sexta-feira, 29 de julho de 2016

Os Saami: povo de pastores de renas do extremo Norte

Família Saami na Noruega em torno de 1900 (imagem de domínio público)
 
Quem são os Saami?

Os Saami, também falado Sami, são um povo indígena que viveram no extremo norte da Escandinávia por centenas, senão milhares de anos. Embora fossem vizinhos dos Antigos Nórdicos, eles eram um grupo étnico inteiramente distinto. Enquanto as línguas oficiais da Noruega, Suécia e Dinamarca são germânicas, a língua dos Saami pertencem à família fino-úgrica (juntamente com finlandeses, húngaros e outros). Assim, enquanto estão espalhados por estas nações (exceto Dinamarca) eles são uma cultura distinta e separada.

Discriminação Histórica
Os Saami ocupam Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia

A região tradicionalmente ocupada pelos Saami é conhecida como Sápmi. Ela é considerada uma "região cultural", mas não é uma nação.

Embora os Saami estejam espalhados por uma vasta extensão de terra, eles foram historicamente discriminados e não têm seu próprio estado-nação.

Como povos indígenas de outras terras, tais como os Nativos Norte Americanos por exemplo, foram submetidos a programas de assimilação, tentativas foram feitas para romper a cultura Saami e assimilar seu povo às culturas maiores dos países onde viveram.

Por causa dessas campanhas, elementos da cultura Saami começaram a morrer e entraram em perigo de desaparecerem para sempre. Esforços massivos para converter os Saami de sua religião nativa foram instituídos pelos luteranos durante os séculos XVIII e XIX. Muitas crianças Saami foram forçadas a falar norueguês ou sueco ao invés de sua própria língua.
Bandeira dos Saami e da "região cultural" Sápmi

Infelizmente, isto não era incomum durante as eras recentes. Há paralelos não apenas com os nativos da América do norte, mas isto também ocorreu com os falantes de língua celta na Irlanda, no País de Gales e outras áreas da Grã-Bretanha.

Assim como muitos outros grupos foram tratados como inferiores pela população dominante, os Saami foram frequentemente zombados e olhados por cima. Por muitos anos eles foram chamados de "Lapões" e sua morada conhecida por "Lapônia". Até hoje muitas pessoas não sabem que o termo "lapão" é ofensivo aos Saami. Aparentemente o termo se refere a trapos e implica que eles são um "povo que veste trapos". Hoje, o termo Saami ou Sami é preferido.

Os Saami e Suas Renas
"Pastor Laestadius instruindo os lapões" por François-Auguste Biard, 1840

Um homem e uma criança Saami, em Finnmark, Noruega, 1900
Dever-se-ia dizer que os Saami, como alguns outros povos, tiveram uma ampla variedade de ocupações. Pastoreio de renas é uma pela qual eles são mais conhecidos, mas isso não é tudo que os Saami fazem ou fizeram historicamente. Isso pode algumas vezes ser um ponto de contenção quando afirmações são feitas de que todos os Saami são pastores de rena. Dito isto, é verdade e justo dizer que o pastoreio de renas é um grande aspecto da cultura Saami por gerações.

Até os nossos dias, o pastoreio de renas é ainda praticado por muitos Saami. Os animais vivem uma vida semi-selvagem, gastando muito do seu tempo vagando para pastar em amplos espaços abertos do extremo norte. Os Saami dirigem as renas para casa em determinados momentos para contar e alimentar o gado.

As renas e o povo Saami viveram juntos em harmonia por centenas de anos. Os animais providenciam aos Saami comida, couro para roupas, e as galhadas eram usadas para fabricar ferramentas e outros utensílios domésticos.

Uma mulher sueca vestida em trajes tradicionais Saami com uma rena branca. Foto: Anthony Randell
Mas a conexão com as renas é mais antiga do que se pode datar. As renas constituem um significado espiritual e cultural simbólico para o povo Saami. Eles aparecem bastante em mitos, lendas e artes tradicionais.

Cartão postal vintage da "Lapônia".

Shamãs do Norte

Conforme dito acima, os Saami enfrentaram injúrias e perseguições durante séculos. Um elemento maior de sua cultura que foi atacado com grande vigor foi sua religião ancestral.
Cópia do tambor rúnico pertencente ao centenário Saami Anders Paulsen. Departamento Cultural do Museu em Olso, Noruega. O tambor rúnico foi confiscado pelas autoridades de Vadsø em 1691. Foto por Sandivas.

A espiritualidade indígena dos Saami é uma forma antiga de animismo. Central ao seu sistema de crença era a presença de shamãs. Estes shamãs são conhecidos por seus tambores do espírito fabricados à mão que eram usados para bater um transe induzindo um ritmo para uma jornada ao mundo do espírito. Os tambores dos shamãs eram feitos de couro animal, frequentemente pele de rena. Desenhado no tambor estaria um mapa que dirigia o shamã para os Outros-mundos.

Uma ilustração antiga de um shamã Saami tocando tambor em transe. Note que o artista interpreta a jornada do espírito do shamã como demoníaca.
Contrariamente à crença popular, punhados de povos europeus ainda não tinham sido cristianizados ao fim da Idade Média e até mesmo durante a Idade Moderna. Os Saami foram um destes grupos. A Europa do Norte foi por muito tempo considerada o último bastião do paganismo, e muitos livros ensinavam que os nórdicos vikings eram os últimos europeus a se converterem ao cristianismo. Isto é falso. Muitos outros povos mantiveram-se firmemente fiéis a suas religiões nativas por centenas de anos depois da conversão dos povos germânicos e nórdicos. Os bálticos são assim um exemplo, quando o grande reino da Lituânia se manteve antes de sucumbir aos invasores teutônicos. O povo de Mari El, que vivem profundamente adentro da Rússia, são outro grupo de pessoas que mantiveram-se fortemente agarrados aos costumes nativos.

Em torno do século XVIII e XIX, e até mesmo do XX, os Saami foram mirados por missionários luteranos para conversão e assimilação. Suas crenças espirituais ancestrais foram incompreendidas e rotuladas de demoníacas. Ao mesmo tempo que sua religião era dissolvida, os Saami foram desencorajados a falar as línguas nativas. Eles foram também subjugados à propriedade privada, e perderam muito de suas pastagens ao longo dos anos. Mesmo aos nossos dias os Saami lutam para reconquistar a terra na qual viveram e puseram seu gado para pastar por centenas de anos.

Renovação e Renascimento da Cultura
Homem Saami em vestes tradicionais. Foto: Norbert Kiss

Nos últimos anos houve uma renovação do orgulho popular entre os Saami. Eles usam recursos como a internet para conectar com outros Saami por longas distâncias e promovem caminhadas para promover seus interesses comuns. Eles deram vozes ao demandar os direitos e o respeito que eles merecem.

Assim como outros grupos na Europa e em outros lugares estão revivendo suas crenças ancestrais, alguns Saami estão revivendo sua própria religião indígena e reintroduzindo o shamã Saami.

Outros aspectos da cultura estão recebendo atenção também. Muitos artistas Saami estão trazendo sua música tradicional ao escopo internacional. Sua música tende a possuir insinuações do som de uma tribo ouvido em outras culturas indígenas ao redor do mundo, com um nível de influência folk escandinávia, mas um som que é distintamente Saami.

Há muitas culturas belas ao redor do mundo. Mas há algo de especialmente mágico nos Saami. Pode ser o simples mas profundamente significativo modo com o qual eles tradicionalmente existiram no esbranquiçado de neve extremo norte. Pode ser sua assombrosamente bela música folk, ou o contraste entre as vívidas cores de suas roupas tradicionais contra o branco limpo da neve. Este povo parece manter algo que muitos de nós há muito perdemos; uma profunda conexão com a natureza e com os animais com os quais eles compartilham sua morada.
 
 
 
via hubpages

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Trabalho, educação e cultura

por Alberto Buela

Trabalho

Costuma-se recomendar na filosofia, assim como fizeram entre outros Heidegger, Zubiri, Bollnow e nosso Wagner de Reyba, que a primeira aproximação (aproximación) ao objeto de estudo seja através de um aperfeiçoamento (acercamiento) etimológico. Porque, como afirma Heidegger: "a linguagem começa e termina ao fazermo-nos sinais da essência de uma coisa"[1]. Assim comprovamos que o trabalho provém do verbo latino tripaliare que por sua vez provém de tripalium=três varas (palos), que era um poste ou jugo feito com três varas onde se atavam os bois e também os escravos para açoitar. Vemos como o aperfeiçoamento etimológico ao termo trabalho nos revela sua vinculação ao sofrer, a qualquer atividade que produz dor no corpo. Daqui que o verbo tripaliare significa em latim atormentar, causar dor, torturar.

Esclarecido o termo passemos agora a sua descrição fenomenológica. O trabalho, que pode ser definido como a execução de tarefas que implicam um esforço físico ou mental para a produção de algum tipo de bens ou serviços para atender as necessidades dos homens, tem duas manifestações: como opus= obra e como labor=labor. Enquanto a obra expressa o produto ou bem objetivo que produz, assim como labor expressa o produto subjetivo que logra.

Sobre a obra não há discussão, a obra está aí, ao alcance da mão e da vista, no máximo se pode discutir se esta está bem ou mal feita. O assunto se complica no trabalho como labor, pois implica uma subjetividade, a do trabalhador. Pois no labor está implicado a expressão do próprio trabalhador. Até não muito [tempo atrás] se reservava o termo de "labores" a uma matéria nos colégios de senhoritas. Creio que a matéria se denominava "manualidades e labores", onde tecido (hilado), o bordado, o tecido (tejido) e a costura constituíam sua temática. É que o trabalho como labor implica a formação profunda do homem que trabalha. Não é necessário esclarecer que o termo homem compreende tanto a mulher quanto o varão, pois ambos formam parte do gênero homem. A língua alemã possui também dois termos para designar as manifestações do trabalho: Arbeit para obra e Bildung para labor. E este último tem o sentido de formação.

E aqui é onde encontramos nós a vinculação entre o trabalho e a escola: na busca não tanto da informação, de conhecimentos, mas na busca da formação do educando.

E a isto sobretudo ajuda o trabalho em uma época tão dessacralizada como a que hoje nos toca viver, pois o sagrado desapareceu de nossa consciência habitual. E a educação nos valores morais se tornou muito difícil, tendo em conta que o que o menino vê diariamente é corrupção, crimes, assassinatos, roubos, golpes, droga, desordem, anomia etc.

Assim o trabalho é o único meio que temos em mãos para criar virtude[2], pelo menos pela repetição de atos, de nos levantarmos todos os dias cedo ainda que não gostamos. De lavarmos o rosto e nos pentearmos. A cumprir um horário. De ter que escutar o companheiro de trabalho com suas diferenças e nos acostumarmos a conviver com o outro, ainda que mais não seja por oito ou seis horas diárias. O trabalho limita e faz moderar (morigera) o capricho subjetivo, de onde nascem todas nossas arbitrariedades e nossos males.

E como a virtude se funda na repetição habitual de atos bons, o trabalho nos permite o passo inicial à virtude, que é fazer as coisas bem, corretamente, evitando o dano ao outro e ao meio ambiente.

Em nosso país temos tido o privilégio de proclamar que existe uma só classe de homem: o que trabalha. Ou outro: governar é criar trabalho. Incluso a máxima obra teórico-política que com traços próprios e originais se realizou na Argentina durante o século XX foi a Constituição do Chaco de 1951, onde em seu preâmbulo afirma: Nós o povo trabalhador... e não como as Constituições de 1853, incluso a de 1949 e a atual 1994: Nós o povo... ao típico estilo liberal, filho dos jjuristas da Revolução Francesa.

É que em uma época não tão longínqua se sustentava e se proclamou aos quatro ventos o ideal da liberação pelo trabalho e através dele, a poupança (ahorro).

Hoje, pelo contrário, o não-trabalho e o subsídio vieram substituir o ideal da liberação pelo trabalho. Esperemos que não seja para sempre e possamos retomar tão louvável ideal.

Educação

Como fizemos com o termo trabalho, observamos que educação vem do latim ducere que significa guiar, conduzir. De modo que educar consiste em poder guiar conduzir o educando ao logro de sua formação de homem como tal.

Este ideal educativo nos chega dos gregos com sua famosa paideia, que significou a formação do homem de acordo com seu autêntico ser; o da humanitas romana do Varrón e Cicerón, de educar o homem de acordo com sua verdadeira forma humana; o do mundo cristão com sua ideia de exemplariedade em todos os tratados De Magistro dos pensadores medievais que têm Cristo como mestre dos mestres e o do mundo moderno com Johann Pestalozzi e seu método.

Todo este ideal educativo se plasmou em nosso país a partir da lei 1420 pela qual a educação primária tem como objetivo a eliminação do analfabetismo e a formação no menino dos valores morais. (Ensinam-se modos maneiras, costumes. Em uma palavra, ensinam-se hábitos práticos etc.) De igual maneira a educação média tem por objetivo fortalecer a consciência de pertença histórico-política à Nação a que se pertence. (Ensinam-se valores cidadãos e pátrios. Em uma palavra hábitos socio-políticos)

E finalmente a educação superior que tem por objetivo entregar um método de estudo sistemático e reconhecido, onde os logros dos níveis prévios podem se expressar e se detectem as carências. Todo este ideal educativo se questionou a partir do último quarto do século XX quando massivamente a escola deixou seus ideais de formação para se limitar, no melhor dos casos, a ser uma simples transmissora de conhecimentos.

A escola, e há que recordar mais uma vez, como seu nome indica é e deve ser antes que nada o lugar do ócio. O termo vem do latino schola, o que por sua vez vem do grego (scholé, N.A) que significa ócio. Antes que qualquer coisa, a escola é o lugar do ócio. Se se quer, o lugar onde não se faz nada. Nada de útil, nada que não tenha seu fim em si mesmo. Nada em vista de outra coisa que não seja a formação do próprio educando. O caráter de útil, a utilidade, vem depois da escola e é em geral uma preocupação dos pais. Uma vez que se determinou a escola se verá se seus ensinos são úteis. Mas a escola não é outra coisa que o lugar para aprender no ócio. É o desfrutar jogando na aprendizagem, uma aprendizagem que vale por si mesmo e não em vista de outra coisa. Este aprender é por nada. Tem um fim em si mesmo que é o acesso ao saber e à sabedoria.

Faz 2500 anos Platão na Carta VII nos legou um ensino perdurável de como nos aproximarmo-nos do saber e da sabedoria: primeiro através do nome, depois buscando a definição, em terceiro lugar a imagem representada para chegar por último ao conhecimento mesmo. E para que se entenda põe o exemplo do círculo. Em primeiro lugar temos um nome chamado círculo, depois buscamos a definição composta de nomes e predicados: aquele cujos extremos distam todos igual do centro. Em terceiro lugar a imagem como representação sensível, cópia imperfeita e não permanente exemplificada por círculos e rodas. Para chegar finalmente ao conhecimento mesmo, tudo o que "depois de uma longa convivência com o problema e depois de ter ganhado intimidade com ele, de repente, como a luz que salta da faísca, surge a verdade na alma[3].

Cultura

Cada vez que escutamos falar de cultura ou de gente culta, associamos a ideia com a gente que sabe muito, que tem títulos, que é lida, como diziam nossos pais, longe e há tempo. É por isso que fez fama, apesar de sua demonização política, a frase de Goebbels: Cada vez que me falam de cultura levo a mão ao meu revólver. Porque sintetiza melhor que nada, em um brevíssimo juízo, o rechaço do homem comum, do homem de classes mais baixas (pueblo llano), ao monopólio da cultura que desde a época do Iluminismo para cá possuem e exercem os ilustrados e suas academias.

Cultivo

Por outro lado, para nós cultura é o homem se manifestando. É tudo aquilo que ele faz sobre a natureza para que esta lhe outorgue o que de seu e espontaneamente não lhe dá. É por isso que o fundamento último do que é cultura, como seu nome indica, é o cultivo.

Cultura é tanto a obra do escultor sobre a pedra amorfa quanto a obra do torneiro sobre o ferro bruto ou como a da mãe sobre a manualidade do menino, quando lhe ensina tomar o talher.

Vemos de início não mais, como esta concepção é diametralmente oposta a essa noção livresca e acadêmica que mencionamos no começo.

O termo cultura provém do verbo latino colo/cultum que significa cultivar.

Para o pai dos poetas latinos, Virgílio, a cultura está vinculada no genis loci (o nascido da terra em um lugar determinado) e ele lhe outorgava três traços fundamentais: clima, solo e paisagem.

Caracterizado assim o genius loci de um povo, este podia compartilhar com outros o clima e a paisagem, mas não o solo. Assim como nós os argentinos compartilhamos o clima e a paisagem com nossos vizinhos, mas não compartilhamos o solo. E isso não apenas porque é que neste último se assenta o Estado-Nação, mas da perspectiva de Virgílio o solo é para ser cultivado pelo povo[,] sobre ele assenta para conservar sua própria vida e produzir sua própria cultura.

Enraizamento

Mas para que um cultivo frutifique, este deve deixar boas raízes, profundas e vigorosas que deem seiva ao plantado. Toda cultura genuína exige um enraizamento (arraigo) como o exige toda planta para crescer vigorosa e forte, e neste sentido recordemos aqui de simone Weil, a mais original filósofa do século XX, quando em seu livro L'Enracinement nos diz: o reconhecimento da humanidade do outro, este compromisso com o outro, só se faz efetivo se há "raízes", sentimento de coesão que enraiza as pessoas a uma comunidade"[4]. A filósofa deu um passo além, pois, passou do mero deixar raízes ao enraizamento que sempre indica uma pertença a uma comunidade em um lugar determinado. O enraizamento, diferente da terra natal que é o pedaço de terra natal, abarca a totalidade das referências à vida que nos são familiares e habituais. O enraizamento genuíno se expressa em um ethos nacional.
Fruto

Logo de ter arado, rastreado, semeado, regado e esperado o amadurecer, aparece o melhor que dá o solo: o fruto, que quando é acabado, quando está maduro, quer dizer perfeito, dizemos que o fruto expressa plenamente o labor e então nos gosta.
Sabor

E aqui aparece um desses paradoxos da linguagem que nos deixam pensando sobre o intrincado emparelhamento entre as palavras e as coisas Nós ainda usamos para expressar o gosto ou o prazer que nos produz um fruto ou uma comida uma velha expressão em castelhano: o fruto nos "sabe bem". E saber provém do latim sapio, e sapio significa sabor. De modo tal que podemos concluir que o homem culto não é aquele que sabe muitas coisas, senão o que saboreia as coisas da vida.

Sapiente

Existe para expressar este saber um termo que é o de sapiente, que nos indica, não só o homem sábio, mas aquele que une a si mesmo sabedoria mais experiência pelo conhecimento de suas raízes e sua pertença ao meio[5]. Os antigos gregos tinham uma palavra para expressar este conceito: (phrónesis)

Vemos, então, como a cultura não é algo externo, mas que é um fazer-se e um manifestar-se da coisa mesma (uno mismo). Por outro lado a cultura, para nós argentinos, tem que se americanizar, mas isto não se entende se se concebe a cultura como algo externo. Como uma simples imitação do que vem de fora, do estrangeiro.

Não há que esquecer que por detrás de toda cultura autêntica está sempre o solo. Que como dizia nosso mestre e amigo o filósofo Rodolfo Kusch: "Ele simboliza a margem de enraizamento que toda cultura deve ter. É por isso que se pertence a uma cultura e se recorre a ela nos momentos críticos para enraizar-se e sentir que está com uma parte de seu ser preso ao solo"[6].

Cultura e Dialética

É sabido desde Hegel para cá que o conceito é "o que existe fazendo-se", que para ele, encontra sua expressão acabada na dialética, que tem três momentos: o suprimir, o conservar e o superar. E não a vulgar expressão de tese, antítese e síntese a que não têm se acostumado os manuais. Temos visto até agora como a cultura põe fim, faz cessar a insondável completude (oquedad) da natureza primitiva com o cultivo, a pedra ou o campo bruto, por exemplo, e em um segundo momento conserva e retém para si o sabor e o saber de seus frutos, vgr.: as obras de arte. Falta ainda descrever o terceiro dos momentos desta Aufhebung ou dialética[7].

Se bem podemos, em uma versão sociológica, entender a cultura como o homem se manifestando, "a cultura, afirmamos em um velho trabalho, não é só a expressão do homem se manifestando, mas que também envolve a transformação do homem através de sua própria manifestação"[8].

O homem não só se expressa através de suas obras, mas que suas obras, finalmente, o transformam ele mesmo. Assim na medida em que passa o tempo o campesinato se mimetiza com seu meio, o obreiro com seu trabalho, o artista com sua obra.

Esta é a razão última, em nossa opinião, pela qual o trabalho deve ser expressão da pessoa humana, porque do contrário o trabalhador perde seu ser nas coisas. O trabalho devém trabalho alienado. E é por isso, por um problema eminentemente cultural, que os governos devem privilegiar e defender como primeira meta e objetivo: o trabalho digno.

Esta imbricação entre o homem e seus produtos onde em um primeiro momento aquele quita o que sobra da pedra dura ou o ferro amorfo para dar-lhe a forma preconcebida ou se se quer, para desocultar a forma, e, em um segundo momento se goza em seu produto, para, finalmente, ser transformado, ele mesmo, como consequência desse deleite, desse sabor que é, como vimos, um saber. Esse saber gozado, experimentado, é o que cria a cultura genuína.

Assim a sequência cultura, cultivo, enraizamento, fruto, sabor, sapiência e cultura descreve esse círculo hermenêutico da ideia de cultura.

Círculo que se alimenta dialeticamente neste fazer-se permanente que é a vida, onde compreendemos o mais evidente quando chegamos a conjecturar o mais profundo: que o ser é o que é, mais o que pode ser.

Resumindo, vimos como o trabalho gera virtude, pelo menos mundana ou não transcendente, que se relaciona com a educação enquanto ambas atividades buscam a formação do homem em seu ser, para que este possa plasmar em sua vida uma cultura genuína, isto é, vinculada a seu enraizamento.

NOTAS

[1] Heidegger, Martín: Poéticamente habita el hombre, Rosario, Ed. E.L.V., 1980, p. 20.-

[2] Outro grande iniciador laico, em algumas virtudes, é o esporte.

[3] Platão: Carta VII, 341 c4. Também em Banquete 210e 

[4] Weil, Simone: Echar Raíces, Barcelona, Trotta, 1996, p. 123.-

[5] Buela, Alberto: Traducción y comentario del Protréptico de Aristóteles, Bs.As., Ed. Cultura et labor, 1984, pp. 9 y 21. "Temos optado por traduzir phronimós por sapiente e phrónesis por sapiência, por dois motivos. Primeiro porque nossa menosprezada língua castelhana é a única das línguas modernas que, sem forçar, assim o permite. E, segundo, porque dado que a noção de phrónesis implica a identidade entre o conhecimento teórico e a conduta prática, o traduzi-la por "sabedoria" a seca, tal como se fez habitualmente, é mutilar parte da noção, tendo em conta que a sabedoria implica antes de nada um conhecimento teórico".

[6] Kusch, Rodolfo: Geocultura del hombre americano, Bs.As. Ed. F.G.C., 1976, p.74.

[7] Buela, Alberto: Hegel: Derecho, moral y Estado, Bs.As. Ed. Cultura et Labor- Depalma, 1985, p. 61 "Em uma sucinta aproximação podemos dizer que Hegel expressa o conceito de dialética através do termo alemão Aufhebung ou Aufheben sein, que significa tanto suprimir, conservar como superar. A palavra tem em alemão um duplo sentido: significa tanto a ideia de conservar, manter como ao mesmo tempo a de cessar, pôr fim. Claro está que estes dois sentidos implicam um terceiro que é o resultado da interação de ambos, que é o de superar ou elevar. Daí que a fórmula comum e escolástica para explicar a dialética é a de: negação da negação".

[8] Buela, Alberto: Aportes al pensamiento nacional, Bs.As., Ed. Cultura et labor, 1987, p.44.- 


sábado, 2 de julho de 2016

Contos de fadas são mais antigos que mitos gregos e a Bíblia

Cinderela, indiscutivelmente um dos mais famosos contos de todos os tempos, crê-se que tenha sido originado apenas no fim do século XVII. Da mesma forma outras histórias e narrativas reconhecidas tradicionalmente fizeram sua estreia na consciência popular apenas depois dos séculos XVIII e XIX. Entretanto, uma pesquisa (publicada no Royal Society Open Science) parece mudar a situação. De acordo com as investigações, muitos dos contos (senão todos) não apenas datam de tempos anteriores às línguas europeias, mas são também mais antigos que a maioria das grandes religiões do mundo. De fato, a pesquisa alude a como a confecção de tais narrativas possivelmente influenciou o quadro dos famosos caracteres mitológicos gregos e romanos. E, interessantemente, os pesquisadores conectaram às tradições folclóricas anteriores aos falantes indoeuropeus muitos desses mitos.

De modo simples, de acordo com os pesquisadores, muitos desses contos de fadas têm em torno de 4000 e 6000 mil anos de idade. Os dois autores do estudo - Jamshid Tehrani da Universidade de Durham e Sara Graça da Silva da Nova Universidade de Lisboa, começaram seu projeto identificando em torno de 275 contos de fadas com origens aparentemente indoeuropeias. Este arranjo de contos foi utilizado para analisar como o folclore era possivelmente familiar a populações proximamente familiares umas às outras - tanto em termos de suas respectivas línguas como de suas habitações geográficas. Em outras palavras, a avaliação permitiu aos especialistas distinguir entre contos que eram intrinsecamente parte de uma proto-cultura e histórias que eram mais 'globais' em natureza - espalhadas por viajantes e mercadores.

Depois de algumas avaliações rigorosas, os pesquisadores foram capazes de diminuir sua lista para 76 contos que provavelmente compartilharam um legado comum. Estes espécimes folclóricos comuns foram então conectados a alguns ramos das línguas indoeuropeias - muito parecido com o processo usado ao estudar uma árvore familiar genealógica. E ao traçar os pontos, os pesquisadores concluíram que o conto mais antigo dentre os escolhidos era "O Ferreiro e o Diabo". A história esposa o tropo familiar de uma pessoa vendendo sua alma ao diabo em troca de algum poder extraordinário. E os pesquisadores hipotetizaram que esse conto de fada foi esquematizado pelos ancestrais da Idade de Bronze dos falantes indoeuropeus. Similarmente, estes especialistas também acreditam que as famosas fábulas como 'A Bela e a Fera', 'O Anão Salteador' e 'João e o Pé de Feijão' todas tiveram suas origens antes do surgimento das línguas europeias modernas.

Interessantemente, no caso de O Ferreiro e o Diabo, a história pertence a uma realização tecnológica na história humana, melhor conhecida como metalurgia. Isso talvez ajuda a resolver a questão história com relação a como as línguas indoeuropeias foram desenvolvidas no contexto da linha histórica do desenvolvimento tecnológico. Os pesquisadores acreditam aqui que as línguas evoluíram só depois de avanços feitos no trabalho com metais. Mas claro que além de apenas metais e magias, alguns dos contos populares perscrutam a moralidade e o comportamento ético, como na história de Os Animais Encantados, onde o herói resgata um grupo de animais a fim de conquistar o afeto de uma princesa. Estas narrativas por sua vez aludem à dicotomia que tem sido prevalente desde então, com contos que cercam a relação (e o conflito) entre o bem e o mal, homens e mulheres, moral e imoral, e a justificação subjetiva do correto e do errado.

Jack Zipes, um professor emérito da Universidade de Minnesota, e um bem conhecido especialista no campo de fábulas e contos de fadas disse (para Discovery News) que

Tehrani e Graça da Silva demonstraram claramente e cientificamente que as origens dos contos populares e de fadas podem de fato ser traçadas até as sociedades antigas ao usar métodos filogenéticos. Seu trabalho pode servir como fundamento para estudos que investigam por que certos tipos de contos foram originados, como eles se disseminaram e se espalharam ao redor do mundo, e por que continuamos a contar os mesmos contos, embora em diferentes modalidades, no presente. 

via Realmofhistory

domingo, 22 de maio de 2016

Os Pântanos Eleusinos de Freud


Por Aleksandr Dugin*

O modelo perverso da psicanálise

Nos últimos anos os clichês da Civilização Ocidental moderna estão sendo introduzidos de maneira agressiva em nossa sociedade na esfera da economia, cultura e política, mas também na área da psicologia e psiquiatria. Isso não é surpreendente, uma vez que a mudança dos paradigmas sociais soviéticos para os princípios burgueses precisam enquadrar-se na lógica das “reformas” que abarcam todas as áreas da atividade humana. Pela mudança do sistema social soviético para um modelo americano-liberal protestante, os “engenheiros” do pós-comunismo estão tentando construir um tipo de “novo-russo”, o que significa uma transformação profunda a nível psicológico, no que tange à sexologia e até mesmo em sentido antropológico, no significado amplo desse termo. Então, acompanhado de “chocolates Snickers” e Mickey Mouse, chega em nossa realidade social Freud e um grupo suspeito de seus seguidores. No nível da psicanálise, conduzido de forma a aniquilar o antigo inconsciente, o processo ocorre de uma maneira brutal, rápida e de maneira proposital, como em todas as outras áreas.

Após o terror da psiquiatria soviética materialista, mecânica e brutal que trata a psique humana em termos próximos ao léxico do Professor Pavlov, agora se introduz um novo modelo para a psicanálise, que pretende tratar com seriedade e de maneira atenciosa a área da psique humana. Ainda que a “psiquiatria materialista” soviética fosse repugnante e cínica, o perigo ao qual nosso povo está exposto através do uso da metodologia freudiana é claramente mais sério e terrível. Afinal, o materialismo é tão indiferente ao mundo interior do homem (cuja existência ele praticamente nega) que adaptar-se a ele não foi tão difícil por sua agressão direta. Mas quando se trata da psicanálise e suas técnicas, a mente é submetida a uma violência muito mais sofisticada, que é muito mais difícil de representar.

Essas reflexões nos levam a considerar o problema da psicanálise em termos tradicionais, que por si mesmos podem dar uma ideia adequada de uma estrutura espiritual completa do ser humano e ao mesmo tempo expor as maquinações traiçoeiras do “inimigo humano”.

As revelações de René Guénon

Em sua obra “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos” René Guénon formulou a base para a crítica das visões psicanalíticas. Vamos examinar a premissa básica que Guénon aplicou a essa área.

Em primeiro lugar, Guénon percebeu nos psicanalistas modernos e psicólogos em geral, que “há uma estranha contradição à medida que eles continuam a considerar elementos pertencentes inegavelmente à ordem sutil (“l’ordre subtil”), de um ponto de vista puramente materialista, isso é, sem dúvida, o resultado de uma educação materialista prévia.”. Aqui, em outras questões relacionadas à alma humana, até os representantes mais “avant-guarde” da ciência moderna não são capazes de se desvencilhar dos preconceitos materialistas peculiares ao ingênuo otimismo mecanicista dos séculos XVIII e XIX. Guénon destaca que “Freud, o fundador da ‘psicanálise’, sempre reiterou que permaneceu sendo materialista”. Nesse caso nós estamos tratando de um “materialismo transposto”, isto é, com a transferência para a esfera das leis da mente daquilo que é peculiar unicamente ao mundo corpóreo. Em outros livros Guénon apontou a uma abordagem similar na maioria das doutrinas neoespiritualistas, que misturam tradição com um conteúdo técnico e considerações científicas vulgares, compreendidos apenas em partes (o clímax dessa tendência é encontrado nos trabalhos sobre “UFO” e “indivíduos extrassensitivos”).

Em seguida, Guénon chama a atenção para o uso contínuo do termo “inconsciente” enquanto aplicado para a compreensão da realidade psíquica. Ao mesmo tempo ele percebe a “demonstração de interesse pela continuação da realidade psíquica exclusivamente em regiões inferiores, que corresponde ao homem e às ‘quebras’ nos ambientes espaciais, onde penetram os efeitos mais ‘negativos’ do mundo sutil, com máxima precisão refletida no termo ‘infernal’ (em latim, a palavra se refere à ‘inferior’ e ‘inferno’).”.

“A natureza satânica [da psicanálise] - escreve Guénon – é revelada claramente na interpretação psicanalítica do simbolismo”. O simbolismo autêntico, do ponto de vista da tradição, possui uma natureza sobre-humana, revelando-se através de uma doutrina sacramental completa ou de específicas visões e sonhos proféticos e iniciáticos. Se de uma maneira geral a psicanálise e a psicologia antes de Freud sugeria uma interpretação profana e distorcida do simbolismo, reduzindo-a a um nível puramente humano, depois do Freud os caracteres interpretados tornaram-se ainda menos adequados – em um sentido “infra-humano” e “infernal”. Da simples redução da psicanálise ele passou a uma completa anulação de suas proporções normais. O símbolo para os freudianos é algo puramente “infernal”, grotesco e satânico. A própria natureza repugnante e cínica das interpretações freudianas servem como uma indicação do “selo” do diabo, se as pessoas não fossem tão cegas e indiferentes à nossa época obscura.

“Psicanalistas (e espiritualistas) são geralmente incapazes de reconhecer a verdadeira natureza do que fazem. Mas ambos são conduzidos por certa vontade destrutiva, usando uma força muito similar, senão idêntica, como no caso da psicanálise e espiritualistas. Ainda que ninguém possua especificamente essa vontade, os seus porta-vozes ativos reproduzem bem a sua tarefa central, enquanto todos os outros instrumentos são inconscientes e nem sequer imaginam a qual propósito eles servem.”

Guénon alerta que “o uso da psicanálise para propósitos terapêuticos é extremamente perigoso para aqueles que ocupam o lugar de pacientes, e para aqueles que ocupam o lugar de doutores, pois não é possível entrar em contato com tais forças e permanecer impune.”. Considerando que a pessoa buscando o atendimento do analista deve ser uma criatura fraca, por definição, será quase impossível resistir à “destruição psicológica” provocada na alma humana. “Essa pessoa possui todas as possibilidades de perecer de maneira irremediável no caos das forças obscuras que foram trazidas à superfície inadvertidamente. Ainda que ela seja capaz de superar esse caos, ele ainda preservará sua marca até o fim de sua vida como uma mancha indelével.”.

Guénon contrapôs os autores que associaram a psicanálise à ritos de iniciação tradicionais, que são necessariamente utilizados em uma “condescendência ao inferno” simbólica. “Só é possível falar de uma paródia profana dessa ‘condescendência ao inferno’ – visto que o propósito e o tema dessas ações são completamente diferentes, e além disso, na psicanálise não há o menor traço da ascensão subsequente, que constitui a segunda fase da iniciação. Pelo contrário, a psicanálise corresponde à ‘queda no pântano’.” Sabe-se que o “pântano” estava localizado na antiga estrada para os Campos Elísios, onde os profanos caíam, aqueles que reivindicavam a iniciação não possuindo as qualidades apropriadas e tornando-se vítima de sua própria negligência. Esse “pântano” existe tanto a nível microcósmico como a nível macrocósmico e na linguagem dos evangelhos é chamado de “extrema escuridão”. “Se a ‘descida ao inferno’ significa a exaustão da substância ativa de alguma capacidade inferior para a ascensão subsequente em direção às esferas superiores, a ‘queda no pântano’ é uma vitória completa da capacidade inferior do ser, a sua dominação sobre ele e eventualmente a sua completa absorção.”.

Finalmente, a última consideração importante colocada por Guénon está relacionada à especificidade da “transmissão psicanalítica” uma vez que se sabe que todo psicanalista deve submeter-se à psicanálise antes de aplicá-la a outrem. Esse fato confirma que “pessoas afetadas pela psicanálise nunca permanecem sendo o que elas eram antes”. “O teste desse método produz na pessoa uma marca indelével, como a iniciação, com a única diferença que a iniciação é orientada em direção ascendente para o desenvolvimento de capacidades espirituais, e a psicanálise, por outro lado, abre o caminho para o desenvolvimento de forças infra-humanas. Nós estamos lidando com uma simulação de transmissão iniciática, e mais do que qualquer coisa lembra a transmissão praticada pela feitiçaria e bruxaria.”. Guénon aponta que não se sabe claramente como se deu a transmissão -para outros- de algo que os fundadores da psicanálise devem ter recebido de algum lugar. Quem “persuadiu” Freud a seguir por esse campo obscuro ainda não está claro. No entanto, independente disso, Guénon aponta o fato de que todo o conteúdo da psicanálise é quase uma analogia completa aos rituais obscuros relacionados à “adoração do diabo”. Portanto, é necessário buscar algo nessa área.

Freud e a demônia Lilith

Agora nós iremos abordar esse aspecto da doutrina freudiana, associado não só com a perversão da tradição, mas com o destaque que ele outorga ao sexo. Aqui, da mesma forma, nos encontramos frente a uma tendência muito dúbia que não só exalta o sexo como base para a interpretação das atividades psicofísicas, mas também impõem de maneira implícita um entendimento muito específico acerca do erotismo, elevando-a como a norma. Descrevendo as estruturas do inconsciente, Freud identifica duas categorias como tendências básicas – Eros e Thanatos. O “eros”, no entanto, é entendido como um vago e constante desejo-tensão sem um objeto particular em questão e nem uma orientação clara e nem mesmo um sentido. A descrição detalhada de “eros” não é algo universal, mas descreve um tipo muito especial de sexualidade, erotismo como exclusivamente feminino, sintomas descritos em detalhe por Bachofen, e mais tarde por Weininger e Evola. “Eros”, para Freud, é uma cópia carbono da experiência psicológica das antigas culturas matriarcais, vestígios psíquicos que em realidade foram preservados pela humanidade na forma de “resíduos”; elementos residuais do inconsciente.

Explorando a sexualidade humana, Freud sustenta a ideia de que o eros matriarcal é oprimido, soterrado por um complexo patriarcal, associado com a percepção e imperativos éticos. Em outras palavras, ele parece negar a sexualidade masculina, patriarcal, descrevendo-a em termos de “repressão”, “complexo”, “violência”, etc. Freud elaborou o mapa do inconsciente, e em meio a sexualidade matriarcal, o identificou com o “eros” como tal, o outro polo – “Thanatos”, ou seja, “morte”. É absolutamente característico que a morte de Freud era compreendida de uma maneira radicalmente materialista, como uma destruição final e completa, como a destruição total do corpo psicofísico do homem. O próprio Freud descreveu a relação entre “eros” e “Thanatos” de uma maneira vaga, no entanto, é possível ver entre esses dois polos uma unidade dialética antagônica. Parece que no seu entendimento “eros” é uma exaltação dinâmica dos desejos subconscientes dispersados, a sua máxima intensidade, enquanto Thanatos é, pelo contrário, o desejo por tranquilidade, um relaxamento da tensão erótica em estagnação e o congelamento da energia sexual. A unidade deles pode ser vista em sua natureza comum, enraizada nas experiências profundas do inconsciente, nas regiões autônomas inferiores da psique, onde a divisão entre o movimento e a imobilidade é confusa, incerta e “flutuante”, onde a “existência” e a “não existência” encontram-se em leve transição uma em relação à outra.

E ainda, para Freud, esses dois termos consistem uma débil axiologia de valores “hierárquicos”. “Eros”, a intensidade de impulsos erótico-matriarcais dispersos, é apresentado como algo potencialmente “positivo”, enquanto “Thanatos”, a completa calma do subconsciente, é retratado como algo negativo. Mas a origem positiva do “eros” matriarcal está em luta constante com níveis elevados da psique, contra a consciência, o sentido do “eu”, etc. É como se esses níveis estivessem oprimidos pelo elemento de “desejo”, decomposto e fragmentado, martelando continuamente as experiências eróticas subconscientes que emergem contra as regiões estáticas do “Thanatos”. Nas vicissitudes dessa luta, Freud compreendia os sonhos, reservas, doença mental, cultura, e até mesmo religião e mitologia. Nesse processo, ele destaca várias nuances, introduz um número específico de termos, formula alguns princípios terapêuticos de psicanálise. Porém, a essência de sua visão de mundo está relacionada à aprovação da centralidade de uma sexualidade puramente “feminina” (femínea em sua qualidade interior, não porque ele prestava atenção especial ao sexo em suas concepções), que deve ser “libertada” da gélida opressão da “subjetividade consciente”, “vestígios de patriarcado”, de acordo com Freud, cheios de “thanatosfilia”.

Esse conjunto de valores da doutrina freudiana, a “sexualidade matriarcal”, corresponde exatamente à tese central de Guénon em sua crítica à psicanálise. De fato, o mundo da “extrema escuridão”, as regiões psíquicas sutis, próximas à fronteira inferior do inferno, sempre descritas na tradição como “o reino das mães”, a região da “Grande Mãe”, como os mundos de “demônios femininos”, as “amazonas”, “rainhas subterrâneas”, etc. Nas doutrinas gnósticas elas são descritas como “mundos das mães”, regiões de “Achamoth”, o Éon feminino, que, habitando no dia da criação, seguindo o exemplo do Paraíso, tenta gerar os mundos por partenogênese. Mas a imitação da criação feita pelo “Éon feminino” falha: Achamoth consegue criar apenas monstros e aberrações, como o seu potencial plástico criativo não está fertilizado pelo divino; Homem de poder celestial, o Anthropos de Luz. Na tradição judaica, a realidade descrita por Freud como “eros” está unicamente correlacionada com a demônia Lilith, a primeira “esposa de Adão”, que acabou sendo “desafortunada” e foi expulsa para a região dos sonhos, pesadelos e visões do mal. Note que a mitologia associada com Lilith no Talmud e na Cabala possui muitos paralelos com os principais temas do freudismo.

Nós devemos citar a observação feita por Guénon em uma nota de rodapé no texto dedicado à crítica da psicanálise. Guénon aponta o fato de que os maiores teóricos da perversão intelectual moderna pertencem ao povo judaico (além de Freud, ele também menciona Bergson e Einstein). Do ponto de vista de Guénon, isso se deve ao fato de que o “judaísmo” possui a tendência da “civilização nômade”, separada de tradições ortodoxas no mundo moderno ela expressa impulsos puramente negativos, corruptores e sombrios, destinada a obscurecer completamente as reminiscências da estrutura tradicional da civilização, preservada pela inércia desde a Idade Média. Guénon chama esses impulsos de “nomadisme devie”, isto é “nomadismo pervertido”. Então, é possível correlacionar o erotismo “matriarcal” freudiano às especificidades de sua identidade étnica, fora das formas religiosas ortodoxas.

Em outro contexto, esse ponto de vista é confirmado por completo pelos estudos de Weininger, que em seu livro “Sexo e Caráter” identifica exclusivamente o tipo psicológico “judeu” e “judaico”, em sua totalidade, com uma psicologia puramente feminina. Weininger descreve a fórmula em sua forma radical - “no judeu, assim como na mulher, a personalidade é completamente ausente” ou “um verdadeiro judeu, como uma mulher, está desprovido de seu próprio Eu” ou “o judeu absoluto não possui alma”. Weininger, partindo de observações psicológicas da vida judaica em seu cotidiano, na política, na arte, etc. (é preciso destacar que ele era um judeu, então o seu testemunho não pode ser atribuído a um antissemitismo vulgar), carrega uma compreensão das especificidades da psicanálise freudiana como uma doutrina que canoniza especialmente como feminina a especificidade erótica que complementa e confirma a tese da orientação “matriarcal” do “Eros” no entendimento de Freud. Também é interessante que Carl Gustav Jung, discípulo de Freud, chegou à conclusão sobre a identidade nacional do freudismo e a distinguiu da psicanálise, que é baseada em um estudo do “inconsciente” não judeu. Em um comentário ao “Livro dos Mortos” tibetano Jung alude ao fato de que o freudismo apela somente para as regiões mais baixas do “inconsciente”, associadas com a inclinação primária e vegetativa ao coito, deixando a ampla vida mental, todos os arquétipos, imagens e a estrutura do “inconsciente” esquecidos atrás dos bastidores. Antes da Segunda Guerra Mundial, Jung até mesmo escreveu sobre dois tipos de inconscientes coletivos – o “Ariano” e o “Judaico” (mais tarde, talvez por razões políticas, ele não tratou desse tema). De qualquer forma, a opinião de Jung corresponde exatamente à máxima escrita por Weininger de que “judeus não possuem alma”, e “o judeu em sua base profunda não possui nada”.

É preciso acrescentar como uma hipótese acerca das origens misteriosas da psicanálise, como aponta Guénon, que de acordo com seus biógrafos, Sigmund Freud era um membro de círculos iniciáticos maçônicos, conhecidos como a loja “B’nai B’rith” e foi aí que, aparentemente, as suas experiências iniciais o marcaram com o epigrafo de Virgílio (“Eneida”) para “Interpretação dos sonhos” – “Flectere si nequeos súperos, Acheronta movebo” (“Não sendo capaz de adentrar os domínios elevados, eu me dirigi ao Aqueronte”). Aqueronte – um rio subterrâneo na mitologia grega, separando o mundo dos vivos do mundo das sombras, o mundo dos mortos. A “travessia” significa literalmente descender ao inferno. É um tipo de prática “contra-iniciática”, que estabelece um relacionamento entre o homem e o mundo da “extrema escuridão”, “o mundo de Lilith” ou o “lado esquerdo”, o nome da realidade correspondente no “Zohar”, o principal livro da Cabala.

A revolução sexual do homem

Um olhar imparcial à psicanálise de Freud nos leva à conclusão de que um ligeiro desvio em direção a essa realidade sinistra e sem recuperação da sexualidade pessoal pode dar lugar a uma imersão em áreas perigosas do “baixo psiquismo”, o mundo das mães subterrâneas do qual não se pode retornar. Mas ao mesmo tempo não se pode negar o problema em si mesmo, que consiste em uma desestabilização progressiva da sexualidade humana, nas crescentes frustrações e complexos enraizados no erotismo. O caminho da psicanálise é “liberar”, especialmente as energias femininas que se encontram vibrando aleatoriamente nas baixas regiões da psique. Obviamente, essa liberação não pode curar nem uma mulher, assim como no mito gnóstico de Acamoth, o Éon feminino criava somente monstros e aberrações sem a participação da masculinidade. E ainda, a emancipação do “erotismo matriarcal” não leva a nada, a não ser patologias culturais, artísticas e até mesmo políticas. (É digno de nota que entre os políticos do período pós-perestroika haviam muitos do tipo “feminino”, o que era frequentemente acompanhado por sua identidade nacional específica). Mas qual é a alternativa? Quais orientações eróticas devem ser aceitas como a norma?

A crise da sexualidade reflete uma crise mais abrangente na civilização moderna e ao nível da sexualidade ela manifesta um processo de degradação humana e social mais amplo e profundo. A própria crise é uma consequência da quebra com a tradição assim como os problemas eróticos dos homens modernos, consequência da perda da postura tradicional perante o gênero e a realidade sexual.

Toda tradição integral está baseada na centralidade do sol, o agente ativo, a luz dos princípios espirituais, e o principal condutor foi considerado sempre um homem. Assim como a restauração da tradição significaria inevitavelmente a aprovação do espiritual sobre o material, o Sagrado sobre o profano, da mesma forma, o caminho da reabilitação sexual só pode ocorrer através da aprovação da primazia e centralidade do erotismo masculino, que manifesta o princípio formativo; solar e apolíneo. O erotismo masculino cria um eixo existencial e espiritual, organizando e orientando a potência dispersa do desejo feminino. O homem define de maneira estrita o sujeito e o objeto do desejo, estabelece a distância ética e proporções estéticas, e é consciente da sacralidade da energia do grande amor, dos raios resplandecentes do sol espiritual. É claro, erotismo masculino de fato suprime os impulsos caóticos do subconsciente, ele compele uma descarga de energia a resignar-se e a ordem não pode deixar de causar alguma inconveniência a esses poderes psíquicos. Porém, o abuso do eros “matriarcal” por parte de um homem (tanto interno como externo) não é, ao contrário do que diz Freud, “thanatosphilia” e “sistemas de poder”. Isso é, pelo contrário, a transformação dos poderes imanentes da alma, a sua “angelificação”, sua sacralização. É o limite, que coloca um fim ao caos erótico do homem, não é a insignificante “Thanatos” da psicanálise. É o ato de criação, criatividade, energia, a direção da ação heroica, em quaisquer de suas manifestações – no ascetismo religioso, no amor passional, no esforço intelectual, na arte da guerra, ou na criatividade.

Freud buscava dissolver o eixo do erotismo masculino, utilizando as “águas profundas” do erotismo matriarcal. Nesse sentido, o “Pântano Eleusino” não é apenas um homem sujeito à castração, mas a mulher condenada ao papel do estéril Achamoth gnóstico. Frustração, complexos e alienação não desaparecem. Psicanalistas apenas ensinam a perceber o caos sem propósito do desejo insatisfeito como a fonte de “prazeres fictícios”. Dificilmente será necessário provar que isso é uma ilusão psicológica. Através da destruição do homem, distorcendo e representando de maneira errônea o seu erotismo especial, positivo e criativo, os seguidores de Freud não estão satisfeitos com uma “revolução sexual”, mas com um mundo radicalmente “dessexualizado”. Endossando perversão, patologia, homossexualismo, impulsos incestuosos e pornografia, etc. Os adeptos da psicanálise baniram definitivamente da realidade social o “princípio fálico”, a figura do Herói, o homem solar, a autêntica entidade heroica e, ao mesmo tempo, a fonte desse prazer. A mania pelo “erotismo” leva à irreversível perda desse erotismo. Tem-se observado a tempos que a remoção dos tabus sexuais em alguns países europeus levou à uma nítida redução nas relações sexuais entre as pessoas. Isso é uma espécie de ironia infernal do “Mundo de Lilith” – as pessoas são enganadas; a demônia predadora e a sua corte intentam de maneira egoísta guardar a energia do desejo humano unicamente para eles mesmos, para as criaturas “vampíricas” do mundo sutil.

A alternativa em relação à “escuridão” freudiana – o retorno dos homens, na revolução do herói fálico contra a degeneração moderna, no retorno do sacramento do sexo em todo o seu escopo sagrado. Os homens de verdade sentem repúdio pelo espírito sujo da civilização baseada no “nomadismo perverso”. É improvável que os verdadeiros heróis estão dispostos a viver em um mundo designado por aqueles “que não possuem alma” e nem “o próprio si mesmo” (Weininger).

É evidente que as primeiras vítimas dessa revolução devem ser os arautos dos “Pântanos Eleusinos”, os psicanalistas-sabotadores, agentes secretos do “exército do Dr. Freud”, servos do “lado esquerdo” e da “extrema escuridão do mundo”, sejam conscientes ou inconscientes disso.

*Tradução: Maurício Oltramari

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Sobre a natureza das relações entre os débeis e os fortes


Por Marcelo Gullo* - esboço para a construção de uma teoria crítica das Relações Internacionais

Palavras-chave: Teoria crítica das relações internacionais, Política externa, Política econômica, Subordinação ideológica, Impulso estatal, Insubordinação fundante.

Introdução

Como nossos jovens universitários desde o México até Buenos Aires, desde Lima até o Rio de Janeiro, estudam as relações internacionais? Quais textos utilizam? Embora existam distintos enfoques e programas - com efeito dada a existência de numerosas casas de altos estudos -, alguns mais tradicionais, outros mais modernos, alguns mais teóricos, outros mais práticos, os textos que são utilizados, salvo contadas exceções, são os dos grandes estudiosos norteamericanos e europeus que conceberam seus ensaios a partir de meados do século XX.

O primeiro aspecto negativo desta questão é que isso deixou uma grande região de obscuridade relativa no estudo das relações internacionais: o funcionamento da hierarquia internacional, ou se se prefere, da natureza das relações entre os fracos e os fortes. Por este motivo, o objetivo principal deste trabalho é tratar de iluminar, ainda que parcialmente, esta região obscura. Nesta tarefa nos concentramos principalmente neste escrito deixando de lado - intencionalmente -, importantíssimos temas que não poderiam ser tratados nestas poucas páginas.

O segundo aspecto negativo é que se continua formando jovens gerações sem portá-los com uma bagagem crítica e complementária. Em raras ocasiões os jovens são advertidos de que as relações internacionais não podem ser consideradas uma ciência pura, ou seja, descontaminada e resguardada dos vai-véns da história e da "facticidade". Tampouco são advertidos de que não é possível realizar uma "aproximação objetiva", se por isto se entende a carência de toda projeção ou influência de valores (pessoais e sociais), sobre os investigadores, as teorias ou os sistemas; e que tampouco há "consideração desinteressada", porque nada mais interessado e situado do que o sujeito humano.

Importa precisar que: "O século XXI começou com uma mescla mortal de incerteza, mistificação e ainda dogmatismo ideológico, junto a visíveis tentativas de novas ordens estratégicas, onde o antigo e persistente jogo da dominação se expressa em relações de poderio recentes e mais complexos"[1]. A globalização comunicacional e econômica agigantou os jogos do poder e os fatos demonstram que "o problema e as práticas de dominação não só subsistem, mas que tendem a se acentuar conflitiva e desordenadamente... tecnológica e comunicacionalmente ampliadas, o ameaçador jogo entre a dominação e a liberação contínua sem pausa na milenar trajetória"[2].

É por isso que uma das tarefas primordiais dos trabalhadores da cultura, entre eles os professores de relações internacionais, nas regiões subordinadas, deveria consistir em "desembaraçar as ideologias dos sistemas centrais, enquanto elas representam forças e instrumentos de dominação. Mas a realização cabal desta tarefa pressupõe, por sua vez, a construção e o uso de um instrumento adequado: necessitamos, pois, de uma nova ciência do pensar, isto é, de uma epistemologia própria"[3].

Devemos então pensar desde o "universal situado", realizar uma leitura das relações internacionais "culturalmente situada"[4]. Não renunciamos [a tarefa de] explicar o sistema em seu conjunto, não renunciamos a pretensão de universalidade do conhecimento, nem estamos dispostos a assumir uma posição relativista. Uma "universalidade situada" supõe que miremos, observemos, sempre, desde um ângulo. Não se pode nunca ver todos os ângulos ao mesmo tempo. Sempre vemos em perspectiva e o lugar desde onde miramos e observamos gera categorias. Conclui-se, então, que necessitamos um corpus epistêmico que permite dar conta de nossa perspectiva, mas é preciso advertir que os corpus epistêmicos não se pagam nem se alugam, se constroem.

Seguindo o pensamento de Mario Casalla cremos que: "Toda reflexão está situada e é desde essa situação concreta a partir da qual se estabelecem e se abordam os denominados fatos. Trata-se assim de uma dupla situacionalidade: a do investigador diante do fato (hecho: no duplo sentido que esta palavra tem) e a deste fato em si. Não há investigadores nem fatos isolados e o problema da busca da pureza ou da objetividade - no sentido quase religioso com que este termo é pronunciado no credo positivista e neopositivista - é tão ingênuo quanto impossível... todo pensar (adverte-se ou não; assuma-se ou não se assuma) é um pensar de e desde uma situação (por sua vez, pessoal e histórica), e que esta o realimenta permanentemente. Isso não significa, nem sequer aproximadamente, que o 'fato' em particular deva ser substituído por uma situação que o acompanha. Muito pelo contrário, o que queremos significar é a impossibilidade de abster da situação, de fechar o meio - sem mais e sob o digno manto do 'rigor científico' - à estrutura dentro da qual algo é o que é".[5]

Todo estudioso das relações internacionais pensa e escreve (assuma ou não assuma) desde uma região subordinante ou uma região subordinada, e sua produção intelectual (advirta ou não advirta) pode servir para perpetrar a situação de subordinação ou para superá-la.[6]

A estas alturas do nosso raciocínio devemos esclarecer que, para realizar uma "leitura culturalmente situada" do pensamento produzido no marco das relações internacionais como disciplina de estudo, devemos precisar que "a situação não é o conjunto pré-fabricado de circunstâncias que rodeiam o fato (uma obra, um autor, uma ideia)... situar um pensamento é compreendê-lo dentro daquela estrutura histórica (quer dizer, não é meramente formal) em relação com a qual este se expressa e dentro da qual adquire sua especificidade".[7]

Todo o pensamento produzido no marco das relações internacionais como disciplina científica é um discurso situado, isto significa que: todo pensamento é um discurso de uma determinada situação, tanto como transcendência e vontade de superação. "O pensamento é, assim, um modo determinado da práxis - nunca, portanto, simplesmente teórico ou puro -. E, assim como a situação não é uma estrutura formal, tampouco é um tipo de ente 'explicatio' que 0 desde o 'geral' - dá conta do particular. Nem as 'condições objetivas' que certo positivismo e marxismo (do século passado, mas também deste) aludem quando desejam explicar porque as coisas sucedem tal como sucedem. Aquele jogo que descrevemos de totalização e transcendência, de singularidade e alteridade, de vai-vem entre o fático e o hipotético, não pode ser reduzido a um universalismo, transcendentalismo, nem estruturalismo de nova ou velha espécie".[8]

É por tudo que fora exposta que, este esboço a uma teoria crítica das relações internacionais, tenta ser um pensar desde nossa situação de subordinação, uma tentativa de refletir desde nosso estar e desde nosso ser. Um pensar as relações internacionais desde uma região subordinada, convencidos de que, como sustentava Stanley Hoffmann: "... nascida e formada na América do Norte, a disciplina das relações internacionais está, por assim dizer, demasiado próxima do fogo" E que: ".... necessita uma tripla distância: deveria se afastar do contemporâneo rumo ao passado; afastar-se da impossível busca da estabilidade; abandonar a ciência política e retomar a empinada ascensão rumo aos altos picos que os interrogadores levantados pela filosofia política tradicional significam".[9]

Na mesma linha de reflexão de Stanley Hoffmann, Miguel Barrios sustenta que: "as Relações Internacionais em seu caráter de disciplina, de forte raiz anglo-saxã, se consolidam universitariamente associadas à hegemonia dos EUA e à visão cultural norteamericana, desconhecendo ou abordando secundariamente, ou melhor dizendo, desconhecendo as contribuições filosóficas e teóricas de outras correntes do pensamento internacional, que vêm desde a antiguidade ou do Direito das Gentes da escolástica, ou da geopolítica, inerente à ação e estratégia dos Estados."[10]

Nos propomos, então, pelas razões expostas, estudar histórica e analiticamente as relações internacionais da perspectiva de uma região subordinada. Somos conscientes de que, para analisar o passado, para compreender os processos em andamento e para projetar hipóteses sobre o futuro, é-nos necessário um sistema apropriado de categorias que não pode ser em um todo - pelas razões expostas pelo mesmo Hoffmann - elaborado nos altos centros de excelência dos países subordinante. Consideramos preciso esclarecer que nossa respeitosa, porém irrenunciável, visão crítica não implica em geral nem o desconhecimento nem o rechaço em bloco da produção intelectual realizada nos países subordinantes - particularmente a produzida nos Estados Unidos, lugar de nascimento das relações internacionais como disciplina de estudo, mas a análise crítica e uma leitura culturalmente situada de tal produção intelectual. A necessidade de uma postura crítica nos parece tão mais necessária quanto, comumente, fora dos Estados Unidos, como também destaca Hoffmann, os especialistas em relações internacionais tendem, com demasiada frequência, a refletir mais ou menos servilmente e com algum atraso as "modas" norteamericanas - os debates e as categorias de análise em voga - e ao fazê-lo, refletem, e servem também, ao interesse político dos Estados Unidos, dada a conexão existente em tal país entre o mundo acadêmico e o mundo do poder, que coloca grande número de acadêmicos e investigadores não meramente nos "salões" do poder, mas também na "cozinha" do poder.[11]

Importa destacar que o ato reflexivo dos especialistas em relações internacionais fora dos Estados Unidos de seguir os debates e as categorias de "moda" nesse país dá, também, como resultado "malhas curriculares, especialmente em Teoria das Relações Internacionais, de uma narração caótica, descontextualizada, sem tempo-espaço e menos com um fio conceitual, exceto a narração. E a novidade incessante da "aparição" de novas "teorias" que formam parte da narração continua, e são abordadas como se se tratasse da teoria da relatividade de Einstein. Basta observar brevemente a temática na América Latina dos Congressos de Relações Internacionais e Ciência Política para comprovar o que foi dito. Sempre uma hierarquização positivista, é tácita a seus programas" [12]. Bruscamente salienta Barrios que, na Iberoamérica, para qualquer cientista das relações internacionais, o não se submeter aos debates e categorias de moda, nem a suas premissas tácitas "pode conduzir ao isolamento do sistema meritocrático científico."[13]

Devemos precisar também que, ao tentar elaborar um esboço para uma teoria crítica das relações internacionais, somos plenamente conscientes de que Raymond Aron demonstrou, com segurança e há já muitos anos, que nenhum teórico das relações internacionais poderá, jamais, chegar à elaboração de leis gerais que façam possível a predição e que é pouco o que se pode fazer além de tratar de tornar inteligível o campo de análise, mediante a definição de conceitos básicos, mediante a análise de configurações essenciais e o esboço das características de uma lógica constante de comportamento.

É preciso esclarecer, por último, que quando nos referimos a que um Estado é um Estado subordinado a outro não fazemos referência a sua posição econômica, mas a uma situação de poder. Os termos Estado subordinado e Estado subordinante não são estritamente sinônimos de Estado subdesenvolvido e Estado desenvolvido. Ainda que exista, logicamente, uma relação entre subdesenvolvimento e subordinação, um Estado desenvolvido por ser um Estado subordinado. O desenvolvimento - industrial e científico-tecnológico - é um requisito indispensável para sair estruturalmente da situação de subordinação, mas não é condição suficiente para não ser um Estado subordinado. Se é um Estado subordinado, um Estado autônomo ou um Estado subordinante não só pelo grau de desenvolvimento industrial e tecnológico alcançado, mas pelo poder que se tem.[14] Assim um Estado desenvolvido - em termos de capacidade industrial e produção de tecnologia - que perde poder pode passar, lenta ou vertiginosamente, a converter-se em um Estado subordinado.

O Estado francês é, nesse sentido, um exemplo paradigmático, deixou de ser um Estado subordinante - parte do núcleo do centro do poder mundial - durante ps séculos XVIII e XIX para converter-se, depois da Segunda Guerra Mundial, em um Estado subordinado dentro do sistema internacional para voltar a alcançar, paulatinamente, uma situação de autonomia nacional com a chegada ao governo do General De Gaulle em 1958, até princípios do século XXI quando começa a se deslizar, novamente, para uma situação de subordinação privilegiada.[15]

Estamos vivendo tempos interessantes, tão interessantes que o ter se convertido o processo de integração da Europa, depois da criação do Euro, em um processo de "integração satelizante", , vemos aparecer dentro da própria Europa Estados subordinantes e Estados subordinados. Vemos se deslizar lentamente Portugal, Itália, Grécia e Espanha para uma situação de subordinação, que pareceria irreversível. Dessa forma estas linhas que teriam como destinatários principais os homens e mulheres dos Estados subordinados da América do Sul sejam quiçá também de utilidade para os homens e mulheres dos novos Estados subordinados da Europa.

A principal característica do sistema internacional

A principal característica do sistema internacional, como sustenta Raymond Aron (1905-1983), reside no fato de que as unidades políticas que o integram se esforçam em impor, umas às outras, sua vontade.[16] A Política Internacional comporta, sempre, um conflito de vontades: vontade para impor ou vontade para não se deixar impor, a vontade do outro.

Importa ressaltar que uma unidade política para resistir à imposição da vontade de outra unidade política só pode contar, em última instância, com suas próprias forças, pois da simples observação objetiva do cenário internacional se conclui que o direito internacional é uma teia de aranha que captura a mosca mais fraca, mas que deixa passar, sempre, a mosca mais forte.[17] Não é o direito internacional o fator principal que inibe que as unidades políticas mais poderosas que integram o sistema internacional utilizem a força para impor sua vontade, mas a simples equação custo-benefício tanto a nível interno como externo. No cenário internacional, o poder é será, sempre, a medida de todas as coisas. Os Estados não são iguais uns aos outros simplesmente porque alguns têm mais poder que outros e o princípio de igualdade jurídica dos Estados, proclamado pelo Direito Internacional, é uma ficção jurídica que apenas serve a fins decorativos. Afirmar que, no cenário internacional, o poder é a medida de todas as coisas não implica postular a ausência de limites como um ideal e uma regra de conduta para os Estados, nem desconhecer a importância da mortal internacional a opinião pública internacional e o Direito Internacional como limitações do poder dos Estados, mas antes reconhecer que a "proximidade" desapareceu do quadro de valores praticáveis. "A 'proximidade', derivada da parábola do bom samaritano, é de absoluto caráter teológico e só pode ter vigência em um Estado teológico, como historicamente teve no Sacrum Imperium; mas transportada à ordem política secular se troca em um fator de poder, em um instrumento de domínio dos Estados onívoros que deglutem assim os Estados fracos. Não pode haver proximidade com a poderosa ordem temporal, pois é uma lei inexorável que sempre o poderoso termina aniquilando o fraco. A rigor, na ordem política não pode haver amizade, mas sobre a base da igualdade, que se traduz fugazmente no equilíbrio de poder, que sempre dura pouco. Por isso a conduta consequente é a do amigo-inimigo, que prevê uma nação de ingratas surpresas e fomenta sua consciência de autodeterminação".[18]

Pela própria natureza do sistema internacional os Estados com poder tendem a se constituir em Estados líderes ou a se transformar em Estados subordinantes e, por lógica consequência, os Estados desprovidos dos atributos do poder suficiente para manter sua autonomia tendem a se tornar Estados vassalos ou Estados subordinados e, além de que estes Estados conseguem conservar os aspectos formais da soberania, não podem levar adiante, em temas estratégicos ou cruciais, uma política externa nem uma política econômica realmente independente dos desejos da potência hegemônica ou das potências principais que conduzem o sistema. Logicamente existem graus na relação de subordinação, que é uma relação dinâmica e não estática. É importante compreender que a crescente interdependência econômica não anula as relações de subordinação.[19] Os Estados Unidos dependem do petróleo saudita, mas não estão subordinados à Arábia Saudita. Por sua vez, Arábia Saudita, da qual os Estados Unidos depende em grande medida para seu abastecimento de petróleo, está subordinada aos Estados Unidos a tal ponto que, sendo a monarquia saudita a guardiã dos lugares santos do islã, viu-se obrigada, quando os Estados Unidos exigiu, a permitir no solo sagrado do Islã - vedado por mandato religioso a todo exército estrangeiro - a presença massiva do exército norteamericano. A interdependência econômica não altera a divisão fundamental do sistema internacional em Estados subordinantes, Estados subordinados e Estados autônomos.[20]

Tipos ideais do exercício da imposição da vontade

Para impor sua vontade os Estados podem utilizar a ameaça ou o uso da força, a captação de vontades através do suborno, as pressões econômicas ou a subordinação ideológica-cultural.

Poder-se-ia citar milhares de exemplos da ameaça ou o uso da força como meio de imposição da vontade de uma unidade política sobre outra, desde a primeira Guerra do Ópio (1839-1842) pela qual a Grã Bretanha impôs à China a importação legal de Ópio, ou a segunda Guerra do Ópio (1856-1860) através da qual o Segundo Império Francês, o Reino Unido da Grã Bretanha, o Império russo e os Estados Unidos forçaram a abertura ao exterior dos portos chineses, a admissão de delegações estrangeiras em Pequim e a importação legal de ópio; passando pela independência do Texas do México (1836) instigada pelos Estados Unidos; pela guerra dos Estados Unidos contra o México (1846-1848) pela qual o país asteca se viu obrigado a ceder à república norteamericana em torno de dois milhões de quilômetros quadrados; a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) pela qual a Alemanha tomou da França a Alsácia e Lorena; a Guerra do Pacífico (1879-1883) através da qual a República do Chile arrebatou da República da Bolívia 400 quilômetros de litoral marítimo e do Peru a província de Arica; a ocupação dos Sudetos pela Alemanha nazista (1938); a intervenção soviética na Hungria (1956) e na Tchecoslováquia (1968); a ocupação norteamericana da República Dominicana (1965-1966), a invasão soviética do Afeganistão (1979); até os recentes casos da imposição de vontade dos Estados Unidos e da OTAN (1999) contra a Sérvia para dar origem, rompendo a integridade territorial da Sérvia, à República do Kosovo, a invasão dos Estados Unidos no Iraque (2003) para terminar com o regime de Saddam Hussein, e a intervenção da OTAN (2011) para eliminar o líder líbio Muhamar Gaddafi.

Além disso, os casos perfeitamente documentados de imposição da vontade de uma unidade política sobre outra através da captação de vontades por meio do suborno não preencheriam menos páginas que os casos do uso da força. Nessas páginas poder-se-ia citar, por exemplo, desde o pagamento a políticos panamenhos feito pelos Estados Unidos (1903) para que se tornassem independentes da Colômbia, até os subornos, generosamente distribuídos, pela Grã Bretanha (1940) na península ibérica, entre os generais e ministros franquistas, para que Espanha mantivesse sua neutralidade durante a Segunda Guerra Mundial e não aceitasse a proposta alemã de recuperar o penhasco de Gibraltar.[21]

Não obstante, dada a profusa bibliografia existente, não cremos necessário nos deter na explicação do uso da força, do suborno ou da pressão econômica como métodos de imposição, mas sim na subordinação ideológica cultural que, constituindo a forma mais sutil e eficiente a longo prazo que um Estado tem para se impor a outro Estado sua vontade, tem sido, aliás, a menos estudada, mas sobretudo a menos exemplificada - por parte dos especialistas em relações internacionais - de todas as formas de imposição da vontade de uma unidade política sobre outra: a subordinação ideológica.

A subordinação ideológica

Através da subordinação ideológico-cultural - que Hans Morgenthau (1904-1980) denomina como "imperialismo cultural" - o Estado que a aplica como metodologia não pretende a conquista de um território ou o controle da vida econômica, mas o controle das "mentes dos homens" como ferramenta para a modificação das relações de poder: "Se se pudesse imaginar - afirma Hans Morgenthau - a cultura e, mais particularmente, a ideologia política de um Estado A com todos seus objetivos imperialistas concretos em transe de conquistar as mentalidades de todos os cidadãos que fazem a política de um Estado B, observaríamos que o primeiro dos Estados teria alcançado uma vitória mais que completa e teria estabelecido seu domínio sobre uma base mais sólida que a de qualquer conquistador militar ou amo econômico. O Estado A não necessitaria ameaçar com a força militar ou usar pressões econômicas para lograr seus fins. Para isso, a subordinação do Estado B a sua vontade ter-se-ia produzido pela persuasão de uma cultura superior ou pelo maior atrativo de sua filosofia política."[22]

Quer dizer que mediante a subordinação ideológica cultural uma unidade política substitui, para o alcance de seu objetivo de impor sua vontade à outra unidade política, o uso ou ameaça da força - formas eficientes a curto ou médio prazo, mas deficientes a longo prazo - pela sedução e a persuasão.

As políticas destinadas a alcançar a subordinação ideológica -cultural, ou seja, as políticas destinadas a alcançar a imposição dos objetivos de um Estado por meio da sedução foram denominadas, elegantemente, por Joseph Nye, de "poder brando". Sobre isto afirma o próprio Nye: "Há uma forma indireta de exercer o poder. Um país pode obter os resultados que prefere na política mundial porque outros países querem segui-lo ou se juntaram a um sistema que produz tais efeitos. Nesse sentido, é tão importante estabelecer a agenda e estruturar as situações na política mundial como conseguir que os demais mudem em situações particulares. Nesse aspecto do poder - ou seja, conseguir que outros queiram o que um quer - pode se denominar comportamento indireto ou cooptivo de poder. Está em contraposição com o comportamento ativo de poder de mando que consiste em fazer com que os demais façam o que um quer. O poder cooptivo pode descansar na atração das próprias ideias ou na capacidade de planejar a agenda política de tal forma que configure as preferências que os outros manifestam. Os pais de adolescentes sabem que, se estruturaram as crenças e as preferências de seus filhos, seu poder será maior e durará mais, que sozinho descansará no controle ativo. Similarmente, os líderes políticos e os filósofos há muito tempo compreenderam o poder que surge de planejar a agenda e determinar o marco de um debate. A capacidade de estabelecer preferências tende a estar associada com recursos intangíveis de poder tais como a cultura, a ideologia e as instituições. Pode-se pensar esta dimensão como um poder brando, em contraste com o duro poder de mando geralmente associado com recursos tangíveis tais como o poderio militar e econômico."[23]

Subordinação ideológica e insubordinação fundante

Na história das relações internacionais, a primeira unidade política a utilizar de forma sistemática e premeditada a subordinação ideológico-cultural como ferramenta fundamental de sua política externa, para impor sua vontade às outras unidades políticas, foi a Grã Bretanha, apresentando o livre comércio como um princípio científico de caráter universal a Inglaterra conseguiu que as elites de condução da maioria das outras unidades políticas que integravam o sistema internacional fizessem o que a Inglaterra queria, quer dizer, que abrissem suas economias para a livre importação dos produtos industriais britânicos. Tal foi o caso, por exemplo, da elite francesa durante a revolução que, totalmente subordinada ideologicamente, o dia 4 de agosto de 1789 estabeleceu o livre comércio.[24] Caso semelhante se produziu no Rio da Prata, quando a Junta Revolucionária, que em 25 de maio tinha substituído Virrey Cosneros estabelecendo um governo autônomo, em 26 do mesmo mês firmou com o Capitão Charles Montague Fabian, chefe da frota britânica fundada no porto de Buenos Aires, a Ata de Livre Comércio [25].

Uma das questões mais chamativas, mas por sua vez mais ignoradas da história das relações internacionais, refere-se ao fato de que, a partir de sua industrialização, a Grã Bretanha passou a atuar com deliberada duplicidade. Uma coisa era o que efetivamente tinha realizado - e realizava - em matéria de política econômica para se industrializar e progredir industrialmente, e outra aquela que ideologicamente propagava, com Adam Smith e outros porta-vozes. A Inglaterra se apresentava ao mundo como a pátria do livre comércio, como o berço da não intervenção do Estado na economia quando, na realidade, tinha sido, em termos históricos, a pátria do protecionismo econômico e do intervencionismo estatal.[26]

O estudo da história da economia inglesa - afirma Helio Jaguaribe - demonstra que a industrialização britânica, incipiente desde o Renascimento isabelino e fortemente desenvolvido desde fins do século XVIII, com a Revolução Industrial, teve como condição fundamental o estrito protecionismo do mercado doméstico e o conveniente auxílio do Estado ao processo de industrialização. Obtidos para si os bons resultados dessa política, a Grã Bretanha se esmerou em sustentar, para os outros, os princípios do livre comércio e da livre atuação do mercado, condenando, como contraproducente, qualquer política protecionista, por mais tênue que esta fosse. Imprimindo a essa ideologia de preservação de sua hegemonia as aparências de um princípio científico universal de economia, alcançou com êxito persuadir de sua procedência, por um longo tempo (de fato, mas tendo como centro os Estados Unidos, Alemanha e Japão, até os nossos dias), os demais povos que, assim, se constituíram passivamente no mercado para os produtos industriais britânicos e depois para os norteamericanos, alemães e japoneses, permanecendo como simples produtores de matérias primas.[27]

Dessa forma, a subordinação ideológica - nas nações que aceitaram os postulados do livre comércio, como um princípio científico de caráter universal - se constituiu no primeiro passo da cadeia que as atava e condenava ao subdesenvolvimento endêmico e à subordinação política, além de que conseguiram manter os atributos formais da soberania.

A partir de então, para que um processo emancipatório - empreendido por qualquer unidade política submetida à subordinação ideológica britânica - fosse exitoso, deveria partir necessariamente da execução de uma insubordinação fundante, ou seja, do pôr em marcha de uma insubordinação ideológica - consistente no rechaço da ideologia de dominação difundida pela Grã Bretanha: o livre comércio - que deveria ser complementada com a aplicação de um adequado impulso estatal (protecionismo econômico, investimentos públicos, subsídios estatais) que pusesse em marcha o processo de industrialização. Foi, certamente, graças à realização de suas respectivas insubordinações fundantes que os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão conseguiram se industrializar e se converter em países efetivamente autônomos.[28]

Dado que a estratégia de subordinação ideológica adotada pela Inglaterra como principal forma de dominação foi depois continuada pelas outras unidades políticas - Estados Unidos, Alemanha e Japão - que conseguiram, graças à realização de suas próprias insubordinações fundantes, emancipar-se e industrializar-se, resultou então até a atualidade que, necessariamente, pela lógica consequência, todo o processo emancipatório exitoso fosse o produto de uma insubordinação fundante, quer dizer, de uma insubordinação ideológica, mais um adequado impulso estatal.

Certamente a Grã Bretanha e os Estados Unidos não foram as únicas nem as últimas unidades políticas que utilizaram a subordinação ideológica para impor sua vontade a outras unidades políticas, nem o liberalismo e o livre comércio as únicas ideologias utilizadas para lograr a subordinação ideológica cultural. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - depois do deslocamento de Trotsky (1879-1940) por Stalin (1878-1953) e até sua dissolução, em 1990 - utilizou, muito eficientemente, o marxismo-leninismo como ideologia de subordinação. A Universidade Patrick Lumumba, fundada em Moscou em 5 de fevereiro de 1960, cumpriu para a União Soviética a mesma função que a Universidade de Chicago para os Estados Unidos.

Política externa e política econômica

A partir da Revolução Industrial, a política externa da Grã Bretanha teve como um de seus principais objetivos o de impor a outros Estados integrantes do sistema internacional a adoção de um modelo econômico baseado na abertura indiscriminada da economia, ou seja, [de impor] a aceitação absoluta do livre comércio e da teoria da divisão internacional do trabalho. Algo similar a aquilo que, atualmente, fazem os Estados Unidos, a Alemanha ou a França e que, em médio prazo, também fará a República Popular da China. Por lógica consequência o modelo econômico adotado pelos Estados sujeitos à pressão britânica se transformava em um ato de aceitação ou de resistência à vontade da Grã Bretanha como potência hegemônica e, dessa forma, no elemento fundamental da relação com tal potência. Dessa maneira se intrincava a política econômica com a política externa. Isto é, para todo Estado sujeito à pressão britânica, a adoção de um modelo econômico baseado no livre comércio ou no protecionismo econômico era um ato ou uma ação de política externa.

A essência da Política externa em sentido restrito

Em um sentido absolutamente restrito pode-se afirmar que a política externa - por contraposição à política doméstica ou interna - consiste nas ações com finalidade política - sejam estas executadas por órgãos oficiais ou não oficiais, sejam estas visíveis ou encobertas - levadas a cabo pelo Estado fora dos limites de seu território. Para levar a cabo as ações fora de seu território, os Estados contam tanto com instrumentos oficiais quanto com instrumentos não oficiais. Isto é, existem geradores oficiais da política externa - os organismos do Estado - e geradores não oficiais - as empresas privadas, as fundações, as ONGs - da política externa. Importa salientar que as ações de um Estado fora de seu território podem ter um caráter público (visível) ou um caráter secreto (invisível).

A essência da Política externa em um sentido amplo

Recordemos novamente que a hipótese sobre a qual repousam as relações internacionais consiste em que as unidades políticas que integram o sistema internacional sempre se esforcem em impor, umas às outras, sua vontade. Nenhum Estado pode se subtrair do fato fáctico de que a política internacional comporta, sempre, um choque de vontades: vontade para impor ou vontade para não se deixar impor a vontade do outro. Por isso, para qualquer Estado, a política externa implica, sempre, em resolver o interrogante de como vai relacionar-se com o mundo exterior, o como vai se relacionar com os "outros", isto é, com o conjunto de Estados que integram o sistema internacional. Não obstante, é necessário esclarecer que, no cenário internacional, há sempre um "outro principal", isto é, a unidade política que mais poder tem e sempre que uma unidade política se encontra diante de outra unidade política que a supera em poder - deve optar entre a submissão (subordinação) ou a resistência (insubordinação). A submissão implica sempre em abdicar total ou parcialmente da capacidade de decisão própria sobre os assuntos internos ou externos. A subordinação consiste na aceitação, em maior ou menos grau, da vontade da outra unidade política que a supera em poder. A subordinação conduz sempre à dependência. A resistência ou insubordinação implica sempre uma tentativa de pôr limites à vontade da outra unidade política, seja nos assuntos internos do próprio Estado ou no cenário internacional. A insubordinação supõe sempre uma tentativa de preservar a capacidade de decisão própria total ou parcialmente, seja no plano interno ou no externo. A insubordinação ou resistência, quando é exitosa, conduz sempre à autonomia, entendida esta como a máxima capacidade de decisão própria que se pode ter em conta os condicionamentos objetivos do mundo real. É preciso esclarecer, por sua vez, que: entre a dependência total e a autonomia plena há centenas de graus e matizes.

Realismo colaboracionista e realismo liberacionista

Em última análise, dado que, como sustentava Raymond Aron, na relação entre os Estados cada um guarda e reivindica o direito de fazer justiça por suas próprias mãos e o direito de decidir se deseja ou não combater, rege a lógica descrita por Hegel de como nascem os amos e os servos. Em seu "Fenomenologia do Espírito", Hegel descreve como nascem o Senhor e o Servo. Os homens querem ser livres, não estar constrangidos a viver segundo as imposições de outros. Por isso se confrontam entre si em uma luta mortal. Mortal literalmente. Porque vence somente aquele que está disposto a morrer pela liberdade. Quem tem medo e busca assegurar a sobrevivência física se retira e deixa o campo de batalha a mercê do "outro" que se torna, deste modo, o "Senhor" e ele, seu "Servo".

O raciocínio hegeliano pode ser aplicado, por analogia, ao cenário internacional ainda que, certamente, deva ser matizado, dado que o enfrentamento mortal só se produz em uma limitada série de instantes decisivos da história. No cenário internacional existem senhores e servos. Estados subordinantes e Estados subordinados. E para o exercício de seu domínio os Estados subordinantes utilizam tanto o poder militar quanto o poder econômico e o poder cultural. A fim de exemplo digamos que a guerra pela independência, protagonizada pelas treze colônias contra a Inglaterra, foi um destes instantes decisivos da história em que a sentença de Hegel se mostra irrecorrível, onde se vê claramente que só aqueles sujeitos (homens ou Estados) que estão dispostos a morrer por sua liberdade podem ser livres. Não obstante, essa liberdade que as treze colônias conquistaram no campo de batalha tiveram que proteger tanto econômica quanto culturalmente.

Para um Estado subordinado, o querer decidir sobre seu próprio destino implica sempre uma tensão dialética entre o temor às sanções que pode receber e o desejo de alcançar a liberdade - entendida como a máxima capacidade de autonomia possível que é capaz de conquistar. O temor conduz ao realismo colaboracionista ou claudicante, pelo qual o Estado abdica da capacidade de conduzir seu destino, se coloca em uma situação de subordinação passiva, atando sua sorte à boa vontade do Estado subordinante. O desejo de alcançar a capacidade de dirigir seu próprio destino leva ao realismo liberacionista, pelo qual o Estado, partindo da situação real, isto é, do estado de subordinação, decide transformar a realidade para iniciar um processo histórico no transcurso do qual buscará se dotar dos elementos de poder necessários para alcançar a autonomia. Nesse processo de construção da autonomia o primeiro estágio é o da "subordinação ativa".

Os tipos ideais de relação possíveis com a unidade política principal.

Entre uma unidade política e o outro principal (a potência hegemônica ou as potências hegemônicas), pode-se dar quatro tipos ideais de relação possível:

1.) Subordinação passiva
2.) Subordinação ativa
3.) Insubordinação pragmática
4.) Insubordinação revisionista.[29]

O poder levar adiante um ou outro tipo de relação com o outro principal depende sempre de três fatores: a.) da relação de força tanto interna como externa, b.) da margem de manobra internacional, c.) da vontade política da elite de condução.

Importa salientar que a relação de forças internas não é simplesmente a resultante dos interesses e capacidades dos atores domésticos em conflito porque há que ter sempre presente que a potência hegemônica intervém nos assuntos internos das outras unidades políticas através dos setores da população que controla por meio da subordinação ideológica cultural, através dos atores econômicos, com os quais compartilha interesses mercantis e/ou financeiros e através dos atores políticos que consegue subornar, intimidar e extorquir.

A subordinação passiva

Na subordinação passiva se abdica totalmente da capacidade de decisão própria sobre os assuntos internos ou externos que interessam estrategicamente à potência hegemônica, conservando-se só a capacidade de decisão sobre os assuntos em que não está presente o interesse estratégico da potência hegemônica, isto é, o "outro principal". Os Estados que se encontram em uma situação de subordinação passiva possuem só formalmente uma política externa, pois nos assuntos de importância estratégica sua política externa não é senão a expressão dos desejos e interesses da potência hegemônica. Com respeito à política econômica dos Estados que se encontram em situação de subordinação passiva pode se dizer que esta é o resultado da simples aplicação do modelo econômico querido e imposto pela potência hegemônica.

Sem temor a exagerar pode-se dizer que uma unidade política em situação de subordinação passiva possui formalmente um governo soberano e os atributos formais da soberania, hino, bandeira e exército, mas em realidade se encontra em uma situação de "para-colonialismo".

Nos casos em que se planeja uma situação de subordinação passiva, a potência hegemônica impõe sua vontade, seja porque a relação de forças não permite à unidade política sujeita à pressão da potência hegemônica nenhuma outra alternativa, ou porque a potência hegemônica conseguiu impor sua vontade à elite da unidade política sujeita à sua pressão, através do suborno, da subordinação ideológica cultural ou por meio de uma combinação de ambos os métodos.

Quando a potência hegemônica tenta impor sua vontade sobre uma unidade política cuja forma de governo é a democracia, necessariamente a subordinação ideológica estará dirigida a ganhar a mentalidade da classe política, ou então a maioria da população. Em muitas ocasiões uma parte substancial da classe dirigente é consciente da subordinação que sofre seu Estado, mas, corrompida moralmente, não atina a denunciar a situação nem a tentar mudá-la porque só está interessada em se manter em seus cargos de governo ou em roubar - através da corrupção - o orçamento do Estado. Na  Argentina, a maioria dos dirigentes políticos (governadores, prefeitos, deputados e senadores) pertencentes ao Partido Justicialista, durante os dois governos do presidente Carlos Saúl Menem (1989-1999), foram um claro exemplo do que vínhamos expondo. A classe política russa durante o governo de Boris Yeltsin (1991-1999) é outro exemplo do que vínhamos afirmando.

Pode-se sustentar que todas as repúblicas hispanoamericanas se encontraram, depois de suas respectivas independências da Espanha, em situação de subordinação passiva com respeito à Grã Bretanha que, para conseguir chegar a estabelecer tal situação utilizou tanto a subordinação ideológica quanto o suborno. Todas as repúblicas hispanoamericanas, excetuando a do Paraguai e o contrário do ocorrido nos Estados Unidos, adotaram o livre comércio, a ideologia que a Inglaterra difundia no mundo como ideologia de subordinação. Passando, desse modo, todas elas do colarinho visível espanhol para o colarinho invisível inglês. Importa salientar que a Grã Bretanha, para reforçar a situação de subordinação passiva, conseguiu que as jovens repúblicas hispanoamericanas se endividassem com o Reino Unido, com a particularidade de ter outorgado créditos, os quais sabia que as repúblicas não estavam em condições de pagar sequer os interesses, e com o agravante de que os créditos eram irreais, pois geralmente só uma mínima porcentagem da quantidade outorgada chegava realmente aos Estados que o tinham solicitado.[30]

A Venezuela, por exemplo, encontrou-se em uma situação de subordinação passiva desde sua constituição como república independente em 1831 até a chegada ao governo de Rómulo Betancourt (1908-1981), em 1945, ainda que no transcurso desse lapso de tempo o "outro principal" fora primeiro a Grã Bretanha e depois os Estados Unidos. O Peru sofreu uma situação de subordinação passiva desde sua derrota na Guerra do Pacífico (1879-1883) até a primeira presidência do arquiteto Fernando Belaúnde Terry (1912-2002), em 1963, ainda que, como no caso venezuelano, o "outro principal" fosse primeira a Grã Bretanha e depois os Estados Unidos. A Argentina, durante as presidências de Mitre (1862-1868) e Sarmiento (1868-1874), esteve em uma completa situação de subordinação passivo em relação à Grã Bretanha.

Na Europa a Alemanha e na Ásia o Japão, desde o momento de suas respectivas rendições incondicionais aos Estados Unidos até o estouro da Guerra Fria são dois claros exemplos de unidades políticas em situação de subordinação passiva. As repúblicas socialistas da Europa do Leste - Tchecoslováquia, Hungria, República Democrática Alemã, Polônia, Bulgária e Romênia - mantiveram uma relação de subordinação passiva com respeito à União Soviética desde o fim da Segunda Guerra Mundial até a queda do Muro de Berlim, em dezembro de 1989. Durante esse período histórico a União Soviética exerceu seu domínio sobre a Europa do Leste através da subordinação ideológica, do uso da força e da ameaça do uso da força. É preciso esclarecer que, quando Hungria em 1956, ou a Tchecoslováquia em 1968, tentaram sair de suas respectivas situações de subordinação passiva para estabelecer uma relação de subordinação ativa (que no caso da Tchecoslováquia ficava sintetizada no slogan de construir um socialismo com rosto humano), a União Soviética não hesitou em fazer uso da força militar para impedir tais tentativas. Mais recentemente encontramos outros exemplos de subordinação passiva nos casos da Rússia governada por Boris Yeltsin (1991-1999) e da Argentina durante a última ditadura militar (1976-1983), ou durante as presidências de Carlos Saúl Menem (1989-1999) e Fernando de la Rua (1999-2001). Atualmente poder-se-ia afirmar que a Grécia esteve, desde a criação do Euro até a chegada ao poder de Alexis Tsipras, em janeiro de 2015, em uma situação de subordinação passiva diante da Alemanha.

A subordinação ativa

Na subordinação ativa a unidade política confrontada com a pressão da potência hegemônica - isto é, do "outro principal" - abdica só parcialmente da capacidade de decisão própria sobre os assuntos internos ou externos. Enquanto na subordinação passiva a situação de submissão é o resultado de uma relação de força desfavorável, do suborno da classe dirigente, da subordinação ideológica ou da combinação de ambas as coisas, na subordinação ativa a submissão é principalmente o resultado de uma relação de forças desfavorável entre a unidade política e o "outro principal". A principal diferença que existe entre a subordinação passiva e a subordinação ativa é que nesta a subordinação é tolerada, mas não aceita. A elite de condução - respeitando os grandes interesses estratégicos da potência hegemônica e aceitando ou rechaçando parcialmente o modelo econômico por ela proposto - trata de fixar fins próprios e distintos para seu Estado dos quais lhe outorgou a potência hegemônica. Fins próprios que podem até chegar a conformar o embrião de um projeto nacional. Isto acontece porque a elite de condução não foi conquistada pelo suborno nem por ideologia, e só está disposta a tolerar a situação de subordinação porque a relação de forças lhe é completamente desfavorável. A elite de condução vive a situação de subordinação como um fato negativo que deve ter um caráter provisório, transitório, e aspira permanentemente a alcançar uma maior autonomia. A elite de condução fixa certos "limites extremos" à ação da potência hegemônica, e, se esta trata de ultrapassá-los, a elite de condução está disposta a levar adiante uma resistência feroz.[31] A este tipo de subordinação Carlos Moneta [32] e Felix Peña [33] a denominam "dependência consentida", e Juan Carlos Putig de "dependência nacional".

Talvez o Brasil - desde a instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro, em 7 de março de 1808 (com exceção do período compreendido entre 1843 e 1861, quando Brasil tenta se manter em uma situação de insubordinação pragmática medular) até a instauração por parte do presidente Getúlio Vargas do Estado Novo, em novembro de 1937 - seja o exemplo mais claro que se possa citar de um caso de subordinação ativa[34] Os governos de Fernando Belaúnde Terry no Peru (1936-1968 e 1980-1985), os de Rómulo Betancur na Venezuela (1945-1948 e 1959-1964), o de Arturo Frondizi na Argentina (1958-1962), o de Robert Schuman na França (1947-1948), o de Konrad Adenauer na Alemanha (1949-1963), o de Alcide de Gasperi na Itália (1945-1953) e o de Fidel Castro em Cuba (1961-1989) com respeito à União Soviética são todos eles, também exemplos claros de uma política de subordinação ativa.

A insubordinação pragmática

Na insubordinação pragmática a unidade política confrontada com a vontade da potência hegemônia - isto é, do "outro principal" - recupera totalmente a capacidade de decisão própria sobre os assuntos internos e, quando não é superficial, mas profunda, põe em marcha um processo de insubordinação fundante, mas no plano externo, embora recupere sua capacidade de decisão, trata de não levar adiante uma política externa de desafio sistemático dos interesses da potência hegemônica, isto é, trata de não enfrentar a vontade da potência hegemônica nos assuntos que, para ela, são cruciais ou estratégicos. Os enfrentamentos com a potência hegemônica, quando se produzem, são devidos, sempre, a iniciativas ou ações da potência hegemônica tendidos a entorpecer ou fazer abortar o processo de insubordinação. No plano externo a unidade política insubordinada está, geralmente, com respeito à potência hegemônica, em uma posição defensiva e não ofensiva. Trata-se, então, de uma unidade política que não está incluída na órbita da hegemonia do "outro principal",, está submetida a fortes pressões, não tem condições para se opor à hegemonia do "outro principal", mas tem condições de estabelecer uma "fronteira" a esta hegemonia.

Para que uma unidade política esteja em situação de planejar uma relação de insubordinação pragmática se requer, sempre em todos os casos, que o Estado - que está confrontado à pressão da potência hegemônica - tenha conseguido alcançar o "umbral de resistência", isto é, a capacidade de poder determinar o que se faz em seu próprio território e que a elite de condução esteja disposta a fazer valer, a utilizar essa capacidade.

Cabe esclarecer que a realização no plano interno de um processo de insubordinação fundante é a condição necessária para que qualquer unidade política possa se manter, a longo prazo, em situação de insubordinação pragmática. É importante ressaltar que quando a elite de condução de uma unidade política decide levar adiante uma política de insubordinação pragmática, sem pôr em marcha no plano interno um processo de insubordinação fundante, - seja porque não sabe, não quer ou não pode - essa insubordinação pragmática constitui uma insubordinação pragmática "epidérmica", enquanto que, se a elite de condução política da unidade que decide levar adiante uma política de insubordinação pragmática puser em marcha um processo de insubordinação fundante, essa insubordinação pragmática constitui uma insubordinação pragmática "medular". Importa salientar que todo processo de insubordinação pragmática "epidérmica" que não se converter em um processo de insubordinação pragmática "medular" está a longo prazo condenado ao fracasso.

Quiçá os Estados Unidos - desde sua independência formal da Grã Bretanha até a Primeira Conferência Panamericana celebrada em 1889 - seja o exemplo mais claro que se possa citar de um caso de insubordinação ativa "medular".[35] O Império alemão sustentou uma política de insubordinação pragmática medular enquanto o chanceler Otto von Bismarck (1815-1898) se manteve em seu cargo entre os anos de 1871 e 1890[36]. Na América do Sul a Confederação Argentina levou a cabo uma política de insubordinação pragmática medular de 1835 a 1852 e o Império do Brasil de 1843 a 1861.[37]

Já entrado no século XX, o primeiro governo de Juan Domingo Perón, na Argentina (1946-1952), o de Getúlio Vargas no Brasil (1951-1954), o de Charles de Gaulle na França (1958-1965), o de Muhamad Mossadegh no Irã (1951-1953), o de Josip Broz Tito na Iugoslávia entre os anos de 1948-1961 [38], com respeito à União Soviética, são claros exemplos de insubordinações pragmáticas medulares, enquanto que no século XXI o governo de Hugo Chávez (1999-2013) na Venezuela é um claro exemplo de insubordinação pragmática "epidérmica".

A insubordinação revisionista

Na insubordinação revisionista, uma unidade política decide se opor, seja a nível regional ou a nível global, à vontade do outro principal porque aspira disputar com este espaços de poder, isto é, "zonas de influências", ou porque deseja participar, junto da potência hegemônica, da estrutura hegemônica do poder mundial, isto é, ser um dos polos de poder no caso de que o sistema seja multipolar, ou porque, diretamente, aspira a substituir a potência hegemônica. A insubordinação revisionista está caracterizada, então, pela decisão de uma unidade política de modificar a ordem regional dentro da qual se encontra inscrita a ordem internacional em seu conjunto.

Os Estados Unidos, a partir da Primeira Conferência Panamericana realizada em 1889 [39] até meados de 1930, protagonizaram um processo de insubordinação revisionista de caráter regional exitoso, enquanto que a Argentina de 1952 a 1955 e a França de 1963 a 1968 protagonizaram, respectivamente, processos de insubordinação revisionista de caráter regional finalmente falidos. [40]

Por ser um caso pouco conhecido e esquecido convém recordar que a República italiana, com Enrico Mattei (1906-1962) como presidente formal do Ente Nazionale Idrocarburi (ENI) - e de fato como ministro de Relações Exteriores e ministro de Economia na sombra - protagonizou, entre os anos de 1953 e 1962, um processo de insubordinação revisionista de caráter regional que só pôde ser detido com o assassinato de Enrico Mattei, ocorrido em 27 de outubro de 1962. [41]

Atualmente a República Federal Alemã, a partir da decisão do chanceler Helmut Kolh de realizar, em um ataque surpresa, em 1990, a unificação da Alemanha - sem consulta prévia com os Estados Unidos - leva adiante um lento e silencioso processo de insubordinação revisionista de caráter regional com respeito aos Estados Unidos, enquanto que ao mesmo tempo a Alemanha, a partir da criação do Euro, leva adiante um meticuloso processo de subordinação de seus aliados europeus. Por outro lado, a Rússia - como demonstram os acontecimentos ocorridos na Crimeia e na Ucrânia - começou a transitar o caminho que a conduz rumo à realização de uma insubordinação revisionista regional cada vez mais clara. [42]

É importante salientar que, para que uma insubordinação revisionista de caráter global seja efetiva e não simplesmente "declarativa", para que seja uma decisão e um ato racional e não irracional, requer, necessariamente, que a unidade política que a leva a cabo tenha adquirido condições econômicas, tecnológicas e militares de "equipolência" com a potência hegemônica. Enquanto que, ter alcançado o umbral de resistência é a condição sine qua non para que a decisão de levar adiante uma política de insubordinação pragmática seja uma decisão racional com altas possibilidades de êxito [43]; ter alcançado o umbral do poder é a condição sine qua non para que a decisão de levar a cabo uma política de insubordinação revisionista de caráter global não seja uma decisão irracional que leve a unidade política que a executa à catástrofe.[44]

Quando uma unidade política que leva a cabo uma insubordinação revisionista disputa zonas de influências ou aspira à co-hegemonia, ou simplesmente deseja chegar a ser um dos polos de um sistema multipolar, o enfrentamento com a potência hegemônica adquire, por lógica consequência, um caráter transitório, conjuntural, e é pouco provável que o sistema internacional entre em estado de convulsão generalizada. Pelo contrário, quando uma unidade política que leva a cabo uma insubordinação revisionista aspira a substituir a potência hegemônica, aumentam as possibilidades de que o sistema internacional entre em estado de convulsão generalizada, como ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial.

A Inglaterra isabelina (1558-1603) e os Estados Unidos, a partir de meados da década de 1930, protagonizaram processos de insubordinação revisionista de caráter global exitosos, enquanto a França napoleônica, a Alemanha nazista e o Japão imperial militarista constituem claros exemplos de casos de insubordinações revisionistas de caráter global falidos.

Para meados da década de 30, tanto os Estados Unidos quanto a Alemanha aspiravam a substituir a Grã Bretanha que, ainda que era um poder em crise, seguia exercendo o papel de potência hegemônica. Dos dois Estados que desafiavam o poder britânico, só os Estados Unidos tinham adquirido condições econômicas, tecnológicas e militares de "equipolência" com respeito à Grã Bretanha e, ademais, tinham-na ultrapassado muito longe. Só os Estados Unidos estavam em condições de levar adiante uma política de insubordinação revisionista de caráter global racional. Assim, uma vez que a Alemanha decidiu, irracionalmente, empreender o caminho de realizar uma insubordinação revisionista de caráter global, os Estados Unidos decidiu esperar que a Alemanha desgastasse o poder britânico para logo depois, mediante uma intervenção rápida na guerra, poder substituir ambas as potências na liderança do sistema. Em outubro de 1945 a chefia norteamericana fechava o ciclo de insubordinação revisionista de caráter global que tinha aberto em meados da década de 30, tinha substituído a Inglaterra como principal potência hegemônica do sistema internacional.

*Doutor em Ciência Política pela Universidade do Salvador, Licenciado em Ciência Política pela Universidade Nacional de Rosário, Graduado em Estudos Internacionais pela Escola Diplomática de Madri, Mestre em Relações Internacionais pelo Institut Universitaire de Hautes Etudes Internationales da Universidade de Genebra. Assessor em matéria de Relações Internacionais da Federação Latinoamericana de Trabalhadores da Educação e Cultura (FLATEC). Professor da Magistratura em Estratégia e Geopolítica da Escola Superior de Guerra e da Universidade Nacional de Lanús. Assessor da Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Deputados da República Argentina.

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Notas

1.BOLIVAR, Jorge, Estrategia y juegos de dominación, Buenos Aires, Ed. Catálogos, 2008 p. 10.

2. Ibíd., Págs. 16 y 17.

3. CHÁVEZ, Fermín, Epistemología para la periferia, Buenos Aires, Ed. de la Universidad Nacional de Lanús. 2012, p. 168.

4. O conceito de "universal situado" foi cunhado pela primeira vez pelo filósofo argentino Mario Casalla em sua obra "Razão e liberação. Notas para uma filosofia latinoamericana", que foi publicada em Buenos Aires no ano de 1973. Quatro anos mais tarde Casalla formulou o método da "leitura culturalmente situada", em seu livro "Crise da Europa e reconstrução do homem. Um estudo sobre M. Heidegger" e realizou uma nova ampliação do mesmo em suas obras "Tecnologia e pobreza. A modernização vista em perspectiva latinoamericana" publicada em 1988 e em "América no pensamento de Hegel, Admiração e rechaço" publicada em 1992.

5. CASALLA, Mario, La filosofía latinoamericana como ejercicio de lo universal situado, Bahía Blanca, Revista Cuaderno del Sur de la Universidad Nacional del Sur, nº 33, 2004, Págs. 59 y 60.

6. Stanley Hoffman afirma corretamente que "aos acadêmicos não agrada pensar sobre sua dependência intelectual do status de seu país e sobre as ambições de sua elite política, isso perturba seu sentido de pertencer a uma comunidade científica, cosmopolita e livre de correntes... E, não obstante, o vínculo existe. E ás vezes é reforçado por liquidações institucionais". HOFFMANN, Stanley, Jano y Minerva. Ensayos sobre la guerra y la paz, Buenos Aires, Grupo Editor Latinoamericano, 1991, p. 25.

7. CASALLA, Mario, Op. Cit., p. 61.

8. Ibíd., p. 62.

9. HOFFMANN, Stanley, op.cit., p. 35.

10. BARRIOS, Miguel, Una geopolítica desde A. Latina para romper el imperialismo cultural de las relaciones internacionales. http://alainet.org/active/73474&lang=es

11. HOFFMANN, Stanley, op.cit, p. 25.

12 .BARRIOS, Miguel, op.cit.

13 .BARRIOS, Miguel, op.cit.

14. São as condições reais do poder que determinam a localização dos Estados no sistema internacional, incluídas nessas condições a cultura de uma sociedade e sua psicologia coletiva. Isto é, o poder está composto por fatores tangíveis e intangíveis.

15. Em 1958, ao voltar ao poder o general De Gaulle, planemente consciente do estado de subordinação em que se encontrava a França, começou uma política de recuperação da autonomia nacional cujos três eixos principais foram 1) o desenvolvimento da investigação científica e técnica para converter a França em uma potência tecnológica, 2) a retirada da França da organização militar atlântica e de seus mandos integrados - fato que se produziu finalmente em 7 de março de 1966 - e 3) a construção de uma força de detenção nuclear própria. A respeito disso, ver DE LA GORCE, Paul-Marie, El sueño de una política autónoma, Le Monde diplomatique, edición cono sur, Buenos Aires, março de 2003, p. 14.

16. A respeito disso, ver ARON, Raymond, Paix et guerre entre les nations (avec une presentation inédite de l’auteur), Paris, Ed. Calmann-Lévy, 1984.

17. A irrelevância do Direito Internacional e seu não acatamento por parte das grandes potências não é uma característica conjuntural, mas estrutural do sistema internacional, e tampouco é uma circunstância advinda das recentes mudanças políticas internas produzidas nos Estados Unidos ou na Rússia. O direito internacional jamais regeu o comportamento dos Estados na cena internacional. No cenário internacional a força sempre venceu a legalidade. Não há uma pós-legalidade e nunca houve legalidade. Feita esta condição, mostram-se úteis as reflexões de Juan Gabriel Tokatlian quando afirma: "A pós-legalidade se caracteriza pelo fato de que o direito interno e internacional se manipula, se desconhece ou se quebra às custas de um Estado ou um conjunto de Estados que operam com escassa rendição de contas e grande uso militar. O exemplo da OTAN e Kosovo em 1999, o dos Estados Unidos e Iraque em 2003; o da OTAN fazendo mal uso da resolução da ONU para proteger civis e estabelecer uma zona de exclusão aérea na Líbia em 2001; e o mais recente de Rússia e Crimeia em 2014 constituem exemplos, com variações do direito internacional. Não se trata de dois pesos [e duas medidas], mas de um tipo de padrão no qual muitos dos poderosos, independentemente da ideologia e dos regimes que os identificam, não se sentem restringidos para avançar em seus objetivos estratégicos." TOKATLIAN, Juan Gabriel, Kosovo, Irak, Libia y Crimea: la fuerza le gana a la legalidad, Clarín, Buenos Aires, 8 de abril, 2014, p. 23.

18. DE ANQUIN, Nimio, citado por CHÁVEZ Fermín, op. cit. p. 141.

19. "A interdependência pode ser descrita como uma condição. Refere-se a uma situação de sensibilidade e vulnerabilidade mútua que afeta todos os Estados... É devido a essa condição que se ouve com frequência dizer: 'todos estamos no mesmo barco' ou 'a espaçonave terra'. Mas essa não é uma maneira adequada de considerar a política mundial. Pois a condição comum não nos diz nada sobre as situações individuais. Em particular, não nos diz nada sobre as duas questões principais da política: quem manda e quem se beneficia? É claro que o balanço de ganâncias e perdas da interdependência varia de país a país, que alguns são menos vulneráveis do que outros e que a condição universal cobre tanto Estados que são capazes, digamos assim, de propagar dependência ao seu redor e de exportar mais problemas do que importar, como Estados que estão em uma situação de dependência unilateral de um amo ou  sócio dominante" HOFFMANN, Stanley, op.cit. p. 260.

20. Refletindo sobre a questão da interdependência, Stanley Hoffmann afirma: "Os estudiosos da política mundial trataram de valorizar a medida em que a interdependência muda as características tradicionais, distintivas, das relações entre Estados... a pergunta que fizeram os estudiosos é se os imperativos e restrições particulares da interdependência fornecem meramente novas oportunidades e alguns novos rodeios para a velha contenda das unidades soberanas que tratam de alcançar suas metas em um mundo sem consenso substantivo nem poder central, ou se as novas características transformam o jogo das nações tão profundamente que começa a se parecer com o que nos é familiar na política interna. Estamos ainda em um 'estado de guerra' ou na 'política global'? ( HOFFMANN, Stanley, op. cit.,p. 259) Para responder esta pergunta acreditamos ser necessário compreender - como sustena Jorge Bolívar - que a interdependência subverteu ou inverteu a máxima lição de Causewitz, já que o que hoje é evidente "é que a política e boa parte da atividade humana resultam, frequentemente, em guerras por outros meios". BOLIVAR, Jorge, Op.Cit., p. 12.

21. A respeito disto ver: OPPENHEIMER Walter, “Así evitó Gran Bretaña que España entrara en la II GuerraMundial”. http://cultura.elpais.com/cultura/2013/06/01/actualidad/1370105485_283805.html

22. MORGENTHAU, Hans, Política entre las naciones. La lucha por el poder y la paz. Buenos Aires, Grupo Editor Latinoamericano, 1986, p. 86.

23. NYE, Joseph, La naturaleza cambiante del poder norteamericano, Buenos Aires, Grupo Editor Latinoamericano, 1991, Pgs. 39 y 40.

24. Paradoxalmente, a revolução francesa foi, em princípio, funcional aos interesses econômicos e políticos da Grã Bretanha: "Depois de 1789 a revolução política francesa consolidou a revolução industrial inglesa. A noite de 4 de agosto de 1789, a constituinte, abolirá os obstáculos ao tráfico internacional em uma embriaguez doutrinária liberal que faz Camilo Desmoulina exclamar: 'Nesta noite histórica caíram todos os privilégios; concedeu-se a liberdade do comércio; a indústria é livre'. A França se enche de tecidos ingleses de Manchester, que arruínam sua produção nativa aos compassos da liberdade,, da igualdade e da fraternidade... a Europa se arruína, mas seus teóricos leem, em Adam Smith, que a liberdade de comércio é a base da riqueza, e lhes parece uma verdade científica e irrespondível. É a base da riqueza, mas para a Inglaterra somente... Os liberais ingleses donos do capital industrial aplaudem as loucuras da Constituinte. Pitt mira, em 1790, complacente com a obra revolucionária". Não era para menos, Inglaterra estava conquistando, comercialmente, a Europa, os compassos da Marselhesa. ROSA, José María, Historia Argentina, ed. Oriente, Buenos Aires, 1974, p. 12.

25. “Esse mesmo 26 de maio, para festejar o enorme triunfo de que Inglaterra vinha de conseguir o capitão da esquadra britânica, emparelhou os navios e disparou salvas de festejo". GULLO, Marcelo, La historia oculta, La lucha del pueblo argentino por su independencia del imperio inglés, Ed. Biblos, Buenos Aires, 2013, p. 124.

26. De acordo com uma análise histórica séria não há nenhuma dúvida de que Grã Bretanha foi a "pátria do protecionismo econômico". A primeira tentativa de desenvolver a fabricação de tecido de lã - alterando deliberadamente os princípios do livre-comércio e do livre-mercado - foi levado a cabo por Eduardo III (1327-77). Este proibiu lisa e claramente a importação de tecidos de lã. É importante destacar que, depois de Eduardo III, a orientação dada por este à economia inglesa foi continuada por seus sucessores, que procederam em 1455 a proibir a introdução de tecidos de seda a fim de favorecer os artesãos ingleses. Anos mais tarde, a fim de deslocar os negociantes italianos e flamengos, proibiu-se aos estrangeiros exportar lã. Em 1464 - como destaca Henri Pirenne - a monarquia decretou a proibição da entrada de panos do continente, anunciando dessa forma a política decididamente protecionista que, poucos anos mais tarde, levará a cabo Henrique VII, a partir de 1489. Não resta dúvida alguma de que, a partir de Henrique VII, o protecionismo econômico se converteu em uma verdadeira política de Estado. Henrique VII e Isabel I usaram do protecionismo, das subvenções, da distribuição de direitos de monopólio, da espionagem industrial patrocinada pelo governo e de outros meios de intervenção governamental, para desenvolver a indústria manufatureira da lã na Inglaterra, naquela ocasião o setor mais avançado tecnologicamente da Europa. Em 1565 Isabel I renovou e reformulou a proibição de exportar ovinos vivos estabelecida por Eduardo III, punindo com um ano de prisão e a amputação da mão esquerda a todo súdito que violasse a proibição de exportar ovelhas vivas. Em caso de reincidência a legislação permitia a aplicação da pena de morte. Finalmente, em 1578 Isabel estimou que Grã Bretanha estava já em condições de processar toda sua produção de lã e procedeu, em consequência, a proibir totalmente a exportação de lã virgem. Isabel I, além de fomentar a indústria manufatureira de lã, promoveu a totalidade da economia nacional inglesa protegendo a nascente indústria da metalurgia, da refinação de açúcar, do cristal, do sabão, do alumínio e do sal. Isabel desenvolveu o mercado interno para a nascente indústria, estabelecendo salários mínimos, ditando diversas leis protetoras dos camponeses e proporcionando trabalho aos pobres. Durante os 45 anos de reinado de Isabel I a Inglaterra gozou de uma extraordinária prosperidade econômica. A respeito de como o protecionismo econômico e o impulso estatal foram a chave do desenvolvimento industrial da Inglaterra pode-se consultar as seguintes obras: CHANG, Ha-Joon, ¿Qué fue del buen samaritano? Naciones ricas, políticas pobres, Buenos Aires, Ed. Universidad Nacional de Quilmes, 2009. GULLO, MARCELO, La Insubordinación Fundante. Breve historia de la construcción del poder de las naciones, Buenos Aires, Ed. Biblos, 2008. GULLO, Marcelo, Insubordinación y desarrollo. Las claves del éxito y el fracaso de las naciones, Buenos Aires, Ed. Biblos, 2012. REINERT, Eric, La globalización de la pobreza. Cómo se enriquecieron los países ricos y por qué los países pobres siguen siendo pobres, Barcelona, Ed. Crítica, 2007. TRIAS, Vivián, El Imperio británico, Cuadernos de Crisis nº 24, Buenos Aires, Ed. Del noroeste, 1976.

27. JAGUARIBE, Helio, prólogo a La insubordinación fundante. Breve historia de la construcción del poder de las naciones, GULLO, Marcelo, Ed. Biblos, Buenos Aires, 2008, p. 14.

28. A respeito disso ver: GULLO, Marcelo, La insubordinación fundante. Breve historia de la construcción del poder de las naciones, Ed. Biblos, Buenos Aires, 2008.

29. Para a elaboração destes quatro tipos ideais de relação entre uma unidade política e o outro principal (a potência hegemônica ou as potências hegemônicas) temos nos inspirado (atualizando-o e corrigindo-o na medida do requerido pelas mudanças produzidas no sistema internacional) no pensamento de Juan Carlos Puig (1928-1989), exposto principalmente em sua obra Doctrinas internacionales y autonomía latinoamericana, ed. Universidad Simón Bolívar, Caracas, 1980.

30. Em 1825, a dívida externa das jovens repúblicas hispanoamericanas com a banca inglesa era de pouco mais de 17 milhões de libras, a qual se distribuía por repúblicas da seguinte maneira: a grande Colômbia - que abarcava as atuais repúblicas da Venezuela, Equador, Colômbia e Panamá - 6,75 milhões, México 4,40 milhões, Peru 1,82 milhões, Chile 1 milhão, Argentina 1 milhão, América Central 0,16 milhão. Segundo Raúl Scalabrini Ortiz, da soma recebida só chegaram ao Rio da Prata, em ouro, como estava combinado, 4% do comprometido, ou seja, 20.678 libras. Tal foi o peso da dívida contraída pelas repúblicas hispanoamericanas com a banca inglesa que esta se constituiu em uma carga induportável para as jovens repúblicas. Argentina conseguiu pagar, finalmente, seu primeiro empréstimo cem anos depois, em 1946. Venezuela conseguiu apenas em 1952 cancelar a dívida que tinha herdado da Grande Colômbia com a banca inglesa. Equador terminou de "pagar" seu primeiro empréstimo com os ingleses apenas em 1976. A respeito disso, ver as seguintes obras: JENKS, L., The migration of British capital to 1875, London, Ed. Thomas Nelson and Sons, 1963. AVELLA GOMEZ, Mauricio, Antecedentes históricos de la deuda externa colombiana, Revista Económica Institucional, Segundo Semestre, Vol. 6, Bogotá, Universidad Extremado de Colombia. SCALABRINI ORTIZ, Raúl, Política británica en el Río de la Plata, Buenos Aires, Ed. Sol 90, 2001.

31. PUIG, Juan Carlos, Doctrinas internacionales y autonomía latinoamericana, Ed. Universidad Simón Bolívar, Caracas, 1980, p. 150.

32. MONETA, Carlos, “Un modelo de política exterior”, Análisis, nº 532, Buenos Aires 1971.

33. PEÑA, Félix, “Argentina en América Latina”, Criterio, nº 10, Buenos Aires, 1970.

34. Com a independência, a elite de condução luso-brasileira aceitou o modelo econômico - baseado na não-intervenção do Estado na economia e o livre-comércio - proposto pela Grã Bretanha, mas fixou fins geopolíticos próprios. Com razão. Celso Lafer afirma que o domínio britânico no Brasil "não foi tolerado pacificamente, e que o país, na medida do possível, reagiu e defendeu sua independência" (LAFER, Celso, Argentina y Brasil en el sistema de relaciones internacionales, Ed. Nueva Visión, Buenos Aires, 1973, p. 81). A preocupação permanente da elite brasileira foi conservar intacto o território brasileiro, neutralizando as tendências separatistas de algumas regiões que ocultamente a Grã Bretanha sempre se encarregou de fomentar. A elite de condução luso-brasileira não estave mais disposta - ao contrário dos políticos unitaristas que tiveram responsabilidade o governo das Províncias Unidas do Rio da Prata desde 1816 até 1829 - a permitir a fragmentação territorial desejada pela Grã Bretanha e estava sempre disposta a levar adiante uma resistência ferrenha para impedir qualquer tentativa inglesa de balcanização do Império do Brasil. Esse foi o limite extremo que a elite brasileira impôs à ação da potência hegemônica.

35 . Foi George Washington (1732 - 1799) quem, com seu exemplo e testamento político, determinou a política externa e o tipo de relação que a jovem república norteamericana deveria seguir diante do Reino Unido da Grã Bretanha. A política de insubordinação pragmática estabelecida por Washington e que todos os presidentes seguiram cegamente até 1889 foi o fator principal que fez, por exemplo, com que os Estados Unidos não intervissem a partir de 1789 a favor da Revolução Francesa, a pesar das afinidades ideológicas que os uniam à França revolucionária.

36. Depois da guerra franco-prussiana e do nascimento do Império Alemão em 1871, Otto von Bismarck, o chanceler de ferro, se transformou no principal fiador da estabilidade da Europa e concentrou as forças da Alemanha na realização de sua própria insubordinação fundante, tratando de não perturbar em nada a política externa britânica. Bismarck, para não desafiar a Grã Bretanha, manteve a Alemanha longe do vórtice imperialista que naquele momento arrastava o resto das potências europeias. Foi particularmente a decidida política de Bismarck de não participar na disputa colonialista para não enfrentar a Grã Bretanha, a que lhe fez enfrentar o novo imperador Guilherme II (1888-1918), partidário da aquisição de um Império ultra-marino, assunto que provocou a queda de Bismarck em 1890.

37. O Império do Brasil tentou, desde o ano de 1843 até 1861, levar adiante uma política de insubordinação pragmática "medular". Com a independência, Brasil herdou o tratado de 1810 que, no essencial, com o pretexto de facilitar reciprocamente a navegação e o comércio, tinha outorgado o monopólio do transporte de mercadorias de e para Brasil à marinha mercante inglesa e tinha concedido às mercaodiras britânicas a tarifa privilegiada de 15% ad valorem. Depois, Grã Bretanha, seguindo a mesma política de dar ajuda diplomática ou militar em troca de favores econômicos, conseguiu em 1827 prorrogar o tratado de 1810 em quinze anos e, em 1843, extender sua vigência até 9 de novembro de 1844. Não obstante, para 1843, um setor da elite luso-brasileira já era consciente de que os acordos de livre-comércio com a Grã Bretanha tinham exercido uma ação inibidora sobre o desenvolvimento industrial brasileiro e que uma tarifa protecionista bem planejada, como a que aplicavam os Estados Unidos, poderia instaurar condições próprias para realizar a industrialização do Brasil. Foi então que: "O gabinete conservador de 1843, com Francisco Joaquim Viana no Ministério da Fazenda, se rebela contra o liberalismo de Cairú e Vasconcelos - que tinha contribuído a tornar aceitável o tratado de 1810 e sua prorrogação em 1827 - e adota, segundo Liszt, uma política protecionista e industrialista. Faz frente à pressão britânica e a vigência do tratado se limita a um ano a mais. Em 10 de novembro de 1844 Manuel Alves Branco, Vizconde de Caravelas, liberal moderado, sucessor de Francisco Joaquim Viana, declara solenemente que no dia anterior se extinguiu o antigo tratado. Nesse mesmo ano, Alves Branco regula a nova tarifa aduaneira votada no ano anterior, que eleva de 30 para 100 e de 60 para 100 ad valorem os impostos sobre os artefatos estrangeiros, de acordo com a maior ou menor possibilidade e conveniência de estimular a produção nacional". Brasil começava, dessa forma, a recorrer ao mesmo caminho que tinham seguido os Estados Unidos desde a assunção de Alexander Hamilton como secretário do Tesouro. A reação da Inglaterra foi enérgica e quase imediata, estabelecendo em 8 de agosto de 1845 a repressão definitiva do tráfico de escravos e lançando através dos diários que controlava no Brasil, através da subordinação ideológica ou através do subordno, uma campanha de imprensa enfurecida e permanente contra o protecionismo econômico instaurado pelo Vizconde de Caravelas. Não obstante, a iniciativa privada brasileira respondeu de forma extraordinariamente positiva e teve lugar no Brasil, a partir da política protecionista instaurada em 1844, um surpreendente surgimento industrial. "Segundo Caio Prado Filho, no decênio seguinte ao de 1850 se estabeleceram no Brasil 62 empresas industriais, 14 bancos, 3 poupanças, 20 companhias de navegação a vapor, 23 de seguros, 4 de colonização, 8 mineiras, 3 de transporte urbano, 2 de gás e 8 linhas de estradas de ferro." É importante destacar que os meios de imprensa, apesar do êxito da política protecionista, não fecharam sua campanha antiprotecionista, propagando uma forma simplista e vulgarizada do liberalismo que sustentava que "os preços dos produtos industriais brasileiros eram exorbitantes por serem consequência de uma indústria artificial" e que "mais valia para o bem público que se comprassem os artigos no exterior a preço menor". A campanha antiprotecionista - fomentada pela Grã Bretanha - cavou fundo na opinião pública e na tribuna parlamentar, sobretudo desde meados de 1857 até finais de 1858, quando durante a gestão de Bernardo de Souza Franco se desatou um processo inflacionário. Além disso, os partidários do livre-comércio nos meio de comunicação e no parlamento "tinham a seu favor os interesses pragmáticos dos exportadores brasileiros de bens primários" que se viam prejudicados pelo aumento do preço das manufaturas. Finalmente, em 1861, a sustentada campanha de imprensa contra a política protecionista e a oposição permanente dos grandes proprietários de terras exportadores de café e outros produtos primários conseguiu torcer o braço dos setores protecionistas, e o Brasil - sob a administração de Angelo Muñiz Ferraz, futuro Barão de Uruguaiana - adotou novamente o livre-comércio. Dessa forma "o desenvolvimento industrial brasileiro teve uma conclusão abortiva ao invés de ter se mantido como aconteceu nos Estados Unidos, em constante crescimento". O não ter sido abortada a política protecionista "poderia ter provocado - e assim parecia ser seu destino - o processo de decolagem do desenvolvimento brasileiro um século antes do momento em que se produziu". Brasil voltou então, a partir de 1861, a estar na posição de subordinação ativa com respeito ao "outro principal", Grã Bretanha, aceitando o livre-comércio e a divisão internacional do trabalho que o colocava como um simples produtor de matérias primas, mas começou a elaborar uma estratégia de aproximação e aliança com o "outro principal" a nível regional, os Estados Unidos, para acalmar e equilibrar a dominação britânica. É importante destacar que no altar sesta estratégia iniciada pelo mesmo Imperador Pedro II a elite de condução brasileira sacrificou o sistema monárquico que lhe tinha dado ótimos resultados em matéria de estabilidade política e mantimento da integridade territorial. A república trouxe, pelo contrário, a instabilidade política, mas sobretudo o crescimento das forças desagregadoras ou balcanizadoras da unidade territorial do Brasil. O Brasil recém pôde reverter a situação da latente balcanização em 1930 com a chegada ao poder de Getúlio Vargas, que, aliás, em 1951, retomou o caminho de realizar a insubordinação fundante que havia sido abandonada em 1861 e lentamente começou a planejar que sua relação com o "outro principal" - já os Estados Unidos - não fosse mais uma relação de subordinação ativa, mas de insubordinação pragmática "medular". Todas as citações correspondem a JAGUARIBE, Helio, Desarrollo económico y desarrollo político, Buenos Aires, Ed. EUDEBA, 1964, Págs 155 a 160.

38. Em 1948, Tito começou um processo de insubordinação ideológica com respeito á União Soviética, pregando a necessidade de elaborar e recorrer uma via independente ao socialismo a qual denominou "comunismo nacional". Passando rapidamente da rebelião ideológica à ação política, Tito decidiu criar uma economia forte e independente de Moscou, e pôs em marcha, então, um plano de desenvolvimento econômico com o objetivo de alcançar a independência econômica da Iugoslávia em relação à União Soviética, fato que provocou uma escalada diplomática entre Moscou e Belgrado, seguida de um duro e agressivo intercâmbio epistolar entre Stálin e Tito.

39. Em 1881, James Baline (1830-1893), Secretário de Estado dos Estados Unidos, ipulsionou como eixo central de uma nova política externa norteamericana a realização de uma Conferência Panamericana. Não obstante, a reunião não pôde acontecer tanto pela morte do presidente dos Estados Unidos, pela separação de James Baline da Secretaria de Estado, mas sobretudo pela negativa do Congresso dos Estados Unidos que preferia manter uma política de insubordinação pragmática e não se aventurar em uma política de insubordinação revisionista que implicava enfrentar abertamente a Grã Bretanha. Em 1888, o Congresso mudou de posição e autorizou, mediante uma lei, o presidente a convocar uma Conferência dos Estados do continente, determinando, por sua vez, os temas a discutir. Os objetivos estratégicos dos Estados Unidos eram a formação de uma união aduaneira - que estabelecera fortes tarifas protecionistas - e a adoção do padrão prata. Com estas medidas os Estados Unidos buscava expulsar a Grã Bretanha da América Latina e converter a América Latina em um mercado cativo para a indústria norteamericana em expansão. A concreção desses dois objetivos implicavam um golpe mortal à Grã Bretanha, que reagiu utilizando sua influência sobre o governo argentino para que a delegação argentina enviada à Conferência boicotasse o projeto norteamericano de união aduaneira e substituição do padrão ouro pelo padrão prata. Sobre os aspectos formais da Primeira Conferência Panamericana ver: DALLANEGRA PEDRAZA, Luis, Relaciones políticas entre Estados Unidos y América Latina. http://luisdallanegra.bravehost.com/EUA_Amla/tapausal.html Pode-se também consultar MUÑOZ AZPIRI, José Luis, La Conferencia Panamericana de 1998, http://unamiradaaustral.com.ar/la-conferencia-panamericana-de-1889/

40. Em 1963, depois de ter resolvido o problema da Argélia, De Gaulle pôs em prática a segunda fase de sua política externa, que estará caracterizada por uma atitude claramente revisionista com respeito à ordem estabelecida na Europa Ocidental pelos Estados Unidos, e como ressalta Raymond Aron em suas Memórias, por uma mudança de linguagem. Em 1966, De Gaulle, que se manteria firme em sua posição revisionista, ordenou que as forças armadas francesas fossem retiradas do comando integrado da OTAN e que todas as tropas não francesas abandonassem o território gaulês. A resposta anglonorteamericana à rebelião gaullista foi a organização encoberta, através de seus respectivos órgãos de inteligência, da revolta infantil de maio de 1968 que desestabilizou o governo francês e provocou a queda do gabinete do primeiro ministro gaullista Georges Pompidou. A respeito [desse assunto] ver as seguintes obras: ARON, Raymond, Mémoires: 50 ans de réflexion politique, Paris, Ed. Julliard, 1983. BARNAVI, Elise et FRIEDLANDER, Saul, La politique étranger du General De Gaulle, Presses Universitaires de France, 1985. COUVE DE MURVILLE, Maurice, Une politique Etrangère. 1958-1969, Paris, Ed. Plon, 1971. HAMON, Leo, La révision, Paris, Ed. Stok, 1974. FERRO, Maurice, De Gaulle et l’Amérique, une amitie tumultueuse, Paris, Ed. Plon, 1973. GROSSER, Alfred, Affaires Extérieures de la France 1944-1984, Paris, Ed. Flammarion, 1984. LEDWIDGE, Bernard, De Gaulle et les américains, Paris, Ed. Flammarion, 1984.

41. Em 1953, Enrico Mattei impulsionou a criação do Ente Nazionale Idrocarburi (ENI), empresa estatal italiana, para que o Estado italiano pudesse competir diretamente contra as grandes companhias petroleiras dos Estados Unidos, da Grã Bretanha, da Holanda e da França, aqueles que acusava de formar carteis e desta maneira se beneficiar mutuamente dos altos preços do petróleo, ao invés de estabelecer uma competência real. Mattei, a fim de quebrar o monopólio das 5 grandes irmãs do petróleo, iniciou uma ação política de aliança com os países produtores de petróleo como Irã ou o financiamento oculto da Frente Liberação Nacional que lutava pela independência da Argélia [em relação à] França. A polícia de Mattei foi tão bem sucedida que a Itália, que apenas contava com recursos petroleiros, se converteu em uma grande potência neste setor. Além disso, Mattei extendeu a atividade do ENI à construção e ao controle de oleodutos, lançando ao mar uma grande frota de petroleiros. Mattei como ministro da economia na sombra, contrariando os princípios do liberalismo econômico, aprofundou o papel protagonista do Estado na economia. Mattei fomentou a investigação em matéria de energia nuclear e deu um grande impulso a todas as indústrias relacionadas com tal energia. Por outro lado, impulsionou a construção de estradas, hotéis e armazéns, sob um prisma estatizador e inclusive anticapitalista, muito próximo ao socialismo, proclamando que ia contra os grandes grupos financeiros e monopolistas anglosaxões. Para defender sua política e popularizar a insubordinação ideológica que o mesmo protagonizava fundou o diário Il Giorno en Milán.

42. O presidente russo Vladimir Putin levou adiante - no começo se seu primeiro governo, quando a relação de forças lhe era bastante desfavorável - uma política de subordinação ativa cujas manifestações mais notáveis foram o fechamento das bases russas de Cuba e Vietnã no ano de 2000 e o apoio ao presidente norteamericano George Bush depois dos atentados terroristas em Nova York em setembro do ano de 2001. Esse breve período de subordinação ativa deu passo a um período mais prolongado de insubordinação pragmática que se transformou a partir do mês de março de 2014 - depois que 97% da população da Crimeia optou por sua incorporação à Rússia - em insubordinação revisionista regional.

43. Recordemos que a realização de uma insubordinação fundante é a condição necessária para que uma insubordinação pragmática seja possível de ser sustentada a longo prazo. A realização de uma insubordinação fundante é a condição indispensável para que o umbral de resistência adote um caráter estrutural.

44. Na história recente da América Latina é possível encontrar casos de governos que, irresponsavelmente, desde o ponto de vista discursivo - e sem ter elementos de poder suficientes para tornar realidade o discurso - planejaram, por cálculo eleitoral ou infantilismo político, uma insubordinação revisionista que só existe em relato oficial de tal governo.

Tradução: Álvaro Hauschild