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sábado, 5 de novembro de 2016

TSIDMZ: A Busca por Beleza, Majestade e Metafísica

por Mindaugas Peleckis

TSIDMZ significa THULESEHNSUCHT IN DER MASCHINENZEIT, isso quer dizer Sehnsucht (nostalgia) por Thule em um Tempo de Máquinas. Thule é um “espaço primordial”, provavelmente um lugar físico, mas indubitavelmente, um domínio metafísico. De acordo com a mitologia indo-europeia, os povos indo-europeus que outrora habitaram as terras da Eurásia eram descendentes de Thule, a última terra remanescente do continente Hiperbórea. De uma maneira muito breve e grosseira, podemos dizer que Thule é equivalente ao Éden bíblico. É o lugar da “perfeição” original, o lugar dos ancestrais e heróis que viveram próximos ao divino. A TSIDMZ expressa exatamente esse tipo de nostalgia de um ponto de vista pessimista, significando “ausência”, e também de um ponto de vista construtivo, significando uma nova realização. Portanto, essa nova realização deve ser alcançada em nossos tempos, “In Der Maschinenzeit”. Será possível realizar uma sociedade justa, sublime e “espiritual” na era pós-atômica? Será possível combinar a máquina com a Tradição? De acordo com a TSIDMZ uma possível resposta pode ser encontrada no Futurismo, a nível artístico e cultural, e no Socialismo, a nível político e social. Como consequência, música eletrônica e toda forma de arte “industrial” tornam-se imperativos. No que tange aos níveis social e político o Homem deve ser o mestre da máquina, e não mais um escravo ou vítima. Da mesma forma, a nível cultural o Novo Homem precisa se integrar com a máquina, que deve tornar-se parte de sua nova cultura com o objetivo de dar continuidade aos valores tradicionais com essa nova ferramenta. Como resultado, isso irá criar uma identificação artística e estética, que dará uma nova identidade apropriada ao Arbeiter, como Jünger o entendeu (o Arbeiter é o conceito de E.Jünger sobre o Novo Homem que combina técnica e visão ascética/metafísica). “A técnica é o meio pelo qual a figura do trabalhador mobiliza o mundo.” – E. Jünger. Como consequência, a TSIDMZ apreciou a ideia, o conceito e o tema eurasianos: equilíbrio social, superar todas as ideologias, uma weltanschauung metapolítica e metafísica para reconquistar a Eternidade na pós-modernidade. A TSIDMZ é parte da Associação de Artistas Eurasianos: https://www.facebook.com/EurasianArtistsAssociation. [Fonte: página da TSIDMZ no facebook]. Em minha opinião, a TSIDMZ é uma das melhores e mais interessantes bandas da atualidade: letras profundas, temas sérios, música dramática: é uma bomba que irá explodir sua mente se ela está sob o controle do Big Brother. A entrevista com o líder da banda, Tetsuo, também conhecido como Uomo D’Acciaio (ideias, música, atmosferas, amostras, distorções, efeitos) foi feita em 17 de Outubro de 2016.

Você trabalhou com uma pletora de artistas ao longo dos anos. Quais colaborações foram/são as mais interessantes e importantes pra você, e por quê?

Eu tive a chance de trabalhar com muitos artistas e amigos que eu sempre gostei e apreciei. Cada colaboração foi importante para o enriquecimento cultural e musical do som da TSIDMZ e teve uma origem e história excepcional.

Das primeiras colaborações com Lonsai Maikov, Rose Rovine e Amanti, Heiliges Licht, [distopia], Narog, etc. até as últimas com Gregorio Bardini, barbarossa Umtruk, Order Of Victory, L’Effet C’Est Moi, The Wyrm, Corazzata Valdemone, Gnomonclast, Strydwolf, Suveräna, Horologium, Porta Vittoria, Sonnenkind, Le Cose Bianche, Valerio Orlandini, Winterblood, the Serbian poet/writer Boris Nad etc, eu posso dizer com orgulho que a música sempre foi e é muito variada e em constante evolução e enriquecimento.

Você pode me dizer, resumidamente, quais são as principais ideias por detrás de sua música? Você poderia mencionar suas composições, álbuns e colaborações favoritos?

Por detrás da música da ThuleSehnsucht há a fascinação pela relação dos opostos, a descoberta do desconhecido e a busca pela beleza, majestade e metafísica.

Eu gosto de tudo que fiz ainda se em uma viagem hipotética ao passado eu quisesse melhorar ou mudar algumas coisas. Cada música, CD, compilação, trabalho avulso e colaboração possui uma história, origem, desenvolvimento e esforço único, então é difícil dizer o que eu prefiro. Tudo foi útil para o nosso crescimento.

Uma menção especial vai para Barbarossa Umtruk. Um artista francês muito prolífico, original e talentoso que eu amava antes de começar minha própria música. Ele encontrou uma alquimia de sons única e temas que me fascinaram muito e influenciaram profundamente minha abordagem pessoal à música e a alguns temas.

Por essa razão e em primeiro lugar pela amizade que estabelecemos de maneira espontânea, nós fizemos muitas músicas em colaboração e por isso ele é o único artista presente em toda a trilogia da TSIDMZ (Pax Deorum Hominumque, Ungern Von Sternberg Khan, René Guénon et la Tradition Primordiale) com duas músicas em cada álbum. Da mesma forma, eu tive a chance de estar em alguns de seus trabalhos: La Fosse De Babel, Der Talisman Des Rosenkreuzers: La Mission Secrete Du Baron Sebottendorf, Tagebuch eines Krieges (2005-2015).

O novo álbum está indo bem, mas não como os últimos três CD’s físicos. Ele é menos marcial e muito mais meditativo. Se Pax Deorum Hominumque, por exemplo, possui uma abordagem fácil, o álbum René Guénon et la Tradition Primordiale requer maior concentração e interesse sobre o assunto que eu trato em cada música. Uma boa maneira seria escutar o álbum acompanhando os textos (disponíveis através do Facebook e Bandcamp da TSIDMZ). E dali em diante minha esperança é que todos comecem uma pesquisa e um estudo de maneira profunda e pessoal, interessando-se pelos temas.

O som é mágico. Você provou isso. Porém, o que resta quando não há música?

Som é energia e Deus é pura energia (pensante) então talvez o som puro nunca irá acabar.

O que é e o que não é um som artístico?

Arte em geral deveria estar em primeiro lugar na promoção/educação da beleza, natureza e espiritualidade. As artes deveriam elevar a humanidade, deveriam proporcionar visões do todo e da eternidade e ao mesmo tempo deveriam exorcizar a realidade. Esses são os elementos menos presentes nas “artes” modernas.

Arte, nesse caso, arte musical, significa também trazer algo (em ideias, ou sons, ou em textos em um estilo específico de voz) do “mundo das ideias” platônico para esse mundo. Imitar outro artista, repetir o que já foi dito por outros e “copiar e colar” não é arte. É muito mais uma questão de ser bom ou ruim tecnicamente ou como banda cover.

O que você pensa sobre as relações entre a arte antiga e a arte de computador? Elas são compatíveis?

O computador, como toda coisa inanimada, é uma ferramenta. Uma arma não mata até que alguém a utilize para matar e o computador não mata a arte ou a música até que você o utilize para fazê-lo. Em toda coisa inanimada o que importa é qual o “espírito” que há por detrás dela. Com qual espírito, valor, princípio, visão de mundo e filosofia você utiliza o laptop, a arma, o carro, a família, música, sexo, matemática etc. Aqui se encontra a questão principal e a primeira de todas.

Ferramentas são só coisas inanimadas até que você decida como e quando usá-las. É claro que algumas ferramentas são mais perigosas que outras e requerem mais atenção e mais consciência, mas uma sociedade doente não deveria usar sequer uma colher. Tudo o que uma sociedade doente ou uma filosofia doente ou uma pessoa moralmente doente usa e faz estará errado. De maneira oposta, uma sociedade saudável ou uma pessoa saudável ou uma Weltanschauung saudável irão usar de uma maneira apropriada até mesmo o fogo. Para concluir, tudo pode ser feito (não por todos), mas depende como é feito.

O que você pensa a respeito dos milhares de projetos de bandas eletrônica, neofolk, industrial, ambient, tribal, eletroacústico, avant-guarde etc? É um tipo de tendência, ou uma inclinação em direção à músicas melhores?

Em todos os lugares e em todas as épocas da história sempre houve muitos artistas, músicos, instrumentistas e assim por diante. A única diferença é que agora com as tecnologias, internet, plataformas web e etc. é mais fácil divulgar a própria música e as performances. O que você escutava na taverna, na festa do vilarejo ou nas ruas, hoje pode ser escutado em casa através de um dispositivo, porque as tecnologias permitiram gravar o que uma vez só podia ser tocado e escutado em um evento público.

Agora nós podemos ter tudo imediatamente e a primeira consequência disso é a produção em série e desvalorização de tudo, a falta de entendimento profundo acerca do que escutamos.

O problema toca a questão da socialização e da qualidade.

Se outrora a música foi um agregador social e cultural, agora o homem pós-moderno pode isolar-se completamente de qualquer contexto social e pode escutar o que quiser no momento em que quiser (e na maioria das vezes, o que o sistema quer que você escute. É o zeitgeist! A solidão pós-moderna, consequência do extremo individualismo, a desintegração social e a falta de valores tradicionais e naturais controla mais e mais as nossas vidas. É claro que até no passado a música era tocada e escutada em solidão ou em situações muito privadas, mas o que era uma exceção ou apenas uma das muitas formas de se escutar música agora se tornou a norma.

Então nós chegamos na qualidade. O fato de que agora podemos gravar qualquer coisa que quisermos não significa que estamos indo em direção a uma música superior ou a coisas de maior qualidade. Quantidade raramente significa qualidade. Nós temos uma sobrecarga de álbuns que saturam a escuta. Muitos desses álbuns são só boas composições técnicas, repetição das estruturas habituais de grandes artistas históricos que são chamadas incorretamente de arte.

Imitação não é arte, é apreciável e legal, mas não é música ou arte superior. Ter uma atitude de “banda cover”, uma “atitude de DJ” ou possuir uma boa técnica no que tange à música não é suficiente para preencher a palavra arte. Um som original, textos originais ou músicas originais ou composições originais não são poucas, mas também não são propriedades de qualquer músico. Como eu disse, arte significa trazer algo do “Mundo das Ideias” para esse mundo; quantos dos ditos artistas fazem isso?

Então com a internet a qualidade definitivamente caiu. A internet deveria ser uma maneira de promover e começar para observar como a sua arte funciona; a pós-modernidade é um mundo líquido (dinheiro falso que não existe; o deus invisível chamado mercado que hoje governa tudo; a ideia de que tudo é permitido e não há certezas) e o mp3 sem graça e de baixa qualidade em uma plataforma web que hoje existe, mas amanhã talvez não, é outro elemento da decadente “sociedade líquida” em que vivemos. Não se tem certeza sobre nada, nada mais é qualitativo, tudo é massivo, quantitativo, plastificado, em série, sem nenhum entendimento profundo e mensurável unicamente através do dinheiro... e hoje nem o dinheiro possui um valor real; dinheiro líquido, sem ouro ou um papel correspondente, devido ao fato de que uma grande quantia de dinheiro é criada diariamente na virtualidade (com a consequente usura e especulação).

Concluindo, o primeiro passo urgente é retornar à natureza, nos tornarmos “muito humanos”, e libertarmo-nos desse mundo desumanizado e cada vez mais mecanizado. Referente às artes, um bom ponto de partida poderia ser recuperar o prazer de ler um livro físico ou escutar música em um vinil ou em um CD; na verdade, é impossível ter um controle total e uma compreensão completa de algo até que esse algo esteja somente na virtualidade ou em estado líquido.

Quando conseguirmos re-descobrir o valor de uma sociedade real-concreta que raciocina pelo bem comum, para a beleza física e metafísica e para as raízes das pessoas e identidades e não para os interesses do mercado, talvez será mais fácil iniciar um novo caminho em que a música também se incline ao melhor e em direção a ideias mais originais...

 O que mais inspira você?

Deus, beleza, majestade, eternidade, opostos, filosofia, metafísica, metapolítica, geopolítica, mitologia, religiões, tradições, identidades, pessoas, ideias e ideologias, história, arqueologia corrente e arqueologia oculta, futurismo, cinema, a relação homem-máquina, surrealismo, vida e morte, música industrial, clássica, folk, étnica, eletrônica e rock (metal).

No que você está trabalhando agora?

Está sendo planejado um novo álbum com um som novo, novas ideias e novos temas, mesmo que os anteriores ainda estejam sempre presentes de uma forma ou de outra. Além disso, o projeto está sempre ativo em suas colaborações, compilações temáticas e trabalhos separados.

O que o nome da sua banda significa para você? Que ideologia/religião/visão de mundo você segue?

Significa tudo que eu fui e ainda sou. Significa minha principal Weltanschauung. TSIDMZ é um acrônimo para ThuleSehnsucht in Der MaschinenZeit; isso quer dizer Sehnsucht (nostalgia) por Thule em Tempos de Máquinas. É uma frase que une a parte espiritual com a parte filosófica e a parte artística e musical da minha pessoa. Em poucas palavras, sou eu.

É uma frase que também foi influenciada profundamente por esta famosa frase de E. Jünger: “A técnica é o meio pelo qual a figura do trabalhador mobiliza o mundo.”.

“O Trabalhador” é o Novo Homem de E. Jünger, que combina a técnica moderna e visão ascética/metafísica; em um nível cultural esse Novo Homem precisa se integrar com a máquina, que se tornou parte de sua nova cultura, para que ele possa dar continuidade aos valores tradicionais com essa nova ferramenta.

Eu não me prendo a nenhuma definição. Nem na filosofia e nem na música. Para todo campo humano há muitos rótulos como se fossem marcas comerciais e muitas pessoas que não pensam, são monótonas, iguais em tudo (iguais de maneira inferior e não superior).

As pessoas estão cada vez mais cegas que nunca irão ver o quanto já está condicionado pelos contravalores pós-modernos e antinaturais e pela miríade de mentiras e pseudomitos modernos e pós-modernos em que vivemos. Pensar com seu próprio cérebro significa ser humilde para escutar, descobrir, ler, comparar e entender profundamente (e não com um punhado de frases encontradas nas mídias sociais) o que é totalmente oposto ao que a mídia e o presente sistema orwelliano mandaram você pensar até agora. Esse é só o primeiro ponto para começar a dizer: “Eu penso”.

A humanidade pós-moderna está no ápice da desumanização, no ápice do afastamento da natureza e da vida concreta e real.

Iluminismo, uma espécie de nova religião sem um deus transcendente (como todo materialismo, progressismo, evolucionismo, internacionalismo, ideologias de liberação, feminismo, veganismo e assim sucessivamente com todo o resto de “religiões” modernas construídas ao redor de falsas construções mentais e elementos singulares transformados em absolutos para toda realidade), realizou o primeiro passo para o afastamento de Deus (com o slogan/desculpa frequente de “oh como são ruins as religiões”... seria a bomba atômica ou todo o mal materialista e “laicista” dos últimos séculos uma consequência das religiões!?), e o último passo foi dado com a atual desconexão pós-moderna em relação à vida, à natureza, ao pensamento lógico e simplesmente de sermos humanos.

Em suma, nós podemos dizer que de um deus transcendente no centro do universo nós ganhamos o mercado no centro do universo.

A melhor solução é ter fortes princípios tradicionais e só então considerar qualquer tipo de música, qualquer filosofia e qualquer ideologia. Quando você possui princípios fortes, identitários, naturais, eternos e espirituais, quando você possui uma filosofia holística verdadeira (e não sectária como muitos modernos erroneamente chamam as “filosofias”/conhecimentos), quando você sabe que tudo possui uma origem divina ou espiritual (apenas leia Platão) e limites muito específicos impostos por princípios metafísicos (e portanto você é forçado a não fazer qualquer coisa permitida pela tecnologia ou humanos comuns) quando você entende que a matéria é limitada e o ilimitado (como é o mercado) é um contravalor antinatural, quando você entende que o bem comum é o valor mais alto em uma sociedade, quando você entende que primeiro existe a família e os povos com suas histórias/identidades próprias, únicas, específicas que precisam ser preservadas para que sobrevivam (esse sentimento deveria ser instintivo e padrão, e o fato de que a modernidade o destruiu em muitos povos, é outro sinal da completa desconexão com tudo que é natural e lógico), você também é capaz de compreender o melhor de cada situação e construir a sua “vontade de poder” / moralidade e talvez estar “além do bem e do mal”.

É claro que o mundo pós-moderno não ajuda de modo algum. O “pensamento fraco” e o pior relativismo dominam.

O Novo Homem, o “Übermensch” deve lidar com isso, é a última luta.

“Atualmente nós não estamos em guerra contra uma nação, contra um fenômeno, contra um partido ou uma ideia política, mas sim contra o surgimento de um novo e apavorante aeon, um aeon que irá varrer tradições, irá inverter valores, irá aniquilar e substituir a essência profunda, real e espiritual do ser humano com identidades falsas, baixas e demoníacas. Como consequência nós precisamos ser Futuristas: assistindo ao futuro e à técnica como uma continuação em relação ao passado e à tradição.”

TSIDMZ –ThuleSehnsucht In Der MaschinenZeit-


Obrigado

Tradução: Maurício Oltramari

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Acordo nuclear iraniano e luta por influência na Eurásia

por Yusuf Fernández – 

Desde a Revolução Islâmica no Irã que derrubou a ditadura de Shah Reza Pahlavi, apoiado pelos EUA, em 1979, uma constante na política externa estadunidense foi uma implacável hostilidade contra o Irã. Washington apoiou a guerra de Saddam Hussein contra esse país (1980-1988) e em 2003 a Administração de Bush preparou planos para a guerra contra ele. Desde 2011, EUA e seus aliados da União Europeia submeteram o Irã ao regime de sanções econômicas mais duro da história.

Não obstante, a estratégia norteamericana mudou nos últimos anos. Depois do fracasso das guerras dos EUA no Afeganistão e no Iraque, onde Washington foi incapaz de derrotar as respectivas insurgências ou convencer os governos desses países a se submeter a seus ditados, a opinião pública e o establishment político dos EUA não querem ver o país arrastado em novos conflitos no Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, Washington desconfia da ascensão da China na região da Ásia, no Pacífico e no mundo em geral. Obama aprovou a nova estratégia do "giro para a Ásia", que busca opor-se ao crescente papel da China na região, onde os EUA estão tratando de construir uma nova aliança anti-Pequim. O executivo pró-estadunidense da Austrália e o governo de Shinzo Abe no Japão, que está determinado a executar um papel mais agressivo na Ásia e busca eliminar a assim chamada "cláusula pacifista" na constituição japonesa, foi convertido nos aliados naturais dos EUA nesta estratégia.

A crise da Ucrânia empurrou também o EUA e seus aliados da OTAN a um confronto político e estratégico contra Rússia. Moscou tomou medidas com o fim de reforçar seu poder militar, incluindo o desenvolvimento de novos barcos, aviões e mísseis nucleares. Também está promovendo a União Eurasiana com alguns estreitos aliados, como Bielorrússia, Cazaquistão, Armênia e outros Estados.

Irã é um ator central neste jogo. Além de ser um grande e populoso país, Irã possui as segundas reservas de gás e as terceiras de petróleo no mundo. Sua posição geoestratégica é única. O país une a Ásia Central com o Oriente Médio e o Golfo Pérsico, e construiu uma sólida aliança com alguns países da região, incluindo Síria, Iraque e o Líbano. Milhões de muçulmanos no mundo seguem também o Imam Ali Jamenei e os líderes religiosos iranianos. Suas relações com a África, Ásia e América Latina estão se tornando cada vez mais importantes.

Durante mais de uma década, os EUA, que sempre souberam que Irã não tem intenção de construir armas nucleares como numerosas evidências mostra, utilizou desse tema com o fim de pressionar este último país a obstaculizar seu desenvolvimento tecnológico e econômico. Agora, a situação no mundo mudou e os EUA estão tentando levar o assunto para sua perspectiva real. A crise nuclear com Irã se converteu em um fardo para Washington porque lhe impede de pôr em prática sua estratégica anti-chinesa e anti-russa e, desse modo, teria que ser resolvida.

Irã se converteu em um baluarte na luta contra o terrorismo no Oriente Médio. Teerã apoia Iraque, Síria e o Líbano contra a agressão terrorista, que estão sendo alimentada pela Arábia Saudita, pelo Qatar e pela Turquia. Os EUA e seus aliados europeus apoiaram durante anos o esforço destes países para utilizar os terroristas como instrumentos na região contra os governos amigos de Irã, mas agora eles temem a crescente ameaça destes grupos, que estão determinados a atacar também as nações ocidentais. Alguns governos e mídias ocidentais estão mudando sua posição com relação ao Irã e Síria e começando a advogar por uma cooperação com tais países nesta luta.

Ao mesmo tempo, as companhias norteamericanas estão ansiosas por entrar no mercado iraniano. Elas vêem o Irã como um novo El Dorado, onde podem lograr enormes benefícios. Até agora, as companhias russas e chinesas, e em menor escala europeias, estão muito melhor posicionadas para se aproveitar do levantamento das sanções sobre o Irã. As empresas estadunidenses estão tratando de mudar essa situação e voltar ao Irã, mas necessitam que Washington elimine as sanções unilaterais com o fim de alcançar este objetivo.

A influência israelense e a pressão do lobby sionista sobre o Congresso se converteram em um obstáculo principal para a implementação desta nova estratégia. Eles têm uma grande influência sobre a política externa norteamericana, mas desta vez seus interesses chocam com os de uma parte importante do establishment político e militar e com das grandes corporações estadunidenses. Isso poderia fazê-los perder sua batalha contra o acordo sobre o Irã. Em um desafio aberto ao lobby sionista, as mídias corporativas, tais como New York Times ou Washington Post, mostraram seu apoio ao acordo nuclear e dizem abertamente que uma acomodação com Irã reforçaria a mão dos EUA contra suas mais importantes e formidáveis rivais geo-estratégicas: Rússia e China.

Um recente artigo no New York Times, escrito por Michael Godeon e David Sanger, ambos autores com estreitos vínculos com o establishment militar e de inteligência dos EUA, mostrou um apoio ao acordo nuclear. Os autores salientaram que um entendimento com Irã reforçaria a posição mundial dos EUA frente a Rússia e China em múltiplas formas.

China é agora o maior sócio econômico do Irã e o mais importante investidor. Rússia foi durante muito tempo seu principal provedor de armamento. Não obstante, esta associação sofreu um revés em 2010 quando Moscou negou implementar um contrato de provisão de mísseis terra-ar S-300 ao Irã citando as sanções da ONU. Washington espera que um acordo nuclear e a necessidade de cooperar contra o terrorismo lhe permitirão competir pela influência geopolítica e econômica no Irã com o objetivo de neutralizar a influência russa e chinesa nesse país.

EUA, no entanto, necessita da Rússia e da China como mediadores em suas comunicações com Teerã, mas está convertendo-se em algo cada vez mais problemático para Washington o fato de depender de Moscou e Pequim neste esforço em um momento em que as relações estão piorando.

A reposta da Rússia e da China

Não há dúvida de que a China e a Rússia compreendem este perigo e tomaram medidas para manter sua influência sobre o Irã.

Em Janeiro, durante uma visita do ministro de defesa russo, Serguei Shoigu, em Terrã, os dois lados firmaram um novo acordo de cooperação. Em uma conferência de imprensa onde explicou o mesmo, o ministro de defesa do Irã, Hossein Dehqan, disse que seu país e Rússia "compartilham uma análise da estratégia global dos EUA e sua ingerência nos assuntos regionais e internacionais" e eles puseram assim mesmo de relevo a necessidade de cooperar na luta contra o terrorismo".

Algumas horas depois do anúncio do acordo de Lausana, Igor Korotchenko, que lidera o think tank Centro de Análise do Comércio Global de Armas de Moscou, disse a Sputnik que "o levantamento de sanções ao Irã, incluindo o embargo de armas, seria o mais absolutamente lógico". "De grande importância para nós é a entrega de mísseis atualizados S-300 ao Irã. Um contrato nesse sentido poderia ser renovado em termos aceitáveis para Moscou e Teerã", acrescentou.

Rússia salienta que está também disposta a vender automóveis, aviões e barcos ao Irã depois da eliminação das sanções contra a República Islâmica. "Estamos interessados nas provisões a este país. Isso inclui os automóveis, aviões, construção de barcos e outras indústrias", disse o ministro de Indústria e Comércio Denis Manturov na cidade de Javarovsk, no leste da Rússia, salienta Interfax. "Estamos preparados para trabalhar juntos para incrementar a cooperação e os projetos conjuntos", salientou.

Por sua vez, o ministro de relações internacionais, Wang Yi, visitou Teerã em fevereiro com o fim de incrementar os vínculos políticos e econômicos entre os dois países. As importações chinesas de petróleo do Irã aumentaram quase 30% no ano passado e Wang disse que "existe aliás um enorme espaço para a cooperação no terreno da energia e nos parques industriais de acordo com as necessidades de desenvolvimento do Irã e as capacidades da China", disse o ministro citado pela agência Reuters.

Wang visitará Moscou em abril e os dois países analisarão a situação criada depois do alcance do acordo com Irã e as medidas dirigidas a impedir que os EUA incrementem sua influência na Eurásia.

Rússia e China podem agora abrir a porta para a adesão do Irã à Organização de Cooperação de Shangai. Esta grande organização busca garantir a estabilidade, promover a unidade da Eurásia e contrabalancear a influência norteamericana neste grande espaço.

sábado, 21 de março de 2015

Tártaros da Crimeia estão prontos para levar Turquia e Rússia à Eurásia

Desde o início da crise na Ucrânia e do acontecido referendo do retorno da Crimeia à Federação Russa muitos da mídia ocidental especularam sobre que tipo de efeito teria a crise sobre a minoria tártara que existe na Crimeia. Muitos deles se surpreenderam ao ver que entre a população islâmica na Crimeia há muitos ativistas pró-Rússia que não têm uma opinião positiva sobre o governo da Junta de Kiev. Em entrevista para a revista acadêmica sérvia, Vasvi Ambduraimov, líder da organização dos tártaros da Crimeia "Mili Firka" fala sobre a história do seu povo e da situação na Crimeia.

1. Você poderia nos contar algo sobre você e sua organização e sua história, raízes e influências?
- Milly Firqa (traduzindo do Tártaro da Crimeia: o partido do Povo), a organização pública, foi criada na Crimeia em 2006 em resposta à política agressiva nacionalista da Ucrânia contra os "lutadores indígenas", quando a questão étnica dos tártaros da Crimeia chegou a um impasse. E a política da acelerada assimilação dos Tártaros da Crimeia pela dissolução da nação em todo o território da Ucrânia foi executada pelas autoridades da Ucrânia através da estrutura Kurultay Mejlis, criada por eles. A base da ideologia de Milly Firqa é a doutrina do grande educador do Leste Ismail Gasprinski sobre a unidade eslavo-turca nos espaços abertos da Eurásia como condição necessária da preservação e desenvolvimento dos mundos russo e turco e seu povo dentro de um sistema sociocultural. Agora a Organização Pública Republicana de Desenvolvimento Sociocultural da Crimeia de Milly Firqa (o nome completo da organização) está registrada no Ministério da Justiça da Federação Russa com o estatus de entidade legal. Eu tenho honra em liderar o Conselho de Milly Firqa e de representar a organização em todos os níveis.

2. Em muito da mídia ocidental podemos ouvir afirmações de Mustafa Dzemilev e sua organização "Mejlis" sobre repressão corrente contra os tártaros da Crimeia. Mustafa Dzemilev representa a verdadeira voz dos tártaros da Crimeia? Quanto da população tártara da Crimeia apoia ele?
- E não há surpresa. Sobre quem deveria escrever a grande mídia ocidental, quanto sobre os satélites e condutores de um euroatlantismo no ambiente da Crimeia Tártara quem é a estrutura da Kurultay Mejlis e suas cabeças Mustafa e Refat Chubarov?! Nenhum mortal pode ser a única voz para este ou estes povos. Sempre foi, é e continuará sendo Um-Acima de Tudo. Quanto ao apoio de Dzhemilev à Crimeia Tártara, penso que logo será estreitado aos seus pais diretos e aqueles que ele apoia com dinheiro que generosamente recebe do mesmo governo ocidental e das instituições ocidentais. Na Crimeia ucraniana, Dzhemilev foi requerido, na Crimeia Russa não.

3. O presidente russo, Vladimir Putin, assinou um decreto para reabilitar os Tártaros da Crimeia e outras minorias que sofreram sob Stalin. Qual é sua opinião sobre este decreto, é um bom passo em direção ao desenvolvimento dos direitos minoritários na Federação Russa e à tentativa de corrigir injustiças históricas feitas contra os tártaros da Crimeia, ou é apenas propaganda, como alguns dizem?
- O decreto do presidente Vladimir Putin pôs um fim à questão de reabilitação dos tártaros da Crimeia e dos representantes das minorias étnicas que sofreram sob Stalin. Agora a base necessária e suficiente está criada na Federação Russa pela solução de todas os problemas dos povos oprimidos, inclusive os Tártaros da Crimeia. O que diz o decreto. O caso é pela realização prática que é muito digna. Estou convicto que a solução da questão geral e nacional da Crimeia, como componente, é em interesse do fortalecimento da Federação Russa e de seu sucesso nos projetos geopolíticos iniciados por Moscou como alternativa às aspirações euroatlânticas de submissão do mundo a um centro único.

4. Há o problema do islamismo entre alguns membros da comunidade dos Tártaros da Crimeia. Quem tem interesse em trabalhar contra o Islã tradicional na Crimeia e espalha heresias tais como o wahabismo? Teve algum corpo oficial e organização por trás disto?
- O problema do extremismo internacional e do terrorismo é ua ameaça para toda humanidade. Normalmente esses fenômenos se mascaram em formas religiosas de uma ou outra religião. Mas é um puro satanismo e não tem nada em comum com as religiões do monoteísmo. No ambiente islâmico, ideias misantrópicas são cultivadas através de uma e outra seitas. A Crimeia não foi exceção. E entre os Tártaros da Crimeia houve aqueles que infestaram um vírus perigoso. Praticamente na Crimeia eles não permanecem, todos eles fugiram para a Ucrânia onde são usados na guerra contra a Rússia, contra a Crimeia, contra os Tártaros da Crimeia.

5. Como Tártaro da Crimeia, você tem boa opinião sobre a Turquia. Qual é sua opinião quanto à ideia da comunidade tártara da Crimeia servir como uma ponte entre Rússia e Turquia?
- A Turquia é uma ligação especial do mundo turco, sendo próxima da civilização ocidental, do mundo árabe oriental e do mundo russo. Que tipo de vetor de desenvolvimento será escolhido por Erdogan e seu time em muitos aspectos depende do destino do mundo. A Turquia é mais oriental do que ocidental. Uma integração mais próxima da Turquia moderna com o Oriente e com a Rússia, a meu ver, é mais natural do que se recusasse os valores tradicionals e a espiritualidade em favor de um "buraco negro" das "luzes" ocidentais. E neste sentido nós, os Tártaros da Crimeia, estamos prontos a nos tornarmos a "tocha" para a Turquia, tendo aberto um caminho para que o grande mundo turco entre em uma comunidade com a Rússia...

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quinta-feira, 13 de março de 2014

Dispara a popularidade de Putin aos 71%



O presidente da Rússia, Vladimir Putin, tem o apoio de 71% dos russos, segundo uma pesquisa divulgada hoje pelo Centro Russo de Estudos da Opinião Pública (VTsIOM, em siglas russas), dependente do Ministério do Trabalho e Assuntos Sociais.

De acordo com os sociólogos do VTSIOM, desde meados de fevereiro, quando estourou a crise na Ucrânia, o apoio à política do chefe do Kremlin subiu 9,7 pontos porcentuais e alcançou seu ponto mais alto desde maio de 2012 (68,8%), quando Putin iniciou seu terceiro mandato como presidente da Rússia.

Para os 64% dos participantes na pesquisa o acontecimento mais importante da semana passada foi a crise na Ucrânia e a situação da Crimeia, enquanto que 32% tendeu à inauguração dos Jogos Paraolímpicos de Inverno em Sochi, Rússia.

A pesquisa, com margem de erro estimada em menos de 3,4%, foi realizada nos últimos dias 8 e 9 em 130 cidades de 42 das 83 entidades da Federação Russa.

Diferente dos presidentes ocidentais, o presidente russo costuma obter índices de aprovação altos. Ainda que as pesquisas mostravam que desde há 5 anos havia uma tendência à baixa desde o máximo obtido em 2008 (70%).

Segundo os resultados do instituto independente Levada Center em dezembro, 61% dos entrevistados aprovava a atividade de Putin, enquanto que 35% não aprovava, o que se supunha 29% em diferencial a favor do presidente russo. Em qualquer caso se tratava de um dos índices mais baixos em seus anos de governo.

Alguns analistas salientaram que a inflação e a desaceleração econômica fez baixar a aprovação pública do presidente. "Diante de um cenário com preços em constante aumento, várias pessoas veem poucas perspectivas de mudança positiva na situação (econômica)", disse o vice-diretor da Levada Alexei Grazhdankin, se referindo ao que em sua visão seria o principal fator negativo sobre a qualificação de Putin.

Por sua vez, é muito provável que a tensão em torno da Ucrânia e na Crimeia tenha consequências econômicas. Por ora a UE e os EUA ameaçaram com sanções, talvez haja uma provável desvalorização do rublo e se produza uma queda das bolsas. Por sua vez, a Rússia anunciou que também responderá.
 

via RBTH

sábado, 8 de março de 2014

Por que as russas recusam o feminismo?

Os papéis de gênero estão muito demarcados na sociedade russa, mas ao contrário de outras partes do mundo, não há um movimento feminista importante. Quiçá a razão de que seja assim esteja no comunismo soviético.


Provavelmente nenhum estrangeiro que tenha visitado a Rússia se surpreenda ao saber que, em um estudo Kinsey realizado em 2004 se afirmou que, na sociedade russa, existia um "sexismo sem sexo" no qual "por um lado, as diferenças de gênero tenham sido teoricamente ignoradas e politicamente menosprezadas", mas, "por outro lado, tanto a opinião pública como as práticas sociais tenham sido extremamente sexistas, tomando todas as diferenças sexuais empíricas como naturais".

Isso significa, na prática e em linhas gerais, que os russos se aderem a papéis de gênero relativamente estritos: se espera que as mulheres cuidem imaculadamente de suas vestes e higiene, desejem ter muitos filhos, atuem como epicentro da família e sejam muito femininas, enquanto que, dos homens, se espera que cumpram com as responsabilidades financeiras, protejam suas mulheres até a morte e caminhem com certo ar de machão arrogante.

Não obstante, o que surpreende apesar dos estrangeiros é que as mulheres da Rússia tendem a defender estas dualidades de gênero a gritos, igual ou mais que os homens. Em um estudo recente de Levada Center, apenas 38% dos homens e mulheres apoiaram o 'igualitarismo abstrato' na vida doméstica; tarefas como cozinhar, limpar, cuidar das crianças, etc., se etiquetaram como exclusivamente femininas, e a única que se adjudicou em exclusiva dos homens foi a guerra.

Segundo outra pesquisa, 78% dos homens e mulheres acreditam que o habitat natural da mulher é a casa; ainda que cabe salientar que, na família russa, a mulher é quem tradicionalmente toma todas as decisões relacionadas com a economia doméstica e outros problemas do lugar ("o homem é a cabeça, mas a mulher é o pescoço", segundo o ditado popular russo).

E o que é mais importante: quando se fala de feminismo, as mulheres russas costumam soltar uma risada que cotem todas as conotações negativas da negligência, vadiagem, agressividade e vulgaridade. "As feministas... agem como homens", disse sempre uma amiga Sveta com desprezo, fazendo eco do pensamento de muitas mulheres russas. "Por que iria eu querer agir como homem? Estou orgulhosa de ser mulher".

Perguntar-se-ão como se desenvolveu esta intensa aversão ao feminismo. A resposta se encontra, como tantas vezes, na Revolução Bolchevique. Em 1917, a Rússia se converteu em um dos primeiros lugares do mundo que garantia o direito da mulher de votar e animava a unir-se à força trabalhadora, e o igualitarismo foi promovido como um dos grandes ideais da revolução.

Não obstante, como muitos desses ideais, se tratava antes de uma ilusão brilhante. Se seguia esperando que a mulher realizasse todas as tarefas domésticas e relacionadas com os filhos, mas agora tiha que assumir ademais a carga do trabalho fora de casa. Uma carga esmagadora que se expressa melhor no ditado russo: "Eu sou o cavalo e sou o touro, sou a mulher e também o homem".

Esta rima transmite as queixas que as mulheres costumavam lançar, cansadas, ao mundo: "Antes do feminismo, bastava com que fosse uma boa esposa e boa mãe. Agora tem que fazer tudo sozinha". O ícone feminino soviético, frequentemente retratado em panfletos nacionalistas com a foice em uma mão e uma colher na outra, era mais minimalista e produtivo que glamuroso.

Com a queda da União Soviética, tal como explica a psicóloga Yulia Burlakova, "as mulheres russas retomaram com os braços abertos os papéis de gênero tradicionais e desejaram compensar aqueles anos de feminidade subjugada".

Existem vários instrumentos com os quais indagar a hora de fazer uma incursão na história. Em primeiro lugar, antes de etiquetar um país como "atrasado" é importante visualizá-lo em seu próprio contexto histórico para se dar conta de que, o que para uma nação significa progredir, para outra é voltar atrás.

Neste caso, as feministas do Ocidente liberaram sempre uma batalha cujo objetivo é receber um tratamento de igualdade no que se refere a direitos com os homens; mas para as mulheres russas pós-soviéticas se trata de recuperar um tratamento 'próprio de uma mulher', dentro de uma sociedade que tem papéis de gênero muito marcados.

No Ocidente também pode ocorrer que a mulher acabe por adotar as responsabilidades tanto masculinas quanto femininas. Isso é o que percebo quando vejo as famílias típicas de comédias e séries norteamericanas: nelas, a mulher trabalha o período completo, cuida das crianças, se encarrega das tarefas domésticas e depois trata de mandar o 'maridinho', um tipo de criança amarrado à televisão e ao sofá, para que lave a louça. Este é o sonho que nossos antepassados feministas tinham em mente? Creio que não.

Via RBTH

sexta-feira, 7 de março de 2014

Dugin: Horizontes da nossa Revolução de Crimeia a Lisboa

Por Alexandr Dugin

1. Nós não vamos nos limitar em anexar a Crimeia. Isso é uma certeza. Ontem a reunião com a Crimeia foi uma vitória para nós. Hoje isso é uma coisa infinitamente pequena. As proporções aumentam. Os povos da Sul e Leste da Ucrânia estão acordando gradualmente. É exatamente aquela “demorado em arrear” e “suave em cavalgar” (velho provérbio russo).

2. Todo o importante ainda está por vir. Nós não esperamos uma vitória rápida. Tudo será acertado. Agora nós somos testemunhas de uma nova realidade política, é por isso que tudo adiquire um significado especial. Este não é um empreendimento técnico, não é uma barganha. Isto é a história em si mesma. A luta pela Ucrânia – é uma luta para a reunificação dos povos eslavos. Hoje está claro que esta reunião deve ser geograficamente diferente. A Galicia e outras áreas pró-ocidentais, assim como uma grande parte de Kiev, não almejam a União. Nós entendemos isso. Nós não arrastaremos ninguém pela força. Mas nós não deixaremos e nem trairemos os nossos. No entanto, para tudo você tem que lutar e se esforçar para criar uma nova realidade política e histórica.




3. Importante: O poder em Novorossiya (novo estado pró-russo que está em processo de ser criado no momento no Sul e Leste da ex-Ucrânia, também chamado de Ucrânia da Margem-Esquerda) deve ser limpo. Livre de qualquer traço de oligarquia – incluindo russa ou pró-Rússia. Kiev começou a Revolução, mas lá tudo acabou com snipers dos EUA, russofobia suja e exigências de aceitar a Ucrânia na OTAN. Mas tudo poderia ter sido diferente. Oligarcas, magnatas, burocratas corruptos deixaram todos fartos. Se Kiev e Maidan tivessem se rebelado contra eles, sem a OTAN, sem a porca suja Nuland, sem os manipuladores da CIA e a nojenta russofobia, ainda não seria certo em qual lado nós estaríamos hoje. Maidan foi inicialmente por algo bom. Provavelmente. Mas manipulação e a ignorância geral do povo de Kiev (como explicar tudo isso, talvez por um nível baixo de cultura...) transformou tudo em em farsa suja e sangrenta. Mas quando na Praça de Independência apareceu o assassino louco e maníaco russofóbico Sanya Billy com armas automáticas era um sinal irrevogável, uma espécie de última sentença. Ainda havia tempo para escapar daquilo, mas isso não ocorreu. Os Kievanos falharam a revolução. Os gritos de “Rússia” agora na Ucrânia significam o mesmo que “morte aos oligarcas”, “liberdade”, “justiça”. Todas as regiões da Ucrânia não devem agora ser dirigidas por protegidos pró-Rússia, senão as mais honestas, decentes e heroicas pessoas que tiverem o apoio direto do povo. Esta é a democracia direta, sem farça, mediação ou manipulação. Governadores do povo propostos espontaneamente em algumas cidades do Leste da Ucrânia são uma ideia brilhante! Esta é a verdadeira Democracia. E o que a Rada Kievana iria opor a isso? – governadores-oligarcas (Taruta, Poroshenko, o Líder da Congresso Judaico Europeu, Igor Kolomoyskiy...)! O Espírito revolucionário da Maidan vence na verdade no Leste da Ucrânia. Nem mesmo na Crimeia, mas no Leste! Gubarev contra Taruta. Rogov contra o bastardo Kolomoyskiy. Esta é a Revolução – nacional, social e tudo imediatamente! Em Kiev a Revolução falhou, na Novorossiya ela está começando. Em Kiev ela foi pró-EUA, no Sul e no Leste da Ucrânia anti-EUA. Isso explica a cobertura dos fatos no Ocidente.

4. É hora de pensar o que nós faremos em Kiev. É necessário preparar uma nova força. Não necessariamente pró-Rússia. Uma força eslava. Anti-OTAN, anti-oligárquica, uma força realmente popular. Agora nós devemos entender se todos os nacionalistas estão inteiramente engajados pela CIA, oligaquia e russofobia não natural, ou se há alguns dentre eles que podem avaliar a realidade criticamente e objetivamente. Em todo caso, é óbvio que nesta composição, o suposto governo (junta) será demolido antes das eleições. Em tais circunstâncias é impossível conduzir qualquer eleição, já que metade da população ucraniana [está] deixando o antigo país e criando uma nova entidade polítca (Malorossia). Pretensões de preservar as antigas fronteiras da Ucrânia são irrealistas. Nós precisamos de novas pessoas que entendam o que aconteceu e que o aconteceu, aconteceu irreversivelmente e que estejam prontas a se adaptarem rapdamente a novas condições. É na verdade nessas circunstâncias que a Maidan pode se tornar nossa aliada. Se você retirá-la [da vertente] pró-Americana, e de provocadores neo-nazistas que estão movendo rapidamente para o governo (que o povo Ucraniano certamente logo derrubará), a Maidan se torna um centro político interessante. Mas que vai arrumá-la. A Maidan pode, por exemplo, retirar os vampiros como Taruta e Kolomoyskiy do governo e escutar publicamente os argumentos de Paul Gubarev, dos governadores populares de Donetsk, que foram ilegalmente detidos por mercenários. Devem perguntar aos líderes da junta sobre o incidente com os sniper. Podem convidar políticos russos e figuras públicas para aclararem suas posições e suas visões sobre o futuro da Ucrânia. Nenhuma autoridade russaou líder sério vai conversar com a junta ou com cretinos neo-nazistas, mas com o povo de kiev e com a Maidan, por que não... Sendo assim, Kiev não está livre das contas. Não pode ser equiparada com a junta. Existe a junta e existe Kiev. Ela também não é a oradora responsável pela totalidade da Ucrânia da Margem-Oeste, principalmente pela parte de Kiev que está na margem-leste (!). Mas esta (Maidan) ´´e uma entidade política em uma situação emergencial. Agora que está claro que as pessoas foram assassinadas por agentes da CIA e do Mossad, e não por Yanukovich, a história toda parece diferente. Foram líderes da junta que por parte de seus mestres americanos mataram as ”centenas”, mandando-a para o outro mundo (para o céu ou não é uma pergunta aberta).

5. Para o Ucrânia da Margem-Direita também é necessário preparar um projeto político. Chervonaya (Vermelha) Rus. República Ucraniana Ocidental. Muito atraente. Muito carinhoso. Ela também pode não estar com pressa de dar as boas vindas à OTAN, já que isso causará problemas territóriais com os Sub-Cárpatos habitados por certos grupos antigos e particularmente radicais pró-Rússia da etnia Russiny. Mas de qualquer modo, este poderia ser um estado compacto puramente ucraniano, com sua própria língua, sem minorias étnicas ou linguisticas. Um projeto sólido. Seria ainda melhor se este país se tornasse parte do bloco eslavo comum. Mas isso é decisão do povo da Galicia. Ao mesmo tempo, isso iria satisfazer os maiores sonhos dos atuais ultra-nacionalistas. O povo russófono e as pessoas mentalmente normais iriam logo deixar esse lugar. E então seria possível a todos os ucranianos de raça pura se comunicar livremente na sua própria língua e mesmo colocar por todos os lados monumentos a Shukhevych, Bandera, Petlyura ou mesmo Hitler. Da perspectiva da pós-modernidade, tal Estado tem todo o direito de existir. Então lá Yarosh, o líder do Setor Direita, poderia se tornar Presidente, Dmitro Karchinski, chefe do movimento anarco-nacionalista poderia se tornar Ministro da Cultura e o idiota maníaco Sanya “Billy” Musychko o Promotor Geral ou o chefe do Ministério do Interior . Eu sendo completamente sério, a propósito. É uma boa ideia. No próximo estágio historico este enclaveOcidental-Russo de peculiar insanidade pós-moderna pode muito bem vir a existir.

6. No entanto, nossa revolução não irá parar na Ucrania Ocidental. Ela deve ir mais fundo na Europa. Este é o aspecto mais interessante: com o Maidan em Kiev, os EUA abiraram a Caixa de Pandora na Europa. E ela não pode mais ser fechada. Kissinger corretamente disse que o putsch na Praça da Independência de Maidan mostra a Putin o que o está aguardando (Bolotnaya, Eco de Moscou e outros suínos atlantistas domésticos na própria Rússia, a quinta coluna). Mas... é uma ameaça não apenas a Moscou. É uma ameaça e também para a Europa – incluindo a Alemanha, a França, a Itália e todo o resto. Uma vez que os EUA aprenderam a manipular acumplices neo-nazistas, eles podem facilmente repetir o acontecido em qualquer outro país europeu. E eles VÃO REPETIR. Amanhã ou mais tarde. Então já que agora a situação deles está extremamente ruim, é mais provável que seja amanhã.

7. A Europa enfrenta uma Revolução em ambos os casos: se nós, russos, ganharmos e se nós pararmos em algum lugar por pressão da OTAN. Se nós ganharmos, nós começaramos a expansão da ideologia libertadora (contra os americanos) na Europa. É o objetivo do Eurasianismo completo – Europa, de Lisboa a Vladivostok. O Grande Império Eurasiano Continental. E nós o construiremos. Isso significa que a Revolução europeia sera uma Revolução Eurasiana. Este é o nosso último horizonte. E cada passo vitorioso (desde manter a integridade da Rússia no confronto com os separatistas chechenos nos anos 2000 até a libertação da Ossétia do Sul e a Abcásia em agosto de 2008 e até agora na Crimeia em março de 2014) – é um passo em direção à Revolução Europeia. Que será realizada pelo Homem do Destino.

8. Agora o Segundo caso, se nós (Deus nos livre) pararmos. Então a pressão na Ucrânia e o conflito político e civil em seu território e sua repercussão irão se alastrar pela própria Europa. Também será uma Revolução, mas mais próxima àquela que aconteceu no Maidan. Ou seja, ela será salpicada de neo-nazismo à la Breivik e terá a conivência de certos grupos e movimentos identitários. Nos anos recentes na Europa, o Sistema (a oligarquia financeira global e os EUA) mostraram que queriam claramente usar este elemento para uma desestabilização radical da Europa. Se na Ucrânia a energia do Maidan era a russofobia dos neo-nazistas ucranianos, sem a qual a Maidan não iria adquirir uma forma tão radical de encenar um golpe, na Europa o mesmo combustível de ódio se tornará o ódio dos nacionalistas pelos imigrantes, pelo Islã e pelo LGBT. E, da mesma forma, o ódio dos imigrantes, muçulmanos e LGBT’s contra a população nativa representada pelos neo-nazistas em caricatura. Agora o apoio de alguns identitários europeus (muitos, mas não todos) ao Setor Direita está claro – eles possuem os mesmos objetivos estruturais e o mesmo mestre. Deste modo, neste caso também, a Revolução está esperando pela Europa.

Via OpenRevolt

sábado, 30 de novembro de 2013

Rússia proibe a difusão do aborto



Para frear a perda de população por baixa taxa de natalidade, o presidente russo Vladimir Putin afirmou uma lei nesta semana com fim de proibir a difusão do aborto, prática que se tornou epidêmica na nação eurasiática.

Para combater a epidemia do aborto, propôs também proibir abortos gratuitos nos centros de saúde administrados pelo governo, exigir prescrições para a pilula do dia seguinte; exigir o consentimento dos pais para os adolescentes e o consentimento do marido para as mulheres casadas, e exigir uma semana de período de espera antes de realizar um aborto. Outras propostas incluem o aumento da ajuda pública de 2.000 rublos (70 dólares) às mulheres grávidas.

Os abortos são legais na Rússia e o foram desde a era soviética, mas alguns legisladores querem limitar ou proibir estas práticas dizendo que é em parte responsável pela diminuição da população do país.

No início de Outubro um representante oficial da Igreja Ortodoxa Russa criticou os abortos e a sub-rogação como "rebelião contra Deus" e menos de um mês depois, o chefe do comitê da Câmara Baixa para a família e as crianças, Yelena Mizulina, disse em um discurso que a comunidade deve deixar de tolerar os abortos e a sub-rogação, já que ameaçam acabar com a população russa, e o mundo em seu conjunto.

Sem setembro deste ano a vice-ministra de saúde Tatyana Yakovleva anunciou que o número de abortos na Rússia tinha reduzido a um quarto nos últimos cinco anos, mas continua sendo muito alto, em torno de um milhão por ano, enquanto que outras fontes falam de vários milhões.

Steven Mosher, presidente do Population Research Institute, salientou que a Rússia deve mudar sua atitude em relação ao aborto se quiser novas gerações saudáveis.

"Enquanto a sociedade não reconhecer o valor da vida humana e arbitrariamente destruí-la em grande quantidade, será difícil estabelecer uma nova norma de trê filhos. O aborto deve deixar de ser uma forma de vida na Rússia, se é que seu povo queira sobreviver", disse em 2012.


As reformas incluem também a proibição de campanhas de publicidade que incluam mostras gratuitas de medicamentos se estas mostras contiverem narcóticos ou substâncias psicotrópicas, elevar a idade de consentimento voluntário para as provas de drogas ilegais de 16 a 18 anos e infracionar a prática ilegal de medicina popular com multas de até 4.000 rublos (130 dólares).

N.doB.: lembramos ademais que a Rússia de Putin defende a tradição e a religiosidade no país e no mundo, em detrimento das influências estrangeiras e globalistas em todos os países e nações.

Via RT e ANN

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Dugin: O Ocidente atual deveria ser aniquilado


Para muitos dos nossos leitores o nome do filósofo, cientista político, tradicioinalista, professor Alexander Dugin, como seus vários livros, são bem conhecidos. É o motivo pelo qual não começamos por Adão e Eva. Vocês podem encontrar mais informações sobre A. Dugin e seus trabalhos nestes sites: http://www.arcto.ru, http://www.4pt.su, http://dugin.ru

O professor Dugin respondeu a algumas das nossas questões. Segue abaixo a entrevista.

Entrevista: Caro professor, poderíamos começar nossa conversa com sua própria e interessante biografia. Antes de tudo, é verdade o que está escrito no Wikipedia e em outros locais? O que é verdade e o que não é? Pai, que trabalhou na GRU, círculo nazista liderado por E. Golovin, muitas perturbações políticas, intimidade com Putin?

Dugin: É tudo pura mentira. Nem Putin, nem nazista, nem pai do GRU e assim por diante. Minha biografia é minha bibliografia (cf. J. Evola). Eu não mexo no Wikipedia por duas razões:

1)     Há um grupo de administradores liberais que imediatamente restauram todas as mentiras para conservar a minha imagem pejorativa (a guerra de rede – é apenas uma democracia, nada pessoa, mas a democracia é sempre uma mentira);
2)     O indivíduo (bem como eu mesmo) não importa para mim; só a missão importa.

Então eu não me inclino a falar de mim mesmo. Leiam meus livros, formem suas opiniões pessoais sobre minhas ideias primeiro, a personalidade do autor, depois é opcional.

E: As principais coisas a se discutir nesta entrevista são suas ideias, as quais eu considero mais interessantes e globalmente importantes, de que o mundo ocidental parece estar entrando em colapso. É isto? O fim da civilização ocidental foi previsto muito antes. Quanto tempo devemos ainda esperar? Há algo que deve acontecer? Terceira Guerra Mundial? Revolução global? Nada (quer dizer, o colapso como processo natural)?

Dugin: Eu mais penso que nada vai acontecer, nada. Isto é o que é realmente terrível. A eternidade é o momento interminável do tédio. Heidegger estudou em seu trabalho, Die Grundbegriffen der Metaphysik o fenômeno do tédio profundo. Quanto ao caráter existencial do Dasein moderno, Gnostic Basilides descreveu o mundo PÓS-fim como completamente balanceado, o mundo sem eventos. Isto não quer dizer que não hajam mais eventos, mas que não vivenciamos mais os eventos como eventos. O colapso permanente é bem analisado pelo escritor inglês Alex Kurtagic.

O problema real surge quando ninguém percebe ele como problema. Eis onde estamos. O Ocidente é o centro do tédio. Ele não explode, mas implode sempre mais profundamente.

Eles estão certos de que isto durará para sempre. O fim do mundo é a impossibilidade do Mundo de terminar. O mundo inacabável não é mais um Mundo, é a agregação dos fragmentos insignificantes da existência como um todo. Estamos vivendo nas 6-9 hipóteses do Parmênides de Platão – há multitudes(πολλά), não há mais unidade (ν). Um mundo assim não pode existir (de acordo com os neoplatônicos). Eu cocordo com eles, não com a mídia de massa e com a cultura prêt-a-porter ou com os hegemônicos intelectuais.

E: Você publicou muitos livros – nem posso conta-los (você pode?). Eu lembro do primeiro que eu li – foi espantoso em 1999, sobre conspiralogia. Você acredita em uma séria conspiração global como os Bilderberg, Maçonaria, Illuminatti, ou outros grupos que REALMENTE estão atuando hoje? Se sim, por favor, explique como isso funciona e o que deveríamos esperar disto.

Dugin: Não me lembro quantos são os meus livros, mas da qualidade deles. A qualidade é muito diferente porque os livros foram escritos para públicos diversos. A conspiralogia é descrita por mim como um tipo de sociologia primitiva. Para a sociologia há um ponto muito importante: o que a sociedade pensa sobre o que está acontecendo não é menos importante que o que realmente está acontecendo ou que o que os especialistas científicos pensam. Então, estudando as teorias de conspiração acabamos por estudar a mente das pessoas, os mitos, a cultura, os medos, as estruturas gnoseológicas e cognitivas. A crença das pessoas nas conspirações. Significa que eles existem ou subsistem (de acordo com a ontologia diferenciada de Alexius Meinong).

É irônico que você menciona os Bilderberg (grupo internacional oficialmente existente) ou os Maçons (organização historicamente documentada) e os Illuminatti, que são produto das teorias de conspiração modernas (houve uma organização assim no fim do século XVIII, mas logo desapareceu). Os Bilderberg planejam? Os Maçons planejam? Penso que sim. O que eles planejam exatamente? Ninguém sabe a não ser os membros. Os membros não falam sobre o que eles planejam. Então não sabemos muito claramente de seus planos. Mas as pessoas imaginam, deduzem, acham, adivinham. É apaixonante estudar, como elas fazem. Elas expressam medos, desejos subconscientes, compreensão oculta da sociedade, da história, das hierarquias, do destino...apaixonante estudar tudo isso.

E: Você é considerado como o pai do Eurasianismo e da Quarta Teoria Política. Você poderia explicar o foco das suas ideias?

Dugin: O Eurasianismo pensa que a Rússia não é um país, mas uma civilização. Então deveria ser comparada não com os países europeus ou asiáticos, mas com as civilizações europeias, islâmicas ou hindus. A Rússia-Eurásia consiste do caráter moderno e pré-moderno, das culturas e etnias do Leste-Europeu. Esta identidade particular deveria ser reconhecida e reafirmada no contexto do novo projeto de integração. O Eurasianismo nega a universalidade da civilização ocidental e a unidimensionalidade do processo histórico (dirigido pelo liberalismo, pela democracia, direitos humanos, economia de mercado e assim por diante). Há culturas diferentes com diferentes antropologias, ontologias, valores, tempos e espaços. O Ocidente não é nada mais que uma província mundial hipertrofiada e insolente com megalomania. É caso abjeto da hybris. A humanidade deveria lutar contra o Ocidente com fim de pôr suas pretensões nos limites legítimos. A província mundial deveria voltar a ser o que é – a província, o histórico caso isolado, a opção – não um fato universal, normativo ou de objetivo comum.

A Quarta Teoria Política é a teoria que afirma:

1)      Três principais ideologias políticas modernas (o liberalismo, o comunismo/socialismo e o fascismo/nazismo) não são mais adequadas – então precisamos descartar todas elas (ou seja, sem mais liberalismo, socialismo e fascismo – notem o fascismo e comparem com o que eles dizem de mim);
2)      Precisamos construir a Quarta Teoria Política além das três descartadas; dessa vez não pode ser moderna (pós-moderna ou pré-moderna);
3)      O sujeito da Quarta Teoria Política é o Dasein segundo o que Heidegger descreveu em seus trabalhos (não o indivíduo como no liberalismo, nem a classe como no marxismo, nem a raça ou o Estado como no fascismo/nazismo) – O Dasein deveria ser libertado do modo inautêntico de existência;
4)      O Dasein é plural e depende da cultura, de modo que o mundo deve ser multipolar (toda cultura, etnia ou religião tem seu própria Dasein – não estão necessariamente em contradição, mas são diferenciadas).
5)      Clamamos pela revolução existencial mundial dos Daseins – Daseins fas sociedades humanas unidas pela luta contra-hegemônica global – contra o globalismo ocidental e contra o universalismo liberal, assim como contra a a dominação dos EUA.

E: A União Eurasiana estabeleceu-se muitos anos atrás. Agora parece estar no esquecimento, apesar de que se pode ver que a parte oriental do mundo (China, Irã, etc.) está se fortalecendo enquanto a parte ocidental se enfraquece. Prossegue? Qual é a situação da União Eurasiana agora e o que você prevê para o futuro dela?

Dugin: A União Eurasiana é nossa ideia tomada pelos burocratas de Putin. Penso que é somente uma forma de assegurar o futuro da Rússia e a condição indispensável para a multipolaridade. A Rússia deveria estar do lado dos poderes não-ocidentais. Há muitos problemas com a União Eurasiana – objetivos e subjetivos. A hegemonia americana e quinta coluna na Rússia danifica ela, e a ineficácia da burocracia russa torna a situação sempre pior. Não obstante será estabelecida, porque deve ser estabelecida.

E: Guerras e revoluções por toda parte agora... Mali, Síria, Palestina, Tunísia... O que você pensa sobre a situação no Magreb/Oriente Médio? Terminará o sangue e outra guerra de mais de dez anos?

Dugin: Não. Nunca terminará. É o projeto do caos financiado pelo Ocidente enfraquecido a fim de controlar as sociedades não-ocidentais por outros meios. O sangue será espalhado mais e mais. Só quando todos os islâmicos voltarem suas armas contra os hegemônicos ocidentalistas e unirem-se à batalha final dos eurasianistas poderá terminar. O Império continua a dividir, mas não pode mais efetivamente controlar. Então começa a dividir e, e é tudo. Não pode dominar, só matar. Então precisamos revidar.

E: Qual é sua opinião sobre o Islã e o Irã?

Dugin: Eu admiro o Irã e admiro o shiismo e o sufismo. É a tradição espiritual que luta contra a modernidade mirando seu centro. Há muitos tipos de Islã. Gosto do Islã tradicional e tenho algumas dúvidas sobre a versão wahhabista. É uma versão modernista e universalista do Islã e parece funcionar sob os interesses dos EUA como um tipo de unidade sub-imperialista. Em suma, eu apoio o tradicionalismo em todas as religiões. Mas o Irã e a tradição shiita eu os amo com meu coração.

E: Que futuro (próximo e distante) gostaria de ver para o mundo? Qual sua visão?

Dugin: No status quo estamos desprovidos de futuro. Compreendo o futuro existencialmente como o horizonte da existência autêntica do Dasein, como Ereignis (evento/em si mesmo), a vinda do último Deus (letzte Gott). Mas este futuro é incompatível com o Logos decadente da história Ocidental. O Ocidente atual (EUA e em parte a Europa) deveriam ser aniquilados e a humanidade deveria ser reconstruída sob fundamentos diferentes – em face da Morte e do Abismo.

Deveria haver um Novo Começo da Filosofia ou...nada mais. O mesmo nada de agora, não perseguido mais como tal. Assim, o futuro não deveria vir por si mesmo. Nós deveríamos fazê-lo. Mas antes precisamos destruir o que é ou parece ser.

E: Como vejo do Facebook e das páginas da internet, há muitas pessoas prontas para alguma revolucionária mudança de paradigma de suas mentes e talvez ainda revoluções físicas. Mudanças reais estão para surgir no nosso mundo? Poderia prever quando e como?

Dugin: A mudança de paradigma é absolutamente necessária. Eu não vejo homens ou mulheres suficientes e prontos para mudar eles próprios e o mundo em torno deles. Mas vejo alguns. É muito pouco para a esperança, mas muito grande para o desespero. Eu gostaria de ver passos mais decisivos e concretos. É bom que alguns começam a despertar. O ódio ao Ocidente, ao globalismo, ao consumismo, à mídia de massas, às mentiras democráticas, ao lixo dos direitos humanos, ao capitalismo, à ditadura tão chamada “sociedade civil” e à dominação americana estão obviamente crescendo. Então deveríamos seguir adiante. Fraqueza significa revolução e guerra. É pouco provável que eles começarão agora. Mas eles deveriam começar exatamente agora porque amanhã será tarde demais.

E: Desejo a você todo o melhor e agradeço pelas respostas – a última questão: quais são as principais ideias nas quais você está trabalhando agora?

Dugin: No manual de Relações Internacionais para as universidades russas, na Teoria do Mundo Multipolar (publicada, mas ainda em desenvolvimento), no desenvolvimento da Quarta Teoria Política, nos estudos heideggerianos no campo da filosofia (tenho escrito já dois livros sobre Heidegger e continuo trabalhando no mesmo projeto), no tradicionalismo (Henry Corbin, círculo Eranos – tenho comprado recentemente todas as edições do Eranos Jahrbuch na Suíça), na sociologia da imaginação (no estilo de G. Duran – fazem dois anos do meu doutorado sobre o assunto), em novos livros sobre geopolítica (geopolítica histórica da Rússia, regiões do mundo e assim por diante), no platonismo e neoplatonismo, eurasianismo (claro), na teologia ortodoxa, antropologia social e etnossociologia, economia (meios alternativos), e em estudos conservadores.

Também: ensino na Universidade Estatal de Moscou (sendo chefe do departamento de sociologia das Relações Internacionais) – RI, geopolítica, etnossociologia, sociologia; conferências (ao redor do mundo); aconselhando o governo russo e o parlamento (enquanto membro oficial dos conselheiros do chefe de Estado Duma S. Naryshkin); e dirijo o Movimento Internacional Eurasiano.

E: Obrigado.

Dugin: De nada.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

CURITIBA/PR: Conferência Ibero-Americana sobre a Quarta Teoria Política



"Estamos frente aos portões de entrada da pós-modernidade. Seus primeiros sinais já se fazem visíveis. A queda do mundo ideológico que marcou toda luta política pelo intenso século XX configura um deserto espiritual em que nada brota no campo do pensamento. É o deserto subpolítico da pós-modernidade. 

Esquerda e direita desaparecem como topográfica política identificável, a primeira endireita-se em matéria de vínculo econômico, e a segunda esquerdiza-se em matéria de valores e cultura. O que resta da direita apodrece na busca de sistemas para otimizar o status quo, e o que resta da esquerda deliberadamente autoaliena-se em simulacros de revoluções. 


Ilusões débeis e apegos anímicos a ideias já carcomidas pelo poder do capital, bandeiras sujas de dólares e símbolos de uma era de seriedade e luta comercializados no mercado negro ideológico.


Pouca coisa é ideologicamente identificável na pós-modernidade, e o ideal do indivíduo emancipado e desobrigado é talvez a principal delas. Este, por sua vez, é a luz destes tempos, que cegou todas as outras chamas ideológicas. Isto marca não menos o liberalismo como o representante completo no campo das ideias deste ideal, e pensamento reinante em todas as esferas.


Marxismo, Fascismo e teorias políticas interligadas, os quais configuraram outrora alternativas ao mundo liberal, hoje já não se representam como forças políticas, senão como meros atores que cumprem determinados papeis inofensivos no jogo da política pós-moderna. Estas são ideologias completamente derrotadas. O fascismo foi pisado e decapitado de forma fulminante, o marxismo foi humilhado e hoje é mantido como escravo ideológico. E uma vez sem inimigos a altura, o liberalismo transmuta a si mesmo em pós-liberalismo e domina a personalidade do Ocidente. Como uma locomotiva globalista e capitalista, passando por cima de todos os povos e nações, o Ocidente americanista e europeu simplesmente expande seu domínio em direção a um mundo comprimido sob o signo do poder militar e cultural que derivam de uma divindade econômica.
         
Assim, diante das possibilidades e das tendências catastróficas que se fazem notar a medida que a era pós-moderna avança irreversivelmente, necessário se torna produzir uma rota de saída, e, a partir dela, um caminho para o enfrentamento.
          
Este é o espírito da Quarta Teoria Política. 

Já está mais do que na hora de uma verdadeira alternativa vir a tona a tudo isso. Corrupção, usura, exploração, opressão, relativismo, já estão em níveis críticos, pois esgotam-se seus meios de velamento.
          
Aquilo que pela insuficiência, impotência e incompetência, mesmo com todo potencial de enfrentamento, foi incapaz  de abater o grande inimigo americano, liberal e globalista, deve ser redefinido, revirado, reposicionado até o ponto de essencialmente não ser mais o que um dia foi. Deve ser, pois, superado.
          
Uma nova frente de batalha está para ser conquistada. Diante de um grande agente que porta o signo da antítese total, que conduz um signo do mal, todo ideal de oposição carrega uma marca de salvação, de destino, de dever, de libertação. E isto é incorporado na proposta de uma quarta posição política que rompe as barreiras ideológicas do fracasso, da manipulação e nos leva a uma vontade irresistível de lutar.
          
A 1ª Conferência Ibero-Americana Sobre a Quarta Teoria Política é um evento que marca em terras austrais uma nova posição político-ideológica, forjada na certeza inegociável de se superar em criatividade e beligerância todas as formas e estratégias um dia criadas para enfrentar a ideologia liberal dominante, e atingir uma posição geopolítica que proteja os povos da América Austral da dominação imperialista do grande capital.
          
No mundo das ideias esta proposta é das mais empolgantes. Desmontar marxismo, perfurar seu núcleo ideológico e observá-lo desde fora, dissecar o fascismo, retirar e examinar seu sujeito histórico, perceber o próprio liberalismo em sua forma expandida, com suas vertentes, globalização, sistema financeiro, leis econômicas e jurídicas, etc, é um ótimo exercício para um espírito disposto ao desafio de pensar e interpretar a realidade.
          
Esperamos com enorme satisfação a participação de todos, que possam superar as dificuldades de todos os tipos e se fazer presentes neste evento.
          
De toda equipe organizadora do evento e amigos ajudantes, um forte abraço a todos.

Nos vemos em Curitiba."
Evento:
A 1ª Conferência Ibero-Americana sobre a Quarta Teoria Política ocorrerá em Curitiba/PR - Brasil, nos dias 15 e 16 de Novembro de 2013.


Inscrições:
A inscrição só passará a ter validade com o pagamento das taxas previamente estipuladas pela Organização do Evento, as quais devem ser pagas por meio de depósito bancário. Para efetuar o pagamento é necessário enviar um e-mail para 4tpbrasil@gmail.com, informando o interesse em participar do Evento. Entraremos em contato informando a conta corrente para o depósito bancário. Após o pagamento, que deve ser informado enviando o comprovante de depósito scanneado ou fotografia com dados legíveis, o inscrito receberá a resposta de confirmação dentro de 3 dias. 

Obs.: Não é necessário o envio de dados pessoais como RG e CPF por email, porém é obrigatória a apresentação do RG para entrar no local.

TAXA DE INSCRIÇÃO: R$ 50,00. 

Localização:
Centro de Convenções de Curitiba
Rua Barão do Rio Branco, 370 - Centro
Curitiba - PR, 80010-180 

Local privilegiado, próximo de vários pontos turísticos da cidade, de fácil acesso no trajeto aeroporto-local, rodoviária-local e com muitos outros hotéis com preços acessíveis ao redor, sendo alguns indicados para os interessados reservarem suas estadias.
Programação:
Em breve. 


Estadia e Alimentação: 
A hospedagem e alimentação para os dois dias do evento são de responsabilidade do inscrito. Serão oferecidos durante todo o evento lanches da tarde durante um pequeno intervalo entre as apresentações Sugerimos alguns hotéis, pousadas e albergues próximos ao local da Conferência, na região central de Curitiba.
  
Sugestões de Hospedagens


Segue abaixo uma relação de hotéis mais econômicos, próximos ao local em que será realizado o encontro:


Hotel Itamaraty

Av. Presidente Afonso Camargo, 279, em frente à Rodoviária http://www.hotelitamaratycwb.com.br

Palace Hotel Paraná

Rua Barão do Rio Branco, 62 http://www.palacehotelpr.com.br/

Aladdin Hotel - Paraná Suite

Rua Lourenço Pinto, 440 http://www.hotelaladdin.com.br/

Hotel Marabá

Rua André de Barros, 435 http://www.marabahoteis.com.br/

L'Avenue Apart Hotel

Rua XV de Novembro, 526 http://www.lavenueaparthotel.com.br

Apart Hotel Paraty

Rua Riachuelo, 30 http://www.hotelparati.com.br/

Hostel Roma

Rua Barão do Rio Branco, 805 http://www.hostelroma.com.br

EuroHotel

Rua João Negrão, 400 http://www.eurohotel.com.br


Alimentação


Na região central de Curitiba, principalmente próximo ao local do evento, há inúmeros bons restaurantes, para todos os gostos, de diferentes tipos de culinárias. 


Palestrantes:

LEONID SAVIN

Formação: Faculdade Sumy de construção de máquinas; faculdade de teologia; Associação Ucraniana de Educação a Distância; Escola Superior de Jornalismo; assim como inúmeros seminários e cursos de treinamentos sobre ONG’s e organização intra-governamentais como a ONU e o Conselho da Europa. 


ALBERTO BUELLA

Professor Licenciado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires; (DEA) Diplome d'Etudes Approfondies pela Universidade de París - Sorbonne; Doutor em Filosofia pela Universidade de París - Sorbonne.  Nascido em Buenos Aires em 1946, é um filósofo argentino que tem se destacado por seus trabalhos nas áreas de metapolítica, teoria do dissenso e teoria da virtude, tendo sido o fundador da primeira revista de metapolítica ibero-americana, ou hispano-americana, ainda nos anos 90.


Conferência Ibero-Americana sobre a Quarta Teoria Política