sábado, 29 de junho de 2019

Fusaro: 'Tontos de esquerda combatem fascismo inexistente e apoiam o mercado'


Diego Fusaro é um dos intelectuais mais polêmicos da Itália, uma vez que ocupa uma posição ideológica que aglutina posições conservadoras e de esquerda. É marxista e suas referências são Gramsci, Pasolini e Costanzo Preve, ao mesmo tempo que é antiglobalista e soberanista, e isso o levou a sustentar posições com as quais muitos salvinistas não estão em desacordo. Vários livros seus foram editados na Espanha, tanto por editoras ligadas à esquerda, como 'Antonio Gramsci, la pasión de estar en el mundo' (Ed. Siglo XXI) ou 'Todavía Marx' (Ed. El Viejo Topo), ou à direita, como o recém publicado 'El contragolpe' (Ed. Fides). O pensamento de Fusaro é um tanto heterodoxo, que está destinado a receber críticas de um lado e de outro, e em não poucas ocasiões foi tachado de vermelho e de fascista, como também se fez com quem o entrevistou, que acusam de branqueamento. Mas aqui assumimos com gosto este risco, porque as ideias do filósofo na moda na política italiana também merecem ser conhecidas.

PERGUNTA. Acaba de publicar 'La notte del mondo'. Explica-me, por favor, por que estamos em uma noite escura, em que ponto se cruzam Marx e Heidegger.

RESPOSTA. Meu livro 'La notte del mondo. Marx, Heidegger e il tecnocapitalismo' (UTET, 2019) é uma tentativa de raciocinar segundo as categorias de Marx e Heidegger sobre o que o próprio Heidegger, com os versos de Hölderlin, define "A noite do mundo". A noite do mundo é uma época na qual a escuridão está tão presente que já não vemos mais sequer a escuridão em si e, portanto, não somos conscientes desta escuridão. Heidegger o expressa dizendo que "é a noite da fuga dos deuses", na qual já nem sequer somos conscientes da pobreza e da miséria nas quais nos encontramos. Esta é uma situação de máxima emergência. Por sua vez, Marx nos 'Grundrisse' dizia que "o mundo moderno deixa insatisfeito, ou, se satisfaz em algo, é de modo trivial". É outra maneira de dizer que estamos efetivamente na noite do mundo, onde sequer vemos o enorme problema em que nos encontramos. No livro eu emprego as categorias de dois autores muito diferentes, como Marx e Heidegger, para tratar de expressar quais são as contradições de nosso presente em que todo o mundo calcula e ninguém pensa. No qual a razão econômica e técnica, técnico-científica, se impôs como a única razão válida e pretende substituir todas as demais.

P. Insiste que o eixo político não deve ser esquerda e direita, mas os de cima e os de baixo. E que ideologicamente devemos ser conservadores nos valores (enraizamento, lealdade, família, eticidade, pátria) e de esquerda [na economia] (emancipação, socialismo democrático, dignidade do trabalho). Essa é a forma de ser marxista hoje?

R. Sim, creio que a geografia da política atual mudou profundamente. Hoje há uma espécie de totalitarismo liberal que nos permite ser liberais de direita, liberais de esquerda, liberais de centro, sempre e quando formos liberais, sempre, portanto, esquerda e direita se convertem em duas formas diferentes de ser liberais ou, precisamente, em liberalismo político e econômico, em prática libertária nos costumes e, claro, em atlantista na esfera geopolítica. Creio que hoje devemos repensar uma recategorização da realidade política de acordo com a dicotomia alto/baixo ou a categoria elite/povo, que às vezes se utiliza como sinônimo. Isso implica que se a elite, o senhor globalista, é precisamente cosmopolita, a favor da abertura ilimitada da livre circulação, o servo, pelo contrário, deve lutar pela soberania nacional-popular como base da democracia dos direitos sociais. Hoje é necessário restabelecer o vínculo entre o Estado nacional e a revolução socialista. Este é o ponto fundamental.

P. Qual vai ser o futuro da UE? Romper-se-á? Quais opções se abririam? Acredita ser possível uma aliança dos países do norte, como Alemanha, Países Baixos, Suécia e outros e outra [aliança] dos países do sul? Como recompor-se-á a ordem internacional se a UE se tornar ainda mais fraca ou se vier a se romper?

R. Devemos ser muito claros ao dar uma definição da União Europeia. A União Europeia é a união das classes dominantes europeias contra as classes trabalhadoras e os povos da Europa. É a vitória pós-1989 de um capitalismo que se realiza completamente, dissolvendo os últimos bastiões de resistência: os Estados soberanos nacionais com o primado do político e da democracia sobre o automatismo total do tecnocapitalismo. Esta é a União Europeia. Um processo de globalização, de despolitização da economia e da imposição do interesse do capital cosmopolita contra os interesses das comunidades nacionais. Por isso, a luta contra o capitalismo em nosso continente hoje não pode deixar de ser uma luta contra a União Europeia. A tragédia é que a esquerda abandonou esta luta, na medida em que passou do internacionalismo proletário ao cosmopolitismo liberal e, portanto, deixa a luta contra a União Europeia, contra a globalização capitalista, para as forças que, muito frequentemente, não querem a emancipação humana nem a solidariedade dos trabalhadores, tratam simplesmente de reagir, olhando para um passado que já não existe.

P. Como deveriam atuar os países da Europa diante dos EUA e da China?

R. Creio que a Europa pode se salvar apenas se recuperar, por um lado, suas próprias identidades culturais e sua pluralidade estrutural e, por outro lado, se se libertar da ditadura chamada União Europeia, que é a ditadura do capital, dos mercados contra os trabalhadores e os povos, e se se libertar do jugo mortal do atlantismo de Washington. Temos que apontar para um eixo eurasiático que vá desde a Rússia de Putin até a China em função antiatlantista. Devemos nos libertar disso e mudar nosso ponto de vista.

P. Insiste que deve-se combater o globalismo, mas tampouco deve-se apoiar o nacionalismo. Qual é a opção?

R. Creio que hoje devemos ir mais além do globalismo e do nacionalismo. Afinal de contas, o globalismo não é mais que o nacionalismo estadunidense que se tornou mundo e, portanto, é uma forma de nacionalismo levado a seu máximo desenvolvimento. Creio que é necessário fazer valer, contra estes dois opostos, um modelo de internacionalismo entre Estados soberanos solidários, baseados na democracia, no socialismo e nos direitos das classes mais frágeis e, em consequências, em uma espécie de soberania internacionalista, democrática e socialista, distanciada tanto do cosmopolitismo que destrói as nações, quanto do nacionalismo que é um egoísmo pensado a nível da própria nação individual.

P. O Estado é o primado do político sobre o econômico. Por isso o mundo global quer acabar com os Estados?

R. Os Estados nacionais soberanos, na modernidade, não apenas foram os lugares do imperialismo, do nacionalismo e das guerras, como repete a ordem do discurso dominante, que quer destruir os Estados para impor o primado do capital globalista, onde os Estados se converteriam unicamente nos mordomos do capital. Esta é a visão liberal do Estado. Na verdade, os Estados nacionais soberanos também foram lugares das democracias e das conquistas salariais das classes fracas. E por essa razão que hoje o capital quer destruí-los, certamente não para evitar as guerras ou o imperialismo que, de fato, prosperam mais que nunca no marco pós-nacional. Hoje o Estado pode representar o único vetor de uma revolução opositora contra o capital mundialista, tal como demonstram perfeitamente os acontecimentos dos países bolivarianos, como Bolívia, Venezuela ou Equador que, apesar de seus limites estruturais, estão criando formas de populismo soberanista, socialista, patriótico, anti-globalista e identitário [identitário: de identidade étnica].

P. Por ideias como estas você foi chamado de fascista. Suas posturas políticas assustam mais a esquerda que a direita. Por quê? Nessa demonização, que papel desempenham os meios de comunicação e a Academia?

R. Claro, hoje em dia a categoria de 'fascismo' é usada de maneira completamente a-histórica e descontextualizada, para demonizar simplesmente ao interlocutor. Hoje quem reafirma a necessidade de controlar politicamente a economia e, portanto, reintroduzir a soberania contra a abertura cosmopolita, é vilipendiado e tachado imediatamente de 'fascista', 'vermelho-pardo' e 'estalinista'. A categoria de fascismo está, pois, completamente a-historizada, apenas serve para ocultar o verdadeiro rosto do que Pasolini já havia identificado como o verdadeiro fascismo de hoje: o da sociedade de mercado, o totalitarismo dos mercados e das bolsas de valores especulativas. Este é o verdadeiro rosto do poder hoje em dia, e muitos tontos que se intitulam de 'esquerda' lutam contra o fascismo, que já não existe, para aceitar completamente o totalitarismo do mercado. Estes últimos são os que lutam na França contra Le Pen para aceitar de bom grado Macron. Lutam contra um fascismo que já não existe para poder aceitar a nova porrada invisível da economia de mercado. E, claro, a classe intelectual, o circo midiático e o clero intelectual desempenham um papel fundamental neste processo; a tarefa da classe intelectual, acadêmica e periodística é garantir que os dominados aceitem o domínio da classe dominante ao invés de se rebelar. De modo que, como na caverna de Platão, amem suas próprias correntes e lutem contra qualquer libertador.

P. Insistiu que com uma mão nos dão direitos civis e com a outra nos cortam direitos sociais. Nisto consistem as chamadas políticas da diversidade?

R. Os chamados 'direitos civis' [LGBT, feminismo e afins] são hoje em dia, na verdade, nem mais nem menos que os direitos do 'burguês', que Marx havia descrito em 'A questão judaica'. Em outras palavras, são os direitos do consumidor, como diríamos hoje, os direitos do indivíduo que quer todos os direitos individuais que pode comprar concretamente. Estou pensando nos ventres de aluguel, por exemplo, na custódia das crianças segundo a lógica de custo do consumidor. Pois bem, hoje estamos assistindo a um processo mediante o qual o capital nos corta os direitos sociais, que são direitos vinculados ao trabalho, à vida comunitária da pólis; anula estes direitos e, em troca, aumenta os direitos do consumidor, sempre vinculados a um consumo que se leva a cabo de maneira individual, sem questionar nunca a ordem da produção e o fato de que, realmente, terminam fortalecendo o sistema capitalista ao invés de debilitá-lo.

Além disso, criam uma espécie de microconflitualidade generalizada que atua como uma arma de distração massiva e, também poderíamos dizer, como uma arma de divisão massiva permanente. Por um lado, distrai da contradição capitalista que já nem sequer se menciona, e, por outro lado, por assim dizer, divide as massas em homossexuais e heterossexuais, muçulmanos e cristãos, veganos e carnívoros, fascistas e antifascistas, etc. E enquanto isso ocorre de maneira natural, o capital deixa que as pessoas saiam às ruas pelo orgulho gay, pelos animais e por tudo, mas que não se atrevam a fechar as ruas para lutar contra a escravidão dos salários, contra a precariedade ou contra a economia capitalista? De ser assim, aí está a repressão, como aconteceu na França com os Coletes Amarelos.

P. Salienta que os laços estáveis, representados no matrimônio, se converteram hoje em revolucionários. Por quê? Como mudaram as coisas para que algo radicalmente frequente na História se converta hoje em revolucionário? Em que consiste o consumismo erótico?

R. O capitalismo atual é flexível e precarizador. Desagrega toda a comunidade humana e quer ver em todas as partes o indivíduo sem identidade e sem vínculos, o consumir que trava relações descartáveis baseadas no consumo. Por isso, o capitalismo hoje declarou a guerra ao que eu, em meu livro 'Storia e coscienza del precariato. Servi e signori della globalizzazione' (Bompiani, 2018) chamo de raízes éticas em sentido hegeliano; quer dizer, aquelas formas comunitárias de solidariedade que vão desde a família até os organismos públicos como os sindicatos, a escola, a universidade, até se completar no Estado. Tem como objetivo rompê-las para reduzir o mundo a um mercado único, como disse Alain de Benoist: a sociedade se converte em um único mercado global. Esta é a razão pela qual hoje em dia a reetização da sociedade, quer dizer, a revalorização das raízes éticas em sentido hegeliano é um gesto revolucionário.

P. Afirma que deve-se recuperar Gramsci e distanciá-lo das esquerdas liberal-libertárias que hoje dominam e que são quem mais o utilizaram ultimamente e que encarnam exatamente o que Gramsci combateu. Definiria também, por ir ao caso espanhol, a Pablo Iglesias, ou Íñigo Errejón, e a Podemos em geral, como um fenômeno cultural de glorificação do capitalismo globalizado?

R. Sim, no essencial, Gramsci é todo o oposto do que está fazendo a esquerda na Itália e em grande parte da Europa, as esquerdas já não são vermelhas, mas fúcsias, já não são a foice e o martelo, mas o arco-íris. Lutam pelo capital e não pelo trabalho, lutam pelo cosmopolitismo liberal e não pelo internacionalismo das classes trabalhadoras. O caso específico de Podemos em Espanha me parece bastante interessante, porque começou como força soberanista e socialista, mais além da direita e da esquerda, mas me parece que ultimamente está entrando cada vez mais no fronte único do partido único do capital, e é realmente uma lástima porque o partido Podemos originalmente parecia ser um partido de ruptura.

P. Que papel deve desempenhar o intelectual neste cenário?

R. Na minha opinião, o intelectual de hoje deve restabelecer o que Gramsci chamada de 'conexão sentimental com o povo-nação', quer dizer, deve voltar a conectar o povo à política, à intelectualidade mesma, para que o povo saia da passividade e se transforme em subjetividade ativa, como já está acontecendo, na medida em que o povo está se rebelando contra a elite cosmopolita. Isso ele faz votando por Brexit, votando por Trump, votando na Itália contra o referendo constitucional, na Grécia pelo referendo contra a austeridade da União Europeia. Mas o povo, disse Gramsci, deve ser 'interpretado', necessita de uma filologia viva, o povo é um texto que deve ser interpretado e não dirigido de maneira unívoca. Deve-se escutar suas necessidades, suas exigências, o que a esquerda hoje não está fazendo; a esquerda é demofóbica, quer dizer, odeia o povo, odeia o povo porque o povo lhe escapa das mãos, já não se sente representado por uma esquerda amiga do capital e dos senhores, ao invés dos trabalhadores e do povo.

P. Propõe recuperar a utilização do italiano frente ao inglês, e além disso de um italiano bem falado ou escrito. Entende isso como uma batalha cultural imprescindível. Por quê?

R. Sim, eu proponho, contra a neolíngua dos mercados que fala o inglês do 'spread',  do 'spending review', da 'austerity' e da 'governance', uma veterolíngua baseada na recuperação do italiano com toda sua riqueza, o italiano de Dante e de Maquiavel. É uma batalha cultural de resistência á globalização e a este 'genocídio cultural', como chamada Pasolini, que a globalização está levando a cabo ao destruir as culturas em nome do único modelo permitido: o consumidor de mercadorias, apátrida, pós-identitário, que fala o inglês anônimo dos mercados financeiros apátridas.

Tradução: Álvaro Hauschild

via Elconfidencial

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Capitalismo, não o Socialismo, que Levou aos Direitos Gays

Por David Boaz


Alguns historiadores gostam de declarar que ideias socialistas ajudaram a trazer os direitos gays na era moderna. Mas eles estão erroneamente tomando a teoria acadêmica pela realidade.


Jim Downs é um historiador no Connecticut College e em Harvard. Um especialista na história da raça e da escravidão, ele publicou recentemente um novo livro, Stand by Me: The Forgotten History of Gay Liberation, no qual ele tenta remover a história gay recente de um foco excessivo no sexo e na AIDS.

Há várias coisas erradas nisto. Primeiro, é superestimado. Eu estive por perto, em torno dos anos da década de 1970, e eu diria que o socialismo era uma parte bem marginal da comunidade gay ou mesmo do movimento dos direitos gays. Ativistas gays definitivamente se inclinavam para a esquerda, mas eles eram focados no avanço dos direitos gays através do Democratic Party. Downs também tem um novo artigo na revista digital Aeon, no qual ele escreve que "ao longo dos anos 1970, as pessoas LGBT teorizavam sobre os benefício do socialismo em livros e panfletos e criticavam o capitalismo nos jornais e na cultura impressa". Ele segue adiante para discutir os "grupos LGBT" e os jornais que "fizeram do socialismo um assunto principal do interesse político no movimento". Mais significativamente, ele argumenta que "se você quiser dar crédito para a liberação gay e para a igualdade do casamento, crédito deve também ser dado ao socialismo".

Segundo, houveram escritores libertários gays na época, também, na academia, na imprensa popular, e se juntavam em torno do Libertarian Party, salientando os benefícios dos livre-mercados e os problemas do socialismo.

Terceiro, o uso do LGBT é anacrônico. O termo foi dificilmente, se é que foi, usado nos anos 1970. (Ele não usa muito no livro.)

Mas a declaração é mais que superestimada. É errada. E o artigo do próprio Downs oferece a evidência. Em meio ao seu artigo sobre como o socialismo infundiu o movimento dos direitos gays e levou à liberação gay, ele nota o trabalho do historiador John D'Emilio sobre como "o capitalismo tornou possível que o LGBT se movesse para as cidades e se tornasse independente da família como uma fonte de renda. Uma vez que o capitalismo criou a oportunidade para que pessoas vivessem autonomamente, ele involuntariamente permitiu que as pessoas LGBT privilegiassem o desejo homossexual como força diretriz em suas vidas".

Apesar das inclinações à esquerda, D'Emilio viu o mundo de modo mais claro que Downs. Todos os avanços nos direitos humanos que nós vimos na história americana -- abolicionismo, feminismo, direitos civis, direitos gays -- partem de nossa fundação de ideias pela vida, pela liberdade, e pela busca de felicidade. A ênfase na mente individual no Iluminismo, a natuyreza individualista do capitalismo de mercado, e a demanda pelos direitos individuais que inspiraram a Revolução Americana naturalmente levaram as pessoas a pensar mais cuidadosamente sobre a natureza do individual e a gradualmente reconhecer que a dignidade dos direitos individuais deveria ser estendida para todas as pessoas.

Aquelas tendências intelectuais rapidamente levaram aos sentimentos feministas e abolicionistas. Levou mais tempo para que as pessoas tomassem a sério a ideia da atividade homossexual como uma questão de liberdade pessoal e para reconhecer os homossexuais como um grupo de pessoas com direitos. Mas os libertários e seus ancestrais liberais-clássicos chegaram lá primeiro. De Adam Smith e Jeremy Bentham ao Libertarian Party e ao Cato Institute (onde eu trabalho), os libertários estiveram à frente da curva intelectual ao aplicar as ideias da liberdade individual às pessoas gays.

É claro que o capitalismo é mais que uma ideia. É um conjunto de instituições sociais, que Downs corretamente nota que veio sob ataque contundente dos socialistas gays. Mas, como D'Emilio reconheceu, foi o capitalismo que, na verdade, permitiu que os indivíduos vivessem autonomamente e florescessem. O capitalismo libertou as pessoas do feudalismo e da fazenda da família. Ele permitiu a eles que construíssem suas próprias vidas em uma sociedade de mercado com espaço para vidas pessoais e profissionais separadas. Ele deu a elas liberdade e afluência para viver por sua própria conta. O capitalismo levou à industrialização, que levou à urbanização, que ofereceu a anonimidade da cidade para qualquer um que atritava sob as constrições da família e da vila, bem como a chance de encontrar pessoas que compartilhassem seus próprias interesses.

O escritor Eric Marcus produziu um livro de entrevistas com ativistas gays chamado Making History. O que seus assuntos ilustraram -- mesmo quando eles não se davam conta -- foi que era a liberdade de sair de casa e a afluência que permitiu às pessoas que fizessem assim que tornou possível que elas se movessem e escolhessem estilos de vida que quisessem.

Em 1982 o intelectual australiano Dennis Altman escreveu:

"A mudança real na década passada foi um movimento de massa político e cultural através do qual mulheres e homens gays se definiram como uma nova minoria. Este desenvolvimento foi possível apenas sob o capitalismo moderno consumista, que, por todas as duas injustiças, criou as condições para uma maior liberdade e diversidade que são presentes em qualquer outra sociedade conhecida até então. Para aqueles de nós que são socialistas, isso apresenta um importante dilema político, a saber como guardar aquelas qualidades do capitalismo que permitem a diversidade individual enquanto abandona suas iniquidades, exploração, desperdício e feiura."

É claro, qualquer um que encontrar "iniquidades, exploração, desperdício e feiura" nos países capitalistas provavelmente não viveu em países socialistas. Mas como D'Emilio, Altman entendeu as fundações institucionais reais para a vida gay moderna e a identidade gay.

Estes efeitos do capitalismo não aconteceram apenas na Europa e nos Estados Unidos. Em China's Long March to Freedom, o acadêmico chinês-americano Kate Zhou escreve que quando a habitação pertencia e era alocada pelo Estado, era apenas alocado geralmente para casais casados. Uma vez que a habitação foi privatizada, pessoas solteiras e casais gays poderiam providenciar ou alugar acomodações. Mercados de propriedade mais livres também levaram à criação de bares gays, algo que as autoridades estatais de habitação provavelmente não aceitariam. Olhe ao redor do mundo, e está claro que os países com maior liberdade para pessoas gays são aqueles com um grau maior de liberdade econômica. Países que são realmente socialistas estão no nível mais baixo de qualquer medida de liberdade política, liberdades civis, liberdade pessoal, e os direitos LGBT.

Claro, alguns países que são chamados de "socialistas", tais como Dinamarca, Suécia e Canadá, não são realmente socialistas. Eles têm sistemas políticos e econômicos baseados na propriedade privada, no livre-mercado, nos valores liberais, e altos níveis de taxas e transferência de pagamentos -- não tão libertário, mas definitivamente economias de mercado.

Não é o que socialistas gays dos anos 1970 buscavam. Eles queriam o socialismo real, o fim das relações de mercado. Os países que implementaram um tal sistema, desde a União Soviética à Tanzânia e à Venezuela, tiveram menos sucesso em sustentar tanto a prosperidade quanto a liberdade individual do que os países capitalistas.

Aqueles gays intelectuais disseram muito sobre socialismo, mas eles viveram no capitalismo. E se tratava da realidade capitalista, não dos sonhos socialistas, que liberaram o povo gay.

Homo-Imperialismo: Gayzificando o Mundo em benefício do Capital


por Jonathan McCormack

Há -- contam-nos os políticos com os olhos marejados -- povos primitivos ainda tateando de modo obscuro neste ano sem as bênçãos de nossos próprios e iluminados valores sexuais ocidentais. O presidente Trump, portanto, jurou civilizar estas terras atrasadas, promovendo guerras contra a criminalização da homossexualidade. Seu pronunciamento veio logo depois de um relato sobre o enforcamento feito pelo governo iraniano de um homem de 31 anos culpado por sequestrar e estuprar dois garotos de 15 anos de idade. Uma vez que a sodomia lá é ilegal, muitas agências de notícias pensaram apenas em incluir este estuprador de crianças entre a minoria LGBT perseguida no Irã. Neste caso, é provável que a administração de Trump esteja usando os direitos gays como um pretexto sutil para obter influência sobre o Irã. Afinal, a diferença entre um ato de agressão e um de emancipação é apenas um adesivo com arco-íris. Contudo, os direitos globais LGBT conforma um espectro maior. Mobilizar toda uma campanha ao redor do mundo em nome de uma subdivisão menor da população pode parecer extravagante, mas há uma lógica colonial em jogo aqui. A liberdade sexual é meramente um preâmbulo fundamental para a liberação maior -- a liberação do capital.
O gênero, assim nos dizem, é uma construção social. Certamente, há alguma verdade nisso. Segue-se, então, que arranjos sociais diferentes efetivarão uma variedade de identidades sexuais. Foucault, ele mesmo, o queridinho da Esquerda, documentou a construção da identidade homossexual moderna, nascida, diz ele, no século XIX em meio à medicalização da sexualidade. Foi nesse período, ele concluiu, que a sodomia deixou de ser um ato e passou a ser parte da essência interna da personalidade de alguém.

Sem dúvidas, há indivíduos, no Oriente Médio e em outros lugares, que praticam sodomia, mas -- confusamente -- isso não significa que eles necessariamente constroem identidades em torno de tais atos, e certamente não da mesma maneira que ocidentais fazem. O Ocidente está exportando suas próprias noções culturais determinadas da sexualidade enquanto arrogantemente presumem sua universalidade. É uma sexualidade de estilo euro-americana que tem pouco que ver com identidades sexuais estrangeiras. E, conforme Edward Said nos lembra, "imperialismo é a exportação da identidade".

O homem europeu, no sonho febril rousseauniano, imagina um homem universal abstraído da história, o puro sujeito. E então ele se encaixa no molde de um homem do século XXI, branco, cosmopolita de classe média -- l'homme naturel, primitivo, sem civilização, grunhindo na selva -- que ouve NPR e lê The Washington Post.

Um dos filhos de Columbia, Joseph Massad, professor de Política Moderna Árabe e de História Intelectual, reiterou exatamente isto por anos em seu trabalho. Com um fanatismo que supera o da Igreja Católica no auge do fanatismo evangélico, Massad diz que a pressão pelos direitos gays no Oriente Médio é resultado de uma campanha "missionária" orquestrada pelo que ele chama de "Internacional Gay". Em seu livro Sesiring Arabs, ele escreve que "é o próprio discurso da Internacional Gay que produz os homossexuais, assim como gays e lésbicas, onde eles não existem". Ele acrescenta que "é a publicização das identidades socio-sexuais, e não os atos sexuais eles mesmos, que induzem à repressão", e que ao forçar os árabes que praticam sexo entre mesmo gênero para que vão a público, "A Internacional Gay está destruindo as configurações sociais e sexuais de desejo no interesse de reproduzir um mundo à sua própria imagem".

Embora isso se refira ao mundo árabe, a análise de Massad é aplicável a outros países também. Na Rússia, por exemplo, bares gays operam abertamente e sem perseguição. As paradas gay, contudo, são proibidas. Não é a homossexualidade em si, mas a intrusão dela na esfera pública que os russos pensam ser censurável.

O negócio da liberação gay global oficialmente começou quando o presidente Obama fez dos direitos LGBT um pilar da política externa. Mais de US$41 milhões foram destinados ao complexo industrial do glitter, ao lado de uma porção de U$700 milhões reservados para grupos marginalizados para apoiar as comunidades gays e as causas gays em todo o mundo. Uma quantidade substancial foi destinada para a crise na África subsaariana, aparentemente necessitada de paradas de orgulho gay. Para outros desconfortos menores -- epidemia de fome, altas taxas de mortalidade infantil, AIDS, pobreza descontrolada e assim por diante -- Obama estrategicamente usou a ameaça da descontinuidade da assistência para o desenvolvimento como uma arma para oprimir e forçar os Estados africanos a descriminalizar a homossexualidade. Depois do presidente da Uganda assinar uma dura lei anti-gay, por exemplo, a administração Obama astutamente anunciou que o dinheiro para assistência seria cortado ou redirecionado.

Ao mesmo tempo, o Banco Mundial anunciou que estaria atrasando um empréstimo de US$90 milhões para Uganda, alegando que a lei adversamente afetaria os programas de saúde que o empréstimo visaria apoiar. Uma posição intrigante para um banco. Eles justificaram a decisão afirmando que "quando sociedades promulgam leis que previnem pessoas produtivas de participar plenamente na força de trabalho, economias sofrem". A lei de Uganda não preveniria pessoa alguma de trabalhar, embora tenha demandado que nenhum trabalho houvesse que envolva sodomia.

Este é parte de um padrão de subversão da soberania nacional em nome do que o Papa Francisco chamou de "colonização ideológica". Não é surpreendente que o Terceiro Mundo considere que a imposição de valores sexuais estrangeiros seja outra instância da supremacia branca. Na revista do The African Holocaust Society, um grupo de acadêmicos africanos argumentam que os direitos LGBT são 'a porta de entrada para o controle político ocidental sobre nações soberanas (Uganda etc.) e, mais importante, uma ameaça ao nosso populismo (peoplehood) e ao caminho que nós escolhemos como agentes livres para determinar nossa realidade africana".

Em conjunto com as pressões políticas, corporações têm sido, curiosamente, instrumentais em exaltar os benefícios da sodomia. Poder-se-ia argumentar que eles estão apenas lucrando com o capricho, mas estudos mostraram que há pouca evidência de que as iniciativas de responsabilidade social resultam em lucros positivos para os negócios. A verdade é que os direitos gays foram agressivamente promovidos e defendidos por grandes negócios. Centenas de companhias globais, em uma estranha reversão de sua usual neutralidade social, vieram para assinar cartas de amicus para afirmar o casamento entre mesmo sexo em Obergefell.

De acordo com informações dos Funders for LGBTQ Issues, doações corporativas contam para uma considerável porção do grantmaking LGBTQ. Em 2016, o apoio totalizou US$20,4 milhões. Mais de 500 fundações e agências governamentais deram um total de US$524 milhões para causas LGBT em 2015 e 2016 juntos, quase um quarto mais que nos dois anos anteriores. Muito generosos estes CEOs.

E poder-se-ia questiona por que exatamente republicanos bilionários, como o maior doador do Republican Party Paul Singer, estão doando milhões para grupos de ativismo gay. Singer, a propósito, declara para a BBC que "virtualmente inventou os fundos abutres". O financiamento abutre, como descrito pelo The Guardian, acontece quando o país "está em um estado de caos. Quando o país se estabilizou, os fundos abutres retornam para demandar milhões de dólares em interesse de repagamentos e soldos sobre o débito original".

Aqui nós nos movemos mais próximo da verdade. Os avanços dirigidos pela elite de mudar sexualidades alimentam indivíduos desavergonhados que se definem não pela família, nação, filiação religiosa ou tradição, mas antes através de auto-criação de acordo com a vontade libertária individual. Com este chão de fundo, corporações podem então obter controle da população ao ditar e manipular identidades multiformes baseadas em nada mais que apetites atomizados a partir de redes culturais mais amplas.

O objetivo é não criar mais pessoas gays. O casamento de mesmo sexo tem uma importância simbólica; sua vitória no quadro público valida todas as outras relações sexuais libertadas de gerar filhos e compromissos familiares. Controlar a gramática simbólica da sociedade é um meio incrivelmente efetivo de alcançar o domínio. Casais homossexuais são meramente a ponta de lança contemporânea mobilizada na produção de novos ideais normativos.

Sobre a função social do eros liberador, Zygmunt Bauman escreveu que:

"A grande maior das pessoas, homens bem como mulheres, estão hoje totalmente integrados através da sedução mais do que do policiamento, através da propaganda mais do que da doutrinação, necessidade de criação mais do que da regulação normativa.
O erotismo de livre-flutuação é, portanto, eminentemente útil para a tarefa de tencionar para o tipo de identidade que, como todos os outros produtos culturais pós-modernos, é (nas palavras memoráveis de George Steiner) calculado pelo "máximo impacto e pela obsolescência instantânea."

É um alfaiate de identidade feito para o livre-mercado. O homo-capitalismo global disciplina, e então exporta, estas subjetividades revolucionárias mundo afora.

Em seu famoso ensaio "Capitalism and Gay Identity", o historiador John D'Emillo ilustra como a ascensão do trabalho assalariado e a produção de commodity quebrou os agregados familiares, enfraqueceu as relações de parentesco, e produziu o indivíduo moderno -- sem relações fortes com lugar, história ou comunidade, com o sexo separado da função social. Agora liberados da família como uma fonte de renda, os indivíduos podem voar para a anonimidade das grandes cidades em que novas normas sociais, não mais dependentes da organização familiar, permitiram que as identidades homossexuais distintivas florescessem. O desejo sexual foi agora abstraído das obrigações sociais embutidas, inerentes na criação de crianças, e o desejo homossexual pôde funcionar como fator decisivo para a identidade de alguém.

A homossexualidade é comensurável com a ascensão do capitalismo. Países que são realmente socialistas estão bem abaixo no rank de toda medição de liberdade política, liberdades civis, liberdades individuais, e direitos LGBT. Em nome da liberdade individual, os laços sociais são dissolvidos no ácido da lógica de mercado (escolha consumista expandida, disponibilidade e mutação de objetos, competição impiedosa) aplicada às relações humanas. Volker Woltersdorff, escrevendo no Institute for Queer Theory em Berlim, conclui assim: "A des-solidarização é a precondição histórica do reconhecimento estatal de alguns modos não-heterossexuais de viver".

Além disso, isso requere um enorme apoio estatal, pois o pequeno governo é incompatível com a "homossexualidade oficial". Nós vemos no Ocidente como agências de governo tecnocráticos continuamente expansivos chegaram para substituir as antigas instituições intermediárias como a Igreja e a família, que costumavam vigiar e constranger o discurso de normas. Para assegurar os meios de produção discursiva das identidades gays euro-americanas, são necessárias massivas intervenções institucionais.

A estrutura da família estável baseada em identidades sexuais tradicionais -- na transmissão da herança de geração para geração, inseridas em uma comunidade maior -- deve ser derrubada e reconstruída na imagem do Homem-Homo-Neoliberal, do qual o homossexual -- infantil, auto-determinado e autônomo -- é o arquétipo ideal.

Gundula Ludwig, que explora o nexo da ciência política com a teoria queer, descreve como as demandas do novo fluido pós-moderno de uma economia neoliberal impactam a formação de gênero:

"Imaginar um 'estilo de vida' homossexual no qual os sujeitos são flexíveis, dinâmicos e auto-determinados configura gays e lésbicas como modelos de papeis neoliberais...
A diversificação e a pluralização do que conta como uma forma 'normal' ou 'aceitável' de sexualidade, de desejo, de parceria ou família implica que indivíduos e a população são governados de um modo que os ajuda a integrar a governabilidade neoliberal nas práticas e nos comportamentos cotidianos.
A flexibilização do aparato da sexualidade ajuda a produzir uma realidade social que pressupõe a existência de governabilidade neoliberal."

O objetivo é substituir as subjetividades tradicionalmente constituídas com fim de reconstituir as relações sociais maduras para a exploração neoliberal.

No momento, na maioria das nações do Terceiro Mundo, o casamento gay é uma proposição ininteligível, mesmo para casais de mesmo sexo. Para eles, a autoridade para definir relações sociais é recebida da tradição e da religião. A ideia de que alguém pode redefinir o que significa o casamento pressupõe um conjunto de ideologias ocidentais e práticas sociais que não têm qualquer lógica simbólica nestes lugares. Escrevendo em The Encyclopaedia of African Religion, Molefi Kete Asante, um professor na Temple University, afirma que:

"A filosofia africana em geral é a de que a vida e a reprodução da vida sentam no núcleo da sociedade humana. Homens e mulheres têm crianças que ritualizam seus pais e ancestrais. No processo da construção da comunidade, a cultura africana não tem lugar, nem categoria e nem conceito que possa acomodar a homossexualidade enquanto modo de vida porque isto não se encaixa na visão segundo a qual humanos deveriam se reproduzir com o fim de serem lembrados pela eternidade."

Ele segue adiante e afirma que "nada é mais importante que o ciclo da vida a partir dos não-nascidos até os ancestrais; qualquer coisa que romper este ciclo, tal como a homossexualidade enquanto modo de vida, ameaça o próprio núcleo da sociedade africana e de sua filosofia."

O Ocidente deseja usurpar tal autoridade e entregá-las às maquinarias científicas e políticas que se disseminaram como ervas asfixiantes em nossos países.

Na luz da disrupção potencial para modos de vida ancestrais, afirmações chocantes como essas feitas recentemente por Kingsford Sumana Bagbin, o orador adjunto do parlamento de Gana, se tornaram incompreensíveis. À chamada de Theresa May para a inspeção de leis anti-gays, Bagbin respondeu com desprezo: "a homossexualidade é pior que a bomba atômica", ele disse, acrescentando que "não há modo de aceitarmos isso em meu país". Esta estratégia de catalizar e reforçar a poluição sócio-cultural para a governança neoliberal é o que John Millbank chamou de "tirania biopolítica". Em suas palavras,

"a relação (exchange) heterossexual e a reprodução sempre foi precisamente a 'gramática' da relação social como tal. O abandono dessa gramática implicaria, assim, uma sociedade não mais constituída pelo parentesco estendido, mas antes por um estado de controle e de trocas (exchange) e reproduções meramente monetárias."

Esta Ocidentoxização espalha seu próprio, bem único, conjunto de crenças, significados e prioridades sociais na base dos atos sexuais. Uma vez contraído, ele atacará os laços sociais até que tenham se tornado anêmicos, se rompam e feneçam. Corpos governamentais estrangeiros podem então astutamente invadir, injetando forças de mercado implacáveis na cultura hospedeira.

Instalar a lógica do casamento gay nas sociedades tradicionais, finalmente, é trazer à tona todo um novo cosmos, uma regra neoliberal receptiva. Relações, estruturas econômicas, auto-conhecimentos, mesmo palavras elas mesmas, devem tudo passar por um processo de transvaloração radical. Os mestres da nova colonização usam o chicote da ideologia para recriar o logos de um povo. De fato, o direito humano mais ameaçado, no fim das contas, pode ser o direito natural de uma cultura não-Ocidental.