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quinta-feira, 20 de junho de 2019

Homo-Imperialismo: Gayzificando o Mundo em benefício do Capital


por Jonathan McCormack

Há -- contam-nos os políticos com os olhos marejados -- povos primitivos ainda tateando de modo obscuro neste ano sem as bênçãos de nossos próprios e iluminados valores sexuais ocidentais. O presidente Trump, portanto, jurou civilizar estas terras atrasadas, promovendo guerras contra a criminalização da homossexualidade. Seu pronunciamento veio logo depois de um relato sobre o enforcamento feito pelo governo iraniano de um homem de 31 anos culpado por sequestrar e estuprar dois garotos de 15 anos de idade. Uma vez que a sodomia lá é ilegal, muitas agências de notícias pensaram apenas em incluir este estuprador de crianças entre a minoria LGBT perseguida no Irã. Neste caso, é provável que a administração de Trump esteja usando os direitos gays como um pretexto sutil para obter influência sobre o Irã. Afinal, a diferença entre um ato de agressão e um de emancipação é apenas um adesivo com arco-íris. Contudo, os direitos globais LGBT conforma um espectro maior. Mobilizar toda uma campanha ao redor do mundo em nome de uma subdivisão menor da população pode parecer extravagante, mas há uma lógica colonial em jogo aqui. A liberdade sexual é meramente um preâmbulo fundamental para a liberação maior -- a liberação do capital.
O gênero, assim nos dizem, é uma construção social. Certamente, há alguma verdade nisso. Segue-se, então, que arranjos sociais diferentes efetivarão uma variedade de identidades sexuais. Foucault, ele mesmo, o queridinho da Esquerda, documentou a construção da identidade homossexual moderna, nascida, diz ele, no século XIX em meio à medicalização da sexualidade. Foi nesse período, ele concluiu, que a sodomia deixou de ser um ato e passou a ser parte da essência interna da personalidade de alguém.

Sem dúvidas, há indivíduos, no Oriente Médio e em outros lugares, que praticam sodomia, mas -- confusamente -- isso não significa que eles necessariamente constroem identidades em torno de tais atos, e certamente não da mesma maneira que ocidentais fazem. O Ocidente está exportando suas próprias noções culturais determinadas da sexualidade enquanto arrogantemente presumem sua universalidade. É uma sexualidade de estilo euro-americana que tem pouco que ver com identidades sexuais estrangeiras. E, conforme Edward Said nos lembra, "imperialismo é a exportação da identidade".

O homem europeu, no sonho febril rousseauniano, imagina um homem universal abstraído da história, o puro sujeito. E então ele se encaixa no molde de um homem do século XXI, branco, cosmopolita de classe média -- l'homme naturel, primitivo, sem civilização, grunhindo na selva -- que ouve NPR e lê The Washington Post.

Um dos filhos de Columbia, Joseph Massad, professor de Política Moderna Árabe e de História Intelectual, reiterou exatamente isto por anos em seu trabalho. Com um fanatismo que supera o da Igreja Católica no auge do fanatismo evangélico, Massad diz que a pressão pelos direitos gays no Oriente Médio é resultado de uma campanha "missionária" orquestrada pelo que ele chama de "Internacional Gay". Em seu livro Sesiring Arabs, ele escreve que "é o próprio discurso da Internacional Gay que produz os homossexuais, assim como gays e lésbicas, onde eles não existem". Ele acrescenta que "é a publicização das identidades socio-sexuais, e não os atos sexuais eles mesmos, que induzem à repressão", e que ao forçar os árabes que praticam sexo entre mesmo gênero para que vão a público, "A Internacional Gay está destruindo as configurações sociais e sexuais de desejo no interesse de reproduzir um mundo à sua própria imagem".

Embora isso se refira ao mundo árabe, a análise de Massad é aplicável a outros países também. Na Rússia, por exemplo, bares gays operam abertamente e sem perseguição. As paradas gay, contudo, são proibidas. Não é a homossexualidade em si, mas a intrusão dela na esfera pública que os russos pensam ser censurável.

O negócio da liberação gay global oficialmente começou quando o presidente Obama fez dos direitos LGBT um pilar da política externa. Mais de US$41 milhões foram destinados ao complexo industrial do glitter, ao lado de uma porção de U$700 milhões reservados para grupos marginalizados para apoiar as comunidades gays e as causas gays em todo o mundo. Uma quantidade substancial foi destinada para a crise na África subsaariana, aparentemente necessitada de paradas de orgulho gay. Para outros desconfortos menores -- epidemia de fome, altas taxas de mortalidade infantil, AIDS, pobreza descontrolada e assim por diante -- Obama estrategicamente usou a ameaça da descontinuidade da assistência para o desenvolvimento como uma arma para oprimir e forçar os Estados africanos a descriminalizar a homossexualidade. Depois do presidente da Uganda assinar uma dura lei anti-gay, por exemplo, a administração Obama astutamente anunciou que o dinheiro para assistência seria cortado ou redirecionado.

Ao mesmo tempo, o Banco Mundial anunciou que estaria atrasando um empréstimo de US$90 milhões para Uganda, alegando que a lei adversamente afetaria os programas de saúde que o empréstimo visaria apoiar. Uma posição intrigante para um banco. Eles justificaram a decisão afirmando que "quando sociedades promulgam leis que previnem pessoas produtivas de participar plenamente na força de trabalho, economias sofrem". A lei de Uganda não preveniria pessoa alguma de trabalhar, embora tenha demandado que nenhum trabalho houvesse que envolva sodomia.

Este é parte de um padrão de subversão da soberania nacional em nome do que o Papa Francisco chamou de "colonização ideológica". Não é surpreendente que o Terceiro Mundo considere que a imposição de valores sexuais estrangeiros seja outra instância da supremacia branca. Na revista do The African Holocaust Society, um grupo de acadêmicos africanos argumentam que os direitos LGBT são 'a porta de entrada para o controle político ocidental sobre nações soberanas (Uganda etc.) e, mais importante, uma ameaça ao nosso populismo (peoplehood) e ao caminho que nós escolhemos como agentes livres para determinar nossa realidade africana".

Em conjunto com as pressões políticas, corporações têm sido, curiosamente, instrumentais em exaltar os benefícios da sodomia. Poder-se-ia argumentar que eles estão apenas lucrando com o capricho, mas estudos mostraram que há pouca evidência de que as iniciativas de responsabilidade social resultam em lucros positivos para os negócios. A verdade é que os direitos gays foram agressivamente promovidos e defendidos por grandes negócios. Centenas de companhias globais, em uma estranha reversão de sua usual neutralidade social, vieram para assinar cartas de amicus para afirmar o casamento entre mesmo sexo em Obergefell.

De acordo com informações dos Funders for LGBTQ Issues, doações corporativas contam para uma considerável porção do grantmaking LGBTQ. Em 2016, o apoio totalizou US$20,4 milhões. Mais de 500 fundações e agências governamentais deram um total de US$524 milhões para causas LGBT em 2015 e 2016 juntos, quase um quarto mais que nos dois anos anteriores. Muito generosos estes CEOs.

E poder-se-ia questiona por que exatamente republicanos bilionários, como o maior doador do Republican Party Paul Singer, estão doando milhões para grupos de ativismo gay. Singer, a propósito, declara para a BBC que "virtualmente inventou os fundos abutres". O financiamento abutre, como descrito pelo The Guardian, acontece quando o país "está em um estado de caos. Quando o país se estabilizou, os fundos abutres retornam para demandar milhões de dólares em interesse de repagamentos e soldos sobre o débito original".

Aqui nós nos movemos mais próximo da verdade. Os avanços dirigidos pela elite de mudar sexualidades alimentam indivíduos desavergonhados que se definem não pela família, nação, filiação religiosa ou tradição, mas antes através de auto-criação de acordo com a vontade libertária individual. Com este chão de fundo, corporações podem então obter controle da população ao ditar e manipular identidades multiformes baseadas em nada mais que apetites atomizados a partir de redes culturais mais amplas.

O objetivo é não criar mais pessoas gays. O casamento de mesmo sexo tem uma importância simbólica; sua vitória no quadro público valida todas as outras relações sexuais libertadas de gerar filhos e compromissos familiares. Controlar a gramática simbólica da sociedade é um meio incrivelmente efetivo de alcançar o domínio. Casais homossexuais são meramente a ponta de lança contemporânea mobilizada na produção de novos ideais normativos.

Sobre a função social do eros liberador, Zygmunt Bauman escreveu que:

"A grande maior das pessoas, homens bem como mulheres, estão hoje totalmente integrados através da sedução mais do que do policiamento, através da propaganda mais do que da doutrinação, necessidade de criação mais do que da regulação normativa.
O erotismo de livre-flutuação é, portanto, eminentemente útil para a tarefa de tencionar para o tipo de identidade que, como todos os outros produtos culturais pós-modernos, é (nas palavras memoráveis de George Steiner) calculado pelo "máximo impacto e pela obsolescência instantânea."

É um alfaiate de identidade feito para o livre-mercado. O homo-capitalismo global disciplina, e então exporta, estas subjetividades revolucionárias mundo afora.

Em seu famoso ensaio "Capitalism and Gay Identity", o historiador John D'Emillo ilustra como a ascensão do trabalho assalariado e a produção de commodity quebrou os agregados familiares, enfraqueceu as relações de parentesco, e produziu o indivíduo moderno -- sem relações fortes com lugar, história ou comunidade, com o sexo separado da função social. Agora liberados da família como uma fonte de renda, os indivíduos podem voar para a anonimidade das grandes cidades em que novas normas sociais, não mais dependentes da organização familiar, permitiram que as identidades homossexuais distintivas florescessem. O desejo sexual foi agora abstraído das obrigações sociais embutidas, inerentes na criação de crianças, e o desejo homossexual pôde funcionar como fator decisivo para a identidade de alguém.

A homossexualidade é comensurável com a ascensão do capitalismo. Países que são realmente socialistas estão bem abaixo no rank de toda medição de liberdade política, liberdades civis, liberdades individuais, e direitos LGBT. Em nome da liberdade individual, os laços sociais são dissolvidos no ácido da lógica de mercado (escolha consumista expandida, disponibilidade e mutação de objetos, competição impiedosa) aplicada às relações humanas. Volker Woltersdorff, escrevendo no Institute for Queer Theory em Berlim, conclui assim: "A des-solidarização é a precondição histórica do reconhecimento estatal de alguns modos não-heterossexuais de viver".

Além disso, isso requere um enorme apoio estatal, pois o pequeno governo é incompatível com a "homossexualidade oficial". Nós vemos no Ocidente como agências de governo tecnocráticos continuamente expansivos chegaram para substituir as antigas instituições intermediárias como a Igreja e a família, que costumavam vigiar e constranger o discurso de normas. Para assegurar os meios de produção discursiva das identidades gays euro-americanas, são necessárias massivas intervenções institucionais.

A estrutura da família estável baseada em identidades sexuais tradicionais -- na transmissão da herança de geração para geração, inseridas em uma comunidade maior -- deve ser derrubada e reconstruída na imagem do Homem-Homo-Neoliberal, do qual o homossexual -- infantil, auto-determinado e autônomo -- é o arquétipo ideal.

Gundula Ludwig, que explora o nexo da ciência política com a teoria queer, descreve como as demandas do novo fluido pós-moderno de uma economia neoliberal impactam a formação de gênero:

"Imaginar um 'estilo de vida' homossexual no qual os sujeitos são flexíveis, dinâmicos e auto-determinados configura gays e lésbicas como modelos de papeis neoliberais...
A diversificação e a pluralização do que conta como uma forma 'normal' ou 'aceitável' de sexualidade, de desejo, de parceria ou família implica que indivíduos e a população são governados de um modo que os ajuda a integrar a governabilidade neoliberal nas práticas e nos comportamentos cotidianos.
A flexibilização do aparato da sexualidade ajuda a produzir uma realidade social que pressupõe a existência de governabilidade neoliberal."

O objetivo é substituir as subjetividades tradicionalmente constituídas com fim de reconstituir as relações sociais maduras para a exploração neoliberal.

No momento, na maioria das nações do Terceiro Mundo, o casamento gay é uma proposição ininteligível, mesmo para casais de mesmo sexo. Para eles, a autoridade para definir relações sociais é recebida da tradição e da religião. A ideia de que alguém pode redefinir o que significa o casamento pressupõe um conjunto de ideologias ocidentais e práticas sociais que não têm qualquer lógica simbólica nestes lugares. Escrevendo em The Encyclopaedia of African Religion, Molefi Kete Asante, um professor na Temple University, afirma que:

"A filosofia africana em geral é a de que a vida e a reprodução da vida sentam no núcleo da sociedade humana. Homens e mulheres têm crianças que ritualizam seus pais e ancestrais. No processo da construção da comunidade, a cultura africana não tem lugar, nem categoria e nem conceito que possa acomodar a homossexualidade enquanto modo de vida porque isto não se encaixa na visão segundo a qual humanos deveriam se reproduzir com o fim de serem lembrados pela eternidade."

Ele segue adiante e afirma que "nada é mais importante que o ciclo da vida a partir dos não-nascidos até os ancestrais; qualquer coisa que romper este ciclo, tal como a homossexualidade enquanto modo de vida, ameaça o próprio núcleo da sociedade africana e de sua filosofia."

O Ocidente deseja usurpar tal autoridade e entregá-las às maquinarias científicas e políticas que se disseminaram como ervas asfixiantes em nossos países.

Na luz da disrupção potencial para modos de vida ancestrais, afirmações chocantes como essas feitas recentemente por Kingsford Sumana Bagbin, o orador adjunto do parlamento de Gana, se tornaram incompreensíveis. À chamada de Theresa May para a inspeção de leis anti-gays, Bagbin respondeu com desprezo: "a homossexualidade é pior que a bomba atômica", ele disse, acrescentando que "não há modo de aceitarmos isso em meu país". Esta estratégia de catalizar e reforçar a poluição sócio-cultural para a governança neoliberal é o que John Millbank chamou de "tirania biopolítica". Em suas palavras,

"a relação (exchange) heterossexual e a reprodução sempre foi precisamente a 'gramática' da relação social como tal. O abandono dessa gramática implicaria, assim, uma sociedade não mais constituída pelo parentesco estendido, mas antes por um estado de controle e de trocas (exchange) e reproduções meramente monetárias."

Esta Ocidentoxização espalha seu próprio, bem único, conjunto de crenças, significados e prioridades sociais na base dos atos sexuais. Uma vez contraído, ele atacará os laços sociais até que tenham se tornado anêmicos, se rompam e feneçam. Corpos governamentais estrangeiros podem então astutamente invadir, injetando forças de mercado implacáveis na cultura hospedeira.

Instalar a lógica do casamento gay nas sociedades tradicionais, finalmente, é trazer à tona todo um novo cosmos, uma regra neoliberal receptiva. Relações, estruturas econômicas, auto-conhecimentos, mesmo palavras elas mesmas, devem tudo passar por um processo de transvaloração radical. Os mestres da nova colonização usam o chicote da ideologia para recriar o logos de um povo. De fato, o direito humano mais ameaçado, no fim das contas, pode ser o direito natural de uma cultura não-Ocidental.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A necessidade de um novo revisionismo histórico

Por Marcelo Gullo Omodeo*
Caricatura do imperialismo inglês,
como um polvo que controla o mundo, do final do século XIX

"A `guerra da independência da Espanha´ foi um fracasso não somente como sustentavam os homens da geração do ‘900, por não conseguir configurar politicamente a grande nação hispano-americana, mas, também, porque as diferentes repúblicas que surgiram, produto da fragmentação dos diferentes Vice-reinados, passaram da dependência formal da Espanha à dependência informal da Grã-Bretanha(...) o instrumento principal, através do qual a Inglaterra havia conseguido a subordinação ideológico-cultural da América espanhola e da Argentina em particular, havia consistido na ``falsificação da história"

Apresentada no primeiro congresso de revisionismo histórico Manuel Dorrego, celebrado em Navarro(província de Buenos Aires), em 14 de maio de 2011.

A vulnerabilidade ideológica

A hipótese sobre a qual repousam as Relações Internacionais, como sustenta Raymond Aron, é dada pelo fato de que as unidades políticas se esforçam em impor, umas às outras, suas vontades.
[1] A Política Internacional compõe-se, sempre, de uma luta de vontades: vontade para impor ou vontade para não se deixar impor a vontade do outro.

Para impor sua vontade, os Estados mais poderosos tendem, num primeiro momento, a tentar impor sua dominação cultural. O exercício da dominação de não encontrar uma resistência adequada por parte do Estado receptor provoca a subordinação ideológico-cultural, e como resultado, o Estado subordinado sofre de uma espécie de síndrome de Imunodeficiência ideológica, assim, o Estado receptor perde até sua vontade de defesa. Podemos afirmar, seguindo o pensamento de Hans Morgenthau, que o objetivo ideal ou teleológico da dominação cultural, em suas palavras, ``imperialismo cultural[2], consiste na conquista das mentalidades de todos os cidadãos que fazem a política do Estado em particular e a cultura do cidadão em geral, ao qual quer subordinar.Porém para alguns pensadores, como Juan José Hernández Arregui a política de subordinação cultural tem como finalidade última não só a ``conquista das mentalidades´´ mas a destruição do ``ser nacional´´ do Estado sujeito à política de subordinação. E ainda que geralmente, segundo Hernández Arregui, o Estado emissor da dominação cultural (o ``Estado metrópole´´ em termos de Hernández Arregui), não consegue o aniquilamento do ser nacional do estado receptor, o emissor consegue criar no receptor, ``… um conjunto orgânico de maneiras de pensar e de sentir, uma visão de mundo extremada e sutilmente fabricada, que se torna em atitude `normal´ de conceitualização da realidade [que] se expressa como uma consideração pessimista da realidade, como um sentimento generalizado de desânimo, de falta de segurança perante a si próprio, e na convicção de que a subordinação do país e sua des-hierarquização cultural, é uma predestinação histórica, com seu equivalente, a ambígua sensação de incapacidade congenita do povo em que nasceu e que só a ajuda estrangeira pode o redimir.´´[3]

É preciso destacar que, embora o exercício de subordinação cultural por parte do Estado emissor não consiga a subordinação ideológica total do Estado receptor, pode condenar profundamente a estrutura de poder deste último. Realiza-se por meio do convencimento de uma parte importante da população, uma vulnerabilidade ideológica que resulta ser -em tempos de paz – a mais grave e perigosa das vulnerabilidades possíveis para o poder nacional porque, ao condicionar o processo da formação de visão do mundo de uma parte importante dos cidadãos e da elite dirigente, condiciona, portanto, a orientação estratégica da política econômica, da política externa e, o que é mais grave ainda, corroe a autoestima da população, debilitando a moral e o caráter nacional, ingredientes indispensáveis - como ensinara Morgenthau – do poder nacional necessário para levar adiante uma política tendendo a alcançar os objetivos de interesse nacional.

Sobre a importância que a subordinação cultural teve e têm para o sucesso da imposição da vontade das grandes potências, refere-se Zbigniew Brzezinski: ``O Império Britânico de ultramar foi adquirido inicialmente mediante uma combinação de explorações, comércio e conquista.Porém, de uma maneira mais semelhante a de seus predecessores romanos e chineses ou de seus rivais franceses e espanhóis, sua capacidade de permanência derivou em grande parte da percepção da superioridade cultural britânica.Essa superioridade não era só uma questão de arrogância subjetiva por parte da classe governante imperial, mas uma perspectiva compartilhada por muitos dos súditos não-britânicos. [...] A superioridade cultural, afirmada com êxito e aceitada com calma, teve como efeito a diminuição de depender de grandes forças para manter o poder do centro imperial.Antes de 1914 só uns poucos milhares de militares e funcionários britânicos controlavam ao redor de sete milhões de quilômetros quadrados e quase quatrocentos milhões de pessoas não-britânicas.´´ [4]

A subordinação ideológico-cultural produz, nos Estados subordinados uma ``superestrutura cultural´´ que forma um verdadeiro ``teto de vidro´´ que impede a criação e a expressão do pensamento anti-hegemônico e o desenvolvimento profissional dos intelectuais que expressam esse pensamento. O uso que aqui damos a expressão ``teto de vidro´´ pretende representar a limitação invisível para o progresso dos intelectuais anti-hegemônicos, tanto nas instituições culturais como nos meios de comunicação de massa. [5]

O surgimento do pensamento nacional

Em alguns dos estados que foram submetidos pelas potências hegemônicas a uma política de subordinação cultural surge, como reação, um pensamento anti-hegemônico que leva adiante uma insubordinação ideológica que é, sempre, a primeira etapa de todo processo emancipatório exitoso. Quando esse pensamento anti-hegemônico consegue se traduzir em uma política de estado, então, se inicia um processo de ´´insubordinação fundadora`` [6] que, ao ser exitoso, consegue romper as cadeias que prendem o Estado, tanto cultural, econômica e politicamente, com a potência hegemônica.

Na Argentina o pensamento anti-hegemônico foi designado pelos seus próprios protagonistas como ``Pensamento Nacional´´ por contraposição ao pensamento produzido pela subordinação cultural, pensamento, este último, ao que denominaram implicitamente, como ´´Pensamento Colonial”. O pensamento colonial, para os homens do pensamento nacional, dava origens a partidos políticos, de esquerda ou de direita, que não questionavam a estrutura material nem a superestrutura cultural da dependência.

Portanto, poderia haver, nos termos expressados por esses mesmos homens do pensamento nacional, tanto uma direita como uma esquerda ´´mercenárias``.

A geração do ‘900 e a primeira insubordinação ideológica

Na América Latina, a primeira insubordinação ideológica foi protagonizada pelos homens da chamada Geração do ‘900, cujas figuras mais representativas foram o uruguaio José Enrique Rodó[7] (1871-1917), o mexicano José Vasconcelos[8] (1882-1959) e o argentino Manuel Ugarte (1875-1951).Eles concluíram que o processo de rebelião colonial hispano-americana iniciado em 1810, havia sido, em realidade, um ´´grande fracasso``, porque ao contrário do processo de rebelião colonial protagonizado pelas Treze Colônias norte-americanas, não havia terminado na ´´Unidade``, isto é, na conformação de um único Estado, mas pelo contrário - a diferença dos desejos e esforços de seus principais heróis, Artigas, San Martín, Belgrano, O’Higgins, Bolívar e Sucre – na fragmentação da nação hispano-americana. [9]

Esta primeira insubordinação ideológica, se materializou politicamente no Aprismo fundado pelo jovem peruano Víctor Raúl Haya de la Torre (1895-1979) que formou o primeiro partido político hispano-americano cuja finalidade era a construção de um estado latino-americano que abarcaria desde o Rio Grande à Tierra del Fuego, abraçando uma ideologia concreta, o pensamento daqueles homens da Geração do ‘900. [10]

A Geração Revisionista e a segunda insubordinação ideológica

A segunda insubordinação ideológica, melhor localizada geograficamente, porém talvez, mais intensa do ponto de vista conceitual originada no Rio da Prata, foi protagonizada por aqueles homens a quem podemos chamar de ´´ A Geração Revisionista``. Ao falar dessa Geração é imprescindível mencionar seus mais destacados integrantes como foram os argentinos Arturo Jauretche (1901-1974), Raúl Scalabrini Ortiz (1899-1959), José María Rosa (1906-1991), José Luis Torres (1901-1965), Arturo Sampay (1911-1977), Rodolfo Puiggrós (1906-1980), José Hernández Arregui  (1913-1974), Jorge Abelardo Ramos (1921-1994), Fermín Chaves (1924-2006), os uruguaios Washington Reyes Abadie (1919-2002), Vivian Trías (1922-1980) e o mais jovem de todos eles, Alberto Methol Ferré (1929-2009). Fora do Rio da Prata, podem também ser considerados inscritos nesta corrente, o boliviano Andrés Soliz Rada e o chileno Pedro Godoy, estes dois últimos ainda vivos.

 A ´´idéia força`` fundamental descoberta pela ´´Geração Revisionista`` que se transformará na pedra angular de todo seu pensamento, consiste em revelar que a ´´guerra de independência da Espanha`` foi um fracasso não só como sustentam os homens da Geração do ‘900, por não se conseguir configurar a grande nação hispano-americana, mas também, porque as distintas repúblicas que surgiram, produto da fragmentação dos diferentes Vice-reinados, passaram da dependência formal da Espanha à dependência informal da Grã-Bretanha; essa dependência informal da Grã-Bretanha fez que todas as Repúblicas hispano-americanas se incorporarem à economia internacional como simples produtores de matérias-primas e, ao contrário de Estados Unidos e Canadá[11], subordinadas ideologicamente, não aplicaram uma política protecionista que houvesse lhes permitido se converter, também, em medianos ou fortemente industrializados, o que, por sua vez, teria facilitado a unidade que propunham os homens do ‘900.  [12]

A Geração Revisionista é uma corrente de pensamento que descobre, também, que o instrumento principal através do qual a Inglaterra conseguiu a subordinação ideológico-cultural da América espanhola e da Argentina em particular, consistiu na ´´falsificação da história``.

É por isso que escreveu Raúl Scalabrini Ortiz:´´Se não temos presente a constante e astuta compulsão, com que a diplomacia inglesa leva estes povos aos destinos planejados e mantidos por eles, as histórias americanas e seus fenômenos sociais são narrações absurdas em que os acontecimentos mais graves ocorrem sem antecedentes e acabam sem consequência. Neles atuam anjos e demônios, não homens...a história oficial argentina é uma obra da imaginação em que os fatos foram consciente e deliberadamente distorcidos, falsificados, de acordo com um plano preconcebido que tende a dissimular o trabalho de intriga feito pela diplomacia inglesa, promotora subterrânea dos principais acontecimentos ocorridos neste continente.´´[13]

Esta simples, porém contundente citação de Scalabrini Ortiz poderia resumir de modo tão claro como é lapidário, o núcleo do descobrimento dessa série de elevadas penas ao serviço da nação: deixar claro que não só fomos desintegrados, mas que fomos para a maior glória, senhorio e riqueza da Inglaterra. Novo amo que se instalou para saquear nossos recursos, frustrar nossas ânsias de liberdade nacional e justiça para nossa gente.

E claro, como a verdade de que seguíamos sendo uma colônia, embora dependentes de outro mestre, a Grã-Bretanha, não era um filme ´´adequado para todo público``, teve-se que ´´inventar`` uma nova história, uma história que oculte, distorça e ajuste os fatos aos desígnios do novo mestre. Essa tarefa que, com maestria de veterano sofista levou adiante Bartolomé Mitre, depois da batalha de Caseros, foi difundida pela escola pública e pelos programas oficiais: ´´A história que nos ensinaram desde pequenos, a história que nos inculcaram como uma verdade que já não é analisada, pressupõe que o território argentino flutuava beatificamente no seio de uma matéria angélica. Não nos cercava nem avidezas nem cobiças estranhas. Tudo de ruim que aconteceu entre nós, entre nós mesmos foi engendrado...as lutas diplomáticas estiveram ausentes de nossas contenções...para esconder a responsabilidade dos verdadeiros instigadores, a história argentina adota esse ar de ficção em que os protagonistas se movem sem relação com as duras realidades desta vida. As revoluções são explicadas como simples explosões passionais e ocorrem sem que ninguém forneça fundos, viveres, munições, armas, equipamentos. O dinheiro não está presente nelas, porque rastreando as pegadas do dinheiro pode-se chegar a descobrir os principais mobilizadores revolucionários... essa história é a maior inibição que pesa sobre nós. A reconstrução da história argentina é, por isso, urgente, inevitável e impostergável.`` [14]

Conhecer a existência de uma verdade diferente da ´´oficial``, como bem aponta Scalabrini Ortiz, no parágrafo anterior, para aqueles homens torna-se impostergável o trabalho de ´´descobrir`` a história verdadeira, a história que nos relegava a servos e nos atava ao destino da potência que, sorrateiramente, nos dominava. Não podiam aqueles homens de política e caneta, deixar de encarar a tarefa de estabelecer, sobre bases sólidas, os princípios ocultos, aquelas premissas que nos levarão a conclusões verdadeiras, longe da falácia mitrista e perto do conhecimento de nossa realidade e de nossos problemas reais, para que munidos de verdades, encaremos a solução dos verdadeiros problemas. Era para isso, necessário revisar (e refutar documentos em mão) a farsa mitrista, alheia à verdade. A essa tarefa se dedicaram, principalmente, entre outros, José Maria Rosa, Jorge Abelardo Ramos e Fermín Chávez.

Segundo Arturo Jauretche, a falsificação da história argentina, prosseguiu como propósito: ´´Impedir, através da desfiguração do passado, que os argentinos possuam a técnica, a atitude para conceber e realizar uma política nacional... desejando que ignoremos como uma nação é construída e como sua formação autêntica é prejudicada, para que ignoremos como se conduz, como se constrói uma política de fins nacionais, uma política nacional... não é pois um problema de historiografia, mas de política: o que nos apresentaram como história é uma política da história em que essa, é só um instrumento de planos mais vastos destinados precisamente a impedir a história, a verdadeira história, com a formação de uma consciência histórica nacional que é a base necessária de toda política da nação... a política da história falsificada é, e foi, a política da anti-nação, da negação do ser e de suas próprias possibilidades, é incontestável, por outro lado, que a verdade histórica é o antecedente de qualquer política que se defina como nacional, e todos terão de concordar na necessária destruição da falsificação que tem impedido que nossa política exista como coisa própria, como criação própria, para um destino próprio.`` [15]

A necessidade de um Novo Revisionismo Histórico para a concretização da nossa segunda independência

Enquanto que a primeira insubordinação ideológica dos homens da Geração do ‘900, materializou-se politicamente no aprismo, a segunda insubordinação ideológica, protagonizada pelos homens da Geração Revisionista, materializou-se no peronismo que iniciou, em 1945, um processo de Insubordinação Fundante que foi abortado, quando produzido, dez anos depois, induzido pela Inglaterra e pelos Estados Unidos, o golpe de estado que derrubou o governo constitucional de Juan Domingo Perón (1895-1974). Caído o peronismo, foi vítima, como havia sido, em sua época, o rosismo [16], da falsificação da história, e se apresentou o governo peronista, como um governo ´´populista``, a Perón como um General fascista e a seu grande amor e companheira, María Eva Duarte de Perón, Evita (1919-1952), como uma ´´revolucionária``, oposta ao General burguês que era incapaz de levar adiante a revolução, criando, dessa forma o ´´evitismo`` como forma superior do anti-peronismo.[17].

Foi então, que os homens da Geração Revisionista, empreenderam a tarefa de reivindicar o peronismo, como já haviam feito com o rosismo, porém sua tarefa permaneceu inconclusa porque, muitos destes homens de caneta e política, os surpreendeu, antes, a morte. Concluir essa tarefa, é a missão inevitável do Novo Revisionismo Histórico.

*Marcelo Gullo nasceu na cidade de Rosário em 1963. Nos primeiros meses de 1981, começou sua militância política contra a ditadura militar. Doutor em Ciência Política pela Universidade del Salvador, Bacharel pela Universidade Nacional de Rosário, Graduado em Estudos Internacionais pela Escola Diplomática de Madri, obteve o Diploma de Estudos Superiores em Relações Internacionais, especialização em História e Política Internacional, pelo ´´ Institut Universitaire de Hautes Etudes Internationales`` da Universidade de Genebra. Discípulo do cientista político brasileiro Helio Jaguaribe e do sociólogo e historiador uruguaio Alberto Methol Ferré, publicou numerosos artigos e livros e é acessor em matéria de Relações Internacionais da Federação Latino-americana de Trabalhadores da Educação e da Cultura (FLATEC) e professor de História Argentina na UNLa (Universidade Nacional de Lanús).


[1] Ver Aron, Raymond, Paix et guerre entre les nations (avec une presentation inédite de l’auteur), Paris, Ed. Calmann-Lévy, 1984.

[2] Hans Morgenthau define o imperialismo cultural do seguinte modo: ´´Se alguém pudesse imaginar a cultura e, mais particularmente, a ideologia política de um Estado A com todos seus objetivos imperialistas concretos em processo de conquistar as mentalidades de todos os cidadãos que fazem a política de um estado B, observaríamos que o primeiro dos estados teria conquistado uma vitória mais que completa e teria estabelecido seu domínio sobre uma base mais sólida que a de qualquer conquistador militar ou amo econômico. O Estado A não precisaria ameaçar com a força militar ou usar pressões econômicas para alcançar seus fins. Para isso, a subordinação do Estado B à sua vontade teria sido produzida pela persuasão de uma cultura superior e por uma maior atrativo de sua filosofia política``. Morghentau, Hans, Política entre as nações. A luta pelo poder e pela paz, Buenos Aires, Grupo Editor Latino – americano, 1986, p. 86.

[3] Hernández Arregui, Juan José, Nacionalismo e libertação, Buenos Aires, Ed. Peña Lillo, 2004, p.140.

[4] Brzezinski, Zbigniew, O grande conselho mundial. A supremacia estadunidense e seus imperativos geoestratégicos, Barcelona, Ed. Paidos, 1998, p.29.

[5] Segundo as reflexões de Gustavo Battistoni, podemos dizer que os intelectuais anti-hegemônicos, são dissidentes do sistema que, ao não aceitar as ideias hegemônicas, sofrem, como castigo, o esquecimento. Pela pressão da superestrutura cultural que, nos países subordinados, está a serviço das estruturas do poder mundial.  BATTISTONI, Gustavo, Dissidentes e esquecidos, Rosario, Ed. Germinal, 2008.

[6] Sobre o conceito de Insubordinação Fundante ver Gullo, Marcelo, A Insubordinação Fundante, Breve história da construção do poder das nações, Buenos Aires, Ed. Biblos, 2008.

[7] Foi com a geração do ‘900 que, após cem anos de solidão, se resgata, pelo menos intelectualmente, a unidade histórica da América Latina. A Geração do ‘900 foi a primeira – após o fim da guerra da independência – que concebeu a ideia de que todas as repúblicas hispânicas eram artificiais, na realidade, eram parte de uma mesma pátria dividida. Um dos membros mais destacados desta geração, o uruguaio José Enrique Rodó, foi o primeiro que, no Rio da Prata, reivindicou Simón Bolívar, e retomou a ideia bolivariana de que todas as repúblicas hispano-americanas eram apenas fragmentos de uma Pátria Grande. É, nesse sentido, que afirma Rodó, já em 1905: “Pátria é, para os hispano-americanos, a América espanhola. Dentro do sentimento de Pátria, cabe o sentimento de adesão, não menos natural e indestrutível para a província, para a região, para a comarca; e províncias, regiões ou comarcas de nossa pátria, são as nações em que ela politicamente se divide... A unidade política que consagre e encarne essa unidade moral – o sonho de Bolívar -, é ainda um sonho cuja realidade não verão talvez as gerações hoje vivas. O que importa! A Itália não era apenas a ‘expressão geográfica’ de Metternich, antes de a espada de Garibaldi e o apostolado de Mazzini a constituírem em expressão política”. RODO, José Enrique, El Mirador de Próspero, Barcelona, Ed. Cervantes, 1928, p. 170.

[8] Significativamente José Vasconcelos em 1923, por ocasião de seu discurso que pronunciou na Faculdade de Humanidades de Santiago do Chile, dia em que recebeu o grau de professor honorário, argumentou: ´´Eu vejo a bandeira ibero-americana flutuante, uma só, no Brasil, no México, no Peru e na Argentina, no Chile e no Equador, e me sinto nesta Universidade de Santiago tão encarregado de responsabilidades com o presente, como se aqui mesmo estivesse passado todos meus anos.`` Claridad, Lima, Ano 1, maio, 1923, p.2.

[9] A este respeito afirma Manuel Ugarte em sua obra ´´O futuro da América Espanhola``, os seguintes conceitos: ´´Contemplemos o mapa da América Latina. O que primeiro ressalta aos olhos é o contraste entre a unidade dos anglo-saxões, reunidos com toda autonomia que implica um regime eminentemente federal, baixo uma só bandeira, em uma nação única, e o desmantelamento do latinos, divididos em vinte nações, algumas vezes indiferentes entre si e outras hostis. Ante a tela pintada que representa o Novo Mundo é impossível evitar a comparação. Se a América do Norte, após o impulso de 1775, houvesse sancionado a dispersão de seus fragmentos para formar repúblicas independentes; se Geórgia, Maryland, Rhode Island, Nova Iorque, Nova Jersey, Connecticut, New Hampshire, Maine, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Pensilvânia houvessem se erguido em nações autônomas, comprovaríamos o progresso implausível distintivo dos Yankees? O que facilitou foi a união das treze jurisdições coloniais que se separaram da Inglaterra, jurisdições que estavam longe de apresentarem a homogeneidade que notamos entre as que se separaram da Espanha. Esse é o ponto de partida da superioridade anglo-saxã, no Novo Mundo. Apesar da Guerra da Secessão o interesse supremo se sobrepôs, no Norte, às convenções regionais e o povo inteiro se lançou ao topo, enquanto no sul, subdividíamos o esforço deslumbrados por apetites e liberdades teóricas que nos faria adormecer``. UGARTE, Manuel, O futuro da América Espanhola, Valência, Ed. F Sempere, 1911, p 110.

[10] Em 29 de junho de 1925, seguindo a convocação de José Ingenieros realizou-se uma assembléia anti-imperialista em Paris, na Maison de Savants, na rua Danton, para protestar contra a ameaça estadunidense de invadir o México. No cenário o melhor do pensamento ibero-americano. Miguel de Unamuno, José Vasconcelos, Manuel Ugarte, Eduardo Ortega y Gasset, o poeta guatemalteco Miguel Ángel Asturias, o líder estudantil uruguaio Carlos Quijano – mais tarde diretor do Semanário ´´Marcha`` - e Vítor Raúl Haya de la Torre.

O ato foi encerrado com as seguintes palavras de Vítor Raúl Haya de la Torre: ´´Um dos mais importantes planos do imperialismo é manter a nossa América dividida, América Latina unida, federada, formaria um dos países mais poderosos do mundo e seria visto como um perigo... Consequentemente, o plano mais simples é... nos dividir. O melhor instrumento para esta tarefa são as oligarquias crioulas, e a palavra mágica para a execução é ´pátria`. Pátria pequena e patriotismo pequeno, na América Latina, são as Clestinas do imperialismo. Patriotismo significa hostilidade ao vizinho, ódio, xenofobia, nacionalismo provinciano e bastardo. E sabem bem quem nos dominam na América Latina que o culto da pequena pátria é um culto suicida. Sabem bem que dividir nossa pátria com ódios é abrir as portas ao conquistador...Nossas classes dominantes atraiçoam-nos, vendem-nos, são nossos inimigos de dentro. O único caminho dos povos latino-americanos que lutam por sua liberdade é se unir contra essas classes, derrubá-las do poder, castigar sua traição. Essa é a grande missão da nova geração revolucionária anti-imperialista da América Latina. Acusar e punir os mercadores da pátria pequena e formar a pátria grande``. HAYA DE LA TORRE, Víctor Raúl, Para a Emancipação da América Latina, Buenos Aires, Ed. Gleizer, 1927, p. 108

[11] No que diz respeito a história política e econômica do Canadá, é necessário assinalar que: durante a campanha eleitoral de 1878 o líder do partido conservador John Mcdonald levantou as bandeiras do protecionismo e da industrialização. Seus adversários do partido liberal, a do destino agrário do Canadá. O partido liberal defendia mais livre comércio para a saída da crise, o partido conservador mais e mais protecionismo econômico, tudo o que os industriais necessitavam. São significativas as seguintes palavras que Mcdonald pronunciou em um encontro com industriais: ``Não posso dizer que tipo de proteção eles exigem. Porém, deixemos que cada industrial nos diga o quer, que nós trataremos de dar o que necessitam´´. Nas eleições de 1878, o velho líder conservador John Mcdonald, obteve um grande triunfo eleitoral. Em 14 de março de 1879 a Câmara dos Comuns, sancionou oficialmente a National Policy, estabelecendo desta forma uma forte política protecionista que duraria por mais de 50 anos.

[12] Diferente da Argentina que após a batalha de Caseros levantou a bandeira do livre comércio, o Estados Unidos foi, até depois da Segunda Guerra Mundial, o bastião mais poderoso das políticas protecionistas e seu lar intelectual. Em 1816, a tarifa para quase todos os produtos manufaturados era de 35%. Em 1820, a tarifa média para os produtos manufaturados era de 40 %. Em 1832, a Lei Tarifária concedeu uma proteção especial de 45% para os produtos manufaturados de lã e 50% para os tecidos de algodão. Em 1875, as tarifas para produtos manufaturados oscilavam entre 35% e 45%. Somente em 1913, houve uma diminuição das tarifas, porém a medida foi revertida um ano mais tarde, quando estourou a Primeira Guerra Mundial. Em 1922, a porcentagem paga sob produtos manufaturados de importação, subiu 30%. Em 1925, a tarifa média dos produtos manufaturados era de 37% e, em 1931, de 48%. Todavia em 1960, os Estados Unidos mantiveram uma tarifa média de 13%. A este respeito, ver Chang, Ha-Joon, Remova a escada. A estratégia de desenvolvimento em perspectiva histórica, Madrid, Ed Instituto Complutense de Estudos Internacionais (ICEI), 2004 e SEVARES, Julio, Por que cresceram os países que cresceram, Buenos Aires, Ed Edhasa, 2010.

[13] Scalabrini Ortiz, Raúl, Política Britânica no Rio da Prata, Buenos Aires, Ed. Sol 90, 2001, Págs. 46 e 47.

[14] Ibid., Pgs. 47 a 49.

[15] JAURETCHE, Arturo. Política Nacional e Revisionismo Histórico, Buenos Aires, Ed. Corregidor, 2006, p. 14 a 16.

[16] ``A ``Revolução Libertadora´´ de 1955 queria fazer com o peronismo a mesma política da história que havia feito com os federais, reforçada pelas cátedras da Educação Democrática e pelas medidas destinadas a enterrar o passado, proibindo símbolos, cânticos e retratos... Por exemplo, para prejudicar Perón, tentaram identificá-lo com Rosas e resultou que Rosas saiu ganhando porque então o povo começou a entendê-lo´´ JAURETCHE, Arturo, ``Os vencedores de Caseros não fizeram uma história da política mas uma política da história´´. Crisis, dezembro de 1973.

[17] A respeito afirma Noberto Galasso: ``Na polícia armada da frente de libertação nacional, o General necessitava de um contato direto com ‘a espinha dorsal’ - os sindicatos – e essa tarefa foi realizada por ela, que já começou a ser ‘Evita’ e deixou os luxuosos vestidos pelo terno de alfaiate... Então, veio sua viagem à Europa e ao regressar, põe em marcha a Fundação, duplicando assim a tarefa social de apoiar o movimento. Ali entregou sua vida. ‘Não foi caridade’ – recordava seu confessor, o padre Hernán Benítez -. Era preciso ficar até a madrugada para responder às cartas porque nenhum argentino deveria ficar desapontado por falta de resposta, superando a fraqueza dos 38 quilos. O povo entendeu esse amor desenfreado. A oligarquia também por isso à odiava: ‘Viva o câncer’ escreveram nas paredes. Ela, consumida pela doença, disse suas últimas palavras: ‘Obrigado, Juan’. Os evitistas de última hora jamais serão capazes de compreendê-lo, esse é o ‘evistismo anti-perón’ que como disse alguém, é o estágio superior do gorilismo.” GALASSO, Norberto, Aquela mulher, segunda-feira, 9 de maio de 2011.

Tradução: Elvis Braz Fernandes

domingo, 15 de dezembro de 2013

660 indivíduos e 147 corporações controlam a economia mundial


Um estudo da Universidade de Zurique revelou que um pequeno grupo de 147 grandes corporações transnacionais, principalmente financeiras e extrativistas de minério, na prática controlam a economia global. O estudo foi o primeiro a analisar 43.060 corporações transnacionais e desvendar a teia de aranha da propriedade entre elas, conseguindo identificar 147 companhias que formam uma "super-entidade"

O pequeno grupo está estreitamente interconectado através dos conselhos administrativos corporativos e constitui uma rede de poder que poderia ser vulnerável ao colapso e propensa ao "risco sistêmico", segundo diversas opiniões. O Projeto Censurado da Universidade Sonoma State da Califórnia desclassificou esta notícia sepultada pelos meios de comunicação e seu ex-diretor Peter Phillips, professor de sociologia nesta universidade, ex-diretor do Projeto Censurado e atual presidente da Fundação Midia Freedom/Project Censored, a citou em seu trabalho "The Global 1%: Exposing the Transnational Ruling Class" (1%: exposição da classe dominante transnacional), firmado com Kimberly Soeiro e publicado em Projectcensored.org.

Os autores do estudo são Stefania Vitali, James B. Glattfelder e Stefano Battinson, investigadores da Universidade de Zurique (Suíça), que publicaram seu trabalho em 26 de outubro de 2011, sob o título "A Rede de Controle Corporativo Global" (The Network of Global Corporate Control) na revista científica PlosOne.org.


Na representação do estudo publicado em PlosOne, os autores escreveram: "A estrutura da rede de controle das empresas transnacionais afeta a competência do mercado mundial e a estabilidade financeira. Até agora, foram estudadas só pequenas mostras nacionais e não existia uma metodologia adequada para avaliar o controle a nível mundial. Se apresenta a primeira investigação da arquitetura da rede de propriedade internacional, junto com o cálculo da função mantida por cada jogador global".

"Descobrimos que as corporações transnacionais formam uma gigantesca estrutura como gravata borboleta e que uma grande parte dos fluxos de controle conduzem a um pequeno núcleo muito unido de instituições financeiras. Este núcleo pode ser visto como um bem econômico, uma "super-entidade" que planeja novas questões importantes, tanto para os investigadores como responsáveis políticos".

O jornal conservador britânico Daily Mail foi talvez o único do mundo que acolheu esta notícia, em 20 de outubro de 2011, apresentada por Rob Waugh sob o chamado titular "Existe uma "super-corporação que dirige a economia global? O estudo clama que poderia ser terrivelmente instável. A investigação descobriu que 147 empresas criaram uma "super-entidade" dentro do grupo, controlando 40% da riqueza".

Waugh explica que o estudo da Universidade de Zurique "prova" que um pequeno grupo de companhias - principalmente bancos - exerce um poder enorme sobre a economia global. O trabalho foi o primeiro a examinar um total de 43.060 corporações transnacionais, a teia de aranha da propriedade entre elas, e estabeleceu um "mapa" de 1.318 empresas como coração da economia global.

"O estudo encontrou que 147 empresas desenvolveram em seu interior uma "super-entidade", controladora de 40% de sua riqueza. Todos possuem parte ou totalidade de um e outro. A maioria são bancos - os 20 maiores, incluídos Barclays e Goldman Sachs. Mas a estreita relação significa que a rede poderia ser vulnerável ao colapso", escreveu Waugh.

Mapa-mundi da riqueza

O tamanho dos círculos representa os ingressos. Os círculos roxos são "corporações super-conectadas" enquanto os amarelos são "corporações muito conectadas". As 1.318 empresas transnacionais que formam o núcleo da economia globalizada mostram suas conexões de propriedade parcial entre uns e outros, e o tamanho dos círculos corresponde aos ingressos. Através das empresas seus proprietários controlam a maior parte da economia "real" (Ilustração dos autores, PlosOne, 26/10/2012)

"De fato, menos de 1% das empresas foi capaz de controlar 40% de toda a rede", disse ao Dialy Mail James Glattfelder, teórico de sistemas complexos do Instituto Federal Suíço de Zurique, um dos três autores da investigação.

Algumas hipóteses do estudo foram criticadas, como a ideia de que propriedade equivale a controle. "Não obstante, os investigadores suiços não têm nenhum interesse pessoal: limitaram-se a aplicar na economia mundial modelos matemáticos utilizados habitualmente para modelas sistemas naturais, usando Orbis 2007, uma base de dados que contém 37 milhões de companhias e investidores", informou Waugh.

Economistas como John Driffil,, da Universidade de Londres, especialista em macroeconomia, disse à revista New Scientist que o valor do estudo não radicava em ver quem controla a economia global, mas mostra as estreitas conexões entre as maiores corporações do mundo. O colapso financeiro de 2008 mostrou que este tipo de rede estreitamente unida pode ser instável. "Se uma empresa sofre angústia, esta se propaga", disse Glattfelder.

Para Rob Waugh e para o Daily Mail um "porém": "Parece pouco provável que as 147 corporações no coração da economia mundial possam exercer um poder político real, pois representam muitos interesses", assegurou o jornal conservador britânico.

A riqueza global do mundo é estimada em torno de 200 bilhões de dólares, ou seja, duas centenas de milhões de milhões. Segundo Peter Phillips e Kimberly Soeiro, o 1% mais rico da população do planeta agrupa, aproximadamente, 40 milhões de adultos. Estas pessoas constituem o segmento mais rico dos primeiros níveis da população dos países mais desenvolvidos e, intermitentemente, em outras regiões.

Segundo o livro de David Rothkop "Super-classe: A elite do poder mundial e do mundo que está criando", a super elite abarcaria aproximadamente 0,0001% (1 milhonésimo) da população do mundo e compreenderia uns 6.000 a 7.000 pessoas, ainda que outros salientam 6.660. Entre esse grupo haveria de buscar os donos das 147 corporações que cita o estudo dos investigadores de Zurique.

O 1% GLOBAL: 660 INDIVÍDUOS E 147 CORPORAÇÕES CONTROLAM A ECONOMIA MUNDIAL

Desmascaramento da super classe dominante transnacional

Peter Phillips e Kimberly Soeiro*

Este estudo pergunta "quem são o 1% da elite do poder do mundo? e como operam em uníssono sobre os 99% restante para incrementar suas próprias ganâncias privadas?" Examinamos uma mostra do 1%: o setor mineiro, cujas corporações extraem material de setores comuns globais da Terra e utilizam mão de obra barata para acumular riqueza. O valor do material removido por estas grandes companhias petrolíferas, de gás e variadas organizações de extração de minerais, excede em longe o custo real de extração. Também examinamos o setor investidor do 1% global: corporações cuja atividade primária consiste em acumular e reinvestir capital.

Este setor inclui os bancos centrais, as maiores empresas de gestão de dinheiro para o investimento e outras corporações cujos esforços primários são a concentração e a reprodução do dinheiro, como companhias de seguros. Finalmente, analisamos como as redes globais da elite centralizada do poder - o 1%, suas companhias, e os diversos governos a seu serviço - planejam, manipulam e fazem cumprir políticas que beneficiam sua concentração contínua de riqueza e poder. Demonstramos como o império militar-industrial-midiático EUA/OTAN atua em serviço da classe corporativa transnacional na proteção do capital internacional no mundo.

O "Movimento Ocupa" desenvolveu uma marca, "o outro 99%", que resume a grande desigualdade de riqueza e poder entre o 1% mais rico do mundo e o resto de nós. Enquanto o mantra dos 99%, indubitavelmente, serve como ferramenta de motivação para envolver abertamente mais gente, explica muito pouco sobre quem integra o 1% e como mantêm seu poder no mundo. Ainda que boa porção da investigação acadêmica se ocupou da elite do poder nos EUA, só na metade da última década se investigou a emergência de uma classe corporativa transnacional[1].

A mais destacada entre as primeiras obras sobre a ideia de 1% interconectado dentro do capitalismo global foi o livro A Classe Capitalista Transnacional, de Leslie Sklair, 2001 [1]. Sklair acreditou que a globalização moveria as corporações transnacionais (CTN) em papéis internacionais mais amplos, que conduziriam os estados de origem das corporações a papéis menos importantes que os acordos internacionais desenvolvidos através da Organização Mundial do Comércio (OMC) e de outros organismos. O que emergia destas corporações era uma classe capitalista transnacional, cujos membros e interesses incrementariam cada vez mais seus alcances internacionais, enquanto todavia estavam enraizados em suas sociedades. Sklair escreveu:

"A classe capitalista transnacional se pode dividir analiticamente em quatro frações principais: (i) donos e reguladores das CNTs e seus afiliados locais; (ii) burocratas e políticos da globalização; (iii) profissionais da globalização; (iv) elites do consumismo (comerciantes e mídia)... por suposto, também é importante observar que a classe corporativa transnacional (CCT) e cada uma de suas frações, não sempre estão unidas totalmente diante de cada problema. Não obstante, em seu conjunto, as pessoas principais destes grupos constituem uma elite de poder mundial, uma classe dominante ou um círculo íntimo, no sentido em que estes termos são utilizados para caracterizar as estruturas de classes dominantes de países específicos" [3]

Estima-se que a riqueza do mundo total está em torno dos 200 bilhões de dólares, com EUA e Europa retendo, aproximadamente, 63%. Para estar entre a metade mais rica do mundo, um adulto necessita apenas de 4.000 dólares em ações resultadas de dívidas. Um adulto requer mais de 72 milhões para pertencer aos 10% superiores de proprietários globais de riqueza e mais de 588 milhões para ser membro do 1%. Em 2010, o 1% superior dos mais ricos do mundo tinha ocultado mais de 21 a 32 bilhões de dólares em contas bancárias secretas isentas de impostos por todo o mundo [4].

Enquanto isso, a metade mais pobre da população global conjunta possui menos de 2% da riqueza global [5]. O Banco Mundial divulgou em 2008 que 1,29 bilhões de pessoas viviam em extrema pobreza, com menos de 1,25 dólar por dia, e outros 1.200 milhões mais viviam com menos de 2 dólares por dia [6]. Starvation.net reportou que 35 mil pessoas, principalmente crianças pequenas, morrem de fome por dia no mundo todo [7].

O número de mortes desnecessárias excedeu os 300 milhões durante os últimos 40 anos. Os granjeiros de todo o planeta produzem mais que o suficiente de comida para alimentar adequadamente o mundo inteiro. A produção global de grãos de 2007 cresceu a 2,3 bilhões de toneladas, 4% mais que no ano anterior, mas cada dia um bilhão de pessoas passam fome. Grain.org descreve as razões básicas da fome atual no artigo "As corporações todavia estão fazendo uma matança por fome": enquanto os granjeiros produzem bastante comida para alimentar o mundo, os especuladores destes commodities e os grandes comerciantes de grão como Cargill controlam os preços e a distribuição global de alimentos [8].

Também é importante examinar como se cria riqueza e como se concentra. Historicamente, a riqueza foi capturada e concentrada por conquista por diversos grupos poderosos. Para um exemplo histórico basta só uma mirada na apropriação pela Espanha da riqueza dos impérios Asteca e Inca no começo do século XVI. A história dos impérios romano e britânico também mostra exemplos.

Uma vez adquirida, então a riqueza se pode utilizar para estabelecer meios de produção, tais como as antigas fábricas britânicas de algodão, que exploram a mão de obra para produzir mercadorias cujo valor de intercâmbio é superior ao custo do trabalho, um processo analisado por Karl Marx em O Capital [9].

O negócio organizado contrata trabalhadores que são pagos por baixo do valor de sua força de trabalho. O resultado é a criação do que Marx chamou mais-valia, um valor superior ao custo do trabalho. A criação da mais valia permite, a quem possui os meios de produção, concentrar mais capital.

Além disso, a concentração do capital acelera a exploração de recursos naturais por empresários privados, ainda que realmente estes recursos naturais sejam a herança comum de todos os seres vivos [10]. Neste artigo, perguntamos: quem são o 1% da elite do poder do mundo? E em que medida atuam em uníssono para suas próprias ganâncias privadas e benefícios a custo dos 99%?

Examinaremos uma mostra do 1%: o setor mineiro-extrativista, cujas corporações obtêm material tirado de campos comuns da terra e usam mão de obra barata para acumular riqueza. Se trata das corporações dedicadas a extrair petróleo, gás e outras companhias que extraem minerais. O valor do material retirado excede em longe o custo real da extração.

Também examinaremos o setor de investimento do 1%: corporações cuja atividade primária é amassar e reinvestir capital. Este setor inclui os bancos centrais, as maiores empresas de gestão de investimento monetário e outras corporações como as companhias de seguros que apontam à concentração e ampliação do dinheiro.

Finalmente, analisamos como as redes globais do poder centralizado - a elite do 1%, suas companhias e variados governos a seu serviço - planejam, manipulam e fazem cumprir políticas que beneficiam sua concentração contínua de riqueza e poder.

O setor extrator: o caso de Freeport-McMoRan (FCX).

Freepor-McMoRan (FCX) é o maior extrator mundial de cobre e ouro. A companhia controla depósitos enormes em Papua, Indonésia; também opera no Norte e na América do Sul e na África. Em 2010 vendeu 3,9 bilhões de libras de cobre, 1,9 milhões de onças de ouro e 67 milhões de libras de milbdeno. Em 2010 reportou ingressos de 18,9 bilhões de dólares e uma renda líquida de 4,2 bilhões [11].

A mina Grasberg de Papua Indonésia emprega 23.000 trabalhadores com salários abaixo de 3 dólares por hora. Em setembro de 2011 os trabalhadores foram às ruas por salários melhores e melhores condições de trabalho. Freeport tinha oferecido um aumento de 22% e os manifestantes disseram que não era suficiente, exigindo um padrão internacional de 17 a 43 dólares por hora. O conflito salarial atraiu os membros de uma tribo local, que tinham seus próprios problemas com respeito a direitos de terra e contaminação. Armados com lanças e flechas, se uniram aos trabalhadores que bloqueavam os caminhos de acesso à mina [12]. Durante a tentativa dos manifestantes de bloquear ônibus repletos de trabalhadores de substituição, as forças de segurança do Estado mataram e feriram vários manifestantes.

Freeport foi criticada por pagar às autoridades por segurança. Desde 1991, pagou quase 13 bilhões de dólares ao governo indonésio com uma tarifa de 1,5 de royalty sobre o ouro e o cobre extraído e, em consequência, tem em seus bolsos a polícia militar e regional indonésia. Em outubro de 2011, o diário Jakarta Globe divulgou que as forças de segurança indonésias de Papua Oeste, notavelmente a polícia, recebem generosos pagamentos diretos e sob o poder de Freeport-McMoRan. O Chefe Nacional da Polícia Timur Pradopo admitiu que os oficiais recebem em torno de 10 milhões de dólares anuais, que Pradopo descreveu como "dinheiro para o almoço". A proeminente organização não governamental indonésia Imparsia situou os pagamentos anuais diretos em 14 milhões de dólares [13].

estes pagamentos recordam inclusive os maiores desembolsos feitos pela Freeport às forças militares indonésias ao longo de dois anos, que quando foram revelados motivaram uma investigação da Comissão de Segurança e Intercâmbio dos EUA sobre a responsabilidade de Freeport sob a Lei sobre Práticas Estrangeiras Corruptas dos EUA.

Acrescentando, a polícia do Estado e o exército foram criticados muitas vezes pelas violações de direitos humanos na região montanhosa remota, onde um movimento separatista ferve a fogo lento por décadas. Anistia Internacional documentou numerosos casos em que a polícia indonésia utilizou força desnecessária contra manifestantes. Por exemplo, as forças de segurança atacaram uma concentração de massas em Jayapura, capital de Papua, e trabalhadores em manifestação na mina de Freeport. Pelo menos mataram 5 pessoas e muitas mais foram feridas em assaltos que mostram um padrão contínuo de violência pública contra dissidentes pacíficos. Outro ataque brutal e injustificado, ocorrido em 19 de outubro de 2011, contra mil de papuenses que exerciam seu direito a reunião e liberdade de expressão, causou a morte de pelo menos 3 civis de Papua, além de muitos, detenção de centenas e condenação de 6 por traição [14].

O Jakarta Globe divulgou em 7 de novembro de 2011 que "os trabalhadores em manifestação empregados por Copper e Gold, filial de Freepost-McMoRan em Papua, baixaram suas exisgências mínimas de aumento salarial de 7,50 a 4 dólares por hora, disse o Sindicato dos Trabalhadores Tudo-Indonésia (SPSI em inglês)" [15]. Virgo Solosa, funcionário do sindicato, disse a Jakarta Globe que consideraram "a melhor solução para todos" aceitar um salário por cima do mínimo de 1,5 dólares a hora.

Os trabalhadores da mina de cobre Cerro Verde, de Freeport no Perú, também foram à manifestação neste mesmo tempo, pondo de relevo a dimensão global da confrontação com Freeport. Os trabalhadores exigiram aumentos salariais de 11%, enquanto a companhia ofereceu apenas 3%.

A greve peruana terminou em 28 de novembro de 2011 [16] e em 14 de dezembro Freeport McMoRan anunciou um acordo na mina indonésia que estendia o contrato com o sindicato por dois anos. Os trabalhadores de Freeport continuam com salários baixos, que atualmente aumentam a tão pouco como 2 dólares por hora e subirão em 24% no primeiro ano do convênio coletivo e os 13% no segundo ano. O acordo também inclui melhoras em benefícios e uma bonificação por uma só vez equivalente a três meses de salários [17].

Em ambas greves em Freeport os governos exerceram pressão sobre os grevistas para uma solução que implicaram muito altos níveis nacionais e internacionais. Durante a greve de Freeport-McMoRan a administração Obama ignorou a notória violação de direitos humanos e, em seu lugar, fortaleceu os laços militares EUA-Indonésia. O secretário de Defesa dos EUA Leon Panetta que chegou a Indonésia no estouro imediato do ataque de Jayapura, não formulou nenhuma crítica ao assalto e reafirmou o apoio dos EUA à integridade territorial indonésia. Panetta também elogiou o manejo da Indonésia quanto a greve em Freeport-McMoRan[18].

O presidente Barack Obama visitou a Indonésia em novembro de 2011 para consolidar relações com Jakarta como parte da escalada de esforços de Washington orientada a combater a influência chinesa na região Ásia-Pacífico. Obama acabava de anunciar que os EUA e a Austrália começariam um manejamento rotatório de 2.500 infantes da marinha dos EUA em uma base em Darwin, um movimento ostentável de modernizar a presença dos EUA na região e de permitir participação no "treinamento comum" à contraparte militar australiana. Mas alguns especulam que EUA tem uma agenda oculta. O jornal tailandês "The Nation sugeriu que uma das razões seria oferecer garantias remotas de segurança, de longe e a duas horas de voo, ao ouro de propriedade da estadunidense Freeport McMoRan e a mina de cobre em Papua Oeste [19].

O fato de que os trabalhadores da mina de cobre da Sociedade Mineira Cerro Verde, de Freeport no Perú, também estiveram em greve ao mesmo tempo destaca a dimensão global da confrontação de Freeport. Os trabalhadores peruanos exigiam aumentos de 11%, enquanto Freepor oferecia apenas 3%. A greve foi levantada em 28 de novembro de 2011 [20]. Em ambas greves, os governos exerceram pressão para submeter os grevistas, não só com a presença de força militar e de polícia, mas também envolvendo altos níveis internacionais. O fato de que o Secretário de Defesa dos EUA mencionara uma greve nacional na Indonésia mostra que os problemas que afetam os benefícios do 1% corporativo internacional estão em jogo ao mais alto nível do poder.

A opinião pública da Indonésia está fortemente contra Freeport em 8 de agosto de 2011, Karishma Vaswani, da BBC, reportou que "a corporação mineira dos EUA Freeport-McMoRan foi acusada de tudo, desde contaminar o ambiente ao financiamento da repressão, em suas quatro décadas de operações na província indonésia de Papua...pergunta na rua a qualquer papuano o que pensa de Freeport e lhe dirá que a corporação é uma ladra, disse Nelels Tebay, um pastor de Papua e coordenador da rede da paz de Papua" [21].

Os grevistas de Freeport ganharam o apoio do Movimento Ocupa dos EUA. Ativistas do Occupy Phoenix e da Rede de Ação pelo Timor Leste marcharam contra os chefes de Freeport em Phoenix, em 28 de outubro de 2011, para manifestar contra as matanças da polícia indonésia na mina Grasberg de Freeport-McMoRan [22].

James R. Moffett, presidente da junta directiva de Freeport-McMoRan Copper e Gold, Inc. (FCX), possui mais de quatro milhões de ações de um valor próximo aos 42 dólares cada uma (total, 168 milhões de dólares). Segundo o informe na reunião anual de FCX lançada em junto de 2011, a remuneração anual de Moffett em 2010 foi de 30,57 milhões de dólares.

Richard C. Adkerson, presidente do conselho de FCX, possui mais de 5,3 milhões de ações (222,6 milhões de dólares). Sua remuneração total também foi de 30,57 milhões de dólares em 2010. As rendas de Moffett e Adkerson os colocam nos níveis superiores ao 1% do mundo. Sua interconexão com os níveis mais altos do poder na Casa Branca e no Pentágono se expressa na atenção específica que lhes presta a ambos o secretário de Defesa dos EUA e, como sugerem suas circunstâncias, a consciência do presidente dos EUA. Não tem dúvida que os executivos e o diretório de Freeport McMoRan estão firmemente posicionados nos níveis mais altos da classe corporativa transnacional.


Conselho administrativo de Freeport-McMoRan

Jamesa R. Moffet, afiliações políticas e corporativas: copresidente, presidente e chefe executivo (CEO, Chief Executive Officer) de McMoRan Exploration Co.; PT Freeport Indonesia; Madison Minerals Inc.; Horatio Alger Association of Distinguished Americans; Agrico, Inc.; Petro-Lewis Funds, Inc.; Bright Real Estate Services, LLC; PLC-ALPC, Inc.; FM Services Co.

Richard C. Adkerson, afiliações políticas e corporativas: Arthur Anderson Company; presidente de International Council on Mining and Metals; membro da junta directiva de International Copper Association, Business Council, Business Roundtable, Junta de Consejeros del Kissinger Institute, Madison Minerals Inc.

Robert Allison Jr., afiliações políticas: Anadarko Petroleum (11 bilhões de dólares de ingressos em 2010); Amoco Projection Company.Robert A. Day, afiliaciones corporativas: CEO de W.M. Keck Foundation (con activos de más de mil millones de dólares en 2010); abogado de Costa Mesa, California.

Robert A. Day, afiliações corporativas: CEO de W.M. Keck Foundation (com ações de miss de 1 bilhão de dólares em 2010); advogado de Costa Mesa, California.

Gerald J. Ford, afiliações políticas corporativas: Hilltop Holdings Inc, First Acceptance Corporation, Pacific Capital Bancorp (vendas anuais: 13 bilhões de dólares), Golden State Bancorp, FSB (Banco de Ahorros Federales que se fundiu com Citigroup en 2002), Rio Hondo Land & Cattle Company, Diamond Ford, Dallas (vendas: 200 milhões de dólares), Scientific Games Corp., SWS Group (vendas anuais: 422 milhões de dólares); American Residential Cmnts LLC.

● H. Devon Graham Jr, afiliaciones corporativas: R.E. Smith Interests (compañía de gestión de activos; renta: 670.000 dólares).
● Charles C. Krulak, afiliaciones corporativas y gubernamentales: presidente de la universidad Birmingham-South College; comandante del Cuerpo de Marina, 1995-1999; MBNA Corp., Union Pacific Corporation (ventas anuales: 17 mil millones de dólares), Phelps Dodge (adquirida por FCX en 2007).
● Bobby Lee Lackey, afiliaciones corporativas: CEO de McManusWyatt-Hidalgo Produce Marketing Co.
● Jon C. Madonna, afiliaciones corporativas: CEO de KPMG (servicios profesionales de auditoría, ventas anuales: 22,7 mil millones de dólares), AT&T (ingresos 2011: 122 mil millones de dólares), Tidewater Inc. (ingresos 2011: 1,4 mil millones de dólares).
● Dustan E. McCoy, afiliaciones corporativas: CEO de Brunswick Corp. (ingresos: 4,6 mil millones de dólares), Louisiana-Pacific Corp. (ingresos 2011: 1,7 mil millones de dólares).
● B.M. Rankin Jr., afiliaciones corporativas: vice presidente del directorio de FCX, cofundador de McMoRan Oil and Gas en 1969.
● Stephen Siéguele, afiliaciones corporativas: fundador/CEO de Advanced Delivery and Chemical Systems Inc., Advanced Technology Solutions, Flourine on Call Ltd.

BlackRock é uma das redes de poder mais concentradas do 1% global. Os membros da “décima oitava” (eightteen) da junta directiva estão conectados com uma parte significativa do coração do capital financeiro do mundo. Suas decisões podem mudar impérios, destruir moedas e empobrecer a milhões. Alguns dos maiores gigantes financeiros do mundo capitalista estão conectados entrelaçando suas conselhos administrativos em BlackRock, incluindo o Bank of America, Merrill Lynch, Goldman Sachs, PNC Bank, Barclays, Swiss Reinsurance Company, American International Group (AIG), UBS A.G., Arab Fund for Economic and Social Development, J.P. Morgan Chase & Co e Morgan Stanley.

Uma investigação da Universidade de Zurique de 2011, concluída por Stefania Vitali, James B. Glattfelder e Stefano Battiston no Instituto Federal Suíço, divulga que um pequeno número de corporações – principalmente bancos – manejam um enorme poder sobre a economia global [26]. Usando dados de Orbis 2007, uma base de dados que abarca 37 milhões de companhias e investidores, os investigadores suíços aplicaram à economia mundial modelos matemáticos usualmente empregados como modelos naturais.
O estudo foi o primeiro em observar 43.060 sociedades transnacionais e estudar a teia de aranha da propriedade entre elas. A investigação criou um “mapa” de 1.318 companhias do núcleo da economia global. O estudo concluiu que 147 corporações formam uma “super-entidade” dentro deste mapa, controlando 40% da riqueza. Os “top 25” entre as 147 companhias super-conectadas incluem as seguintes corporações:

1. Barclays PLC*
2. Capital Group Companies Inc.
3. FMR Corporation
4. AXA
5. State Street Corporation
6. J. P. Morgan Chase & Co.*
7. Legal & General Group PLC
8. Vanguard Group Inc.
9. UBS AG
10. Merrill Lynch & Co. Inc.*
11. Wellington Management Co. LLP
12. Deutsche Bank AG
13. Franklin Resources Inc.
14. Credit Suisse Group*
15. Walton Enterprises LLC
16. Bank of New York Mellon Corp
17. Natixis
18. Goldman Sachs Group Inc.*
19. T Rowe Price Group Inc.
20. Legg Mason Inc.
21. Morgan Stanley*
22. Mitsubishi UFJ Financial Group Inc.
23. Northern Trust Corporation
24. Société Générale
25. Bank of America Corporation*
(*Diretores de BlackRock)

Nitidamente, para nossos propósitos, os membros do conselho de BlackRock têm conexões diretas com pelo menos 7 das 25 corporações superiores que Vitali e outros identificaram como “super-entidade internacional”. O conselho administrativo de BlackRock tem vínculos diretos com 7 das 25 sociedades mais interconectadas do mundo. Dezoito membros do conselho de BlackRock controlam e influenciam dezenas de bilhões de dólares da riqueza em todo mundo e representam o núcleo das corporações super-conectadas do setor financeiro. Sob o corte transversal aparece uma amostra de figuras chaves e ativos corporativos da “super-entidade econômica global” identificada por Vitali e outros.

Outras figuras chaves e conexões corporativas ao interior dos níveis mais altos da “super-entidade econômica global”:

·         Um grupo privado de corporações de capitais com sede em Los Angeles controla 1 bilhão de dólares em ativos.

·         FMR, uma das maiores corporações de fundos mútuos do mundo, controla 1,5 bilhões de dólares em ativos e atende a mais de 20 milhões de clientes individuais e institucionais; seu presidente e CEO é Edward C. (Ned) Johnson III.

·         AXA controla 1,5 bolhões de dólares em ativos, atende a 101 milhões de clientes; CEO: Henri de Castries, também diretor da Nestlé (Suíça).

·         State Street Corporation, opera desde Boston e administra ativos de 1,9 bilhões de dólares; seus diretores incluem Joseph L. Hooley, CEO da State Street Corporation; Kennett F. Burnes, presidente jubilado e CEO da Cabot Corporation (faturamento em 2011: 3,1 bilhões de dólares).

·         JP Morgan/Chase (ativos 2011: 2,3 bilhões de dólares), conselho administratico: James A. Bell, vice-presidente (VP) executivo jubilado de The Boeing Company; Stephen B. Burke, CEO da NBC Universal e VP executivo da Comcast Corporation (TV por assinatura); David M. Cote, CEO da Honeywell International, Inc.; Timothy P. Flynn, presidente retirado de KPMG International; e Lee R. Raymond, CEO jubilado da Exxon Mobil Corporation.

·         Vanguard (ativos sob sua gestão em 2011: 1,6 bilhões de dólares), diretores: Emerson U. Fullwood, VP da sociedade de Xerox; JoAnn Heffernan Heisen, VP de Johnson & Johnson, Robert Wood Johnson Foundation; Mark Loughridge, CEO da IBM, Global Financing; Alfred M. Rankin Jr., CEO da NACCO Industries, Inc., National Association of Manufacturers, Goodrich Corp y presidente do Banco Reserva Federal de Cleveland.

·         UBS AG (ativos 2012: 620 bilhões de dólares), seus diretores incluem a Michel Demaré, membro do Conselho da Syngenta e IMD Foundation (Lausanne); David Sidwell, ex-CEO da Morgan Stanley.

·         Merrill Lynch (Bank of America), ativos en administrados em 2011: 2,3 bilhões de dólares. Seus diretores incluem: Brian T. Moynihan, CEO de Bank of America; Rosemary T. Berkery, diretora jurídica do Bank of America/Merrill Lynch (antes Merrill Lynch y Co., Inc.), membro de Coselho Consultivo Legal del New York Stock Exchange, diretora de Securities Industry and Financial Markets Association; Mark A. Ellman, director gerente de Credit Suisse, First Boston; Dick J. Barrett, co-fundador de Ellman Stoddard Capital Partners, MetLife, Citi Group, UBS, Carlyle Group, ImpreMedia, Verizon Communications (TV por assinatura e comunicacões), Commonwealth Scientific and Industrial Research Org, Fluor Corp, Wells Fargo, Goldman Sachs Group.


Os diretores dessas super corporações conectadas representam uma pequena porção do 1% global. A maioria das pessoas com ativos superiores a 588 mil dólares não são jogadores importantes das finanças internacionais. No melhor dos casos, utilizam as empresas de gestão de ativos para produzir retornos de se capital. Seu valor líquido envolve frequentemente ativos não financeiros, como propriedades imobiliárias e empresas.

Análise: CCT e o poder mundial

Como a Classe Corporativa Transnacional (CCT) mantém a concentração e o poder da riqueza no mundo? O 1% mais rico da população representa, aproximadamente, 40 milhões de adultos. Estas pessoas constituem o segmento mais rico das primeiras classes da população dos países mais desenvolvidos e, intermitentemente, de outros países.

A maior parte desses 1% desempenha trabalhos seguros ou trabalha em atividades associadas a instituições do establishment. Aproximadamente 10 milhões desses indivíduos têm ativos superior a 1 milhão de dólares e aproximadamente 100 mil possuem ativos financeiros maiores que 30 milhões de dólares.

Imediatamente abaixo do 1% do primeiro escalão estão aqueles que trabalham normalmente em corporações importantes, governos, negócios próprios e várias instituições pelo mundo. Este primeiro nível constitui aproximadamente de 30 a 40% de empregados no núcleo dos principais países desenvolvidos e cerca de 30% está na segunda classe das economias, enquanto os 20% mais abaixo correspondem às economias periféricas (conhecidas anteriormente por “terceiro mundo”). O segundo nível de trabalhadores globais representa o crescente exército de trabalho informal: operários de fábricas, trabalhadores das ruas e diaristas, cada vez com menos ajuda das organizações de governo e assistência social.

Estes trabalhadores, concentrados principalmente nas megalópoles, correspondem de 30 a 40% do pessoal em economias industrializadas centrais e outros 20% ao segundo nível e às economias periféricas. Isso deixa um terceiro nível de alcance mundial de gente indigente, no qual 30% são adultos de países centrais e as economias secundárias complementam com 50% de pessoas dos países periféricos, com oportunidades de renda extremamente limitadas, que lutam para sobreviver com alguns dólares por dia. Se trata de 2,5 bilhões de pessoas que vivem com menos de dois dólares por dia, dezenas de milhares morrem por dia por desnutrição e enfermidades facilmente curáveis, e que nunca usaram um telefone. [27]

Como se observa em nossa amostra do setor de mineração e de investimentos, as elites corporativas se interconectam através de vínculos diretos de conselhos administrativos das 70 maiores multinacionais, organizações políticas, grupos midiáticos e outras instituições acadêmicas ou sem fins lucrativos.

A amostra do setor de investimentos exibe vínculos financeiros muito mais poderosos do que a rede do setor extrativista. No entanto, ambos representam vastas redes de recursos concentrados nas diretorias ou conselhos administrativos de cada corporação. O corte da amostra de diretores e recursos das 8 corporações super-conectadas replica esse modelo de conexões corporativas em múltiplos conselhos administrativos, por exemplo, grupos ou partidos políticos, grandes meios de informação e governos, controlando assim extensos recursos globais. Esta engrenagem de relações se repete através de corporações top interconectadas com a classe corporativa transnacional, resultando em uma rede altamente conectada e poderosa de indivíduos que compartilham o interessa comum de preservar sua dominação de elite.

A investigação sociológica mostra que as diretorias entrelaçadas têm um potencial de facilitar a coesão política. Um sentido coletivo de “nós” emerge no interior dessas redes de poder, conseguindo que seus membros pensem e atuem em uníssono, não só para si mesmos e suas corporações individuais, mas com um maior sentido de propósitos “bons para a ordem”, por assim dizer. [28]

Nossa amostra de 30 companhias altamente conectadas ao interior das diretorias exerce influência sobre alguns dos mais poderosos grupos ou organismos que fixam políticas pelo mundo, como o Conselho Britânico-Americano de Negócios, Conselho de Negócios EUA-Japão, Business Roundtable, Business Council e Kissinger Institute. Influenciam 10 bilhões de dólares em recursos monetários e controlam a vida trabalhista de milhões de pessoas. Considerando tudo, são uma elite de poder por si mesmo, atuando em um mundo de redes de elites de poder, e se comportam como classe dirigente do mundo capitalista.

Além disso, essa elite global de 1% domina e controla as empresas de relações públicas e os meios corporativos globais, que protegem seus interesses servindo à superclasse como sua máquina de propaganda. Os meios corporativos proporcionam entretenimento às massas distorcem a realidade da desigualdade. As notícias corporativas são controladas pelo 1% para manter as ilusões de esperança e isentar a responsabilidade dos poderosos em tempos difíceis. [29]

Na amostra, 4 de 30 diretores das super corporações estão conectados diretamente com companhias de relações públicas e grandes meios. Thomas H. O’Brien e Ivan G. Seidenberg estão no conselho administrativo de Verizon Communications, onde Seidenberg é presidente. Verizon informou mais de 110 bilhões de dólares em receitas em 2011[30]. David H. Komansky e Linda Gosden Robinson estão na diretoria do Grupo WPP, que descreve a si mesmo como líder mundial em serviços de comunicações de marketing, com ganhos totais superiores a 65 bilhões de dólares em 2011. WPP é um conglomerado entre várias entre várias empresas de relações públicas e marketing do mundo, em áreas que incluem publicidade, controle de investimentos em mídia, percepção de consumidores, marca e identidade corporativa, comunicações – e propaganda – de atenção em saúde, promoção de marketing digital e de relacionamento. [31]

Mesmo na profundidade do 1% da elite rica está o que David Rothkopf chama de superclasse. Rothkopf, ex-diretor de Kissinger Associates e comissionado como subsecretário de comércio para políticas comerciais internacionais, em 2008 publicou seu livro “Superclasse: a elite do poder mundial e o mundo que está criando”[32]. Segundo Rothkopf, os superclasse constituem aproximadamente 0,0001% (milionésima) parte da população mundial e compreende entre 6 a 7 mil pessoas, ainda que alguns digam 6.660. São aqueles que assistem cada ano o Fórum Econômico Mundial de Davos, voam ou navegam em jatos privados e iates, incorporam capital monetário, entrelaçam megacorporações, desenham políticas para a elite do mundo em cima da pirâmide do poder mundial.

94% dessa superelite é do sexo masculino, predominantemente “branca”, e sobretudo vindos da América do Norte e Europa. Essas pessoas que definem as agendas na Comissão Trilateral, Grupo de Bilderberg, G-8, G-20, OTAN, Banco Mundial e OMC. Provenientes dos níveis mais altos do capital financeiro, corporações transnacionais, governos, militares, acadêmicos, ONGs, líderes espirituais e outras elites na sombra. As elites na sobra incluem, por exemplo, as políticas profundas de segurança nacional em conexão com os cartéis de droga, que anualmente extraem 8.000 toneladas de ópio em zonas de guerra dos EUA, depois dos lavadores de 500 bilhões de dólares que utilizam bancos transnacionais, metade deles estabelecidos nos Estados Unidos. [33]

Os multimilionários e o 1% global são similares aos donos de plantações coloniais. Sabem que são uma pequena minoria com extensos recursos e poder, mas igualmente devem se preocupar continuamente em evitar que as massas exploradas entrem em rebelião. Como resultado dessa insegurança de grupo, os superclasse trabalham duro para proteger essa estrutura de riqueza concentrada. A proteção do capital é a principal razão pela qual os países da OTAN explicam 85% dos gastos para a defesa do mundo, com os EUA gastando mais em militares do que o resto do mundo combinado [34]. O temor de rebeliões e outras formas de distúrbios motivam a agenda global da OTAN na guerra antiterrorista [35]. A declaração da cúpula da OTAN 2012 em Chicago diz:

"Como líderes da aliança estamos determinados a assegurar que a OTAN conserve e desenvolva suas capacidades necessárias para realizar sua tarefa essencial de defesa coletiva, gestão de crise e cooperação em segurança e, de tal modo, desempenhar um rol essencial em promover a segurança no mundo. Devemos resolver essa responsabilidade enquanto enfrentamos uma grave crise financeira e nos corresponde adentrarmos em desafios estratégicos. A OTAN permite que juntos conquistemos maior segurança do que se qualquer um pudesse atuar sozinho.

Confirmamos a importância de continuar um vínculo transatlântico forte e a solidariedade como Aliança, assim como o significado de compartilhar responsabilidades, papeis e riscos a fim de resolver juntos os desafios dos aliados norte-americanos e europeus (...) Com confiança fixamos a meta para as forças da OTAN 2020: frotas moderas e firmemente conectadas e equipadas, treinadas, exercitadas e comandadas de maneira que possam atuar juntas, como sócios, em qualquer ambiente". [36]

A OTAN está emergindo rapidamente como força policial da classe corporativa transnacional. Enquanto a CCT emergia mais decididamente a partir dos anos 80, a OTAN começava operações mais amplas, coincidindo com a queda da União Soviética (URSS). A OTAN primeiro se aventurou nos Bálcãs, onde continua presente, e logo se instalou no Afeganistão. A OTAN começou uma missão de treinamento no Iraque em 2005, recentemente conduziu operações na Líbia e, desde julho de 2012, considera uma operação militar na Síria. (N.d.T.: Até o presente momento Bashar al-Assad vem conquistando importantes vitórias para a soberania de seu país frente a miríade de chacais que rodeiam a Síria).

Está claro que os superclasse usam a OTAN para a sua segurança global. Isso é parte de uma estratégia de expansão da dominação militar dos EUA ao redor do mundo, enquanto o império militar-industrial-midiático EUA/OTAN atua a serviço da classe corporativa transnacional para a proteção do capital internacional em qualquer lugar do mundo [37].

Os sociólogos William Robinson e Jerry Harris anteciparam essa situação em 2000, quando descreveram "uma mudança no estado de bem-estar social ao estado de controle social (polícia) somado à expansão das forças de segurança pública e privada, o encarceiramento massivo de populações excluídas, novas formas de apartheid social e legislação anti-imigrante [38]. A teoria de Robinson e Harris previu exatamente a agenda da superclasse global de hoje, incluindo:

- Continuidade por parte de Obama da agenda do estado policial de seus antecessores, Bush pai, Clinton e Bush filho.

- Agenda de dominação global de longo alcance, que utiliza forças militares dos EUA/OTAN para desencorajar a resistência dos Estados e manter políticas internas de repressão, ao serviço da manutenção da ordem do sistema capitalista.

- A consolidação contínua do capital em todo o mundo, sem interferência dos governos nem de movimentos sociais [39].

Além disso, essa agenda levou ao empobrecimento posterior da metade mais pobre da população do mundo, e uma implacável queda em espiral dos salário para todo o mundo do segundo escalão, incluindo alguns do primeiro escalão [40]. Este é um mundo que faz frente às crises econômicas, onde a solução neo-liberal é gastar menos em necessidades humanas e mais em forças de segurança [41]. É um mundo das instituições financeiras comportando-se como alienadas, onde a resposta à quebra consiste em imprimir mais dinheiro mesiante facilitações quantitativas, com bilhões de novos dólares produzindo inflação.

Como diz Andrew Kollin em State, Power and Democracy "há uma dimensão orweliana na perspectiva do governo (primeiro de Bush depois de Obama), que escolheu ignorar a lei, e no lugar, criar decretos para legitimar ações ilegais, dando permissão a si mesmo para atuar sem intenção alguma de compartilhar o poder de acordo com a Constituição ou o direito internacional" [42].

E em Globalization and Demolition of Society, Dennis Loo escreve: "Ao final de contas a divisão fundamental da nossa sociedade é entre aqueles cujos interesses estão na dominação e seus planos de monopolizar a sociedade e os recursos do planeta e aqueles interessados na exploração desses recursos para o benefício de todos, não de alguns" [43].

O Movimento Occupy usa como conceito principal o slogan "o 1% versus os 99%" em suas manifestações, perturbações e desafios às praticas da classe corporativa transnacional, em cujo interior os superclasse globais constituem um elemento chave para levar adiante a agenda da superelite para a guerra permantente e o controle social total. Occupy é exatamente o que mais temem os superclasse, um movimento democrático global que denuncie a agenda do CCT e a continuidade do teatro das eleições de governo, onde os protagonistas apenas mudam de roupa mas continuam os mesmos. Enquanto Occupy mais se negue cooperar com a agenda dos CCT e mobilize mais ativistas, é mais provavel que o sistema inteiro de dominação caia de joelhos sob o poder popular de movimentos democráricos



1. Para um aprofundamento acadêmico sobre este tema é sugerido a leitura desses textos:
–C. Wright Mills, The Power Elite, New York, Oxford University Press, 1956;
–G. Willian Domhoff, Who Rules America, 6th edition, Boston, McGraw Hill Higher Education, 2009;
–William Carroll, The Making of a Transnational Capitalist Class, Zed Books, 2010.
2. Leslie Sklair, The Transnational Capitalist Class, Oxford, UK, Blackwell, 2001.
3. Leslie Sklair, “The Transnational Capitalist Class And The Discourse Of Globalization”, Cambridge Review of International Affairs, 2000, http://www.theglobalsite.ac.uk/press/012sklair.htm
4. Tax Havens: Super-rich hiding at least $21 trillion, BBC News, July 22, 2012, http://www.bbc.co.uk/news/business-18944097
5. Tyler Durgen, A Detailed Look At Global Wealth Distribution, 10/11/10, http://www.zerohedge.com/article/detailed-look-global-wealth-distribution.
6. “World Bank Sees Progress Against Extreme Poverty, But Flags Vulnerabilities”, World Bank, Press Release No. 2012/297/Dec., February 29, 2012, http://web.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/NEWS/0,,contentMDK:23130032~pagePK:64257043~piPK:437376~theSitePK:4607,00.html.
7. Mark Ellis, The Three Top Sins of the Universe, http://www.starvation.net/
8. “Corporations are Still Making a Killing from Hunger”, April 2009, Grain, http://www.grain.org/article/entries/716-corporations-are-still-making-a-killing-from-hunger.
9. On the extraction of surplus-value from labor, see Karl Marx, Capital, Vol. 3 (New York and London: Penguin, 1991 [1894]).
10. See, e.g., Paul Burkett, Marx and Nature: A Red and Green Perspective (New York: St. Martins, 1999), Chapter 6; for additional information on the Fair Share of the Common Heritage see, http://www.fairsharecommonheritage.org/.
11. Freeport-McMoRan Copper and Gold, Notice of Annual Meeting of Stockholders, June 15, 2011, document April 28, 2001, http://www.ecocumentview.com/FCX_MTG.
12. “Freeport Indonesia Miners, Tribesmen Defend Road Blockades”, Reuters Africa, November 4, 2011, http://af.reuters.com/article/metalsNews/idAFL4E7M410020111104.
13. “Police Admit to Receiving Freeport ‘Lunch Money,’” Frank Arnaz, Jakarta Globe, October 28, 2011,http://www.thejakartaglobe.com/news/police-admit-to-receiving-freeport-lunch-money/474747
14. “Indonesia must investigate mine strike protest killing”, Amnesty International News, October 10, 2011, http://www.amnesty.org/en/news-and-updates/indonesia-must-investigate-mine-strike-protest-killing-2011-10-10; West Papua Report, November 2011, http://www.etan.org/issues/wpapua/2011/1111wpap.htm
15. Camelia Pasandaran, “Striking Freeport Employees Lower Wage Increase Demands”, Jakarta Globe, November 7, 2011, http://www.thejakartaglobe.com/business/striking-freeport-employees-lower-wage-increase-demands/476800.
16. Alex Emery, “Freeport Cerro Verde, Workers Sign Three-Year Labor Accord”, Bloomberg News, December 22, 2011, http://mobile.bloomberg.com/news/2011-12-22/freeport-cerro-verde-peru-workers-sign-three-year-labor-accord.
17. Eric Bellman and Tess Stynes, “Freeport-McMoRan Says Pact Ends Indonesia Strike”, Wall Street Journal, December 14, 2011, http://online.wsj.com/article/SB10001424052970203893404577098222935896112.html
18. John Pakage, “When there is no guarantee of the security of life for the people of Papau”, West Papua Media Alerts, March 1, 2012, http://westpapuamedia.info/tag/freeport-McMoRan/.
19. “Reasons to go the Darwin”, The Nation (Thailand), November 30, 2011, http://www.nationmultimedia.com/opinion/Reasons-to-go-to-Darwin-30170893.html
20. “Cerro Verde strike to be over by November 28 – Peru”, Business News Americas, November 24, 2011,http://www.bnamericas.com/news/mining/cerro-verde-strike-to-be-over-by-november-28
21. Karishma Vaswani, “US Firm Freeport Struggles to Escape Its Past in Papua”, BBC News, Jakarta,http://www.bbc.co.uk/news/world-asia-pacific-14417718
22. Phoenix Arizona, October 28, 2011, Youtube report: http://www.youtube.com/watch?v=CvJxy2GvOHE.
24. Data for this section is drawn for StreetInsider.com.
25. Data for the corporations listed in this section comes from the annual report at each corporation’s website. Biography information was gained from the FAX annual report to investors and online biographies for individuals whine available.
26. Stefania Vitali, James B. Glattfelder, and Stefano Battiston, “The Network of Global Corporate Control”, PLoS ONE, October 26, 2011, http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0025995.
27. Willian Robinson and Jerry Harris, “Towards a Global Ruling Class? Globalization and the Transnational Capitalist Class”, Science and Society 64, no. 1 (Spring 2000).
28. Val Burris, “Interlocking Directorates and Political Cohesion Among Corporate Elites”, American Journal of Sociology 3, no. 1 (July 2005).
29. Peter Phillips and Mickey Huff, “Truth Emergency: Inside the Military-Industrial Media Empire”, Censored 2010 (New York: Seven Stories Press, 2009), 197–220.
30. Verizon Financials 2012, http://www22.verizon.com/investor/ Hoovers describes Verizon as, “the #2 US telecom services provider overall after AT&T, but it holds the top spot in wireless services ahead of rival AT&T Mobility.” Hoovers Inc. http://www.hoovers.com/company/Verizon_Communications_Inc/rfrski-1.html.
32. David Rothkopf, SuperClass: the Global Power Elite and the World They are Making (New York: Farrar, Straus, and Giroux, 2008).
33. Peter Dale Scott, American War Machine, Deep Politics, the CIA Global Drug Connection, and the Road to Afghanistan (Lanham, MD: Rowman & Littlefield Publishers, 2010). See also Censored Story #22, “Wachovia Bank Laundered Money for Latin American Drug Cartels”, in Chapter 1.
34. David Rothkopf, Superclass, Public Address: Carnegie Endowment for International Peace, April 9, 2008.
36. NATO, Summit Declaration on Defence Capabilities: Toward NATO Forces 2020, May 20, 2012, http://www.nato.int/cps/en/SID-1CE3D0B6-393C986D/natolive/official_texts_87594.htm.
37. For an expanded analysis of the history of US “global dominance”, see Peter Phillips, Bridget Thornton and Celeste Vogler, “The Global Dominance Group: 9/11 Pre-Warnings & Election Irregularities in Context”, May 2, 2010, http://www.projectcensored.org/top-stories/articles/the-global-dominance-group/ and Peter Phillips, Bridget Thornton, and Lew Brown, “The Global Dominance Group and U.S. Corporate Media”, Censored 2007 (New York: Seven Stories, 2006), 307–333.
38. Willian Robinson and Jerry Harris, “Towards a Global Ruling Class? Globalization and the Transnational Capitalist Class”, Science and Society 64, no. 1 (Spring 2000).
39. John Pilger, The New Rulers of the World (New York: Verso, 2003).
40. Michel Chossudovsky and Andrew Gavin Marshall, eds., The Global Economic Crisis (Montréal: Global Research Publishers, 2010).
41. Dennis Loo, Globalization and the Demolition of Society (Glendale, CA: Larkmead Press, 2011).
42. Andrew Kolin, State Power and Democracy (New York: Palgrave MacMillan,c2011), 141.
43. Loo, Globalization, op cit., 357. Similar Posts: Exposing the One Percent: Freeport McMoRan Exploits Workers and the Environment The Global Dominance Group: 9/11 Pre-Warnings & Election Irregularities in Context Who are the Global One-Percent Ruling Class_on Project Censored Barack Obama Administration Continues US Military Global Dominante.