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sábado, 5 de novembro de 2016

TSIDMZ: A Busca por Beleza, Majestade e Metafísica

por Mindaugas Peleckis

TSIDMZ significa THULESEHNSUCHT IN DER MASCHINENZEIT, isso quer dizer Sehnsucht (nostalgia) por Thule em um Tempo de Máquinas. Thule é um “espaço primordial”, provavelmente um lugar físico, mas indubitavelmente, um domínio metafísico. De acordo com a mitologia indo-europeia, os povos indo-europeus que outrora habitaram as terras da Eurásia eram descendentes de Thule, a última terra remanescente do continente Hiperbórea. De uma maneira muito breve e grosseira, podemos dizer que Thule é equivalente ao Éden bíblico. É o lugar da “perfeição” original, o lugar dos ancestrais e heróis que viveram próximos ao divino. A TSIDMZ expressa exatamente esse tipo de nostalgia de um ponto de vista pessimista, significando “ausência”, e também de um ponto de vista construtivo, significando uma nova realização. Portanto, essa nova realização deve ser alcançada em nossos tempos, “In Der Maschinenzeit”. Será possível realizar uma sociedade justa, sublime e “espiritual” na era pós-atômica? Será possível combinar a máquina com a Tradição? De acordo com a TSIDMZ uma possível resposta pode ser encontrada no Futurismo, a nível artístico e cultural, e no Socialismo, a nível político e social. Como consequência, música eletrônica e toda forma de arte “industrial” tornam-se imperativos. No que tange aos níveis social e político o Homem deve ser o mestre da máquina, e não mais um escravo ou vítima. Da mesma forma, a nível cultural o Novo Homem precisa se integrar com a máquina, que deve tornar-se parte de sua nova cultura com o objetivo de dar continuidade aos valores tradicionais com essa nova ferramenta. Como resultado, isso irá criar uma identificação artística e estética, que dará uma nova identidade apropriada ao Arbeiter, como Jünger o entendeu (o Arbeiter é o conceito de E.Jünger sobre o Novo Homem que combina técnica e visão ascética/metafísica). “A técnica é o meio pelo qual a figura do trabalhador mobiliza o mundo.” – E. Jünger. Como consequência, a TSIDMZ apreciou a ideia, o conceito e o tema eurasianos: equilíbrio social, superar todas as ideologias, uma weltanschauung metapolítica e metafísica para reconquistar a Eternidade na pós-modernidade. A TSIDMZ é parte da Associação de Artistas Eurasianos: https://www.facebook.com/EurasianArtistsAssociation. [Fonte: página da TSIDMZ no facebook]. Em minha opinião, a TSIDMZ é uma das melhores e mais interessantes bandas da atualidade: letras profundas, temas sérios, música dramática: é uma bomba que irá explodir sua mente se ela está sob o controle do Big Brother. A entrevista com o líder da banda, Tetsuo, também conhecido como Uomo D’Acciaio (ideias, música, atmosferas, amostras, distorções, efeitos) foi feita em 17 de Outubro de 2016.

Você trabalhou com uma pletora de artistas ao longo dos anos. Quais colaborações foram/são as mais interessantes e importantes pra você, e por quê?

Eu tive a chance de trabalhar com muitos artistas e amigos que eu sempre gostei e apreciei. Cada colaboração foi importante para o enriquecimento cultural e musical do som da TSIDMZ e teve uma origem e história excepcional.

Das primeiras colaborações com Lonsai Maikov, Rose Rovine e Amanti, Heiliges Licht, [distopia], Narog, etc. até as últimas com Gregorio Bardini, barbarossa Umtruk, Order Of Victory, L’Effet C’Est Moi, The Wyrm, Corazzata Valdemone, Gnomonclast, Strydwolf, Suveräna, Horologium, Porta Vittoria, Sonnenkind, Le Cose Bianche, Valerio Orlandini, Winterblood, the Serbian poet/writer Boris Nad etc, eu posso dizer com orgulho que a música sempre foi e é muito variada e em constante evolução e enriquecimento.

Você pode me dizer, resumidamente, quais são as principais ideias por detrás de sua música? Você poderia mencionar suas composições, álbuns e colaborações favoritos?

Por detrás da música da ThuleSehnsucht há a fascinação pela relação dos opostos, a descoberta do desconhecido e a busca pela beleza, majestade e metafísica.

Eu gosto de tudo que fiz ainda se em uma viagem hipotética ao passado eu quisesse melhorar ou mudar algumas coisas. Cada música, CD, compilação, trabalho avulso e colaboração possui uma história, origem, desenvolvimento e esforço único, então é difícil dizer o que eu prefiro. Tudo foi útil para o nosso crescimento.

Uma menção especial vai para Barbarossa Umtruk. Um artista francês muito prolífico, original e talentoso que eu amava antes de começar minha própria música. Ele encontrou uma alquimia de sons única e temas que me fascinaram muito e influenciaram profundamente minha abordagem pessoal à música e a alguns temas.

Por essa razão e em primeiro lugar pela amizade que estabelecemos de maneira espontânea, nós fizemos muitas músicas em colaboração e por isso ele é o único artista presente em toda a trilogia da TSIDMZ (Pax Deorum Hominumque, Ungern Von Sternberg Khan, René Guénon et la Tradition Primordiale) com duas músicas em cada álbum. Da mesma forma, eu tive a chance de estar em alguns de seus trabalhos: La Fosse De Babel, Der Talisman Des Rosenkreuzers: La Mission Secrete Du Baron Sebottendorf, Tagebuch eines Krieges (2005-2015).

O novo álbum está indo bem, mas não como os últimos três CD’s físicos. Ele é menos marcial e muito mais meditativo. Se Pax Deorum Hominumque, por exemplo, possui uma abordagem fácil, o álbum René Guénon et la Tradition Primordiale requer maior concentração e interesse sobre o assunto que eu trato em cada música. Uma boa maneira seria escutar o álbum acompanhando os textos (disponíveis através do Facebook e Bandcamp da TSIDMZ). E dali em diante minha esperança é que todos comecem uma pesquisa e um estudo de maneira profunda e pessoal, interessando-se pelos temas.

O som é mágico. Você provou isso. Porém, o que resta quando não há música?

Som é energia e Deus é pura energia (pensante) então talvez o som puro nunca irá acabar.

O que é e o que não é um som artístico?

Arte em geral deveria estar em primeiro lugar na promoção/educação da beleza, natureza e espiritualidade. As artes deveriam elevar a humanidade, deveriam proporcionar visões do todo e da eternidade e ao mesmo tempo deveriam exorcizar a realidade. Esses são os elementos menos presentes nas “artes” modernas.

Arte, nesse caso, arte musical, significa também trazer algo (em ideias, ou sons, ou em textos em um estilo específico de voz) do “mundo das ideias” platônico para esse mundo. Imitar outro artista, repetir o que já foi dito por outros e “copiar e colar” não é arte. É muito mais uma questão de ser bom ou ruim tecnicamente ou como banda cover.

O que você pensa sobre as relações entre a arte antiga e a arte de computador? Elas são compatíveis?

O computador, como toda coisa inanimada, é uma ferramenta. Uma arma não mata até que alguém a utilize para matar e o computador não mata a arte ou a música até que você o utilize para fazê-lo. Em toda coisa inanimada o que importa é qual o “espírito” que há por detrás dela. Com qual espírito, valor, princípio, visão de mundo e filosofia você utiliza o laptop, a arma, o carro, a família, música, sexo, matemática etc. Aqui se encontra a questão principal e a primeira de todas.

Ferramentas são só coisas inanimadas até que você decida como e quando usá-las. É claro que algumas ferramentas são mais perigosas que outras e requerem mais atenção e mais consciência, mas uma sociedade doente não deveria usar sequer uma colher. Tudo o que uma sociedade doente ou uma filosofia doente ou uma pessoa moralmente doente usa e faz estará errado. De maneira oposta, uma sociedade saudável ou uma pessoa saudável ou uma Weltanschauung saudável irão usar de uma maneira apropriada até mesmo o fogo. Para concluir, tudo pode ser feito (não por todos), mas depende como é feito.

O que você pensa a respeito dos milhares de projetos de bandas eletrônica, neofolk, industrial, ambient, tribal, eletroacústico, avant-guarde etc? É um tipo de tendência, ou uma inclinação em direção à músicas melhores?

Em todos os lugares e em todas as épocas da história sempre houve muitos artistas, músicos, instrumentistas e assim por diante. A única diferença é que agora com as tecnologias, internet, plataformas web e etc. é mais fácil divulgar a própria música e as performances. O que você escutava na taverna, na festa do vilarejo ou nas ruas, hoje pode ser escutado em casa através de um dispositivo, porque as tecnologias permitiram gravar o que uma vez só podia ser tocado e escutado em um evento público.

Agora nós podemos ter tudo imediatamente e a primeira consequência disso é a produção em série e desvalorização de tudo, a falta de entendimento profundo acerca do que escutamos.

O problema toca a questão da socialização e da qualidade.

Se outrora a música foi um agregador social e cultural, agora o homem pós-moderno pode isolar-se completamente de qualquer contexto social e pode escutar o que quiser no momento em que quiser (e na maioria das vezes, o que o sistema quer que você escute. É o zeitgeist! A solidão pós-moderna, consequência do extremo individualismo, a desintegração social e a falta de valores tradicionais e naturais controla mais e mais as nossas vidas. É claro que até no passado a música era tocada e escutada em solidão ou em situações muito privadas, mas o que era uma exceção ou apenas uma das muitas formas de se escutar música agora se tornou a norma.

Então nós chegamos na qualidade. O fato de que agora podemos gravar qualquer coisa que quisermos não significa que estamos indo em direção a uma música superior ou a coisas de maior qualidade. Quantidade raramente significa qualidade. Nós temos uma sobrecarga de álbuns que saturam a escuta. Muitos desses álbuns são só boas composições técnicas, repetição das estruturas habituais de grandes artistas históricos que são chamadas incorretamente de arte.

Imitação não é arte, é apreciável e legal, mas não é música ou arte superior. Ter uma atitude de “banda cover”, uma “atitude de DJ” ou possuir uma boa técnica no que tange à música não é suficiente para preencher a palavra arte. Um som original, textos originais ou músicas originais ou composições originais não são poucas, mas também não são propriedades de qualquer músico. Como eu disse, arte significa trazer algo do “Mundo das Ideias” para esse mundo; quantos dos ditos artistas fazem isso?

Então com a internet a qualidade definitivamente caiu. A internet deveria ser uma maneira de promover e começar para observar como a sua arte funciona; a pós-modernidade é um mundo líquido (dinheiro falso que não existe; o deus invisível chamado mercado que hoje governa tudo; a ideia de que tudo é permitido e não há certezas) e o mp3 sem graça e de baixa qualidade em uma plataforma web que hoje existe, mas amanhã talvez não, é outro elemento da decadente “sociedade líquida” em que vivemos. Não se tem certeza sobre nada, nada mais é qualitativo, tudo é massivo, quantitativo, plastificado, em série, sem nenhum entendimento profundo e mensurável unicamente através do dinheiro... e hoje nem o dinheiro possui um valor real; dinheiro líquido, sem ouro ou um papel correspondente, devido ao fato de que uma grande quantia de dinheiro é criada diariamente na virtualidade (com a consequente usura e especulação).

Concluindo, o primeiro passo urgente é retornar à natureza, nos tornarmos “muito humanos”, e libertarmo-nos desse mundo desumanizado e cada vez mais mecanizado. Referente às artes, um bom ponto de partida poderia ser recuperar o prazer de ler um livro físico ou escutar música em um vinil ou em um CD; na verdade, é impossível ter um controle total e uma compreensão completa de algo até que esse algo esteja somente na virtualidade ou em estado líquido.

Quando conseguirmos re-descobrir o valor de uma sociedade real-concreta que raciocina pelo bem comum, para a beleza física e metafísica e para as raízes das pessoas e identidades e não para os interesses do mercado, talvez será mais fácil iniciar um novo caminho em que a música também se incline ao melhor e em direção a ideias mais originais...

 O que mais inspira você?

Deus, beleza, majestade, eternidade, opostos, filosofia, metafísica, metapolítica, geopolítica, mitologia, religiões, tradições, identidades, pessoas, ideias e ideologias, história, arqueologia corrente e arqueologia oculta, futurismo, cinema, a relação homem-máquina, surrealismo, vida e morte, música industrial, clássica, folk, étnica, eletrônica e rock (metal).

No que você está trabalhando agora?

Está sendo planejado um novo álbum com um som novo, novas ideias e novos temas, mesmo que os anteriores ainda estejam sempre presentes de uma forma ou de outra. Além disso, o projeto está sempre ativo em suas colaborações, compilações temáticas e trabalhos separados.

O que o nome da sua banda significa para você? Que ideologia/religião/visão de mundo você segue?

Significa tudo que eu fui e ainda sou. Significa minha principal Weltanschauung. TSIDMZ é um acrônimo para ThuleSehnsucht in Der MaschinenZeit; isso quer dizer Sehnsucht (nostalgia) por Thule em Tempos de Máquinas. É uma frase que une a parte espiritual com a parte filosófica e a parte artística e musical da minha pessoa. Em poucas palavras, sou eu.

É uma frase que também foi influenciada profundamente por esta famosa frase de E. Jünger: “A técnica é o meio pelo qual a figura do trabalhador mobiliza o mundo.”.

“O Trabalhador” é o Novo Homem de E. Jünger, que combina a técnica moderna e visão ascética/metafísica; em um nível cultural esse Novo Homem precisa se integrar com a máquina, que se tornou parte de sua nova cultura, para que ele possa dar continuidade aos valores tradicionais com essa nova ferramenta.

Eu não me prendo a nenhuma definição. Nem na filosofia e nem na música. Para todo campo humano há muitos rótulos como se fossem marcas comerciais e muitas pessoas que não pensam, são monótonas, iguais em tudo (iguais de maneira inferior e não superior).

As pessoas estão cada vez mais cegas que nunca irão ver o quanto já está condicionado pelos contravalores pós-modernos e antinaturais e pela miríade de mentiras e pseudomitos modernos e pós-modernos em que vivemos. Pensar com seu próprio cérebro significa ser humilde para escutar, descobrir, ler, comparar e entender profundamente (e não com um punhado de frases encontradas nas mídias sociais) o que é totalmente oposto ao que a mídia e o presente sistema orwelliano mandaram você pensar até agora. Esse é só o primeiro ponto para começar a dizer: “Eu penso”.

A humanidade pós-moderna está no ápice da desumanização, no ápice do afastamento da natureza e da vida concreta e real.

Iluminismo, uma espécie de nova religião sem um deus transcendente (como todo materialismo, progressismo, evolucionismo, internacionalismo, ideologias de liberação, feminismo, veganismo e assim sucessivamente com todo o resto de “religiões” modernas construídas ao redor de falsas construções mentais e elementos singulares transformados em absolutos para toda realidade), realizou o primeiro passo para o afastamento de Deus (com o slogan/desculpa frequente de “oh como são ruins as religiões”... seria a bomba atômica ou todo o mal materialista e “laicista” dos últimos séculos uma consequência das religiões!?), e o último passo foi dado com a atual desconexão pós-moderna em relação à vida, à natureza, ao pensamento lógico e simplesmente de sermos humanos.

Em suma, nós podemos dizer que de um deus transcendente no centro do universo nós ganhamos o mercado no centro do universo.

A melhor solução é ter fortes princípios tradicionais e só então considerar qualquer tipo de música, qualquer filosofia e qualquer ideologia. Quando você possui princípios fortes, identitários, naturais, eternos e espirituais, quando você possui uma filosofia holística verdadeira (e não sectária como muitos modernos erroneamente chamam as “filosofias”/conhecimentos), quando você sabe que tudo possui uma origem divina ou espiritual (apenas leia Platão) e limites muito específicos impostos por princípios metafísicos (e portanto você é forçado a não fazer qualquer coisa permitida pela tecnologia ou humanos comuns) quando você entende que a matéria é limitada e o ilimitado (como é o mercado) é um contravalor antinatural, quando você entende que o bem comum é o valor mais alto em uma sociedade, quando você entende que primeiro existe a família e os povos com suas histórias/identidades próprias, únicas, específicas que precisam ser preservadas para que sobrevivam (esse sentimento deveria ser instintivo e padrão, e o fato de que a modernidade o destruiu em muitos povos, é outro sinal da completa desconexão com tudo que é natural e lógico), você também é capaz de compreender o melhor de cada situação e construir a sua “vontade de poder” / moralidade e talvez estar “além do bem e do mal”.

É claro que o mundo pós-moderno não ajuda de modo algum. O “pensamento fraco” e o pior relativismo dominam.

O Novo Homem, o “Übermensch” deve lidar com isso, é a última luta.

“Atualmente nós não estamos em guerra contra uma nação, contra um fenômeno, contra um partido ou uma ideia política, mas sim contra o surgimento de um novo e apavorante aeon, um aeon que irá varrer tradições, irá inverter valores, irá aniquilar e substituir a essência profunda, real e espiritual do ser humano com identidades falsas, baixas e demoníacas. Como consequência nós precisamos ser Futuristas: assistindo ao futuro e à técnica como uma continuação em relação ao passado e à tradição.”

TSIDMZ –ThuleSehnsucht In Der MaschinenZeit-


Obrigado

Tradução: Maurício Oltramari

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Sobre Enéadas I, Tratado 6: da Beleza


William Blake, Feton e os Cavalos do Sol
Da Beleza foi, de acordo com Porfírio, o primeiro tratado de Plotino - e ele revela o filósofo em seu estilo mais poético. Ele serviu como iniciação à sua filosofia por séculos, não apenas por causa de seu estilo mais acessível aqui, mas também porque ele aponta para o que é mais imediata e facilmente disponível a nós por nossa experiência direta: a beleza no mundo.

Nosso encontro com a beleza aparece mais prontamente através do sentido da visão bem como através do da audição, tanto no mundo natural como na arte. Mais abstratamente, mas ainda capaz de revelar a beleza, é o hábil arranjo da linguagem que encontramos na poesia, na prosa e na oratória - não apenas em sons, mas os significados e as ideias que eles carregam nos inspiram em um maravilhamento do mundo, e na vida virtuosa. Uma vida virtuosa é vista não apenas como boa ou justa, mas também bela.

A beleza funciona como uma janela através da qual podemos ver através do mundo extrínseco e empírico para capturar um vislumbre da unidade do cosmos em si, uma experiência do mundo intrínseco e ontológico. Ou, posto diferentemente, a beleza é um fio dourado que percorre através de todos os níveis do Ser, do qual podemos traçar todo seu caminho de retorno à fonte, ao Bem em si. Assim, a beleza serve como um convite à alma, despertando-a para sua jornada rumo à integração e unidade.

Plotino aqui é visto em sua mais reta afirmação do mundo. É fácil perder a visão do aspecto crucial de sua filosofia que não nega o mundo material ordenado, ou seja, a natureza. Enquanto a matéria se submete à ordenação unitiva (como na imagem do Uno), o mundo natural tem seu lugar certo na hierarquia ontológica do todo. Apenas enquanto a desordem e a desintegração ocorrem que a matéria decai para longe da ordem do Ser, onde, em nossa ignorância, buscamos substituir a verdadeira ordem ontológica das coisas. É por esta razão que Plotino caracteriza a matéria bruta como 'má'. Mas a natureza em si (que é ordenada) não é má, mas, pelo contrário, um reflexo do Bem.

Assim na natureza podemos testemunhar a beleza, por exemplo um nascer do sol por sobre o oceano, que transforma as cores do céu, que é por sua vez encrespado nas ondas da água, e nós estamos deslumbrados pela luz do sol. Tudo isso ocorre através do material que está ordenado de um modo particular. Podemos oferecer uma consideração extrínseca e técnica do porquê uma cena assim se parece do jeito que é: a composição química da combustão do sol do hidrogênio, a luz refratando na atmosfera da terra que faz surgir miríade de cores, o olho humano que recebe as frequências da luz e o cérebro interpretando o que o olho toma. E uma consideração científica desse tipo não é certamente falsa. Mas -crucialmente - uma tal consideração não resume nem pode resumir a experiência intrínseca de um tal momento. Isso aponta para algo fora do escopo estreito da explanação empírica, caçando na dimensão ontológica na qual participamos: 'Há um bom negócio [uma boa diferença] entre ser corpo e ser belo' [I.6.1]

Isso é verdadeiro também quanto às explanações estéticas de uma obra de arte, por exemplo uma paráfrase de um poema. A crítica literária tem seu valor, mas não pode substituir a experiência intrínseca do poema em si. E os princípios técnicos sozinhos, aplicados em qualquer obra de arte (tal como simetria e proporções corretas) não produzem a beleza sublime, mas a coisa é bem o contrário: a soma é maior do que as partes [ou: o todo é maior do que a soma das partes]. A beleza não pode ser mecanicamente reproduzida por regras meramente seguidas de fórmulas, na arte. Em outro lugar na Enéadas, Plotino escreve que 'a beleza é o que irradia mais simetria do que a própria simetria' [VI.7.22]

Algo outro toma lugar no rosto da beleza que transcende a matéria formada apresentada, algo que está além dela, para o que somos despertados. Esse é o ponto crucial do argumento de Plotino em seu tratado: nosso encontro com a beleza é algo muito além de qualquer explicação extrínseca e formal. A beleza nos impulsiona para algo inteiramente outro, transcendendo as partes constituintes da coisa bela que testemunhamos. O encontro com a beleza não é meramente estético, mas possui uma dimensão ética e ontológica maior. Este é o significado por trás da trindade platônica da Beleza, do Bem e da Verdade.

A beleza pode ser descoberta em toda a natureza - é um reflexo do Bem. O Bem produz a Mente Noética, e a Mente Noética por sua vez produz a Alma, que por sua vez molda a natureza: 'Assim, então, é como a coisa material se torna bela - comunicando no pensamento [noético] que flui do Divino'. [I.6.2]. Este fluxo [que flui] do Bem pode ser seguido até sua fonte, e a alma em si é capaz de reconhecer seu traço:

E a alma inclui uma faculdade particularmente reservada para a Beleza - uma incomparavelmente certa na apreciação de si, nunca em dúvida quando quer que qualquer coisa amável se apresente para julgamento. Ou talvez a alma em si atua imediatamente, afirmando o Belo onde quer que encontre algo que acorde com a Forma-ideal dentro de si...[I.6.3]

Isso é uma beleza que facilmente reconhecemos na natureza: o fulgor do nascer do sol, o rugido do oceano, o balançar dos narcisos amarelos na brisa, um panorama estelar no céu noturno: 'Assim longe das belezas do domínio dos sentidos, as imagens e cenas sombreadas, fugitivas, entraram na Matéria - para adornar, e para violentar, onde elas são vistas' [I.6.3].

Avistar a beleza dentro do mundo material é apenas o início da ascensão plotiniana. Plotino diz que há belezas 'anteriores' àquelas do mundo natural [I.6.4] - com as quais ele quer dizer não espaço-temporais, mas de prioridade ontológica:

À visão destas devemos subir, deixando o sentido no seu lugar inferior... tal visão é apenas para aqueles que veem com a visão da alma - e na visão eles se rejubilarão, e a admiração cairá sobre eles e um problema mais profundo que todo o resto poderá bulir, e agora estão se movendo no reino da Verdade. Este é o espírito que a Beleza deve sempre induzir, espanto e problema delicioso, saudade e amor e um tremor que é tudo deleite. [I.6.4]

Onde o olho corporal é despertado pela beleza do mundo natural, o 'olho' da alma é despertado pela beleza do 'Ser-Real' [I.6.5] - a ordem ontológica ou 'espiritual' do mundo da qual a natureza é apenas seu reflexo. Assim a beleza não é apenas encontrada no domínio da arte, no mundo natural, mas na vida virtuosa, no silêncio superior, na intuição noética ou no intelecto que busca sempre além rumo ao Uno, que está ainda além do Ser-Real. O primeiro passo na jornada ontológica em direção ao Uno é o encontro com a beleza, que está disponível a nós em qualquer lugar, se verdadeiramente observamos o mundo natural ao nosso redor.

Assim como a beleza molda o mundo material em coisas belas, a beleza molda a alma em virtudes belas - se permitimos. E então podemos subir mais alto. Mas a ascensão 'para cima' é, em algum sentido, um movimento 'para dentro':

Aquele que tem a força, deixe-o subir e se afastar para si mesmo, para além de tudo que é conhecido pelos olhos, indo para longe mesmo da beleza material que uma vez lhe trouxe prazer. Quando ele percebe aqueles moldes da graça que se mostram no corpo, deixe-o não perseguir: ele deve conhecê-las por cópias, vestígios, sombras, e se apressa rumo àquilo que elas expressam. [I.6.8]

A jornada não tem nada que ver com o mundo empírico: 'Isso não é uma jornada para os pés... você deve fechar seus olhos e clamar por outra visão que está para ser desperta dentro de você...' Aqui é absolutamente essencial entender que Plotino não está apontando para o que é popularmente conhecido como 'mundo sobrenatural' - o erro em tais noções é que as assunções empíricas são implicitamente distorcidas em tal pensamento: uma 'substância material' é meramente transposta a uma 'substância sobrenatural' que de outra forma opera sobre modos empíricos. Ao permitir que assunções baseadas no empírico sejam sobrepostas ao Ser-Real, o significado ontológico da visão de Plotino é inteiramente perdido. Do que Plotino está falando 'não é medido pelo espaço... mas é incomensurável' [I.6.9] - e não é mensurável em nenhum sentido natural ou sobrenatural. Isso é precisamente o mesmo tipo de obstáculo que Agostinho enfrentou: 'Meu coração estava procedendo através de imagens do mesmo tipo de formas através das quais meus olhos foram acostumados a proceder...'[Confissões, Livro VII]

Em caso de necessidade, Plotino recorre à linguagem mitopoética para expressar o que a linguagem humana é inteiramente incapaz de descrever: o mito de Narciso, a Odisseia de Homero, a alegoria da caverna de Platão, e as religiões-mistério dos tempos de Plotino. Essas imagens não deveriam ser tomadas literalmente, mas como interjeições poéticas que nos incitam em direção ao que não pode ser expresso, apenas experienciado. Ele busca, usando linguagem figurativa, apontar para uma integração da consciência que é fundamentalmente muito mais psico-ontológica do que sobrenatural. Somos tão facilmente condicionados por nosso quadro empírico da experiência que não facilmente reconhecemos como a permitimos da mesma forma qualquer coisa 'além' do mundo material em modos pseudo-materialistas. O que Plotino fala está muito além nas profundezas em relação ao 'sobrenaturalismo'. É nesse sentido que Plotino era único entre os neoplatônicos.

O reconhecimento inicial do 'Ser-Real' é como a já existente alegoria da caverna de Platão: o olho da 'alma' é inicialmente fraco, e então deve adaptar-se ao brilho da luz radiante que desce do Uno. Agora o trabalho da filosofia pode começar a sério, cultivando a si mesmo, permitindo que a beleza e a bondade de alguém brilhe. Em uma das mais memoráveis passagens de Plotino, ele compara a vida filosófica com a da escultura:

Retire-se [do mundo] para si mesmo e veja. E se você não se encontra belo ainda, atue como o criador de uma estátua que deve se tornar bela: ele corta um tanto aqui, alisa lá, torna essa linha mais leve, a outra mais pura, até que um rosto amável cresça do seu trabalho. Então faça você também: corte tudo que é excessivo, corrija o que está torto, traga luz a tudo que está escuro, labore para fazer um fulgor de beleza,, e nunca cesse de esculpir sua estátua, até que brilhe em você o esplendor divino de virtude, até que você deve ver a perfeita bondade certamente estabelecida no santuário imaculado. [I.6.9]

O impulso de Plotino em direção a essa visão finalmente culmina na união com o Uno, uma integração fundamental da consciência com o todo do Ser-Real, e 'nada agora que permanece pode destruir aquela unidade interior'. O vidente, a visão e o visto são unificados em um todo ontológico indivisível: 'você se torna cada visão'. Nesse ponto, a linguagem simplesmente falha (especialmente a gramática, que demarca as divisões de sujeitos, verbos e objetos): 'O olho nunca viu o sol a menos que ele tenha se tornado solar, e nunca pode a alma ter a visão da Primeira Beleza a menos que ela tenha se tornado bela' [I.6.9].

Encontramos ecos do 'olho poderoso' de Plotino além do tempo de sua própria vida, nos sermões de Mestre Eckhart: 'O olho através do qual eu vejo Deus é o mesmo olho através do qual Deus me vê...' - e também em Emerson quando ele escreve na Natureza, 'Eu fui transformado em um globo ocular transparente; sou nada; vejo tudo; a atualidade do Ser Universal circula em torno de mim; sou parte ou partícula de Deus... sou o amante da incontida e imortal beleza'.

via Plotinianlight, tradução de Álvaro Hauschild

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A Função da Beleza na Vida

Por Prado Esteban - "Breve e raro é o belo em sua delicadeza e vulnerabilidade"
Max Scheller

A beleza, a transcendência e a sublimidade formam parte das necessidades básicas, as mais primárias, se se deseja conservar a civilização, sem embargo o peculiar da condição humana é que esta se localiza entre o sórdido e o bestial e entre o sublime e grandioso. Muitas correntes filosóficas tentaram superar essa condição enfrentando o corpo e a consciência, apresentando ao sábio, que é capaz de boa vida, desvinculado de todo o baixo e vil da nossa natureza. Tal projeto só é possível para uma minoria, porque exige descarregar sobre a maioria o considerado degradado, mas que é imprescindível para a vida, quer dizer, só é possível em uma sociedade da escravidão.

Mas, além disto, esta ideia descabida decompõe e perverte a natureza do humano tanto quanto ou mais que as outras correntes bestialistas que tomam nosso ser sensível mais elementar como único fator a ter em conta e o alimento dos impulsos e as satisfações grosseiras do corpo como meta essencial da vida.

O certo é que ambas são ideologias da negação da nossa natureza autêntica que é indissoluvelmente bipartida e ambas renegam o humano da mesma forma, quer dizer, nos desumanizam. Se defendemos a reumanização como fator de recuperação de nosso potencial como sujeitos, temos que aprender a aceitar e afirmar nossa humanidade tal como é, com todos seus constituintes.

O comum é assumir que se se deseja uma sociedade sem castas governantes, esta viverá voltada para as necessidades materiais e alheia à beleza e sublimidade, assim os movimentos populares do presente decretaram a centralidade do doméstico e fisiológico, do pequeno e funcional, salientando de burguês tudo que se distancia do imediato e somático.

Nada há de mais falso que considerar herdeiras da tradição popular estas novíssimas correntes que são filhas significadas da modernidade e entrelaçam também com outros momentos da história nos quais o povo desapareceu para se tornar plebe ou populacho, grupo marginal e humilhado, preso a sua condição de escravo e dependente de seus amos.

Quando o povo foi povo, o que em nosso redor foi uma situação comum por um espaço de tempo muito grande, se dotou de uma cultura material e espiritual própria que se girava sobre a ideia de realçar o humano e suas necessidades em todas suas dimensões e complexidade. Por isso as necessidades físicas e espirituais da espécie foram tomadas em seu conjunto como fundamentos de sua dignidade.

Assim um ato tão primário e elementar como o comer não foi nem considerado o centro da existência nem desprezado por seu caráter de necessidade fisiológica, pelo contrário foi elevado e dotado de respeito enquanto ato humano. Basta observar a beleza dos utensílios mais humildes como as colheres de madeira da arte pastoril, os cornos talhados tão belamente para conter as modestas azeitonas.

Além disso se acrescentou a esse ato simples a distinção de torná-lo centro da cerimônia de convivência, a mesa como centro de encontro, lugar privilegiado para a comunicação afetiva e de vivência dos próximos, as famílias, os amigos e os vizinhos, artesanato da hospitalidade e dos rituais festivos. O costume de abençoar a mesa, de recolher-se interiormente antes de comer dava um caráter sagrado a essa função corporal.

A sociedade moderna em seu afã de dessacralizar a vida humana converteu o comer em um ato plenamente animal e fisiológico, o modelo de indivíduo que engole na rua um hambúrguer, solitário, sem mais objeto que preencher o estômago, quase sempre com mais calorias do que o recomendável, é o paradigma de uma sociedade que aspira à animalidade, a converter os seres humanos em animais do trabalho.

O povo fez o cotidiano, o corporal e o doméstico transcendentes e sublimes e dotou o divino de anatomia fazendo-o descer à escala da pessoa, dando forma humana. Um modelo exemplar deste fato é a arte romântica na qual o sagrado e o corpóreo se enlaçam de forma substancial como meta-representação de nossa condição autêntica.

Isto se faz por um sentido da dignidade da vida e da pessoa, que necessita se realizar materialmente e o faz, entre outras vias, através da beleza, da capacidade para reconhecê-la (por exemplo na natureza) e para criá-la e dotar de valor estético os objetos mais cotidianos e humildes, um azulejo, um bordado, uma fechadura ou até um cinzeiro.

A modernidade quis destruir essa cultura cuja singularidade dotava aos sujeitos que pertenciam a ela de um enorme potencial e energia, de uma grande força pessoal e coletiva e por isso separou a beleza da vida. Hoje a "arte" é o que fazem os artistas, uma ínfima minoria de "inspirados" que produzem mercadorias cujo valor é outorgado pelas convenções políticas e flutuações de um mercado dirigido. Mas para o povo este termo teve uma acepção muito mais ampla e divergente, muito mais aberta, as artes se referiam às habilidades, destrezas e técnicas para criar novos objetos ou materiais necessários para a vida, algo que comprometia quase toda a comunidade de uma ou outra maneira e se comporia de uma extraordinária abundância de obras em múltiplas ordens. Não negaram a existência do gênio natural em certas pessoas para criar em distintos planos, os dons, naturais ou construídos, como atributos da singularidade humana eram muito valorizados pela comunidade popular.

Para romper esse mundo em primeiro lugar se impôs o funcionalismo da fabricação em série que desalojou da vida comum a beleza para dar preeminência ao prático e utilitário, se decretou que a experiência estética estaria separada da existência cotidiana das pessoas e habitaria em espaços especiais (que estes espaços fossem sistêmicos ou alternativos não mudaria substancialmente a questão). Em segundo lugar, estabelecida a figura do artista como ser genial e iluminado se voltou a destruir todo o belo e elevado para impor a arte do feio, esfarrapado, profano, ridículo, estúpido, cretino...a arte-nada apresentada como cúmulo do crítico anti-burguês.

A vida real das classes populares se tinha que tomar obrigatoriamente degradada e sórdida, exaltando a miséria espiritual, separando o corpo, a mente e o coração, descarrilando a equilibrada unidade alcançada ao longo de séculos e herdada de geração em geração.

Com isso se preparou um indivíduo, varão ou mulher, capaz de submeter-se à nadificação e ao desprezo brutal do assalariado, à submissão permanente e à obediência cega das consignas do sistema, um indivíduo capaz de viver sem grandeza, sem beleza e sem dignidade.

Nossos ancestrais compreendiam, não de uma forma verborrágica, mas prática, que as necessidades corporais, as afetivas, as intelectivas e espirituais deviam se entrelaçar substancial e efetivamente, a beleza dos objetos úteis outorgava transcendência aos elementos mais primários da existência, e além disso representava a criatividade, autonomia, singularidade, maestria e graça do autor. Mas não caíram no absurdo de considerar a estética como um atributo unicamente dos objetos, das coisas, se valorizou especialmente a beleza das pessoas, das relações e das instituições humanas.

Cada um oferecia à vida social seus atributos naturais, físicos, intelectivos, espirituais, de convivência, comunicativos etc. de maneira que as virtudes ou qualidades humanas fossem materializadas nas pessoas e o apreço pelas faculdades singulares de cada um fosse a norma.

Cultivou-se a elegância e o gênio, a força física, a energia vital, a cordialidade, a alegria, a boa língua, as habilidades manuais, a criatividade artística, a valentia, a entrega, a capacidade amorosa, a beleza física, a sublimidade espiritual, o galantejo, o bom humor, cada um na forma e maneira em que lhe permitiam o temperamento e disposição peculiar.

Este sentido de própria valorização e dignidade se aprecia por exemplo na foto de dois lagarteranos em traje de boda, realizada em Oropesa em 1858, a beleza das pessoas, da composição do grupo, a nobreza da expressão é um conjunto que ocorre por sua beleza.

Também os ritos de convivência, as cerimônias da vida política e, por suposto, a festa são elementos dotados de transcendência e beleza, vitalidade e força.

É curioso que muitos elementos profundos da cultura popular se compartilhem com acervos tradicionais tão distantes como o dos gaúchos, sem embargo as palavras de Atahualpa Yupanqui ressoam como se tivessem sido ditas sob o carvalho centenário de uma aldeia castelhana. A sabedoria vital, prática, que pensa sobretudo em fazer da pessoa, pessoa em toda sua extensão e pessoa para a convivência, para a comunidade, para a ascensão de tudo o que humaniza. Esta reflexão de Yupanqui sobre a diferença entre a festa e a farra, entre o bem falar e o saber calar... Que difícil é nossa época em que nada tem equilíbrio e tudo é desmedido e excessivo!

Como dói o gaúcho da destruição da linguagem que é a destruição da beleza, da pessoa e da comunidade!

E não obstante até este homem  íntegro e sábio duvida de seu valor intrínseco e substancial em um momento, no valor de seu acervo e sua civilizada forma de vida e diz que foi demasiado pobre para provar a universidade sem se dar conta que se tivesse provado esse lugar não seria senão uma a mais das mentes uniformizadas e vazias que nela se constróem.

Sem pensamos em uma estratégia para a regeneração social não podemos deixar de lado a necessidade da beleza nas coisas, nas relações, nas pessoas e nas instituições, a necessidade da estética e da entrega de valor a cada ato humano. Só uma sociedade que seja capaz de estar em um permanente esforço de criação, em uma inquebrantável decisão de constituir-se cada um e cada uma em um expoente da excelência e da virtude humana pode ser uma sociedade de ascensão da civilização como compêndio das melhores possibilidades da nossa espécie.



Via Paginatransversal