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segunda-feira, 28 de maio de 2018

Um Chamado ao Povo Brasileiro


O Portal Legionário está acompanhando o cenário de protestos por todo o país devido à greve dos caminhoneiros e reafirma, como já o fizera em nota no Facebook, que está de pleno acordo e está colaborando para que ela atinja seus objetivos.

Estamos cientes e comunicamos a falsidade de grande parte das informações promovidas pelo governo e pelas maiores mídias do país. Os protestos não estão diminuindo, a greve NÃO ACABOU. Muito pelo contrário, os caminhoneiros em todo o país estão mantendo as avenidas bloqueadas e, além disso, aumentando o contingente.

O exército e a Força Nacional ainda não decidiram sobre intervenção, e dificilmente poderão conter um país inteiro, mesmo que quisessem [1]. Quanto às polícias, elas declararam total apoio às manifestações, unindo-se à população [2].

O TRE de Pernambuco declarou paralisação, e a tendência é isto se disseminar em outros estados.

Para quarta-feira, dia 30/05/2018, está declarada a paralisação da Federação dos Petroleiros [3], que pedem a expulsão do diretor da Petrobras, Pedro Parente, e a força estatal para controlar os impulsos do mercado de controlar os preços conforme seus interesses. No Whatsapp o povo clama por uma greve geral, que pode vir a se avolumar juntamente com estes últimos.

O Portal Legionário espera que as paralisações estejam apenas começando, e clama a todos a se preparar para um cenário anárquico, caso isso tudo se estender. E isso é bom? Afirmamos que SIM. O que á anárquico sob um governo que não é outra coisa senão um posto avançado de potências internacionais e escravistas é, sob a nossa perspectiva, uma chance de tomarmos o controle de nosso país enquanto povo.

Mas devemos nos perguntar, enfim, como tomar este controle?

Muitos do povo clamam pela intervenção militar, mas nós do Portal Legionário afirmamos que isto seria uma medida benéfica ao próprio Temer, Pedro Parente e demais bandidos que estão no poder. As FFAA não têm um plano de governo soberano e jamais saberiam fazer outra coisa além de manter a "ordem", isto é, o caos controlado orquestrado pela CIA, NSA, OTAN, Israel na América Latina.

O objetivo das manifestações deve ser a convocação geral para uma marcha em direção à Brasília e a posse popular dos prédios e do poder. O objetivo deve ser a expulsão da atual gestão e uma imediata guinada nacionalista nas escolhas econômicas e políticas, externas e internas, rumo a um projeto de nacional-desenvolvimentismo soberano, que desenvolva uma indústria nacional independente do FMI e do mercado financeiro, robusto, poderoso. Exatamente o oposto do que a atual gestão está fazendo, primando pelo sucateamento dos serviços, o corte dos gastos públicos, em benefício de algumas famílias milionárias, bilionárias e trilionárias, que lucram com o alto preço e os subsídios estatais, como lucrariam também com esse imundo acordo proposto pelo governo com os caminhoneiros[4].

Clamamos a todo o povo, de todas as classes, a se unir às manifestações. Aqueles que se colocarem contra as manifestações só porque alguns que participam estão pedindo intervenção militar, ao invés de participar e colaborar para o conhecimento popular, devem ser tratados como traidores da pátria.

Esses protestos não devem ser mais em vista de interesses particulares de tal ou qual classe. É uma missão que o povo brasileiro deve tomar para si de fazer o necessário para retomar tudo o que dele foi tirado ao longo dos anos.

Escolhemos a imagem do Mad Max porque é este o cenário que deve nos chegar. Chega de levar nas costas, povo brasileiro, precisamos mostrar para o mundo que estamos prontos para ir ao inferno e resgatar de lá nossa dignidade raptada! Mostraremos que, embora as ameaças contra nós sejam grandes, somos capazes de ir ainda mais longe, de mergulhar águas ainda mais escuras, lá onde o inimigo será incapaz de nos vencer.

Viva Brizola, e vamos para a guerra, povo!
Salve o Brasil!

[1] General diz que efetivo da Força Nacional é insuficiente. http://www.gazetadopovo.com.br/politica/republica/general-diz-que-efetivo-da-forca-nacional-e-pequeno-para-atuar-nas-liberacoes-das-rodovias-9hfq59fzshwljqeyguk2sq1ch
Notícias veiculam a fragilidade do Exército e das polícias com relação aos combustíveis.

[2] Polícia Rodoviária Federal se une aos caminhoneiros http://arede.info/cotidiano/215098/sindicato-da-prf-manifesta-apoio-a-caminhoneiros

[3] https://www.diariodobrasil.org/petroleiros-anunciam-paralisacao-nacional-a-partir-de-quarta-feira-agora-e-pelo-povo/

[4] O governo cortaria 3,8 biliões de gastos para custear o valor alto que o mercado está cobrando na importação. Cortará onde, se não for DE NOVO na educação, na saúde, etc.? NÃO TERÍAMOS ISTO CASO O PRÉ-SAL NÃO TIVESSE SIDO SUCATEADO E OS SERVIÇOS PRIVATIZADOS. https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2018/05/28/diesel-mais-barato-vai-exigir-corte-de-r-38-bi-do-orcamento-diz-ministro.htm

domingo, 22 de abril de 2018

Eleições 2018 e a Questão Brasil


Leonel Brizola durante a Campanha da Legalidade, com fuzil na mão
Por Álvaro Hauschild

O Brasil passa, atualmente, por uma crise de natureza que supera todas as questões corriqueiras, como a economia, a estrutura sócio-política, a moral, etc. Todas estas questões, cada vez mais específicas e individualizadas, separadas de todo o resto nos debates e nas intenções de intelectuais, políticos e do próprio povo, são, na verdade, manifestações de um mal maior, portanto devem ser estudadas como elementos interligados e subjacentes a princípios transcendentes.

A crise do Brasil é uma crise espiritual, que vem crescendo ao longo da história, 1) em primeiro lugar por culpa da inação do povo e das autoridades diante das rédeas do país. O Brasil nunca teve um projeto para robustecer por si mesmo e tomar seu espaço na conjuntura internacional e para inspirar as massas enraizadas em uma identidade própria. Houve na história, no melhor dos seus momentos, um Getúlio Vargas, que, contudo, não foi capaz de compreender o Brasil no seu todo nem erigir um projeto nacional-desenvolvimentista suficientemente soberano, para sanar as contraditoriedades internas e sua posição no cenário internacional. Ao mesmo tempo, o povo brasileiro, que, por lógica, deveria ter ativamente participado para resolver seus problemas diante da fraqueza das autoridades, permaneceu entregue à passividade cultural e aos prazeres do consumismo fácil, do oportunismo e da selvageria anti-patriótica. E, 2) em segundo lugar, a crise espiritual do país vem recebendo intensiva influência de fatores externos, cujo objetivo é destruir toda possibilidade de união e cura dos seus problemas internos, que redundaria, certamente, no surgimento de um poderoso adversário internacional e, ao mesmo tempo, de um país-continente capaz de proteger os recursos naturais e étnicos, não apenas do seu país, mas também de seus vizinhos parceiros.

Visto isto, se os brasileiros, que compõem as vítimas de uma crise tanto interna quanto externa, quiserem resolver suas próprias vidas, sanar suas angústias internas, subjetivas, eles devem atentar para os fatores que contribuíram para sua degeneração completa, e lutar para resolvê-las corretamente, com um olhar amplo sobre o todo corpóreo, tal como a medicina antiga, que descobre na dor de um órgão a decadência de um corpo por inteiro, que muitas vezes tem origem lá onde menos se esperaria quando se lança um olhar muito breve e localizado.

Segundo nossa introdução, podemos diagnosticar os fatores para nossa crise, que se multiplica desde manifestações subjetivas, individuais de cada brasileiro, até os níveis institucionais e sociais. Tudo caduca e sofre, tudo degenera e se decompõe. Estes fatores se resumem, tanto interna quanto externamente, tanto por parte das autoridades quanto por parte do povo, no que podemos definir como o problema da soberania do nosso país. Todos os fatores presentes na nossa crise são fatores de decomposição da soberania, isto é, do auto-controle sobre recursos, instituições e atividades sociais diante das contradições internas e das interferências externas. Os brasileiros, porém, estão inativos; enchem as ruas, as mensagens pela internet, as redes sociais, claro, mas até agora essas convulsões só trouxeram desordem generalizada, confusões e descrenças, promotoras de fakenews e divisões internas. A inação do brasileiro é com relação a um esforço inspirado e ascendente capaz de arquitetar uma rebeldia eficiente e tomar o controle de sua situação. E é aqui que os problemas, para além de todos os elementos expostos, se tornam manifestações de um problema espiritual.

A Figura do Líder

O povo brasileiro sente, consciente em alguns e inconscientemente em outros, a falta que temos de figuras de liderança, que inspire e lidere, guiando as massas à luz, à solução dos seus problemas subjetivos e, consequentemente, objetivos. Ao mesmo tempo em que temos esta falta, a ausência, temos a necessidade dessa figura, pois só ela é capaz de tirar as massas do buraco individual que sufoca cada um, reunindo-as a uma unidade orgânica capaz de articular soluções em conjunto. É só o líder, um homem com autoridade acima de todos, que é capaz de uma tal façanha.

Mas, ao mesmo tempo que o povo sente esta carência, ninguém do povo toma para si, seja em grupos aristocráticos ou em personalidades individuais, a missão de liderar. Todos querem ser liderados, e se atiram passivamente a toda personalidade agressiva e odienta que se apresenta no cenário público. Esquecem que a liderança se faz de dentro para fora; para que haja líder, é necessário que, no mínimo, uma pessoa, em uma atividade suficientemente ascética, se sacrifique em nome de todo um conjunto e um ideal. O líder é um sacrifício aos deuses, e não surge sem dor.

O desconhecimento disto, ou então a negligência do povo para com o que realmente está em jogo, o faz passivamente adorar personalidades vazias que oferecem em troca da adoração qualquer coisa de fútil e de medíocre: a fama, o dinheiro, o poder em geral ou então o prazer de ser idolatrado junto dele, conforme os vícios e os pecados que cada um carrega consigo.

Surgem então figuras falsas de todos os lados, cada um representando um grupo inorgânico, como o Lula, da esquerda, e o Bolsonaro, da direita. Uma maior plurificação do debate, cada vez mais vazio, tornam possível o surgimento de figuras ainda mais vazias, cada vez mais vazias, como é o caso do Amoêndo do partido Novo, representando os anarco-capitalistas. Cada um tem uma bandeira completamente aleatória: um é símbolo da “esquerda” (entre aspas, porque não existe uma tal “esquerda”, com ideais e objetivos suficientemente bem delimitados) e grita a plenos pulmões pelo progresso do feminismo; outro, da “direita”, pela pátria; outro, ainda, pela preservação individual. Diante dessa constante plurificação, a questão que se deve fazer, em primeiro lugar é: em que perspectiva estas bandeiras conflitantes realmente conflitam entre si? O silêncio como resposta, a dúvida, deve nos fazer refletir sobre o que realmente está em jogo nestas discordâncias mascaradas; poder-se-á descobrir a completa ausência de planos de governo em ambos os lados, o que de fato representaria a realidade de cada um dos grupos, como a “esquerda” e a “direita” e outros, uma vez que não há unidade nem plano de governo para quaisquer desses grupos. O que há, apenas, são interesses subjetivos e completamente fragmentários, disputando pelo poder.

A figura da liderança não deve tomar partido de quaisquer interesses fragmentados, pois seu papel é liderar o todo e não apenas impor os interesses de uma parte. Neste sentido, deve se colocar para além desses interesses e buscar iluminar o povo sobre a natureza da unidade política, sobre as relações internas entre os elementos, distintos entre si. O líder deve ter a missão de pôr cada elemento em seu lugar, de harmonizar o arranjo como um todo, alocando as notas cada qual para formar uma música, uma canção nostálgica e sacra, acabando, assim, com o caos negro e cacofônico que configura a desunião e a crise interna.

O líder deve tornar lúcido ao povo como as partes, estando no mesmo universo, possuem sua importância única e exclusivamente na medida em que participam para a boa ordem da música. Se porventura alguma parte se tornar essencialmente caótica, histérica, ela deve ser tratada como um câncer, uma vez que sua atividade colabora para a dissolução da unidade e, consequentemente, para a aniquilação de cada brasileiro enquanto tal.

Neste sentido, o Brasil precisa que cada um dos brasileiros tome para si a tarefa de buscar entender nossos problemas e de agir como se fosse um líder, primando sempre pela ordem geral, não atendendo a qualquer chamada individual, mas buscando resolver as contradições internas. Burcar iluminar, intelectual e politicamente, todos aqueles que se encontram na escuridão, isolados em paranoias e outros fenômenos subjetivos. A consciência do homem que toma para si essa tarefa se eleva e supera suas contradições individuais, alcançando níveis supra-individuais – e isto, por si só, já representa uma vitória espiritual, pelo menos de alguns homens que, na medida em que isso ocorre, colaborarão ativamente para o resgate da pátria como um todo. Pois um homem desperto é luz para outros que despertarão.

O líder, convenhamos, requer estabilidade emocional e intelectual, determinação, coragem, auto-confiança, raciocínio intuitivo analítico e sintético, e todas estas são características essencialmente masculinas.

No caso do Bolsonaro, porém, é importante lembrarmos de alguns detalhes. O povo enxerga nele uma figura paternal, que luta pelo reconhecimento generalizado da figura masculina; os sinais que ele dá são a agressividade, única e exclusivamente. Acontece que a agressividade não é uma característica essencialmente masculina, ela apenas acompanha alguns atos masculinos, é secundária. Características essencialmente masculinas são, por exemplo, a capacidade intelectual de governar e erigir harmonias científicas, a coragem (que em grego, andreia, vem justamente de andros, homem masculino), a constância e a auto-confiança, a estabilidade, a determinação. Nenhuma dessas características, fundamentais para um líder, está presente na figura e nos ideais do Bolsonaro. O líder é, antes de tudo, alguém que lidera, e para isto deve haver algo que é liderado: o povo. O apelo do Bolsonaro pelas forças armadas, pela violência da polícia, porém, não está harmonizado com o objetivo de alguém que estaria liderando o povo. Bolsonaro, juntamente de Paulo Guedes, quer a independentização do Banco Central, a liberalização da economia brasileira e a diminuição do Estado brasileiro, cujo resultado será o abandono de todo um povo diante de feras capitalistas do mercado internacional. É necessário que o povo entenda que a violência promovida pelo Bolsonaro por meio de forças armadas é única e exclusivamente com o fim de defender a ordem do mercado internacional contra as possíveis revoltas populares, uma vez que o resultado das políticas dele será nada além de pobreza extrema da grande maioria, acentuando a concentração de renda no país que já tem a maior concentração de renda do mundo inteiro.

Bolsonaro promove uma violência de cima para baixo, que sufoca as manifestações populares contra elites sanguessugas. É o tipo de violência que contradiz totalmente a promovida por um líder do povo, que clama por uma violência de dentro para fora, isto é: uma violência que sai do braço do povo e esmaga os inimigos dele, que devem ser vistos como externos à pátria. E o mercado dos acionistas internacional, dos banqueiros, dos agiotas internacionais, de todos os mega-empresários que visam um lucro puramente individual (o que significa que eles se colocam de fora da comunidade, enquanto idios, de onde a palavra “indivíduo” e “idiota”), não fazem parte dessa comunidade; se elas mantêm algum tipo de relação com essa comunidade e que beneficiam a elas, por meio de lucros, elas são o câncer e estão enriquecendo às custas do sofrimento generalizado de toda uma pátria.

O líder é uma figura que deve servir de exemplo. O líder é alguém que é seguido, não alguém que arrasta seus governados. Ele deve, antes de tudo, ser um asceta, não se sujar com os excessos das elites, buscando o que Aristóteles chamava de “mediania”, o meio termo que mantém a alma estável e longe de vícios que poderiam escraviza-la. É alguém que se põe na primeira fileira da falange, e não alguém que se esconde atrás de seus governados como se eles fossem mera massa de manobra para atingir objetivos pessoais.

Neste sentido, a única figura que surgiu nas últimas décadas, após Leonel Brizola, foi Ciro Gomes, em seu momento decisivo, como alguém que se põe a servir de exemplo para um povo sem figura paterna. Tendo recusado salários dos cofres públicos, a moradia nos aposentos do governo em Brasília, onde as famílias são servidas por mordomos e mil outras comodidades, foi governador e ministro, obtendo ótimos resultados no Ceará ao apostar na educação da juventude para a redução de mazelas sociais. Sua postura nas palestras em todo o Brasil, e fora dele também, denuncia uma relação erótica para com o povo brasileiro, mantendo um cuidado diante daquilo que analisa e sobre o qual discute, fazendo sempre apelo à elevação do olhar daqueles com quem debate, com vistas a observar o cenário como um todo, de cima. E a governança é uma atividade erótica, senão mística, entre líder e liderados. Não há aparato mecânico que construa (sistemas do direito, por exemplo) nem aparato cognitivo (ciências políticas e sociais, por exemplo) que traduza e compreenda essa relação profunda de confiança entre mestre e discípulo, entre líder e liderado, entre pai e filho. A governança é um fato espiritual do mundo como qualquer fenômeno da natureza, que independe dos nossos conheceres e quereres.

É neste misticismo que se funda a religião e a civilização, separados nas ciências, mas inseparáveis na realidade. O apelo de Bolsonaro por “Deus, pátria e família” soa, então, muito controverso, uma vez que permanece apenas na palavra, muito longe dos seus atos concretos. Seu governo extinguirá Deus, pátria e família. Seu governo será o maior inimigo de toda relação profunda e mística que subjaz na vida dos brasileiros. Extinguirá Deus porque destruirá as relações naturais de confiança para instaurar o Direito consuetudinário anglo-saxão e abrirá a pátria para o mercado internacional, fazendo dissolver as comunidades tradicionais e religiosas que ainda abundam no nosso país. Sumirá nossa pátria porque tudo que seu governo fará constitui a destruição de nossa soberania. E dissolverá nossas família pelo mesmo motivo que elas vêm se dissolvendo há décadas: a educação dos filhos será única e exclusivamente rendida aos interesses do mercado, e assim seguirão as universidades; não haverá tradição familiar, cada indivíduo será, na família, um elemento separado e independente da família, como quer o mercado. Essa decadência da família é a última que ocorre, tendo iniciado lá quando se instituiu como conceito de família apenas a família nuclear (pai, mãe e filho, sem avós, tios e primos), que também colaborou para o surgimento de uma classe média dependente de um mercado globalista e apátrida.

A Soberania

Surpreendentemente, o mais óbvio dos aspectos concretos de nossa crise brasileira, a crise da soberania nacional, é o menos compreendido, onde há mais confusão entre o povo e, até mesmo, entre políticos e intelectuais.

Parece que há uma enorme venda negra sobre os olhos do Brasil que tape um olhar adequado à questão da soberania. Pois ninguém percebe ainda que, para resolvermos nossos problemas internos, precisamos sobretudo de autonomia nas decisões sobre o que ocorre dentro de nosso país. Caso este fosse um aspecto perceptível, jamais haveriam projetos como os da chamada “esquerda” nem como os da chamada “direita”, pois ambos os espectros parecem ser máquinas sociais perfeitamente construídas para a destruição da soberania. De um lado, as ideologias vazias das ciências sociais, o subjetivismo intelectual, o identitarismo neo-kantiano das intermináveis vertentes feministas e de movimentos LGBT, que contribuem para a dissolução das identidades brasileiras e, ao mesmo tempo, para a criação de identidades avulsas e contingentes, de caráter universalista e global: a consequência disso será, obviamente, a universalização dos ideais “ocidentais” e a dissolução de qualquer unidade nacional, condição de possibilidade para qualquer nível de soberania nacional. De outro lado, a crença absurda de uma “mão invisível do mercado” capaz de regular as relações sociais e a diminuição do Estado, o que significaria um enfraquecimento para lidar com quaisquer influências externas, desde as culturais, intelectuais, científicas, até as de força – como demonstrado pelo exercício dos EUA na Amazônia nos anos recentes, pelos grampos da CIA e NSA, pela divulgação de agentes dessas organizações em importantes cargos brasileiros no governo e nas mídias, pela nitidamente forçada privatização de nossas indústrias e recursos naturais (inclusive para empresas como Nestlé e Coca-Cola, no caso da água dos aquíferos).

Ambos, direita e esquerda, despontam como duas mega-frentes que apenas se contrapõem no discurso, enquanto colaboram intensamente na prática. O combate entre essas duas frentes é, obviamente, conscientemente imposto pelas elites, com o fim de criar a ilusão de que são dois polos opostos, uma sendo “o bem” e outra sendo “o mal”, dependendo de que lado se está. Isto anestesia o raciocínio de todas as classes e arrasta todo o povo para lutas fratricidas sem significado algum. É evidente que, assim, os assuntos mais importantes ficam de lado; e conforme informações surgem diariamente por todos os meios, elas vão obscurecendo cada vez mais o debate, deixando apenas ao ódio mútuo e à violência, à desconfiança generalizada, o império da situação.

É necessário, pois, pensar a soberania. Afinal, estamos todos no mesmo barco. Ou melhor, no mesmo corpo. É preciso entender isso para que se descubra o verdadeiro inimigo. Os contos antigos, de Vladivostok à Cidade do Cabo, da Groenlândia à Austrália, do Ártico à Terra del Fuego, todos possuem uma sabedoria muito útil à nossa realidade contemporânea. Os contos a que me refiro são aqueles que contam a história de um mercador ou um viajante que chega em uma cidade pacata e ganha a confiança de algumas pessoas importantes; e tendo conhecido a estrutura da comunidade, quem manda em quem, depois de ter se inteirado dos vícios e das virtudes de cada uma das pessoas, trata de divulgar mentiras de um para outro sobre cada um deles, e o faz com tal maestria que, em questão de tempos, está instalada uma guerra interna. O mercador financia então as armas e, dada a vitória de alguém, cobra a retribuição, escravizando a nova autoridade da comunidade aos seus interesses mercantis.

Pois é isto o que ocorre no Brasil. As ideologias intelectuais identitárias neo-kantianas e/ou universalistas e atomistas são inoculadas no nosso país por meio de intelectuais, jornalistas e políticos estratégicos, e mais recentemente por empresários que disseminam vídeos mal-intencionados ou com informações falsas em whatsapp, transformando a opinião pública (a este ponto chegamos!). É ponto pacífico entre intelectuais decentes que o neoliberalismo (que se alimenta das confusões citadas acima) é uma ideologia espalhada em países periféricos (América Latina, Europa continental, Rússia, Irã, Síria) a partir dos países de centro (EUA, Inglaterra, Israel) que, contudo, não adotam em seus próprios países. Donald Trump toma medidas cada vez mais protecionistas em relação ao mercado global, mas no Brasil a chamada “direita” quer simplesmente abrir o país aos “investidores” internacionais. E mais: se os países de centro jamais tivessem sido estatistas e protecionistas, jamais teriam se tornado “o centro”. A questão que fica para o povo brasileiro, então, é a seguinte: queremos ser um país autônomo, capaz de uma vez ter seu centro sobre si mesmo, ou queremos ser cada vez mais escravizados por interesses de pessoas que não têm nenhum dever e nenhum amor para conosco?

Mais uma vez, não é Bolsonaro nem Lula, nem Amoêdo nem outra porcaria dessas mesmas de sempre que têm um olhar beneficamente decisivo para nosso país. É Ciro Gomes, que se esforçará em desenvolver um aparato de segurança e de inteligência robusto para competir com a NSA, a CIA e o próprio FBI em seu exemplo interno, para eliminar não apenas os traficantes das favelas, mas os barões do tráfico dos bairros nobres, que financiam políticos e jornalistas para defenderem interesses deles. É ele, que pretende chamar a China para uma conversa entre duas nações que visam seus próprios interesses, buscando um equilíbrio justo nas negociações; com a China, Ciro visa recuperar uma boa parte da indústria do nosso país, em troca dos minérios que o Brasil já envia para os chineses. É ele, que pretende refinanciar as forças armadas e construir uma indústria bélica genuinamente brasileira para competir com todas as potências mundiais com o fim de defender os interesses dos brasileiros dentro do seu país e fora dele, por meio da persuasão. É ele, que pretende refinanciar as universidades para desenvolver tecnologias brasileiras, sem as quais absolutamente nada, nem sequer a fundição de metal para a manufatura de um prego, seria possível. É ele, que pretende investir em escolas em todo o país para desenvolver um amplo sistema de formação (Bildung, Paideia) nacional, onde certamente o orgulho da pátria e o amor familiar e conjugal serão recuperados, sem os quais uma civilização simplesmente morre, como aconteceu com Roma, que terminou em chacina generalizada para benefício de elites mercantis e internacionais.

Conclusão

Nesse texto, quisemos apresentar alguns aspectos que devem servir para o brasileiro refletir, sem os quais não haverá solução para absolutamente nada. É preciso de cérebros e filósofos, e é preciso também de homens corajosos, para defender nossa soberania e restaurar uma saúde espiritual no país como um todo.

Quando enaltecemos a figura de Ciro Gomes, não é porque somos “do partido do Ciro”. Muito pelo contrário, abominamos essa abordagem para com os políticos. Não há que ser fanático ao ponto de se tornar cego. Pois, quando fizemos elogios ao candidato Ciro Gomes, é por tudo quanto ele tem defendido até então; ele representa, de fato, uma saída concreta para os problemas do Brasil. Ele não é a solução em si, não buscamos nele a salvação da pátria. Mas ele é um elemento de suma importância para que possamos algum dia respirar aliviados e tomar forças para, quem sabe no futuro, poder reconstruir nossa pátria.

Pelos mesmos motivos, devemos olhar para a história e observar os pontos positivos de Enéias Carneiro, de Leonel Brizola, Getúlio Vargas, sem perder de vista seus pontos negativos ou anacrônicos, que deverão ser corrigidos aqui e ali em projetos futuros. A Campanha da Legalidade do Brizola deve servir de exemplo para todos nós, brasileiros, da coragem de um homem firme, inteligente e amoroso. E isto é sacro, e isto é belo!

Si vis pacem para bellum

sexta-feira, 23 de março de 2018

O que representa a candidatura de Ciro Gomes

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Ciro Gomes e Leonel Brizola
Por Leonardo Benitz

Diante da grave crise que assola o país, que deixou de ser somente econômica, tornando-se política, institucional e social, onde os grandes poderes da mídia, baronato e bancos digladiam-se oferecendo cada um a sua própria narrativa. Narrativa que oculta um jogo de interesses muitas vezes difícil de ser compreendido até por um estudioso do assunto quanto mais para a grande maioria da população que, fatalmente, torna-se refém das simplificações grosseiras e das reações emocionais a uma situação justamente percebida como insuportável. Uma situação caótica é sempre propícia ao surgimento não somente de arrivistas políticos, mas de ideários estrangeiros propagados por parcela da elite ligada aos interesses internacionais que procura mistificar sua dominação sobre o restante do povo. 

Uma das simplificações mais comuns, com maior adesão por parte de grande parcela da população que está irritada, talvez a mais perigosa dela, é aquela que liga o protagonismo, ainda que atualmente deprimido, que o Estado tem na economia com escândalos de corrupção, ineficiência, burocracia excessiva, e que, portanto, o Estado deveria ser mínimo, isto é, apenas louvar pela aplicação sadia das regras do mercado, e, no máximo, realizar um papel de assistência social, apequenar-se. Acreditar que um país de proporções continentais como o Brasil, com uma das desigualdades mais brutais do mundo, onde 6 pessoas concentram a mesma renda que 100 milhões de pessoas como mostram os dados de pesquisa recentemente realizada pela ONG britânica Oxfam, deve relegar seus problemas a espontaneidade do mercado é inocência ou má-fé. Dentre as duas opções, acredito que a primeira ocorre na grande parte do povo que propaga esse ideário por ignorância e por despercebidamente introjetar valores contrários aos seus próprios interesses através da intoxicação midiática, enquanto a segunda, que tem representantes de peso nos grandes órgãos midiáticos e instituições empresariais e bancos, que age de forma organizada para fazer com que seus interesses tenham aparência de ciência neutra e objetiva, merece ser analisada com mais cuidado. 

Para compreender esse movimento, devemos notar que, no caso específico brasileiro, a ideia já datada do neoliberalismo volta com força, após um breve período de experimentação com os governos de esquerda da América Latina que, na maior parte dos casos, entraram em descrédito. Essa ideia é datada porque os próprios órgãos de governança global que fizeram parte da propagação do ideário do Consenso de Washington, como o FMI, Banco Mundial e Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, já a criticaram em relatórios recentes. O relatório "Neoliberalism:Oversold?" lançado por três economistas do FMI em junho de 2016, estabelece que as políticas de austeridade defendidas ; com base na ideia de rigidez orçamentária dos gastos do governo prejudicou a demanda e aprofundou o desemprego, a remoção das restrições do fluxo de capital -- abertura financeira -- contribuiu para o aumento da desigualdade e do número de crises financeiras, e, para fechar o caixão dessa ideologia, concluíram que o aumento da desigualdade tem efeitos negativos sobre o crescimento de longo-prazo, observação substanciada por novo artigo escrito em fevereiro de 2017, onde há um gráfico que evidencia uma correlação negativa entre desigualdade e crescimento de longo-prazo. Deve-se atentar para a gravidade dessa observação, ou seja, instituições criadas para (fato brilhantemente demonstrado por John Perkins em seu livro "Confissões de um Assassino Econômico", onde o autor narra a estratégia realizada pelo Banco Mundial que, a serviço dos Estados Unidos, realiza empréstimos para países em desenvolvimento procurando escravizá-los por dívidas, lançando-os, de forma subalterna, na esfera do poderio norte-americano) e por países ricos (em reunião realizada pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, que ficou conhecida como Conferência de Bretton Woods em 1944) estão nos alertando sobre os efeitos perniciosos da desigualdade e da liberalização econômica. A indagação que fica é: se os ouvimos no passado (através da doutrina neoliberal do governo de Fernando Henrique Cardoso) por que não os ouvimos agora? 

A ideia de que o Estado não deve ter protagonismo no combate à desigualdade e desenvolvimento econômico e a economia nacional deve ser aberta ao mundo, não é uma ideia antiga. Como habilmente demonstrado pelo economista Ha-Joon Chang, os Estados Unidos, hoje o campeão mundial do liberalismo, já foram submetidos a pressões estrangeiras para liberalizar-se, no seu caso, por ninguém menos do que o ilustre pai da economia moderna Adam Smith. Vejamos suas observações contidas no livro A Riqueza das Nações: 

` "Se os americanos, seja mediante boicote, seja por meio de qualquer outro tipo de violência, suspenderem a importação das manufaturas europeias aos seus compatriotas capazes da fabricar os mesmos bens, desviando uma parcela considerável de capital para esse fim, estarão retardando o futuro crescimento do valor do seu produto anual, em vez de acelerá-lo, e estarão obstruindo o progresso do país rumo à riqueza e à grandeza verdadeiras, em vez de promovê-lo" 

Em outros escritos considera o futuro do país norte-americano como de uma economia agrária como a Polônia, proposta muito similar àquela recomendada atualmente por economistas liberais como Marcos Lisboa à nação brasileira. É preciso ressaltar que os Estados Unidos não apenas sonoramente rejeitaram esse conselho, e seguiram o conselho do Secretário do Tesouro americano Alexander Hamilton, tornando-se os campeões mundiais do protecionismo até meados do século XX, desenvolvendo o ensino público, investindo em infraestrutura através da concessão de terras e subsídios às empresas ferroviárias, como através de golpes de estado e intervenções em países como Havaí, Cuba, Porto Rico, Filipinas, Nicarágua, Honduras, Guatemala, Irã, Vietnã, Chile e mais recentemente Iraque e Líbia, também expandindo seu poderio no Leste Europeu através da OTAN, consolidaram seu lugar como a potência hegemônica ocidental desbancando seu antecessor, a Inglaterra, tudo isso com a presença de um mastodôntico aparato militar que consumiu 611 bilhões de dólares em 2016, valor superior aos 595 bilhões de dólares dos oito países com os maiores gastos em defesa juntos no mesmo ano de acordo com dados da Peter G. Peterson Foundation. Deixa-se sem passar que indústrias nas quais os EUA se mantêm na vanguarda internacional como de computadores, internet e aeroespacial não seriam possíveis sem a P&D militar financiada pelo governo americano, como muito bem apontado pela economista Mariana Mazzucato em seu livro "O Estado Empreendedor": "a maioria das inovações radicais revolucionárias, que alimentaram a dinâmica do capitalismo -- das ferrovias à internet, até a nanotecnologia e farmacêutica modernas -- aponta para o Estado na origem dos investimentos empreendedores mais corajosos, incipientes e de capital intensivo", até mesmo o Iphone que é propalado como fruto da genialidade empreendedora do Steve Jobs não teria sido possível sem a utilização de tecnologias financiadas pelo governo como o GPS, tela sensível ao toque, mecanismo de reconhecimento de voz. O que não falta na sede do pensamento liberal é, ironicamente, Estado. 

Poder-se-ia analisar com tranquilidade a experiência histórica de qualquer outro país desenvolvido, seja a Coréia do Sul com sua reforma agrária radical, a criação da usina siderúrgica POSCO construída à contragosto do Banco Mundial, os planos quinquenais estabelecidos pelo General Park, seja no Japão com a Restauração Meiji de 1868 e seu programa de modernização, até a Alemanha de Bismarck que teve um papel pioneiro na introdução do seguro de acidente industrial (1871), seguro saúde (1883), e as pensões estatais (1889), ou até mesmo a Inglaterra, com as barreiras protecionistas impostas para proteger as manufaturas têxteis de algodão e as reformas protecionistas introduzidas pelo primeiro primeiro-ministro britânico Robert Walpole em 1721, que ao defendê-la em discurso do trono ao Parlamento observou que "é evidente que nada contribui mais para promover o bem-estar público do que a exportação de bens manufaturados e a importação de matéria-prima estrangeira". Os exemplos da experiência histórica comparada são infindáveis, e unanimemente eles atestam para a centralidade do papel do Estado no desenvolvimento econômico, portanto, agora aproximando-se mais da realidade e do futuro brasileiros, acredito ser imperativo que se escolha um candidato ciente desses temas na eleição de 2018, e proposto a restaurar o papel do Estado na economia brasileira. 

Necessita-se contextualizar o momento pré-eleição de 2018; o Brasil enfrenta a maior crise da sua história com diversos estados quebrados, os partidos políticos tradicionais desacreditados pela corrupção, tudo isso deflagrado pela crise econômica que ocorreu com a redução do crescimento da China que provocou uma queda nos preços das nossas principais exportações, as commodities, como minério de ferro, trigo, soja, junto com a queda do preço do barril de petróleo. Em 2016, após um processo de impeachment ilegítimo, o vice-presidente Michel Temer assume a presidência e anuncia reformas de desmonte do Estado brasileiro e de entrega do patrimônio nacional, atendendo aos interesses do empresariado apátrida e dos bancos brasileiros e estrangeiros, aprovando a reforma trabalhista que alterou 100 itens da CLT (a mando de lobistas de bancos, indústrias e transportes), enfraquecendo a Justiça do Trabalho, fazendo com que o negociado prevaleça sobre o legislado, como se o empregado estivesse em posição de igualdade efetiva com o empregador, covardemente vendendo os campos de exploração do pré-sal para multinacionais como a Shell, num momento em que os preços do barril de petróleo estão prestes a subir, anunciando um programa de privatizações de 57 empresas estatais incluindo a Casa da Moeda e a Eletrobrás, e, sua obra magna, a Emenda Constitucional 95 que estabelece o teto dos gastos de acordo com a inflação por um período de 20 anos, contendo apenas as despesas primárias (isto é, as que não incluem os juros), privilegiando os rentistas brasileiros à custa de gastos que atendem, ainda que precariamente, a maioria da população como saúde e educação, tudo isso num cenário de desemprego alto remediado por uma crescente informalidade, que garante um sustento com salários e condições baixas de trabalho a uma parcela crescente da população... 

Diante desse péssimo cenário, nós, eleitores, temos que fazer uma escolha que será fatídica no dia da eleição, definindo, rompimentos antidemocráticos à parte, a forma como país sairá ou tentará sair dessa crise. Com o provável impedimento da participação de Lula, vítima de uma perseguição jurídica que, deixando de lado ódios e paixões, curiosamente não encontra paralelos com qualquer político tucano, representando o candidato mais popular da esquerda, líder nas pesquisas, provavelmente teremos uma predominância de candidatos de centro-direita a direita, com nomes como Geraldo Alckmin (PSDB) e Jair Bolsonaro despontando, todos adotando uma percepção neoliberal dos problemas do Brasil; Bolsonaro, com uma retórica nacionalista, no entanto, uma prática não condizente com o discurso, exemplificado perfeitamente pelo episódio simbólico da continência batida à bandeira americana em sua viagem aos Estados Unidos, e também por sua provável escolha para ministro da fazenda, Paulo Guedes, um dos fundadores do Instituto Millenium que recebe financiamento do Bank of America e do grupo RBS. E temos, pela centro-esquerda, a candidatura de Ciro Gomes pelo PDT. Ciro Gomes é conhecido publicamente pela sua inteligência e habilidade retórica, mas sua valentia e coerência também são qualidades que devem ser ressaltadas. Já em livro escrito em 1996, em parceria com o professor Roberto Mangabeira Unger, chamado "O Próximo Passo", apresentava uma proposta alternativa ao neoliberalismo, denunciando a utilização peremptória de juros escorchantes e câmbio sobrevalorizado como expediente de combate a um processo inflacionário que já havia sido superado e que havia se tornado um entrave para o desenvolvimento econômico do país. As propostas do Ciro para essas questões seriam, como relevadas recentemente pelo seu assessor econômico Nelson Marconi, trazer a taxa de câmbio para um patamar condizente com a competitividade das exportações brasileiras entre R$3,80 e R$4, e uma taxa de juros mais baixa, espelhando-se nas experiências dos Estados Unidos e Europa em que a taxa de juros real chega a ser negativa. 

Pode-se concluir que muita coisa mudou para não mudar nada, o problema dos juros continua sendo central na economia brasileira, tendo consumido 1.130.149.667.981,00 (1,13... trilhão) de reais que representa 43,94% do Orçamento Geral da União em 2016 de acordo com dados do Tesouro Nacional. Para ter-se uma medida de comparação, gastou-se 3,90% em Saúde e 3,70% em Educação. O povo brasileiro deve tomar conhecimento de quem manda no país. De acordo com dados publicados pelo IBGE, em 2017 a participação da indústria no PIB caiu para 11,8% retrocedendo aos níveis de 1950; parte desse problema foi ocasionado pelo alto custo do capital provocado por altas taxas de juros, e a outra faceta desse problema é o câmbio sobrevalorizado, abordado anteriormente, que torna nossas exportações menos competitivas e aumenta o custo das importações, provocando um déficit na balança comercial, desnacionalizando nossa indústria. 

Em termos mais categóricos, Ciro define-se como um Nacional-Desenvolvimentista, isto é, defende um projeto no qual um Estado fortalecido promove o desenvolvimento econômico de uma sociedade, algo que não seria atingido caso fosse deixado por conta do mercado. Acredita-se que o artigo deixou bem claro que essa é a experiência vivida por grande parte dos países avançados até mesmo aqueles que propagam a retórica neoliberal. Em termos geopolíticos, Ciro Gomes já se manifestou favorável à construção de um mundo multipolar, repudiando as intervenções unilaterais americanas recentes no Iraque, Afeganistão e Líbia, comemorando o surgimento e protagonismo de Vladimir Putin na Síria como uma forma de equilíbrio e alívio para o mundo que assistiu horrorizado à criação de um cenário caótico no Oriente Médio e o renascimento dos movimentos terroristas islâmicos amplamente financiados por governos ocidentais. Ciro Gomes apresenta uma respeitável compreensão de que, a despeito de todo tipo de retórica sobre paz e liberdade, a ordem mundial é assentada na força e na violência, portanto, um mundo multipolar, com a crescente importância da Rússia e a ascensão econômica da China, poderia conter as arbitrariedades cometidas pelos americanos, e beneficiar até mesmo o Brasil, livrando-nos de intervenções e pressões unilaterais de um país que historicamente considerou a América Latina como seu quintal, e o mundo inteiro como seu. 

Portanto, está na ordem do dia uma redução do oneroso encargo da dívida pública através de uma auditoria e da diminuição do nível de taxa de juros a um patamar condizente com a perspectiva de desenvolvimento industrial nacional, uma reforma tributária estabelecendo uma taxação progressiva, recuperando a sanidade fiscal do Estado que, empoderado, possa assumir seus deveres e retomar seu papel de protagonismo no desenvolvimento econômico e combate à desigualdade através de um projeto nacional-desenvolvimentista. O repúdio a qualquer ideologia estrangeira propagada pelo império e seus representantes, isso é o neoliberalismo, que propõe aos estados subdesenvolvidos uma liberalização econômica que ele mesmo não realizou, ou seja, como bem descrito pelo economista alemão Friedrich List, chuta a escada pela qual subiu, deixando os subdesenvolvidos permanentemente no andar de baixo. 

Uma integração da iniciativa privada, universidades e Estado, no desenvolvimento de tecnologias, tornaria o país menos dependente de insumos externos normalmente dolarizados. A luta deve ser pelo estabelecimento de uma ordem geopolítica multipolar, em que o Brasil possui um papel relevante, deixando de ser um celeiro para os países ricos e um reprodutor de manuais propagados pela metrópole e seus órgãos globais, e lute para a formação de polos de poder que distribuam melhor a capacidade de decisão em assuntos internacionais. 

No presente momento o candidato que possui um histórico e um discurso alinhado com esse ideário é o Ciro Gomes, portanto, como se tentou demonstrar no presente artigo, aqueles brasileiros que não se deixam dobrar pelo discurso dominante devem apoiá-lo nas eleições de 2018.