quarta-feira, 24 de julho de 2019

Fenomenologia da Contra-iniciação


Por Claudio Mutti

A "contra-iniciação" e seus agentes.

A melhor maneira de esclarecer o conceito guenoniano de "contra-iniciação" é apoiando-nos nos trechos mais significativos que o próprio René Guénon dedicou a este assunto:

"O termo 'contra-iniciação' -- lemos no Reino da Quantidade -- é o que melhor convém para designar aquilo a que se referem, em conjunto e em diferentes níveis (...) os agentes humanos por cujo intermédio se opera a ação anti-tradicional (...). A 'contra-iniciação' (...) não é uma mera falsificação completamente ilusória, mas algo muito real dentro de sua ordem, como demonstra perfeitamente a ação que exerce efetivamente; pelo menos não é uma falsificação para além do sentido em que imita necessariamente a iniciação a fim de produzir uma sombra invertida dela, apesar de que sua verdadeira intenção não é imitá-la, mas opor-se a ela. Por outro lado, uma tal pretensão é forçosamente vã, já que o âmbito metafísico e espiritual lhe está vedado, precisamente por se encontrar para além de todas as oposições; pode apenas limitar-se a ignorá-lo ou então a negá-lo, e em nenhum caso pode ir para além do "mundo intermediário", quer dizer, do âmbito psíquico, que é por todos os conceitos o campo de influência privilegiado de "Satã" na ordem humana e inclusive no cósmico; mas não por isso desaparece a intenção nem o compromisso que implica seguir a trajetória inversa da iniciação. (...) Na medida em que ela não pode conduzir os seres humanos até os estados "supra-humanos", como a iniciação [o pode], nem limitar-se ao mero âmbito do humano, a "contra-iniciação" os arrasta infalivelmente em direção ao "infra-humano", sendo aqui precisamente onde se localiza o que lhe resta de poder efetivo."[1]

Em relação a este assunto, revestem-se de uma importância particular as cartas que René Guénon escreveu para Vasile Lovinescu (1905-1984) desde 9 de julho de 1934 até 28 de janeiro de 1940[2], cartas que pode-se recuperar em Bucarest. Não obstante, ainda não foram encontradas as cartas enviadas por Lovinescu para Guénon, de modo que os fatos a que Guénon se refere não são sempre perfeitamente compreensíveis; mas, apesar disso, este epistolário guenoniano se torna muito valioso, pois em certa medida nos ilustra a modalidade operativa das forças contra-iniciáticas e nos introduz em situações históricas que parecem demonstrar as seguintes declarações em Reino da Quantidade: "Pode-se salientar que a 'contra-iniciação' se dedica a introduzir seus agentes nas organizações 'pseudo-iniciáticas' às quais dessa forma 'inspiram', atrás de seus membros ordinários e, inclusive, com bastante frequência, de seus chefes aparentes, (...) das organizações 'pseudo-iniciáticas' é sem dúvida alguma o mais chamado a reter a atenção da 'contra-iniciação', convertendo-se em objeto idôneo de seus esforços, pelo próprio fato de que a obra que se propõe seja sobretudo anti-tradicional."[3]

Na mencionada correspondência com Lovinescu estão explicitamente identificados como agentes da contra-iniciação algumas personagens que desempenharam diferentes papéis sobre a cena histórica do século XX.

Em uma carta datada de 24 de fevereiro de 1936, por exemplo, são citados alguns como o Aga Khan III (1877-1957), que no ano seguinte se tornou presidente da Assembleia Geral da Sociedade das Nações; Henry Deterding (1866-1939), o 'Napoleão do petróleo', presidente da Royal Dutch - Shell Oil Company, o que lhe valeu o título de Sir por ter contribuído com a vitória da Entente graças ao fornecimento de combustível; David Lloyd George (1863-1945), patrocinador da intervenção britânica na Primeira Guerra Mundial e responsável (com Wilson, Clemenceau e Nitti) do ordenamento do mundo pós-guerra; também Sir Phillip Sasson (1888-1939), outro político britânico e membro de uma família judia notável, cuja estirpe Sasson havia se unido a um ramo dos Rothschild; o primeiro ministro grego Eleftherios Venizelos (1864-1936), que morreu em Paris no mesmo ano de 1936; o primeiro ministro francês Georges Benjamin Clemenceau (1841-1929), inimigo feroz da Alemanha, que foi um dos artífices do Tratado de Versalhes; Cornélio Herz (1845-1898), empresário franco-americano de origem judia e protagonista do escândalo do Panamá; Edouard Herriot (1872-1957), líder do Partido Radical Francês, três vezes presidente do conselho na Terceira República, candidato ao Prêmio Nobel da Paz em 1929; o Príncipe Alberto I de Mônaco (1848-1922), e do qual Guénon ressalta sua conexão com Basil Zaharoff (1849-1936).

E é justamente Basil Zaharoff, melhor dizendo, Sir Basil Zaharoff, o expoente da contra-iniciação que com maior frequência é citado, e por muito tempo, na mencionada correspondência de vários anos mantida entre Guénon e Lovinescu.


1913: O fracasso da reunião de Guénon com Zaharoff

No capítulo do Teosofismo, intitulado "A questão dos Mahatmas" -- onde os Mahatmas são os presentes "Mestres" com os quais se relaciona a Sociedade Teosófica -- Guénon nos conta um episódio de 1913 que o envolveu pessoalmente, quando foi lhe proposto pôr-se em contato com um destes "Mestres" por conta de assunto que pouco tinha a ver com o Teosofismo: "como quisera que isso não nos comprometia, aceitamos com gosto, ainda que sem criar ilusões a respeito dos resultados. No dia fixado para o encontro, que não se realizaria 'astralmente', apenas chegou um membro influente da Sociedade Teosófica, procedente de Londres, onde se encontraria o 'Mestre', e alegou que este não pôde acompanhá-lo em viagem, e ofereceu um pretexto qualquer para desculpar seu descaso. Desde então não se tratou mais disso, apenas sabemos que a correspondência dirigida ao 'Mestre' era interceptada por Madame Besant. Certamente, isso não prova que o 'Mestre não existisse, assim porque nos cuidaremos muito bem de deduzir a mínima conclusão deste fato."[4]

Em sua biografia sobre René Guénon, Paul Chacornac (1884-1964) recorda deste episódio e escreve o seguinte: 'Os diversos protagonistas desta história desapareceram e não existe, pois, nenhum inconveniente em revelar que o assunto em questão estava ligado à constituição da Albânia como Estado independente e a candidatura do Príncipe de Wied ao trono do novo Estado, candidatura a qual se tratava de tornar favoráveis as organizações sufistas no momento muito poderosas no país."[5]. Essa anedota -- observa Chacornac -- mostra que nessa época havia pessoas que consideravam que Guénon tinha possibilidades de contato com "ambientes geralmente fechados aos ocidentais e quiçá suficiente autoridade para que uma opinião que viesse dele tivesse oportunidades de ser tomada a sério."[6]

Posteriormente, uma luz é lançada sobre este momento graças a Jean Reyor, alias Marcel Clavelle (1905-1988), em um manuscrito privado de 1963 [7], o qual mais tarde Marie-France James intitulou de Documento Confidencial Inédito [8]: "O famoso 'Mestre R.' -- escreve Reyor -- que os teosofistas consideram como a reencarnação do Conde de Saint-Germain e que deveria se encontrar com Guénon a propósito da candidatura do príncipe de Wied para o trono da Albânia, não era outro que sir Basil Zaharoff, o riquíssimo 'fabricante de armas' e agente importante do 'Intelligence Service', amigo íntimo da rainha Maria da Romênia, tia do príncipe de Wied. O 'membro' influente da Sociedade Teosófica ao qual se alude na mesma passagem era Charles Blech, no momento presidente da Seção francesa da tal Sociedade. Alguns anos mais tarde se ofereceria a Guénon uma soma, muito atraente para a época, se ele consentia em não publicar seu livro sobre o Teosofismo."[9]

Que Basil Zaharoff fosse presenteado pelos teósofos como uma reencarnação do Conde de Saint-Germain afirma implicitamente o próprio Guénon: "Acabo de olhar um retrato de Bacon (...) -- escreve a Lovinescu com data de 25 de novembro de 1935 -- que os teosofistas publicaram intencionalmente, em relação precisamente com a L.C.C. (Liberal Catholic Church); parece, muito curiosamente, com a de sir B.Z.! -- Há certamente por baixo de tudo isso algumas manobras bem tenebrosas, e você não se engana ao considerar que essa atenção posta sobre Romênia tenha algo de inquietante..."[10]


Basil Zaharoff

Basil Zaharoff nasceu em 6 de outubro de 1849 em Mugla, entre as montanhas de Anatólia, proveniente de uma família que levava o sobrenome oficial de Zacharios ou Zacarias, e lhe puseram o nome de Basileios (Basílio). De acordo com algum de seus biógrafos, tratar-se-ia de "sobrenomes grecizados, cuja forma original teria sido Sahar ou talvez Zohar: seriam nomes hebraicos autênticos, sobretudo porque o nome de Sahar é bastante comum como sobrenome hebreu e, se a família emigrada para a Rússia começou a se chamar Zaharoff, isso equivaleria a 'Sahar' mais 'off', desinência russa que corresponde, certamente, a uma nova necessidade." [11]. A carreira de Basílio Zacarias começou em 14 de outubro de 1877, quando induziu ao governo turco a compra de uma grande quantidade de armas da companhia inglesa Nordenfeltt, graças a suas relações com um ministro competente "o qual tinha conhecido em certos círculos e em casas de jogo"[12], disse pudicamente seu biógrafo inglês Robert Neumann. Em seguida, Zaharoff conseguiu vender armas para todos os Estados em conflito: desde a Rússia e Japão até a Argentina, Chile, Bolívia e Paraguai.

Disso Ezra Pound se inspirou para o Canto XXXVIII, no qual Zaharoff aparece sob o pseudônimo Metevsky: "disse ele: os outros meninos conseguiram mais munições (...) -- Não comprem até receber as nossas -- E cruzou a fronteira -- e disse aos oponentes -- Aqueles têm mais munições. Não comprem até receber as nossas --. E Ackers (Vickers) tinha realizado muitas ganâncias e importado ouro para a Inglaterra -- Aumentando assim as importações de ouro"[13].

"Durante a guerra dos Bálcãs -- escreveu em 1912 para o diário francês 'Crapouillot' -- Zaharoff armou os dois lados. Apoiou a Grécia contra a Turquia, a Turquia contra a Sérvia e, um ano mais tarde, a Sérvia contra a Áustria."[14]

Em 1913, na época da reunião frustrada com Guénon, a estrela de Zaharoff estava no seu apogeu. Na França, o comerciante de canhões tinha conseguido o controle da Union Parisienne des Banques, historicamente associada com a indústria pesada, e tinha tomado posse do periódico "El Excelsior". Nesse mesmo ano foi premiado com a Légion d'Honneur por méritos filantrópicos.

No Canto XVIII Pound diz: "E Metevsky, 'o conhecido filantropo', - Ou, 'o conhecido financeiro, mais bem conhecido' -- Como dizia a imprensa, 'como filantropo' -- "[15].


O príncipe de Wied e a rainha da Romênia

O príncipe Wilhelm zu Wied, a quem Zaharoff tinha fornecido apoio, foi nomeado rei da Albânia em 28 de novembro de 1913 pelo Conselho de Embaixadores das Grandes Potências (Grã Bretanha, França, Itália, Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia). Wilhelm foi um príncipe renano de confissão protestante, cuja candidatura apoiada pela Áustria-Hungria prevaleceu sobre a de Fuad de Egito, respaldado pela Itália. O rei eleito chegou a Durrés em 7 de março de 1914, mas seis meses mais tarde, em 3 de setembro de 1914, teve que voltar para a Alemanha, porque depois de sua negativa para alinhar a Albânia com o lado dos impérios centrais, Viena suspende as ajudas que permitiam o novo Estado balcânico fazer frente aos inimigos internos e externos.

Jean Reyor se equivoca quando escreve que a rainha Maria da Romênia (1875-1938) era tia do príncipe Wilhelm zu Wied, rei da Albânia. A tia deste último, ao contrário, foi a soberana anterior, Isabel da Romênia (1843-1916), que era irmã do pai de Wilhelm (que se chamava Wilhelm, como o filho). Isabel de Wied (conhecida no mundo das letras sob o pseudônimo de Carmen Sylva) tinha subido ao trono de Bucarest em 1881, quando seu marido, o príncipe Carlos de Hohenzollern-Sigmaringen, se tornou rei da Romênia com o nome de Carlos I. Por outro lado, em 1913 Maria (Maria da Saxônia-Coburgo-Gotha) não era, contudo, rainha da Romênia; ela se tornará em outubro de 1914, ao casar-se com Fernando I (1865-1927) e se manterá no cargo até 20 de julho de 1927. Posteriormente aderiu à Fe Baha'i, na qual afirmou ter descoberto o "verdadeiro espírito de Cristo, tantas vezes negado e incompreendido"[16].


Zaharoff em Bucarest em 1922

Com a rainha Maria, Zaharoff certamente teve algo que fazer em fins de 1922, quando chegou a Bucarest para conceder um empréstimo ao Estado romano. "Para ele -- escreve o biógrafo inglês mencionado -- só havia três milhões de libras esterlinas, para a outra parte, pelo contrário, eram dois bilhões de lei (...) Contemporaneamente, a companhia Vickers [A gigante indústria de armamentos controlada por Zaharoff] participa em Rescita, a maior empresa da indústria pesada na Romênia."[17].

A rainha Maria, cuja filha maior, outra Elisabeth (1894-1956), há um ano já era esposa de George II da Grécia (1890-1947), pediu a Zaharoff que interviesse a favor da família real grega, porque temia que o novo soberano também tivesse que seguir a via do exílio, como seu pai Constantino I (1868-1923).

Se alguém tinha voz na Grécia, este era Zaharoff, quem, segundo o 'Times', tinha gasto pelo menos 50 milhões de libras esterlinas para envolver a Grécia na guerra do lado da Tríplice Entente. Como Constantino I da Grécia (1868-1923) era cunhado de Kaiser, a tarefa não era fácil; mas Zaharoff tinha fundado em Atenas uma agência de notícias que, difundindo informações favoráveis à Tríplice Entente, contribuiu para a derrubada do soberano; em seguida se produziu o retorno de Eleftherios Venizelos (1864-1936) e a entrada da Grécia no conflito. Assim foi como Zaharoff mereceu ser enobrecido por Sua Majestade Britânica e se tornou o Sir Zaharoff.

Um papel similar ao desempenhado por Zaharoff em Atenas exerceu a rainha Maria em Bucarest: a Romênia, que até 1916 tinha fornecido petróleo para a Áustria e a Alemanha, entrou em guerra ao lado da Entente por decisão da nova soberana mais que pela vontade de Fernando, que, como escreveu A.L. Easterman, "é um homem tranquilo, pacífico e com um caráter significativo... não é ele, mas Maria quem governa Romênia"[18].


Bô Yin Râ

Guénon retoma o assunto de sua reunião frustrada com Zaharoff na correspondência com Vasile Lovinescu.

Na primeira metade dos anos trinta, este último escrevia em várias revistas romenas, manifestando interesse pelas tradições orientais e por algumas figuras do esoterismo. Em particular, chamou-lhe a atenção o novelista de Praga, Gustav Meyrink (1868-1932), assim como o escritor ocultista alemão Bo Yin Ra, alias Joseph Anton Schneiderfranken (1876-1943), presente enviado da denominada "Grande Loja Branca" (assim era chamada a central do teosofismo) e fundador de uma organização denominada p "Grande Oriente de Patmos".

Lovinescu chega a conhecer em 1932 o livro de René Guénon: Le Roi du Monde, traduz ao romeno e pede ao autor autorização para publicá-lo em vários capítulos em uma revista que fundaria em breve.

Em 16 de dezembro de 1934 Guénon lhe responde positivamente; não obstante, devido ao fato de que Lovinescu também projetava traduzir Bo Yin Ra, Guénon lhe pressiona para "tomar todas as precauções possíveis para que ninguém pudesse supor que ambas as coisas são solidárias seja lá em que sentido fosse". E também escreve: "Agora devo dizer que o que eu penso de Bo Yin Ra não se baseia principalmente no conteúdo de seus livros, mas conheço a organização a qual ele esteve ligado, e que, ainda tendo realmente sua sede em alguma parte da Ásia Central, é de um nível iniciático muito pouco elevado".

Em 29 de setembro de 1935, Guénon acrescenta: "Enquanto aquilo de que tinha falado de BYR, se trata efetivamente de uma organização iniciática degenerada ou desviada, sobretudo pelo predomínio de um certo lado 'mágico', mas, em caso similar, é muito raro que elementos pertencentes à 'contra-iniciação' não se aproveitem dele [esse lado mágico] para se infiltrar e exercer sua influência."

Por último, inteiramo-nos de que Bo Yin Ra esteve presente na reunião na qual também deveria ter assistido Zaharoff: "Refletindo sobre o que me foi escrito com respeito ao 'Mestre dos Bálcãs' --, escreve Guénon a Lovinescu em 11 de outubro de 1935 -- me parece cada vez mais provável que o personagem que queriam me apresentar em 1913 já era sir B.Z. Não sei já se lhe disse que naquela circunstância se tratava da constituição da Albânia como Estado independente, e que da possível intervenção, a respeito, de algumas organizações islâmicas que existiam nesse país. Agora, há outra coisa que também é muito curiosa: na data em que finalmente o personagem se fez presente era na casa de um dos membros da organização oriental da qual lhe falei com respeito a BYR; e, além disso ele (que então não era conhecido ainda por este nome) se encontrava presente neste dia! Até creio, inclusive, que esta é a única ocasião em que me encontrei com ele, a menos que o tenha encontrado outra vez na mesma época, mas não estou muito seguro disso, não tendo então qualquer razão para dedicar-lhe uma atenção particular...".


Zaharoff, o 'Meste R.', o Conde de Saint Germain

Guénon também identifica Zaharoff com o 'Mestre dos Bálcãs', sobre o qual Lovinescu tinha feito menção. Por sua vez, Jean Reyor o identifica com o "famoso 'Mestre R.', o qual os teosofistas tinham geralmente considerado como a reencarnação do Conde de Saint-Germain.

O "Mestre R." é, de fato, o 'Mestre Rákóczi", já que frequentemente os teosofistas sustentaram que o Conde de Saint-Germain pertencia a esta família da aristocracia húngara. Alguns deles identificaram-no com o príncipe Francisco II Rákóczi (1676-1735), que reinou na Transilvânia desde 1703 a 1711; outras vezes com seu filho maior, Leopoldo George (1696-1700); outros também com seu terceiro filho Joseph, marquês de São Marco (1700-1738). Annie Besant (1847-1933), que afirmou ter se encontrado com o Conde de Saint-Germain em 1896, em um de seus livros mencionou duas "encarnações": Francisco II Rákóczi e Janos Hunyadi (1406-1456).

É interessante ressaltar que essas diferentes teses foram apresentadas e discutidas em um estudo de A.J. Hamerster, publicado em partes no periódico "The Theosophist", entre 1934 e 1935, quer dizer, nos mesmos anos em que Guénon iniciava a correspondência com Lovinescu [19].

Agora, em um par de cartas de Guénon, conclui-se que Lovinescu lhe tinha falado do Conde de Saint-Germain, pondo-o em relação com Lord Rothermere, com a rainha Isabel da Romênia e com Sir Basil Zaharoff.

"Quanto às histórias do conde de Saint-Germain (...) -- escreve Guénon em 9 de novembro de 1935 -- essa identificação com Lord Rothermere era para mim completamente inesperada!"

Lord Rothermere é verossimilmente Harold Harmsworth, primeiro visconde Rothermere (1868-1940), o proprietário da Associated Newspapers Ltd., conhecido especialmente pelo desenvolvimento que ele e seu irmão Alfred deram ao Daily Mail e ao Daily Mirror.

"Pelo que se refere à rainha Elisabeth -- continua Guénon na mesma carta -- já tinha ouvido falar em outra ocasião de suas relações com coisas singulares, ainda que não tenha conservado recordações muito precisas sobre isso; já que esta história data de antes da guerra, poderia muito bem ter relação com aquilo que aludi no Teosofismo... Em todo caso, parece que há um ou vários personagens que desempenham, em certas circunstâncias, o papel de Conde de Saint-Germain; o assunto seria saber com que direito e por conta de quem...".

Em 25 de novembro, Guénon volta para o assunto e escreve: "Sua história com respeito ao conde de S-G se torna ainda mais curiosa do que eu pensava, com base no que me disse outra vez, pois confirma coisas que suspeitava há muito tempo. Não parece duvidoso que sir B.Z. seja um representante importante de um dos ramos da 'contra-iniciação'!; alguns até mesmo pensam que seria um de seus chefes; mas talvez isso seja falar demais, porque não é provável que os chefes verdadeiros desempenhem um papel que os ponha de tal modo em evidência... Perguntei-me se na verdade não era dele que se tratava na história à qual fiz alusão no Teosofismo e que, de fato, tinha relação com a constituição da Albânia como Estado independente. Teria sido também ele que tinha recebido através da rainha Elisabeth da Romênia, aparentemente até a mesma época, ou antes se tratava se outro personagem? Em todo caso, se você está seguro do que aconteceu em 1927, suas relações com A.B. já não podem pôr qualquer dúvida".

As iniciais A.B. se referem a Annie Besant. Que coisa tinha que tratar a presidente da Sociedade Teosófica com Zaharoff veremos mais adiante.


O séquito teosofista da rainha Isabel

Primeiramente, será oportuno tratar de compreender o que significa, para Guénon, ao falar sobre as relações da rainha Elisabeth, as 'coisas singulares' (ses rapports avec des choses singulières).

Sem dúvida, era uma coisa bastante notável que a rainha se declarasse simpatizante dos social-democratas e fosse favorável à forma republicana de governo: "a única racional", escreveu a soberana em seu diário [20]. Além disso, a rainha Isabel era "vidente" e afirmava receber mensagens angélicas (tinha tido íntimo contato com o 'espírito' de um não muito especificado imperador Friedrich).

Elisabeth teve como dama de honra a poetisa Elena Vacarescu (1867-1947), que, tornada colaboradora do 'Movimento Cósmico' fundado pelo cabalista e ocultista Max Theon (1848-1927), em 1916 apoiou os esforços realizados pela rainha Maria para alienar a Romênia em direção à Entente; em 1920 Vacarescu consegue uma função de certa importância na Sociedade das Nações.

Outra famosa escritora patrocinada por Elisabeth foi Fanny Seculici, alias Bucara Dumbrava (1868-1926), fundadora da loja teosofista da Romênia e tradutora de um livro de Jiddu Krishnamurti (1895-1986), e viajou à Índia para participar em um congresso da Sociedade Teosófica.

Fanny Seculici é citada por Guénon em sua carta a Lovinescu de 25 de junho de 1936, quando ele volta a mencionar, entre outras coisas, o Conde de Saint-Germain. "Por outro lado, recebi uma carta de alguém que residiu bastante tempo na Romênia e que esteve em relação com os meios teosóficos -- escreve Guénon --. Ao fazer a relação do que me conta com o que eu já sabia por você, parece que, quando da permanência de B.Z. e da senhora Besant na Transilvânia, da que você me tem falado, certa senhora Lazar, de Turda, desempenhou determinado papel; você conhece esta pessoa ou ouviu falar dela?".

É muito provável que Lovinescu tinha ouvido falar de Elena Lazar, porque esta tinha desempenhado atividades teosofistas já no período austro-húngaro na Transilvânia e mais tarde, em dezembro de 1925, participou no congresso teosofista de Adyar na Índia.

"Há também -- continua a carta de Guénon -- uma história extraordinária de uma senhorita Lia Braunstein, originária da Alemanha (possivelmente de Munique), e que se encontrava em Bucarest na época da guerra; pretendia travar contato com os 'Mestres' e especialmente com o conde de S-G; finalmente, foi tomada por um ataque de loucura furiosa em Londres, onde tinha ido para dar um concerto (era música), e foi internada e um asilo de loucos. Também é questão de uma senhorita Seculici, que foi presidente do ramo de Bucarest, e que morreu em Port-Said ao voltar de um congresso em Adyar; a história dessa morte está mesclada com algo relacionado com meu livro sobre Teosofismo, mas de uma maneira que não chego a desenvolver de maneira exata."

Na seguinte carta (é 28 de agosto de 1936) se deduz que no mesmo ano do Congresso de Adyar (e não em 1927) Zaharoff e Annie Besant tinham viajado para a Transilvânia. "Aquilo que eu lhe falei a respeito da senhora Lazar -- escreve -- aconteceu em 1925, conforme novas informações; pois parece que corresponde bem ao assunto do castelo de Hunvard (château de Huniade)".

Aquilo que Guénon chama de château de Huniade é o castelo de Hunvad (hoje Hunedoara), uma região transilvana de onde a casa dos Hunyadi tomou seu nome, casa a que pertenceram Janos Hunyadi e Matthias Corvinus (1440-1490). Aqui, segundo a reconstrução de Pierre Feydel (que transcreve incorretamente o nome do castelo), "Zaharoff (...) procedeu às 'iniciações'"[21].

Em um artigo da série intitulada La Dacie Hyperboréene, publicado em 1937 em "Études Traditionnelles" sob o pseudônimo Géticus, Vasile Lovinescu escreve a propósito sobre Janos Hunyadi ("Jean Corvin de Huniade"): "Ele passa por ter sido não apenas um rosacruciano, mas um Rosacruz"[22]. E acrescenta em uma nota ao pé da página: "Os teosofistas o tornam no Conde de Saint-Germain, o que é fastidioso. Mas não é possível que, logo depois de ter entendido certas coisas, o tenham interpretado a sua maneira fantasiosa? A verdade é que talvez os três personagens, Hunyadi, Rákóczi e Saint-Germain, foram enviados pelo mesmo centro"[23].


Um misterioso projeto de Zaharoff em Bucarest

Essa nota não deve fazer com que se pense que a relação de Geticus-Lovinescu com os teosofistas se tenha esgotado em disputas de ordem teórica. A partir das cartas de Guénon fica evidente que Lovinescu estava muito preocupado pelo fato de que elementos da Sociedade Teosófica queriam se envolver em uma iniciativa inspirada por Sr Basil Zaharoff e cooptá-lo para um misterioso grupo em via de constituição. Lovinescu, cabe lembrar, foi assessor legal da Siderúrgica Rescitza, a companhia romena que foi penetrada pela empresa Vickers, esta última controlada pelo próprio Zaharoff.

Em 27 de janeiro de 1936 Guénon escreve para seu correspondente romeno: "Vejo que o assunto B.Z. parece ainda mais sério do que pensava até agora; você por acaso acredita que o grupo projetado encontre os elementos necessários para sua constituição? Isso seria realmente perigoso; por outro lado, pergunto-me se você deve romper totalmente com isso desde agora mesmo, ou se não seria mais vantajoso que pudesse obter ainda outras informações..."

Em 24 de fevereiro Guénon retoma o argumento: "Agora deve-se acrescentar que há Estados ocidentais que estão manejados mais diretamente que outros por organizações pertencentes à contra-iniciação; e isso nos conduz mais precisamente à sua história de B.Z. Compreendo que essa lhe inquiete muito, conforme me disse nessa ocasião, pois há evidentemente algo anormal nessa maneira de buscar e adiantar coisas; como certamente você não fez nada para provocá-lo, a razão disso não aparece claramente; mas quem sabe se suas investigações sobre Dacia não terão algo que ver nisso? O que me parece que devemos temer acima de tudo, nessas circunstâncias, é que eles tentem espioná-lo e segui-lo em todos os lugares que vá; acredito que fará bem em dar atenção a isso; não observou até agora nada a respeito?".

As personalidades chamadas a ser parte desse grupo figuram em uma lista a qual Lovinescu chegou a ter em suas mãos; seus nomes, não obstante, ou são desconhecidos tanto para ele quanto para Guénon ou foram deformados com o objetivo de impossibilitar  identificação.

Não obstante, Guénon tenta formular algumas hipóteses: "Não me surpreenderia muito -- escreve em 27 de janeiro -- no que diz respeito a Macdonald[24], devido a suas relações com Annie Besant (tinha a encarregado de um projeto de constituição para a Índia); sei também que Lloyd George tem pessoalmente relações muito estreitas com B.Z.; quanto aos demais, não posso dizer nada."

Em 6 de junho, retorna com a questão: "As notícias que você me fornece dos projetos atuais de B.Z. tampouco são verdadeiramente muito tranquilizantes; seria realmente curioso saber se vão designá-lo para formar parte deste grupo..."

Entre outras coisas, se sabe pela carta de 28 de agosto que Zaharoff tinha anunciado a chegada de um "Grande Instrutor" em coincidência com um melhor especificado "grande acontecimento astronômico".

A pessoa com a qual Zaharoff, nos parece, servia de intermediário para tentar atrair Lovinescu, é indicado por Guénon com a inicial D. Tratava-se de Anton Dumitriu (1905-1992), um professor de matemática que em 1934 se tornou assistente na Politécnica de Bucarest. Mircea Eliade (1907-1986) lhe dedica em seu diário de 1937 um par de páginas implacáveis; entre outras coisas, lemos: "Sabia que era teósofo e se proclamava a última incarnação do conde de Saint-Germain. Mais tarde me inteirei de que era um liberal e se interessava pela filosofia da ciência (...). Depois, em 1946, em Paris, eu soube que tinha vindo também ele, com uma comissão petroleira. Ele era muito rico e tinha perguntado a alguns romenos convertidos em parisienses: "Gastando um milhão de francos por ano, dentro de quantos anos pensam que posso comprar Paris?"[25].


O desaparecimento de Zaharoff

Lovinescu deve ter dado um suspiro de alívio quando se inteirou de que Zaharoff tinha morrido de fato, já que mais de uma vez tinha feito publicar nos periódicos a falsa notícia de sua morte. Em 10 de novembro de 1936, Guénon lhe escreveu: "A respeito de Z., talvez você tenha visto que recentemente correu um rumor de que estava morrendo e até mesmo de que tinha morrido já; por outro lado, esta já não é a primeira vez, e tudo isso fora desmentido em seguida (...)".

Cito novamente o Canto XVIII de Ezra Pound: "E Metevsky morreu e o enterraram, i.e., oficialmente, -- E se sentava no café Yeiner para ver seu enterro -- Em torno de dez anos depois deste incidente -- Era dono de um bom pedaço de Humbers (Vickers)"[26].

E outra vez, em 30 de dezembro: "Talvez saiba você que há dois ou três meses já se tinha anunciado a morte de Z., depois tinha sido desmentida (e não era a primeira vez); mas agora se assegura de que é certo (...)."

Por último, em 16 de março de 1937, Guénon informou a Lovinescu de que alguns desconhecidos tinham tentado abrir a tumba de Zaharoff, "provavelmente para confirmar a identidade do corpo."

Sir Basil Zaharoff tinha morrido na manhã do dia 27 de novembro de 1936 no Hotel de Paris em Monte Carlo. O Hotel de Paris era dele. E o Cassino também. Depois de ter concluído um pacto secreto com o príncipe Alberto I de Mônaco, Zaharoff tinha persuadido a Clemenceau a estipular com Sua Alteza um acordo que tinha logo desembocado no artigo 436 da Parte XV do Tratado de Versalhes. O Principado de Mônaco dessa maneira tinha conseguido uma autonomia total; não obstante, se o cassino de Monte Carlo estivesse em risco de quebra, França se comprometia a salvá-lo com uma contribuição financeira. Quando da morte de Alberto I, Zaharoff tinha se apoderado da Societé des Bains de Mer, que era a que dirigia a sala de jogos no Principado.

Com o desaparecimento de Sir Basil Zaharoff de cena, ele, que além de ser comerciante de canhões, banqueiro, petroleiro, magnata da imprensa, jogador de cassino, filantropo, agente de inteligência britânica e a charlatã reincarnação do Conde de Saint-Germain, tinha desempenhado, segundo René Guénon, um papel de primeiro plano no campo da contra-iniciação.

Notas
Claudio Mutti: Fenomenologia della controiniziazione
http://www.claudiomutti.com/index.php?url=6&imag=1&id_news=251

[1] René Guénon, El reino de la cantidad y los signos de los tiempos. Ediciones Paidós Ibérica, Barcelona 1997, pp. 172, 214, 231 y 232.
[2] La traducción al castellano de estas cartas se encuentra en la Revista Symbolos: http://symbolos.com/s17lov1.htm
[3] René Guénon, op. cit., p. 213 y 214
[4] René Guénon, El Teosofismo. Historia de una pseudoreligión, Ediciones Obelisco, Barcelona, 1989, p. 58.
[5] Paul Chacornac, La vida simple de René Guénon, Ediciones Obelisco, Barcelona, 1987, p. 69
[6] Paul Chacornac, op. cit., ibídem.
[7] La traducción al castellano de este documento se encuentra en la Revista Symbolos: Algunos recuerdos sobre Rene Guénon y Etudes Traditionnelles, http://symbolos.com/s19ined1.htm
[8] Marie-France James, Ésotérisme et Christianisme autour de René Guénon, Nouvelles Éditions Latines, Paris 1981, p. 307 nota e passim.
[9] Jean Reyor (Marcel Clavelle), Documento confidenziale su René Guénon, Edizioni Al-khâtamu al-dhahabiyy, Al-Qâhira s. d
[10] René Guénon: Cartas a Vasile Lovinescu (4): http://symbolos.com/s17lov4.htm
[11] Robert Neumann, Vita di Sir Basilio Zaharoff, Mondadori 1948, pp. 17-18.
[12] Robert Neumann, Vita di Sir Basilio Zaharoff, cit., p. 27.
[13] Ezra Pound: Cantares completos, Tomo I, Ediciones Cátedra, S. A., Madrid, 1994, p. 699
[14] Shaykh Abdalqadir As-Sufi, Tecnica del colpo di Banca, Le Rocce di Korsan, Genova 2002, p. 53.
[15] Ezra Pound, op. cit., p. 359.
[16] Shoghi Effendi, God Passes By, Bahà'ì Publishing Trust, Wilmette, Illinois, 1944, p. 392.
[17] Robert Neumann, Vita di Sir Basilio Zaharoff, cit., p. 196.
[18] A. L. Easterman, King Carol, Hitler and Lupescu, Victor Gollancz Ltd, London 1942, p. 23.
[19] A. J. Hamerster, The Count de Saint Germain: Who he was, "The Theosophist" (Theosophical Publ. House, Adyar, Madras), ott. 1934, pp. 66-72; nov. 1934, pp. 141-150; dic. 1934, pp. 290-292 e 589; maggio 1935, pp. 120-127; giugno 1935, pp. 240-247.
[20] Eugen Wolbe, Carmen Sylva, Leipzig 1933, p. 137.
[21] Pierre Feydel, Aperçus historiques touchant à la fonction de René Guénon suivis d'une Étude bio-bibliographique, Arché, Milano 2003, p. 86 nota 208.
[22] Geticus, La Dacia iperborea, Edizioni all'insegna del Veltro, Parma 1984, p. 64.
[23] Geticus, La Dacia iperborea, cit., p. 64 nota.
[24] "En la época del ministro Ramsay Macdonald [1866-1937, ndr], Mme. Besant elaboró un proyecto de constitución para la India y lo remitió al gobierno; dicho proyecto, que procedía del mismo espíritu que el de la institución del "Congreso Nacional Hindú", parece no haber tenido secuelas, al menos hasta ahora; pero el hecho reviste un significado muy particular cuando se sabe que los verdaderos hindúes cuentan precisamente a Ramsay Macdonald entre los "enemigos brutales y groseros de la India". (René Guénon, Il teosofismo. Storia di una pseudoreligione, cit., vol. II, p. 315, nota 18)
[25] Mircea Eliade, Memorii (1907-1960), Humanitas, Bucureşti 1991, vol. I, pp. 338-339. Sobre Anton Dumitriu, cfr. Claudio Mutti: Eliade, Vâlsan, Geticus e gli altri. La fortuna di Guénon tra i Romeni, Edizioni all'insegna del Veltro, Parma 1999, pp. 75-88.
[26] Ezra Pound, op. cit., p. 357.

sábado, 20 de julho de 2019

Por um Nacional-Desenvolvimentismo Sacro e Brasileiro

Getúlio Vargas e a cartilha da moral cívica no Estado Novo

por Álvaro Hauschild

A crise política que estamos vivendo no Brasil, mas também em todo o Ocidente, nos faz buscar por soluções. Entre as massas, predominam as palavras de ordem e as frases feitas, as soluções mais imediatas, superficiais, catalisadas por espantalhos tragicômicos como “a corrupção” (do lado da direita) e do “patriarcado” (do lado da esquerda). O mais grave de tudo isso é que a defesa das soluções fáceis se tornou norma também nos debates universitários em congressos internacionais, em meio a uma classe, a acadêmica, que deveria, pelo menos por obrigação, ser a mais apta a esclarecer a escuridão, a desfiar o nó da nossa crise.

Neste texto, eu proponho uma breve análise da realidade e uma solução sintética, porém não simplista e menos ainda definitiva, para os nossos problemas. E muito do que está aqui não se trata de ideia nova, revolucionária, a não ser que consideremos a revolução no âmbito político e não no âmbito das ideias.

Então primeiramente, delimitemos o problema, isto é, a situação real em despeito dos múltiplos discursos que se fazem sobre a situação real. O Brasil sofre e se desconstrói enquanto Estado e enquanto Nação porque está submetido, indefeso e inconsciente, a uma lógica internacional para a qual não está preparado, a saber a lógica do mercado e dos grandes impérios financeiros globais. A tempestade das transações financeiras bilionárias, que um dia estão de um lado e outro dia de outro, está maltratando a solidez do sistema estatal e das instituições.

Mais do que isso: o interesse financeiro está agindo sobre os Estados e burlando leis, comprando e subornando juízes, políticos, cientistas, lideranças estudantis, para que estes defendam o interesse do mercado (consciente ou inconscientemente), que hoje se resume em (neo-)liberalismo. Assim, enquanto famílias bilionárias permanecem patriarcais, mantendo desse modo a solidez do seu império, elas promovem, através de ONGs, propagandas e burocratas, a supremacia das mulheres e do ideário feminino no âmbito estatal e o paradigma irracional do atomismo, do identitarismo, porque assim eles enfraquecem o poder soberano e a coesão social dos Estados, que se tornam meros reguladores, meros reprodutores de paradigmas impostos, meros “cuidadores” das “minorias” etc. etc., enquanto descuidam totalmente da unidade estatal como um todo, da segurança, da proteção etc. Além disso, as identidades individuais impostas reproduzem o paradigma liberal do atomismo e do subjetivismo, que redundam, social e politicamente, no cosmopolitismo urbano tão aberto às relações de contrato, puramente externas, superficiais, econômicas, entre os indivíduos. Desse modo, o Estado enquanto sistema de leis, jurisdição, de presídios, está sendo submetido a papel de prostituta do império financeiro, servindo apenas para regular as forças sociais de acordo com o interesse último do mercado.

Enquanto isso, o Estado vai sendo solapado através das privatizações, da manutenção dos juros altos, da política cambial e dos mecanismos de importação/exportação desfavoráveis ao Estado e, por conseguinte, desfavoráveis aos cidadãos. Como exemplo, podemos citar as privatizações mais simbólicas da Embraer e da Petrobrás (que representavam não apenas o fornecimento de produtos ao país, mas a própria manutenção da soberania através da Defesa aérea e da segurança energética do país frente às flutuações monetárias e cambiais internacionais) e a prisão do engenheiro nuclear Othon Luiz Pinheiro da Silva pela farsa da Lava Jato, responsável pelo nosso programa de energia nuclear, que poderia redundar em Defesa na parte militar. As consequências dessa política entreguista são o aumento da inflação, os juros altos, a quantidade imensa de pessoas inadimplentes (63 milhões de brasileiros[1]), o aumento catastrófico do desemprego (quase 13%[2]) ao mesmo tempo em que nossa indústria tem 25% de sua capacidade produtiva desocupada[3], o número de 341.600 empresas fechadas de 2015 a 2018[4], dentre elas indústrias e comércio, que já vinham fechando nos anos anteriores e continuam fechando no governo Bolsonaro; por causa da pobreza e do endividamento, falta de policiamento inteligente, educação, problemas psicológicos decorrentes etc., explodem também a violência, os estupros em crianças e assim por diante.

Os grandes bancos e impérios financeiros, pelo contrário, enquanto os povos todos afundam no caos e na pobreza extrema, ganham ainda mais fôlego para o enriquecimento[5], apoiados pelo serviço do Estado regulador que lhe serve de instrumento, seja no apaziguamento/domesticação da população a fim de obter maior controle (o liberalismo precisa da paz para reinar), seja por intermédio da própria legislação atomista e juridicista, que desenraiza os povos, fornecendo um ambiente individualista, abstrato, “sem fronteiras”, ambiente mental propício para o florescimento de relações contratuais e puramente econômicas entre os membros da sociedade, ou cidadãos. É claro que o outro aspecto desse fenômeno explorador do sistema financeiro sobre o Estado é o surgimento de um novo tipo de escravidão, muito mais cruel do que aquela da Idade Média e do período colonial brasileiro, porque lá os senhores eram responsáveis pela saúde e pela vida do escravo como um todo, mas no sistema neoliberal o banqueiro não possui nenhuma responsabilidade sobre o devedor explorado (isso decorre da igualdade constitucional entre todos os cidadãos, da libertação do indivíduo em relação aos laços sociais).

Portanto temos carência de Estado, de intervenção estatal, e não apenas intervenção, mas de soberania governamental frente aos setores nacionais: as ações estatais não devem ser intervenções com vistas aos objetivos do mercado, mas com vistas à preservação da unidade estatal cujo Estado é o próprio povo constituído por relações enraizadas (o Estado enquanto macrotecido de microrelações étnicas, familiares, comunitárias). A preeminência dos interesses do mercado está fazendo com que nos desindustrializemos e nos impossibilitemos cada vez mais, assim, de fazer frente ao inimigo do Estado, que é o próprio mercado e/ou o sistema financeiro. Porque nos faltam os instrumentos para proteger e manter a unidade estatal em toda sua complexidade: aparato tecnológico de inteligência, militar, ciência, engenharia, para não falar do sistema jurídico, tributário, que deveriam sofrer profundas reformas, etc. Faltando estes instrumentos, o mercado tem ainda mais força para atingir seus objetivos, e as contradições se agravam. É um ciclo vicioso e catastrófico, e, a longo prazo, se as elites financeiras não transformarem profundamente o sistema civilizacional, dando a ele novas formas “coesas”, a tendência é que a civilização entre em colapso e a anarquia se instaure, atingindo, em último caso, também a eles.

A única solução genuína para o Brasil neste momento está de alguma forma entrelaçada com o desenvolvimentismo enquanto economia política. E por dois motivos principais: primeiramente, só um conjunto de ideias ou uma doutrina capaz de reorganizar as forças capitalistas pelo e para o Estado, buscando ao mesmo tempo reindustrializar o Brasil, distribuir renda, investir em obras públicas, é capaz de fazer nosso país combater a doença desindustrializante como os anticorpos do corpo combatem uma anemia provocada, como a alta imunidade combate o marasmo, injetando energia e nutrientes no sistema e colocando a máquina para girar – e, muito importante!, dando a essa máquina uma finalidade precisa, um caminho para trilhar, racionalmente. O segundo motivo, e não menos importante, é que o desenvolvimentismo é uma doutrina latino-americana, assentada em necessidades latino-americanas, e floresceu justamente como um antídoto para os problemas estruturais que mantêm o Brasil e a América Latina submissos no cenário internacional como países periféricos, cuja relação de submissão é grandemente responsável pelas contradições internas, entre elas a própria concentração de renda e a desindustrialização.

Cabe a nós, então, conhecer um pouco sobre esta doutrina. Eu me basearei em alguns artigos de Pedro Fonseca, professor de Economia e Relações Internacionais da UFRGS, para delimitar, de modo bem geral, o conceito do desenvolvimentismo e depois dar alguns exemplos concretos, históricos, de governos desenvolvimentistas.


A Gênese e o Conceito do Desenvolvimentismo

Segundo a definição encontrada nos artigos, o desenvolvimentismo se define como:

“uma política econômica formulada ou executada, de forma deliberada, por governos (nacionais ou subnacionais) para, através do crescimento da produção e da produtividade, sob a liderança do setor industrial, transformar a sociedade com vistas e alcançar fins desejáveis, destacadamente a superação de seus problemas econômicos e sociais, dentro dos marcos institucionais do sistema capitalista.”

O desenvolvimentismo é então uma prática política, mais do que mera teoria econômica, uma prática sistemática que possui objetivos concretos a nível estatal. A deliberação é projetada, planejada e executada pelo governo, portanto exige um poder centralizado capaz de organizar e pôr em marcha todos os elementos do Estado em conjunto, com vistas a um único fim coletivo. Isso pressupõe a submissão da economia em relação à política e aos interesses do Estado. Na definição entra o setor industrial como líder do processo desenvolvimentista porque entende-se que é a indústria, através da produtividade, da geração de empregos, da provocação de demandas, de demanda e geração de tecnologia, etc., que impulsiona o Estado rumo ao objetivo central, que é o desenvolvimento aliado à soberania e à justiça social. Também entra na definição o marco institucional do capitalismo, a saber, o comércio, o crédito, as relações de mercado etc., por uma questão histórica (o desenvolvimentismo é uma reação longa e processual no interior do capitalismo internacional). É importante notar que, embora o desenvolvimentismo se utilize da economia capitalista vigente, e a submete para fins não econômicos, ele se diferencia totalmente do liberalismo, que segue a orientação oposta de submeter o Estado aos interesses do mercado, através das privatizações, do corte de “gastos” estatais etc.

Assim, entre as características presentes no desenvolvimentismo, destaca-se principalmente as três seguintes:

1) A existência de um projeto deliberado ou estratégia tendo como objeto a nação e seu futuro. Esta pode ser associada, com certa licenciosidade, a projeto nacional, desde que não se entende por isso repulsa ao capital estrangeiro nem rompimento com a ordem internacional, mas simplesmente a nação como epicentro e destinatária do projeto.

2) A intervenção consciente e determinada do Estado com o propósito de viabilizar o projeto, o que supõe autores aptos e capazes para executá-lo no aparelho do Estado e com respaldo social e políticos de segmentos e classes no conjunto da sociedade.

3) A industrialização, como caminho para acelerar o crescimento econômico, a produtividade e a difusão do progresso técnico, inclusive para o setor primário. (Fonseca, 2014, p.42)

Estas três constituem o núcleo central do conceito definido por Fonseca. O desenvolvimentismo, ainda assim, sempre surge acompanhado de outras muitas ideias, como por exemplo i) a burocracia ou grupo técnico recrutado para executar o projeto, ii) planejamento econômico, i.e. um desenho para longo prazo de intervenções consecutivas e acompanhamento em vistas do objetivo almejado, iii) redistribuição de renda, iv) reforma agrária e v) banco (estatal) de desenvolvimento ou instituição de fomento (Fonseca, 2014, p.43).

Por trás desse projeto, ou dessa política econômica, existe uma consciência de atraso em relação a algo externo, por exemplo o mundo capitalista Ocidental. Nos debates desenvolvimentistas, é comum dividir o mundo entre nações centrais e nações periféricas, em que as primeiras ditam as regras no cenário internacional e mantêm as segundas em condição de submissão. As primeiras são as nações já desenvolvidas, que uma vez receberam forte incentivo estatal para seu desenvolvimento e hoje promovem liberalismo nas nações periféricas, porque é através da abertura de livre comércio que as indústrias das nações centrais podem penetrar nos espaços periféricos, escravizando assim os povos ao redor do mundo. O desenvolvimentismo vem acompanhado de um projeto nacional, portanto de protecionismo econômico, e visa ao desenvolvimento, ao industrialismo, como meio para a superação desse atraso tecnológico, político, militar etc.

Como exemplos de governos desenvolvimentistas, Fonseca (2014, pp.57-58) cita, entre tantos outros brasileiros e latino-americanos, os governos de Juan Perón (1946-55), Getúlio Vargas (1930-45; 1951-54), Juscelino Kubitschek (1956-61), João Goulart (1961-64), Emilio Médici (1969-74), Ernesto Geisel (1974-79). Cada um desses governos cumpre as três características nucleares, que são o projeto nacional (ou nacionalismo econômico), a intervenção deliberada e o industrialismo, mas para além dessas características eles diferem bastante entre si. Por exemplo, Perón focou na distribuição de renda, Vargas na indústria e no banco de desenvolvimento, Juscelino e Geisel no planejamento, na burocracia, Goulart na distribuição de renda e reforma agrária. No geral, são raros os governos que propunham reforma agrária; Goulart parece ter sido o único desses que demonstrou investir determinadamente na reforma, e por isso também acabou deposto.

Em artigo de 2004, Fonseca faz um estudo histórico a respeito dos movimentos político-econômicos que colaboraram acidentalmente para o surgimento do desenvolvimentismo. O desenvolvimentismo viria, então, da fusão de algumas ideias já presentes nas discussões políticas. Os movimentos são 1) os nacionalistas, que defendiam a ruptura com a coroa portuguesa e a preservação do Brasil como unidade pátria, 2) os industrialistas, que defendiam o desenvolvimento industrial do Brasil, 3) os papelistas, que defendiam o crédito e a ruptura com o padrão ouro, e 4) os positivistas seguidores ou derivados de August Comte que defendiam a noção de progresso social, de separação entre Igreja e Estado, Estado laico etc.

Cada um desses quatro movimentos era uma conjunção de intelectuais com múltiplos sistemas de ideias e objetivos distintos. Por exemplo, entre os nacionalistas, haviam aqueles que visavam o desenvolvimento industrial e cosmopolita, mas também aqueles que viam no nacionalismo uma maneira para reafirmar o setor agrário ao se libertar da coroa portuguesa etc. O desenvolvimentismo não se compromete com essas ideias em bloco, de modo que, então, ele simplesmente teria se apropriado de algumas ideias desses movimentos e passado a utilizar em uma lógica própria, um novo sistema sintético de ideias.

Assim, o nacionalismo passa a significar um projeto nacional, estatal, com vistas à manutenção da unidade pátria, não necessariamente negando relações com o mundo externo, mas usando-as em benefício próprio, a saber da nação como um todo, o que se traduz pelo desenvolvimento técnico e econômico da nação em todos os setores. O industrialismo também vem para servir a este desenvolvimento técnico e econômico nacional, submetido a este propósito; a defesa do crédito aparece para fomentar o investimento em indústrias e empresas privadas, que impulsionarão a produtividade, a demanda e o consumo, fazendo avançar o crescimento econômico a nível nacional, e o positivismo, por fim, coloca os objetivos concretos do país na pessoa do Estado e empresta o progressismo, que se significará agora o próprio crescimento progressivo, evolutivo, característico do desenvolvimento – mas, mais do que isso, o desenvolvimentismo herda do progressismo também aqui uma noção já de matiz hegeliana, a saber a noção de um “destino da história” (Fonseca, 2004, p. 18).

Por trás de todo este crescimento, esta indústria, este crédito etc., está o controle firme do Estado, que planeja e projeta o desenvolvimento de acordo com seus próprios desejos e objetivos. De modo que o desenvolvimentismo é menos uma utopia do que um guia político-econômico para o alcance de uma utopia qualquer, ficando a cargo do Estado definir seus objetivos concretos e os próprios contornos da sua marcha na história. No artigo de 2004, Fonseca escreve o seguinte:

“O emprego da palavra marcha não é fortuito: ajuda a revelar que o desenvolvimento não brotaria espontaneamente, deveria resultar de decisão organizada, implementada com determinação e disciplina; requeria sacrifícios (“desbravar”), legitimava-se por princípios iluministas (“civilizadora”) e exigia a sua frente governos fortes e – quem sabe? – ditatoriais. Fazia-se mister o estabelecimento de nova relação entre o Estado e os responsáveis diretos pela produção, a fim de, em um pacto, ambos cooperarem para a expansão das atividades produtivas e fortalecerem-se para enfrentar as consequências nefastas do mercado.” (Fonseca, 2004, p. 19)


Um Desenvolvimentismo para o Brasil do Século XXI

Vimos que o desenvolvimentismo promove o industrialismo e o crescimento econômico estatal como um todo a fim de superar dificuldades que até hoje permanecem não superadas, a saber o “atraso” do Brasil em relação ao cenário internacional e a consequente submissão do povo brasileiro aos interesses do mercado, que é hoje um sistema internacional sem freio e parasitário.

Atualmente, o liberalismo avança até o transumanismo, modificando radicalmente as relações humanas e a própria natureza humana com o uso de IA para robôs eróticos, pornografia, cirurgia de mudança de “gênero”, idade, raça etc. As consequências não são qualquer tipo de “mudança de conceito de humano”, como pretendem os liberais que não acreditam em uma natureza humana dada, mas o aumento dos suicídios, dos problemas psicológicos, sociais, o rompimento de todos os laços existenciais e a “evolução” civilizacional rumo ao colapso. Estas são consequências de Estados fracos, impotentes diante da intensificação na concentração de renda e da ingerência das relações de mercado, sempre superficiais e avulsas, na própria intimidade da vida humana, nas relações familiares, étnicas, religiosas etc.

O urbanismo e o cosmopolitismo servem como paradigma para a noção de “vida humana”: o homem é um átomo que cria relações com outros átomos e as rompe a seu bel prazer, quando, com quem, onde, por que e como quiser. Não existe simbiose entre homem e meio externo, não existe copertencimento à família, à pátria, à religião, em suma às comunidades locais etc. Isso porque é assim que o mercado enxerga o mundo: objeto de consumo, de compra e venda. Para o mercado, não existe nada de essencial, de eterno, de sagrado, nem no homem, nem no mundo e nem em lugar algum; ele pressupõe o niilismo, a distopia, o vazio existencial. E é por isso que as gerações nascidas nesse meio tendem a se identificar com as ideias de Sartre, Foucault etc., porque para eles não existe sentido na realidade e seria nosso papel, então, dar sentido ao mundo. Eles esquecem que, na verdade, sabemos muito pouco sobre o mundo, e no entanto ele está dado e tem uma lógica, embora nosso conhecimento dele seja ínfimo.

Para combater o mercado, a luta deve ser em muitas frentes, porque o mercado também é ao mesmo tempo promotor do niilismo e beneficiador do niilismo, da fraqueza, da falta de lógica e razão em sentido metafísico (o Logos universal). Um dos objetivos do desenvolvimentismo é, como vimos, o alcance da soberania, da proteção e preservação dos povos diante das ações nefastas do mercado. Para isso, muito provavelmente ser-lhe-ia necessário um governo ditatorial, que diz e afirma por si mesmo qual é o fim desejável da nação, em detrimento dos fins do mercado. Mas, e agora temos que engolir a pílula vermelha, para termos um governo forte temos que combater o feminismo, o pacifismo, o igualitarismo, o marasmo do antivoluntarismo das ideologias identitárias, que servem como bombeiros do sistema, apagando e destruindo toda ação soberana, tanto em protestos pelas ruas, que se tornaram brincadeira de criança, quanto nas academias, que proíbem qualquer referência à força e ao autoritarismo, sobretudo se ele for masculino e não primar, antes de tudo pelo “cuidado”, i.e. em fornecer sua autoridade aos seus inferiores, em fornecer o direito de opinião e até de decisão aos seus subordinados (em suma, se ele não promover o protagonismo das vítimas e dos subordinados).

Todo esse identitarismo, que é financiado aos milhões e bilhões[6] por magnatas, todos homens de famílias patriarcais visando transformar o Estado em sua babá ou prostituta, tem por fim tornar inviável qualquer possibilidade de rebelião, e se apoiam na proliferação de paradigmas intelectuais como o do maio de 68, no existencialismo, no Teatro do Absurdo etc., como mecanismos capazes de dissolver, progressivamente, os laços sociais, e assim fazer com que a única força imperante permaneça sendo o mercado, que passaria então a regular a novas “sociedades” a seu bel prazer. As fundações de George Soros e sua “Sociedade Aberta”, também aqui bebendo de Karl Popper, servem a este propósito. Por isso Soros não tem escrúpulos em financiar LGBT e feminismo nas Américas e na Europa, na Rússia, neonazismo na Ucrânia, na Rússia e no sul da Ásia e assim por diante, uma vez que para ele não lhe importam os símbolos utilizados, importa o papel que eles possuem em cada localidade – e, uma vez que ele financia, é ele que dá significado e sentido aos símbolos empregados, sejam eles suásticas, martelos e foices, bandeiras coloridas etc.

A esquerda acadêmica caiu no conto do mercado e, acreditando combater os mesmos neonazistas na Ucrânia, visam se opor aqui no Brasil a todo autoritarismo, seja ele de “esquerda” ou de “direita”. E assim, por exemplo, quando estudam a ascensão dos partidos estatistas europeus (AfD, Salvini, Front National etc.), os consideram “inimigos da democracia” (já pressupondo um significado específico em ‘democracia’), quando na verdade são estes os únicos partidos europeus que desde muito se levantaram com força contra o mercado internacional, que também assola o povo europeu tanto quanto o brasileiro. A esquerda promove, também, a imigração em massa, considerando os migrantes como “fugitivos de ditaduras ou guerras”, quando na verdade estes migrantes, quando não são agentes treinados pela CIA, são apenas uma massa impulsionada pelo próprio mercado a inundar os Estados ocidentais de mão-de-obra barata, para fazer os salários baixarem, os laços sociais se romperem e criar, assim, uma “sociedade global” que fala inglês e que trabalha como escravo.

Em vista disso, deve-se combater todas estas influências ao mesmo tempo em que se busca o desenvolvimento nacional, pois elas partem de financiamento do mercado e estão servindo diretamente ao próprio mercado, fortalecendo-o em detrimento do Estado e da soberania do povo.

Para além desse combate contra o que deve ser levado a cabo, também devemos ter em vista em nome do que se deve combater. E é isso o que refletiremos agora.


A Utopia Quarto-Teórica

Um assunto muito comum na economia política contemporânea é o ambientalismo, de modo que também este elemento entrou nos debates desenvolvimentistas. Afinal, o homem percebeu que o mundo e seus recursos são finitos, e que a vida humana depende da saúde da natureza, da fauna, da flora, das planícies, dos mares, da atmosfera etc. Logo, um desenvolvimento da indústria e das metrópoles deve levar em consideração esses fatos, e buscar algum tipo de desenvolvimento que não agrida “tanto” a natureza, uma espécie de progresso simbiótico entre a civilização e a natureza.

Este é um assunto muito espinhoso, porque facilmente é capaz de pôr em xeque e contradizer a pedra angular do desenvolvimentismo, que é a indústria, a modernização da tecnologia etc. Mas em primeiro lugar, é necessário conceber a impossibilidade de um “desenvolvimento sustentável” tão alardeado pelos próprios magnatas ocidentais. Este jargão é apenas um meio de encobrir os fatos, porque muda-se a tecnologia, mas a exploração e a destruição do ambiente permanecem; mais do que isso: o gasto de energia e tecnologia usado para financiar projetos, por exemplo, como o do motor elétrico, motor a consumo de hidrogênio, água etc., não compensa a falta de emissão de carbono que haveria com a combustão de derivados de petróleo. “Desenvolvimento sustentável” é, então, uma desculpa para os magnatas continuarem lucrando, sem que se questione a própria natureza destruidora do mercado.

O problema não é apenas a emissão de tal ou qual substância, mas a própria essência do capitalismo, do mercado. O mercado pressupõe uma visão-de-mundo que concebe a natureza como objeto de exploração interminável (e isso inclui a natureza humana, como consequência temos o tráfico de crianças, a pornografia, o tráfico de drogas, a indústria do sexo com os robôs, os sites de relacionamento pagos, a indústria da “cultura” como Hollywood e tantos outros, que são exemplos da exploração das necessidades humanas pelo mercado), e isso está arruinando não apenas os recursos (afinal, a natureza não é e não deveria ser vista como um estoque de recursos, mas como alma viva passível de saúde e de doença, de prazer e sofrimento), mas matando a própria natureza enquanto organismo vivo, em que os elementos todos são como órgãos interdependentes de um corpo gigantesco.

A luta contra o mercado é uma luta para salvar a natureza, curá-la da doença, do câncer que lhe está fazendo definhar, agonizar, e para então salvaguardá-la, reencontrar nosso espaço no seu interior, reajustando-nos às suas leis. O sofrimento humano, os distúrbios psicológicos, são apenas expressão individual de um sofrimento holístico que toda a natureza sente. Nós somos órgãos da natureza e sofremos como um fígado que deixa de receber irrigação sanguínea por causa de um câncer que está se alastrando por outras partes do corpo. Quando alguns elementos são destruídos, todo o sistema entra em desequilíbrio e tende a se acavalar, se autodestruir durante o esforço por recobrar o equilíbrio original.

O mercado, assim, no nosso objetivo último, deve ser destruído, aniquilado, pulverizado. Todo esforço por domá-lo, sob a liderança de uma forte ditadura estatal e popular, deve tender, ao fim, à destruição dele. O desenvolvimento e a soberania, uma vez alcançados, não significariam aí o fim da missão de nossa utopia, mas apenas o alcance de um estágio inicial, que poderíamos juntamente de Marcelo Gullo chamar de insubordinação fundante realizada, concretizada. Este esforço desenvolvimentista existe para tomar o controle da situação e a partir disso, então, desenvolver uma verdadeira guinada para um novo paradigma, dessa vez político (de pólis) e, assim que possível, abandonar a economia enquanto realidade humana. A economia, em última instância, deve ser aniquilada enquanto atividade e ciência humanas, e dar lugar a um paradigma que se oriente pelo holismo da natureza, pela simbiose do homem com o mundo enquanto universo político em que o homem se vê como apenas uma pessoa dentre tantas outras pessoas presentes, incluindo aí o mar, o ar, a terra etc. A realidade de um pampa gelado em pleno inverno, onde se pode acampar com a prenda sobre as faíscas de uma fogueira, e diante do chiado de uma chaleira e sob o lusco-fusco do sol nascente ou poente, deve ser soberana acima de tudo, deve ter preeminência sobre os interesses de empresas mineradoras ansiosas por lucrar com a destruição alheia. A natureza tem tudo de que precisamos, e a preservação deste paradigma deve ser um dos elementos de nossa utopia.

Um segundo elemento muito importante, não desconectado do primeiro, mas muito raramente considerado na literatura econômica e científica como um todo, é a sacralidade da vida, a saber a beleza contemplativa, a sutileza dos laços comunitários e a hierarquia humana. Nada disso é levado em consideração, mas tudo isso é expressão de saúde; o êxtase religioso, seja ele experimentado pelo monge recluso nas montanhas, seja por uma negra mãe-de-santo em comunidades negras do Nordeste, seja por um agricultor germânico luterano dos vales do Rio Grande do Sul, seja por um filósofo místico ou um músico sutil, todos os êxtases experimentados por estas pessoas como paixão do seu modo de vida, de seus costumes, dos momentos sublimes que lhes ocorrem na experiência com a natureza, ou com seus deuses, esses êxtases todos são expressões da concretude (realidade) da simbiose que existe entre homem e mundo. E é na experiência íntima, silenciosa, sutil, entre o homem e os prados, os deuses, Deus, as borboletas, que se manifesta o sagrado, muito sutil e muito frágil ele. E é cada homem nascendo, crescendo e morrendo no mesmo local que o ciclo se realiza perfeitamente; cada espaço geográfico moldou uma raça específica, os genes de cada raça foram feitos por e para locais específicos, e são estes locais que tendem a gerar uma relação sempre mais íntima entre homem e mundo, até o nível extremo de o homem se perceber como unificado à natureza que o circunda – para se ter uma noção de como o misticismo de alguns filósofos tem sinais mais de realidade do que de pura abstração.

O pintor, o filósofo, o cientista, muito embora vivam vidas um tanto abstraídas do trato direto com a natureza, requerem retirar dela as formas para suas obras. O pintor não pinta a não ser formas que ele imita, o filósofo não descreve a não ser formas que ele descobre ao olhar penetrantemente o mundo, o cientista busca recompor sistemática e racionalmente os contornos não menos lógicos, mas infindáveis, do mundo que ele observa. Na nossa utopia, devemos devolver à natureza, e consequentemente ao sagrado, seu status de centro do universo. As obras devem buscar não na distopia cosmopolita e liberal a “realidade” a qual descrever em suas obras, mas devem buscar no mundo como um todo, nas formas universais da natureza terrena, da natureza supraterrena das galáxias, o paradigma de realidade para imitar ou inspirar suas obras. As obras devem exprimir o real, isto é, o belo, o êxtase sutil passível de ser admirado. Isso inclui a arquitetura, que deve abandonar o paradigma da feiura, do desconforto e do horror dos blocos de pedra, ou das contradições visuais feitas pelo contraste entre o antigo e o bizarro pós-moderno, voltar de novo os olhos para a experiência humana, para as sensações de grandeza, de inspiração positiva, que a arquitetura greco-romana, por exemplo, inspirava. Isso inclui a vestimenta, isso inclui tudo.

A hierarquia, também, está na natureza, e deve ser paradigma para a política. E a hierarquia humana acontece nas relações familiares e comunitárias mais regionalizadas. Deve-se destruir, aniquilar completamente o feminismo e as demais ideologias de gênero e restabelecer a autoridade paterna, masculina. A nível microcósmico, o pai deve reinar sobre a vida doméstica, mulheres e filhos, e a nível macrocósmico o homem deve retornar ao seu trono de chefe de Estado, de comandante. Não se trata aqui de um direito, até porque o Direito enquanto disciplina (e as relações direito/dever) deve ser destruído junto com o mercado. A posição de autoridade exige, antes de tudo, responsabilidade, sacrifício, ela tem que deixar de ser vista como uma concessão, como um “direito de mandar”. A autoridade é não uma carta branca para fazer o que quiser a seu bel-prazer, mas uma instituição sagrada, e sua função essencial é liderar, mostrar o caminho, abrir com seu facão as matas escuras para dar passagem aos que lhe seguem na trilha da história. E essa é a função do homem, tanto quanto a função do sol é iluminar. É claro que autoridades que abusam do seu poder não devem ser permitidas, mas tudo se trata de uma questão de paradigma mental; se, por exemplo, só porque alguns homens estupraram crianças através do tráfico, dermos a autoridade para as mulheres, então quem começará a praticar abusos são elas, e isso porque o paradigma da autoridade contemporâneo está em função do paradigma econômico das relações de propriedade e de usura, de exploração. Hoje, as autoridades acreditam serem “donas” dos seus filhos, de seus súditos, quando na verdade elas são, ou deveriam ser, líderes, guias, sóis para planetas menores e indefesos ou para plantinhas que crescem. Os súditos, por sua vez, devem manter relação de abertura diante da autoridade, senão o único jeito, e neste caso seria lícito, seria o uso da violência por parte da autoridade para que a relação novamente seja aberta. E certamente a natureza não deu ao homem a força por acaso, assim como lhe deu também a capacidade, não repetida na mulher nem na criança, de governar.

Assim, a natureza, as comunidades regionais, a hierarquia, devem ser o centro de realidade do novo paradigma mental. Toda a estrutura sócio-política, econômica, científica, deve convergir para este fim. Certamente a mudança não será nem um pouco fácil, nem um pouco simples de se pensar e realizar. Porque toda uma estrutura civilizacional seria mobilizada para se alterar e mudar de posição, como uma casa que, estando voltada para o Oeste, tivesse que agora se erguer, com todos os seus departamentos, móveis e hábitos de rotina de quem ali mora, e voltar para o Leste.

Isso tudo se circunscreve na Quarta Teoria Política, que clama por um paradigma holístico, por uma superação da pós-modernidade e do liberalismo, mas também clama por uma superação da própria economia (ou do capitalismo, dentro do qual também se deveria incluir o comunismo, que nada mais é que um desenvolvimento posterior do capitalismo) enquanto realidade. Para a QTP, as atividades econômicas devem ser superadas, seus conceitos devem ser superados, e toda atividade de troca deve ser regida não mais por paradigmas econômicos, mas estritamente políticos, orgânicos, planejados e executados pelo Estado, banindo, assim, o lucro como possibilidade, consequentemente banindo o surgimento de classes econômicas. A nova organização estatal, ao invés de se organizar em classes, deve se orientar por novas categorias, e buscar respostas no estamento ou na casta, que pressupõem no pano de fundo uma natureza orgânica, objetiva e supra-subjetiva, para a alocação dos elementos, que são os cidadãos.


Conclusão

Muito do que está aqui escrito precisa ser renovadamente refletido, repensado e reconstruído. Mas os desenhos gerais parecem sólidos. Uma única questão que eu me faço, e que me faz sempre retornar às reflexões sobre o assunto porque de alguma forma abalam o sistema e exigem reconstrução, é a seguinte: o ideal seria então um retorno à vida idílica? Pois, se isto for impossível, de que forma poderíamos pensar um desenvolvimento industrial permanente? E ainda, com Malthus, de que forma conciliar o crescimento populacional, e civilizacional como um todo, com um mundo que sofre? Uma alternativa poderia ser simplesmente uma suspensão completa das preocupações e assumir que o homem está destruindo mundo, se autodestruindo, e que isso é imparável e que este é o destino de toda civilização, que isso também se vê no mundo animal e até no mundo mineral etc., quando uma população, encontradas as condições, cresce ao nível do absurdo e então, de repente, uma pequena crise de recursos faz a espécie desaparecer.

No fundo, tudo é uma questão de como respondemos a estas perguntas. No fundo, tudo é metafísica, tudo é derivado de como enxergamos a origem e o destino das coisas. Eu prefiro, então, deixar esse primeiro questionamento a respeito do industrialismo ou do retorno idílico em aberto. Em ambos os casos, porém, exigir-se-ia projetos sólidos, inclusive de eugenia; pois, de um lado, precisaríamos preparar uma humanidade para o retornar a condições naturais e assim realocar cada qual em seu espaço; do outro lado, precisaríamos selecionar os genes mais adequados para tocar adiante uma marcha pela torre de Babel, uma vez que a tendência, com a tecnologia, é que também, ou sobretudo, se proliferem genes que, em condições normais, não sobreviveriam e que, em civilizações tecnológicas, seriam incapazes de sustentar e liderar o sistema.

O que, porém, nós devemos parar de pensar, é em como levar a humanidade para viver em outro planeta, se nós já temos o melhor e o estamos destruindo.


Notas:



[3] Fonte: Observatório Trabalhista do PDT, 200 dias de governo Bolsonaro.


[5] Itaú lucra 6,8 bi no primeiro trimestre de 2019, subindo 7,1% em relação a 2018: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2019/05/02/lucro-itau-1-trimestre.htm
Santander lucra 3,48 bi no primeiro trimestre de 2019, subindo em 22% em relação ao ano anterior: https://www.infomoney.com.br/santanderbr/noticia/8266582/santander-brasil-lucro-liquido-gerencial-vai-a-r-3485-bi-no-1tri19-alta-de-219-em-um-ano
Bradesco vai a 6,8 bi com aumento de 22% no mesmo período: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/04/lucro-do-bradesco-cresce-22-no-1o-trimestre-e-vai-a-r-62-bi.shtml (todos os links: 11/07/2019)



Referências:

FONSECA, P. “Gênese e Precursores do Desenvolvimentismo no Brasil”, Pesquisa & Debate, 2004, pp. 225-256

FONSECA, P. “Desenvolvimentismo: a construção do conceito”. Presente e Futuro do Desenvolvimento Brasileiro, Brasília: IPEA, 2014, pp. 30-79