Mostrando postagens com marcador Metafísica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Metafísica. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de novembro de 2016

TSIDMZ: A Busca por Beleza, Majestade e Metafísica

por Mindaugas Peleckis

TSIDMZ significa THULESEHNSUCHT IN DER MASCHINENZEIT, isso quer dizer Sehnsucht (nostalgia) por Thule em um Tempo de Máquinas. Thule é um “espaço primordial”, provavelmente um lugar físico, mas indubitavelmente, um domínio metafísico. De acordo com a mitologia indo-europeia, os povos indo-europeus que outrora habitaram as terras da Eurásia eram descendentes de Thule, a última terra remanescente do continente Hiperbórea. De uma maneira muito breve e grosseira, podemos dizer que Thule é equivalente ao Éden bíblico. É o lugar da “perfeição” original, o lugar dos ancestrais e heróis que viveram próximos ao divino. A TSIDMZ expressa exatamente esse tipo de nostalgia de um ponto de vista pessimista, significando “ausência”, e também de um ponto de vista construtivo, significando uma nova realização. Portanto, essa nova realização deve ser alcançada em nossos tempos, “In Der Maschinenzeit”. Será possível realizar uma sociedade justa, sublime e “espiritual” na era pós-atômica? Será possível combinar a máquina com a Tradição? De acordo com a TSIDMZ uma possível resposta pode ser encontrada no Futurismo, a nível artístico e cultural, e no Socialismo, a nível político e social. Como consequência, música eletrônica e toda forma de arte “industrial” tornam-se imperativos. No que tange aos níveis social e político o Homem deve ser o mestre da máquina, e não mais um escravo ou vítima. Da mesma forma, a nível cultural o Novo Homem precisa se integrar com a máquina, que deve tornar-se parte de sua nova cultura com o objetivo de dar continuidade aos valores tradicionais com essa nova ferramenta. Como resultado, isso irá criar uma identificação artística e estética, que dará uma nova identidade apropriada ao Arbeiter, como Jünger o entendeu (o Arbeiter é o conceito de E.Jünger sobre o Novo Homem que combina técnica e visão ascética/metafísica). “A técnica é o meio pelo qual a figura do trabalhador mobiliza o mundo.” – E. Jünger. Como consequência, a TSIDMZ apreciou a ideia, o conceito e o tema eurasianos: equilíbrio social, superar todas as ideologias, uma weltanschauung metapolítica e metafísica para reconquistar a Eternidade na pós-modernidade. A TSIDMZ é parte da Associação de Artistas Eurasianos: https://www.facebook.com/EurasianArtistsAssociation. [Fonte: página da TSIDMZ no facebook]. Em minha opinião, a TSIDMZ é uma das melhores e mais interessantes bandas da atualidade: letras profundas, temas sérios, música dramática: é uma bomba que irá explodir sua mente se ela está sob o controle do Big Brother. A entrevista com o líder da banda, Tetsuo, também conhecido como Uomo D’Acciaio (ideias, música, atmosferas, amostras, distorções, efeitos) foi feita em 17 de Outubro de 2016.

Você trabalhou com uma pletora de artistas ao longo dos anos. Quais colaborações foram/são as mais interessantes e importantes pra você, e por quê?

Eu tive a chance de trabalhar com muitos artistas e amigos que eu sempre gostei e apreciei. Cada colaboração foi importante para o enriquecimento cultural e musical do som da TSIDMZ e teve uma origem e história excepcional.

Das primeiras colaborações com Lonsai Maikov, Rose Rovine e Amanti, Heiliges Licht, [distopia], Narog, etc. até as últimas com Gregorio Bardini, barbarossa Umtruk, Order Of Victory, L’Effet C’Est Moi, The Wyrm, Corazzata Valdemone, Gnomonclast, Strydwolf, Suveräna, Horologium, Porta Vittoria, Sonnenkind, Le Cose Bianche, Valerio Orlandini, Winterblood, the Serbian poet/writer Boris Nad etc, eu posso dizer com orgulho que a música sempre foi e é muito variada e em constante evolução e enriquecimento.

Você pode me dizer, resumidamente, quais são as principais ideias por detrás de sua música? Você poderia mencionar suas composições, álbuns e colaborações favoritos?

Por detrás da música da ThuleSehnsucht há a fascinação pela relação dos opostos, a descoberta do desconhecido e a busca pela beleza, majestade e metafísica.

Eu gosto de tudo que fiz ainda se em uma viagem hipotética ao passado eu quisesse melhorar ou mudar algumas coisas. Cada música, CD, compilação, trabalho avulso e colaboração possui uma história, origem, desenvolvimento e esforço único, então é difícil dizer o que eu prefiro. Tudo foi útil para o nosso crescimento.

Uma menção especial vai para Barbarossa Umtruk. Um artista francês muito prolífico, original e talentoso que eu amava antes de começar minha própria música. Ele encontrou uma alquimia de sons única e temas que me fascinaram muito e influenciaram profundamente minha abordagem pessoal à música e a alguns temas.

Por essa razão e em primeiro lugar pela amizade que estabelecemos de maneira espontânea, nós fizemos muitas músicas em colaboração e por isso ele é o único artista presente em toda a trilogia da TSIDMZ (Pax Deorum Hominumque, Ungern Von Sternberg Khan, René Guénon et la Tradition Primordiale) com duas músicas em cada álbum. Da mesma forma, eu tive a chance de estar em alguns de seus trabalhos: La Fosse De Babel, Der Talisman Des Rosenkreuzers: La Mission Secrete Du Baron Sebottendorf, Tagebuch eines Krieges (2005-2015).

O novo álbum está indo bem, mas não como os últimos três CD’s físicos. Ele é menos marcial e muito mais meditativo. Se Pax Deorum Hominumque, por exemplo, possui uma abordagem fácil, o álbum René Guénon et la Tradition Primordiale requer maior concentração e interesse sobre o assunto que eu trato em cada música. Uma boa maneira seria escutar o álbum acompanhando os textos (disponíveis através do Facebook e Bandcamp da TSIDMZ). E dali em diante minha esperança é que todos comecem uma pesquisa e um estudo de maneira profunda e pessoal, interessando-se pelos temas.

O som é mágico. Você provou isso. Porém, o que resta quando não há música?

Som é energia e Deus é pura energia (pensante) então talvez o som puro nunca irá acabar.

O que é e o que não é um som artístico?

Arte em geral deveria estar em primeiro lugar na promoção/educação da beleza, natureza e espiritualidade. As artes deveriam elevar a humanidade, deveriam proporcionar visões do todo e da eternidade e ao mesmo tempo deveriam exorcizar a realidade. Esses são os elementos menos presentes nas “artes” modernas.

Arte, nesse caso, arte musical, significa também trazer algo (em ideias, ou sons, ou em textos em um estilo específico de voz) do “mundo das ideias” platônico para esse mundo. Imitar outro artista, repetir o que já foi dito por outros e “copiar e colar” não é arte. É muito mais uma questão de ser bom ou ruim tecnicamente ou como banda cover.

O que você pensa sobre as relações entre a arte antiga e a arte de computador? Elas são compatíveis?

O computador, como toda coisa inanimada, é uma ferramenta. Uma arma não mata até que alguém a utilize para matar e o computador não mata a arte ou a música até que você o utilize para fazê-lo. Em toda coisa inanimada o que importa é qual o “espírito” que há por detrás dela. Com qual espírito, valor, princípio, visão de mundo e filosofia você utiliza o laptop, a arma, o carro, a família, música, sexo, matemática etc. Aqui se encontra a questão principal e a primeira de todas.

Ferramentas são só coisas inanimadas até que você decida como e quando usá-las. É claro que algumas ferramentas são mais perigosas que outras e requerem mais atenção e mais consciência, mas uma sociedade doente não deveria usar sequer uma colher. Tudo o que uma sociedade doente ou uma filosofia doente ou uma pessoa moralmente doente usa e faz estará errado. De maneira oposta, uma sociedade saudável ou uma pessoa saudável ou uma Weltanschauung saudável irão usar de uma maneira apropriada até mesmo o fogo. Para concluir, tudo pode ser feito (não por todos), mas depende como é feito.

O que você pensa a respeito dos milhares de projetos de bandas eletrônica, neofolk, industrial, ambient, tribal, eletroacústico, avant-guarde etc? É um tipo de tendência, ou uma inclinação em direção à músicas melhores?

Em todos os lugares e em todas as épocas da história sempre houve muitos artistas, músicos, instrumentistas e assim por diante. A única diferença é que agora com as tecnologias, internet, plataformas web e etc. é mais fácil divulgar a própria música e as performances. O que você escutava na taverna, na festa do vilarejo ou nas ruas, hoje pode ser escutado em casa através de um dispositivo, porque as tecnologias permitiram gravar o que uma vez só podia ser tocado e escutado em um evento público.

Agora nós podemos ter tudo imediatamente e a primeira consequência disso é a produção em série e desvalorização de tudo, a falta de entendimento profundo acerca do que escutamos.

O problema toca a questão da socialização e da qualidade.

Se outrora a música foi um agregador social e cultural, agora o homem pós-moderno pode isolar-se completamente de qualquer contexto social e pode escutar o que quiser no momento em que quiser (e na maioria das vezes, o que o sistema quer que você escute. É o zeitgeist! A solidão pós-moderna, consequência do extremo individualismo, a desintegração social e a falta de valores tradicionais e naturais controla mais e mais as nossas vidas. É claro que até no passado a música era tocada e escutada em solidão ou em situações muito privadas, mas o que era uma exceção ou apenas uma das muitas formas de se escutar música agora se tornou a norma.

Então nós chegamos na qualidade. O fato de que agora podemos gravar qualquer coisa que quisermos não significa que estamos indo em direção a uma música superior ou a coisas de maior qualidade. Quantidade raramente significa qualidade. Nós temos uma sobrecarga de álbuns que saturam a escuta. Muitos desses álbuns são só boas composições técnicas, repetição das estruturas habituais de grandes artistas históricos que são chamadas incorretamente de arte.

Imitação não é arte, é apreciável e legal, mas não é música ou arte superior. Ter uma atitude de “banda cover”, uma “atitude de DJ” ou possuir uma boa técnica no que tange à música não é suficiente para preencher a palavra arte. Um som original, textos originais ou músicas originais ou composições originais não são poucas, mas também não são propriedades de qualquer músico. Como eu disse, arte significa trazer algo do “Mundo das Ideias” para esse mundo; quantos dos ditos artistas fazem isso?

Então com a internet a qualidade definitivamente caiu. A internet deveria ser uma maneira de promover e começar para observar como a sua arte funciona; a pós-modernidade é um mundo líquido (dinheiro falso que não existe; o deus invisível chamado mercado que hoje governa tudo; a ideia de que tudo é permitido e não há certezas) e o mp3 sem graça e de baixa qualidade em uma plataforma web que hoje existe, mas amanhã talvez não, é outro elemento da decadente “sociedade líquida” em que vivemos. Não se tem certeza sobre nada, nada mais é qualitativo, tudo é massivo, quantitativo, plastificado, em série, sem nenhum entendimento profundo e mensurável unicamente através do dinheiro... e hoje nem o dinheiro possui um valor real; dinheiro líquido, sem ouro ou um papel correspondente, devido ao fato de que uma grande quantia de dinheiro é criada diariamente na virtualidade (com a consequente usura e especulação).

Concluindo, o primeiro passo urgente é retornar à natureza, nos tornarmos “muito humanos”, e libertarmo-nos desse mundo desumanizado e cada vez mais mecanizado. Referente às artes, um bom ponto de partida poderia ser recuperar o prazer de ler um livro físico ou escutar música em um vinil ou em um CD; na verdade, é impossível ter um controle total e uma compreensão completa de algo até que esse algo esteja somente na virtualidade ou em estado líquido.

Quando conseguirmos re-descobrir o valor de uma sociedade real-concreta que raciocina pelo bem comum, para a beleza física e metafísica e para as raízes das pessoas e identidades e não para os interesses do mercado, talvez será mais fácil iniciar um novo caminho em que a música também se incline ao melhor e em direção a ideias mais originais...

 O que mais inspira você?

Deus, beleza, majestade, eternidade, opostos, filosofia, metafísica, metapolítica, geopolítica, mitologia, religiões, tradições, identidades, pessoas, ideias e ideologias, história, arqueologia corrente e arqueologia oculta, futurismo, cinema, a relação homem-máquina, surrealismo, vida e morte, música industrial, clássica, folk, étnica, eletrônica e rock (metal).

No que você está trabalhando agora?

Está sendo planejado um novo álbum com um som novo, novas ideias e novos temas, mesmo que os anteriores ainda estejam sempre presentes de uma forma ou de outra. Além disso, o projeto está sempre ativo em suas colaborações, compilações temáticas e trabalhos separados.

O que o nome da sua banda significa para você? Que ideologia/religião/visão de mundo você segue?

Significa tudo que eu fui e ainda sou. Significa minha principal Weltanschauung. TSIDMZ é um acrônimo para ThuleSehnsucht in Der MaschinenZeit; isso quer dizer Sehnsucht (nostalgia) por Thule em Tempos de Máquinas. É uma frase que une a parte espiritual com a parte filosófica e a parte artística e musical da minha pessoa. Em poucas palavras, sou eu.

É uma frase que também foi influenciada profundamente por esta famosa frase de E. Jünger: “A técnica é o meio pelo qual a figura do trabalhador mobiliza o mundo.”.

“O Trabalhador” é o Novo Homem de E. Jünger, que combina a técnica moderna e visão ascética/metafísica; em um nível cultural esse Novo Homem precisa se integrar com a máquina, que se tornou parte de sua nova cultura, para que ele possa dar continuidade aos valores tradicionais com essa nova ferramenta.

Eu não me prendo a nenhuma definição. Nem na filosofia e nem na música. Para todo campo humano há muitos rótulos como se fossem marcas comerciais e muitas pessoas que não pensam, são monótonas, iguais em tudo (iguais de maneira inferior e não superior).

As pessoas estão cada vez mais cegas que nunca irão ver o quanto já está condicionado pelos contravalores pós-modernos e antinaturais e pela miríade de mentiras e pseudomitos modernos e pós-modernos em que vivemos. Pensar com seu próprio cérebro significa ser humilde para escutar, descobrir, ler, comparar e entender profundamente (e não com um punhado de frases encontradas nas mídias sociais) o que é totalmente oposto ao que a mídia e o presente sistema orwelliano mandaram você pensar até agora. Esse é só o primeiro ponto para começar a dizer: “Eu penso”.

A humanidade pós-moderna está no ápice da desumanização, no ápice do afastamento da natureza e da vida concreta e real.

Iluminismo, uma espécie de nova religião sem um deus transcendente (como todo materialismo, progressismo, evolucionismo, internacionalismo, ideologias de liberação, feminismo, veganismo e assim sucessivamente com todo o resto de “religiões” modernas construídas ao redor de falsas construções mentais e elementos singulares transformados em absolutos para toda realidade), realizou o primeiro passo para o afastamento de Deus (com o slogan/desculpa frequente de “oh como são ruins as religiões”... seria a bomba atômica ou todo o mal materialista e “laicista” dos últimos séculos uma consequência das religiões!?), e o último passo foi dado com a atual desconexão pós-moderna em relação à vida, à natureza, ao pensamento lógico e simplesmente de sermos humanos.

Em suma, nós podemos dizer que de um deus transcendente no centro do universo nós ganhamos o mercado no centro do universo.

A melhor solução é ter fortes princípios tradicionais e só então considerar qualquer tipo de música, qualquer filosofia e qualquer ideologia. Quando você possui princípios fortes, identitários, naturais, eternos e espirituais, quando você possui uma filosofia holística verdadeira (e não sectária como muitos modernos erroneamente chamam as “filosofias”/conhecimentos), quando você sabe que tudo possui uma origem divina ou espiritual (apenas leia Platão) e limites muito específicos impostos por princípios metafísicos (e portanto você é forçado a não fazer qualquer coisa permitida pela tecnologia ou humanos comuns) quando você entende que a matéria é limitada e o ilimitado (como é o mercado) é um contravalor antinatural, quando você entende que o bem comum é o valor mais alto em uma sociedade, quando você entende que primeiro existe a família e os povos com suas histórias/identidades próprias, únicas, específicas que precisam ser preservadas para que sobrevivam (esse sentimento deveria ser instintivo e padrão, e o fato de que a modernidade o destruiu em muitos povos, é outro sinal da completa desconexão com tudo que é natural e lógico), você também é capaz de compreender o melhor de cada situação e construir a sua “vontade de poder” / moralidade e talvez estar “além do bem e do mal”.

É claro que o mundo pós-moderno não ajuda de modo algum. O “pensamento fraco” e o pior relativismo dominam.

O Novo Homem, o “Übermensch” deve lidar com isso, é a última luta.

“Atualmente nós não estamos em guerra contra uma nação, contra um fenômeno, contra um partido ou uma ideia política, mas sim contra o surgimento de um novo e apavorante aeon, um aeon que irá varrer tradições, irá inverter valores, irá aniquilar e substituir a essência profunda, real e espiritual do ser humano com identidades falsas, baixas e demoníacas. Como consequência nós precisamos ser Futuristas: assistindo ao futuro e à técnica como uma continuação em relação ao passado e à tradição.”

TSIDMZ –ThuleSehnsucht In Der MaschinenZeit-


Obrigado

Tradução: Maurício Oltramari

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Sobre Enéadas I, Tratado 6: da Beleza


William Blake, Feton e os Cavalos do Sol
Da Beleza foi, de acordo com Porfírio, o primeiro tratado de Plotino - e ele revela o filósofo em seu estilo mais poético. Ele serviu como iniciação à sua filosofia por séculos, não apenas por causa de seu estilo mais acessível aqui, mas também porque ele aponta para o que é mais imediata e facilmente disponível a nós por nossa experiência direta: a beleza no mundo.

Nosso encontro com a beleza aparece mais prontamente através do sentido da visão bem como através do da audição, tanto no mundo natural como na arte. Mais abstratamente, mas ainda capaz de revelar a beleza, é o hábil arranjo da linguagem que encontramos na poesia, na prosa e na oratória - não apenas em sons, mas os significados e as ideias que eles carregam nos inspiram em um maravilhamento do mundo, e na vida virtuosa. Uma vida virtuosa é vista não apenas como boa ou justa, mas também bela.

A beleza funciona como uma janela através da qual podemos ver através do mundo extrínseco e empírico para capturar um vislumbre da unidade do cosmos em si, uma experiência do mundo intrínseco e ontológico. Ou, posto diferentemente, a beleza é um fio dourado que percorre através de todos os níveis do Ser, do qual podemos traçar todo seu caminho de retorno à fonte, ao Bem em si. Assim, a beleza serve como um convite à alma, despertando-a para sua jornada rumo à integração e unidade.

Plotino aqui é visto em sua mais reta afirmação do mundo. É fácil perder a visão do aspecto crucial de sua filosofia que não nega o mundo material ordenado, ou seja, a natureza. Enquanto a matéria se submete à ordenação unitiva (como na imagem do Uno), o mundo natural tem seu lugar certo na hierarquia ontológica do todo. Apenas enquanto a desordem e a desintegração ocorrem que a matéria decai para longe da ordem do Ser, onde, em nossa ignorância, buscamos substituir a verdadeira ordem ontológica das coisas. É por esta razão que Plotino caracteriza a matéria bruta como 'má'. Mas a natureza em si (que é ordenada) não é má, mas, pelo contrário, um reflexo do Bem.

Assim na natureza podemos testemunhar a beleza, por exemplo um nascer do sol por sobre o oceano, que transforma as cores do céu, que é por sua vez encrespado nas ondas da água, e nós estamos deslumbrados pela luz do sol. Tudo isso ocorre através do material que está ordenado de um modo particular. Podemos oferecer uma consideração extrínseca e técnica do porquê uma cena assim se parece do jeito que é: a composição química da combustão do sol do hidrogênio, a luz refratando na atmosfera da terra que faz surgir miríade de cores, o olho humano que recebe as frequências da luz e o cérebro interpretando o que o olho toma. E uma consideração científica desse tipo não é certamente falsa. Mas -crucialmente - uma tal consideração não resume nem pode resumir a experiência intrínseca de um tal momento. Isso aponta para algo fora do escopo estreito da explanação empírica, caçando na dimensão ontológica na qual participamos: 'Há um bom negócio [uma boa diferença] entre ser corpo e ser belo' [I.6.1]

Isso é verdadeiro também quanto às explanações estéticas de uma obra de arte, por exemplo uma paráfrase de um poema. A crítica literária tem seu valor, mas não pode substituir a experiência intrínseca do poema em si. E os princípios técnicos sozinhos, aplicados em qualquer obra de arte (tal como simetria e proporções corretas) não produzem a beleza sublime, mas a coisa é bem o contrário: a soma é maior do que as partes [ou: o todo é maior do que a soma das partes]. A beleza não pode ser mecanicamente reproduzida por regras meramente seguidas de fórmulas, na arte. Em outro lugar na Enéadas, Plotino escreve que 'a beleza é o que irradia mais simetria do que a própria simetria' [VI.7.22]

Algo outro toma lugar no rosto da beleza que transcende a matéria formada apresentada, algo que está além dela, para o que somos despertados. Esse é o ponto crucial do argumento de Plotino em seu tratado: nosso encontro com a beleza é algo muito além de qualquer explicação extrínseca e formal. A beleza nos impulsiona para algo inteiramente outro, transcendendo as partes constituintes da coisa bela que testemunhamos. O encontro com a beleza não é meramente estético, mas possui uma dimensão ética e ontológica maior. Este é o significado por trás da trindade platônica da Beleza, do Bem e da Verdade.

A beleza pode ser descoberta em toda a natureza - é um reflexo do Bem. O Bem produz a Mente Noética, e a Mente Noética por sua vez produz a Alma, que por sua vez molda a natureza: 'Assim, então, é como a coisa material se torna bela - comunicando no pensamento [noético] que flui do Divino'. [I.6.2]. Este fluxo [que flui] do Bem pode ser seguido até sua fonte, e a alma em si é capaz de reconhecer seu traço:

E a alma inclui uma faculdade particularmente reservada para a Beleza - uma incomparavelmente certa na apreciação de si, nunca em dúvida quando quer que qualquer coisa amável se apresente para julgamento. Ou talvez a alma em si atua imediatamente, afirmando o Belo onde quer que encontre algo que acorde com a Forma-ideal dentro de si...[I.6.3]

Isso é uma beleza que facilmente reconhecemos na natureza: o fulgor do nascer do sol, o rugido do oceano, o balançar dos narcisos amarelos na brisa, um panorama estelar no céu noturno: 'Assim longe das belezas do domínio dos sentidos, as imagens e cenas sombreadas, fugitivas, entraram na Matéria - para adornar, e para violentar, onde elas são vistas' [I.6.3].

Avistar a beleza dentro do mundo material é apenas o início da ascensão plotiniana. Plotino diz que há belezas 'anteriores' àquelas do mundo natural [I.6.4] - com as quais ele quer dizer não espaço-temporais, mas de prioridade ontológica:

À visão destas devemos subir, deixando o sentido no seu lugar inferior... tal visão é apenas para aqueles que veem com a visão da alma - e na visão eles se rejubilarão, e a admiração cairá sobre eles e um problema mais profundo que todo o resto poderá bulir, e agora estão se movendo no reino da Verdade. Este é o espírito que a Beleza deve sempre induzir, espanto e problema delicioso, saudade e amor e um tremor que é tudo deleite. [I.6.4]

Onde o olho corporal é despertado pela beleza do mundo natural, o 'olho' da alma é despertado pela beleza do 'Ser-Real' [I.6.5] - a ordem ontológica ou 'espiritual' do mundo da qual a natureza é apenas seu reflexo. Assim a beleza não é apenas encontrada no domínio da arte, no mundo natural, mas na vida virtuosa, no silêncio superior, na intuição noética ou no intelecto que busca sempre além rumo ao Uno, que está ainda além do Ser-Real. O primeiro passo na jornada ontológica em direção ao Uno é o encontro com a beleza, que está disponível a nós em qualquer lugar, se verdadeiramente observamos o mundo natural ao nosso redor.

Assim como a beleza molda o mundo material em coisas belas, a beleza molda a alma em virtudes belas - se permitimos. E então podemos subir mais alto. Mas a ascensão 'para cima' é, em algum sentido, um movimento 'para dentro':

Aquele que tem a força, deixe-o subir e se afastar para si mesmo, para além de tudo que é conhecido pelos olhos, indo para longe mesmo da beleza material que uma vez lhe trouxe prazer. Quando ele percebe aqueles moldes da graça que se mostram no corpo, deixe-o não perseguir: ele deve conhecê-las por cópias, vestígios, sombras, e se apressa rumo àquilo que elas expressam. [I.6.8]

A jornada não tem nada que ver com o mundo empírico: 'Isso não é uma jornada para os pés... você deve fechar seus olhos e clamar por outra visão que está para ser desperta dentro de você...' Aqui é absolutamente essencial entender que Plotino não está apontando para o que é popularmente conhecido como 'mundo sobrenatural' - o erro em tais noções é que as assunções empíricas são implicitamente distorcidas em tal pensamento: uma 'substância material' é meramente transposta a uma 'substância sobrenatural' que de outra forma opera sobre modos empíricos. Ao permitir que assunções baseadas no empírico sejam sobrepostas ao Ser-Real, o significado ontológico da visão de Plotino é inteiramente perdido. Do que Plotino está falando 'não é medido pelo espaço... mas é incomensurável' [I.6.9] - e não é mensurável em nenhum sentido natural ou sobrenatural. Isso é precisamente o mesmo tipo de obstáculo que Agostinho enfrentou: 'Meu coração estava procedendo através de imagens do mesmo tipo de formas através das quais meus olhos foram acostumados a proceder...'[Confissões, Livro VII]

Em caso de necessidade, Plotino recorre à linguagem mitopoética para expressar o que a linguagem humana é inteiramente incapaz de descrever: o mito de Narciso, a Odisseia de Homero, a alegoria da caverna de Platão, e as religiões-mistério dos tempos de Plotino. Essas imagens não deveriam ser tomadas literalmente, mas como interjeições poéticas que nos incitam em direção ao que não pode ser expresso, apenas experienciado. Ele busca, usando linguagem figurativa, apontar para uma integração da consciência que é fundamentalmente muito mais psico-ontológica do que sobrenatural. Somos tão facilmente condicionados por nosso quadro empírico da experiência que não facilmente reconhecemos como a permitimos da mesma forma qualquer coisa 'além' do mundo material em modos pseudo-materialistas. O que Plotino fala está muito além nas profundezas em relação ao 'sobrenaturalismo'. É nesse sentido que Plotino era único entre os neoplatônicos.

O reconhecimento inicial do 'Ser-Real' é como a já existente alegoria da caverna de Platão: o olho da 'alma' é inicialmente fraco, e então deve adaptar-se ao brilho da luz radiante que desce do Uno. Agora o trabalho da filosofia pode começar a sério, cultivando a si mesmo, permitindo que a beleza e a bondade de alguém brilhe. Em uma das mais memoráveis passagens de Plotino, ele compara a vida filosófica com a da escultura:

Retire-se [do mundo] para si mesmo e veja. E se você não se encontra belo ainda, atue como o criador de uma estátua que deve se tornar bela: ele corta um tanto aqui, alisa lá, torna essa linha mais leve, a outra mais pura, até que um rosto amável cresça do seu trabalho. Então faça você também: corte tudo que é excessivo, corrija o que está torto, traga luz a tudo que está escuro, labore para fazer um fulgor de beleza,, e nunca cesse de esculpir sua estátua, até que brilhe em você o esplendor divino de virtude, até que você deve ver a perfeita bondade certamente estabelecida no santuário imaculado. [I.6.9]

O impulso de Plotino em direção a essa visão finalmente culmina na união com o Uno, uma integração fundamental da consciência com o todo do Ser-Real, e 'nada agora que permanece pode destruir aquela unidade interior'. O vidente, a visão e o visto são unificados em um todo ontológico indivisível: 'você se torna cada visão'. Nesse ponto, a linguagem simplesmente falha (especialmente a gramática, que demarca as divisões de sujeitos, verbos e objetos): 'O olho nunca viu o sol a menos que ele tenha se tornado solar, e nunca pode a alma ter a visão da Primeira Beleza a menos que ela tenha se tornado bela' [I.6.9].

Encontramos ecos do 'olho poderoso' de Plotino além do tempo de sua própria vida, nos sermões de Mestre Eckhart: 'O olho através do qual eu vejo Deus é o mesmo olho através do qual Deus me vê...' - e também em Emerson quando ele escreve na Natureza, 'Eu fui transformado em um globo ocular transparente; sou nada; vejo tudo; a atualidade do Ser Universal circula em torno de mim; sou parte ou partícula de Deus... sou o amante da incontida e imortal beleza'.

via Plotinianlight, tradução de Álvaro Hauschild

domingo, 13 de dezembro de 2015

A Montanha Simbólica

Por Martínez de Pisón*


Resumo
A montanha contém valores de notável profundidade cultural em seus significados. Estão propostos como exemplos expressivos: 1º, o caráter analógico de determinados conteúdos da própria montanha e da aproximação ao seu sítio e à sua altitude; 2º, o sentido metafórico do vulcão na grande literatura europeia; 3º, o marcado símbolo espiritual da ascensão em nossa literatura; e 4º, a intensa interpretação religiosa de algumas montanhas da Ásia. Cabe, pois, ao interesse geográfico fixar-se e aprofundar-se em tais conteúdos, ainda que não estejam formalizados em seu restrito território como componentes do sentido das paisagens. Portanto, se o pensamento geográfico estabeleceu como limite de seu interesse específico um ponto prévio a esses conteúdos, o que ficaria amputado é o próprio conceito de paisagem.

  1. A montanha análoga
Há valores visíveis; explícitos nas paisagens, que convivem com outros ocultos, invisíveis, frequentemente tanto ou mais significativos. Estes requerem perscrutar aquilo que não está à vista. A condição oculta da paisagem é uma referência necessária de valor e determinadas paisagens ficam ás vezes estreitamente enlaçadas a essa carga simbólica. Assim, no valor oculto da ascensão reside o símbolo espiritual de seu itinerário e do encontro com o alto. O olhar se lança desde uma perspectiva que por acaso pode encontrar-se melhor nas bibliotecas e nos museus do que no próprio terreno. Há novelas que exploram esse mundo simbólico expressamente, como A montanha análoga, de Daumal, uma alegoria do diálogo interior com a natureza, cuja realidade é melhor que a fantasia, O Odor da Altitude, de Jouty, que remete inclusive ao inalcançável e inexpressável, mesclando a ascensão real e a espiritual pela paisagem própria do estranho, aonde a valia moral conta mais que a capacidade física, porque o cume verdadeiro não se corresponde com o cume material. Significam não só enlaces com aspectos sublimes da realidade senão mais concretamente com a cultura, ou com alguns de seus componentes específicos: por exemplo, o inexpressável da montanha envolve com Senancour, ou a mística da ascensão com suas metáforas poéticas. E assim sucessivamente. Estão sendo invocados aqui, com clareza para quem transite por esses mundos, ainda que sem dizê-lo, órbitas próprias das letras e das artes.

Porém, a ascensão da montanha real é sempre o percurso de uma paisagem, o percurso apropriado ao declive e à rugosidade naturais, no qual é preciso um trato direto com a paisagem, que opõem sua resistência e oferece suas possibilidades. Em todo o processo de ascensão se sopesam as forças e habilidades do ascensionista com as forças estáticas e dinâmicas da montanha.

Ao mesmo tempo, não é menos verdadeiro que há, ademais, uma constante experiência espiritual que pode tomar uma expressão religiosa, inclusive mística, presentes na literatura alpina de modo abundante. Mas a relação entre montanha e religião é ampla, mais ampla que o alpinismo, e tem suas raízes no mais antigo e profundo de nossa cultura. O Himalaya é chamado por isso a morada dos deuses. O Monte Kailash, no Transimalaia tibetano, tem um caráter religioso em si mesmo e como objeto de peregrinação esse caráter é ainda mais intenso e vigente, estendido a budistas, hinduístas e bon. O forte simbolismo destas montanhas e de seus chorten ou stupas, principalmente no budismo tântrico, adquire uma dualidade significativa da montanha como templo e do templo como montanha. A forma do chorten, além de seu sentido geral como túmulo e ponto de devoção, tem significados cósmicos estratificados da terra ao céu, de modo que sua base corresponde à terra e se refere a um tipo de saber, o da identidade, seu domo central é símbolo da água e do saber ver, seu mastro faz referência ao fogo e ao saber discriminar, sua culminação significa o ar e o saber dos atos, e finalmente os símbolos solar e lunar que o completam evocam o éter e a sabedoria da lei. O chorten é, pois, também um símbolo do eixo ancorado no solo, e que se lança ao céu. O nosso Teide foi considerado pelos clássicos como “trono dos deuses” e talvez como eixo do mundo entre os aborígenes. E sem falar do alcance cultural tão intenso dos signos mitológicos do Olimpo ou do Parnaso. A outra grande raiz da relação montanha e religião em nossa cultura procede dos conhecidos acontecimentos bíblicos do Monte Sinai. O Símbolo religioso da ascensão é, portanto, explícito, e prosseguiu em diversas propostas ascéticas ou místicas. A subida é então exposta como um método religioso e uma das maneiras de realizar a viajem da prova que leva à iluminação ou à revelação, que não são o mesmo. O ermitão significa genericamente o desejo de retirada, de afastamento na natureza e de adentrar-se na montanha, porque esta proporciona amplamente ambos requisitos: natureza e solidão. Desprovida destas a montanha deixa de ser, portanto, desde um ponto de vista simbólico e não só naturalista, um bem maior.

As raízes universais das relações entre altitude, montanha, ascensão e experiência religiosa possuem muitas de suas chaves catalogadas. Algumas, por Samivel, com a capacidade de sugestão tão característica desse escritor da montanha alpina, e com as numerosas referências eruditas que ele era capaz de aportar, nesse caso sobre as múltiplas modalidades que adotam as concepções religiosas da montanha na história e na geografia. Ao abordar o simbolismo da altitude demonstrava Samivel a associação primária entre o baixo -com menos- e o alto -com mais-. A altitude e a verticalidade, escrevia, são geralmente qualificadas positivamente, de tal modo que à altitude correspondem conceitos de transcendência e à ascensão, de progresso e crescimento. No alto se encerram signos do que é bom e leve, do que vence o peso, do celeste; o espiritual ascende; em contrapartida, a matéria pesa e a vida precisa lutar contra o peso. A elevação é, portanto, uma qualidade e o cume é o seu êxito, a vitória sobre os obstáculos materiais mediante um esforço, sua recompensa moral. Tudo isso sacraliza a montanha e a sua ascensão. É o esforço que consegue a entrada em um domínio alheio e aberto entre linhas aéreas -sugestão do infinito-, em espaços grandes, no distanciamento progressivo do basal e de seus labirintos. De modo que a dualidade baixo-alto se polariza em dois ambientes contrapostos, o alto como cenário de natureza, solidão e individualização; e o baixo como mecanizado, massificado e gregário. Tudo isso são modelos culturais. Mas o baixo também é o terreno, o mundano, o subterrâneo, inclusive o infernal e, em contrapartida, o alto é o celeste e o divino. Sem distanciar-nos, vemos o mesmo em culturas populares, em misteriosos ambientes exóticos, em difíceis poetas místicos ou no próprio Dante.

Ademais, está claro que há um sentido moderno da ascensão, impregnado de valores científicos, artísticos e exploratórios, que banham culturalmente e ideologicamente o ato de ascender à montanha. Na Espanha é o que aconteceu, em sua melhor versão, sobretudo por influência da Instituición Libre de Enseñanza (“Instituição Livre de Ensino”) no excursionismo, com sua qualidade particular. A soma de ambos os modelos e sentidos constitui o produto cultural que o alpinista recebe e mantém. Não vamos mais nos estender sobre esse aspecto, que requer um tratado próprio. Portanto, agora vamos nos concentrar em três exemplos muito característicos do simbolismo herdado e às vezes esquecido. Não são os únicos, mas são suficientemente expressivos para revelar a existência e a importância do lado imaginário de toda a montanha e, por derivação, irão auxiliar-nos na busca de outros aspectos simbólicos que pesam na cultura. Trata-se, portanto, de um percurso fugaz pela outra vertente da geografia dos objetos, que suponho também ser geografia, como transitar pelo lado oculto da lua, naturalmente, considerando que ela seja redonda e não plana.
  1. Primeiro exemplo: a erupção como metáfora.
Vamos começar com a raiz, com a origem simbólica da montanha no antro do fogo e do cataclisma. Não é exato, evidentemente, só é parcialmente verdade, mas assim tem sido prazeroso a mais de um poeta. Um caso é o de Gabriel e Galán, quem em Gredos escrevia: “Te engendrou trepidante o terremoto / [...] a terra te pariu de suas entranhas, / rugindo de dor em seu seio rompido. / [...] E transpiraste em teu alentar imenso / espirais soberbas / que cegaram o éter de fumo denso. / e tua louca infância, brava e ardente / envolveu-se em fraldas / que eram manto de lava incandescente...”. Não explicaria dessa forma a origem de Gredos, evidentemente, mas a licença poética nos serve perfeitamente para entrar no tema.

Nossa cultura nasceu junto ao vulcão. Os grandes mitos clássicos se associaram em casos como esse, com naturalidade no geográfico e com lógica no dinâmico, às formas vulcânicas e às destruições próprias das erupções. É o que se conhecia empiricamente nas forças terrestres presentes no mundo mediterrâneo e é o que transmitiram os escritores a seus contemporâneos e aos tempos posteriores. Logo se transportaram também no espaço ao aplicar-se por distintos descobridores em parte ao atlântico e ao continente americano. Vieira e Clavijo propôs, a modo de exemplo, “se as Ilhas Canárias foram parte da Atlântida de Platão”. A marca da cultura mediterrânea estendendo-se pelo Globo também estava composta por suas antigas considerações míticas e naturalistas, logicamente.

As referências a vulcões na mitologia clássica são, como se sabe, abundantes: nada mais explícito que Efestos ou Vulcano, deus do fogo profundo, como principio tanto criador como destruidor. A ativa proximidade do Etna, do Vesúvio, de Vulcano, entre outros vulcões, fará habitual sua presença na literatura, por exemplo, em Homero, Hesíodo, Lucrécio, Virgílio, e algumas de suas ideias iriam persistir até o Renascimento como explicação dos fenômenos telúricos, como no caso dos breves, porém insistentes, discursos expressados por Aristóteles com respeito aos terremotos e vulcões. As fúrias atribuídas aos Titãs no antro desde o século VIII antes de Cristo, o alento do Titã enterrado no submundo das sombras, nas profundas câmaras de castigo, serão as forças do Etna, vinculando contendas próprias dos homens, agigantadas, aos deuses e às forças naturais. E, ao ar livre, outro gigante elevado até que sua cabeça desapareça na altitude, o Atlante castigado, também haverá de suportar o céu sobre seus ombros. É, em suma, a figura do vulcão completo, com as raízes no inferno e sua cúspide celeste. O eixo, a coluna inquieta e viva do universo. A erupção, a força convulsa de sua base, é uma titanomaquia. De modo que, nesse drama –pois a terra é entendida dramaticamente-, a cratera central do Etna foi algo mais que o abismo em direção ao interior da Terra, o que já é inquietante: foi a órbita esvaziada do olho do ciclope. A via vertical, profunda, até a residência das fráguas nas cavernas, aonde se escutam as marteladas dos ciclopes. Deste modo, em nossa raiz a paisagem era pura força. Perto estava, não esqueçamos, do Vesúvio ameaçante, a paisagem imediata era o perigo. Podem ler Plínio o Jovem se acreditam que exagero.

Porém, como sabemos, há duas tradições culturais nossas acerca dos vulcões: aparte da cultura clássica está a bíblica, também alegórica, que se soma às anteriores raízes com sua própria intenção e seu âmbito, como chave de conhecimento, símbolo ou parábola bem influentes e que inclusive se estenderam por muito tempo na cultura popular (não agora, pois duvido que alguma dessas duas raízes possua um grande número de adeptos nesse momento). Tais lugares, clássicos e bíblicos, passaram a ser chaves, modelos de referência na linguagem cultural e ritos de viagem. Tal modelo cultural, como antes apontei, será levado com os europeus até a América, à Filipinas e aos arquipélagos, de modo que sua extensão não chegou a ser universal mas quase conseguiu. Ainda que não só em nosso continente e em suas prolongações culturais, mas em todas as partes, os vulcões foram interpretados a partir de conteúdos religiosos, e só é preciso dar uma volta pelo mundo habitado para acumular notas sobre essas atribuições, aqui nos bastará recordar agora dois cenários.

De um lado, em outras ocasiões destaquei como a Teofania da revelação a Moisés no Sinai parece descrever uma erupção: suas trovoadas, o estrondo, a nuvem densa que cobria o monte, o fogo ardente que abrasava o cume, “fumegando por haver descendido a ele o Senhor em meio às chamas”, o fumo que subia como se fosse de um forno. A imagem do vulcão em atividade. No momento culminante da revelação, portanto, o cenário reclama a força telúrica e o aparato do vulcão. E, por outro lado, na destruição de Sodoma não faltam tampouco ressonâncias aos efeitos destrutivos de algumas erupções. Além disso, as erupções serviram repetidamente, primeiro, para insistir no mesmo ensinamento: a interpretação do desastre natural como castigo divino aos pecadores. E, segundo, para evocar o inferno, cuja imagem se concretiza nas crateras incandescentes, nos piroclastos e na lava ígnea. Um autor espanhol piedoso muito conhecido chegou a pensar no final do século XVI se aquilo que se via em certas crateras ativas da América poderia ser realmente o fogo do inferno, e não lhe faltaram partidários. Para outros, de espírito mais prático, a dúvida residia em descobrir se tal magma era ou não ouro derretido. Como é compreensível, esse aspecto atraiu um número maior de pessoas dispostas a obter amostras e analisá-las. É evidente que ninguém pode comprovar com certeza suas respectivas hipóteses.

Mas sigamos até o âmago. Quando Dante ascende em sua viagem literária à montanha dos antípodas figurada como o Purgatório, diz que se trata do “monte que ao céu mais se eleva em meio às águas”. Na viagem ao Inferno, Ulisses havia contado que em sua navegação atlântica avistou tal montanha: “uma montanha obscura pela distância e tão alta como nunca havia visto outra”. A importância do clássico Atlas parece evidente, e a companhia de Virgílio se enlaça com a raiz cultural, mas a montanha é sobretudo uma referência com conteúdo ascético cristão e a moral localizada na sombra de uma referência imprecisa na época de uma alta montanha erguida sobre o oceano. E como sua culminação leva ao possível acesso ao Paraíso, tudo se reúne, a raiz profunda cuja entrada é uma caverna que acessa os andares do Inferno até o centro da Terra, enquanto a montanha imprecisa de maneira oposta leva até às nuvens e ao céu na altitude. Essa geografia sem fundamento orográfico, baseada nas máximas clássica e religiosa de interpretação simbólica da montanha é, no entanto, um fundamento clássico de nossa cultura. Como essa montanha imaginária elevada no Atlântico tem todas as probabilidades de estar baseada em uma imagem geográfica um tanto apagada do Teide, própria do século em que foi escrito o poema, podemos nos permitir aceitá-la seguramente entre os vulcões e suas metáforas.

Mais tarde há outras traduções literárias deste tipo e há uma que possui suficiente envergadura para que ao menos possamos mencioná-la brevemente nesse texto. Trata-se da aparição de imagens vulcânicas no Fausto de Goethe, em oposição alegórica com as paisagens alpinas. Os Alpes alegres mostram o pulso da vida como um ensinamento, enquanto o antro infernal, do fogo eterno com o “acre denso do enxofre”, provém da demolição, dos escombros da montanha, de modo que aqui, mais uma vez, mas a seu próprio modo, o vulcão desolado é novamente metáfora do Diabo, mas nesse caso porque nada conhece da maneira esperançosa de ver o mundo. Século após século, a montanha volta a ser, de uma maneira ou outra, repetidamente tanto rocha como metáfora.

Não deixa de ser agradável e instrutivo passear pelas geografias de Homero, de Dante ou de Goethe. Deveria o geógrafo abster-se disso?
  1. Segundo exemplo: a metáfora espiritual
Parece-nos conveniente dedicar aqui mais uma vez, de maneira breve, ao menos para quem não haja lido nossos velhos trabalhos, uma referência especial à imagem tradicional que possui em nossa literatura o símbolo da ascensão. Essas questões possuem, com efeito, sua medula literária fortemente arraigada em nossas letras, concretamente em São João da Cruz, e em seu centro a Subida do Monte Carmelo, obra escrita entre 1578 e 1582. A referência geográfica ao Monte Carmelo se remonta aos ermitões da época das Cruzadas, instalados no século XII na franja deste monte, situada em Haifa, próximo ao mar e que alcança os 600 m. de altitude. Logo, a visita ao Monte Carmelo foi sendo incluída de modo habitual no caminho dos peregrinos à Terra Santa, entre os lugares de Jerusalém, Nazaré e São João do Acre. Mas tudo isso não é mais que um ponto de arranque. Trata-se, mais uma vez, no que elegemos aqui, uma geografia simbólica, de grande entidade literária, que joga com seus elementos como se fosse uma base real, mas evidentemente com absoluto distanciamento de uma análise ou de um guia alpino.

A subida, o escrito do poeta, tem uma boa parte de seu sentido gravitando na montanha como metáfora espiritual. Esta obra contém um sistema de chaves expressado por todos os meios: desenho, comentários, poesia e prosa. A ascensão é utilizada como símbolo com intenção explicitamente ascética e mística, ainda que tais atributos acabem por impregnar a ascensão real com caracteres sublimados. São João fala da ascensão simbólica, e a ascensão real se contagia com tais símbolos.

O gráfico que acompanha o texto permite hoje, que se faça inclusive uma leitura montanhista dos valores espirituais da ascensão ou uma leitura religiosa de seus valores montanhistas ou uma leitura literária de seus valores poéticos. O croqui do santo está exposto como um esquema de ascensão moderno, com as vias de escalada em direção ao cume e seus comentários, como poderia ser um bosquejo alpinista. Além disso, o croqui foi desenhado pelo próprio escritor, inicialmente de modo esquemático, ainda que logo os carmelitas o tornaram mais elaborado nas edições sucessivas, com maior realismo, mas sem variar as bases topográficas fundamentais nem o percurso nem as intenções espirituais do santo poeta.

O desenho está composto sobre uma citação do Evangelho: “que restrita é a porta e quão estreita é a senda que conduz à vida eterna”. O croqui representa, por isso, o itinerário gráfico da ascensão, com suas chaves espirituais. Uma observação geográfica de seus componentes internos nos permite decompô-lo em andares sucessivos. De baixo para cima, eles são: Colinas basais, com caminhos e senda. Montanhas desnudas intermediárias. Montes com árvores espalhadas. Escarpa pronunciada e elevada. Colina superior com arbustos. Cume arredondado. Iniciemos a marcha: na base do monte há três caminhos possíveis, o do “espírito imperfeito”, o do “espírito errado” e o da “senda estreita da perfeição”, a via difícil, a escalada monte acima, fora dos caminhos trilhados. Cada qual tem seu guia de itinerário e possui seu valor e recomendação. Em suma, o caminho central é o correto, a chave do monte, mas tal caminho está justamente onde não há caminho, só a senda estreita. Despojado de superficialidades, consistirá no essencial. O piso intermediário alcançado tomando somente a direção correta é a montanha desnuda. Pela senda estreita se chega aonde não há nada. A via de escalada se adentra e atravessa o “monte-nada” e se dirige diretamente ao cume, e o desenho adverte “já por aqui não há caminho”. E acrescenta, “que para o justo não há”. A leitura espiritual é a da solidão interior. Mas a leitura da ascensão é a da rota diretamente pela montanha desnuda como quadro de realização pessoal, com suas exigências de negação, esforço, risco e renúncia. A isso se segue uma faixa superior de árvores com uma escarpa. As virtudes desta parte do percurso são, entre outras, fortaleza, prudência e temperança. As referências virtuosas se tornam abundantes e sem elas não haveria passagem em tal ponto. Desde o ponto de vista religioso são essas virtudes sustento e alcance. Desde o ponto de vista da escalada parecem objetivos, e também assistências e condições daquele que ascende em sua relação entre a fortaleza própria, a vinculação reta com sua equipe e a resistência do lugar. Ao término superior da escarpa fica a depuração espiritual transpassando o obstáculo. Como culminação, por cima da escarpa, estão finalmente uma colina superior e o cume. Na ampla colina elevada e suspendida “só mora a glória e honra de Deus”. É o fim buscado, a meta, a união com Deus, o estado de perfeição e, de certo modo, a recompensa moral do escalador. Isto é, se consegue um sentido espiritual explícito e máximo.

Essa leitura montanhista da “subida” de São João que acabamos de fazer contém um valor literário e teológico oculto, geralmente inconscientes, mas com frequência bastante latente nos valores habituais da ascensão do monte. Conhecê-lo, portanto, só esclarece acerca das qualidades escondidas em nossos atos, insólitos e rituais, e de nossas paisagens. E São João conclui: “dessa maneira, desnudo, encontra o espírito quietude e descanso... no centro de sua humildade”. Por isso escreveu: para evitar que as almas não entendam “por falta de guias idôneos e corretos, que as levem até o cume”. Deste modo manifesto, São João executa a primeira “guia” de ascensão a uma montanha em língua espanhola, guia sem dúvidas profundamente espiritual e simbólica, nem prática nem geográfica, mas cuja luz transcende no “como ir”, tanto a Deus no religioso, com voz direta, como à montanha no profano, como eco cultural. Ou a ambos simultaneamente.

Podemos nos permitir ler, então, só as guias de por onde ir e não de como ir? Os significados profundos das coisas nos escaparão ou não, mas depende do quão importante é isso para nós; tudo reside, portanto, na trama do enredo teórico do geógrafo, de maneira que só se crivem dados territoriais ou que sua ferramenta permita passar também os símbolos e conteúdos que constroem a profundidade das paisagens.
  1. Terceiro exemplo:
Quando se viaja e quando se lê aprende-se que, no âmbito em que temos discorrido, as montanhas sagradas se estendem pelo mundo inteiro. Tomavam ou tomam diversos modos religiosos, naturalmente, e por isso convém observar igualmente os cumes distantes, em outras cosmogonias tradicionais. Antes apareciam em quase todas as culturas e ainda seguem sendo invocadas e cultuadas em montanhas distantes e símbolos devotados a elas encontram-se inclusive nas que estão próximas. Na Ásia estão presentes frequentemente, mas são encontradas igualmente na África, na América, em ilhas distantes. São montanhas sagradas, algumas tão famosas como o Everest, o Kilimanjaro ou o Monte Fuji. Entretanto, montanhas europeias muito significativas, como o Aneto e o Cervino, que são estritamente sagradas, concluem com uma grande cruz superior cujo simbolismo é evidente. E há certas montanhas que adquirem caráter sagrado de modo especialmente intenso, como ocorre com o monte Kailas, no Tibet.

Porém, na ampla continuidade geográfica entre o Tibet e Qinghai, por cima dos altiplanos que vão do Himalaia ao Kunlun, se estendem as cordilheiras de outras montanhas que participam de similares modos de entendimento e de expressão religiosa, como nas digitações do Kunlun e os sistemas transversais de Hengduan. Entre elas há um translado de conceitos e rituais, ainda que invocados de maneira particular ou conformando representações de deidades específicas. O modelo é o Kailas, como pilar do mundo cujo topo sagrado é intocável, mas há muitas outras que constituem centros espirituais de similar intensidade. Entre elas, no espaço mencionado, devemos unir ao Kailas (6.714 m.), no Transimalaia, ao menos o Meili ou Kawakarpo (6.740 m.) e ao Gongga Shan (7.556 m.), ambas na cordilheira Hengduan, e ao Amne Machin (6.282 m.) no extremo oriental do Kunlun. Há mais pela região, porém, não tão intensamente consideradas, na atualidade, como montanhas sagradas e inclusive divinas. Ao possuir características simbólicas tão profundas, ao menos as mencionadas devem ter seu lugar neste escrito, ainda que de maneira concisa.

Tanto no Tibet como em Qinghai há uma profusão de templos, em geral templos budistas que se encontram ativos. Alguns, como o de Kumbum ou Taersi, é um monastério de lamas de grande entidade, indicador de sua potência real na sociedade local, de sua influência espiritual e de sua persistência apesar das inúmeras tempestades da história recente da China. No entanto, além destes centros monásticos, as próprias montanhas são núcleos de religiosidade, com suas duras peregrinações ao redor dos montes que atraem a numerosos fiéis. Nem todas essas marchas ou “koras” são de idêntica exigência física: algumas são tão pequenas que só supõem uma volta ao redor de um chorten; algumas são de distância média, por exemplo, ao redor do monastério de Kumbum; algumas são grandes, como ao redor de uma montanha, que pode ter grandes desníveis, alcançar altitudes elevadas e, como a do Amne Machin, prolongar-se por 180 km de percurso. De modo derivado, em função da carga espiritual da montanha podem aparecer também monastérios locais, altos, isolados, em um vale alto do maciço Meili, em uma elevada plataforma junto ao Gongga Shan ou ao pé do Amne Machin, que são os centros espirituais dessa montanha tutelar, desse deus protetor feito montanha.

Entretanto, essa inserção da montanha na paisagem geral não é tudo. Os tibetanos leem suas paisagens de amplos horizontes também com referências espirituais, e de fato estão repletos de lugares santos e simbólicos que ordenam os espaços com significados transcendentes. O território tibetano é entendido mediante constantes dualidades: o alto e o baixo, cume e vale, sombra e luz, casa e porto, e nele há uma série de símbolos espirituais que o enriquecem de ordem e de centros significativos. Esses centros ou lugares principais que concentram valores e a partir dos quais se dividem os demais, são frequentemente montanhas com características divinas. O Kailas inclusive ordena o mundo inteiro, reúne a geografia mítica da Ásia e agrupa os espíritos de meio continente. É um formidável relevo, um indivíduo geográfico sobressaliente, pilar do mundo, é fonte de águas que se dispersam por tal continente em todas as direções, é o centro de uma mandala expressiva da harmonia do cosmos, está composto por quatro faces invioláveis que guardam os espíritos do solo e que possuem portas imaginárias para o mundo subterrâneo aonde habitam forças complementárias, e seu vértice se prolonga no céu em uma pirâmide inversa, intangível morada dos deuses. Ademais, cada detalhe, cada recordação, cada caminho, cada pedra, cada contraforte possui um significado religioso próprio. Essas montanhas não são, portanto, simplesmente conglomerados amontoados e abertos pela erosão glacial pleistocena; essas montanhas condensam o espírito complexo da espiritualidade da Ásia.
As peregrinações que circundam ao redor das montanhas são realizadas por centenas, inclusive milhares de fiéis hoje em dia, que podem remontar a colinas situadas a mais de 5.000 m. de altitude. Normalmente são feitas a pé, às vezes a cavalo, em certas ocasiões com prosternações contínuas. Deixam oferendas, repetem mantras, dão voltas no moinho de orações, atiram ao ar estampas do cavalinho do vento ou sopro de vida à galope, estendem bandeiras com as cores do céu, das nuvens, do sol, da água e da terra, impressas com preces e imagens de cavalos, que são agitadas pelos ventos da colina, rodeiam no sentido da esquerda os túmulos de pedra, que possuem o gravado: “Om Mani Padme Hum”.

Além da kora do Kailas, as mais renomadas são as do Kawakarpo e do Amne Machin. Kawakarpo é em realidade um deus benevolente, porém zeloso de seu retiro nas alturas e aqueles que o veneram não desejam que seus recintos, gelos e cumes sejam perturbados e nem profanados por estranhos. Ele é representado armado sobre um cavalo branco e é o dono do trovão. Igualmente, a divindade do Amne Machin é equestre, vigiando do alto com sua família divina, e protegendo aos pastores de yaks que vivem a seus pés. Conta-se que quem contemple o pico do Gongga Shan (só o podem ver os corações puros) ficará limpo de pecados e sua vida será então como um renascimento. Tais montanhas personificam, portanto, um “poder tutelar”, são a encarnação de uma divindade, de modo que cada uma é uma montanha-deus individualizada, ainda que todas possuam características similares.

Na origem desta doutrina está também a ideia tão comum da montanha cósmica, o eixo do mundo ou, ao menos, da região circundante. Sabemos que é próprio de diversas culturas o princípio do eixo do mundo aplicado a montanhas concretas, destacadas e inacessíveis, colunas do céu e centros de organização espiritual das coisas do território, mas a força que adquire esse conceito no Tibet é bastante especial. Este papel, similar ao do Kailas em escala regional, foi atribuído, por exemplo, ao Amne Machin pelos goloks que habitam seus flancos. Segundo as suas tradições, sua culminação tocaria a lua e o sol enquanto sua raiz se afundaria na profundidade subterrânea. É portanto, como a figura de um chorten gigantesco. Esse eixo, tão alto, iria cobrir-se de cristal que serviria de relicário gigantesco do deus denominado Machin Pomra, que estaria pelas cumes acompanhado por centenas de seus irmãos, concretizados fisicamente pelos cumes secundários repartidos profusamente por todas as suas arestas. É possível, portanto, fazer um mapa da família divina.

Logicamente, ideias tradicionais semelhantes de sacralização das montanhas se estendem pela cordilheira de Kunlun, aonde também reaparece outro eixo cósmico, dessa vez com sentido geográfico e fundo espiritual. No cume, já celeste, habitaria “O Uno”, imortal, ou em outras ocasiões, a deusa da imortalidade, ou ali se guardariam as espadas protetoras que vencem aos maus espíritos. O fato é que isso também é uma montanha paralela que eu vejo, e é a mesma que vê quem está ao meu lado. O que ocorre é que, se faço um esforço, eu posso também entender a sua montanha sem esquecer a minha.

Enfim, há nessas montanhas uma geografia religiosa muito intensa própria desses lugares, razão pela qual emigraram as ilusões, fazendo-se locais, mas não são diferentes das ilusões universais dos homens, decantadas em histórias, lugares e personagens individuais. A montanha dirige o espaço no interior dos homens. A paisagem é entendida então por suas histórias, por suas vontades, por suas respostas, em um tecido que se plasma em comportamentos. Ao protetor dos homens, ao deus-montanha, lhe corresponderá enfrentar ao tenebroso. A ti, o respeito. Tudo isso e muito mais ensinam as montanhas simbólicas, muito além de sua materialidade tangível.

Se trataria então de abarcar todos os conteúdos? Se uma parte dos homens, quando aceita valores espirituais na paisagem, vive mais perto dos que estão ocultos, mas se movem em ativos fios invisíveis, do que daqueles que poderiam decantar apreços culturais de outra ordem, aonde deveria se deter então o pensamento do geógrafo? Eu intentaria chegar até o fundo. Creio que, depois do que foi dito, me acompanham razões muito boas.
  1. Bibliografía

MARTÍNEZ DE PISÓN, E. (2000): El territorio del leopardo, Madrid, Desnivel.

MARTÍNEZ DE PISÓN, E. (2009): “Valores escondidos de los paisajes. Calidades ocultas de la ascensión a la montaña”, en MARTÍNEZ DE PISÓN, E. y ORTEGA CANTERO, N., eds. (2009): Los valores del paisaje. Madrid,
Universidad Autónoma de Madrid y Fundación Duques de Soria, pp. 9-44.

MARTÍNEZ DE PISÓN, E. y ÁLVARO LOMBA, S. (2002): El sentimiento de la montaña. Doscientos años de soledad, Madrid, Desnivel.

MARTÍNEZ DE PISÓN, E., ROMERO RUIZ, C. y FERNÁNDEZ PALOMEQUE, P. (2011): Volcanes de papel, La Laguna, Universidad de La Laguna.

MARTÍNEZ DE PISÓN, E., TOMÁS, R., ÁLVARO, S. y PALLÁS, J. (2012): Más allá del Everest: las montañas escondidas
de Asia, Madrid, Desnivel.

* Tradução de Maurício Oltramari

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

New Age: pseudo-espiritualidade e contra-tradição



por Esaúl R. Álvarez*


“What shall we use to fill the empty / Spaces where we used to talk? / How shall I fill the final places? / How shall I complete the wall?”. Pink Floyd, Empty spaces, do álbum The Wall (1979).

Tanto por parte da “elite cultural” de nossa sociedade como por parte dos meios que formam e dirigem a opinião do grande público, o fenômeno da new-age recebeu pouco ou nenhuma atenção. Desde sua pretendida superioridade intelectual se considera este um assunto de importância muito menor, algo pouco sério e próprio de frikis, carente de relevância social e pouco digno de tratar.

No entanto para qualquer observador atento a realidade do dia a dia contradiz este esquecimento voluntário, que como um véu de censura não reconhecido se impõem sobre o tema. O certo é que a new-age, sob a forma de uma pseudoespiritualidade vaga e confusa, está cada dia mais presente na vida cotidiana das pessoas e exerce sobre o imaginário do cidadão ocidental uma influência muito maior que todas as elucubrações teóricas provenientes de prestigiosos acadêmicos.

É evidente que boa parte deste “esquecimento” nasce da soberba intelectual com que o racionalismo exclusivista despreza tudo aquilo que não se inclui em seu âmbito. Esta pretendida superioridade que o cientificismo e o racionalismo mostram por qualquer exposição que transcenda seu reducionismo materialista impede abordar seriamente o estudo deste movimento em seu verdadeiro alcance social e analisá-lo como merece enquanto filho da pós-modernidade e fenômeno claramente antitradicional. 

Portanto, esse silêncio por parte dos meios considerados “sérios” não fazem outra coisa senão ocultar e mascarar uma realidade que está aí para qualquer um que consiga ver um pouco além da ficção elaborada por estes mesmos meios e que exerce uma influência social inegável.

Ao referir-nos à ocultação da new-age nos meios de opinião “sérios” que demonstram aquilo que deveria ser de interesse geral, nos encontramos em realidade diante da continuação da clássica divisão da existência moderna em uma “zona de luz”, dominada pela racionalidade exclusivista, e uma “zona de sombra”, na qual reinam o irracionalismo e a superstição e aonde não existe o mínimo rigor intelectual.

É preciso advertir que essa zona de sombra é consequência direta e inevitável do exclusivismo racionalista enquanto marginaliza regiões completas da existência humana por não considerá-las dignas de receberem atenção e serem estudadas quando vistas da centralidade do paradigma. Desse modo essa zona de sombra, que é como um negativo do iluminismo positivista e pragmático, fica abandonada nas mãos dos amigos do mistério e do oculto dando a oportunidade para que desenvolvam todo tipo de falsidades, pseudomitos e novas superstições. É nessa zona de sombra evidentemente aonde se desenvolve e habita a new-age, nutrindo-se de todos aqueles restos da experiência humana que a racionalidade hegemônica não assume, rechaça, despreza.

Não é casual, portanto que o auge do ocultismo, o espiritismo e demais correntes obscurantistas como magia, bruxaria, adivinhação, assim como a recuperação de tradições antigas já extintas -correntes e modas que estão todas na origem da moderna new age-, teve lugar precisamente o tempo que triunfava violentamente o iluminismo e a deusa razão na Europa, nem tampouco que se reivindicaram  naquele período como uma espécie de primitiva “contracultura”, que defendia um “espaço de liberdade” frente ao puritanismo da época. Tampouco surpreende que aquelas incipientes correntes ocultistas pretendessem acabar com o dogmatismo religioso da mesma forma que se continua hoje a reivindicação por parte de todas as correntes new-age: uma nova era de pluralidade e liberdade. A partir de demasiados estrados temos escutado a mesma promessa...

Certamente essas pseudodoutrinas são muito mais inimigas de uma espiritualidade verdadeira que do cientificismo ou o materialismo reducionista, tendências das quais em realidade a new-age está repleta. Ou seja, ainda que possa parecer chocante à primeira vista, o obscurantismo e a superstição avançam a partir do ateísmo filosófico e racionalista e do preconceito antirreligioso.

Nada disso ocorre por casualidade e o papel sociopolítico que a “zona de sombra” do paradigma racionalista exerceu na história do ocidente não pode ser menosprezado, apesar do silêncio por parte da “ortodoxia intelectual”. E é assim ainda que a face que nos mostra a new-age seja sempre mutável: desde os “espíritos” incorporados daquelas já distantes sessões mediúnicas do século XIX até os mais modernos extraterrestres.
Basicamente o papel exercido por esta zona de sombra foi duplo:
·       
 De um lado oferecer um âmbito de expressão -e portanto de distensão- para tudo aquilo que a racionalidade hegemônica negava ou ignorava.
·         
De outro lado, socavar a tradição autêntica e impedir qualquer aproximação séria ao tema. A new-age supõem a democratização da espiritualidade segundo o conhecido proceder moderno de mesocratização e de “igualar por baixo”.
*
Mas para ver a dimensão social que possui a new-age no mundo atual devemos analisar em primeiro lugar seu status de “conhecimento alternativo” com respeito ao paradigma epistemológico normativo imposto pelo núcleo iluminista e racionalista da modernidade.
Já explicamos em outro momento como uma série de ideologias novas se apropriou no começo do século XIX do paradigma moderno definindo a nova episteme cultural e apontando assim quais seriam a partir de então os conhecimentos aceitáveis - a “zona da luz”- e quais deviam ser considerados inaceitáveis e ficavam portanto excluídos. Por mais surpreendente que possa parecer é só à sombra dessa episteme materialista e positivista -e anti tradicional- que a new-age pode desenvolver-se, simplesmente porque aonde existe uma tradição espiritual forte e sã -que abarca de modo compreensivo toda realidade humana em sua diversidade e serve de marco geral a qualquer conhecimento particular a superstição que impõem a new-age não tem lugar [1].

Pode apreciar-se então de que modo a new-age encontra acomodação na “zona de sombra” da qual já falamos. Se as ideologias políticas modernas e as preocupações de índole econômica ocupam o polo racional e a “zona de luz” do paradigma moderno, tudo aquilo que se considera mais pessoal e interior, psicológico ou emocional, esse enorme “espaço vazio” que deixou atrás de si o trabalho de destruição da pós-modernidade, fica do lado da zona de sombra. Prova disso é que não se trata em público desses temas, eles ficam relegados ao âmbito do privado, como a religião mesmo, segundo o ponto de vista profano.

Por esta razão a new-age se encontra nessa zona muito próxima às “novas psicologias” e com muita frequência elas se influem mutuamente. Em realidade, devido à carência de princípios teóricos instáveis, nada diferencia uma da outras, se trata unicamente de uma questão de prestígio social [2].

Resumindo, a new-age se situa -junto a outras disciplinas de conhecimento- à sombra da razão exclusivista no intento de preencher todos os vazios -sociais e anímicos- que atormentam ao homem moderno e é a cara oculta do paradigma moderno, cara oculta que de maneira paradoxal apresenta-se como um conhecimento “alternativo” que pretende revolucionar o paradigma em si mesmo.

New-age e a pós–modernidade

Antes de tratar os aspectos interiores que caracterizam a new-age, e que a configuram como uma pseudoespiritualidade dirigida a suplantar a espiritualidade autêntica e impedir o acesso dos homens e mulheres dessa época à esta espiritualidade, vamos analisar o seu caráter de sintoma cultural da pós-modernidade, pois a new-age constitui um de seus frutos mais acabados e como tal, alimenta o processo de desestruturação social e individual –a nível psíquico- em que está imerso o mundo ocidental.

Talvez o traço que mais se destaca à nossa vista em todo este aparente caos que é a new-age seja seu pronunciado ecletismo: um verdadeiro conjunto desordenado aonde se mesclam crenças, ritos e superstições das mais diversas procedências dando lugar a uma estrutura de aparência informe e difícil de definir. Esta aparência caótica, aonde se juntam desordenadamente ideias de toda procedência deve considerar-se como um “sinal dos tempos” próprio da globalização e da pós-modernidade. Mais adiante veremos que esta característica emparenta a new-age com outros fenômenos culturais não menos característicos deste momento histórico, mas que aparentemente são independentes e distantes.

A respeito de seu caráter de mosaico cultural, resulta evidente que um movimento como é o da new-age, só pode ter lugar em uma sociedade na qual as próprias tradições foram devastadas e, se não desapareceram por completo, são na melhor das hipóteses rechaçadas em massa pelos membros de sua sociedade, tal como é o caso da sociedade atual. A new-age é dessa forma uma consequência direta e previsível da perda das tradições e da extrema dissolução social que a pós-modernidade acabou por conduzir.

De maneira evidente a pós-modernidade inoculou um profundo auto-ódio no mundo desenvolvido em relação à própria “herança cultural” e um sentimento de inferioridade que se expressa neste afã através do progresso. Tudo isso se apresenta de manifesto através do pronunciado rechaço pelo passado, pela história e inclusive pelas mais simples tradições e folclores, por parte dos mesmos cidadãos ocidentais, completamente esvaziados de toda identidade grupal ou sentimento de pertencimento a uma coletividade. Neste sentido, é inegável que um dos objetivos evidentes do projeto da modernidade é o de converter o homem em uma mônada, atomizá-lo, o que só pode ser conseguido amputando-lhe as raízes e doutrinando-o pelo individualismo e o egoísmo mais extremos, ou seja, privando-o definitivamente de sua história e seus antepassados [3].

É só através desse processo de “apagar” a identidade pessoal que é possível preencher o vazio de identidade com formas culturais pré-fabricadas pela “indústria cultural” global, que elabora um mosaico a base de peças alheias e exóticas. Esse processo de esvaziar o próprio e destruir toda herança cultural para preencher o vazio com tudo aquilo que seja estranho e distante é o que temos denominado em outras ocasiões “cultura do palimpsesto” [4].

Esse esvaziamento da identidade social que padeceu o Ocidente ao longo do último século teve por efeito desconstruir o cidadão ocidental enquanto sujeito social e político -como parte de uma coletividade- fato pelo qual o sujeito se vê impelido a buscar fora de sua sociedade a identidade e a comunidade que esta lhe nega. Tudo isso se conecta com a ilusão, tão extensa quanto falsa, de que é imprescindível a autoconstrução ativa de uma identidade “a bel-prazer” por parte do sujeito.

O ecletismo “multicultural” da new-age é igualmente inseparável de outros caracteres da pós-modernidade, como por exemplo, a inclinação, tão exagerada como superficial, do homem ocidental pelo exótico. Esse pronunciado gosto pelo estranho, distante e exótico que apresenta a sociedade ocidental –e que supõem toda uma rareza histórica- é resultado direto da demolição da própria cultura, acompanhando desse sentimento de desenraizamento e des-identificação com o próprio passado. Certamente, e tanto a nível individual quanto coletivo, quando ama-se o próprio dificilmente abre-se a porta para o alheio.

É assim que deve analisar-se o fenômeno, centrifugador e sintomático aonde se encontra, do turismo de massas e essa irrefreável necessidade do homem moderno por imiscuir-se nas demais vidas e culturas.

O fenômeno do turismo de massas é em sua dimensão psíquica bastante distinto das clássicas “férias” ou o “veraneio” de outrora e certamente ambos fenômenos designam o protótipo do homem de sua época. É preciso considerar em primeiro lugar que o verão -o período entre a colheita e a vindima para os povos europeus tradicionais- é o tempo do descanso por antonomásia. As “férias” eram um fato próprio do proletariado que aproveitava esse tempo para regressar a sua origem -a que de maneira comum se referia como o “povo”-, juntar-se com a família e sobretudo poder entregar-se a um ócio ou a uma moleza que o embrutecedor ritmo de trabalho fabril lhe impedia durante o resto do ano. Desse modo as “férias” eram entendidas sobretudo como uma liberação e uma desconexão do ritmo urbano da máquina, que permitia recarregar as energias.

No entanto, a natureza do atual turismo que alguns chamam cultural, mas que seria mais acertado qualificar de compulsivo, não é em absoluto uma fuga do stress urbanita ou do ritmo antinatural de trabalho que consome o tempo, como se pretende. E não o é porque o homem pós-moderno carrega a sua velocidade e o seu ritmo de máquina aonde quer que vá, de tão interiorizados que estão. Isso é uma mostra contundente do nível de centrifugação psíquica que padece o ocidental atual: o turismo compulsivo é uma atividade de índole profundamente rajásica e superficial, completamente exterior que se intenta justificar com os mais grosseiros argumentos como “viajar é aprender de outras culturas”, o que nos torna mais sábios e melhores... O mito da cultura como acumulação de experiências e informação.

Por outro lado a obsessão por ver e tocar de maneira efêmera uma realidade distante, que pouco nos incumbe e da qual nada entendemos -ao modo de quem visita um zoológico, mas de algum modo especular, pois quem está fora do lugar é o turista, o que converte o mundo em um grande parque temático- só se sustenta pela obsessão complementária de registrar todas essas experiências e vivências, pois sem essa perversão da memória aquela obsessão careceria de sentido.  Por isso não é de estranhar-se que frequentemente nossos contemporâneos regressem de suas compulsivas e centrifugadoras atividades turísticas ainda mais esgotados e estressados do que partiram. Tudo isso daria sem dúvidas para mais reflexões, começando pela simples constatação de que o homem moderno se aproxima do mundo já como um mero espectador e o vê como um espetáculo mais, sem participar dele.

Resumindo, a febre pela viagem que sacode o mundo ocidental, ainda que esteja muito adornada de multiculturalismo, cosmopolitismo e solidariedade com os povos “em desenvolvimento” -bonito eufemismo para dizer que estão à caminho de tornarem-se iguais a nós- não pode ocultar o auto-ódio, a decepção e a frustração frente à realidade social e cultural. É o modo mais acabado pelo qual o ocidental infecta o resto do planeta, aparentemente de forma pacífica, sem a violência das armas, mas com a violência do dinheiro e da soberba cultural. Estamos frente a um homem sem centro, um átomo sem rumo que se move segundo os ditados que lhe mostra o mercado e a imprensa dominical, as poderosas deidades que escrevem seu destino e dizem ao homem o que é digno desejar e consumir na nova ordem mundial.

Tanto a ânsia por buscar [5] -pouco importa se se trata de “novas experiências” de consciência ou novos lugares- como o interesse exclusivo pelo exterior e pelos fenômenos -que devem em todo caso ficar convenientemente registrados- denotam a origem comum que emparenta ambos fenômenos: a febre turística e a new-age.

Estamos, portanto diante de manifestações de uma mesma realidade, o desenraizamento e a centrifugação, tendências que não duvidamos em incluir como parte de um problema psicológico maior que aprisiona o homem moderno.

II
New-age e pseudo-espiritualidade

Até aqui temos visto de que modo a new-age está enraizada com as tendências mais dissolventes e próprias da pós-modernidade:
·      
  Aproximar o que é mais distante, ao que se outorga uma áurea especial como se fosse melhor por ser estranho e exótico.
·    
    Distanciar e desprezar o próprio, o qual se despreza em primeiro lugar por ser próprio.

De fato parece haver uma inclinação não somente para culturas e tradições distantes no espaço senão também e talvez especialmente aquelas distanciadas no tempo, o que leva a tentar reconstruir ou ressuscitar restos de tradições desaparecidas, com a conseguinte perversão das mesmas pois não podem ser compreendidas em absoluto a partir da perspectiva moderna. De outro lado enquanto se carece da necessária continuidade em sua transmissão pode dizer-se que qualquer trabalho que se faça com as mesmas está destinado ao fracasso e é em si mesmo contratradicional.

Os exemplos mais evidentes do que dizemos são os casos do Egito e a nova e surpreendente moda do neopaganismo. Ambas tendências possuem uma forte presença nos círculos new-age. No caso do Egito é particularmente significativo, pois parece recorrer todo o ocultismo e a “zona de sombra” a partir de sua própria origem, lá pelo século XVIII -o “século das luzes”...- até a atualidade. Egito e seus deuses parece que nunca passam de moda, e sua estatuária tem sido reivindicada tanto por tendências relativamente ingênuas que não passam do ridículo como por desvios ocultistas maléficos sob todos os aspectos.

A “revitalização” de entidades passadas não deixa de encarnar sérios perigos, pois todas as tradições advertem que os deuses passados e vencidos se convertem em demônios para as civilizações que os substituem. Isto, além de servir de reflexão para mais de um incauto, é suficientemente significativo acerca de que influências empurram e movem toda essa nova espiritualidade tão vaga como inquietante e que como dizíamos surgiu curiosamente nos tempos do mais radical iluminismo ilustrado.

A respeito da moda neopagã pouco se pode acrescentar mais que no melhor dos casos –se excluímos o caso das possíveis influências maléficas- não passa de ser, em razão da morte de dita tradição e a consequente perda de sua cadeia iniciática a mais de um milênio, não nos esqueçamos, uma mera farsa. Farsa que custa crer que alguém possa realmente tomar de maneira séria [6].

Ademais, de maneira muito frequente esses intentos de recuperação de tradições pretéritas escondem um pouco dissimulado anticristianismo e com ele uma vez mais o ódio ao passado.

À margem do caráter anticristão de muitos desses movimentos neopagãos não se pode negar a evidente contradição que encerra o fato de considerar o próprio passado do ocidente como indigno e obscuro, uma idade de trevas e horror, e ao mesmo tempo louvar e idolatrar as culturas mais estranhas e distantes, que o ocidental médio está muito distante de compreender convenientemente... Até esse extremo chega a falta de sentido da ideologia relativista, o multiculturalismo dissolvente e o auto-ódio ocidental.

A espiritualidade progressista

No entanto, de todas as confusões modernistas das quais se nutre a new-age, a que melhor define sua essência antitradicional é a penetração no discurso pretensamente espiritual da noção de progresso. Essas ideias progressistas dirigidas para a espiritualidade devem ser rechaçadas e desmanteladas em toda ocasião, pois frequentemente as encontramos intoxicando inclusive tradições verdadeiras. Para rebatê-las devemos nos fixar antes de tudo nos fundamentos sobre os quais se assenta toda tradição espiritual verdadeira. Como é conhecido, ainda que se esqueça com muita facilidade, a ciência moderna se ocupa do estudo do mundo manifestado, ou seja, do “domínio dos fenômenos”.

A metafísica, no entanto não se dirige e nem presta atenção aos fenômenos, pois se ocupou sempre e em todas as partes do estudo dos “princípios”, que são eternos, deixando aparte o estudo dos fenômenos e não confundindo nunca ambos marcos de realidade, como inclusive a filosofia antiga deixa claro.

Assim, em virtude de seu campo de estudo, ambas disciplinas -que podemos resumir como Physis, ou seja, da natureza, e metafísica- enxergam a realidade em direções diferentes para não dizer opostas, como os dois rostos do Deus Jano. Metaforicamente se diria que uma olha para cima e a outra para baixo. A metafísica, assim como todo conhecimento que ela elabora, direciona a sua vista ao eterno -representado tradicionalmente pelos Céus- enquanto que a física ao contrário -entendida no sentido que definimos- possui forçosamente a vista dirigida ao mundo material, isto é, o mundo da corrupção e da mudança.

De tal maneira que pode-se dizer que se a metafísica atende ao eterno e invariável, a ciência atende exclusivamente -e o matiz é importante- às mudanças e aos fenômenos, que estão sujeitos ao tempo, isto é, o reino da manifestação grosseira, pois trata de desentranhar as regras de funcionamento do mesmo. Isto a converte, a partir da perspectiva do homem tradicional, que nunca perde de vista a presença do eterno no mundo, em um conhecimento por si só muito inferior.

Em outras palavras a ciência estuda o exterior, aquilo que está sujeito à lei do tempo e da mudança. A metafísica atende ao interior, aquilo que apesar da sempre mutável manifestação interior, permanece não afetado e constante.

Então, a ideia de progresso só pode aplicar-se, como resulta evidente pelo que temos dito, ao nível dos fenômenos e nunca por definição ao nível do noúmeno, aonde não possui lugar e nem sentido. Sendo o noúmeno não afetado é impossível que exista “progresso” algum, não só ao que se conecta a Ele mesmo senão tampouco sequer desde sua perspectiva. Isto é, em relação com o noúmeno não se pode falar de progresso algum, menos ainda de “progresso espiritual” como pretendem os modernos da new-age, pois a partir da perspectiva do Único incondicionado, toda manifestação -apresente-se como se apresente- vale nada e a distância entre qualquer ente manifestado e o Uno não manifesto é sempre a mesma, todo o progresso que se queira não encurta em nada esta distância [7].

Em resumo, é preciso dizer que desde o ponto de vista da metafísica -o que equivale a dizer desde a perspectiva tradicional- a ideia de progresso é um simples absurdo lógico e ademais uma impossibilidade ontológica. O progresso só é concebível em termos de mudança e, portanto no nível exclusivo dos fenômenos grosseiros.

O resultado é que o progressismo e o evolucionismo são por si mesmos contrários a qualquer verdade metafísica, por isso não é possível de nenhum modo uma “espiritualidade progressista” nem tampouco uma “evolução” nem um “progresso” espiritual e o emprego destes termos põem em manifesto a ignorância absoluta de quem os emprega.

Em definitivo, progressismo e espiritualidade autêntica são conceitos incompatíveis e a aplicação de qualquer concepção progressista a uma doutrina espiritual é sempre uma perversão materialista e pura obsessão pela aparência e o mais exterior, isto é, todo o contrário a qualquer espiritualidade autêntica que põem a atenção na dimensão interior. Todo progressismo é uma negação implícita dos princípios espirituais e, portanto uma oposição flagrante a todo critério ou verdade tradicional. E assim deve ser denunciado qual       quer “progressismo” que trate de assentar-se no âmbito espiritual e de intoxicar seus ensinamentos com suas superstições particulares.
*
A conclusão de tudo o que temos dito até agora é que a colcha de retalhos da “nova espiritualidade” é por muitas razões uma forma cultural perfeita para o estado de coisas atual, a pseudoespiritualidade ideal para os tempos da confusão generalizada, em uma sociedade marcada pela decomposição de toda referência cultural, um mundo sem história aonde não há passado nem tradições e no qual este e aquele podem reinventar-se de novo a cada momento.

Frente à desolação espiritual e comunitária em que se encontra o Ocidente a new-age responde de forma grotesca a necessidades humanas básicas, sociais e espirituais, preenchendo o vazio deixado em seu caminho pela ditadura da racionalidade exclusivista e sua reduzida e esterilizante visão mecânica e “pragmática” da vida humana.

Isto situa a new-age em seu verdadeiro contexto histórico, pois vem a preencher -de forma certamente grotesca e ademais perigosa- o vazio deixado pelo desmembramento das tradições autênticas da sociedade. É a reação previsível ao desmantelamento de todos os mitos que alimentavam e mantinham viva a alma da sociedade ocidental: o homem da pós-modernidade, privado tanto a nível comunitário como a nível pessoal e emocional de uma “alma”, busca preencher essa carência entregando-se aos exotismos mais disparatados e participando de pseudotradições que nem compreendem nem lhe são de proveito algum.

III – Californismo e contraculturas
New-age” e contracultura.

Depois de tudo que foi dito até agora não pode estranhar que a new-age se difunda de forma especialmente exitosa precisamente entre aqueles setores sociais que apresentam um estado mais avançado de dissolução social e intelectual e que são em geral os que abraçam mais explicitamente os ideais de globalismo, o multiculturalismo e o rechaço de toda identidade, em definitivo os ideais mais próprios da pós-modernidade. E tais setores costumam ser precisamente aqueles que se apresentam como “progressistas”, “alternativos” e inclusive frequentemente como “antissistema”.

Não se trata de uma simples coincidência. Faz-se necessário advertir a “unidade de projeto” que subjaz sob a aparente diversidade de movimentos sociais e “modas culturais” que, ainda que se disfarcem de reivindicativos e “alternativos” -ou precisamente por isso- formam parte das forças do globalismo.

Não se deve esquecer sobretudo que no Ocidente a decomposição social e intelectual é muito mais avançada entre a juventude, esvaziada por completo de identidade e de tradições e doutrinada desde sua infância -por parte da educação obrigatória e os mass media- na “cultura do palimpsesto”, o rechaço por todo o passado -começando pela cultura de seus próprios pais- e a consideração de todo vestígio de identidade coletiva como o mais grave perigo para a “paz social”.

Em definitivo e como acontece frequentemente, são os setores sociais mais progressistas, aqueles que conformam a vanguarda cultural e a “contracultura” os que supõem a ponta de lança da pós-modernidade, também no que diz respeito a pseudoespiritualidade por mais paradoxal que possa parecer. Assim, mais do que perfilar-se uma “alternativa” à grotesca ordem cultural e espiritual atual tal e como dizem representar, o que supõem em realidade é um preocupante presságio do que está por vir.

É entre esses grupos “alternativos” que a new-age encontra o terreno abandonado para propagar suas fantasias sob a forma de pseudomitos e se estende sem oposição nem trava, a não ser um materialismo ou ateísmo radicais cada vez mais infrequentes e que ninguém mais realmente leva à sério, a exceção de algum grupúsculo marxista tão recalcitrante como irrelevante.

Por outro lado cabe destacar que os escassos grupos sociais que ainda podem ser qualificados de “resistência” ao “globalismo cultural” e à ditadura do politicamente correto -que costumam ser desqualificados como reacionários-, como, por exemplo, aqueles que mantém uma rede comunitária forte ou uma identidade religiosa/cultural firme -como podem ser os muçulmanos e algumas comunidades cristãs, em particular ali aonde são minorias- tendem a considerar como um patrimônio valioso suas raízes culturais e suas tradições, e por isso se encontram muito mais protegidos das influências dissolventes do globalismo e da new-age.

Nos encontramos portanto, diante de outro claro exemplo de “cultura underground” ou “contracultura” -nascida em setores marginais e “malditos”, de escassa cultura e nula intelectualidade- que foi elevada à categoria de “cultura dominante” e a fenômeno social de massas -o mainstream, no jargão pós-moderno-.
Este é o aparente paradoxo: na pós-modernidade a “contra cultura” constitui a “cultura do poder” e a ideologia mais estendida entre os submetidos. E ainda, além de tais movimentos pseudoculturais serem um signo do estado de decomposição da sociedade atual, cumprem um papel estratégico decisivo na tarefa de aculturação daqueles que a eles se submetem, rompendo qualquer resto identitário comum que possa servir de resistência à “nova ordem” global.

Cabe questionar assim mesmo de que maneira um “fenômeno de massas” que foi divulgado durante décadas a partir das mesmas estruturas de poder através do cinema, a televisão e a imprensa, pode ser considerado “alternativo” ou “contracultural”. Como certamente a inocência e a facilidade com que o cidadão corrente se deixa embaucar e manipular.

Há que começar a considerar o movimento new-age como uma “ideologia de poder” elaborada para entretenimento e doutrinamento das maiorias e dirigida sobretudo para aumentar a confusão mental dos sujeitos e impedir a dissidência de qualquer tipo pelo conhecido método de oferecer um meio de expressão adequadamente canalizado para o descontentamento daqueles que se dizem “críticos” ou “desconformes”. Uma vez mais comprovamos de que maneira a periferia social do paradigma -a classe média- é dirigida como um rebanho para “regiões” onde seu inconformismo e afã revolucionário fica reduzido a uma moda de consumo... Aqui todo protesto é mera aparência.

O exemplo paradigmático do que dizemos é sem sombra de dúvidas o conhecido fenômeno OVNI e seu corolário, o mito extraterrestre, uma farsa que terminou por contagiar, como se se tratasse de uma pandemia, a mente da maioria e nossos contemporâneos até conseguir converter-se em uma “verdade” inquestionável. Estamos sem dúvida diante de um dos “mitos” centrais de todo o movimento new-age. Esse exemplo nos dá uma ideia não só do nulo rigor intelectual em que se move a new-age senão sobretudo de sua periculosidade e sua maldade, ao servir como instrumento para inocular nas pessoas comuns ideias completamente desviadas e distanciadas da verdade.

Mas novamente, graças à ditadura do relativismo, aqui tudo vale e qualquer ideia pode ser defendida ainda que carecendo em absoluto de argumentos. Em todo caso, não se deve esquecer a ajuda decisiva que proporcionam para a propagação e implantação de semelhantes “ideias” as estruturas de propaganda e manipulação do poder.
*
O contexto cultural da “new-age”: o “californismo”.

Em relação ao pretendido caráter contracultural com que se reveste socialmente a new-age pode ser interessante adicionar algo mais. Resulta bastante chamativo que todos os atuais movimentos sociais alternativos -desde a luta pelos direitos dos animais até as modas mais estrafalárias, e em ocasiões diretamente perversas, que se possa imaginar- assim como também a maioria das “contraculturas” que apareceram durante a segunda metade do século XX -ou o que é o mesmo, desde o fim da segunda guerra mundial-, provenham todos de uma zona geográfica muito concreta: a costa oeste dos Estados Unidos e mais especificamente da região da Califórnia. Essa circunstância não passou despercebida para a cultura popular e originou a alcunha californismo para agrupar todas essas novas tendências e “culturas”.

A análise minuciosa da Califórnia como centro gerador e difusor de todos esses movimentos “contraculturais” -e de suas respectivas modas de consumo no mercado global-, ainda que pendente de realização, conduz inevitavelmente à identificação deste região como um autêntico centro “contratradicional”, e quiçá não seja exagerado dizer que se trate do principal centro de difusão da “contratradição” a nível mundial, nesses tempos finais.

Além de seu papel real como centro gerador e difusor de “contraculturas”, valores e formas de vida dissolventes e antitradicionais, a Califórnia possui um importante valor simbólico, geralmente ignorado, que é evidente, para cumprir esse papel.

Na realidade, atendendo ao simbolismo tradicional e aplicando as regras da Geografia Sagrada, se o Japão é “a terra do sol nascente”, a Califórnia não pode ser mais que “a terra do sol poente”. Califórnia é a terra última, o Finis Terrae de nossa civilização, e não só em sentido geográfico -o velho occidens latino, o horizonte final, a terra dos mortos e última fronteira de uma civilização- senão também em um sentido histórico, pois esta foi curiosamente a última terra conquistada pelos europeus, depois da grande dispersão europeia das eras mercantilista e industrial, da qual o episódio da conquista do Oeste Distante oferece um magnífico testemunho.

A conquista do Oeste Distante resulta ser desde essa perspectiva uma representação tão real como dramática dessa “cultura do palimpsesto” que citamos em algumas ocasiões, com sua promessa de “Novo Mundo” levantado, neste caso concreto, sobre o ermo deixado pelo genocídio dos indígenas. Em verdade aqui os europeus predicaram, como em nenhuma outra parte, com o exemplo se impondo mediante a estratégia colonial de “terra queimada” e suplantando tanto cultural como demograficamente aquilo que existia. Um exemplo radical de niilismo poucas vezes visto na história da humanidade.

A esses apontamentos de ordem simbólica ainda devemos acrescentar como dizíamos antes, o decisivo papel da Califórnia como centro difusor das contraculturas mais próprias do pensamento débil e a pós-modernidade, e em definitivo de todos os valores que podem qualificar-se de antitradicionais.

Neste influente papel de criador de gostos, modas e correntes sociais de todo o tipo, costuma destacar-se que está precisamente ali o maior núcleo econômico-industrial da forma espetacular por antonomásia, o cinema, do qual a Califórnia tem sido ao longo do século XX seu maior centro a nível mundial e segue sendo em boa medida, se não já em sentido quantitativo -dizem que foi superada por Bollywood-, é em nível qualitativo, dada sua influência ideológica e cultural sobre o imaginário coletivo ocidental.

Sempre foi reconhecido esse poder de influência, pois durante todo o século passado esta indústria foi empregada como um instrumento de propaganda a serviço do colonialismo cultural e comercial. Relembremos que a recriação espetacular da realidade é absolutamente imprescindível para a manutenção da atual “cultura da imagem”, na qual as ideias entram mais do que nunca pelos olhos [8] na hora de doutrinar e embaucar ao moderno homem espectador.

E um detalhe mais de índole simbólica: não parece casual a extravagante denominação “meca do cinema” que se deu a este lugar, uma determinação que é claramente uma blasfêmia e que, a tenor das influências psíquicas que ali são geradas, dali partem e se estendem sem freio, parece indicar um reconhecimento, sequer inconsciente, de que nos encontramos frente a um autêntico centro contrainiciático.
*
Como outro exemplo brilhante de “cultura do palimpsesto” e traço central do californismo encontramos o culto à juventude, ao corpo e à saúde. Tudo isso constitui uma prova mais da fixação no mais exterior. Cabe agregar que o corpo é o traço mais exterior da persona, portanto o mais sujeito a mudança, o mais impermanente. Apegar-se à impermanência, ademais de ser uma fonte segura de infelicidade, dor e frustração, é exatamente o ensinamento contrário ao que pôde transmitir qualquer tradição espiritual em qualquer tempo e lugar.

Vemos agora a relação invisível a primeira vista que existe entre essa fixação e o menos essencial e a “nova espiritualidade” que vê só os fenômenos em lugar do eterno.

Quase o mesmo poderia-se dizer da ideia de “saúde” que promove o californismo e que longe de buscar a simplicidade e o natural como anuncia, não é mais que um programa de reengenharia corporal com diferentes graus de violência sobre o corpo que começam pela escravidão da dieta, seguem pela academia e acabam na sala de cirurgia... Tudo  tremendamente artificioso e experimental. Nessa contracultura o corpo se converte em mais um espaço de aplicação da ditadura tecno-industrial, uma outra zona de domínio.

Quanto ao conteúdo de seu imaginário e seus valores o californismo tem chamado a atenção inclusive a nível popular por apresentar a vida humana como uma espécie de adolescência eterna, que nunca deve acabar e em que qualquer traço estável -que proporcione estabilidade ou raízes ao sujeito, como a família- deve ser rechaçado por ser uma atadura.

Essa característica é interessante simbolicamente, pois descreve em poucos traços ao “homem do fim dos tempos”, enquanto ser desarraigado, parado no tempo, sem passado, e por isso mesmo sem futuro. Esse homem sem passado nem futuro, sem raízes nem frutos, que é como a erva que cresce no telhado (Sal. 128:6), representa, como já temos apontado em alguma ocasião, a inversão exata do nômade das origens.

Por outro lado e fazendo uma breve revisão histórica, é especialmente relevante que tais movimentos “contraculturais”, começaram sua difusão massiva precisamente depois da Segunda Guerra Mundial. E novamente pode-se por como exemplo disto o já citado fenômeno OVNI que desempenhou um papel decisivo de doutrinamento de massas durante as décadas cinzentas da guerra fria.

O papel que exerceram certos movimentos sociais de protesto, como o movimento hippie ou a subcultura rock com todas as suas maldições calculadas, na difusão de todas essas pseudoculturas antitradicionais foi fundamental e é poucas vezes denunciado. A relação entre o “hippismo” dos anos 70 e as mais atuais modas naturista e vegana é certamente indiscutível,, mas também o é o vínculo que tiveram aquelas contraculturas com a espiritualidade “light”, o já citado neopaganismo, a magia e inclusive o satanismo. Os vínculos são certamente inegáveis.

E não se pode considerar superficialmente o fato de que todas essas ideologias antitradicionais e que conduzem à dissolução definitiva do “corpo social” tenham seu principal foco de geração e difusão na costa oeste dos Estados Unidos. A partir desse ponto de vista a Califórnia adquire umas conotações simbólicas, históricas e culturais verdadeiramente sinistras e dificilmente igualáveis por qualquer outra região desse planeta. Nisso podemos ver ademais o que realmente significa a consumação da promessa de uma terra nova para o paradigma da modernidade.

Portanto, apesar de sua enorme diversidade e sua aparência caótica, californismo e new-age são fenômenos inseparáveis, tanto em sua origem histórica e geográfica como nos princípios ideológicos que impõem um pouco em todas as partes, todos eles condutores à dissolução da identidade social e pessoal.
IV – A Grande Cerimônia da Confusão

Finalmente tentaremos esboçar algumas conclusões acerca das implicações profundas que supõem um fenômeno social tão extenso, e tão pouco definido, como este da nova espiritualidade “alternativa”. Para começar enumeraremos de forma muito breve as conclusões que chegamos até o momento.
  • Em primeiro lugar temos mostrado que a new-age se desenvolve na “zona de sombra” do paradigma materialista e racionalista em que nos encontramos e que não duvidamos em identificar com a própria modernidade. É por isso um movimento confuso e obscuro, de mensagens calculadamente ambíguas e inclusive contraditórias, que evita sempre ser estudado e categorizado. É parte de sua essência impedir ser adequadamente definido.
  • Em segundo lugar temos visto que esta pseudoespiritualidade, inteiramente exterior e superficial, possui inegáveis traços pós-modernos -o gosto pelo exótico, o igualitarismo democrático, a falta de rigor frente a unidade e coesão doutrinais de toda tradição autêntica, a liberdade pessoal e o juízo próprio como direitos irrenunciáveis, a negação de todo princípio de autoridade e portanto o rechaço de todo verdadeiro mestre, etc...- o que a converte não só em um acabado “signo dos tempos” presentes com uma enorme dívida com o ponto de vista protestante da espiritualidade -que teria diante de tudo um interesse sociológico-, senão também na “forma religiosa” -pseudoreligiosa em realidade pois é uma falsificação das formas religiosas verdadeiras- mais idônea para os tempos da pós-modernidade, tão democráticos e opostos a qualquer dogmatismo... E posto que essa pseudoreligião ocupa o espaço que nas sociedades tradicionais ocupava a religião, substituindo-a, a new-age se erige na “falsa doutrina” própria dos últimos tempos. Por isso não surpreende em absoluto que seus seguidores sejam partidários de maneira cada vez mais explícita de abolir as velhas religiões e substituí-las por uma nova “religião universal” -na qual supomos que cada um poderia praticar e participar à sua maneira em virtude do princípio de liberdade individual- que nos será “vendida” como mais um “progresso” sem dúvida, na atual espiral descendente que segue a civilização moderna...
  • Por último podemos advertir que, contrariamente ao que se pensa, essa “nova espiritualidade” não só debilita o combate ao paradigma civilizatório da modernidade senão que se nutre dele e ao mesmo tempo o fortalece. O fortalece em particular devido a seu caráter  “antitradicional”, perceptível sobretudo em sua intenção de falsificação e substituição das tradições autênticas, atacando-as a partir do exterior ou intoxicando-as a partir do interior sob o pretexto de re-inventá-las e modernizá-las. Portanto não é exagerado dizer que a “nova espiritualidade” é hoje o maior inimigo de toda verdadeira espiritualidade assim como de toda aquele que persiga sinceramente uma aproximação à Verdade última.

Nos encontramos portanto diante de uma influência maléfica de primeira ordem cujas sugestões estão desviando muitos do caminho autêntico.

Por isso, para quem possa pensar que nossos argumentos resultam um tanto exagerados  iremos em seguida recorrer ao simbolismo tradicional -universal e eterno- para comprovar sem sombra de dúvida o caráter maléfico e infernal de toda nova espiritualidade.

Começaremos indicando que o ecumenismo globalista e a definição ideológica e doutrinal que é própria a todas essas pseudoreligiões, características que propiciam que a new-age seja uma colcha de retalhos que abarca todo tipo de ideias, algumas delas contraditórias entre si, convertem essa massa supersticiosa em uma espécie de “Frankenstein cultural”, de aspecto certamente grotesco, que, como é bem conhecido é um signo diabólico per se.

Relembremos que frequentemente se representou ao diabo mediante uma imagem simiesca devido ao seu empenho em imitar e substituir o sagrado para confundir os homens. Por isso o diabo foi chamado em algumas ocasiões “o mico de Deus”. Porém,  como a teologia tradicional tem expressado frequentemente, o grotesco, a feiúra e o desequilíbrio são caracteres próprios do diabo, caracteres que lhe resulta impossível ocultar a pesar de todas as suas elaboradas artimanhas na hora de emular e suplantar a Tradição e a Verdade.

Assim, não podendo apresentar a harmonia e beleza da verdade por causa de seu desequilíbrio e maldade interiores, em seu afã de substituição o diabo não pode evitar delatar-se ao mostrar algo tosco e grotesco, ridículo, em sua imitação. Estas características devem ser sempre consideradas a modo de signo e que só os incautos podem passar por alto e tomar assim tal imitação simiesca por uma manifestação da Verdade mesma.

É assim, como um signo próprio da “contratradição” como devemos interpretar a desordem profundamente inscrita no “mercado espiritual” que é a new-age e de forma mais geral em todas as contraculturas que formam parte dessa tendência que temos denominado californismo.

Antes de continuar observemos por um momento a seguinte ilustração que mostra um detalhe gravado “O cavaleiro, a morte e o diabo” de Alberto Durero, uma de suas três “Estampas Mestres”.

Figura do diabo pertencente ao gravado “O cavaleiro, a morte e o diabo”, uma das três “Estampas Mestres” de Durero, realizada em 1514.

Como se pode apreciar o diabo do gravado é representado mediante uma figura disforme, carente de ordem e harmonia e portanto, de beleza, composto por uma mescla grotesca de características próprias de diferentes animais, isto é, mostra uma confusão de diversas naturezas. Nota-se a tradicional pata de cabra que assoma na parte inferior da ilustração, e que sempre tem sido considerada um dos traços mais distintivos do diabo.

A new-age guarda uma grande analogia com a figura diabólica anterior e pode-se dizer que é, em boa medida, sua expressão cultural. Ambos, à maneira daquele engendro humanoide da novela de Mary Shelley, estão compostos de restos de cadáveres -resíduos psíquicos das tradições desaparecidas que agora se pretende reviver e devolver à vida- e de retalhos pseudointelectuais de todo tipo: desde magia e espiritismo decimonônicos à teorias e hipóteses científicas modernas, tudo isso mesclado em uma inextricável confusão. É isso que esconde a colcha de retalhos pseudodoutrinal da new-age.

Ademais cabe destacar que, em tanto que é uma pseudodoutrina própria do fim dos tempos, a new-age cumpre seu papel de dar voz aos “mortos” -de um modo certamente perigoso- ao servir de vitrine para todo tipo de restos psíquicos de antigas tradições que tem permanecido de algum modo latentes. Os usos perversos de ferramentas e conhecimentos tradicionais como podem ser a astrologia ou o Tarô, assim como o emprego de outros métodos de invenção recente e ainda mais inquietantes e sinistros demonstram tudo isso. E é nesta confusão que a dissolução do mundo psíquico do homem atual se faz mais manifesta.

Já foi dito em algumas ocasiões que para que um projeto falso e maléfico -como o do diabo- possa estender-se e dominar aos homens é preciso que contenha alguns traços de verdade -que extrai das tradições verdadeiras- e colocá-los à serviço da mentira. Isso se deve não só à necessidade por parte do diabo de aperfeiçoar sua capacidade de engano mas a uma razão mais profunda, de caráter ontológico: a mentira não pode existir nem durar por si mesma de nenhum modo pois não possui ser próprio, existe e é animada enquanto reflexo, muito distorcido ou falso, da verdade, que desse modo forçosamente a antecede da dimensão ontológica. É assim como toda mentira é uma imitação e uma suplantação de uma verdade, e por isso em último termo da Verdade.

Imitação e suplantação que é também da Tradição, enquanto expressão no mundo desta Verdade não manifestada, com o objetivo de confundir aos homens e mulheres do fim dos tempos e impedir seu acesso à verdadeira senda espiritual, privando-lhes assim do conhecimento dessa Verdade última.

Portanto a pseudoespiritualidade está muito longe de ser um fenômenos inocente e sem consequências para aqueles que o seguem, tal e como nos pretende fazer crer a cultura do relativismo. Como vemos se trata de um fenômeno muito mais elaborado do que poderia parecer à simples vista e por isso mais perigoso que o simples e bruto materialismo positivista, tão próprio do paradigma moderno, que era uma negação grosseira, e no fundo emocional, de toda espiritualidade. Aqui estamos diante de outra coisa, diante de um grau mais acabado de deformação: uma versão infernal -inferior e invertida- da espiritualidade.

De fato, a ideologia racionalista, positivista e materialista poderia distanciar muitas pessoas da senda espiritual, mas a new-age lhes oferece algo pior: uma interpretação desviada -materialista e pseudopositivista- da espiritualidade e com ela uma senda equivocada na qual perder-se: que é muito mais elaborado e maligno que um materialismo ou um cientificismo puro e simples. Não devemos esquecer que a new-age, ao mesmo tempo que oferece seus próprios caminhos e ensinamentos de uma nova perspectiva, ataca e desprestigia as tradições autênticas a fim de destruí-las e pervertê-las.

E quiçá por isso mesmo não surpreenda tanto que, a pesar da beligerância com que o laicismo progressista e o racionalismo positivista atacam as tradições antigas, a new-age seja consentida e apresentada as vezes incluso como um “necessário retorno à espiritualidade” por parte da civilização ocidental.

Como percebemos há muito mais que uma simples falsidade, estamos diante de uma substituição da Tradição a fim de confundir e extraviar aos homens. Essa é a preocupante realidade que se oculta detrás dos aparentemente inocentes valores do ecumenismo e do multiculturalismo que nos são apresentados em cada nova reinvenção através da new-age e com o que tratam de seduzir-nos as diversas modas e contraculturas que adota o californismo, a imagem mais acabada da pós-modernidade. 
*
Notas:
[1] Como se pode ver a fragmentação do conhecimento -e da sociedade- propiciada pelo novo paradigma científico não é independente do giro antimetafísico.

[2] Há que notar que a psicologia moderna é uma (pseudo) ciência de toda forma liminar com relação ao paradigma moderno, por isso carece de um objeto de estudo, assim como de uma metodologia, claros e definidos. Isso é importante no momento de se adaptar às realidades sociais em constante câmbio, na sociedade pós-moderna, tendo em conta que a “ciência psicológica” é antes de tudo uma ferramenta de manipulação social. Em todo caso, pela razão já destacada de dirigir-se e tratar em parte a aspectos interiores –como emoções, medos e inseguranças, isto é, a “zona de sombra”- da experiência humana fica relegada à periferia do paradigma.

[3] Os antepassados, peça fundamental para a identidade dos povos tradicionais.

[4] Os defensores do globalismo o chamam de maneira eufemista “multiculturalismo”, quando em realidade o que há é um genocídio cultural, uma destruição sistemática de todas as culturas humanas, começando pela própria, para alcançar uma mescla informe que é de algum modo o reflexo análogo do caos primigênio em que estava sumida originalmente a manifestação universal. Não há tal convivência de culturas na desordem pós-moderna, mas sim uma substituição das culturas ancestrais pelos desvalores da dissolução.

[5] Frequentemente os sujeitos mais imbuídos da new-age usam esse termo de “busca” para suas experimentações arbitrárias e inclusive referem-se a si mesmos como buscadores. Delatam com isso a verdadeira natureza de seu “conhecimento”, pois só busca aquele que está perdido.

[6] Pensemos, por exemplo, nas celebrações cada ano mais populosas em certos monumentos megalíticos e todas as pseudocrenças e superstições que isto propicia nos seus arredores... Realmente uma nova pseudoreligião. Em todo caso imitar alegremente a uma casta sacerdotal como fizeram os druidas parece ser, ademais de muito significativo dos tempos em que vivemos, algo mais sério que uma simples pantomima. Mas precisamente o que caracteriza a idiotez moderna é que estas irreverências se abordam com total despreocupação...

[7] Em todas essas considerações seguimos a René Guénon.

[8] Não é descartável o advento de um novo modo de analfabetismo e idiotez devido a esta “deformação visual” do caráter do novo homem espectador cuja capacidade para adquirir ideias por outros meios, sobretudo os que afetam a faculdade racional, vai minguando paulatinamente. Quanto à isso a moderna “cultura visual” –da qual o cinema é o melhor expoente- é a inversão exata da linguagem simbólica das artes visuais tradicionais, mas este tema nos distanciaria do objetivo do presente artigo.

*Tradução: Maurício Oltramari via Paginatransversal