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domingo, 2 de dezembro de 2018

Alexandr Dugin: "Síria é importante para acabar com a hegemonia ocidental de destruição de países árabes"

Alexandr Dugin (nascido em Moscou, 7 de janeiro de 1962) é um dos grandes ideólogos da Rússia contemporânea. Analista político, filósofo político e historiador de religiões com estreitas conexões com o Kremlin e os militares. É um homem vinculado à alta política há anos sendo, além disso, o grande ideólogo da Quarta Teoria Política, do Neo-eurasianismo, com uma grande e crescente influência e autoridade entre o povo russo, dentro do Kremlin e, cada vez mais, fora da Rússia. Teve a graça de conceder uma entrevista para a Oltracultura.com.(Tradução: Álvaro Hauschild)
1- Quais foram os desafios internos que Rússia teve que operar, particularmente desde a chegada de Vladimir Putin ao poder depois da década dos anos noventa (a década Yeltsin) na qual a Rússia teve uma brutal crise econômica, viu-se nas mãos de oligarquias ou de países estrangeiros (Estados Unidos enviava grandes quantidades de dinheiro para a Rússia), viu-se com um gravíssimo problema na Chechênia e com grande descrédito internacional. Quais foram os desafios que Putin teve que superar e como se chegou a essa situação tão delicada e perigosa para a Rússia de aberto comprometimento com a grande superpotência internacional que são os Estados Unidos? Como a Rússia se recuperou nestes quinze anos de governo de Putin?
Dugin: Sim, este foi o momento mais difícil, mais dramático da história da Rússia atual. Quando Putin chegou ao poder, foi o momento de mudança total do curso, mas, paradoxalmente, Putin foi posto lá por Yeltsin, não veio de fora do sistema, era membro do grupo dos liberal-democratas de São Petersburgo, trabalhava com Anatoly Sobchak, que era figura simbólica do liberalismo ocidentalista demagógico russo, dos piores; interessante que Putin chegou ao poder não como a alternativa a Yeltsin, mas como o representante de seu sistema, de seu grupo. Desde os anos noventa, [este grupo] era chamado "a família" de Yeltsin, não no sentido de sua família real, natural, mas no sentido da gente, dos oligarcas que sustentavam Yeltsin.
O liberalismo, esta ocupação do país pelo Ocidente, precisamente porque nos anos noventa foi a ocupação... Gorbachov quis fazer um acordo com o Ocidente para deixar a Guerra Fria, mas Ocidente entendeu isto como uma capitulação da Rússia, e a resposta foi a expansão da OTAN, da pressão sobre a Rússia para acelerar seu término, seu fim. Brzezinski declarou abertamente que se deveria destruir totalmente a Rússia. Era a política geral do unipolarismo ocidental nos anos noventa. A elite que chegou ao poder, liberal-democrata, era uma elite pró-ocidentalista que ajudava o Ocidente com a destruição do país, eles venderam quase tudo, e Putin era um deles; é muito importante compreender, entender, o que se produziu no momento de sua chegada ao poder.
Era uma parte deste sistema. Este sistema rumava no sentido da destruição total do país, a posição era fraca, não se pôde opor em nada contra este caminho dos liberais, dos oligarcas, dos traidores, e Putin era parte deste grupo. Mas quando ele chegou ao poder, ele mudou tudo de supetão, completamente. Sendo o homem de Yeltsin desde seus primeiros passos no poder, Putin começou a seguir uma linha completamente oposta à linha de Yeltsin.
Yeltsin não pôde nem quis acabar com a guerra na Chechênia, o que ele quis era continuar colaborando com o Ocidente, e Putin transformou tudo isso imediatamente, com vontade e decisão acabou com a guerra na Chechênia, começou a reconstruir a Rússia, saindo do Fundo Monetário, dos preceitos do Banco Mundial, e começou a reafirmar, reconstruir a soberania nacional da Rússia. Nisso ele foi apoiado completamente pelo povo russo, totalmente; faltava a Putin o partido, a estrutura, a ideologia, a elite também lhe faltava; foi apenas posto pelos liberais, os oligarcas e Yeltsin mesmo, mas mudou tudo, era uma forma.
Não era a oposição que vencera as eleições; pelo contrário, era integrante do grupo de Yeltsin nos anos noventa que se revoltou, depois de chegar ao poder, contra tudo isso e, desde então, começa outra história para a Rússia. A história de Putin com o conservadorismo, a soberania nacional, o patriotismo, com o curso em geral, com a multipolaridade, com a integração do espaço pós-soviético no sistema eurasiático. Uma mudança completa e radical com respeito ao curso de Yeltsin. Putin era o oposto, mas há que compreender que Putin não mudou a elite; a elite é a mesma. É a elite liberal dos anos noventa que não pode se revelar abertamente contra Putin, mas conserva suas opiniões e ideias liberais. Putin não criou outra elite, não criou instituições para o apoio de seu decurso.
Por isso devemos considerá-lo um líder solitário, um Czar solitário, que tem o apoio do povo geral, mas da elite nas instituições não têm qualquer apoio nem mesmo estrutura, exceto talvez o exército, o círculo dos militares, do Estado profundo russo, mas no nível da elite não tem apoio.
2- Há um tema muito interessante, falando sobre os liberais na Rússia, como muitos desses oligarcas como, por exemplo, citando nomes, Abramovitch (que comprou o Chelsea, um time de futebol britânico), como Berezovsky; eles abandonam a Rússia e se refugiam no Reino Unido, assim como Ahmad Zakaev, que foi presidente da Chechênia quando foi independente e que obviamente fugiu da Rússia para o Reino Unido; e do Reino Unido quero falar porque há pouco, há apenas uma semana se difundiu uma notícia sobre uma operação do Estado profundo britânico na Europa, cuja função consistia, precisamente, em evitar através de diferentes lobbys na Europa continental (entre eles Espanha) que a influência russa fosse avançando. Por acaso estamos agora mesmo na Europa, evidenciando o caso da Ucrânia, sobre o qual falaremos depois, por acaso estamos assistindo a uma guerra entre um eixo que é o Reino Unido e os Estados Unidos, de um lado, e a Rússia por outro?
Dugin: Sim, você perguntou muitas coisas em uma só questão; para começar, falemos dos oligarcas. Putin não destruiu os oligarcas, ele apenas fez uma diferenciação, uma divisão entre os oligarcas. Uns aceitaram sua inclinação, como Abramovitch, os outros se revelaram contra Putin, como Berezovsky. Putin não é anti-oligarquista, sua política consiste na promoção dos oligarcas leais à sua inclinação, à ideia da soberania da Rússia; o reconhecimento dos valores conservadores soberanos lhes deixa viver. Os que se revelam contra esta inclinação, contra Putin e os valores que esta inclinação representa, saem do país, como Berezovsky.
Berezovsky foi assassinado, creio eu, pelos britânicos porque quis voltar à Rússia. Ele tinha saudades, pensava que tinha cometido o erro de se mostrar contra Putin, quis voltar e foi assassinado; ele tinha os contatos com os serviços secretos britânicos e americanos, e foi assassinado porque enviou uma carta a Putin com a explicação de sua saudade pela Rússia, com o reconhecimento de seus erros etc. etc., e foi assassinado por isso.
Sobre o Reino Unido agora. A Inglaterra sempre foi o inimigo geopolítico da Rússia, o ponto central do imperialismo anglosaxão, e esta tradição continua. No Reino Unido, recentemente se publicaram documentos que mostram que Reino Unido quis apresentar a Rússia como agressora, apresentá-la também como influenciadora das eleições na Catalunha para destruir a Europa, apoiando os elementos extremistas. Tudo era mentira, tudo era completamente falso e foi organizado com fakenews e propaganda pelos britânicos.
Não creio que as relações com os Estados Unidos sejam muito diferentes das relações com o Reino Unido, porque, apesar de certa simpatia entre Trump e Putin, Trump não pode sair dos limites do atlantismo e da elite americana. A elite norte-americana não deixa Trump se aproximar de Putin e ele entende isto perfeitamente, por isso [Putin] busca o apoio mais a oriente, na China, no Irã, na Turquia e outros países orientais e com alguns representantes conservadores alternativos antiglobalistas europeus de esquerda ou direita. Por isso, apesar de que Putin não faz grandes coisas para o apoio do movimento alternativo no Ocidente, creio que este movimento de esquerda e de direita vê em Putin precisamente este símbolo da luta contra a globalização, o globalismo, contra a hegemonia das elites liberais mundiais que destroem não apenas o mundo asiático, africano ou latino-americano, mas também a própria Europa.
A Europa começa pouco a pouco a se revelar, como os gilets jaunes na França atual. Putin, como o defensor da ordem multipolar, é o inimigo geopolítico do globalismo e da hegemonia americana, e representa um símbolo nesta luta. Os britânicos estão em pânico precisamente porque a autoridade de Putin cresce no mundo e na Europa. A Europa quer um líder como Putin, forte, popular, que defenda a sociedade e que luta contra os que querem debilitar as sociedades. Creio que hoje Putin seja o líder mais popular em toda a Europa; apesar das pretensões dos liberais e dos oligarcas europeus que querem demonizar Putin, ele não é um demônio, é um líder muito querido na Rússia precisamente porque representa o povo, não tanto as elites, mas o povo.
3- Sobre isso eu quis falar. Durante muitos anos na Europa os líderes se encontraram distanciados dos diferentes povos da Europa porque se encontram ao serviço de organizações internacionais, em muitos casos dentro desta ordem mundial também imposta pelo liberalismo estadunidense, falo de presidentes que seguiam diretamente as diretrizes do Banco Central Europeu, do FMI etc...o domínio dos Estados Unidos sobre a União Europeia e, agora, o fato de que Reino Unido saiu da União Europeia também levou a que os países da União Europeia se encontrem sob controle dos Estados Unidos, evita boas relações de dependência entre Rússia e a União Europeia a nível financeiro, a nível econômico, enquanto Europa necessita de recursos naturais que Rússia possui, e Rússia precisa do financiamento que a Europa tem. Essa ruptura, completamente artificial, é devido ao liberalismo vindo dos Estados Unidos, o atlantismo. Qual é a opção que a ideologia, o movimento Eurasiático, que você tem desenvolvido em seus textos para salvar estas relações entre União Europeia e Rússia, oferece?
Dugin: Sim, estou de acordo que Rússia e Europa têm todos seus interesses regionais comuns ao serem aliados, porque a Rússia contemporânea não tem mais ideologia radical comunista ou socialista, não é mais imperialista ou colonialista como nos tempos passados. A Rússia contemporânea é bastante fraca para representar perigo para a Europa.
Essa fraqueza é muito importante para compreender que Rússia não representa perigo, mas que representa a possibilidade positiva, os recursos, grande mercado para os produtos, investimentos, frandes recursos naturais para apoiar a economia europeia. Graças ao desenvolvimento das relações normais, naturais, entre a Europa contemporânea e a Rússia, que não representa mais este perigo para a Europa, lutam com esta elite liberal dos americanos, porque as elites europeias lutam contra os interesses regionais de seus povos, são não tanto antirussos, mas sobretudo antipopulares e antieuropeus estas elites, são traidores dos interesses regionais dos europeus, e por isso querem trazer mais e mais imigrantes para destruir esta classe média europeia e destruir as sociedades tradicionais e democráticas europeias, querem destruir a Europa essas elites, os governantes atuais da Europa não são europeus, não são representantes dos povos.
Macron, Merkel e todos os demais. Creio que com líderes com responsabilidade, que defendam os interesses da Europa, seria necessário um pacto comum com a Rússia, desenvolver as relações. Contra isso estão mobilizadas as forças antieuropeias e antirussas. Querem mostrar a Rússia como o perigo, como o poder autoritário e totalitário, e creio que o problema com a Ucrânia foi criado artificialmente, precisamente para destruir essa imagem (positiva da Rússia) e provocar a guerra civil dentro da Rússia. Nós somos o povo eslavo, cristão, eslavos orientais. Creio que os líderes europeus que apoiaram o Maydan, este golpe de Estado dos ultranacionalistas, ultraliberais ucranianos contra Rússia, quiseram precisamente destruir completamente as relações entre Rússia e Europa.
Sobre a ideologia, a Rússia atualmente não tem qualquer ideologia, não tem ideologia comunista, nacionalista ou liberal. O Eurasianismo, sobretudo a Quarta Teoria Política, está se desenvolvendo como a teoria política do Estado profundo ou da corrente nacional patriótica independente da Rússia contemporânea, porque no nível das elites a Rússia está na situação de confusão com muitos aspectos do liberalismo dos anos noventa, os restos do comunismo e socialismo, e não está organizada intelectualmente, mas o grupo dos patriotas desenvolveram esta ideia do eurasianismo. A teoria do mundo multipolar, a Quarta Teoria Política, fora do liberalismo, fora do comunismo e do fascismo.
(A Quarta Teoria Política) propõe superar estas teorias do mundo moderno para unir a pré-modernidade com a pós-modernidade, a fim de criar uma crítica radical da modernidade ocidentalista. A Europa precisa desta nova ideologia para sair da modernidade política, no interior da qual o liberalismo mostra sua essência niilista, sua essência suicida; porque o liberalismo, depois de vencer o comunismo e o fascismo, mostrou a essência da própria modernidade na Europa moderna, que representa, como disse Heidegger, o niilismo puro, total.
O liberalismo hoje se mostra como a ideologia totalitária que impõe os princípios da correção política como a forma necessária junto com a política de gênero ou a imigração, que não correspondem em nada aos interesses dos europeus normais, concretos. Contra esta ideologia liberal há que lutar, mas sem cair no comunismo ou no fascismo, que são duas formas superadas desta visão antiliberal. Precisamos de uma forma mais atualizada e totalmente diferente, totalmente fora do comunismo e do fascismo, porque ambos são, também, produtos da modernidade, da Europa moderna e do niilismo que operam com os sujeitos artificiais de classe, nação ou raça, que são artificialmente compostos na mesma medida em que o conceito de indivíduo, que é o conceito central do liberalismo.
Não existe, na verdade, indivíduo nem raça nem classe. Tudo isso são abstrações; existe homo, existe o Dasein heideggeriano, existe a existência pensante, a presença pensante como Heidegger dizia. Precisamos construir a Quarta Teoria Política, baseando-a nesta instância nova e ao mesmo tempo eterna.
4- Sobre esta Quarta Teoria Política, e na verdade que foi muito interessante sua resposta, eu gostaria de lhe perguntar: quais seriam as respostas desta Quarta Teoria Política para os problemas que transcorrem agora mesmo na Europa ocidental, por exemplo, respostas do Eurasianismo frente à problemática migratória que está acontecendo agora na Europa, frente aos movimentos homossexuais e feministas histriônicos que estamos encontrando desproporcionalmente belicosos, frente à questão econômica; falo de salários muito baixos, vida muito cara que cada vez mais está destruindo a classe média que, em muitos casos, se perdeu -- qual seria a resposta para estes problemas citadinos concretos que seriam resolvidos pelo Eurasianismo na Europa ou na América Latina?
Dugin: sim, para começar em ordem, primeiramente deve-se compreender que o problema é o liberalismo, o liberalismo é o mal absoluto. Todos os problemas que afetam hoje as sociedades ocidentais provêm diretamente da ideologia liberal, que traz os imigrantes, que destrói a classe média pela política liberal, que faz com que os ricos se tornem mais e mais ricos enquanto os pobres se tornem mais e mais pobres, sem pensar na justiça social, porque o liberalismo leva ideologicamente, dogmaticamente, a ideia da justiça social. Quando não há mais justiça social. Não se deve estranhar que quando aceitamos os liberais de esquerda e direita, a ambos, votamos para que não haja justiça social.
Deve-se entender que a política de gênero também é consequência direta do liberalismo, porque o liberalismo é a ideologia que insiste que devemos liberar o homem, o ser humano, de todos os vínculos com a identidade coletiva. A identidade coletiva da igreja, da nação, mas também a identidade coletiva do sexo, porque o sexo também é coletivo, identidade coletiva. Os homens e as mulheres são tais como são enquanto coletivos, não individualmente. A política de gênero é a política liberal; em breve, o último passo será o de que ser humano também é uma opção, assim como hoje é a respeito do gênero, da nação, da religião. Isso é liberalismo.
Temos o mesmo a respeito dos imigrantes; são indivíduos iguais aos demais, não há qualquer diferença entre os imigrantes europeus tradicionais, aos olhos dos liberais, porque não existe qualquer identidade coletiva (neles). Esta é a ideia dos Direitos Humanos, que é uma forma de ideologia que destrói o ser humano. É uma ideologia totalitária a dos Direitos Humanos, porque insiste sobre a identificação entre os direitos dos cidadãos e a dos não-cidadãos. Desta maneira, os liberais destroem os Estados, as nações e as identidades, destroem os povos.
O povo começa a compreender que se trata de uma forma de política completamente destrutiva e começa a se revoltar, mas não pode encontrar a ideologia correspondente para explicar e dar um apoio a esta revolução, porque a ideologia de direita, o fascismo, perdeu sua luta historicamente e é muito fácil demonizar os que estão a favor do Estado fascista e acabar com eles; a mesma coisa ocorre com os comunistas, socialistas tradicionais, uns são traidores e aceitaram ser liberais como muitas da esquerda tradicional, e os outros são marginalizados como os stalinistas etc. etc.
A esquerda anticapitalista e a direita conservadora perderam a possibilidade de estarem presentes na estrutura política, e não podemos, nem devemos, salvá-los. A Quarta Teoria Política propõe lutar contra o liberalismo sem se apoiar no fascismo ou no comunismo. Como salvar a situação? Por exemplo, deve-se mudar o poder na Europa, deve-se mudar as elites que estão contra o povo, para que o poder seja tomado por um governo popular, como na Itália.
A Itália é um exemplo. Se a elite não quer sair, deve-se organizar os protestos e as revoluções como na França hoje, com os gilets jaunes, mas é muito importante que a exemplo do êxito ocorrido na Itália, a revolução popular dos gilets jaunes na França não seja nem de direita nem de esquerda. O governo italiano está criado com os populistas de direita e os populistas de esquerda, a fim de criar o populismo integral; os gilets jaunes também não são de esquerda ou de direita, são os representantes do povo. A Quarta Teoria Política quer dar o apoio ideológico, a doutrina ideológica, para que o povo se revolte contra as elites; tudo deve ser mudado, todo este dogmatismo liberal, em todos os aspectos, na economia, na política cultural, na política de gênero, mas não deve ser o retorno para trás, e sim o passo em direção ao futuro.
Podemos imaginar a vida depois do liberalismo, depois dos liberais, depois do fim do dogmatismo e do totalitarismo contemporâneo. Podemos encontrar respostas fáceis para salvar a situação, porque a raiz do problema está precisamente no liberalismo. O liberalismo deve ser aniquilado completamente, os liberais não porque não são responsáveis. Precisamos lutar contra a ideologia, contra a ideia, mais que contra a pessoa; não deve ser brutal, deve ser a mudança ideológica e política acima de tudo, e só depois podemos salvar o problema de quem deve governar, não as identidades dos políticos, dos grupos ou partidos, mas as ideias. Precisamos começar com as ideias e mudar o idealismo.
Somente depois poderemos salvar os problemas, quando os liberais deixarem de estar em seus cargos; enquanto nada puder ser mudado, nada absolutamente, este sistema não tem a possibilidade de evolução. Insistirá sobre seus princípios, imigração ilimitada, política de gênero mais extremista, o enriquecimento dos mais ricos até o momento último da catástrofe; esta elite catastrófica leva a Europa ao abismo; para salvar a Europa desta situação devemos destruir o liberalismo, não os ideais, mas a ideologia e a dogmática.
Com isso, também, devemos entender que as raízes desta situação está na modernidade política europeia, o modernismo; a modernidade que destruiu os vínculos com a tradição, o sagrado, a identidade profunda europeia era o começo do fim.
5 De fato, temos visto, durante um tempo, tentativas por parte de diferentes organizações internacionais vinculadas a serviços secretos ocidentais de introduzir esta ideologia na Rússia com a mão das famosas Pussy Riot, por um lado, FEMEN por outro. De fato, FEMEN foi um dos elementos desestabilizadores nos protestos contra Viktor Yanukovitch. Em chave geopolítica, como poderíamos ler a situação na Ucrânia, a ruptura da Ucrânia, a aparição do Estado da Novorrússia, por um lado, e, por outro, a reintegração da Crimeia ao território da Federação Russa, as relações diplomáticas e de inteligência entre Rússia e Europa, isto é, entre Quarta Teoria Política e liberalismo?
Dugin: Na Rússia, os que se opõem a Putin diretamente, como o Pussy Riot ou outros, não representam o perigo, não são perigosos, são muito pouco conhecidos e sua importância é exagerada demais no Ocidente, são nada. Pussy Riot não representa coisa alguma. Neste sentido, nós chamamos isto de quinta coluna e não representa perigo; um perigo maior representa a sexta coluna, que são os liberais que estão em torno de Putin e que não compartilham de seus princípios, seu conservadorismo ou a ideia da soberania. Eles calcularam que não é possível se voltar contra ele diretamente, sem Putin não é possível conservar sua posição, por conformismo são leais, porém são os representantes da rede ocidentalista-liberal pró-atlantista e representa mais perigo do que a quinta coluna.
A quinta coluna não representa tanto perigo, já a sexta sim é perigosa de verdade. Contudo, mais perigosa é a forma geopolítica. Por exemplo, o fato de que temos vencido a situação na Chechênia não apenas com armas, mas que propusemos aos chechenos uma lealdade à Rússia e, ao mesmo tempo, permitimos que conservassem e desenvolvessem sua própria identidade islâmica e étnica etc. etc.
Kadyrov é leal a Putin, não por sua servidão, mas, pelo contrário, pelo cálculo lógico de que Putin é a única possibilidade de assegurar a independência e a identidade dos chechenos, e porque o Ocidente nunca poderia assegurar o mesmo porque está contra a religião, a tradição, a etnicidade e a cultura tradicional. O Ocidente utiliza as minorias para destruir as grandes identidades, mas depois de destruir as grandes identidades, as grandes nações, acabará com as pequenas, após usar os pequenos nacionalismos contra os grandes nacionalismos. Os chechenos entenderam isto perfeitamente, são leais baseando-se no entendimento de seu futuro, porque são tradicionalistas, são muçulmanos, querem conservar sua identidade, e a Rússia, tradicional, eurasianista, permite esta possibilidade.
O que acontece na Ucrânia? Na Ucrânia, a situação é muito difícil, porque, depois do Maydan, começou a guerra civil entre os povos irmãos, que são dois ramos do mesmo povo dos eslavos orientais, pequenos russos e grandes russos. É catastrófica a tragédia organizada pelos ocidentais atlantistas e os elementos extremistas da Ucrânia ocidental; depois da reunificação com a Crimeia e a declaração de independência das repúblicas do Donbass, a situação é muito, muito difícil. Não é a vitória do eurasianismo, a Quarta Teoria Política, não, de modo algum; é uma tragédia, porque a maioria da Ucrânia permaneceu sob o controle da junta de Poroshenko, dos pró-ocidentalistas liberais e neonazistas ucranianos, e a maioria da população sofre esta pressão de Kiev.
Nós libertamos uma parte pequena da Ucrânia, mas seria muito melhor não libertar, e sim ter uma Ucrânia integral, inteira e unificada, porém neutra ou aliada da Rússia. Não obstante, depois do Maydan não era possível contar com sua neutralidade ou amizade, e era necessário realizar os passos que Putin fez, embora não fosse o ideal. Devo reconhecer que teve muitos erros por parte da própria Rússia, que não entendia a importância da Ucrânia e que não desenvolvera uma política efetiva para salvar a Ucrânia como um país neutro ou irmão. A situação de hoje não é boa para os dois povos, porque não corresponde à visão natural, nem é harmônica, porque a Ucrânia está separada internamente.
Estão os que aceitam a junta e os que estão contra a junta ucraniana, que hoje declarou o estado de emergência e a militarização plena em sua guerra contra a Rússia. Mas é uma provocação, porque Poroshenko perde suas posições e não há qualquer possibilidade de ser reeleito, por isso precisa de um estado de emergência para salvar sua posição política; mas, apesar disso, nada está de verdade decidido na Ucrânia, a situação catastrófica está congelada, mas não está, ainda resolvida.
6- O papel de Lukashenko foi muito interessante nas conversações entre Rússia e Ucrânia. Mas me chama muito a atenção uma coisa, e eu gostaria de perguntar sobre isso, e é o fato de que com Crimeia, a Rússia assegura uma posição de superioridade no Mar Negro, porém, realmente, também Sebastopol é o início de uma rota muito interessante que termina em Tartous, na Síria. Estaríamos dizendo que Sebastopol era necessário para assegurar o interesse russo tanto no Mar Negro quanto no no leste do Mediterrâneo, e para poder ter uma rota segura para a Síria, a fim de ajudar o presidente legítimo Bashar al Assad dentro da guerra que está lutando contra os mercenários e grupos terroristas pagos pelo Ocidente?
Dugin: Sim, acredito precisamente nisto, e que a Síria era necessária não apenas para assegurar os interesses estratégicos da Rússia, mas também para acabar com esta hegemonia ocidental de destruição de países árabes; era necessária para poder fim ao unipolarismo, porque os americanos destruíram Afeganistão, destruíram Iraque, sem quaisquer explicações, e depois interviram na Líbia e mataram o presidente Gaddafi, depois começaram a fazer o mesmo no Egito e na Síria.
Era necessário, era absolutamente necessário acabar com isso e demonstra que existem outras potências que não estão de acordo com estas maneiras de intervir onde bem entenderem, matando líderes, querendo impor sua visão vem perguntar as população, criando massas de refugiados, imigrantes, criando o caos, governar com o caos. Rússia interveio na Síria não tanto para assegurar seus interesses nacionais egoístas, mas para pôr fim ao caos organizado ou manipulado que os Estados Unidos e o Ocidente, os liberais globalistas usaram em toda parte com as revoluções coloridas, com as redes apoiadas pelo fanático, totalitário, maníaco, terrorista Soros, cuja organização Open Society é criminosa. Ele apoiou feitos ilegais e se trata de uma organização terrorista, sendo reconhecida em alguns países como organização terrorista, George Soros é mais perigoso que Bin Laden.
É o perigo à estabilidade dos países, à liberdade, à lei, e deve ser julgado. Deve ser preso e julgado por seus feitos, seu apoio ao terror e às mortes da gente, milhões de pessoas que são vítimas das revoluções organizadas com seu apoio, suas redes, seus grupos de influência e financiados por este grande capitalista, é um criminoso número um.
Isso acontece na história: se começas a lutar contra Hitler, pouco a pouco surge um Hitler em ti mesmo. Esta velha história da transformação do herói que luta contra o dragão e se converte ele mesmo em dragão. Soros é a demonstração desta forma de loucura, porque seu antifascismo e anticomunismo pouco a pouco se tornaram fascistas e comunistas, totalitário. Sua luta contra o totalitarismo é totalitária e se transformou na nova forma de totalitarismo. Por isso creio que nossa intervenção na Síria foi a intervenção contra esta forma de governo pelo caos imposta aos países árabes pelo Ocidente.
E era o caminho necessário para a afirmação da ordem multipolar das coisas, e Putin é a forma e a garantia não tanto para o presidente Assad, mas também para todos os povos árabes para elegerem. Podem optar pelos Estados Unidos, pela Rússia ou pela China, com isso obtêm a liberdade de escolha, creio que a Rússia se torna mais e mais o polo mais atraente, simpático quase a todos os grupos no mundo. Os árabes eu vejo, mais e mais, os representantes dos países muçulmanos que vêm para Moscou para encontrar com os representantes russos e estabelecer contatos conosco, e estão muito interessados na Quarta Teoria Política, no Eurasianismo e na Teoria do Mundo Multipolar.
7- De fato, isso explica as boas relações entre a Rússia e outro Estado do Oriente Médio, como o Irã. É mais para os muçulmanos em geral o exemplo da Chechênia como comentávamos há pouco, o respeito que se oferece desde Moscou em relação a Grozny, e como Ramzan Kadyrov responde a este respeito com uma lealdade total. Pois também está penetrando nos países islâmicos, porque, obviamente, a diplomacia russa é muito mais sofisticada, muito menos agressiva que a norte-americana ou liberal, mas, ao mesmo tempo, consegue muitas más coisas; ganha a adesão destes países e, para is terminando, gostaria de perguntar sobre George Soros e sua implicação nesta onde de imigrantes que atravessaram os balcãs desde a Turquia e chegaram no centro da Europa, falamos de entre um e dois milhões de pessoas. Como Soros instrumentalizou este problema dos refugiados e como ele e certos serviços de inteligência penetraram em países europeus e nos submeteram a seus planos de introdução destes refugiados que vêm de fora da União Europeia?
Dugin: Seria, a meu ver, um erro identificar gentes como George Soros como estando a favor do islã e que desejam desenvolver ou fortalecer a influência muçulmana na Europa. Soros é o inimigo jurado de todas as religiões e tradições, dos valores verticais transcendentes do cristianismo, do islã, mas também do judaísmo, porque Soros está muito mal visto em Israel também.
Soros é um fanático dogmático do liberalismo que quer destruir todas as identidades coletivas, todas. Precisamente o livro que é mais caro a Soros é o livro de Karl Popper, que Soros considera seu mestre, que se chama "A Sociedade Aberta e seus Inimigos"; os inimigos da sociedade aberta é a gente que tem religião, pátria, identidade, consciência de classe, nação, valores tradicionais. Todos são representantes para esta ideia do liberalismo radical extremista, eles são os inimigos.
Para destruir a Europa com os valores tradicionais e sua identidade, Soros quer, praticamente, organizar esta corrente de imigração artificial para destruir a identidade europeia, mas com os imigrantes, que representam outras sociedades tradicionais religiosas como islã e outras tradições. Os curdos tradicionalistas, e tenho visitado o Curdistão, são profundamente tradicionalistas, mas quando chegam na Europa, os curdos, afegãos, árabes, africanos, sírios, todos, todos perdem sua identidade e começam a se dissolver em sociedade pós-moderna, liberal, de gênero, perdem sua religião ou transformam esta religião na forma radical, na caricatura do islã.
Porque o islã, sem o ambiente cultural oriental, se transforma em uma caricatura, um simulacro. Precisamente esta é a ideia de Soros e suas redes, destruir ambas as identidades. Destruir a identidade da sociedade europeia com os imigrantes de identidades opostas ou diferentes, e assim também destruir a identidade dos povos tradicionais do Oriente, como muçulmanos principalmente, ou ainda africanos, com esta confusão na sociedade pós-moderna europeia. Depois de voltar da Europa para seus países, os imigrantes levam com eles também os aspectos desta pós-modernidade que destrói sua identidade. Soros quer destruir todas as sociedades tradicionais, todas as identidades coletivas, porque a identidade coletiva é o inimigo maior da sociedade aberta.
É seu fanatismo, mas Soros é muito forte que representa parte do governo mundial, sua força não é tanto seu dinheiro, mas seus princípios liberais. O liberalismo é uma ideologia criminosa, e Soros é um dos manipuladores, por detrás dele estão Rothschild, Rockefeller, os grandes monopólios globais, o governo mundial que em sua campanha eleitoral Trump declarou que esta era a coisa mais poderosa, maior que o presidente dos Estados Unidos. A organização é mais forte que os Estados Unidos, seu exército... sua estrutura é mundial, a seita dos globalistas, e Soros é um dentre os quais controlam toda a terra atualmente.
Por isso têm também relações com os serviços secretos, governos e chefes dos Estados que são seus escravos. Macron foi posto por Rothschild, Macron é um algoritmo. O homem é um servo, uma forma de ordenador, é virtual, criado por gente como Rothschild e Soros, por isso a maioria dos deputados europeus estão pagos por Soros, para promover a agenda de destruição das identidades coletivas, por isso é muito perigoso.
Os povos não são livres até o momento em que este governo mundial caia, precisamos lutar todos contra este governo em todos os países. Temos o governo italiano, temos na Hungria a Orban, temos Vladimir Putin com o apoio do povo russo, temos Irã, temos em novo curso Erdogan, temos a grande China que representa a potência, a segunda economia do mundo, que rechaça e nega esta hegemonia unipolar, este globalismo ocidental. Temos Trump, Bannon, temos a revolução da América profunda que se mostrou nas eleições de Trump, temos muito, mas não devemos subestimar sua força atual.
Os grupos do Soros são muito poderosos, podem influenciar os governos. Tenho esperança de que um dia na Espanha também apareça a frente populista comum entre a direita populista e a esquerda populista, mas precisará superar o antifascismo e o anticomunismo, porque servem aos liberais para dividir entre os populistas de direita e de esquerda, portanto em luta comum contra os liberais, os populistas podem ter vitória.
8- Para ir terminando, por exemplo, desde a frente liberal, desde a União Europeia, existe uma tendência de alarmar a população sobre o papel da Rússia, sobre a infiltração da Rússia na U.E., o papel da Rússia no movimento de extrema direita, movimentos de extrema esquerda, no nacionalismo catalão etc...., mas quando nos atemos aos fatos, vemos que o peso dos lobbys em Bruxelas recai sobre os Estados Unidos, apenas Rússia tem presença em Bruxelas ou Londres. Temos que ver, por exemplo, que a União Europeia está fagocitada pela CIA e pelo MI6. Ao mesmo tempo, qual é a maneira que a Rússia terá de aumentar sua presença na Europa Ocidental? por exemplo, temos o canal Russia Today, mas essa presença da Rússia aumentando na Europa Ocidental não pode fazer com que os liberais busquem uma guerra com a Rússia, que estão desejando-a, atendendo aos fatos que estamos vendo com a expansão da OTAN em direção a leste, a presença da OTAN na Estônia, Letônia e Lituânia e a situação na Ucrânia?
Dugin: Sim, é tradicional para os criminosos dizer que as vítimas são os criminosos eles mesmos, por isso os serviços secretos britânicos que se ocupam das fakenews, de acusar a Rússia de intervir nas eleições, apoiar os movimentos radicais. São eles que fazem estas coisas, que se ocupam da desinformação, da propaganda, das provocações etc. etc. isso é tradicional.
Eles querem fazer da Rússia o monstro ou o inimigo, dizendo que a Rússia quer dominar a Europa Oriental e Ocidental etc. etc., todos estes mitos existem para não mostrar diante dos olhos dos europeus o verdadeiro inimigo, que são os liberais. Querem mobilizar a consciência europeua contra a Rússia porque não representa qualquer perigo, não representa tampouco a salvação nem a alternativa, entretanto, o que é seguro é que a Rússia não representa perigo.
Se não representa o perigo, qual é o grande problema? Pois é o governo que é completamente incapaz de satisfazer os interesses dos povos, e Rússia não têm nada que ver com tudo isso, por isso creio que os europeus conscientes devem compreender que se trata de propaganda pura, mas não de propaganda russa, porque os russos não estão promovendo propaganda. Russia Today e outros meios dizem mais verdades, mas não se trata de propaganda. Não dizem que Rússia é o melhor de tudo ou que as ideias da Rússia devem ser aceitas pelos demais, nada que ver com a propaganda liberal, a propaganda comunista ou fascista.
A Rússia se defende com esses meios e também mostra outra versão, outra posição, não é propaganda. É muito neutro. Creio que importa compreender mais e mais uma coisa: o que de fato a Rússia pode ser -- não é amiga da Europa ainda, não é inimiga nem o perigo. O perigo maior são os liberais. Depois de entender isto, amar ou odiar a Rússia não importa nem para os russos nem para os europeus. A Rússia é uma civilização à parte, ao lado.
Pode provocar interesse, simpatia, amor, ou pode ser totalmente indiferente para os europeus, mas qual é a verdade concreta? que Rússia não representa perigo. Não quer e não pode invadir a Europa ou submeter a Europa Oriental, não temos tantos desejos ou capacidades. Não queremos e não podemos fazer isto. Não somos mais comunistas nem imperialistas, somos russos que queremos defender nossa identidade e nossa soberania nacional -- e isso é tudo.
Isso é mais importante, mas é verdade que, depois disso, o problema europeu se tornará totalmente diferente, o problema serão os liberais, o governo mundial da maneira que não corresponde aos interesses de seus próprios povos. Por isso creio que não são o problema os grupos extremistas. Os verdadeiros extremistas são a gente do Soros, são os liberais que organizam e utilizam, às vezes, estes grupos como utilizam o radicalismo islâmico, wahabismo, salafismo, fundamentalismo, muçulmano para chegar a seus próprios interesses e ter a razão de intervir em todos os países para desestabilizar a situação nas sociedades. Eles são os verdadeiros criminosos, a Rússia é o poder neutro que luta para sobreviver e pelo mundo multipolar -- não bipolar, mas multipolar, o que é muito importante.

domingo, 22 de maio de 2016

Os Pântanos Eleusinos de Freud


Por Aleksandr Dugin*

O modelo perverso da psicanálise

Nos últimos anos os clichês da Civilização Ocidental moderna estão sendo introduzidos de maneira agressiva em nossa sociedade na esfera da economia, cultura e política, mas também na área da psicologia e psiquiatria. Isso não é surpreendente, uma vez que a mudança dos paradigmas sociais soviéticos para os princípios burgueses precisam enquadrar-se na lógica das “reformas” que abarcam todas as áreas da atividade humana. Pela mudança do sistema social soviético para um modelo americano-liberal protestante, os “engenheiros” do pós-comunismo estão tentando construir um tipo de “novo-russo”, o que significa uma transformação profunda a nível psicológico, no que tange à sexologia e até mesmo em sentido antropológico, no significado amplo desse termo. Então, acompanhado de “chocolates Snickers” e Mickey Mouse, chega em nossa realidade social Freud e um grupo suspeito de seus seguidores. No nível da psicanálise, conduzido de forma a aniquilar o antigo inconsciente, o processo ocorre de uma maneira brutal, rápida e de maneira proposital, como em todas as outras áreas.

Após o terror da psiquiatria soviética materialista, mecânica e brutal que trata a psique humana em termos próximos ao léxico do Professor Pavlov, agora se introduz um novo modelo para a psicanálise, que pretende tratar com seriedade e de maneira atenciosa a área da psique humana. Ainda que a “psiquiatria materialista” soviética fosse repugnante e cínica, o perigo ao qual nosso povo está exposto através do uso da metodologia freudiana é claramente mais sério e terrível. Afinal, o materialismo é tão indiferente ao mundo interior do homem (cuja existência ele praticamente nega) que adaptar-se a ele não foi tão difícil por sua agressão direta. Mas quando se trata da psicanálise e suas técnicas, a mente é submetida a uma violência muito mais sofisticada, que é muito mais difícil de representar.

Essas reflexões nos levam a considerar o problema da psicanálise em termos tradicionais, que por si mesmos podem dar uma ideia adequada de uma estrutura espiritual completa do ser humano e ao mesmo tempo expor as maquinações traiçoeiras do “inimigo humano”.

As revelações de René Guénon

Em sua obra “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos” René Guénon formulou a base para a crítica das visões psicanalíticas. Vamos examinar a premissa básica que Guénon aplicou a essa área.

Em primeiro lugar, Guénon percebeu nos psicanalistas modernos e psicólogos em geral, que “há uma estranha contradição à medida que eles continuam a considerar elementos pertencentes inegavelmente à ordem sutil (“l’ordre subtil”), de um ponto de vista puramente materialista, isso é, sem dúvida, o resultado de uma educação materialista prévia.”. Aqui, em outras questões relacionadas à alma humana, até os representantes mais “avant-guarde” da ciência moderna não são capazes de se desvencilhar dos preconceitos materialistas peculiares ao ingênuo otimismo mecanicista dos séculos XVIII e XIX. Guénon destaca que “Freud, o fundador da ‘psicanálise’, sempre reiterou que permaneceu sendo materialista”. Nesse caso nós estamos tratando de um “materialismo transposto”, isto é, com a transferência para a esfera das leis da mente daquilo que é peculiar unicamente ao mundo corpóreo. Em outros livros Guénon apontou a uma abordagem similar na maioria das doutrinas neoespiritualistas, que misturam tradição com um conteúdo técnico e considerações científicas vulgares, compreendidos apenas em partes (o clímax dessa tendência é encontrado nos trabalhos sobre “UFO” e “indivíduos extrassensitivos”).

Em seguida, Guénon chama a atenção para o uso contínuo do termo “inconsciente” enquanto aplicado para a compreensão da realidade psíquica. Ao mesmo tempo ele percebe a “demonstração de interesse pela continuação da realidade psíquica exclusivamente em regiões inferiores, que corresponde ao homem e às ‘quebras’ nos ambientes espaciais, onde penetram os efeitos mais ‘negativos’ do mundo sutil, com máxima precisão refletida no termo ‘infernal’ (em latim, a palavra se refere à ‘inferior’ e ‘inferno’).”.

“A natureza satânica [da psicanálise] - escreve Guénon – é revelada claramente na interpretação psicanalítica do simbolismo”. O simbolismo autêntico, do ponto de vista da tradição, possui uma natureza sobre-humana, revelando-se através de uma doutrina sacramental completa ou de específicas visões e sonhos proféticos e iniciáticos. Se de uma maneira geral a psicanálise e a psicologia antes de Freud sugeria uma interpretação profana e distorcida do simbolismo, reduzindo-a a um nível puramente humano, depois do Freud os caracteres interpretados tornaram-se ainda menos adequados – em um sentido “infra-humano” e “infernal”. Da simples redução da psicanálise ele passou a uma completa anulação de suas proporções normais. O símbolo para os freudianos é algo puramente “infernal”, grotesco e satânico. A própria natureza repugnante e cínica das interpretações freudianas servem como uma indicação do “selo” do diabo, se as pessoas não fossem tão cegas e indiferentes à nossa época obscura.

“Psicanalistas (e espiritualistas) são geralmente incapazes de reconhecer a verdadeira natureza do que fazem. Mas ambos são conduzidos por certa vontade destrutiva, usando uma força muito similar, senão idêntica, como no caso da psicanálise e espiritualistas. Ainda que ninguém possua especificamente essa vontade, os seus porta-vozes ativos reproduzem bem a sua tarefa central, enquanto todos os outros instrumentos são inconscientes e nem sequer imaginam a qual propósito eles servem.”

Guénon alerta que “o uso da psicanálise para propósitos terapêuticos é extremamente perigoso para aqueles que ocupam o lugar de pacientes, e para aqueles que ocupam o lugar de doutores, pois não é possível entrar em contato com tais forças e permanecer impune.”. Considerando que a pessoa buscando o atendimento do analista deve ser uma criatura fraca, por definição, será quase impossível resistir à “destruição psicológica” provocada na alma humana. “Essa pessoa possui todas as possibilidades de perecer de maneira irremediável no caos das forças obscuras que foram trazidas à superfície inadvertidamente. Ainda que ela seja capaz de superar esse caos, ele ainda preservará sua marca até o fim de sua vida como uma mancha indelével.”.

Guénon contrapôs os autores que associaram a psicanálise à ritos de iniciação tradicionais, que são necessariamente utilizados em uma “condescendência ao inferno” simbólica. “Só é possível falar de uma paródia profana dessa ‘condescendência ao inferno’ – visto que o propósito e o tema dessas ações são completamente diferentes, e além disso, na psicanálise não há o menor traço da ascensão subsequente, que constitui a segunda fase da iniciação. Pelo contrário, a psicanálise corresponde à ‘queda no pântano’.” Sabe-se que o “pântano” estava localizado na antiga estrada para os Campos Elísios, onde os profanos caíam, aqueles que reivindicavam a iniciação não possuindo as qualidades apropriadas e tornando-se vítima de sua própria negligência. Esse “pântano” existe tanto a nível microcósmico como a nível macrocósmico e na linguagem dos evangelhos é chamado de “extrema escuridão”. “Se a ‘descida ao inferno’ significa a exaustão da substância ativa de alguma capacidade inferior para a ascensão subsequente em direção às esferas superiores, a ‘queda no pântano’ é uma vitória completa da capacidade inferior do ser, a sua dominação sobre ele e eventualmente a sua completa absorção.”.

Finalmente, a última consideração importante colocada por Guénon está relacionada à especificidade da “transmissão psicanalítica” uma vez que se sabe que todo psicanalista deve submeter-se à psicanálise antes de aplicá-la a outrem. Esse fato confirma que “pessoas afetadas pela psicanálise nunca permanecem sendo o que elas eram antes”. “O teste desse método produz na pessoa uma marca indelével, como a iniciação, com a única diferença que a iniciação é orientada em direção ascendente para o desenvolvimento de capacidades espirituais, e a psicanálise, por outro lado, abre o caminho para o desenvolvimento de forças infra-humanas. Nós estamos lidando com uma simulação de transmissão iniciática, e mais do que qualquer coisa lembra a transmissão praticada pela feitiçaria e bruxaria.”. Guénon aponta que não se sabe claramente como se deu a transmissão -para outros- de algo que os fundadores da psicanálise devem ter recebido de algum lugar. Quem “persuadiu” Freud a seguir por esse campo obscuro ainda não está claro. No entanto, independente disso, Guénon aponta o fato de que todo o conteúdo da psicanálise é quase uma analogia completa aos rituais obscuros relacionados à “adoração do diabo”. Portanto, é necessário buscar algo nessa área.

Freud e a demônia Lilith

Agora nós iremos abordar esse aspecto da doutrina freudiana, associado não só com a perversão da tradição, mas com o destaque que ele outorga ao sexo. Aqui, da mesma forma, nos encontramos frente a uma tendência muito dúbia que não só exalta o sexo como base para a interpretação das atividades psicofísicas, mas também impõem de maneira implícita um entendimento muito específico acerca do erotismo, elevando-a como a norma. Descrevendo as estruturas do inconsciente, Freud identifica duas categorias como tendências básicas – Eros e Thanatos. O “eros”, no entanto, é entendido como um vago e constante desejo-tensão sem um objeto particular em questão e nem uma orientação clara e nem mesmo um sentido. A descrição detalhada de “eros” não é algo universal, mas descreve um tipo muito especial de sexualidade, erotismo como exclusivamente feminino, sintomas descritos em detalhe por Bachofen, e mais tarde por Weininger e Evola. “Eros”, para Freud, é uma cópia carbono da experiência psicológica das antigas culturas matriarcais, vestígios psíquicos que em realidade foram preservados pela humanidade na forma de “resíduos”; elementos residuais do inconsciente.

Explorando a sexualidade humana, Freud sustenta a ideia de que o eros matriarcal é oprimido, soterrado por um complexo patriarcal, associado com a percepção e imperativos éticos. Em outras palavras, ele parece negar a sexualidade masculina, patriarcal, descrevendo-a em termos de “repressão”, “complexo”, “violência”, etc. Freud elaborou o mapa do inconsciente, e em meio a sexualidade matriarcal, o identificou com o “eros” como tal, o outro polo – “Thanatos”, ou seja, “morte”. É absolutamente característico que a morte de Freud era compreendida de uma maneira radicalmente materialista, como uma destruição final e completa, como a destruição total do corpo psicofísico do homem. O próprio Freud descreveu a relação entre “eros” e “Thanatos” de uma maneira vaga, no entanto, é possível ver entre esses dois polos uma unidade dialética antagônica. Parece que no seu entendimento “eros” é uma exaltação dinâmica dos desejos subconscientes dispersados, a sua máxima intensidade, enquanto Thanatos é, pelo contrário, o desejo por tranquilidade, um relaxamento da tensão erótica em estagnação e o congelamento da energia sexual. A unidade deles pode ser vista em sua natureza comum, enraizada nas experiências profundas do inconsciente, nas regiões autônomas inferiores da psique, onde a divisão entre o movimento e a imobilidade é confusa, incerta e “flutuante”, onde a “existência” e a “não existência” encontram-se em leve transição uma em relação à outra.

E ainda, para Freud, esses dois termos consistem uma débil axiologia de valores “hierárquicos”. “Eros”, a intensidade de impulsos erótico-matriarcais dispersos, é apresentado como algo potencialmente “positivo”, enquanto “Thanatos”, a completa calma do subconsciente, é retratado como algo negativo. Mas a origem positiva do “eros” matriarcal está em luta constante com níveis elevados da psique, contra a consciência, o sentido do “eu”, etc. É como se esses níveis estivessem oprimidos pelo elemento de “desejo”, decomposto e fragmentado, martelando continuamente as experiências eróticas subconscientes que emergem contra as regiões estáticas do “Thanatos”. Nas vicissitudes dessa luta, Freud compreendia os sonhos, reservas, doença mental, cultura, e até mesmo religião e mitologia. Nesse processo, ele destaca várias nuances, introduz um número específico de termos, formula alguns princípios terapêuticos de psicanálise. Porém, a essência de sua visão de mundo está relacionada à aprovação da centralidade de uma sexualidade puramente “feminina” (femínea em sua qualidade interior, não porque ele prestava atenção especial ao sexo em suas concepções), que deve ser “libertada” da gélida opressão da “subjetividade consciente”, “vestígios de patriarcado”, de acordo com Freud, cheios de “thanatosfilia”.

Esse conjunto de valores da doutrina freudiana, a “sexualidade matriarcal”, corresponde exatamente à tese central de Guénon em sua crítica à psicanálise. De fato, o mundo da “extrema escuridão”, as regiões psíquicas sutis, próximas à fronteira inferior do inferno, sempre descritas na tradição como “o reino das mães”, a região da “Grande Mãe”, como os mundos de “demônios femininos”, as “amazonas”, “rainhas subterrâneas”, etc. Nas doutrinas gnósticas elas são descritas como “mundos das mães”, regiões de “Achamoth”, o Éon feminino, que, habitando no dia da criação, seguindo o exemplo do Paraíso, tenta gerar os mundos por partenogênese. Mas a imitação da criação feita pelo “Éon feminino” falha: Achamoth consegue criar apenas monstros e aberrações, como o seu potencial plástico criativo não está fertilizado pelo divino; Homem de poder celestial, o Anthropos de Luz. Na tradição judaica, a realidade descrita por Freud como “eros” está unicamente correlacionada com a demônia Lilith, a primeira “esposa de Adão”, que acabou sendo “desafortunada” e foi expulsa para a região dos sonhos, pesadelos e visões do mal. Note que a mitologia associada com Lilith no Talmud e na Cabala possui muitos paralelos com os principais temas do freudismo.

Nós devemos citar a observação feita por Guénon em uma nota de rodapé no texto dedicado à crítica da psicanálise. Guénon aponta o fato de que os maiores teóricos da perversão intelectual moderna pertencem ao povo judaico (além de Freud, ele também menciona Bergson e Einstein). Do ponto de vista de Guénon, isso se deve ao fato de que o “judaísmo” possui a tendência da “civilização nômade”, separada de tradições ortodoxas no mundo moderno ela expressa impulsos puramente negativos, corruptores e sombrios, destinada a obscurecer completamente as reminiscências da estrutura tradicional da civilização, preservada pela inércia desde a Idade Média. Guénon chama esses impulsos de “nomadisme devie”, isto é “nomadismo pervertido”. Então, é possível correlacionar o erotismo “matriarcal” freudiano às especificidades de sua identidade étnica, fora das formas religiosas ortodoxas.

Em outro contexto, esse ponto de vista é confirmado por completo pelos estudos de Weininger, que em seu livro “Sexo e Caráter” identifica exclusivamente o tipo psicológico “judeu” e “judaico”, em sua totalidade, com uma psicologia puramente feminina. Weininger descreve a fórmula em sua forma radical - “no judeu, assim como na mulher, a personalidade é completamente ausente” ou “um verdadeiro judeu, como uma mulher, está desprovido de seu próprio Eu” ou “o judeu absoluto não possui alma”. Weininger, partindo de observações psicológicas da vida judaica em seu cotidiano, na política, na arte, etc. (é preciso destacar que ele era um judeu, então o seu testemunho não pode ser atribuído a um antissemitismo vulgar), carrega uma compreensão das especificidades da psicanálise freudiana como uma doutrina que canoniza especialmente como feminina a especificidade erótica que complementa e confirma a tese da orientação “matriarcal” do “Eros” no entendimento de Freud. Também é interessante que Carl Gustav Jung, discípulo de Freud, chegou à conclusão sobre a identidade nacional do freudismo e a distinguiu da psicanálise, que é baseada em um estudo do “inconsciente” não judeu. Em um comentário ao “Livro dos Mortos” tibetano Jung alude ao fato de que o freudismo apela somente para as regiões mais baixas do “inconsciente”, associadas com a inclinação primária e vegetativa ao coito, deixando a ampla vida mental, todos os arquétipos, imagens e a estrutura do “inconsciente” esquecidos atrás dos bastidores. Antes da Segunda Guerra Mundial, Jung até mesmo escreveu sobre dois tipos de inconscientes coletivos – o “Ariano” e o “Judaico” (mais tarde, talvez por razões políticas, ele não tratou desse tema). De qualquer forma, a opinião de Jung corresponde exatamente à máxima escrita por Weininger de que “judeus não possuem alma”, e “o judeu em sua base profunda não possui nada”.

É preciso acrescentar como uma hipótese acerca das origens misteriosas da psicanálise, como aponta Guénon, que de acordo com seus biógrafos, Sigmund Freud era um membro de círculos iniciáticos maçônicos, conhecidos como a loja “B’nai B’rith” e foi aí que, aparentemente, as suas experiências iniciais o marcaram com o epigrafo de Virgílio (“Eneida”) para “Interpretação dos sonhos” – “Flectere si nequeos súperos, Acheronta movebo” (“Não sendo capaz de adentrar os domínios elevados, eu me dirigi ao Aqueronte”). Aqueronte – um rio subterrâneo na mitologia grega, separando o mundo dos vivos do mundo das sombras, o mundo dos mortos. A “travessia” significa literalmente descender ao inferno. É um tipo de prática “contra-iniciática”, que estabelece um relacionamento entre o homem e o mundo da “extrema escuridão”, “o mundo de Lilith” ou o “lado esquerdo”, o nome da realidade correspondente no “Zohar”, o principal livro da Cabala.

A revolução sexual do homem

Um olhar imparcial à psicanálise de Freud nos leva à conclusão de que um ligeiro desvio em direção a essa realidade sinistra e sem recuperação da sexualidade pessoal pode dar lugar a uma imersão em áreas perigosas do “baixo psiquismo”, o mundo das mães subterrâneas do qual não se pode retornar. Mas ao mesmo tempo não se pode negar o problema em si mesmo, que consiste em uma desestabilização progressiva da sexualidade humana, nas crescentes frustrações e complexos enraizados no erotismo. O caminho da psicanálise é “liberar”, especialmente as energias femininas que se encontram vibrando aleatoriamente nas baixas regiões da psique. Obviamente, essa liberação não pode curar nem uma mulher, assim como no mito gnóstico de Acamoth, o Éon feminino criava somente monstros e aberrações sem a participação da masculinidade. E ainda, a emancipação do “erotismo matriarcal” não leva a nada, a não ser patologias culturais, artísticas e até mesmo políticas. (É digno de nota que entre os políticos do período pós-perestroika haviam muitos do tipo “feminino”, o que era frequentemente acompanhado por sua identidade nacional específica). Mas qual é a alternativa? Quais orientações eróticas devem ser aceitas como a norma?

A crise da sexualidade reflete uma crise mais abrangente na civilização moderna e ao nível da sexualidade ela manifesta um processo de degradação humana e social mais amplo e profundo. A própria crise é uma consequência da quebra com a tradição assim como os problemas eróticos dos homens modernos, consequência da perda da postura tradicional perante o gênero e a realidade sexual.

Toda tradição integral está baseada na centralidade do sol, o agente ativo, a luz dos princípios espirituais, e o principal condutor foi considerado sempre um homem. Assim como a restauração da tradição significaria inevitavelmente a aprovação do espiritual sobre o material, o Sagrado sobre o profano, da mesma forma, o caminho da reabilitação sexual só pode ocorrer através da aprovação da primazia e centralidade do erotismo masculino, que manifesta o princípio formativo; solar e apolíneo. O erotismo masculino cria um eixo existencial e espiritual, organizando e orientando a potência dispersa do desejo feminino. O homem define de maneira estrita o sujeito e o objeto do desejo, estabelece a distância ética e proporções estéticas, e é consciente da sacralidade da energia do grande amor, dos raios resplandecentes do sol espiritual. É claro, erotismo masculino de fato suprime os impulsos caóticos do subconsciente, ele compele uma descarga de energia a resignar-se e a ordem não pode deixar de causar alguma inconveniência a esses poderes psíquicos. Porém, o abuso do eros “matriarcal” por parte de um homem (tanto interno como externo) não é, ao contrário do que diz Freud, “thanatosphilia” e “sistemas de poder”. Isso é, pelo contrário, a transformação dos poderes imanentes da alma, a sua “angelificação”, sua sacralização. É o limite, que coloca um fim ao caos erótico do homem, não é a insignificante “Thanatos” da psicanálise. É o ato de criação, criatividade, energia, a direção da ação heroica, em quaisquer de suas manifestações – no ascetismo religioso, no amor passional, no esforço intelectual, na arte da guerra, ou na criatividade.

Freud buscava dissolver o eixo do erotismo masculino, utilizando as “águas profundas” do erotismo matriarcal. Nesse sentido, o “Pântano Eleusino” não é apenas um homem sujeito à castração, mas a mulher condenada ao papel do estéril Achamoth gnóstico. Frustração, complexos e alienação não desaparecem. Psicanalistas apenas ensinam a perceber o caos sem propósito do desejo insatisfeito como a fonte de “prazeres fictícios”. Dificilmente será necessário provar que isso é uma ilusão psicológica. Através da destruição do homem, distorcendo e representando de maneira errônea o seu erotismo especial, positivo e criativo, os seguidores de Freud não estão satisfeitos com uma “revolução sexual”, mas com um mundo radicalmente “dessexualizado”. Endossando perversão, patologia, homossexualismo, impulsos incestuosos e pornografia, etc. Os adeptos da psicanálise baniram definitivamente da realidade social o “princípio fálico”, a figura do Herói, o homem solar, a autêntica entidade heroica e, ao mesmo tempo, a fonte desse prazer. A mania pelo “erotismo” leva à irreversível perda desse erotismo. Tem-se observado a tempos que a remoção dos tabus sexuais em alguns países europeus levou à uma nítida redução nas relações sexuais entre as pessoas. Isso é uma espécie de ironia infernal do “Mundo de Lilith” – as pessoas são enganadas; a demônia predadora e a sua corte intentam de maneira egoísta guardar a energia do desejo humano unicamente para eles mesmos, para as criaturas “vampíricas” do mundo sutil.

A alternativa em relação à “escuridão” freudiana – o retorno dos homens, na revolução do herói fálico contra a degeneração moderna, no retorno do sacramento do sexo em todo o seu escopo sagrado. Os homens de verdade sentem repúdio pelo espírito sujo da civilização baseada no “nomadismo perverso”. É improvável que os verdadeiros heróis estão dispostos a viver em um mundo designado por aqueles “que não possuem alma” e nem “o próprio si mesmo” (Weininger).

É evidente que as primeiras vítimas dessa revolução devem ser os arautos dos “Pântanos Eleusinos”, os psicanalistas-sabotadores, agentes secretos do “exército do Dr. Freud”, servos do “lado esquerdo” e da “extrema escuridão do mundo”, sejam conscientes ou inconscientes disso.

*Tradução: Maurício Oltramari

domingo, 7 de junho de 2015

O Riso do Idiota

por Manuel Ochsenreiter

Muitos políticos e jornalistas europeus do sistema hoje choram lágrimas de crocodilo sobre a antiga Palmira síria sob controle terrorista. Expressam sua preocupação porque os militantes armados do "Estado Islâmico" destruíram a Palmyra, que alberga as ruínas de uma grande cidade que uma vez foi um dos centros culturais mais importantes do mundo. Não seria a primeira vez que o "Estado Islâmico" destrói o patrimônio cultural.

Mas essas preocupações são profundamente hipócritas: porque muitos dos que agora estão "preocupados" são em verdade os spin doctors [1] ideológicos do "Estado Islâmico" e outros grupos terroristas na Síria e no Iraque. Com seu apoio à chamada "Revolução Síria" eles alimentaram estes grupos.

O "Estado Islâmico", hoje em dia simplesmente executa seu trabalho: destruindo a civilização, desintegrando uma nação inteira, matando tudo o que representa a "ordem" da maneira mais brutal possível. Eles atomizam a Síria, o obstáculo geopolítico aos olhos de Washington e Bruxelas.

Esse padrão não é de forma alguma novo:

- Em Kosovo, extremistas albaneses não só atacam os sérvios, atacam e destróem igrejas servio-ortodoxas e cemitérios. Eles não só querem se desfazer da população sérvia, querem desfazer-se da presença história da Sérvia. Os albano-kosovares profanam tumbas sérvias pondo nelas cadáveres de animais.

- No Cáucaso Sul, as igrejas e monastérios armênios foram objetos das forças de Azerbaijão durante a guerra de Nagorno-Karabaj. A catedral armênia de Sushi foi profanada e convertida em um arsenal de armas pelas forças azeris.

Não é uma coincidência que esta guerra bárbara e anti-cultural fora apoiada por "voluntários" (como johadistas chechenos e afegãos) em ambos os casos, da ex Iugoslávia e do sul do Cáucaso.

A destruição do patrimônio cultural, histórico, religioso e nacional é uma forma eficaz de criar um "fato consumado" nos campos de batalha geopolíticos. O propósito dessas "medidas de guerra" é tirar à força a população inimiga de suas identidades e vínculos coletivos históricos, culturais e religiosos.

E este é exatamente o conceito ideológico do Ocidente pós-modernista e liberal. Eles fazem o mesmo na Europa - por suposto com outros meios, com o "poder brando". Aqui nossas elites políticas e culturais negam a existência e a importância das identidades coletivas, fantaseiam em nossas universidades sobre holografias intelectuais como "identidades híbridas", e assim sucessivamente. Lutam contra a religião, "desconstróem" a família, inclusive criaram incontáveis gêneros para negar a existência do "macho" e da "fêmea". Eles convertem igrejas em grandes armazéns ou edifícios de apartamentos. Adoram o "indivíduo", que é "livre" para atuar em uma "sociedade aberta", que em verdade significa: "mercado livre".

O filósofo e politólogo russo Professor Alexandr Dugin descreveu uma vez este processo como uma maneira de difundir um "idiotismo" moderno. Na antiga Grécia o termo "idiota" faz alusão a um "cidadão particular, que não tem conhecimento profissional, um profano". "Idiota" foi utilizado na antiga Atenas para se referir a quem recusava tomar parte na vida pública, alguém sem vínculos coletivos.

O "Estado Islâmico" é hoje o bulldozer desse tipo de guerra para destruir qualquer vínculo coletivo no Oriente Médio. Não é outra coisa que a ala militante do liberalismo ocidental.

[1] Spin doctors: manipuladores de informação. Normalmente são os assessores de imprensa ou de imagem dos políticos.

via paginatransversal

terça-feira, 31 de março de 2015

Os Demonizados Filósofos Preferidos de Putin

Prefácio por Alexander Mercouris

Publicamos este longo artigo inteiro não só porque intelectualmente falando é algo brilhante, mas porque contém ideias excepcionais tanto sobre a Rússia como sobre a política externa dos EUA e seus métodos utilizados por alguns apoiadores de sua política externa.

Antes de comentar sobre os pontos feitos no artigo, faríamos um pedido de atenção: deve haver alguma dúvida sobre a verdadeira extensão da familiaridade de Putin com os três filósofos discutidos no artigo.

Contrariamente à sua imagem no Ocidente, Putin é altamente educado e um homem muito lido que conhece trabalhos acadêmicos de história e música clássica.

Se ele tem tempo ou inclinação para se familiarizar com o muito complexo e difícil material contido nos trabalhos dos três filósofos discutidos nesse artigo é outra questão. É mais provável que Putin tenha conhecido estes filósofos de resumos providenciados por seus assessores do que por estudo pessoal.

Pondo este ponto de lado, o artigo faz um válido e importante apontamento - os filósofos que Putin aprova são genuínos pesos intelectuais, cujas ideias não se explicam em um programa ou diagrama para uma agressiva, expansionista, etnocêntrica, autoritária e "mssiânica" Rússia, como os críticos de Putin alegam, mas, pelo contrário, de uma forma diametralmente oposta.

Conforme o artigo afirma, os filósofos sob discussão foram altamente reconhecidos no Ocidente até que Putin os apoiasse. No momento - mas não antes - suas ideias de repente se tornaram "perigosas" e "sinistras".

Isso nos traz ao nosso ponto. O artigo mostra como cinicamente as ideias dos três filósofos estão sendo mal representadas com fim de provar a tese de uma Rússia perigosa, agressiva e autoritária.

O tipo de des-representação não é mais a exceção, mas a regra.

Como um princípio geral nenhuma citação de Putin ou de algum outro oficial ou político proeminente russo que aparece na mídia ocidental pode ser assumida como verdade. Dada a agenda implacavelmente hostil anti-Putin e anti-Rússia que agora domina os comentários ocidentais, qualquer citação é quase certa de ser distorcida e até mesmo através de más traduções ou serem tomadas fora de contexto.

A situação é agora tão ruim que mesmo alguém como um sênior como o anterior presidente da comissão europeia irá deliberadamente citar frases distorcidas que Putin lhe contou em conversa privada. Recentemente ficou claro que algumas citações atribuídas a Putin foram inventadas por seus críticos ocidentais.

O que este artigo mostra é que o processo agora se estende não apenas aos russos vivos como Putin, mas também aos intelectuais russos que já há muito morreram. Parece que as palavras de qualquer russo, vivo ou morto, são agora um jogo de sorte para aqueles no Ocidente que querem convencer os outros de que a Rússia é uma ameaça ao Ocidente. Isso é um processo muito sinistro, que faz (e que busca fazer) um entendimento com a Rússia ser totalmente impossível. Nota do inteligente comentário de Dr. Grenier sobre isto:

"Os críticos dizem que a Rússia recentemente se tornou uma nação cheia de ódio. Mas como estão os cidadãos russos e o presidente Putin por verem distorcidas (e o que vimos acima é apenas a ponta do iceberg) suas próprias palavras e suas mais caras tradições de um modo aparentemente rancoroso e até mesmo violento?"

Isto no entanto não é o pior.

Um tal crescente impiedoso de manipulação das palavras e ideias de pessoas há muito mortas pode ser muito bem chamada de Owelliana.

Pessoas que mostram um tal desrespeito pela verdade são perigosas. Ao engajar-se em falsidades tão cínicas eles revelam de onde vem o real perigo para a paz mundial. Eles também expõem quem é realmente responsável pela desastrosa relação entre Rússia e Ocidente.

Isso também mostra a propósito que qualquer coisa que uma pessoa diz simplesmente não pode ser invocado como verdade salvo a extensão que serve aos seus propósitos políticos. Quando eles portanto dizem coisas como "o exército russo está invadindo a Ucrânia" não há mais razão para acreditar neles do que quando eles dizem que pessoas como Putin ou Solovyov disseram coisas que eles de fato não disseram.

Dr. Garnier, o escritor deste artigo, é claramente consciente disto. Um outro modo no qual este artigo se posiciona é na sua compreensão do pensamento ideológico e ultimamente corrupto daqueles que estão por trás da política externa dos EUA. Considere isso um resumo muito brilhante no fim do artigo com seu implícito pedido de atenção do incipiente totalitarismo do atual pensamento dos EUA:

"... se o ideal político da América é quase tão perfeito que pode ser alcançado neste "mundo decaído", então a coisa vai adiante e vence, desse modo trazendo o bem perfeito (somos nós!) para todos.

Por que preocupar-se seriamente em familiarizar-se com um sistema competidor? Claramente Brooks and Co. não fazem nenhum esforço. Foi o bastante para eles saber que o ideal político da Rússia significantemente difere do americano: logo é ilegítimo, Q. E. D.

Conforme Hannah Arendt escreveu em The Origins od Totalitarianismo, "a curiosa logicalidade de todos os ismos, sua simplista crença no valor de salvação da teimosa devoção sem consideração por fatores específicos e variáveis, já acolhe os primeiros germes do desprezo totalitário pela realidade".

Essa América realmente não vive seus próprios ideais, como tenho escrito anteriormente, não muda nada para o ideólogo. Afinal, todo aumento no poder da América traz mais perto o dia em que suas ações (que são geralmente realistas) e seu discurso (que é sempre democrático e idealista) podem encontrar harmonia. Então a história pode verdadeiramente e finalmente terminar."

Este artigo originalmente apareceu em Consortium News. Anteriormente apareceu na Johnson's Russian List.

DEMONIZANDO OS FILÓSOFOS PREFERIDOS DE PUTIN

O que deu início à Guerra Fria? De acordo com o Departamento de Estado, foi a violação ilegal da Rússia das fronteiras nacionais ucranianas. O Kremlin, por sua vez, insiste que foi um golpe na Ucrânia facilitado pelos EUA, que destruíram a ordem constitucional por lá, causando caos e perigos à segurança russa, em vista do quê a Rússia não tinha o que fazer senão responder.

De acordo com a política externa "realista", a causa foi a iminente ameaça da integração ucraniana em um pacto expansivo dominado pelos EUA. De acordo com George Friedman, presidente de Statford, empresa privada de inteligência estratégica, a crise ucraniana é mais efeito do que causa: o conflito começou em 2013 quando os EUA decidiram que o aumento do poder russo estava se tornando uma ameaça.

E de acordo com Kiev, o presidente Vladimir Putin criou toda a crise. Ele inventou a ameaça do "fascismo" ucraniano e foi motivado por uma combinação de ambição imperial com medo de democracia.

Não é meu objetivo aqui tentar julgar entre as alegações acima. Apesar das óbvias diferenças, elas também compartilham de um traço comum: ninguém fornece qualquer direção clara de como resolver essa bagunça. É hora de nos aproximarmos disso de um ângulo completamente diferente.

Quando a primeira Guerra Fria terminou, Francis Fukuyama explicou, mais em tristeza do que em triunfo, que o modelo capitalista liberal-democrata americano venceu e que este foi o motivo da "história" - a luta para encontrar a resposta correta para a questão política considerando a forma ótima de sociedade - terminou.

O que venceu, de fato, foi um tanto de respostas para questões-chave da vida política como a origem e propósito do Estado; o que significado ser humano; o que fazem os humanos todos, ou o que deveriam fazer, empenhar-se. As fontes clássicas das respostas especificamente americanas para estas questões são bem conhecidas: são as fontes da política liberal pensada enquanto tal.

Eis uma outra coisa bem conhecida a ponto de ser um clichê: desde 2001, a tese do fim da história foi repetidamente mudada por acontecimentos. Ns verdade, a tese de Fukuyama não pode ser desafiada por meros acontecimentos, porque ele nunca disse que dissabores deixariam de ser parte da experiência humana. Ele disse que os humanos improvavelmente se engajariam mais efetiva e atrativamente em compromisso com a solução para a chave das questões políticas do que para as fatigadas respostas que formaram o mundo liberal, democrata e capitalista.

Para aqueles que assinalam que o Estado Islâmico desaprovou esta tese de "fim da história", Fukuyama poderia responder com razão: "Bem, se você achar que este tipo é atrativo, você pode aceitar minhas congratulações".

Mas eu estou escrevendo não para defender nem atacar Fukuyama. Estou simplesmente sugerindo que não estamos fazendo favor algum a nós mesmos ao ignorar todas as respostas para as questões políticas que diferem da ortodoxia liberal. Pode haver no liberalismo e na democracia e no capitalismo muito de correto, mas há muita razão para suspeitar que ainda não descobrimos nem a verdade nem sobre os seres humanos ou sobre o homem político.

O próprio Fukuyama oefereceu sua própria critica: seu ceticismo sobre o material humano é que fez colocar seus pensamentos tão devagar. Não é necessariamente uma crítica de Fukuyama salientar que há muitos no mundo hoje que aspiram por algo além do nosso mundo de autonomia confortável e de posse de direitos no sentido puramente lockeano.

Entre aqueles que aspiram muitos estão no mundo eslavo, com suas raizes no Cristianismo Ortodoxo Oriental; ou na esfera chinesa, com sua herança confuciana que está apenas despertando; e claro, no Oriente Médio. E isto é apenas para nomear os grupos que os EUA identificaram como necessitados de reformas.

Diversidade e Liberalismo

O Ocidente, e especificamente os EUA, tem diante de si uma escolha fatal: deveriam procurar uma coexistência "live and let die" [viva e deixe morrer] das nações liberais e não-liberais do mundo, ou deveriam tentar fazer do resto do mundo liberal uma mão armada, e nesse sentido provar realmente que a história chegou ao fim? Deveríamos nós tornar o mundo a salvo para a diversidade, ou deveríamos tornar o mundo uniforme para a segurança dos EUA?

No Oriente Médio a escolha já foi feita. É para torná-lo um braço armado liberal e democrata. As enormes dificuldades que isto apresentou convenceram o partido de guerra americano, que pareceram ser maioria, que é hora de dobrar e se fortalecer, não só no Oriente Médio, mas agora no mundo eslavo também.

Isto traz uma questão crucial sobre diversidade e diferença. O que torna uma nação ela mesma e não algo mais? É a presença das fronteiras? São as eleições sob o poder humano? Claramente, não é nenhuma dessas coisas, nem nada parecido.

Ser uma nação autêntica, continuar existindo de fato, significa exatamente continuar a realizar sobre o tempo sua própria ideia nacional, ou seja, como Ernst Renan pôs (Qu’est qu’une nation?, 1882, conforme citado por Hannah Arendt), "preservar dignamente a herança indivisível que foi mantida até então".

Que nações frequentemente emprestam conteúdo cultural de outras é inegável, e muitas vezes louvável. Mas é crucialmente importante, como notou uma vez o historiador americano William Appleman Williams, quem faz a escolha destes empréstimos. Eles são adaptados livremente de dentro, ou são forçosamente impostos? A falha para compreender esta distinção é o que continua acarretando A Tragédia da Diplomacia Americana (também o título de um livro de William).

Quando nações totalmente compartilham da visão liberal americana, estas nações separadas se tornam, em um certo sentido, não mais "separadas". Isto é necessariamente algo ruim. As nações do norte da Europa não sofrem tanto por sua próxima aliança com os EUA,  inclusive no sentido cultural.

Mas aqui está a questão dos seis trilhões de dólares: os EUA estão tentando mascarar a existência, em base permanente, dos outros grandes poderes que não aceitam os valores liberais como a América os define? Digo "grandes poderes" porque a longo prazo só um grande poder, ou um protetorado de um grande poder, pode assegurar a continuidade de sua existência.

O status não-liberal da Rússia foi apresentado recentemente como uma horrenda ameaça à segurança tanto da América como do mundo. Em apoio dessa linha historica, o presidente russo foi associado com pensadores do passado russo que foram, supostamente, a fonte de um fanatismo que justifica falar de Putin e da Rússia (os dois são mesclados juntos em uma interminável repetição "Rússia de Putin") no mesmo sentido do Estado Islâmico.

Mas as ideias dessa Rússia não ou não-inteiramente-liberal são de nenhum modo perigosas. Pelo contrário, oferecem um caminho frutífero para repensar algumas das nossas mais queridas suposições sobre a natureza da política e a natureza da ordem internacional.

Passado e Presente

Quando o comunismo foi abandonado nos fins de 1980 e início de 1990, ficou evidente para pensadores russos e estrangeiros que um novo conceito de Estado, um novo conceito de homem, e uma nova pública filosofia deveria ser criada. Foi então, e permanece hoje, uma questão aberta de que se a nova identidade russa acabaria por ser importada do Ocidente, algo tirado do pensamento filosófico pré-comunista, ou talvez uma combinação das duas.

Como pode ser esperado do país que trouxe ao mundo Dostoievsky e Tolstoy, quando se chega à filosofia, a Rússia tem uma profunda banca. Nos meses imediatamente seguintes de fevereiro de 2014 muda o poder em Kiev, e resulta a crescente tensão entre Washington e Moscou, três filósofos russos, só dois deles amplamente conhecidos fora da Rússia, vieram a ser cada vez mais associados com o nome de Vladimir Putin. A interpretação subsequente desses filósofos nas páginas de muitos dos jornais mais influentes dos EUA merecem ser consideradas em detalhe.

Maria Snegovaya, uma doutoranda em ciência política na Universidade de Columbia, iniciou a discussão com um artigo em 2 de março de 2014 no Washington Post. "A visão de mundo pró-soviética de Putin", escreveu Snegovaya, é pobremente compreendida:

"Para entender... precisa-se checar o que são as preferidas leituras de Putin. As preferidas incluem um monte de filósofos nacionalistas russos do início do século XX - Berdyaev, Solovyev, Ilyn - que são muitas vezes citados em seus discursos públicos. Ademais, recentemente o Kremlin especialmente salientou aos governantes regionais da Rússia que lessem os trabalhos desses filósofos durante as férias de inverno de 2014. A principal mensagem desses autores é o papel messiânico da Rússia na história mundial, a preservação e restauração das fronteiras históricas russas e da Ortodoxia".

Mark Galeotti, escrevendo na Foreign Policy ("O Império Mental de Putin", 21 de abril de 2014) também encontrou defeitos nesses mesmos três filósofos. "Esses três, a quem Putin costuma citar", escreve Galeotti, "exemplificam e justificam a crença [de Putin] no posto especial da Rússia na historia. Eles romantizam a necessidade de obediência ao forte governador - seja manipulando os boiardos ou defendendo o povo da corrupção - e o papel da Igreja Ortodoxa em defender a alma russa e o ideal russo".

Finalmente, David Brooks, escrevendo para o New York Times ("Putin não pode parar", 3 de março de 2014), do mesmo modo expressou alarme sobre a influência de Solovyov, Berdyaev e Ilyn. "Putin não apenas cita estes caras; ele quer que outros os leiam", escreve Brooks. Três ideias principais unificam os trabalhos de Solovyov, Ilyn e Berdyaev. Brooks escreve:

"O primeiro é o excepcionalismo russo: a ideia de que a Rússia tem seu próprio e único status espiritual e propósito. O segundo é a devoção à fé ortodoxa. O terceiro é a crença na autocracia. Misturados juntos, estes filósofos apontam uma Rússia que é uma autocracia nacionalista quase-teocrática destinada a desempenhar um papel no mundo".

Sob a influência desses "caras", Brooks continua, "O tigre do nacionalismo quase-religioso, que Putin tem montado, pode agora tomar controle. Isso torna as coisas muito difíceis para Putin parar neste conflito onde o cálculo racional lhe mandaria parar." Brooks conclui que a Rússia pode não mais ser considerada um regime "normal" e que "um conflito huntingtoniano de civilizações com a Rússia" pode ser o resultado.

Analisando os Analistas

O que somos nós para fazer algo com estas análises, todas elas publicadas em jornais autorizados dos EUA? Uma coisa é certa. Essas afirmações representam uma enorme e surpreendente reviravolta no ponto de vista da opinião educada no Ocidente, particularmente com relação a Solovyov e Berdyaev (com Ilyn, conforme já afirmado, sendo muito menos conhecido).

Até estes artigos, em março-abril de 2014, eu não lembro de ler uma única afirmação negativa de qualquer um desses pensadores, pelo menos não entre especialistas ocidentais, nem um único indivíduo acusando-os de serem hostis ao Ocidente, ninguém sugerindo que eles são amigáveis ao chauvinismo ou nacionalismo russo.

Em Russian Thought after Communism, James Scanlan, um importante especialista ocidental do pensamento russo, descreveu Vladímir Soovyov (1853-1990) como "por consenso o maior e mais influente de todos os pensadores filosóficos da Rússia". Em algo recente da Imprensa da Universidade de Cambridge sobre a história da filosofia russa, Randal Poole escreve que "Solovyov é amplamente considerado como o maior filósofo da Rússia".

Há, é verdade, dissidentes de mão cheia dessa unânime aceitação de Solovyov. O filósofo russo contemporâneo Sergei Khoruzhy considera Solovyov um muito grande filósofo, mas muito ocidental em orientação para merecer o título de grande pensador russo em sentido estrito.

Ademais, até mesmo intelectuais souberam ser geralmente hostis às coisas russas, tal como o professor de Harvard Richard Pipes, no entanto fala respeitavelmente sobre Solovyov: "A Igreja Ortodoxa nunca encontrou uma linguagem comum com o educado porque sua perspectiva conservadora tornou-o pronunciadamente anti-intelectual... um por um ela abandona as mentes religiosas mais finas do país: os eslavófilos, Vladimir Soloviev, Leo Tolstoy e os leigos engajados no início dos anos 1900 em torno da Sociedade Filosófica Religiosa..." (Russia Under the Old Regime, 243.)

Em resumo, a incompreensão de Snegovaya quanto a Solovyov dificilmente poderia ser mais completa. Em que sentido possível pode Solovyov, que não teve nenhuma ideia de soviético, pode ser considerado como apoiador de uma alegada "visão de mundo pró-soviética" de Putin? Na verdade, os escritos desse filósofo supostamente "pró-soviético" - exatamente como os de Berdyaev e Ilyn - foram banidos pela censura soviética.

Como pode Solovyov ser descrito como "nacionalista" quando sua magnun opus, A Justificação do Bem (o livro que Putin foi acusado de recomendar aos seus governadores), estabelece precisamente o oposto? É difícil de imaginar uma condenação mais absoluta do excepcionalismo nacional que a contida no trabalho de ética deinitivo de Solovyov:

"Deve ser um ou outro. Ou devemos renunciar ao cristianismo e ao monoteísmo em geral, de acordo com o qual 'não há bem que não seja um, Deus', e reconhecer nossa nação como sendo o bem mais alto em lugar de Deus - ou devemos admitir que um povo se torna bom não em virtude do simples fato de sua nacionalidade particular, mas somente enquanto conforma e participa do bem absoluto".

O mesmo sentido anti-nacionalista percorre todo o corpus de Solovyov. Ele argumenta agressivamente contra os nacionalistas eslavófilos do seu tempo. Para ler os pensamentos de Solovyov a respeito do assunto, Snegovaya, que lê russo, pode ter consultado o livro Estado, Sociedade, Governo, um voluma acadêmico de ciência social liberal co-publicado em 2013 por Mikhail Khodorkorsky (não conhecido por seu carinho com relação a Putin). Nesse compêndio em língua russa de ensaios feitos por teóricos liberais russos, Solovyov é rotulado como um crítico autoritativo do nacionalismo russo, inclusive o nacionalismo ocasionalmente falado por Dostoievsky [S. Nikolsky e M. Khodorkovsky, ed., Gosudrastvo. Obshchestvo. Upravlenie: Sbornik statei (Moskva, Alpina Pablisher: 2013)].

No artigo crítico feito pelo Prof. Sergei Nikolsky, Solovyov é citado longa e precisamente como um crítico autoritativo do desrespeito de Dostoievsky com relação a outras fés e nações e especialmente com relação à Europa. A fim de um balanço, Nikolsky pode ter notado que em mais algum lugar, por exemplo em seu "Três Discursos em Honra ao Dostoievsky", Solovyov homenageia Dostoievsky nos termos mais altos possíveis e especialmente nega que seu ideal político é nacionalista.

É digno de nota que Nikolsky, no mesmo artigo, ataca Ilyn por suas visões demasiadamente rosadas do imperialismo tsarista russo. Nikolsky provavelmente tem um ponto aqui.

Criticando a Igreja

Finalmente, longe de ser um proponente fanático da Igreja Ortodoxa Russa, Solovyov duramente criticou a Igreja Russa, taxando-a por "ser totalmente subserviente ao poder secular e destituído de toda vitalidade interior". Seguindo adiante, isto soa decididamente fraco. E de novo, tudo isso é bem sabido. Muitos, inclusive aqueles teólogos proeminentes como Urs von Balthasar, acreditam que Solovyov renunciou à Ortodoxia e se tornou um Católico, tão fortemente abraçou a Igreja Católica.

Solovyov, o suposto fanático conservador Ortodoxo, louvou a Igreja Católica, entre outros motivos, porque ele viu sua independência com relação às tentações nacionalistas, e por sua prontidão em agir no mundo. "O Oriente [quer dizer, a Ortodoxia Oriental] reza; o Ocidente [quer dizer, o Catolicismo Romano] reza e atua: quem está certo?" questiona Solovyov retoricamente em seu famoso Rússia e a Igreja Universal. Misturar com o mundo é bom se é o mundo que muda, Solovyov continua. Mudanças em quê sentido? De algum movo, no mesmo sentido como advogado pelo progresso Ocidental.

O que a Revolução Francesa destruiu - tratando os homens como coisas, bens ou escravos, merece ser destruído. Mas a Revolução Francesa, no entanto, não instituiu a justiça, porque a justiça é impossível sem a verdade, e a primeira de todas as verdades sobre o homem, mas a Revolução Francesa "perseguiu no Homem nada além da individualidade abstrata, um ser racional destituído de todo conteúdo positivo".

Como resultado, "o indivíduo livre e soberano", Solovyov continua, "encontra-se condenado a ser vítima indefensável do Estado absoluto ou da 'nação'".

É impossível reconciliar o Solovyov que encontramos nesses escritos com o retrato de Snegovaya e de Brooks de um religioso chauvinista e nacionalista russo, alguém com tendências pró-soviétias para aplicar.

A referência ao messianismo, vindo de Brooks, também demonstra uma total falta de auto-consciência. Mas aquele exemplo particular da chaleira chamando o pote preto já tem sido habilmente manuseado por Charles Pierce ("Nosso Sr. Brooks e o Messiânico Sr. Putin", Esquire, 4 de março de 2014).

Filósofo da Liberdade

Berdyaev (1874-1948) escreveu um grande tratado, e em um número de assuntos alterados em sua mente, mas, já que foi A Filosofia da Desigualdade que Putin sugeriu que seus governadores lessem, faz sentido começarmos com este.

Encontramos aqui um repositório de visões 'pró-soviéticas'? Nem perto disso. Pelo contrário, encontramos uma condenação emocionalmente desempenhada de tudo o que a União Soviética buscava (o livro foi escrito imediatamente depois da Revolução de 1917 e Berdyaev estava cheio de raiva e tristeza).

Berdyaev gasta muito do livro repreendendo o movimento bolchevique por sua exaltação exagerada de uma forma política particular. Mas em verdade, Berdyaev insiste, as formas políticas são secundárias ao espírito humano. Se uma pessoa é agradável ou viciosa, devota à justiça ou o seu oposto, tem pouco que ver com se alguém é um monarquista ou um democrata, um partidário da propriedade privada ou um socialista.

Por que especificamente "A Filosofia da Desigualdade"? Não porque o filósofo é indiferente à exploração e à injustiça. E menos ainda porque ele favorecia a tirania - ele foi, pelo contrário, um incansável crítico do despostismo, que é a palavra usada para descrever a ordem tsarista.

Berdyaev nunca abandonou completamente seu interesse por Marx quando jovem, mesmo depois de sua conversão ao Cristianismo perto da virada do século. Ele foi por temperamento uma pessoa mais à esquerda que à direita, apesar de sua duradoura influência de Nietzsche.

No que concerne Berdyaev é a desigualdade entre o que é superior ou inferior no âmbito do espírito e cultura. Berdyaev na maioria das vezes aprova algo do liberalismo e encontra nele algo de aristocrático ou de algum modo não revolucionário. Não obstante, a democracia e o socialismo, precisamente porque eles foram pretensiosos em preencher toda a vida com seu conteúdo, pode facilmente se tornar uma falsa religião.

Em algumas vezes a filosofia de Berdyaev até mesmo coincide com o libertarianismo, que por sua vez rejeita todo abuso de liberdade do indivíduo para fins utilitários.

A visão religiosa de Berdyaev é difícil de caracterizar. Ele foi um Cristão, um existencialista e alguém que acreditou na primazia absoluta da liberdade, mas não necessariamente todas as três de uma só vez (elas não são inteiramente compatíveis, mas então Berdyaev não foi sempre consistente). Os escritos de Dostoievsky tiveram uma enorme importância religiosa para ele.

É fácil de não compreender Berdyaev por causa de sua carência de sistema, e porque ele olha algumas vezes para o mesmo conceito de perspectivas diferentes. Tomamos por exemplo a compreensão paradoxal de Berdyaev da unidade nacional.

Dostoievsky, Berdyaev escreve, "é um gênio russo; o caráter nacional russo é estampado em todo o seu trabalho criativo, e ele revela ao mundo as profundezas da alma russa. Mas este mais russo dentre os russos ao mesmo tempo pertence à toda humanidade, ele é o mais universal de todos os russos".

E o mesmo pode ser dito para Goethe e outros gênios nacionais, que por sua vez são universais não por serem genéricos, mas precisamente por serem mais que eles mesmos; no caso de Goethe, sendo especificamente alemão. A perspectiva de Berdyaev aqui é particularmente útil se nós quisermos um mundo salvo para tanto a unidade e a diversidade. Uma civilização global que nivelaria todas as diferençasé feio, enquanto um messianismo que exaltaria uma nação sobre as outras é mal [N. Berdyaev, Sud’ba Rossii [O Destino da Rússia], (Moskva: Eksmo-Press, 2001), p. 353 e 361]

O Cristianismo, entretanto, é messiânico, porque afirma o que considera verdade universal, a verdade de Cristo. Mas essa verdade não tem poder coercitivo.

Até o início de 2014, a visão de que Solovyov e Berdyaev representam particularmente alternativas humanas e atrativas para a Rússia não foi, tão quanto sou consciente, posta em dúvida por ninguém, ao menos ninguém que deu  ao assunto qualquer pensamento.

Nos tempos da Perestroika, quando a filosofia russa foi finalmente redescoberta dentro da Rússia, a influência positiva desses filósofos foi calorosamente afirmada. Bill Keller, escrevendo para o New York Times, louvou a revista soviética Novy Mir por focar atenção em "os pensadores russos do século XIX mais inclinados ao Ocidente tais como Nikolai Nekrasov, Aleksandr Herzen, e os filósofos cristãos Vladímir Solovyov e Nikolay Berdyaev".

Estes foram o tipo de pensadores, enfatizados por Keller, que ajudariam a encorajar "uma alternativa humana ao fanático leninismo e ao obscuro nacionalismo russo". Ao publicar estes escritos, Keller continuou, Novy Mir estava demonstrando que "ocupa uma posição centrista chave a tentativa de reconciliar os ocidentalistas e os patriotas russos em uma base comum de tolerância e ideais democráticos".

O 'Liberal Conservador'

O caso de Ivan Ilyn (1883-1954), quem Putin regularmente cita e por quem Putin reconhecidamente tem respeito, é mais complexo. Algumas das suspeitas de Snegovaya nesse caso são de fato bem feitas. Ilyn tem um temperamento conservador.

É justo chamá-lo de nacionalista, embora um só preocupado com a Rússia e mais nada, e sem ambições messiânicas. Como veremos mais adiante, Ilyn não foi contra o autoritarianismo. Ilyn foi, no entanto, complexo e digno de consideração mais cuidadosa.

A sugestão de que Ilyn é uma fonte da postura "pró-soviética" é facilmente desfeita. Os interrogadores de Cheka que prenderam e interrogaram Ilyn seis vezes entre 1918 e 1922 ficariam muito surpresos com uma tal caracterização.

De acordo com o Prof. Iu T Lisitsa, que revisou os registros sobre Ilyn dos arquivos da KGB, Ilyn "mesmo nas mãos da Cheka, sob ameaça de execução... permaneceu reto, preciso, e articula em sua oposição ao regime bolchevique". [From “The Complex Legacy of Ivan Il’in, Russian Thought after Communism, in James Scanlan, ed., Russian Thought After Communism: The Recovery of a Philosophical Tradition (Armonk, Nova Iorque, M.E. Sharpe: 1994), 183.]

A caracterização "pró-soviética" também não faz jus com o fato de que Ilyn, ao lado de Berdyaev e um grupo de outros filósofos líderes russos, foi banido da URSS em 1922 por sua "agitação" anti-soviética. Diz-se que o corpus literário de Ilyn inclui mais de 40 livros e ensaios, alguns deles escritos em linguagem técnica e acadêmica, então não é coisa fácil caracterizar seu pensamento, mas um bom lugar para começar é Nossas Tarefas, de Ilyn.

Esse não só é um livro que Putin gosta de citar, é também um outro dos livros, ao lado com a Justificação do Bem de Solovyov e com A Filosofia da Desigualdade de Berdyaev, que Putin sugeriu para que seus governantes lessem.

O livro Nossas Tarefas é uma compilação de ensaios jornalísticos escritos por Ilyn entre 1948 e 1954. Seu tema primordial é a necessidade de pôr um fim à regra soviética, derrotar o comunismo e planejar para a restauração da Rússia e recuperar-se das desgraças físicas, morais e políticas impostas à Rússia pelo sistema soviético. É difícil imaginar uma condenação mais descompromissada da ideologia e prática soviética que essa coleção de ensaios de Ilyn. Se houver alguma, deve faltar em exagerar as deficiências do sistema soviético. Deve ser lembrado, apesar disso, que Ilyn (que morreu em 1954) não viveu para ver a era pós-soviética, ou mesmo para ouvir o discurso de Khrushchev condenando Stalin (em 1956).

E Ilyn não foi só um crítico do comunismo, ele foi também um crítico dos líderes passados da Rússia quando eles foram viciosos (como no caso de Ivan IV) ou incompetentes, como no caso de Nicolau II. Como Berdyaev, Ilyn foi também, na ocasião, um crítico agressivo do povo russo, que ele pensou que eram politicamente imaturos e em necessidade de uma quebra de curso em consciência legal.

Depois da queda do poder soviético, uma queda que ele esteve certo que iria acontecer, ele foi cético ao extremo de que o caráter do povo na Rússia seria capaz de sabiamente se auto-governar, que é o motivo pelo qual ele instou, como um expediente temporário, um período de  transição do governo autoritário.

'O Homem Soviético'

Aqui é como, em Nossas Tarefas, Ilyn descreveu o caráter do "homem soviético" que a futura Rússia herdaria: "O sistema totalitário... impõe um número de tendências e hábitos doentios... entre os quais nós podemos encontrar a seguir: uma vontade para informar sobre outros (e conhecida e falsamente), distorcer e mentir, perda de sentido de dignidade pessoal e a ausência de todo patriotismo bem enraizado, pensando de uma maneira escrava e aceitando cegamente o pensamento de outros, sujamente combinados com servidão e medo constante.

"A luta para sobrepor estes hábitos doentios não será fácil... exigirá tempo, uma auto-consciência honesta e corajosa, uma repetição purificadora, a aquisição de novos hábitos de independência e auto-confiança, e, o mais importante de tudo, um novo sistema nacional de educação espiritual e intelectual.[I. A. Il’in, Nashi Zadachi (Nossas Tarefas), sobr. soch. (obras coletadas), vol. 2 (Moskva, Russkaya Kniga: 1993), 23-24.]

 Ilyn era de fato profundamente preocupado com o perigo da desintegração da Rússia e de fato era preocupado com a defesa de suas fronteiras, embora, claro, não por sua restauração. Para evitar tal desintegração, Ilyn instou os russos a não repetir o que ele considerou erro fatal da Revolução de Fevereiro - seu empurrão prematuro por repleta democracia.

Nisso, como em respeito a muitas outras coisas, as recomendações políticas de Ilyn conciliam-se com as de Solzhenitsyn, que foi profundamente influenciado por Ilyn. Que Ilyn é uma grande influência sobre a marca de Putin como "liberal conservador" foi notado já em 2012 pelo acadêmico canadense Paul Robinson.

Diferente de Solovyov e Berdyaev, nos primeiros anos da Perestroika Ivan Ilyn era pobremente conhecido tanto dentro como fora da Rússia, embora Ilyn tenha sido proeminente durante os anos precedentes e seguintes da Revolução Russa, inclusive enquanto vivia no exílio.

Sua fama no início do século XX veio largamente de um celebrado estudo acadêmico dos escritos de Hegel, um trabalho ainda louvado tanto dentro como fora da Rússia como entre os melhores já produzidos.

Ilyn estourou na cena pós-soviética em 1991, quando os ensaios das Nossas Tarefas foram primeiramente publicados, incluindo o presciente "O Que o Desmembramento da Rússia Pressagia para o Mundo?" Em seu ensaio, Ilyn escreve que o resto do mundo, em sua ignorância das prováveis consequências, avidamente subscreverá a destruição da Rússia e providenciará muitas assistências de desenvolvimento e encorajamento ideológico.

Como resultado, Ilyn escreve "o território da Rússia fritará em intermináveis protestos, combates, e guerras civis que constantemente escalarão em confrontos mundiais..." Para evitar esse fato, como mencionado anteriormente, Ilyn instou a Rússia um período de transição de governo autoritário.

Esse ponto é enfatizado por Philip Grier em seu Complexo Legado de Ivan Ilyn. Grier, deve ser acrescentado, que é o antigo presidente da Sociedade Americana de Hegel, é também o tradutor da análise em dois volumes de Ilyn sobre Hegel publicada por Northwestern University Press em 2011.

Embora Ilyn admire os Estados Unidos e a Suíça pelo que ele viu como auto-governos democráticos maduros, não está claro que Ilyn era confidente de que a democracia tenha sido feita sob medida por uma nação e uma cultura do tipo russo.

O que está absolutamente claro, no entanto, é a devoção fervente de Ilyn em governar a lei e a consciência legal, algo que o coloca à parte dos eslavófilos, a quem ele em outros assuntos se assemelha.

Uma Rússia Liberal ou Cristã?

Há muitas diferenças importantes entre estes três pensadores. No entanto, todos os três escritores consideraram a liberdade essencial à cultura humana e ao espírito humano, embora eles difiram na ênfase. Indubitavelmente, então, a visão de mundo de todos os três é irredutível à fórmula liberal até mesmo se suas visões incluem elementos importantes liberais ou modernos.

Todos os três concordam com o mundo liberal de que todos os humanos, independentemente da nação, religião ou qualquer outra diferença, são igualmente dotados de dignidade infinita. Mas para eles isto não é uma frase jogada fora quando eles acrescentam que sua dignidade é conferida aos humanos por Deus, o que significa, entre outras coisas, que um direito a ser absolutamente seguro não pode ultrapassar o direito de alguém de não ser torturado (a proibição absoluta de Ilyn contra a tortura, ou qualquer coisa relacionado à tortura, no livro acima mencionado é excelente e oportuna).

Não houve espaço aqui para tentar mais que uma breve introdução a estes pensadores. Mas deveria ficar claro que a tradição que nós acabamos de descrever oferece, se nós nos engajaríamos nisso, uma oportunidade: uma chance de formar uma parceria com a Rússia que, embora diferente de nosso estado presente da mente, compartilha muito de nosso passado, e talvez sugere alguns caminhos para negociar em um mundo cada vez mais perigoso.

Conforme sua recomendação de lista de leituras fortemente sugere, "a Rússia de Putin" representa uma tentativa de reconectar com sua tradição, embora possa ser falha se tomarmos o famoso discurso de Putin (à Assembleia Federal) em abril de 2005. Embora os comentadores ocidentais tem ad nauseum o repreendido por mostrar suas verdadeiras cores ao despreender nostalgia pela ordem soviética, em verdade, como todo o texto e o seguinte excerto tornam claro, ele não fez tal coisa:

Putin disse: "O poder do Estado, escreveu o grande filósofo russo Ivan Ilyn, 'tem seus próprios limites definidos pelo fato de que é a autoridade que alcança o povo de fora... o poder estatal não pode sobrepor e ditar os estados criativos da alma e da mente, os estados interiores do amor, da liberdade e do bem-querer. O Estado não pode demandar de seus cidadãos fé, oração, amor, bondade e convicção. Não pode regular criação científica, religiosa e artística... não deveria intervir na moral, na família e na vida privada cotidiana, e só quando extremamente necessário deveria impingir na economia do povo iniciativa e criatividade'".

É ser inocente imputar um tal idealismo a Putin? Talvez. Mas Putin não é de fato o ponto, e sim a Rússia. Nós nos engajamos depois de tudo num país, não numa simples pessoa nele, e a tradição que estamos descrevendo tem raizes suficientes na Rússia que atualmente existe que, se nós escolhermos nos engajar nela, haveria a chance de uma conversação produtiva, capaz de reconstruir a confiança e criar uma ordem.

Os críticos dizem que a Rússia recentemente se tornou uma nação cheia de ódio. Mas como estão os cidadãos russos e o presidente Putin por verem distorcidas (e o que vimos acima é apenas a ponta do iceberg) suas próprias palavras e suas mais caras tradições de um modo aparentemente rancoroso e até mesmo violento? Uma sábia análise corretamente notou que os nacionalistas russos como Alexandr Dugin consideram os Estados Unidos como inimigo implacável da Rússia. Representantes desse campo "eurasiano" esperam a queda de Putin.

Os esforços da América para a "mudança de regime" podem ser bem sucedidos e facilitar uma mudança drástica para pior. E então, por meios da "logicalidade curiosa" da ideologia americana, nós mais uma vez, com a "teimosa devoção sem consideração por fatores específicos e variantes" vamos a mais uma catástrofe.

Uma Breve Nota sobre Ideologia

Para a tão alardeada liberdade dos Estados Unidos, exibe surpreendentemente pouca liberdade de manuseio quando vem à política externa. Longe de ser tomado em consideração a necessidade da segurança vital da Rússia, para não dizer nada da identidade russa, os ideólogos dos EUA se comportaram como se ambos não fossem existentes ou fundamentalmente ilegítimos. Tais comportamentos políticos compulsivos é um claro sinal de infecção ideológica.

Brooks, Snegovaya e Galeotti aparentemente fizeram todo o uso da mesma base lógica quando eles examinaram as fontes filosóficas do pensamento de Putin. Essa lógica foi algo como isso: a) Washington considera a Rússia um problema, logo b) Vladimir Putin é um bandido; e logo c) o filósofo do século XIX Vladimir Solovyov sonhou em restaurar a União Soviética em sua anterior glória e poder cristãos.

Um pensamento tão desleixado não aconteceria se essas três pessoas inteligentes não (espera-se temporariamente) fossem previamente incapacitados por cegadores ideológicos. Infelizmente, o mesmo pensamento ideológico domina todo o discurso dos EUA que se refere à Rússia, fazendo com que se torne impossível qualquer afirmação política.

Afinal, se o ideal político da América é quase tão perfeito que pode ser alcançado neste "mundo decaído", então a coisa vai adiante e vence, desse modo trazendo o bem perfeito (somos nós!) para todos.

Por que preocupar-se seriamente em familiarizar-se com um sistema competidor? Claramente Brooks and Co. não fazem nenhum esforço. Foi o bastante para eles saber que o ideal político da Rússia significantemente difere do americano: logo é ilegítimo, Q. E. D.

Conforme Hannah Arendt escreveu em As Origens do Totalitarianismo, "a curiosa logicalidade de todos os ismos, sua simplista crença no valor de salvação da teimosa devoção sem consideração por fatores específicos e variáveis, já acolhe os primeiros germes do desprezo totalitário pela realidade".

Essa América realmente não vive seus próprios ideais, como tenho escrito anteriormente, não muda nada para o ideólogo. Afinal, todo aumento no poder da América traz mais perto o dia em que suas ações (que são geralmente realistas) e seu discurso (que é sempre democrático e idealista) podem encontrar harmonia. Então a história pode verdadeiramente e finalmente terminar.

E então, em luz da revisão acima de uma parte importante da tradição russa, há algo que agora sabemos de forma muito mais acurada: a Rússia também tomou o problema de ter ideais.

Paul Grenier é um ex-intérprete simultâneo russo e um regular escritor sobre assuntos político-filosóficos. Depois de avançar no estudo sobre assuntos russos, relações internacionais e geografia na Universidade Columbia, Paul Grenier trabalhou para o Pentágono, para o Departamento de Estado e para o Banco Mundial como intérprete russo, e no Conselho de Prioridades Econômicas, onde foi um diretor de pesquisa. Ele escreveu para o Huffington post, Solidary Wall, Baltimore Sun, Godspy e Second Spring, entre outros lugares, e suas traduções de filosofia russa apareceram no jornal católico Communio.












via russianinsider