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sábado, 29 de junho de 2019

Fusaro: 'Tontos de esquerda combatem fascismo inexistente e apoiam o mercado'


Diego Fusaro é um dos intelectuais mais polêmicos da Itália, uma vez que ocupa uma posição ideológica que aglutina posições conservadoras e de esquerda. É marxista e suas referências são Gramsci, Pasolini e Costanzo Preve, ao mesmo tempo que é antiglobalista e soberanista, e isso o levou a sustentar posições com as quais muitos salvinistas não estão em desacordo. Vários livros seus foram editados na Espanha, tanto por editoras ligadas à esquerda, como 'Antonio Gramsci, la pasión de estar en el mundo' (Ed. Siglo XXI) ou 'Todavía Marx' (Ed. El Viejo Topo), ou à direita, como o recém publicado 'El contragolpe' (Ed. Fides). O pensamento de Fusaro é um tanto heterodoxo, que está destinado a receber críticas de um lado e de outro, e em não poucas ocasiões foi tachado de vermelho e de fascista, como também se fez com quem o entrevistou, que acusam de branqueamento. Mas aqui assumimos com gosto este risco, porque as ideias do filósofo na moda na política italiana também merecem ser conhecidas.

PERGUNTA. Acaba de publicar 'La notte del mondo'. Explica-me, por favor, por que estamos em uma noite escura, em que ponto se cruzam Marx e Heidegger.

RESPOSTA. Meu livro 'La notte del mondo. Marx, Heidegger e il tecnocapitalismo' (UTET, 2019) é uma tentativa de raciocinar segundo as categorias de Marx e Heidegger sobre o que o próprio Heidegger, com os versos de Hölderlin, define "A noite do mundo". A noite do mundo é uma época na qual a escuridão está tão presente que já não vemos mais sequer a escuridão em si e, portanto, não somos conscientes desta escuridão. Heidegger o expressa dizendo que "é a noite da fuga dos deuses", na qual já nem sequer somos conscientes da pobreza e da miséria nas quais nos encontramos. Esta é uma situação de máxima emergência. Por sua vez, Marx nos 'Grundrisse' dizia que "o mundo moderno deixa insatisfeito, ou, se satisfaz em algo, é de modo trivial". É outra maneira de dizer que estamos efetivamente na noite do mundo, onde sequer vemos o enorme problema em que nos encontramos. No livro eu emprego as categorias de dois autores muito diferentes, como Marx e Heidegger, para tratar de expressar quais são as contradições de nosso presente em que todo o mundo calcula e ninguém pensa. No qual a razão econômica e técnica, técnico-científica, se impôs como a única razão válida e pretende substituir todas as demais.

P. Insiste que o eixo político não deve ser esquerda e direita, mas os de cima e os de baixo. E que ideologicamente devemos ser conservadores nos valores (enraizamento, lealdade, família, eticidade, pátria) e de esquerda [na economia] (emancipação, socialismo democrático, dignidade do trabalho). Essa é a forma de ser marxista hoje?

R. Sim, creio que a geografia da política atual mudou profundamente. Hoje há uma espécie de totalitarismo liberal que nos permite ser liberais de direita, liberais de esquerda, liberais de centro, sempre e quando formos liberais, sempre, portanto, esquerda e direita se convertem em duas formas diferentes de ser liberais ou, precisamente, em liberalismo político e econômico, em prática libertária nos costumes e, claro, em atlantista na esfera geopolítica. Creio que hoje devemos repensar uma recategorização da realidade política de acordo com a dicotomia alto/baixo ou a categoria elite/povo, que às vezes se utiliza como sinônimo. Isso implica que se a elite, o senhor globalista, é precisamente cosmopolita, a favor da abertura ilimitada da livre circulação, o servo, pelo contrário, deve lutar pela soberania nacional-popular como base da democracia dos direitos sociais. Hoje é necessário restabelecer o vínculo entre o Estado nacional e a revolução socialista. Este é o ponto fundamental.

P. Qual vai ser o futuro da UE? Romper-se-á? Quais opções se abririam? Acredita ser possível uma aliança dos países do norte, como Alemanha, Países Baixos, Suécia e outros e outra [aliança] dos países do sul? Como recompor-se-á a ordem internacional se a UE se tornar ainda mais fraca ou se vier a se romper?

R. Devemos ser muito claros ao dar uma definição da União Europeia. A União Europeia é a união das classes dominantes europeias contra as classes trabalhadoras e os povos da Europa. É a vitória pós-1989 de um capitalismo que se realiza completamente, dissolvendo os últimos bastiões de resistência: os Estados soberanos nacionais com o primado do político e da democracia sobre o automatismo total do tecnocapitalismo. Esta é a União Europeia. Um processo de globalização, de despolitização da economia e da imposição do interesse do capital cosmopolita contra os interesses das comunidades nacionais. Por isso, a luta contra o capitalismo em nosso continente hoje não pode deixar de ser uma luta contra a União Europeia. A tragédia é que a esquerda abandonou esta luta, na medida em que passou do internacionalismo proletário ao cosmopolitismo liberal e, portanto, deixa a luta contra a União Europeia, contra a globalização capitalista, para as forças que, muito frequentemente, não querem a emancipação humana nem a solidariedade dos trabalhadores, tratam simplesmente de reagir, olhando para um passado que já não existe.

P. Como deveriam atuar os países da Europa diante dos EUA e da China?

R. Creio que a Europa pode se salvar apenas se recuperar, por um lado, suas próprias identidades culturais e sua pluralidade estrutural e, por outro lado, se se libertar da ditadura chamada União Europeia, que é a ditadura do capital, dos mercados contra os trabalhadores e os povos, e se se libertar do jugo mortal do atlantismo de Washington. Temos que apontar para um eixo eurasiático que vá desde a Rússia de Putin até a China em função antiatlantista. Devemos nos libertar disso e mudar nosso ponto de vista.

P. Insiste que deve-se combater o globalismo, mas tampouco deve-se apoiar o nacionalismo. Qual é a opção?

R. Creio que hoje devemos ir mais além do globalismo e do nacionalismo. Afinal de contas, o globalismo não é mais que o nacionalismo estadunidense que se tornou mundo e, portanto, é uma forma de nacionalismo levado a seu máximo desenvolvimento. Creio que é necessário fazer valer, contra estes dois opostos, um modelo de internacionalismo entre Estados soberanos solidários, baseados na democracia, no socialismo e nos direitos das classes mais frágeis e, em consequências, em uma espécie de soberania internacionalista, democrática e socialista, distanciada tanto do cosmopolitismo que destrói as nações, quanto do nacionalismo que é um egoísmo pensado a nível da própria nação individual.

P. O Estado é o primado do político sobre o econômico. Por isso o mundo global quer acabar com os Estados?

R. Os Estados nacionais soberanos, na modernidade, não apenas foram os lugares do imperialismo, do nacionalismo e das guerras, como repete a ordem do discurso dominante, que quer destruir os Estados para impor o primado do capital globalista, onde os Estados se converteriam unicamente nos mordomos do capital. Esta é a visão liberal do Estado. Na verdade, os Estados nacionais soberanos também foram lugares das democracias e das conquistas salariais das classes fracas. E por essa razão que hoje o capital quer destruí-los, certamente não para evitar as guerras ou o imperialismo que, de fato, prosperam mais que nunca no marco pós-nacional. Hoje o Estado pode representar o único vetor de uma revolução opositora contra o capital mundialista, tal como demonstram perfeitamente os acontecimentos dos países bolivarianos, como Bolívia, Venezuela ou Equador que, apesar de seus limites estruturais, estão criando formas de populismo soberanista, socialista, patriótico, anti-globalista e identitário [identitário: de identidade étnica].

P. Por ideias como estas você foi chamado de fascista. Suas posturas políticas assustam mais a esquerda que a direita. Por quê? Nessa demonização, que papel desempenham os meios de comunicação e a Academia?

R. Claro, hoje em dia a categoria de 'fascismo' é usada de maneira completamente a-histórica e descontextualizada, para demonizar simplesmente ao interlocutor. Hoje quem reafirma a necessidade de controlar politicamente a economia e, portanto, reintroduzir a soberania contra a abertura cosmopolita, é vilipendiado e tachado imediatamente de 'fascista', 'vermelho-pardo' e 'estalinista'. A categoria de fascismo está, pois, completamente a-historizada, apenas serve para ocultar o verdadeiro rosto do que Pasolini já havia identificado como o verdadeiro fascismo de hoje: o da sociedade de mercado, o totalitarismo dos mercados e das bolsas de valores especulativas. Este é o verdadeiro rosto do poder hoje em dia, e muitos tontos que se intitulam de 'esquerda' lutam contra o fascismo, que já não existe, para aceitar completamente o totalitarismo do mercado. Estes últimos são os que lutam na França contra Le Pen para aceitar de bom grado Macron. Lutam contra um fascismo que já não existe para poder aceitar a nova porrada invisível da economia de mercado. E, claro, a classe intelectual, o circo midiático e o clero intelectual desempenham um papel fundamental neste processo; a tarefa da classe intelectual, acadêmica e periodística é garantir que os dominados aceitem o domínio da classe dominante ao invés de se rebelar. De modo que, como na caverna de Platão, amem suas próprias correntes e lutem contra qualquer libertador.

P. Insistiu que com uma mão nos dão direitos civis e com a outra nos cortam direitos sociais. Nisto consistem as chamadas políticas da diversidade?

R. Os chamados 'direitos civis' [LGBT, feminismo e afins] são hoje em dia, na verdade, nem mais nem menos que os direitos do 'burguês', que Marx havia descrito em 'A questão judaica'. Em outras palavras, são os direitos do consumidor, como diríamos hoje, os direitos do indivíduo que quer todos os direitos individuais que pode comprar concretamente. Estou pensando nos ventres de aluguel, por exemplo, na custódia das crianças segundo a lógica de custo do consumidor. Pois bem, hoje estamos assistindo a um processo mediante o qual o capital nos corta os direitos sociais, que são direitos vinculados ao trabalho, à vida comunitária da pólis; anula estes direitos e, em troca, aumenta os direitos do consumidor, sempre vinculados a um consumo que se leva a cabo de maneira individual, sem questionar nunca a ordem da produção e o fato de que, realmente, terminam fortalecendo o sistema capitalista ao invés de debilitá-lo.

Além disso, criam uma espécie de microconflitualidade generalizada que atua como uma arma de distração massiva e, também poderíamos dizer, como uma arma de divisão massiva permanente. Por um lado, distrai da contradição capitalista que já nem sequer se menciona, e, por outro lado, por assim dizer, divide as massas em homossexuais e heterossexuais, muçulmanos e cristãos, veganos e carnívoros, fascistas e antifascistas, etc. E enquanto isso ocorre de maneira natural, o capital deixa que as pessoas saiam às ruas pelo orgulho gay, pelos animais e por tudo, mas que não se atrevam a fechar as ruas para lutar contra a escravidão dos salários, contra a precariedade ou contra a economia capitalista? De ser assim, aí está a repressão, como aconteceu na França com os Coletes Amarelos.

P. Salienta que os laços estáveis, representados no matrimônio, se converteram hoje em revolucionários. Por quê? Como mudaram as coisas para que algo radicalmente frequente na História se converta hoje em revolucionário? Em que consiste o consumismo erótico?

R. O capitalismo atual é flexível e precarizador. Desagrega toda a comunidade humana e quer ver em todas as partes o indivíduo sem identidade e sem vínculos, o consumir que trava relações descartáveis baseadas no consumo. Por isso, o capitalismo hoje declarou a guerra ao que eu, em meu livro 'Storia e coscienza del precariato. Servi e signori della globalizzazione' (Bompiani, 2018) chamo de raízes éticas em sentido hegeliano; quer dizer, aquelas formas comunitárias de solidariedade que vão desde a família até os organismos públicos como os sindicatos, a escola, a universidade, até se completar no Estado. Tem como objetivo rompê-las para reduzir o mundo a um mercado único, como disse Alain de Benoist: a sociedade se converte em um único mercado global. Esta é a razão pela qual hoje em dia a reetização da sociedade, quer dizer, a revalorização das raízes éticas em sentido hegeliano é um gesto revolucionário.

P. Afirma que deve-se recuperar Gramsci e distanciá-lo das esquerdas liberal-libertárias que hoje dominam e que são quem mais o utilizaram ultimamente e que encarnam exatamente o que Gramsci combateu. Definiria também, por ir ao caso espanhol, a Pablo Iglesias, ou Íñigo Errejón, e a Podemos em geral, como um fenômeno cultural de glorificação do capitalismo globalizado?

R. Sim, no essencial, Gramsci é todo o oposto do que está fazendo a esquerda na Itália e em grande parte da Europa, as esquerdas já não são vermelhas, mas fúcsias, já não são a foice e o martelo, mas o arco-íris. Lutam pelo capital e não pelo trabalho, lutam pelo cosmopolitismo liberal e não pelo internacionalismo das classes trabalhadoras. O caso específico de Podemos em Espanha me parece bastante interessante, porque começou como força soberanista e socialista, mais além da direita e da esquerda, mas me parece que ultimamente está entrando cada vez mais no fronte único do partido único do capital, e é realmente uma lástima porque o partido Podemos originalmente parecia ser um partido de ruptura.

P. Que papel deve desempenhar o intelectual neste cenário?

R. Na minha opinião, o intelectual de hoje deve restabelecer o que Gramsci chamada de 'conexão sentimental com o povo-nação', quer dizer, deve voltar a conectar o povo à política, à intelectualidade mesma, para que o povo saia da passividade e se transforme em subjetividade ativa, como já está acontecendo, na medida em que o povo está se rebelando contra a elite cosmopolita. Isso ele faz votando por Brexit, votando por Trump, votando na Itália contra o referendo constitucional, na Grécia pelo referendo contra a austeridade da União Europeia. Mas o povo, disse Gramsci, deve ser 'interpretado', necessita de uma filologia viva, o povo é um texto que deve ser interpretado e não dirigido de maneira unívoca. Deve-se escutar suas necessidades, suas exigências, o que a esquerda hoje não está fazendo; a esquerda é demofóbica, quer dizer, odeia o povo, odeia o povo porque o povo lhe escapa das mãos, já não se sente representado por uma esquerda amiga do capital e dos senhores, ao invés dos trabalhadores e do povo.

P. Propõe recuperar a utilização do italiano frente ao inglês, e além disso de um italiano bem falado ou escrito. Entende isso como uma batalha cultural imprescindível. Por quê?

R. Sim, eu proponho, contra a neolíngua dos mercados que fala o inglês do 'spread',  do 'spending review', da 'austerity' e da 'governance', uma veterolíngua baseada na recuperação do italiano com toda sua riqueza, o italiano de Dante e de Maquiavel. É uma batalha cultural de resistência á globalização e a este 'genocídio cultural', como chamada Pasolini, que a globalização está levando a cabo ao destruir as culturas em nome do único modelo permitido: o consumidor de mercadorias, apátrida, pós-identitário, que fala o inglês anônimo dos mercados financeiros apátridas.

Tradução: Álvaro Hauschild

via Elconfidencial

sábado, 5 de novembro de 2016

TSIDMZ: A Busca por Beleza, Majestade e Metafísica

por Mindaugas Peleckis

TSIDMZ significa THULESEHNSUCHT IN DER MASCHINENZEIT, isso quer dizer Sehnsucht (nostalgia) por Thule em um Tempo de Máquinas. Thule é um “espaço primordial”, provavelmente um lugar físico, mas indubitavelmente, um domínio metafísico. De acordo com a mitologia indo-europeia, os povos indo-europeus que outrora habitaram as terras da Eurásia eram descendentes de Thule, a última terra remanescente do continente Hiperbórea. De uma maneira muito breve e grosseira, podemos dizer que Thule é equivalente ao Éden bíblico. É o lugar da “perfeição” original, o lugar dos ancestrais e heróis que viveram próximos ao divino. A TSIDMZ expressa exatamente esse tipo de nostalgia de um ponto de vista pessimista, significando “ausência”, e também de um ponto de vista construtivo, significando uma nova realização. Portanto, essa nova realização deve ser alcançada em nossos tempos, “In Der Maschinenzeit”. Será possível realizar uma sociedade justa, sublime e “espiritual” na era pós-atômica? Será possível combinar a máquina com a Tradição? De acordo com a TSIDMZ uma possível resposta pode ser encontrada no Futurismo, a nível artístico e cultural, e no Socialismo, a nível político e social. Como consequência, música eletrônica e toda forma de arte “industrial” tornam-se imperativos. No que tange aos níveis social e político o Homem deve ser o mestre da máquina, e não mais um escravo ou vítima. Da mesma forma, a nível cultural o Novo Homem precisa se integrar com a máquina, que deve tornar-se parte de sua nova cultura com o objetivo de dar continuidade aos valores tradicionais com essa nova ferramenta. Como resultado, isso irá criar uma identificação artística e estética, que dará uma nova identidade apropriada ao Arbeiter, como Jünger o entendeu (o Arbeiter é o conceito de E.Jünger sobre o Novo Homem que combina técnica e visão ascética/metafísica). “A técnica é o meio pelo qual a figura do trabalhador mobiliza o mundo.” – E. Jünger. Como consequência, a TSIDMZ apreciou a ideia, o conceito e o tema eurasianos: equilíbrio social, superar todas as ideologias, uma weltanschauung metapolítica e metafísica para reconquistar a Eternidade na pós-modernidade. A TSIDMZ é parte da Associação de Artistas Eurasianos: https://www.facebook.com/EurasianArtistsAssociation. [Fonte: página da TSIDMZ no facebook]. Em minha opinião, a TSIDMZ é uma das melhores e mais interessantes bandas da atualidade: letras profundas, temas sérios, música dramática: é uma bomba que irá explodir sua mente se ela está sob o controle do Big Brother. A entrevista com o líder da banda, Tetsuo, também conhecido como Uomo D’Acciaio (ideias, música, atmosferas, amostras, distorções, efeitos) foi feita em 17 de Outubro de 2016.

Você trabalhou com uma pletora de artistas ao longo dos anos. Quais colaborações foram/são as mais interessantes e importantes pra você, e por quê?

Eu tive a chance de trabalhar com muitos artistas e amigos que eu sempre gostei e apreciei. Cada colaboração foi importante para o enriquecimento cultural e musical do som da TSIDMZ e teve uma origem e história excepcional.

Das primeiras colaborações com Lonsai Maikov, Rose Rovine e Amanti, Heiliges Licht, [distopia], Narog, etc. até as últimas com Gregorio Bardini, barbarossa Umtruk, Order Of Victory, L’Effet C’Est Moi, The Wyrm, Corazzata Valdemone, Gnomonclast, Strydwolf, Suveräna, Horologium, Porta Vittoria, Sonnenkind, Le Cose Bianche, Valerio Orlandini, Winterblood, the Serbian poet/writer Boris Nad etc, eu posso dizer com orgulho que a música sempre foi e é muito variada e em constante evolução e enriquecimento.

Você pode me dizer, resumidamente, quais são as principais ideias por detrás de sua música? Você poderia mencionar suas composições, álbuns e colaborações favoritos?

Por detrás da música da ThuleSehnsucht há a fascinação pela relação dos opostos, a descoberta do desconhecido e a busca pela beleza, majestade e metafísica.

Eu gosto de tudo que fiz ainda se em uma viagem hipotética ao passado eu quisesse melhorar ou mudar algumas coisas. Cada música, CD, compilação, trabalho avulso e colaboração possui uma história, origem, desenvolvimento e esforço único, então é difícil dizer o que eu prefiro. Tudo foi útil para o nosso crescimento.

Uma menção especial vai para Barbarossa Umtruk. Um artista francês muito prolífico, original e talentoso que eu amava antes de começar minha própria música. Ele encontrou uma alquimia de sons única e temas que me fascinaram muito e influenciaram profundamente minha abordagem pessoal à música e a alguns temas.

Por essa razão e em primeiro lugar pela amizade que estabelecemos de maneira espontânea, nós fizemos muitas músicas em colaboração e por isso ele é o único artista presente em toda a trilogia da TSIDMZ (Pax Deorum Hominumque, Ungern Von Sternberg Khan, René Guénon et la Tradition Primordiale) com duas músicas em cada álbum. Da mesma forma, eu tive a chance de estar em alguns de seus trabalhos: La Fosse De Babel, Der Talisman Des Rosenkreuzers: La Mission Secrete Du Baron Sebottendorf, Tagebuch eines Krieges (2005-2015).

O novo álbum está indo bem, mas não como os últimos três CD’s físicos. Ele é menos marcial e muito mais meditativo. Se Pax Deorum Hominumque, por exemplo, possui uma abordagem fácil, o álbum René Guénon et la Tradition Primordiale requer maior concentração e interesse sobre o assunto que eu trato em cada música. Uma boa maneira seria escutar o álbum acompanhando os textos (disponíveis através do Facebook e Bandcamp da TSIDMZ). E dali em diante minha esperança é que todos comecem uma pesquisa e um estudo de maneira profunda e pessoal, interessando-se pelos temas.

O som é mágico. Você provou isso. Porém, o que resta quando não há música?

Som é energia e Deus é pura energia (pensante) então talvez o som puro nunca irá acabar.

O que é e o que não é um som artístico?

Arte em geral deveria estar em primeiro lugar na promoção/educação da beleza, natureza e espiritualidade. As artes deveriam elevar a humanidade, deveriam proporcionar visões do todo e da eternidade e ao mesmo tempo deveriam exorcizar a realidade. Esses são os elementos menos presentes nas “artes” modernas.

Arte, nesse caso, arte musical, significa também trazer algo (em ideias, ou sons, ou em textos em um estilo específico de voz) do “mundo das ideias” platônico para esse mundo. Imitar outro artista, repetir o que já foi dito por outros e “copiar e colar” não é arte. É muito mais uma questão de ser bom ou ruim tecnicamente ou como banda cover.

O que você pensa sobre as relações entre a arte antiga e a arte de computador? Elas são compatíveis?

O computador, como toda coisa inanimada, é uma ferramenta. Uma arma não mata até que alguém a utilize para matar e o computador não mata a arte ou a música até que você o utilize para fazê-lo. Em toda coisa inanimada o que importa é qual o “espírito” que há por detrás dela. Com qual espírito, valor, princípio, visão de mundo e filosofia você utiliza o laptop, a arma, o carro, a família, música, sexo, matemática etc. Aqui se encontra a questão principal e a primeira de todas.

Ferramentas são só coisas inanimadas até que você decida como e quando usá-las. É claro que algumas ferramentas são mais perigosas que outras e requerem mais atenção e mais consciência, mas uma sociedade doente não deveria usar sequer uma colher. Tudo o que uma sociedade doente ou uma filosofia doente ou uma pessoa moralmente doente usa e faz estará errado. De maneira oposta, uma sociedade saudável ou uma pessoa saudável ou uma Weltanschauung saudável irão usar de uma maneira apropriada até mesmo o fogo. Para concluir, tudo pode ser feito (não por todos), mas depende como é feito.

O que você pensa a respeito dos milhares de projetos de bandas eletrônica, neofolk, industrial, ambient, tribal, eletroacústico, avant-guarde etc? É um tipo de tendência, ou uma inclinação em direção à músicas melhores?

Em todos os lugares e em todas as épocas da história sempre houve muitos artistas, músicos, instrumentistas e assim por diante. A única diferença é que agora com as tecnologias, internet, plataformas web e etc. é mais fácil divulgar a própria música e as performances. O que você escutava na taverna, na festa do vilarejo ou nas ruas, hoje pode ser escutado em casa através de um dispositivo, porque as tecnologias permitiram gravar o que uma vez só podia ser tocado e escutado em um evento público.

Agora nós podemos ter tudo imediatamente e a primeira consequência disso é a produção em série e desvalorização de tudo, a falta de entendimento profundo acerca do que escutamos.

O problema toca a questão da socialização e da qualidade.

Se outrora a música foi um agregador social e cultural, agora o homem pós-moderno pode isolar-se completamente de qualquer contexto social e pode escutar o que quiser no momento em que quiser (e na maioria das vezes, o que o sistema quer que você escute. É o zeitgeist! A solidão pós-moderna, consequência do extremo individualismo, a desintegração social e a falta de valores tradicionais e naturais controla mais e mais as nossas vidas. É claro que até no passado a música era tocada e escutada em solidão ou em situações muito privadas, mas o que era uma exceção ou apenas uma das muitas formas de se escutar música agora se tornou a norma.

Então nós chegamos na qualidade. O fato de que agora podemos gravar qualquer coisa que quisermos não significa que estamos indo em direção a uma música superior ou a coisas de maior qualidade. Quantidade raramente significa qualidade. Nós temos uma sobrecarga de álbuns que saturam a escuta. Muitos desses álbuns são só boas composições técnicas, repetição das estruturas habituais de grandes artistas históricos que são chamadas incorretamente de arte.

Imitação não é arte, é apreciável e legal, mas não é música ou arte superior. Ter uma atitude de “banda cover”, uma “atitude de DJ” ou possuir uma boa técnica no que tange à música não é suficiente para preencher a palavra arte. Um som original, textos originais ou músicas originais ou composições originais não são poucas, mas também não são propriedades de qualquer músico. Como eu disse, arte significa trazer algo do “Mundo das Ideias” para esse mundo; quantos dos ditos artistas fazem isso?

Então com a internet a qualidade definitivamente caiu. A internet deveria ser uma maneira de promover e começar para observar como a sua arte funciona; a pós-modernidade é um mundo líquido (dinheiro falso que não existe; o deus invisível chamado mercado que hoje governa tudo; a ideia de que tudo é permitido e não há certezas) e o mp3 sem graça e de baixa qualidade em uma plataforma web que hoje existe, mas amanhã talvez não, é outro elemento da decadente “sociedade líquida” em que vivemos. Não se tem certeza sobre nada, nada mais é qualitativo, tudo é massivo, quantitativo, plastificado, em série, sem nenhum entendimento profundo e mensurável unicamente através do dinheiro... e hoje nem o dinheiro possui um valor real; dinheiro líquido, sem ouro ou um papel correspondente, devido ao fato de que uma grande quantia de dinheiro é criada diariamente na virtualidade (com a consequente usura e especulação).

Concluindo, o primeiro passo urgente é retornar à natureza, nos tornarmos “muito humanos”, e libertarmo-nos desse mundo desumanizado e cada vez mais mecanizado. Referente às artes, um bom ponto de partida poderia ser recuperar o prazer de ler um livro físico ou escutar música em um vinil ou em um CD; na verdade, é impossível ter um controle total e uma compreensão completa de algo até que esse algo esteja somente na virtualidade ou em estado líquido.

Quando conseguirmos re-descobrir o valor de uma sociedade real-concreta que raciocina pelo bem comum, para a beleza física e metafísica e para as raízes das pessoas e identidades e não para os interesses do mercado, talvez será mais fácil iniciar um novo caminho em que a música também se incline ao melhor e em direção a ideias mais originais...

 O que mais inspira você?

Deus, beleza, majestade, eternidade, opostos, filosofia, metafísica, metapolítica, geopolítica, mitologia, religiões, tradições, identidades, pessoas, ideias e ideologias, história, arqueologia corrente e arqueologia oculta, futurismo, cinema, a relação homem-máquina, surrealismo, vida e morte, música industrial, clássica, folk, étnica, eletrônica e rock (metal).

No que você está trabalhando agora?

Está sendo planejado um novo álbum com um som novo, novas ideias e novos temas, mesmo que os anteriores ainda estejam sempre presentes de uma forma ou de outra. Além disso, o projeto está sempre ativo em suas colaborações, compilações temáticas e trabalhos separados.

O que o nome da sua banda significa para você? Que ideologia/religião/visão de mundo você segue?

Significa tudo que eu fui e ainda sou. Significa minha principal Weltanschauung. TSIDMZ é um acrônimo para ThuleSehnsucht in Der MaschinenZeit; isso quer dizer Sehnsucht (nostalgia) por Thule em Tempos de Máquinas. É uma frase que une a parte espiritual com a parte filosófica e a parte artística e musical da minha pessoa. Em poucas palavras, sou eu.

É uma frase que também foi influenciada profundamente por esta famosa frase de E. Jünger: “A técnica é o meio pelo qual a figura do trabalhador mobiliza o mundo.”.

“O Trabalhador” é o Novo Homem de E. Jünger, que combina a técnica moderna e visão ascética/metafísica; em um nível cultural esse Novo Homem precisa se integrar com a máquina, que se tornou parte de sua nova cultura, para que ele possa dar continuidade aos valores tradicionais com essa nova ferramenta.

Eu não me prendo a nenhuma definição. Nem na filosofia e nem na música. Para todo campo humano há muitos rótulos como se fossem marcas comerciais e muitas pessoas que não pensam, são monótonas, iguais em tudo (iguais de maneira inferior e não superior).

As pessoas estão cada vez mais cegas que nunca irão ver o quanto já está condicionado pelos contravalores pós-modernos e antinaturais e pela miríade de mentiras e pseudomitos modernos e pós-modernos em que vivemos. Pensar com seu próprio cérebro significa ser humilde para escutar, descobrir, ler, comparar e entender profundamente (e não com um punhado de frases encontradas nas mídias sociais) o que é totalmente oposto ao que a mídia e o presente sistema orwelliano mandaram você pensar até agora. Esse é só o primeiro ponto para começar a dizer: “Eu penso”.

A humanidade pós-moderna está no ápice da desumanização, no ápice do afastamento da natureza e da vida concreta e real.

Iluminismo, uma espécie de nova religião sem um deus transcendente (como todo materialismo, progressismo, evolucionismo, internacionalismo, ideologias de liberação, feminismo, veganismo e assim sucessivamente com todo o resto de “religiões” modernas construídas ao redor de falsas construções mentais e elementos singulares transformados em absolutos para toda realidade), realizou o primeiro passo para o afastamento de Deus (com o slogan/desculpa frequente de “oh como são ruins as religiões”... seria a bomba atômica ou todo o mal materialista e “laicista” dos últimos séculos uma consequência das religiões!?), e o último passo foi dado com a atual desconexão pós-moderna em relação à vida, à natureza, ao pensamento lógico e simplesmente de sermos humanos.

Em suma, nós podemos dizer que de um deus transcendente no centro do universo nós ganhamos o mercado no centro do universo.

A melhor solução é ter fortes princípios tradicionais e só então considerar qualquer tipo de música, qualquer filosofia e qualquer ideologia. Quando você possui princípios fortes, identitários, naturais, eternos e espirituais, quando você possui uma filosofia holística verdadeira (e não sectária como muitos modernos erroneamente chamam as “filosofias”/conhecimentos), quando você sabe que tudo possui uma origem divina ou espiritual (apenas leia Platão) e limites muito específicos impostos por princípios metafísicos (e portanto você é forçado a não fazer qualquer coisa permitida pela tecnologia ou humanos comuns) quando você entende que a matéria é limitada e o ilimitado (como é o mercado) é um contravalor antinatural, quando você entende que o bem comum é o valor mais alto em uma sociedade, quando você entende que primeiro existe a família e os povos com suas histórias/identidades próprias, únicas, específicas que precisam ser preservadas para que sobrevivam (esse sentimento deveria ser instintivo e padrão, e o fato de que a modernidade o destruiu em muitos povos, é outro sinal da completa desconexão com tudo que é natural e lógico), você também é capaz de compreender o melhor de cada situação e construir a sua “vontade de poder” / moralidade e talvez estar “além do bem e do mal”.

É claro que o mundo pós-moderno não ajuda de modo algum. O “pensamento fraco” e o pior relativismo dominam.

O Novo Homem, o “Übermensch” deve lidar com isso, é a última luta.

“Atualmente nós não estamos em guerra contra uma nação, contra um fenômeno, contra um partido ou uma ideia política, mas sim contra o surgimento de um novo e apavorante aeon, um aeon que irá varrer tradições, irá inverter valores, irá aniquilar e substituir a essência profunda, real e espiritual do ser humano com identidades falsas, baixas e demoníacas. Como consequência nós precisamos ser Futuristas: assistindo ao futuro e à técnica como uma continuação em relação ao passado e à tradição.”

TSIDMZ –ThuleSehnsucht In Der MaschinenZeit-


Obrigado

Tradução: Maurício Oltramari

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Acordo nuclear iraniano e luta por influência na Eurásia

por Yusuf Fernández – 

Desde a Revolução Islâmica no Irã que derrubou a ditadura de Shah Reza Pahlavi, apoiado pelos EUA, em 1979, uma constante na política externa estadunidense foi uma implacável hostilidade contra o Irã. Washington apoiou a guerra de Saddam Hussein contra esse país (1980-1988) e em 2003 a Administração de Bush preparou planos para a guerra contra ele. Desde 2011, EUA e seus aliados da União Europeia submeteram o Irã ao regime de sanções econômicas mais duro da história.

Não obstante, a estratégia norteamericana mudou nos últimos anos. Depois do fracasso das guerras dos EUA no Afeganistão e no Iraque, onde Washington foi incapaz de derrotar as respectivas insurgências ou convencer os governos desses países a se submeter a seus ditados, a opinião pública e o establishment político dos EUA não querem ver o país arrastado em novos conflitos no Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, Washington desconfia da ascensão da China na região da Ásia, no Pacífico e no mundo em geral. Obama aprovou a nova estratégia do "giro para a Ásia", que busca opor-se ao crescente papel da China na região, onde os EUA estão tratando de construir uma nova aliança anti-Pequim. O executivo pró-estadunidense da Austrália e o governo de Shinzo Abe no Japão, que está determinado a executar um papel mais agressivo na Ásia e busca eliminar a assim chamada "cláusula pacifista" na constituição japonesa, foi convertido nos aliados naturais dos EUA nesta estratégia.

A crise da Ucrânia empurrou também o EUA e seus aliados da OTAN a um confronto político e estratégico contra Rússia. Moscou tomou medidas com o fim de reforçar seu poder militar, incluindo o desenvolvimento de novos barcos, aviões e mísseis nucleares. Também está promovendo a União Eurasiana com alguns estreitos aliados, como Bielorrússia, Cazaquistão, Armênia e outros Estados.

Irã é um ator central neste jogo. Além de ser um grande e populoso país, Irã possui as segundas reservas de gás e as terceiras de petróleo no mundo. Sua posição geoestratégica é única. O país une a Ásia Central com o Oriente Médio e o Golfo Pérsico, e construiu uma sólida aliança com alguns países da região, incluindo Síria, Iraque e o Líbano. Milhões de muçulmanos no mundo seguem também o Imam Ali Jamenei e os líderes religiosos iranianos. Suas relações com a África, Ásia e América Latina estão se tornando cada vez mais importantes.

Durante mais de uma década, os EUA, que sempre souberam que Irã não tem intenção de construir armas nucleares como numerosas evidências mostra, utilizou desse tema com o fim de pressionar este último país a obstaculizar seu desenvolvimento tecnológico e econômico. Agora, a situação no mundo mudou e os EUA estão tentando levar o assunto para sua perspectiva real. A crise nuclear com Irã se converteu em um fardo para Washington porque lhe impede de pôr em prática sua estratégica anti-chinesa e anti-russa e, desse modo, teria que ser resolvida.

Irã se converteu em um baluarte na luta contra o terrorismo no Oriente Médio. Teerã apoia Iraque, Síria e o Líbano contra a agressão terrorista, que estão sendo alimentada pela Arábia Saudita, pelo Qatar e pela Turquia. Os EUA e seus aliados europeus apoiaram durante anos o esforço destes países para utilizar os terroristas como instrumentos na região contra os governos amigos de Irã, mas agora eles temem a crescente ameaça destes grupos, que estão determinados a atacar também as nações ocidentais. Alguns governos e mídias ocidentais estão mudando sua posição com relação ao Irã e Síria e começando a advogar por uma cooperação com tais países nesta luta.

Ao mesmo tempo, as companhias norteamericanas estão ansiosas por entrar no mercado iraniano. Elas vêem o Irã como um novo El Dorado, onde podem lograr enormes benefícios. Até agora, as companhias russas e chinesas, e em menor escala europeias, estão muito melhor posicionadas para se aproveitar do levantamento das sanções sobre o Irã. As empresas estadunidenses estão tratando de mudar essa situação e voltar ao Irã, mas necessitam que Washington elimine as sanções unilaterais com o fim de alcançar este objetivo.

A influência israelense e a pressão do lobby sionista sobre o Congresso se converteram em um obstáculo principal para a implementação desta nova estratégia. Eles têm uma grande influência sobre a política externa norteamericana, mas desta vez seus interesses chocam com os de uma parte importante do establishment político e militar e com das grandes corporações estadunidenses. Isso poderia fazê-los perder sua batalha contra o acordo sobre o Irã. Em um desafio aberto ao lobby sionista, as mídias corporativas, tais como New York Times ou Washington Post, mostraram seu apoio ao acordo nuclear e dizem abertamente que uma acomodação com Irã reforçaria a mão dos EUA contra suas mais importantes e formidáveis rivais geo-estratégicas: Rússia e China.

Um recente artigo no New York Times, escrito por Michael Godeon e David Sanger, ambos autores com estreitos vínculos com o establishment militar e de inteligência dos EUA, mostrou um apoio ao acordo nuclear. Os autores salientaram que um entendimento com Irã reforçaria a posição mundial dos EUA frente a Rússia e China em múltiplas formas.

China é agora o maior sócio econômico do Irã e o mais importante investidor. Rússia foi durante muito tempo seu principal provedor de armamento. Não obstante, esta associação sofreu um revés em 2010 quando Moscou negou implementar um contrato de provisão de mísseis terra-ar S-300 ao Irã citando as sanções da ONU. Washington espera que um acordo nuclear e a necessidade de cooperar contra o terrorismo lhe permitirão competir pela influência geopolítica e econômica no Irã com o objetivo de neutralizar a influência russa e chinesa nesse país.

EUA, no entanto, necessita da Rússia e da China como mediadores em suas comunicações com Teerã, mas está convertendo-se em algo cada vez mais problemático para Washington o fato de depender de Moscou e Pequim neste esforço em um momento em que as relações estão piorando.

A reposta da Rússia e da China

Não há dúvida de que a China e a Rússia compreendem este perigo e tomaram medidas para manter sua influência sobre o Irã.

Em Janeiro, durante uma visita do ministro de defesa russo, Serguei Shoigu, em Terrã, os dois lados firmaram um novo acordo de cooperação. Em uma conferência de imprensa onde explicou o mesmo, o ministro de defesa do Irã, Hossein Dehqan, disse que seu país e Rússia "compartilham uma análise da estratégia global dos EUA e sua ingerência nos assuntos regionais e internacionais" e eles puseram assim mesmo de relevo a necessidade de cooperar na luta contra o terrorismo".

Algumas horas depois do anúncio do acordo de Lausana, Igor Korotchenko, que lidera o think tank Centro de Análise do Comércio Global de Armas de Moscou, disse a Sputnik que "o levantamento de sanções ao Irã, incluindo o embargo de armas, seria o mais absolutamente lógico". "De grande importância para nós é a entrega de mísseis atualizados S-300 ao Irã. Um contrato nesse sentido poderia ser renovado em termos aceitáveis para Moscou e Teerã", acrescentou.

Rússia salienta que está também disposta a vender automóveis, aviões e barcos ao Irã depois da eliminação das sanções contra a República Islâmica. "Estamos interessados nas provisões a este país. Isso inclui os automóveis, aviões, construção de barcos e outras indústrias", disse o ministro de Indústria e Comércio Denis Manturov na cidade de Javarovsk, no leste da Rússia, salienta Interfax. "Estamos preparados para trabalhar juntos para incrementar a cooperação e os projetos conjuntos", salientou.

Por sua vez, o ministro de relações internacionais, Wang Yi, visitou Teerã em fevereiro com o fim de incrementar os vínculos políticos e econômicos entre os dois países. As importações chinesas de petróleo do Irã aumentaram quase 30% no ano passado e Wang disse que "existe aliás um enorme espaço para a cooperação no terreno da energia e nos parques industriais de acordo com as necessidades de desenvolvimento do Irã e as capacidades da China", disse o ministro citado pela agência Reuters.

Wang visitará Moscou em abril e os dois países analisarão a situação criada depois do alcance do acordo com Irã e as medidas dirigidas a impedir que os EUA incrementem sua influência na Eurásia.

Rússia e China podem agora abrir a porta para a adesão do Irã à Organização de Cooperação de Shangai. Esta grande organização busca garantir a estabilidade, promover a unidade da Eurásia e contrabalancear a influência norteamericana neste grande espaço.

terça-feira, 31 de março de 2015

Os Demonizados Filósofos Preferidos de Putin

Prefácio por Alexander Mercouris

Publicamos este longo artigo inteiro não só porque intelectualmente falando é algo brilhante, mas porque contém ideias excepcionais tanto sobre a Rússia como sobre a política externa dos EUA e seus métodos utilizados por alguns apoiadores de sua política externa.

Antes de comentar sobre os pontos feitos no artigo, faríamos um pedido de atenção: deve haver alguma dúvida sobre a verdadeira extensão da familiaridade de Putin com os três filósofos discutidos no artigo.

Contrariamente à sua imagem no Ocidente, Putin é altamente educado e um homem muito lido que conhece trabalhos acadêmicos de história e música clássica.

Se ele tem tempo ou inclinação para se familiarizar com o muito complexo e difícil material contido nos trabalhos dos três filósofos discutidos nesse artigo é outra questão. É mais provável que Putin tenha conhecido estes filósofos de resumos providenciados por seus assessores do que por estudo pessoal.

Pondo este ponto de lado, o artigo faz um válido e importante apontamento - os filósofos que Putin aprova são genuínos pesos intelectuais, cujas ideias não se explicam em um programa ou diagrama para uma agressiva, expansionista, etnocêntrica, autoritária e "mssiânica" Rússia, como os críticos de Putin alegam, mas, pelo contrário, de uma forma diametralmente oposta.

Conforme o artigo afirma, os filósofos sob discussão foram altamente reconhecidos no Ocidente até que Putin os apoiasse. No momento - mas não antes - suas ideias de repente se tornaram "perigosas" e "sinistras".

Isso nos traz ao nosso ponto. O artigo mostra como cinicamente as ideias dos três filósofos estão sendo mal representadas com fim de provar a tese de uma Rússia perigosa, agressiva e autoritária.

O tipo de des-representação não é mais a exceção, mas a regra.

Como um princípio geral nenhuma citação de Putin ou de algum outro oficial ou político proeminente russo que aparece na mídia ocidental pode ser assumida como verdade. Dada a agenda implacavelmente hostil anti-Putin e anti-Rússia que agora domina os comentários ocidentais, qualquer citação é quase certa de ser distorcida e até mesmo através de más traduções ou serem tomadas fora de contexto.

A situação é agora tão ruim que mesmo alguém como um sênior como o anterior presidente da comissão europeia irá deliberadamente citar frases distorcidas que Putin lhe contou em conversa privada. Recentemente ficou claro que algumas citações atribuídas a Putin foram inventadas por seus críticos ocidentais.

O que este artigo mostra é que o processo agora se estende não apenas aos russos vivos como Putin, mas também aos intelectuais russos que já há muito morreram. Parece que as palavras de qualquer russo, vivo ou morto, são agora um jogo de sorte para aqueles no Ocidente que querem convencer os outros de que a Rússia é uma ameaça ao Ocidente. Isso é um processo muito sinistro, que faz (e que busca fazer) um entendimento com a Rússia ser totalmente impossível. Nota do inteligente comentário de Dr. Grenier sobre isto:

"Os críticos dizem que a Rússia recentemente se tornou uma nação cheia de ódio. Mas como estão os cidadãos russos e o presidente Putin por verem distorcidas (e o que vimos acima é apenas a ponta do iceberg) suas próprias palavras e suas mais caras tradições de um modo aparentemente rancoroso e até mesmo violento?"

Isto no entanto não é o pior.

Um tal crescente impiedoso de manipulação das palavras e ideias de pessoas há muito mortas pode ser muito bem chamada de Owelliana.

Pessoas que mostram um tal desrespeito pela verdade são perigosas. Ao engajar-se em falsidades tão cínicas eles revelam de onde vem o real perigo para a paz mundial. Eles também expõem quem é realmente responsável pela desastrosa relação entre Rússia e Ocidente.

Isso também mostra a propósito que qualquer coisa que uma pessoa diz simplesmente não pode ser invocado como verdade salvo a extensão que serve aos seus propósitos políticos. Quando eles portanto dizem coisas como "o exército russo está invadindo a Ucrânia" não há mais razão para acreditar neles do que quando eles dizem que pessoas como Putin ou Solovyov disseram coisas que eles de fato não disseram.

Dr. Garnier, o escritor deste artigo, é claramente consciente disto. Um outro modo no qual este artigo se posiciona é na sua compreensão do pensamento ideológico e ultimamente corrupto daqueles que estão por trás da política externa dos EUA. Considere isso um resumo muito brilhante no fim do artigo com seu implícito pedido de atenção do incipiente totalitarismo do atual pensamento dos EUA:

"... se o ideal político da América é quase tão perfeito que pode ser alcançado neste "mundo decaído", então a coisa vai adiante e vence, desse modo trazendo o bem perfeito (somos nós!) para todos.

Por que preocupar-se seriamente em familiarizar-se com um sistema competidor? Claramente Brooks and Co. não fazem nenhum esforço. Foi o bastante para eles saber que o ideal político da Rússia significantemente difere do americano: logo é ilegítimo, Q. E. D.

Conforme Hannah Arendt escreveu em The Origins od Totalitarianismo, "a curiosa logicalidade de todos os ismos, sua simplista crença no valor de salvação da teimosa devoção sem consideração por fatores específicos e variáveis, já acolhe os primeiros germes do desprezo totalitário pela realidade".

Essa América realmente não vive seus próprios ideais, como tenho escrito anteriormente, não muda nada para o ideólogo. Afinal, todo aumento no poder da América traz mais perto o dia em que suas ações (que são geralmente realistas) e seu discurso (que é sempre democrático e idealista) podem encontrar harmonia. Então a história pode verdadeiramente e finalmente terminar."

Este artigo originalmente apareceu em Consortium News. Anteriormente apareceu na Johnson's Russian List.

DEMONIZANDO OS FILÓSOFOS PREFERIDOS DE PUTIN

O que deu início à Guerra Fria? De acordo com o Departamento de Estado, foi a violação ilegal da Rússia das fronteiras nacionais ucranianas. O Kremlin, por sua vez, insiste que foi um golpe na Ucrânia facilitado pelos EUA, que destruíram a ordem constitucional por lá, causando caos e perigos à segurança russa, em vista do quê a Rússia não tinha o que fazer senão responder.

De acordo com a política externa "realista", a causa foi a iminente ameaça da integração ucraniana em um pacto expansivo dominado pelos EUA. De acordo com George Friedman, presidente de Statford, empresa privada de inteligência estratégica, a crise ucraniana é mais efeito do que causa: o conflito começou em 2013 quando os EUA decidiram que o aumento do poder russo estava se tornando uma ameaça.

E de acordo com Kiev, o presidente Vladimir Putin criou toda a crise. Ele inventou a ameaça do "fascismo" ucraniano e foi motivado por uma combinação de ambição imperial com medo de democracia.

Não é meu objetivo aqui tentar julgar entre as alegações acima. Apesar das óbvias diferenças, elas também compartilham de um traço comum: ninguém fornece qualquer direção clara de como resolver essa bagunça. É hora de nos aproximarmos disso de um ângulo completamente diferente.

Quando a primeira Guerra Fria terminou, Francis Fukuyama explicou, mais em tristeza do que em triunfo, que o modelo capitalista liberal-democrata americano venceu e que este foi o motivo da "história" - a luta para encontrar a resposta correta para a questão política considerando a forma ótima de sociedade - terminou.

O que venceu, de fato, foi um tanto de respostas para questões-chave da vida política como a origem e propósito do Estado; o que significado ser humano; o que fazem os humanos todos, ou o que deveriam fazer, empenhar-se. As fontes clássicas das respostas especificamente americanas para estas questões são bem conhecidas: são as fontes da política liberal pensada enquanto tal.

Eis uma outra coisa bem conhecida a ponto de ser um clichê: desde 2001, a tese do fim da história foi repetidamente mudada por acontecimentos. Ns verdade, a tese de Fukuyama não pode ser desafiada por meros acontecimentos, porque ele nunca disse que dissabores deixariam de ser parte da experiência humana. Ele disse que os humanos improvavelmente se engajariam mais efetiva e atrativamente em compromisso com a solução para a chave das questões políticas do que para as fatigadas respostas que formaram o mundo liberal, democrata e capitalista.

Para aqueles que assinalam que o Estado Islâmico desaprovou esta tese de "fim da história", Fukuyama poderia responder com razão: "Bem, se você achar que este tipo é atrativo, você pode aceitar minhas congratulações".

Mas eu estou escrevendo não para defender nem atacar Fukuyama. Estou simplesmente sugerindo que não estamos fazendo favor algum a nós mesmos ao ignorar todas as respostas para as questões políticas que diferem da ortodoxia liberal. Pode haver no liberalismo e na democracia e no capitalismo muito de correto, mas há muita razão para suspeitar que ainda não descobrimos nem a verdade nem sobre os seres humanos ou sobre o homem político.

O próprio Fukuyama oefereceu sua própria critica: seu ceticismo sobre o material humano é que fez colocar seus pensamentos tão devagar. Não é necessariamente uma crítica de Fukuyama salientar que há muitos no mundo hoje que aspiram por algo além do nosso mundo de autonomia confortável e de posse de direitos no sentido puramente lockeano.

Entre aqueles que aspiram muitos estão no mundo eslavo, com suas raizes no Cristianismo Ortodoxo Oriental; ou na esfera chinesa, com sua herança confuciana que está apenas despertando; e claro, no Oriente Médio. E isto é apenas para nomear os grupos que os EUA identificaram como necessitados de reformas.

Diversidade e Liberalismo

O Ocidente, e especificamente os EUA, tem diante de si uma escolha fatal: deveriam procurar uma coexistência "live and let die" [viva e deixe morrer] das nações liberais e não-liberais do mundo, ou deveriam tentar fazer do resto do mundo liberal uma mão armada, e nesse sentido provar realmente que a história chegou ao fim? Deveríamos nós tornar o mundo a salvo para a diversidade, ou deveríamos tornar o mundo uniforme para a segurança dos EUA?

No Oriente Médio a escolha já foi feita. É para torná-lo um braço armado liberal e democrata. As enormes dificuldades que isto apresentou convenceram o partido de guerra americano, que pareceram ser maioria, que é hora de dobrar e se fortalecer, não só no Oriente Médio, mas agora no mundo eslavo também.

Isto traz uma questão crucial sobre diversidade e diferença. O que torna uma nação ela mesma e não algo mais? É a presença das fronteiras? São as eleições sob o poder humano? Claramente, não é nenhuma dessas coisas, nem nada parecido.

Ser uma nação autêntica, continuar existindo de fato, significa exatamente continuar a realizar sobre o tempo sua própria ideia nacional, ou seja, como Ernst Renan pôs (Qu’est qu’une nation?, 1882, conforme citado por Hannah Arendt), "preservar dignamente a herança indivisível que foi mantida até então".

Que nações frequentemente emprestam conteúdo cultural de outras é inegável, e muitas vezes louvável. Mas é crucialmente importante, como notou uma vez o historiador americano William Appleman Williams, quem faz a escolha destes empréstimos. Eles são adaptados livremente de dentro, ou são forçosamente impostos? A falha para compreender esta distinção é o que continua acarretando A Tragédia da Diplomacia Americana (também o título de um livro de William).

Quando nações totalmente compartilham da visão liberal americana, estas nações separadas se tornam, em um certo sentido, não mais "separadas". Isto é necessariamente algo ruim. As nações do norte da Europa não sofrem tanto por sua próxima aliança com os EUA,  inclusive no sentido cultural.

Mas aqui está a questão dos seis trilhões de dólares: os EUA estão tentando mascarar a existência, em base permanente, dos outros grandes poderes que não aceitam os valores liberais como a América os define? Digo "grandes poderes" porque a longo prazo só um grande poder, ou um protetorado de um grande poder, pode assegurar a continuidade de sua existência.

O status não-liberal da Rússia foi apresentado recentemente como uma horrenda ameaça à segurança tanto da América como do mundo. Em apoio dessa linha historica, o presidente russo foi associado com pensadores do passado russo que foram, supostamente, a fonte de um fanatismo que justifica falar de Putin e da Rússia (os dois são mesclados juntos em uma interminável repetição "Rússia de Putin") no mesmo sentido do Estado Islâmico.

Mas as ideias dessa Rússia não ou não-inteiramente-liberal são de nenhum modo perigosas. Pelo contrário, oferecem um caminho frutífero para repensar algumas das nossas mais queridas suposições sobre a natureza da política e a natureza da ordem internacional.

Passado e Presente

Quando o comunismo foi abandonado nos fins de 1980 e início de 1990, ficou evidente para pensadores russos e estrangeiros que um novo conceito de Estado, um novo conceito de homem, e uma nova pública filosofia deveria ser criada. Foi então, e permanece hoje, uma questão aberta de que se a nova identidade russa acabaria por ser importada do Ocidente, algo tirado do pensamento filosófico pré-comunista, ou talvez uma combinação das duas.

Como pode ser esperado do país que trouxe ao mundo Dostoievsky e Tolstoy, quando se chega à filosofia, a Rússia tem uma profunda banca. Nos meses imediatamente seguintes de fevereiro de 2014 muda o poder em Kiev, e resulta a crescente tensão entre Washington e Moscou, três filósofos russos, só dois deles amplamente conhecidos fora da Rússia, vieram a ser cada vez mais associados com o nome de Vladimir Putin. A interpretação subsequente desses filósofos nas páginas de muitos dos jornais mais influentes dos EUA merecem ser consideradas em detalhe.

Maria Snegovaya, uma doutoranda em ciência política na Universidade de Columbia, iniciou a discussão com um artigo em 2 de março de 2014 no Washington Post. "A visão de mundo pró-soviética de Putin", escreveu Snegovaya, é pobremente compreendida:

"Para entender... precisa-se checar o que são as preferidas leituras de Putin. As preferidas incluem um monte de filósofos nacionalistas russos do início do século XX - Berdyaev, Solovyev, Ilyn - que são muitas vezes citados em seus discursos públicos. Ademais, recentemente o Kremlin especialmente salientou aos governantes regionais da Rússia que lessem os trabalhos desses filósofos durante as férias de inverno de 2014. A principal mensagem desses autores é o papel messiânico da Rússia na história mundial, a preservação e restauração das fronteiras históricas russas e da Ortodoxia".

Mark Galeotti, escrevendo na Foreign Policy ("O Império Mental de Putin", 21 de abril de 2014) também encontrou defeitos nesses mesmos três filósofos. "Esses três, a quem Putin costuma citar", escreve Galeotti, "exemplificam e justificam a crença [de Putin] no posto especial da Rússia na historia. Eles romantizam a necessidade de obediência ao forte governador - seja manipulando os boiardos ou defendendo o povo da corrupção - e o papel da Igreja Ortodoxa em defender a alma russa e o ideal russo".

Finalmente, David Brooks, escrevendo para o New York Times ("Putin não pode parar", 3 de março de 2014), do mesmo modo expressou alarme sobre a influência de Solovyov, Berdyaev e Ilyn. "Putin não apenas cita estes caras; ele quer que outros os leiam", escreve Brooks. Três ideias principais unificam os trabalhos de Solovyov, Ilyn e Berdyaev. Brooks escreve:

"O primeiro é o excepcionalismo russo: a ideia de que a Rússia tem seu próprio e único status espiritual e propósito. O segundo é a devoção à fé ortodoxa. O terceiro é a crença na autocracia. Misturados juntos, estes filósofos apontam uma Rússia que é uma autocracia nacionalista quase-teocrática destinada a desempenhar um papel no mundo".

Sob a influência desses "caras", Brooks continua, "O tigre do nacionalismo quase-religioso, que Putin tem montado, pode agora tomar controle. Isso torna as coisas muito difíceis para Putin parar neste conflito onde o cálculo racional lhe mandaria parar." Brooks conclui que a Rússia pode não mais ser considerada um regime "normal" e que "um conflito huntingtoniano de civilizações com a Rússia" pode ser o resultado.

Analisando os Analistas

O que somos nós para fazer algo com estas análises, todas elas publicadas em jornais autorizados dos EUA? Uma coisa é certa. Essas afirmações representam uma enorme e surpreendente reviravolta no ponto de vista da opinião educada no Ocidente, particularmente com relação a Solovyov e Berdyaev (com Ilyn, conforme já afirmado, sendo muito menos conhecido).

Até estes artigos, em março-abril de 2014, eu não lembro de ler uma única afirmação negativa de qualquer um desses pensadores, pelo menos não entre especialistas ocidentais, nem um único indivíduo acusando-os de serem hostis ao Ocidente, ninguém sugerindo que eles são amigáveis ao chauvinismo ou nacionalismo russo.

Em Russian Thought after Communism, James Scanlan, um importante especialista ocidental do pensamento russo, descreveu Vladímir Soovyov (1853-1990) como "por consenso o maior e mais influente de todos os pensadores filosóficos da Rússia". Em algo recente da Imprensa da Universidade de Cambridge sobre a história da filosofia russa, Randal Poole escreve que "Solovyov é amplamente considerado como o maior filósofo da Rússia".

Há, é verdade, dissidentes de mão cheia dessa unânime aceitação de Solovyov. O filósofo russo contemporâneo Sergei Khoruzhy considera Solovyov um muito grande filósofo, mas muito ocidental em orientação para merecer o título de grande pensador russo em sentido estrito.

Ademais, até mesmo intelectuais souberam ser geralmente hostis às coisas russas, tal como o professor de Harvard Richard Pipes, no entanto fala respeitavelmente sobre Solovyov: "A Igreja Ortodoxa nunca encontrou uma linguagem comum com o educado porque sua perspectiva conservadora tornou-o pronunciadamente anti-intelectual... um por um ela abandona as mentes religiosas mais finas do país: os eslavófilos, Vladimir Soloviev, Leo Tolstoy e os leigos engajados no início dos anos 1900 em torno da Sociedade Filosófica Religiosa..." (Russia Under the Old Regime, 243.)

Em resumo, a incompreensão de Snegovaya quanto a Solovyov dificilmente poderia ser mais completa. Em que sentido possível pode Solovyov, que não teve nenhuma ideia de soviético, pode ser considerado como apoiador de uma alegada "visão de mundo pró-soviética" de Putin? Na verdade, os escritos desse filósofo supostamente "pró-soviético" - exatamente como os de Berdyaev e Ilyn - foram banidos pela censura soviética.

Como pode Solovyov ser descrito como "nacionalista" quando sua magnun opus, A Justificação do Bem (o livro que Putin foi acusado de recomendar aos seus governadores), estabelece precisamente o oposto? É difícil de imaginar uma condenação mais absoluta do excepcionalismo nacional que a contida no trabalho de ética deinitivo de Solovyov:

"Deve ser um ou outro. Ou devemos renunciar ao cristianismo e ao monoteísmo em geral, de acordo com o qual 'não há bem que não seja um, Deus', e reconhecer nossa nação como sendo o bem mais alto em lugar de Deus - ou devemos admitir que um povo se torna bom não em virtude do simples fato de sua nacionalidade particular, mas somente enquanto conforma e participa do bem absoluto".

O mesmo sentido anti-nacionalista percorre todo o corpus de Solovyov. Ele argumenta agressivamente contra os nacionalistas eslavófilos do seu tempo. Para ler os pensamentos de Solovyov a respeito do assunto, Snegovaya, que lê russo, pode ter consultado o livro Estado, Sociedade, Governo, um voluma acadêmico de ciência social liberal co-publicado em 2013 por Mikhail Khodorkorsky (não conhecido por seu carinho com relação a Putin). Nesse compêndio em língua russa de ensaios feitos por teóricos liberais russos, Solovyov é rotulado como um crítico autoritativo do nacionalismo russo, inclusive o nacionalismo ocasionalmente falado por Dostoievsky [S. Nikolsky e M. Khodorkovsky, ed., Gosudrastvo. Obshchestvo. Upravlenie: Sbornik statei (Moskva, Alpina Pablisher: 2013)].

No artigo crítico feito pelo Prof. Sergei Nikolsky, Solovyov é citado longa e precisamente como um crítico autoritativo do desrespeito de Dostoievsky com relação a outras fés e nações e especialmente com relação à Europa. A fim de um balanço, Nikolsky pode ter notado que em mais algum lugar, por exemplo em seu "Três Discursos em Honra ao Dostoievsky", Solovyov homenageia Dostoievsky nos termos mais altos possíveis e especialmente nega que seu ideal político é nacionalista.

É digno de nota que Nikolsky, no mesmo artigo, ataca Ilyn por suas visões demasiadamente rosadas do imperialismo tsarista russo. Nikolsky provavelmente tem um ponto aqui.

Criticando a Igreja

Finalmente, longe de ser um proponente fanático da Igreja Ortodoxa Russa, Solovyov duramente criticou a Igreja Russa, taxando-a por "ser totalmente subserviente ao poder secular e destituído de toda vitalidade interior". Seguindo adiante, isto soa decididamente fraco. E de novo, tudo isso é bem sabido. Muitos, inclusive aqueles teólogos proeminentes como Urs von Balthasar, acreditam que Solovyov renunciou à Ortodoxia e se tornou um Católico, tão fortemente abraçou a Igreja Católica.

Solovyov, o suposto fanático conservador Ortodoxo, louvou a Igreja Católica, entre outros motivos, porque ele viu sua independência com relação às tentações nacionalistas, e por sua prontidão em agir no mundo. "O Oriente [quer dizer, a Ortodoxia Oriental] reza; o Ocidente [quer dizer, o Catolicismo Romano] reza e atua: quem está certo?" questiona Solovyov retoricamente em seu famoso Rússia e a Igreja Universal. Misturar com o mundo é bom se é o mundo que muda, Solovyov continua. Mudanças em quê sentido? De algum movo, no mesmo sentido como advogado pelo progresso Ocidental.

O que a Revolução Francesa destruiu - tratando os homens como coisas, bens ou escravos, merece ser destruído. Mas a Revolução Francesa, no entanto, não instituiu a justiça, porque a justiça é impossível sem a verdade, e a primeira de todas as verdades sobre o homem, mas a Revolução Francesa "perseguiu no Homem nada além da individualidade abstrata, um ser racional destituído de todo conteúdo positivo".

Como resultado, "o indivíduo livre e soberano", Solovyov continua, "encontra-se condenado a ser vítima indefensável do Estado absoluto ou da 'nação'".

É impossível reconciliar o Solovyov que encontramos nesses escritos com o retrato de Snegovaya e de Brooks de um religioso chauvinista e nacionalista russo, alguém com tendências pró-soviétias para aplicar.

A referência ao messianismo, vindo de Brooks, também demonstra uma total falta de auto-consciência. Mas aquele exemplo particular da chaleira chamando o pote preto já tem sido habilmente manuseado por Charles Pierce ("Nosso Sr. Brooks e o Messiânico Sr. Putin", Esquire, 4 de março de 2014).

Filósofo da Liberdade

Berdyaev (1874-1948) escreveu um grande tratado, e em um número de assuntos alterados em sua mente, mas, já que foi A Filosofia da Desigualdade que Putin sugeriu que seus governadores lessem, faz sentido começarmos com este.

Encontramos aqui um repositório de visões 'pró-soviéticas'? Nem perto disso. Pelo contrário, encontramos uma condenação emocionalmente desempenhada de tudo o que a União Soviética buscava (o livro foi escrito imediatamente depois da Revolução de 1917 e Berdyaev estava cheio de raiva e tristeza).

Berdyaev gasta muito do livro repreendendo o movimento bolchevique por sua exaltação exagerada de uma forma política particular. Mas em verdade, Berdyaev insiste, as formas políticas são secundárias ao espírito humano. Se uma pessoa é agradável ou viciosa, devota à justiça ou o seu oposto, tem pouco que ver com se alguém é um monarquista ou um democrata, um partidário da propriedade privada ou um socialista.

Por que especificamente "A Filosofia da Desigualdade"? Não porque o filósofo é indiferente à exploração e à injustiça. E menos ainda porque ele favorecia a tirania - ele foi, pelo contrário, um incansável crítico do despostismo, que é a palavra usada para descrever a ordem tsarista.

Berdyaev nunca abandonou completamente seu interesse por Marx quando jovem, mesmo depois de sua conversão ao Cristianismo perto da virada do século. Ele foi por temperamento uma pessoa mais à esquerda que à direita, apesar de sua duradoura influência de Nietzsche.

No que concerne Berdyaev é a desigualdade entre o que é superior ou inferior no âmbito do espírito e cultura. Berdyaev na maioria das vezes aprova algo do liberalismo e encontra nele algo de aristocrático ou de algum modo não revolucionário. Não obstante, a democracia e o socialismo, precisamente porque eles foram pretensiosos em preencher toda a vida com seu conteúdo, pode facilmente se tornar uma falsa religião.

Em algumas vezes a filosofia de Berdyaev até mesmo coincide com o libertarianismo, que por sua vez rejeita todo abuso de liberdade do indivíduo para fins utilitários.

A visão religiosa de Berdyaev é difícil de caracterizar. Ele foi um Cristão, um existencialista e alguém que acreditou na primazia absoluta da liberdade, mas não necessariamente todas as três de uma só vez (elas não são inteiramente compatíveis, mas então Berdyaev não foi sempre consistente). Os escritos de Dostoievsky tiveram uma enorme importância religiosa para ele.

É fácil de não compreender Berdyaev por causa de sua carência de sistema, e porque ele olha algumas vezes para o mesmo conceito de perspectivas diferentes. Tomamos por exemplo a compreensão paradoxal de Berdyaev da unidade nacional.

Dostoievsky, Berdyaev escreve, "é um gênio russo; o caráter nacional russo é estampado em todo o seu trabalho criativo, e ele revela ao mundo as profundezas da alma russa. Mas este mais russo dentre os russos ao mesmo tempo pertence à toda humanidade, ele é o mais universal de todos os russos".

E o mesmo pode ser dito para Goethe e outros gênios nacionais, que por sua vez são universais não por serem genéricos, mas precisamente por serem mais que eles mesmos; no caso de Goethe, sendo especificamente alemão. A perspectiva de Berdyaev aqui é particularmente útil se nós quisermos um mundo salvo para tanto a unidade e a diversidade. Uma civilização global que nivelaria todas as diferençasé feio, enquanto um messianismo que exaltaria uma nação sobre as outras é mal [N. Berdyaev, Sud’ba Rossii [O Destino da Rússia], (Moskva: Eksmo-Press, 2001), p. 353 e 361]

O Cristianismo, entretanto, é messiânico, porque afirma o que considera verdade universal, a verdade de Cristo. Mas essa verdade não tem poder coercitivo.

Até o início de 2014, a visão de que Solovyov e Berdyaev representam particularmente alternativas humanas e atrativas para a Rússia não foi, tão quanto sou consciente, posta em dúvida por ninguém, ao menos ninguém que deu  ao assunto qualquer pensamento.

Nos tempos da Perestroika, quando a filosofia russa foi finalmente redescoberta dentro da Rússia, a influência positiva desses filósofos foi calorosamente afirmada. Bill Keller, escrevendo para o New York Times, louvou a revista soviética Novy Mir por focar atenção em "os pensadores russos do século XIX mais inclinados ao Ocidente tais como Nikolai Nekrasov, Aleksandr Herzen, e os filósofos cristãos Vladímir Solovyov e Nikolay Berdyaev".

Estes foram o tipo de pensadores, enfatizados por Keller, que ajudariam a encorajar "uma alternativa humana ao fanático leninismo e ao obscuro nacionalismo russo". Ao publicar estes escritos, Keller continuou, Novy Mir estava demonstrando que "ocupa uma posição centrista chave a tentativa de reconciliar os ocidentalistas e os patriotas russos em uma base comum de tolerância e ideais democráticos".

O 'Liberal Conservador'

O caso de Ivan Ilyn (1883-1954), quem Putin regularmente cita e por quem Putin reconhecidamente tem respeito, é mais complexo. Algumas das suspeitas de Snegovaya nesse caso são de fato bem feitas. Ilyn tem um temperamento conservador.

É justo chamá-lo de nacionalista, embora um só preocupado com a Rússia e mais nada, e sem ambições messiânicas. Como veremos mais adiante, Ilyn não foi contra o autoritarianismo. Ilyn foi, no entanto, complexo e digno de consideração mais cuidadosa.

A sugestão de que Ilyn é uma fonte da postura "pró-soviética" é facilmente desfeita. Os interrogadores de Cheka que prenderam e interrogaram Ilyn seis vezes entre 1918 e 1922 ficariam muito surpresos com uma tal caracterização.

De acordo com o Prof. Iu T Lisitsa, que revisou os registros sobre Ilyn dos arquivos da KGB, Ilyn "mesmo nas mãos da Cheka, sob ameaça de execução... permaneceu reto, preciso, e articula em sua oposição ao regime bolchevique". [From “The Complex Legacy of Ivan Il’in, Russian Thought after Communism, in James Scanlan, ed., Russian Thought After Communism: The Recovery of a Philosophical Tradition (Armonk, Nova Iorque, M.E. Sharpe: 1994), 183.]

A caracterização "pró-soviética" também não faz jus com o fato de que Ilyn, ao lado de Berdyaev e um grupo de outros filósofos líderes russos, foi banido da URSS em 1922 por sua "agitação" anti-soviética. Diz-se que o corpus literário de Ilyn inclui mais de 40 livros e ensaios, alguns deles escritos em linguagem técnica e acadêmica, então não é coisa fácil caracterizar seu pensamento, mas um bom lugar para começar é Nossas Tarefas, de Ilyn.

Esse não só é um livro que Putin gosta de citar, é também um outro dos livros, ao lado com a Justificação do Bem de Solovyov e com A Filosofia da Desigualdade de Berdyaev, que Putin sugeriu para que seus governantes lessem.

O livro Nossas Tarefas é uma compilação de ensaios jornalísticos escritos por Ilyn entre 1948 e 1954. Seu tema primordial é a necessidade de pôr um fim à regra soviética, derrotar o comunismo e planejar para a restauração da Rússia e recuperar-se das desgraças físicas, morais e políticas impostas à Rússia pelo sistema soviético. É difícil imaginar uma condenação mais descompromissada da ideologia e prática soviética que essa coleção de ensaios de Ilyn. Se houver alguma, deve faltar em exagerar as deficiências do sistema soviético. Deve ser lembrado, apesar disso, que Ilyn (que morreu em 1954) não viveu para ver a era pós-soviética, ou mesmo para ouvir o discurso de Khrushchev condenando Stalin (em 1956).

E Ilyn não foi só um crítico do comunismo, ele foi também um crítico dos líderes passados da Rússia quando eles foram viciosos (como no caso de Ivan IV) ou incompetentes, como no caso de Nicolau II. Como Berdyaev, Ilyn foi também, na ocasião, um crítico agressivo do povo russo, que ele pensou que eram politicamente imaturos e em necessidade de uma quebra de curso em consciência legal.

Depois da queda do poder soviético, uma queda que ele esteve certo que iria acontecer, ele foi cético ao extremo de que o caráter do povo na Rússia seria capaz de sabiamente se auto-governar, que é o motivo pelo qual ele instou, como um expediente temporário, um período de  transição do governo autoritário.

'O Homem Soviético'

Aqui é como, em Nossas Tarefas, Ilyn descreveu o caráter do "homem soviético" que a futura Rússia herdaria: "O sistema totalitário... impõe um número de tendências e hábitos doentios... entre os quais nós podemos encontrar a seguir: uma vontade para informar sobre outros (e conhecida e falsamente), distorcer e mentir, perda de sentido de dignidade pessoal e a ausência de todo patriotismo bem enraizado, pensando de uma maneira escrava e aceitando cegamente o pensamento de outros, sujamente combinados com servidão e medo constante.

"A luta para sobrepor estes hábitos doentios não será fácil... exigirá tempo, uma auto-consciência honesta e corajosa, uma repetição purificadora, a aquisição de novos hábitos de independência e auto-confiança, e, o mais importante de tudo, um novo sistema nacional de educação espiritual e intelectual.[I. A. Il’in, Nashi Zadachi (Nossas Tarefas), sobr. soch. (obras coletadas), vol. 2 (Moskva, Russkaya Kniga: 1993), 23-24.]

 Ilyn era de fato profundamente preocupado com o perigo da desintegração da Rússia e de fato era preocupado com a defesa de suas fronteiras, embora, claro, não por sua restauração. Para evitar tal desintegração, Ilyn instou os russos a não repetir o que ele considerou erro fatal da Revolução de Fevereiro - seu empurrão prematuro por repleta democracia.

Nisso, como em respeito a muitas outras coisas, as recomendações políticas de Ilyn conciliam-se com as de Solzhenitsyn, que foi profundamente influenciado por Ilyn. Que Ilyn é uma grande influência sobre a marca de Putin como "liberal conservador" foi notado já em 2012 pelo acadêmico canadense Paul Robinson.

Diferente de Solovyov e Berdyaev, nos primeiros anos da Perestroika Ivan Ilyn era pobremente conhecido tanto dentro como fora da Rússia, embora Ilyn tenha sido proeminente durante os anos precedentes e seguintes da Revolução Russa, inclusive enquanto vivia no exílio.

Sua fama no início do século XX veio largamente de um celebrado estudo acadêmico dos escritos de Hegel, um trabalho ainda louvado tanto dentro como fora da Rússia como entre os melhores já produzidos.

Ilyn estourou na cena pós-soviética em 1991, quando os ensaios das Nossas Tarefas foram primeiramente publicados, incluindo o presciente "O Que o Desmembramento da Rússia Pressagia para o Mundo?" Em seu ensaio, Ilyn escreve que o resto do mundo, em sua ignorância das prováveis consequências, avidamente subscreverá a destruição da Rússia e providenciará muitas assistências de desenvolvimento e encorajamento ideológico.

Como resultado, Ilyn escreve "o território da Rússia fritará em intermináveis protestos, combates, e guerras civis que constantemente escalarão em confrontos mundiais..." Para evitar esse fato, como mencionado anteriormente, Ilyn instou a Rússia um período de transição de governo autoritário.

Esse ponto é enfatizado por Philip Grier em seu Complexo Legado de Ivan Ilyn. Grier, deve ser acrescentado, que é o antigo presidente da Sociedade Americana de Hegel, é também o tradutor da análise em dois volumes de Ilyn sobre Hegel publicada por Northwestern University Press em 2011.

Embora Ilyn admire os Estados Unidos e a Suíça pelo que ele viu como auto-governos democráticos maduros, não está claro que Ilyn era confidente de que a democracia tenha sido feita sob medida por uma nação e uma cultura do tipo russo.

O que está absolutamente claro, no entanto, é a devoção fervente de Ilyn em governar a lei e a consciência legal, algo que o coloca à parte dos eslavófilos, a quem ele em outros assuntos se assemelha.

Uma Rússia Liberal ou Cristã?

Há muitas diferenças importantes entre estes três pensadores. No entanto, todos os três escritores consideraram a liberdade essencial à cultura humana e ao espírito humano, embora eles difiram na ênfase. Indubitavelmente, então, a visão de mundo de todos os três é irredutível à fórmula liberal até mesmo se suas visões incluem elementos importantes liberais ou modernos.

Todos os três concordam com o mundo liberal de que todos os humanos, independentemente da nação, religião ou qualquer outra diferença, são igualmente dotados de dignidade infinita. Mas para eles isto não é uma frase jogada fora quando eles acrescentam que sua dignidade é conferida aos humanos por Deus, o que significa, entre outras coisas, que um direito a ser absolutamente seguro não pode ultrapassar o direito de alguém de não ser torturado (a proibição absoluta de Ilyn contra a tortura, ou qualquer coisa relacionado à tortura, no livro acima mencionado é excelente e oportuna).

Não houve espaço aqui para tentar mais que uma breve introdução a estes pensadores. Mas deveria ficar claro que a tradição que nós acabamos de descrever oferece, se nós nos engajaríamos nisso, uma oportunidade: uma chance de formar uma parceria com a Rússia que, embora diferente de nosso estado presente da mente, compartilha muito de nosso passado, e talvez sugere alguns caminhos para negociar em um mundo cada vez mais perigoso.

Conforme sua recomendação de lista de leituras fortemente sugere, "a Rússia de Putin" representa uma tentativa de reconectar com sua tradição, embora possa ser falha se tomarmos o famoso discurso de Putin (à Assembleia Federal) em abril de 2005. Embora os comentadores ocidentais tem ad nauseum o repreendido por mostrar suas verdadeiras cores ao despreender nostalgia pela ordem soviética, em verdade, como todo o texto e o seguinte excerto tornam claro, ele não fez tal coisa:

Putin disse: "O poder do Estado, escreveu o grande filósofo russo Ivan Ilyn, 'tem seus próprios limites definidos pelo fato de que é a autoridade que alcança o povo de fora... o poder estatal não pode sobrepor e ditar os estados criativos da alma e da mente, os estados interiores do amor, da liberdade e do bem-querer. O Estado não pode demandar de seus cidadãos fé, oração, amor, bondade e convicção. Não pode regular criação científica, religiosa e artística... não deveria intervir na moral, na família e na vida privada cotidiana, e só quando extremamente necessário deveria impingir na economia do povo iniciativa e criatividade'".

É ser inocente imputar um tal idealismo a Putin? Talvez. Mas Putin não é de fato o ponto, e sim a Rússia. Nós nos engajamos depois de tudo num país, não numa simples pessoa nele, e a tradição que estamos descrevendo tem raizes suficientes na Rússia que atualmente existe que, se nós escolhermos nos engajar nela, haveria a chance de uma conversação produtiva, capaz de reconstruir a confiança e criar uma ordem.

Os críticos dizem que a Rússia recentemente se tornou uma nação cheia de ódio. Mas como estão os cidadãos russos e o presidente Putin por verem distorcidas (e o que vimos acima é apenas a ponta do iceberg) suas próprias palavras e suas mais caras tradições de um modo aparentemente rancoroso e até mesmo violento? Uma sábia análise corretamente notou que os nacionalistas russos como Alexandr Dugin consideram os Estados Unidos como inimigo implacável da Rússia. Representantes desse campo "eurasiano" esperam a queda de Putin.

Os esforços da América para a "mudança de regime" podem ser bem sucedidos e facilitar uma mudança drástica para pior. E então, por meios da "logicalidade curiosa" da ideologia americana, nós mais uma vez, com a "teimosa devoção sem consideração por fatores específicos e variantes" vamos a mais uma catástrofe.

Uma Breve Nota sobre Ideologia

Para a tão alardeada liberdade dos Estados Unidos, exibe surpreendentemente pouca liberdade de manuseio quando vem à política externa. Longe de ser tomado em consideração a necessidade da segurança vital da Rússia, para não dizer nada da identidade russa, os ideólogos dos EUA se comportaram como se ambos não fossem existentes ou fundamentalmente ilegítimos. Tais comportamentos políticos compulsivos é um claro sinal de infecção ideológica.

Brooks, Snegovaya e Galeotti aparentemente fizeram todo o uso da mesma base lógica quando eles examinaram as fontes filosóficas do pensamento de Putin. Essa lógica foi algo como isso: a) Washington considera a Rússia um problema, logo b) Vladimir Putin é um bandido; e logo c) o filósofo do século XIX Vladimir Solovyov sonhou em restaurar a União Soviética em sua anterior glória e poder cristãos.

Um pensamento tão desleixado não aconteceria se essas três pessoas inteligentes não (espera-se temporariamente) fossem previamente incapacitados por cegadores ideológicos. Infelizmente, o mesmo pensamento ideológico domina todo o discurso dos EUA que se refere à Rússia, fazendo com que se torne impossível qualquer afirmação política.

Afinal, se o ideal político da América é quase tão perfeito que pode ser alcançado neste "mundo decaído", então a coisa vai adiante e vence, desse modo trazendo o bem perfeito (somos nós!) para todos.

Por que preocupar-se seriamente em familiarizar-se com um sistema competidor? Claramente Brooks and Co. não fazem nenhum esforço. Foi o bastante para eles saber que o ideal político da Rússia significantemente difere do americano: logo é ilegítimo, Q. E. D.

Conforme Hannah Arendt escreveu em As Origens do Totalitarianismo, "a curiosa logicalidade de todos os ismos, sua simplista crença no valor de salvação da teimosa devoção sem consideração por fatores específicos e variáveis, já acolhe os primeiros germes do desprezo totalitário pela realidade".

Essa América realmente não vive seus próprios ideais, como tenho escrito anteriormente, não muda nada para o ideólogo. Afinal, todo aumento no poder da América traz mais perto o dia em que suas ações (que são geralmente realistas) e seu discurso (que é sempre democrático e idealista) podem encontrar harmonia. Então a história pode verdadeiramente e finalmente terminar.

E então, em luz da revisão acima de uma parte importante da tradição russa, há algo que agora sabemos de forma muito mais acurada: a Rússia também tomou o problema de ter ideais.

Paul Grenier é um ex-intérprete simultâneo russo e um regular escritor sobre assuntos político-filosóficos. Depois de avançar no estudo sobre assuntos russos, relações internacionais e geografia na Universidade Columbia, Paul Grenier trabalhou para o Pentágono, para o Departamento de Estado e para o Banco Mundial como intérprete russo, e no Conselho de Prioridades Econômicas, onde foi um diretor de pesquisa. Ele escreveu para o Huffington post, Solidary Wall, Baltimore Sun, Godspy e Second Spring, entre outros lugares, e suas traduções de filosofia russa apareceram no jornal católico Communio.












via russianinsider