dessa ideologia, concluíram que o aumento da desigualdade tem efeitos negativos sobre o crescimento de longo-prazo, observação substanciada por novo artigo escrito em fevereiro de 2017, onde há um gráfico que evidencia uma correlação negativa entre desigualdade e crescimento de longo-prazo. Deve-se atentar para a gravidade dessa observação, ou seja, instituições criadas para (fato brilhantemente demonstrado por John Perkins em seu livro "Confissões de um Assassino Econômico", onde o autor narra a estratégia realizada pelo Banco Mundial que, a serviço dos Estados Unidos, realiza empréstimos para países em desenvolvimento procurando escravizá-los por dívidas, lançando-os, de forma subalterna, na esfera do poderio norte-americano) e por países ricos (em reunião realizada pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, que ficou conhecida como Conferência de Bretton Woods em 1944) estão nos alertando sobre os efeitos perniciosos da desigualdade e da liberalização econômica. A indagação que fica é: se os ouvimos no passado (através da doutrina neoliberal do governo de Fernando Henrique Cardoso) por que não os ouvimos agora? 

A ideia de que o Estado não deve ter protagonismo no combate à desigualdade e desenvolvimento econômico e a economia nacional deve ser aberta ao mundo, não é uma ideia antiga. Como habilmente demonstrado pelo economista Ha-Joon Chang, os Estados Unidos, hoje o campeão mundial do liberalismo, já foram submetidos a pressões estrangeiras para liberalizar-se, no seu caso, por ninguém menos do que o ilustre pai da economia moderna Adam Smith. Vejamos suas observações contidas no livro A Riqueza das Nações: 

` "Se os americanos, seja mediante boicote, seja por meio de qualquer outro tipo de violência, suspenderem a importação das manufaturas europeias aos seus compatriotas capazes da fabricar os mesmos bens, desviando uma parcela considerável de capital para esse fim, estarão retardando o futuro crescimento do valor do seu produto anual, em vez de acelerá-lo, e estarão obstruindo o progresso do país rumo à riqueza e à grandeza verdadeiras, em vez de promovê-lo" 

Em outros escritos considera o futuro do país norte-americano como de uma economia agrária como a Polônia, proposta muito similar àquela recomendada atualmente por economistas liberais como Marcos Lisboa à nação brasileira. É preciso ressaltar que os Estados Unidos não apenas sonoramente rejeitaram esse conselho, e seguiram o conselho do Secretário do Tesouro americano Alexander Hamilton, tornando-se os campeões mundiais do protecionismo até meados do século XX, desenvolvendo o ensino público, investindo em infraestrutura através da concessão de terras e subsídios às empresas ferroviárias, como através de golpes de estado e intervenções em países como Havaí, Cuba, Porto Rico, Filipinas, Nicarágua, Honduras, Guatemala, Irã, Vietnã, Chile e mais recentemente Iraque e Líbia, também expandindo seu poderio no Leste Europeu através da OTAN, consolidaram seu lugar como a potência hegemônica ocidental desbancando seu antecessor, a Inglaterra, tudo isso com a presença de um mastodôntico aparato militar que consumiu 611 bilhões de dólares em 2016, valor superior aos 595 bilhões de dólares dos oito países com os maiores gastos em defesa juntos no mesmo ano de acordo com dados da Peter G. Peterson Foundation. Deixa-se sem passar que indústrias nas quais os EUA se mantêm na vanguarda internacional como de computadores, internet e aeroespacial não seriam possíveis sem a P&D militar financiada pelo governo americano, como muito bem apontado pela economista Mariana Mazzucato em seu livro "O Estado Empreendedor": "a maioria das inovações radicais revolucionárias, que alimentaram a dinâmica do capitalismo -- das ferrovias à internet, até a nanotecnologia e farmacêutica modernas -- aponta para o Estado na origem dos investimentos empreendedores mais corajosos, incipientes e de capital intensivo", até mesmo o Iphone que é propalado como fruto da genialidade empreendedora do Steve Jobs não teria sido possível sem a utilização de tecnologias financiadas pelo governo como o GPS, tela sensível ao toque, mecanismo de reconhecimento de voz. O que não falta na sede do pensamento liberal é, ironicamente, Estado. 

Poder-se-ia analisar com tranquilidade a experiência histórica de qualquer outro país desenvolvido, seja a Coréia do Sul com sua reforma agrária radical, a criação da usina siderúrgica POSCO construída à contragosto do Banco Mundial, os planos quinquenais estabelecidos pelo General Park, seja no Japão com a Restauração Meiji de 1868 e seu programa de modernização, até a Alemanha de Bismarck que teve um papel pioneiro na introdução do seguro de acidente industrial (1871), seguro saúde (1883), e as pensões estatais (1889), ou até mesmo a Inglaterra, com as barreiras protecionistas impostas para proteger as manufaturas têxteis de algodão e as reformas protecionistas introduzidas pelo primeiro primeiro-ministro britânico Robert Walpole em 1721, que ao defendê-la em discurso do trono ao Parlamento observou que "é evidente que nada contribui mais para promover o bem-estar público do que a exportação de bens manufaturados e a importação de matéria-prima estrangeira". Os exemplos da experiência histórica comparada são infindáveis, e unanimemente eles atestam para a centralidade do papel do Estado no desenvolvimento econômico, portanto, agora aproximando-se mais da realidade e do futuro brasileiros, acredito ser imperativo que se escolha um candidato ciente desses temas na eleição de 2018, e proposto a restaurar o papel do Estado na economia brasileira. 

Necessita-se contextualizar o momento pré-eleição de 2018; o Brasil enfrenta a maior crise da sua história com diversos estados quebrados, os partidos políticos tradicionais desacreditados pela corrupção, tudo isso deflagrado pela crise econômica que ocorreu com a redução do crescimento da China que provocou uma queda nos preços das nossas principais exportações, as commodities, como minério de ferro, trigo, soja, junto com a queda do preço do barril de petróleo. Em 2016, após um processo de impeachment ilegítimo, o vice-presidente Michel Temer assume a presidência e anuncia reformas de desmonte do Estado brasileiro e de entrega do patrimônio nacional, atendendo aos interesses do empresariado apátrida e dos bancos brasileiros e estrangeiros, aprovando a reforma trabalhista que alterou 100 itens da CLT (a mando de lobistas de bancos, indústrias e transportes), enfraquecendo a Justiça do Trabalho, fazendo com que o negociado prevaleça sobre o legislado, como se o empregado estivesse em posição de igualdade efetiva com o empregador, covardemente vendendo os campos de exploração do pré-sal para multinacionais como a Shell, num momento em que os preços do barril de petróleo estão prestes a subir, anunciando um programa de privatizações de 57 empresas estatais incluindo a Casa da Moeda e a Eletrobrás, e, sua obra magna, a Emenda Constitucional 95 que estabelece o teto dos gastos de acordo com a inflação por um período de 20 anos, contendo apenas as despesas primárias (isto é, as que não incluem os juros), privilegiando os rentistas brasileiros à custa de gastos que atendem, ainda que precariamente, a maioria da população como saúde e educação, tudo isso num cenário de desemprego alto remediado por uma crescente informalidade, que garante um sustento com salários e condições baixas de trabalho a uma parcela crescente da população... 

Diante desse péssimo cenário, nós, eleitores, temos que fazer uma escolha que será fatídica no dia da eleição, definindo, rompimentos antidemocráticos à parte, a forma como país sairá ou tentará sair dessa crise. Com o provável impedimento da participação de Lula, vítima de uma perseguição jurídica que, deixando de lado ódios e paixões, curiosamente não encontra paralelos com qualquer político tucano, representando o candidato mais popular da esquerda, líder nas pesquisas, provavelmente teremos uma predominância de candidatos de centro-direita a direita, com nomes como Geraldo Alckmin (PSDB) e Jair Bolsonaro despontando, todos adotando uma percepção neoliberal dos problemas do Brasil; Bolsonaro, com uma retórica nacionalista, no entanto, uma prática não condizente com o discurso, exemplificado perfeitamente pelo episódio simbólico da continência batida à bandeira americana em sua viagem aos Estados Unidos, e também por sua provável escolha para ministro da fazenda, Paulo Guedes, um dos fundadores do Instituto Millenium que recebe financiamento do Bank of America e do grupo RBS. E temos, pela centro-esquerda, a candidatura de Ciro Gomes pelo PDT. Ciro Gomes é conhecido publicamente pela sua inteligência e habilidade retórica, mas sua valentia e coerência também são qualidades que devem ser ressaltadas. Já em livro escrito em 1996, em parceria com o professor Roberto Mangabeira Unger, chamado "O Próximo Passo", apresentava uma proposta alternativa ao neoliberalismo, denunciando a utilização peremptória de juros escorchantes e câmbio sobrevalorizado como expediente de combate a um processo inflacionário que já havia sido superado e que havia se tornado um entrave para o desenvolvimento econômico do país. As propostas do Ciro para essas questões seriam, como relevadas recentemente pelo seu assessor econômico Nelson Marconi, trazer a taxa de câmbio para um patamar condizente com a competitividade das exportações brasileiras entre R$3,80 e R$4, e uma taxa de juros mais baixa, espelhando-se nas experiências dos Estados Unidos e Europa em que a taxa de juros real chega a ser negativa. 

Pode-se concluir que muita coisa mudou para não mudar nada, o problema dos juros continua sendo central na economia brasileira, tendo consumido 1.130.149.667.981,00 (1,13... trilhão) de reais que representa 43,94% do Orçamento Geral da União em 2016 de acordo com dados do Tesouro Nacional. Para ter-se uma medida de comparação, gastou-se 3,90% em Saúde e 3,70% em Educação. O povo brasileiro deve tomar conhecimento de quem manda no país. De acordo com dados publicados pelo IBGE, em 2017 a participação da indústria no PIB caiu para 11,8% retrocedendo aos níveis de 1950; parte desse problema foi ocasionado pelo alto custo do capital provocado por altas taxas de juros, e a outra faceta desse problema é o câmbio sobrevalorizado, abordado anteriormente, que torna nossas exportações menos competitivas e aumenta o custo das importações, provocando um déficit na balança comercial, desnacionalizando nossa indústria. 

Em termos mais categóricos, Ciro define-se como um Nacional-Desenvolvimentista, isto é, defende um projeto no qual um Estado fortalecido promove o desenvolvimento econômico de uma sociedade, algo que não seria atingido caso fosse deixado por conta do mercado. Acredita-se que o artigo deixou bem claro que essa é a experiência vivida por grande parte dos países avançados até mesmo aqueles que propagam a retórica neoliberal. Em termos geopolíticos, Ciro Gomes já se manifestou favorável à construção de um mundo multipolar, repudiando as intervenções unilaterais americanas recentes no Iraque, Afeganistão e Líbia, comemorando o surgimento e protagonismo de Vladimir Putin na Síria como uma forma de equilíbrio e alívio para o mundo que assistiu horrorizado à criação de um cenário caótico no Oriente Médio e o renascimento dos movimentos terroristas islâmicos amplamente financiados por governos ocidentais. Ciro Gomes apresenta uma respeitável compreensão de que, a despeito de todo tipo de retórica sobre paz e liberdade, a ordem mundial é assentada na força e na violência, portanto, um mundo multipolar, com a crescente importância da Rússia e a ascensão econômica da China, poderia conter as arbitrariedades cometidas pelos americanos, e beneficiar até mesmo o Brasil, livrando-nos de intervenções e pressões unilaterais de um país que historicamente considerou a América Latina como seu quintal, e o mundo inteiro como seu. 

Portanto, está na ordem do dia uma redução do oneroso encargo da dívida pública através de uma auditoria e da diminuição do nível de taxa de juros a um patamar condizente com a perspectiva de desenvolvimento industrial nacional, uma reforma tributária estabelecendo uma taxação progressiva, recuperando a sanidade fiscal do Estado que, empoderado, possa assumir seus deveres e retomar seu papel de protagonismo no desenvolvimento econômico e combate à desigualdade através de um projeto nacional-desenvolvimentista. O repúdio a qualquer ideologia estrangeira propagada pelo império e seus representantes, isso é o neoliberalismo, que propõe aos estados subdesenvolvidos uma liberalização econômica que ele mesmo não realizou, ou seja, como bem descrito pelo economista alemão Friedrich List, chuta a escada pela qual subiu, deixando os subdesenvolvidos permanentemente no andar de baixo. 

Uma integração da iniciativa privada, universidades e Estado, no desenvolvimento de tecnologias, tornaria o país menos dependente de insumos externos normalmente dolarizados. A luta deve ser pelo estabelecimento de uma ordem geopolítica multipolar, em que o Brasil possui um papel relevante, deixando de ser um celeiro para os países ricos e um reprodutor de manuais propagados pela metrópole e seus órgãos globais, e lute para a formação de polos de poder que distribuam melhor a capacidade de decisão em assuntos internacionais. 

No presente momento o candidato que possui um histórico e um discurso alinhado com esse ideário é o Ciro Gomes, portanto, como se tentou demonstrar no presente artigo, aqueles brasileiros que não se deixam dobrar pelo discurso dominante devem apoiá-lo nas eleições de 2018.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Sunitas e xiitas: o mito dos ódios remotos e novo mapa do Oriente Próximo

Por Martí Nadal

elordenmundial.com-14/11/2016

O oriente próximo encontra-se afundado em uma guerra total entre as duas correntes do Islã? Investigar os conflitos da região é necessário para desfazer os relatos que desconectam a violência atual de eventos contemporâneos e em seu lugar associam a ódios étnicos ancestrais.

Sunitas e xiitas seguem lutando desde o cisma que dividiu os muçulmanos depois da morte de Maomé no ano de 632? Dando uma olhada no mapa dos conflitos da região, temos a impressão de que nos países onde convivem Sunitas e Xiitas, acabam se enfrentando sem remédio. Na Síria, o regime de Bashar al Assad, dominado pela maioria alauíta, um ramo distante do xiismo, enfrenta uma oposição formada majoritariamente por grupos islamitas sunitas. No Iraque, a caída do sunita Saddam Hussein elevou ao poder a maioria Xiita, que agora deve fazer frente a uma insurgência liderada pelo grupo terrorista Estado Islâmico nas regiões sunitas do país. E, no esquecido Yemen, os huties uma milícia pertencente ao ramo do xiismo, tem tomado a capital do país e desde janeiro de 2015 sofrem os bombardeios de uma coalizão liderada pela Arábia Saudita. A tudo isso deve-se somar a guerra fria que protagonizam a República Islâmica xiita doIrã com a Arábia Saudita, bastião do fundamentalismo sunita, cujas disputas espalham-se por todos os campos de batalha do oriente próximo.

As divisões étnico religiosas do oriente próximo:fonte https://thesinosaudiblog.files.wordpress.com/2011/05/mid-east-religion.jpg

O sectarismo entendido aqui como um enfrentamento entre as distintas correntes do Islã é sem dúvida um componente vigoroso nos conflitos atuais, O auto denominado Estado Islâmico e suas pretensões genocidas tem convertido em habituais os ataques suicidas em bairros xiitas de Damasco, Bagdá ou Sanar, que tem deixado milhares de civis mortos. A isto se deve somar a proliferação de milícias xiitas que frequentemente molestam e aterrorizam aspopulações sunitas, antes controladas por grupos jihadistas. A retórica sectária também se assenta no atual alvoroço regional, promovido por clérigos e autoridades fundamentalistas e difundida através de cadeias por satélite e redes sociais. O teólogo e figura televisiva Yusuf al Qaradawi, que apresenta o programa mais popular da Al Jazeera, a cadeia mais vista do mundo árabe, tem acusado os alauitas de serem “mais infiéis que os judeus e cristãos”; por sua parte, outro célebre locutor da mesma emissora tem pedido em mais de uma ocasião a limpeza étnica de xiitas e alauítas sírios.

Respaldados por esta linguagem sectária, os meios ocidentais assumem que os conflitos na Síria, Iraque e Iêmen formam parte de uma guerra histórica de aniquilação étnica de onde os estados e as milícias se alinham em um grupo e outro dependendo de sua afiliação religiosa. Esta leitura etno-religiosa da violência que hoje sacode o oriente próximo é denominada ”relato dos ódios remotos” ( ancient hatreds, em inglês), porém, tal e como veremos, essa história é na realidade um mito.

O relato dos ódios remotos: da Iugoslávia ao Oriente Próximo

A origem desta teoria sobre conflitos étnicos perenes se encontra no final da Guerra Fria e não se tem aplicado só a sunitas e xiitas. O primeiro caso que se popularizou ocorreu depois da desintegração da Iugoslávia comunista. Autores como Samuel Huntington ou Robert Kaplan ajudaram a definir a guerra na Bósnia como um conflito plenamente étnico religioso entre croatas católicos, bósnios muçulmanos e sérvios ortodoxos. Também se construiu um relato sugerindo que o comunismo foi só um remendo transitório que unia alguns grupos étnicos que realmente seguem se odiando desde séculos atrás.

O colapso do forte governo central precipitou a violência, que só havia sido contida, porém nunca erradicada.

Hoje em dia, muitos artigos que pretendem explicar a violência atual entre sunitas e xiitas no oriente próximo seguem pautas similares.O relato geralmente se repete assim:depois de morrer o profeta Maomé, alguns muçulmanos consideraram que Abu Bakr amigo do profeta, devia ser o novo líder, enquanto que outros fiéis eram partidários de seu primo Ali.Os seguidores de Abu Bakr venceram e acabaram convertendo-se nos sunitas; os partidários da linha familiar de Ali, os xiitas, seriam derrotados, convertendo-se numa minoria freqüentemente perseguida dentro do islã.Nascia assim um ódio eterno e inalterável, agora desatado pela ausência de uma autoridade superior que os mantivessem unidos.

Em sua pretensão de responder a pergunta ‘’Porque matam-se sunitas e xiitas?, os meios ocidentais freqüentemente consideram as guerras na Síria e Iraque como de aniquilação étnica, com origem nas disputas sucessórias à morte de Maomé, na veneração de santos, nas interpretações distintas do Corão e demais diferenças doutrinais.O impacto dos eventos históricos e políticos contemporâneos são erroneamente descartados.

Em nenhum dos conflitos no oriente médio há só dois grupos definidos pela confissão religiosa.O intento de explicar de forma simples a violência por parte de alguns meios de informação a levado freqüentemente a reducionismos absurdos.Fonte: Chappatte (International New York Times).

As guerras que ocorrem no oriente próximo desde a 1.400 anos não são fruto de antipatias
sectárias, irracionais e intermináveis.Tais ódios não constituem o motor dos conflitos, mas sua consequência.O relato dos ódios remotos está baseado em conceitos errôneos, amplia inimizades sectárias e ignora os elementos geopolíticos e sociais e os interesses dos Estados do Oriente Próximo.

Esta teoria é herdeira do orientalismo clássico, que pressupõe que o oriental, o muçulmano, guia-se por sua identidade mais primária, a religião, em todos os aspectos de sua vida.Deste modo, os meios ocidentais tendem a buscar explicações étnicos e religiosos em conflitos que explodem por problemas socioeconômicos e políticos e que se espalham devido aos cálculos políticos interessados de potências exteriores.Os sírios não se levantaram contra Al Assad porque é alauíta nem o Irã saiu a seu resgate porque compartilham certas crenças.

A principal consequência dos relato dos ódios remotos é a construção em nosso imaginário de dois grandes blocos monolíticos e antagônicos constituídos por sunitas e xiitas.Não existem raízes nacionais, ideológicas, linguísticas ou socioeconômicas dentro destes dois grupos e pressupõe-se uma inimizade e um fervor religioso a indivíduos, à milícias e inclusive a países que na realidade carecem deles.

Rivalidade dentro da seita e alianças intersectárias

Em realidade, os países e milícias que os meios atribuem dentro do sunismo ou no xiismo não são nem comportam-se como blocos homogêneos e por utilizarem as duas seitas como as duas principais unidades de análises nas relações internacionais da região conduzirá a mais equívocos que a acertos.

Sunitas

Por um lado, o grupo sunita na realidade está repartido em três frentes visíveis.De entrada,a Wahabita Arabia Saudita exerce a liderança de um grupo de países que pretendem preservar o status quo regional.Junto a Riad caminham o governo secularista egípcio de Abdel Fatah al Sisi e as monarquias da Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrein.Entre suas prioridades figura dizimar o expansionismo iraniano onde ele surge.Por isso que derrubar Al Assad, um fiel aliado de Teerã, é um de seus principais objetivos.Ademais, esses países viram as revoluções árabes de 2011 como um grave desafio à sua hegemonia.

Não obstante, os partidários do statu quo devem lidar com rivais dentro de sua própria seita.O pequeno reino do Qatar a anos vem exercendo uma política exterior potente, porém flexível, que a levado a se unir com os islamitas da Irmandade Muçulmana e Turquia.Esse grupo, que em teoria é ideologicamente próximo ao islamismo da Arábia Saudita, envolve uma de suas maiores dores de cabeça.A diferença de seus vizinhos, o Qatar percebeu as malogradas Primaveras Árabes como uma oportunidade para estender sua influência.É por isso que celebraram a caída do regime de Mubarak no Egito e a ascensão ao poder do islamita Morsi.Seu contínuo apoio a agora deposta Irmandade Muçulmana egípcia trouxe em 2014 a pior crise entre as monarquias do golfo:Arábia Saudita, os Emirados e Bahrein retiraram seusembaixadores da capital do Qatar.

Líbia é um caso que evidencia as fissuras dentro do denominado bloco sunita.O país é esmagadoramente sunita, todavia encontra-se profundamente dividido e afundado em uma guerra civil desde as revoltas populares e a operação da Otan que derrubaram Kadafi em 2011.Atualmente, Líbia está dividida entre dois governos.Por umlado, os Emirados e Egito dão apoio a um executivo secular a leste,enquanto Turquia e Qatar apoiam a um governo de tribunal islâmico emTrípoli.Líbia é a prova de que o aumento da violência tem menos que ver com brigas sectárias do que com cálculos geopolíticos de países vizinhos.

Estas dissonâncias também se evidenciaram durante o golpe de estado contra Erdogan no verão deste ano.Arábia Saudita demorou 15 horas para condenar a ação do exército e alguns meios têm acusado aos Emirados de financiar os responsáveis do fracassado golpe.Enquanto o Irã, que há anos luta indiretamente com a Turquia na Síria, foi o primeiro país a condená-lo.

Finalmente, existe um terceiro grupo dentro do sunismo que em realidade está composto por centenas de organizações que minam a suposta unidade sunita.Trata-se das numerosas milícias jihadistas que, apesar de receberem apoio logístico ou financeiro por parte dos Estados sunitas, seguem considerando esses regimes ilegítimos.A relação entre os governos e os grupos jihadistas deve entender-se mais como de benefício mútuo e não baseada numa concepção similar de religião.O Estado Islâmico, por exemplo, dedica mais tempo e recursos a derrotar outros grupos rebeldes sunitas que a lutarem contra Al Assad.

Apesar dos evidentes sentimentos sectários que possuem, esses grupos são capazes de ações pragmáticas para perseguir seus interesses.Em2016, o ex-chefe dos serviços secretos israelenses admitiu que seupaís ajudou aos jihadistas da Frente AL Nusra, filial da Al Qaeda emSíria, e nas colinas de Golan.Esta assombrosa aliança obviamente não é baseada em um sentimento de afinidade, porém em interesses comuns, neste caso, arrebatar posições chaves à milícia libanesa Hezbollah, que combate junto ao governo sírio e envolve um dos maiores riscos para a segurança de Israel.

Xiitas

O denominado grupo xiita tampouco está isento de dissonâncias.Recentemente popularizou-se a expressão ‘’meia lua xiita’’ para se referir a aliança entre Hezbollah, Síria, Iraque e Irã.Embora certamente esses atores são estreitos aliados, os motivos dessa união não devem se buscar em simpatias dogmáticas.A coalizão original entre o regime laico, baathista e pan árabe da Síria com a teocracia persa do Irã nunca se á baseado no credo, mas que é herdeira da suposta ameaça comum do regime laico, baathista e pan árabe de Saddam Hussein.

A rivalidade entre Arábia Saudita e Irã que se espalha por todo oriente próximo não baseia-se em diferenças religiosas surgidas depois da morte de Maomé, mas nos interesses regionais opostos.Fonte: Kal (The Economist).

É comum também reduzir os alauítas ou os zaides a um ramo do xiismo, porém seus credos ortodoxos são bastante distintos do xiismo majoritário.Em realidade, as crenças dos alauítas tem permanecido ocultas durante séculos aos principais clérigos do xiismo.Não foi até 1948, quando os primeiros estudantes alauítas assistiram pela primeira vez a seminários religiosos na cidade iraquiana de Nayaf, centro da teologia xiita.Os alunos foram insultados e humilhados por suas crenças e, ao fim de pouco, a maioria deles voltaram à Síria.Recentemente um grupo de líderes religiosos alauíta emitiuum comunicado onde negavam sua condição de ‘’ramo do xiismo’’ com o objetivo de se distanciar do regime de Al Assad e do Irã.

Tampouco é estranho encontrar alianças entre grupos sunitas e xiitas que não se encaixam no molde do relato dos ódios remotos.Irã há décadas vem sendo o principal provedor do grupo islamico Hamas, e Al Qaeda e os Talibãs também colaboram com Teerã quando a sido necessário.Em Síria, grupos palestinos sunitas lutam junto com Al Assad e seu exército segue formado majoritariamente por sunitas; no Iraque várias tribos sunitas do oeste colaboram com Bagda para frear os terroristas do Estado Islamico.
Se bem é verdade que afinidades religiosas ou ideológicas podem ajudar na hora de costurar alianças e, sobretudo, justificá-las discursivamente, a geopolítica do oriente próximo segue regendo-se majoritariamente pelos interesses particulares dos estados.

Implicações políticas:um país para cada grupo étnico

Poderia parecer que o mito dos ódios remotos é simplesmente uma ocorrência devido a periodistas ou pretensos especialistas sem um conhecimento profundo da região, porém sua propagação não é inócua e tem consequências políticas.Bill Clinton, influenciado enormemente porum livro de Robert Kaplan, planejou a política estadunidense naguerra da Bósnia baseando-se na crença de que muçulmanos,católicos e ortodoxos massacram-se há séculos.Barack Obama também atua influenciado pelo relato dos ódios remotos entre sunitas e xiitas.Durante o último discurso sobre o estado da união, assegurouque parte da atual agitação no oriente próximo está ‘’originadaem conflitos de a milhares de anos’’ e em mais de uma ocasião manifestou sua preocupação pelos ódios entre países sectários.

A percepção de que os distintos grupos étnico religiosos não podem coexistir devido a ódios eternos é em primeiro lugar errônea e em segundo lugar perigosa.Por um lado, pretende negar qualquer suspeita de culpabilidade europeia e estadunidense sobre o estado atual da região.Dado que seguem lutando desde há milhares de anos, o apoio ocidental à ditaduras opressoras, a grupos rebeldes partidários de limpezas étnicas ou a calamitosa guerra do Iraque que oxigenou o sectarismo, não são responsáveis do estouro sectário atual.

Também, a consolidada imagem dos orientais como seres movidos por paixões étnicas e religiosas propensos a se matarem implica outra grave consideração: a corrente -crescente- opinião que pede que o mapa do oriente próximo seja redesenhado baseando-se nas fronteiras de seita.Desde a invasão do Iraque, mas especialmente depois das revoluções de 2011, tem-se popularizado vários mapas que pretendem redesenhar as fronteiras da região para assim salvá-los desses ódios étnicos.Numerosos políticos e especialistas defendem o desmembramento do Iraque* e Síria*, apesar de que tais pretensões secessionistas não figuram nas agendas dos grupos sunitas, xiitas e alauítas.Esses cartógrafos amadores culpam o acordo Sykes-Picot, que partiu as províncias otomanas depois da Primeira Guerra Mundial, por todos os males na região.Em suas opiniões, o grande erro das potências coloniais foi criar Estados ‘’artificiais’’ onde as seitas e outros grupos étnicos mesclavam-se, impossibilitandoassim a concepção de um estado homogêneo para a Europa*.O que muitos desses artigos esquecem de mencionar é que a criação do Estado-Nação europeu se baseia em séculos de limpezas étnicas e genocídios culturais para atingir tal nível de uniformidade.

Em 2016, um tenente coronel do exército estadunidense , Ralph Peters, publicou versão do que deveria ser a região argumentando que, ‘’sem esta revisão considerável das fronteiras não conseguiremos um oriente próximo em paz’’.No entanto recentemente, o New YorkTimes publicou um mapa onde cortava 5 países em 14 pedaços.


Proposta de Ralph Peters https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/7/7c/Ralph_Peters_solution_to_Mideast.jpg


É ilusório pensar que a única via para a paz na região é colocar cada grupo étnico em sua própria caixa, fechada e separada das demais.A história do Oriente Próximo está atormentada de violência dentro das mesmas seitas; você só precisa ver países como Argélia, Líbia e Egito, que, apesar de não terem minorias xiitas relevantes, possuem um passado recente com abundante violência.Este artigo não pretende argumentar que qualquer tipo de modificação de fronteiras na região é prejudicial nem nega a existência da violência sectária.Sua intenção é evidenciar o perigo de que as políticas ocidentais na região estão baseadas nos mesmos princípios orientalistas de cem anos atrás, que reduzem a identidade e os interesses dos atores da região ao sectarismo levando a um ponto absurdo.Paradoxalmente, o uso do prisma sectário conduz a políticas sectárias.Estabelecer cotas de poder confessionais, como no Iraque, ou fazer um país para cada etnia só implica a criação de novas minorias ao qual negaram-lhes a plena consideração de cidadãos por não pertencerem à nação.

Tradução: Elvis Braz Fernandes