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domingo, 6 de setembro de 2015

Dostoievsky: Racionalismo Demoníaco

Em seu trabalho Dostoievsly e a Metafísica do Crime, o sociólogo dr. Vladislav Arkadyevich Bachinin analisa a aparentemente única correlação contraditória entre o racionalismo iluminista e o surgimento de forças infernais na obra Os Demônios de Dostoievsky. Segue abaixo:

A Razão Imoral de um Automaton Vivo

Pyotr Verkhovensky, o cínico sangue-frio que facilmente ultrapassa quaisquer obstáculos morais, representa um tipo especial de criminoso, ao qual é aplicável a metáfora de "homem-máquina".

Na França de 1748, o livro de Lematrie sob aquele título foi lançado. Seu autor molda o homem como uma máquina auto-regulada que se move por linhas perpendiculares. Na concepção de Lametrie um ser humano foi a direta semelhança a um relógio ou cravo, e ao mesmo tempo uma necessidade natural. Mas possuindo instintos, sentimentos e paixões, ele é privado de uma alma. Lametrie assumiu que o termo alma carecia de qualquer substância essencial qualquer que seja. O mundo no qual o homem-máquina habita é antropocêntrico; não há lugar para Deus. A realidade é arranjada de acordo com os princípios da mecânica newtoniana, e o mundo se apresenta como um conglomerado mecânico de elementos inanimados. Os processos naturais e sociais são movidos por uma e mesma força mecânica.

A filosofia da racionalidade mecânica se abre como único resultado da evolução do racionalismo clássico. A eliminação de todo conteúdo metafísico prepara o fundamento tanto para a chegada do positivismo quanto para a realização de planos a fim de construir a futura sociedade estritamente racionalizada com parâmetros calculados inteiramente sob o controle de uma vontade diretora. O homem-máquina e o Estado-máquina, que precisam um do outro, surgem como algo que lembra as razões télicas de Aristóteles, e direta e gradualmente determinarão o desenvolvimento de esquemas antropocêntricos positivistas.

De acordo com a pintura mecanicista do mundo, sempre existe a ameaça de deformações intencionais nas estruturas da ordem cósmica. Objetivamente existem possibilidades de violação da medida e da harmonia, da destruição da ordem e ascensão do caos. Um assassino pode realizar a possibilidade objetiva da morte que existe para sua vítima. Um ladrão ou bandido é capaz de realizar a possibilidade objetiva de alterar valores materiais no espaço social de umas mãos para outras, etc. Ou seja, fica apenas para o homem aplicar certos esforços para a possibilidade de desintegração das estruturas existentes, seu movimento para a realidade. Em tempos as forças mecânicas foram suficientes para isto. Ademais, quanto maior o grau de mecanismo de tais empresas, menor o espiritual, ético, religioso e de outros componentes similares, e mais efetivas provarão ser as ações destrutivas.

Dostoievsly tem a filosofia do homem-máquina aplicável primeiro e acima de tudo aos caracteres que representam o prático homem de negócio junto de tipos comerciais do modelo ocidental, i.e., a tais homens como Luzhin, Rakitin, Epanchin, Totsky, Ferdyschenko, etc. Indiferentes à realidade metafísica, eles subscrevem aos "ideais de Geneva" de Rousseau permitindo a possibilidade da "virtude sem Cristo". Imersos no orgulho de uma existência sem graça, prosaica e pragmática, "tendo ouvidos, eles não ouvem, e tendo olhos eles não veem". Tudo que vem de cima, das esferas da realidade metafísica, não chega às suas almas, e portanto estão imersos na escuridão da ignorância e incompreensão das coisas mais significativas da vida. Os pensamentos e sentimentos destes "Bernardos" carregam um caráter mundano e não diretamente dirigidos além. Eles não gostam de pensamentos abstratos, considerando um passa-tempo inútil. Para eles, como para Lametrie, Deus e a alma são magnitudes de falsa moral. Para eles todo o mundo habita no estado "desencantado" de um gigantesco conglomerado de elementos inanimados. Em nenhum deles Deus brilha faiscante. Todos estes homens são espiritualmente máquinas vivas empobrecidas, doentes, no entanto, por uma mão misteriosa, mas como Lev Shestov diria sobre eles, não são conscientes que suas vidas não são vidas, mas mortes.

Em suas descrições Dostoievsky expôs sua crítica da mente longe-da-limpeza, inteiramente imunda e imoral, mais precisamente a razão banal e básica "euclidiana" que é que são surdos à metafísica das morais absolutas, a mente que vê na alma "só vapor", que é governada por razão fria solitária e vê todo o mundo como aglomerado de ferramentas para alcançar seus insípidos objetivos.

Entre os espécimes do homem-máquina replicados por Dostoievsky, Pyotr Verkhovensky representa o exemplar mais odioso. Ele é calculista, impiedoso, e está pronto a ir toda a distância para alcançar seus objetivos, sem parar diante das mais vis infâmias e crimes.

A realidade criminal, dentro do que existe a verdade de Verkhovensky, o "eu", é distinguida por características tais como um duro distanciamento de outros mundos valorativos, e acima de tudo do mundo dos absolutos religiosos, morais e das leis naturais. Em segundo lugar, inerente a isto está uma aguda tensão nas relações com a realidade valorativa oficial. E sua terceira particularidade é uma vulnerabilidade para o desmaio, explicada pelo fato de que por toda sua posição antagônica, aspira copiar as estruturas das realidades legais em seu próprio estilo. Assim como o mal parodia Deus, tentando imitá-lo, o mundo criminoso busca, por toda sua natureza caricatural de seus esforços, reproduzir estereótipos normativo-valorativos dos mundos legítimo e sacro, tentando adquirir vitalidade adicional a seu custo.

Não é acidental que o assassinato de Chatov em Os Demônios traz as marcas de um sacrifício ritual. Juntamente com isto toma a forma de uma monstruosa paródia de um ritual antigo: ao invés da solenidade de um rito sagrado, há a imunda baixeza de toda a cena; ao invés da aberta oficialidade, há a covardia, o ato secretamente cerrado; ao invés de clamar em favor de forças superiores, há um jogo sobre elementos obscuros do mal, uma comiseração de todos os participantes do assassinato através do sangue derramado da vítima e do medo mútuo de um diante do outro.

O Espaço Normativo da Associação Político-Criminoso

Verkhovensky deliberadamente forma um espaço normativo-valorativo de "moralidade" corporativa-criminosa com princípios ásperos de auto-organização e auto-preservação. Ele requer aquela atitude de membros associados para que suas tarefas e objetivos sejam extremamente sérias, sem permitir ceticismo, auto-ironia ou crítica. Violadores são imediatamente punidos. Violência aplicada preenche uma função protetora, atuando como meios de soldadura e auto-defesa para seu micro-mundo artificial.

À parte da similaridade na estrutura e nas formas da atividade político-criminosa e organizações puramente criminosas, entre as duas há distinções essenciais. E assim, se os fins últimos de um grupo criminoso são limitados à resolução de tarefas mercantis auto-interessadas, então os fins das associações político-criminosas ultrapassam os limites dos interesses mercantis e são orientadas em direção ao alcance de domínio político, através do qual os membros da associação passam a uma posição de elite reinante.

Se criminosos associados, como regra, não emitem um desafio ao Estado e ao sistema estatal, mas preferem lidar com cidadãos individuais, uma associação político-criminosa audaciosamente caminha a um antagonismo com o poder estatal e suas instituições.

Se um grupo criminoso representa uma única forma de "coisa em si" e não esconde seu egoísmo corporativo, então uma associação político-criminosa mascara seus interesses fundamentais com a cortina de fumaça de mentiras sobre os interesses do povo que supostamente concernem a ele.

A última circunstância, notada por Dostoievsky, permite homens tais como Verkhovensky recrutar apoiadores não apenas do espectro de "perdedores" pouco-educados e fanáticos com um desejo doente por intrigas e poder, mas também envolver jovens com bom coração, mesmo que com "vibrações" nas suas visões. O fato da última provar-se genuinamente trágica, desde que estes encrenqueiros confidentes, que estudaram o lado magnânimo do coração humano e foram capazes de mexer em suas cordas como se fosse um instrumento musical, ultimamente transformaram estes jovens em criminosos.

Dostoievsky lamentava que a juventude contemporânea, em caminho da maturidade de firmar convicções e dureza morais, estava indefesa contra o "demonismo". Entre muitas unidades materiais elas dominam uma ideia superior, e uma educação genuína é substituída por estereótipos de negação impúdica através da voz de alguém, da insatisfação e impaciência. Como resultado "mesmo o menino honesto e puro, mesmo aquele estudioso, poderia de repente se tornar um Nechaevita... ou seja, de novo, se ele se cruzasse com Nechaev..." (21, 133). Para tais garotos, os atos criminosos de Nechaev e Verkhovensky se pintam como proezas políticas.

As transformações fatais que tomaram lugar nas almas de muitos "garotos russos" foram facilitadas por um "momento de tormentas", que forçou a civilização russa em primeiro lugar calmamente, e depois mais rápido, a escorregar por uma superfície lisa rumo ao caos.

"Em minha novela Os Demônios", escreveu Dostoievsky, "eu tentei expressar aqueles vários e diversos motivos pelos quais mesmo o mais puro dos corações e a mais sincera pessoa pode ser levada a cometes a mais monstruosa vilania. O terror está em que aí pode-se fazer a coisa mais infâmia e horrível, algumas vezes completamente sem ser um canalha! E não é algo apenas entre nós, mas por todo o mundo é assim, sempre e no início das eras, durante tempos de transição, em tempos de descontrole na vida das pessoas, de dúvidas e negações, ceticismo e instabilidade nas convicções sociais fundamentais. Mas temos mais do que em qualquer lugar, e especialmente em nossos tempos, e esta característica é a característica mais dolorosa e triste de nosso tempo presente. Na possibilidade de ver a si mesmo, e até mesmo, quase por vezes,  como uma questão de fato, não como um canalha, ao trabalhar em uma abominação clara e indefensável - eis nossa tragédia contemporânea!" (21, 131).

Racionalidade de "Máquina" de um Programa Político

Verkhovensky, possuindo um poder forte e mecanicamente voluptuoso, encontrou um programa político mecanicista que corresponde à sua natureza. Suas posições básicas remontam aos seguintes pontos:

- Um novo tipo de Estado com formas predominantemente totalitárias de governo é necessário.
- Este Estado deveria manter seus súditos em constante terror, sem cessar, conduzindo a vigilância de todos "a qualquer hora e a qualquer minuto".
- Desde que gênios, talentos e indivíduos admiráveis representam uma ameaça ao poder dos "líderes-máquinas" por sua natureza extraordinária, todas as pessoas serão levadas a um nível padrão de desenvolvimento através de terror ideológico e político, no curso do qual Cícero terá suas línguas cortadas, Copérnico seus olhos arrancados, Shakespeare amarrado em pedras, etc.
- Para o decreto deste programa, é necessário começar com a total destruição de tudo, na prática levando à transição da ordem ao caos.

Dois vetores uniram-se nesse programa político-criminoso - a racionalidade "de máquina" dos vilões desalmados com a irracionalidade demoníaca dos maníacos em fúria.

Um dos paradoxos mais impressionantes da personalidade de Verkhovensky é aquela combinação surpreendente do "tipo máquina" com um entusiasmo maníaco por destruição. Isto concede à figura do demônio político um caráter especialmente sinistro. Com a direta participação da insensível "máquina" em produzir desordem, eventos na novela tomam a forma de uma vindoura tempestade, um caos entronado, quando uma dúzia de assassinatos e suicídios são cometidos, ao lado de muitas lutas de loucura e fogo grandioso de um incêndio. Como resultado, o mundo fechado no quadro da novela começa a se parecer com um monstruoso covil de bestas, onde há ausência de amor e misericórdia, onde há somente lutas impiedosas de todos contra todos.

Dostoievsky viu uma das fontes desse caos nas mentalidades filosóficas de conteúdo racionalista, materialista e ateu que penetraram [na Rússia] do Ocidente. Caindo em solo russo, as doutrinas de Darwin, Mill, Strauss e outros representantes do pensamento "progressivo" europeu, como regra foram tomados na consciência eslava, não experiente de tantos séculos de escolas filosóficas, como axiomas filosóficos adamantinos. Ademais as conclusões práticas foram frequentemente tiradas deles, conclusões de possibilidade das quais os professores ocidentais não suspeitavam.

Claro, o conhecimento positivo não diretamente ensinou qualquer vilania. E se Strauss, Dostoievsky nota com ironia explícita, negou e brincou com Cristo, por sua vez ao homem e à humanidade ele demonstrou o amor mais carinhoso e desejou o futuro mais radiante.

Mas então isto é o que me parece indubitável - dar a todos estes professores superiores contemporâneos a completa oportunidade de destruir a antiga sociedade e construir uma nova - então virá uma tal escuridão, um tal caos, algo tão cru, cego e desumano, que toda a construção colapsaria sob o curso da humanidade antes que ele pudesse ter sido completado. Uma vez rejeitado Cristo, a mente humana pode chegar aos resultados mais espantosos. Isto é um axioma. A Europa, pelo menos nas representações superiores de seu pensamento, rejeita Cristo, e como é sabido, estamos obrigados a imitar a Europa. (21, 132 - 133)

Para Dostoievsky, a atividade valorativa-orientadora e prática-transformadora da consciência moral, legal e política deve ser fundamentada em princípios do teocentrismo. Ele dissemina o espírito da Teodiceia sobre todas as esferas da vida social e espiritual, sem exceção. A consciência legal ocidental é predominantemente antropocêntrica, e como regra não aceita fundamentos normativos-valorativos religiosos ou metafísicos.

Estes fundamentos são desnecessários para o homem-máquina, que descobre por suas ações que a imoralidade aberta, o crime e o maquiavelismo político são tudo de uma e mesma natureza. Todas elas começam com a negação dos princípios superiores do ser, dos valores e normas absolutos.

via souloftheeast

domingo, 26 de julho de 2015

Ivan Ilyin: Sobre o Diabo


Em seu ensaio de 1947, o filósofo russo Ivan Ilyin (1883-1954) aponta a realidade do diabo na história e em nossos tempos. Comentando, o avanço das formas seculares e materialistas corresponde com um fascínio sempre crescente pelo diabo - juntamente com sua justificação pública. Abaixo, segue um trecho do filósofo.


Na vida da raça humana, o princípio diabólico tem sua própria história. Sobre esta questão existem sérios estudos acadêmicos - não concernentes, no entanto, com as últimas décadas. Agora, essas últimas décadas verteram nova luz sobre os dois últimos séculos. A era do Iluminismo europeu (iniciando com os enciclopedistas franceses do século XVIII) minou no homem a fé no ser de um diabo pessoal. O homem educado não pode acreditar na existência de um ser antropomórfico revoltado "com um rabo, patas e chifres" (de acordo com Zhukovsky), não visto por ninguém, mas ilustrado em baladas e pinturas. Lutero ainda acreditava nele e até jogoou sujeira nele, mas depois os séculos rejeitaram o diabo, e ele gradualmente "desapareceu" e esfumaçeou como um "preconceito ultrapassado".

Mas foi precisamente o momento em que a arte e a filosofia se tornaram interessadas nele. O Iluminismo europeu tinha só um manto do Satã ainda, e ele começou a se vestir com fascínio. Queimou um desejo de encontrar mais sobre o diabo, discernir a "forma verdadeira", adivinhar seus pensamentos e desejos, "transformar-se" nele ou pelo menos caminhar diante dos homens sob a aparência dele...

E assim a arte começou a imaginá-lo e ilustrá-lo , enquanto a filosofia tendia à sua justificação teórica. O diabo, é claro, "não teve êxito", porque a imaginação humana é incapaz de contê-lo, mas na literatura, música e pintura começou uma cultura de demonismo. No início do século XIX a Europa estava fascinada com suas formas anti-divinas; lá aparece o demonismo da dúvida; a negação; o orgulho; a rebelião; a decepção; a amargura; a melancolia; o desdém; o egoísmo e até mesmo o tédio. Os poetas retratam Prometeu, o Filho da Aurora, Caim, Don Juan e Mefistófeles.

Byron; Goethe; Schiller; Chamisso; Hoffmann; Franz Liszt; e mais tarde Stuck, Baudelaire, e outros exibem toda uma galeria de demônios ou homens e disposições demoníacos. Ademais, esses demônios são inteligentes, espirituosos, educados, engenhosos e temperamentais, em uma palavra, charmosos e que evocam simpatia, enquanto homens demoníacos são a incarnação da "angústia do mundo", "protesto nobre", e alguma "consciência revolucionária superior".

Ao mesmo tempo, a doutrina mística, sustentando que há um "princípio negro", ainda mesmo dentro de Deus, é reavivada. Os Românticos Alemães encontram palavras poéticas em favor do "inocente despudor", e o Hegeliano de Esquerda, Marx Stirner, surge abertamente pregando a auto-deificação e o egoísmo demônico. A negação de um diabo pessoal é gradualmente substituída pela justificação do princípio diabólico...

O abismo oculto por trás disso foi visto por Dostoievsky. Ele o identificou, e com seu alarme profético viu os meios para vencer isto em toda sua vida.

Friedrich Nietzsche também alcançou este abismo, foi cativado por ele, e viria a exaltá-lo. Seus últimos trabalhos, A Vontade de Poder, O Anticristo e Ecce Homo contêm direta e aberta propagação do mal... Nietzsche designa a totalidade dos sujeitos religiosos (Deus, a alma, a virtude, o pecado, o outro mundo, a verdade, a vida eterna) como um "punhado de mentiras, nascidos de maus instintos com naturezas doentias e nocivas no sentido mais profundo". "A concepção cristã de Deus" é para ele "uma das concepções corruptas criadas na terra". Aos seus olhos todo o cristianismo é apenas uma "fábula bruta de um salvador embusteiro", e os cristãos, "o partido de ninguéns e idiotas rejeitados".

O que ele exalta são o "cinismo" e o despudor, "o mais que pode ser alcançado na terra". Ele invoca a besta no homem, o "animal superior" que deve ser libertado, seja lá o que virá depois disso. Ele demanda o "homem selvagem", "vicioso" com "pança satisfeita". Tudo "cruel, o inalienavelmente ferino, o criminoso" o arrebata. "Grandiosidade existe apenas onde está um grande crime". "Em cada um de nós a besta bárbara e selvagem se afirma a si mesma". Tudo na vida que cria uma irmandade de homens - ideias de "culpa, punição, justiça, honestidade, liberdade, amor, etc." - "deveria ser completamente removido da existência". "Em direção a", ele exclama, "blasfemos, imoralistas, independentes de todos os tipos, artistas, judeus, jogadores -todas as classes rejeitadas da sociedade!"...

E não há gozo maior para ele do que ver "a destruição do melhor homem e acompanhar como, passo a passo, eles vão à destruição"... "Eu conheço meu destino", ele escreve.

Um dia meu nome será associado com a recordação de algo assustador, uma crise como tal que nunca foi vista sobre a terra, o mais profundo choque de consciência, uma sentença conjurada contra tudo que até então fora acreditado, demandado, santificado. Não sou um homem, eu sou uma dinamite.

De um tal modo a justificação do mal encontra suas últimas formas teóricas diabólicas, e ela permaneceu apenas para esperar seu decreto. Nietzsche encontrou seus leitores, discípulos e admiradores; eles adotaram sua doutrina, combinando-a com a doutrina de Karl Marx, e tomou a execução desse plano 30 anos atrás...

"Demonismo" e "satanismo" não são um e o mesmo. Demonismo é uma questão humana, enquanto satanismo é uma questão de abismo espiritual. O homem demônico é entregue aos seus instintos básicos e pode ainda arrepender-se e converter-se, mas o homem no qual, pelas palavras do Evangelho, "Satã entrou", é possuído por uma força estranha e supra-humana, e ele próprio se torna um diabo em forma humana.
Judas joga fora as pratas, por Platon Vasiliev

Demonismo é um escurecimento espiritual transitório, sua fórmula sendo vida sem Deus; o satanismo é o total e final escurecimento do espírito, sua fórmula é a derrubada de Deus. No homem demônico se rebela um instinto desenfreado e apoiado pela razão fria; o homem satânico age como instrumento de alguém que serve o diabo, capaz de saborear seu serviço repulsivo. O homem demônico gravita em torno de Satã: brincando, se divertindo, sofrendo, entrando em pactos com ele (de acordo com a tradição popular), ele gradualmente se torna o domicílio conveniente do diabo; o homem satânico se perde e se torna o instrumento terrestre de uma vontade diabólica. Aqueles que não viram tais pessoas, ou que não as veem, não as reconhecem, não conhecem o perfeito demônio primordial e não têm um entendimento do elemento verdadeiramente diabólico.

Nossas gerações são estabelecidas diante de manifestações terríveis e misteriosas do seu elemento e até nossos tempos não resolvemos como expressar sua experiência de vida em palavras adequadas. Nós poderíamos descrever este elemento como "fogo negro", ou defini-lo como inveja eterna; ódio inextinguível; banalidade militante; mentiras despudoradas; absoluta impudência e desejo absoluto por poder; o atropelo da liberdade espiritual; a sede de degradação universal; gozo sobre a ruína do melhor homem, e o anti-cristianismo. O homem que sucumbiu a este elemento perde a espiritualidade, o amor, a consciência; dentro dele começa a degeneração e a dissolução. Ele se rende ao vício consciente e à sede de destruição; ele termina em um desafiador sacrilégio e tormento humano.

A simples percepção deste elemento diabólico provoca em uma alma saudável a repulsa e o horror que pode transitar em indisposição corporal genuína, um específico "desmaio" (o espasmo do sistema nervoso simpático, disritmia nervosa e doença psicológica - que também pode levar ao suicídio). Homens satânicos são reconhecidos por seus olhos, por seu sorriso, sua voz, suas palavras e atos. Nós, russos, os enxergamos vivos e em carne viva; nós sabemos quem eles são e de onde vêm. Os estrangeiros até agora não compreenderam este fenômeno e não querem compreendê-lo, pois os leva ao julgamento e à condenação.

E até hoje, certos teólogos reformistas continuam escrevendo sobre a "utilidade do diabo" e simpatizam com sua insurreição moderna.


domingo, 28 de junho de 2015

Dostoievsky sobre o conservadorismo


Fiodor Dostoievsky foi bem considerado como um profeta da idade moderna. Com uma profundidade inigualável de sua visão, ele viu que a desordem cultural, política e econômica tem sua raiz em uma crise do espírito. Dostoievsky previu como a rebelião do homem contra o Transcendente progressivamente aceleraria para uma anarquia total. Essa ideia se tornou tema central de Os Demônios (ou Os Possessos), sua grande novela contra-revolucionária. Nesse livro foi dada atenção particular para a corrupção do espírito da classe dominante, os assim chamados elementos conservadores da sociedade.

Dostoievsky escreveu sobre a Rússia, mas ele também era profundamente sensível à decadência do Ocidente rumo ao secularismo. No século XIX, o homem europeu "iluminado" arremessou sua cabeça na apostasia, abandonando Cristo para a adoração de si mesmo; seu primeiro ato de regicídio foi o assassinato de Deus em seu coração. Sem autoridade sacra, o poder foi considerado um derivado da vontade perfeita do "Nós, O Povo", guiado por manipuladores endinheirados e tecnocratas. Partidos como o GOP e os Tories não fizeram nada para impedir o declínio das nossas sociedades porque eles compartilhavam os mesmos princípios radicais e anti-tradicionalistas da Esquerda. Como prova, vejamos a rápida transformação da Bretanha em um Estado criminoso, multicultural, onde os conservadores consideram o "casamento" homossexual como uma questão de legitimidade moral.

Os ideais da modernidade, manifestados no progresso, igualdade, democracia, total autonomia individual, etc., formam uma religião falsificada. Na medida em que o auto-proclamado Direito descamba rapidamente para qualquer uma dessas fantasias, a oposição ao liberalismo é insignificante e puramente cosmética. Os acenos retóricos à consolidação cultural, i. e., "valores familiares", são articulados dentro do quadro corrosivo da ideologia dos direitos do Iluminismo, e tão somente para o propósito de arrecadar votos (pegamos como exemplo a "direita" brasileira, que supostamente defende a família tradicional e a erradicação do aborto, mas que não o faz por um propósito tradicional, e sim para angariar votos, pois seus princípios são o mercado de trabalho e ainda dentro da família eles reconhecem a função principal do "indivíduo" nesse mercado, N. do B.). Alguém ainda consegue seriamente pensar que a liderança republicana tentará alguma coisa contra o infanticídio institucionalizado? Para que não esqueçamos, mais de 50 milhões de crianças foram assassinadas nos EUA desde que o aborto se tornou legal pela Suprema Corte em 1973. E é agora um ponto de orgulho que os homens e as mulheres americanos lutam por estas lendrárias liberdades do Hindu Kush ao Magreb.

Com o Ocidente tradicional devastado e hierarquicamente invertido, há muito pouco para conservar ao lado da fé e da herança de alguém, as necessidades da sobrevivência e ressurgência. Mas os conservadores modernos rejeitam a essência divina-humana e sincera da cultura, assim servindo como os defensores mais ardorosos da ordem liberal. O quão fácil é instigar a próxima guerra, a dissolução dos povos para o lucro das empresas e o crasso divertimento popular, todos os atos na base de um Jardim das Delícias Terrenas, o que Dostoievsky imaginou como um formigueiro glorificado. O movimento conservador sabe o que é importante: generosas contribuições das indústrias financeiras e de defesa para manter as políticas de centralização oligárquica e o império sobre mares.

O principal Direito levou o Ocidente ao colapso cultural sistêmico em total colisão com a extrema Esquerda. Os Demônios de Dostoievsky revela as dimensões espirituais e intelectuais desse longo processo e o malevolente espírito por trás disso. Uma conversa entre o governador da província, Von Lembke, e o revolucionário niilista Peter Verkhovensky facilmente encapsula a mentalidade e o caminho do conservadorismo na era moderna.

"Nós temos responsabilidades, e como um resultado nós também servimos a causa comum como você. Nós estamos apenas segurando o que você perdeu e o que sem nós se dispersaria em várias direções.

Nós não somos seus inimigos; dificilmente. Estamos dizendo a você: vá adiante, faça progresso, até mesmo destrua, ou seja, tudo o que é sujeito à mudança; mas quando necessitado, nós manteremos você dentro dos limites necessários e salvá-lo-emos de si mesmo, porque sem nós você só mandaria a Rússia para revoltas, privando-a de uma aparência própria, e nosso dever é olhar para as aparências próprias.

Compreenda que você e eu somos mutualmente necessários um ao outro. Na Inglaterra, os Tories e os Whigs também precisam um do outro. Então agora somos Tories, e você os Whigs..."

"Bem, no entanto você gosta disso", murmurou Peter Stepanovich. "Não obstante você está pavimentando o caminho para nós e preparando nosso sucesso."

Desvele as próprias aparências, e se tornará claro que o conservadorismo é a manufatura do niilismo revolucionário.

via souloftheeast

domingo, 31 de maio de 2015

A Redimida Prostituta em Crime e Castigo e Outros Trabalhos de Dostoievsky

por John Barthelette

A prostituta é uma curiosa fixação da literatura na era Vitoriana. Nos trabalhos de William Thackeray e Samuel Richardson era quase clichê para a heroína acabar em casa de prostituição e então para transcender a situação em uma mostra das próprias morais vitorianas. Tendo muitas jovens sido forçadas à extrema pobreza para tomar o ofício de uma mulher perdida, Fiodor Dostoievsky, um pequeno-burguês caído em tempos difíceis, tomou uma diferente abordagem em todo o assunto; ele reconheceu que essas mulheres não são de total sem-mérito como muitas pessoas pensavam na época. Georg Brandes falou muito bem quando disse: "Dostoievsky explorou esses assuntos através dos caracteres da prostituta em muitos dos seus trabalhos. O mais famoso desses caracteres são encontrados em Crime e Castigo, Notas do Subsolo e em 'A Dócil'. Cada um desses apresenta uma abordagem única para a condição das prostitutas e o problema da sua redenção.

Em Crime e Castigo, Dostoievsky usa a personagem Sonia Marmeladov, cujo primeiro nome significa sabedoria, não só para ilustrar a misericórdia divina com relação à mulher decaída, mas para ter dela sua própria salvação e a de Raskolnikov através da misericórdia divina. Como na parábola dada pelo padre Zossima em sua morte na cama, em Irmãos Karamazov, a conexão inicial de Raskolnikov com Sonia no Livro I funciona como uma "semente" que mantém ele seguro de ser abandonado pela graça divina. Como a velha na parábola foi sem-mérito, exceto pelo fato de que ela deu ao mendigo uma semente, Raskolnikov carece de mérito depois de seu assassinato, exceto pelo fato de que ele teve caridade para com a família de Marmeladov. Ele estava totalmente desligado da sociedade por sua caridade para com aquela família necessitada. Assim essa conexão seria pervertida se não fosse pela virtude de Sônia. Quando ele confessa seu abominável crime para ela, ela chora em desconsolo por ele e o incita a salvar-se pela confissão. O ponto de Dostoievsky aqui é que tomando a si como anátema da sociedade e de Deus, Raskolnikov é destruído pelo seu próprio espírito. Ele não está permitindo a si mesmo a função devida que tem-lhe sido dada, e uma casa dividida contra si mesmo não pode permanecer. Então, Raskolnikov não pode sobreviver como um homem em um mundo destruído e rompido além da compreensão pelo seu ato de violência e dissidência social. A Providência está ilustrada aqui: Raskolnikov não pode sobreviver sem a ajuda de Sônia, mas nem a Sônia teria sido salva se Raskolnikov não viesse com intuito de se salvar ele próprio; ela poderia ter continuado no rumo à perdição do qual seu impulso de caridade a arrancou.

O que Dostoievsky está ilustrando aqui? Ele nos mostra a crueldade da luta interior e o fato de que essa luta pode ser vencida somente através do poder da graça e do arrependimento. Sônia luta com o fato de que ela própria é uma casa dividida. Por um lado ela é o epítome da sabedoria e da solidão, e por outro ela é o instrumento do prazer humano. Essa flagrante contradição não pode se sustentar; Sônia deve escolher um caminho ou o outro. Raskolnikov também demonstra sua contradição inerente: ele é um tão puro bondoso quanto um puro malvado. Essa mistura de pecado e sadismo, de pureza e esperança não pode sobreviver, não pode permanecer como um todo coerente. A loucura espera aqueles que deveriam tentar ser nem uma coisa nem outra. A balbúrdia das emoções de Raskolnikov e a culpa o dirigem a confessar-se com a ajuda de Sônia, e com ajuda dele Sônia foge de sua vida depravada a buscar um nível superior de existência na estética Sibéria. O último homem decaído pode apenas ser compreendido por uma última mulher decaída. O tema da mútua redenção é melhor visto através dos olhos de uma Eva e um Adão, e Dostoievsky usa essa ideia para engrandecer o efeito. Henry Miller expõe o âmago por lembrar: "Dostoievsky é caos e fecundidade. Humanidade, com ele, é nada mais do que um vórtice no borbulhante turbilhão".

Em Notas do Subsolo, Dostoievsky revela uma visão sobre prostituição e salvação que é muito mais reminiscente do "Paraíso Perdido" de Milton do que do "Paraíso" de Dante. Essas notas são reflexões de Dostoievsky sobre aspectos mais obscuros dos seus anos de devaneio pelas ruas de São Petersburgo, e ele invoca a esperança de um homem tão atolado em sua própria imundície mental e auto-ódio que regozija-se em sua doença, busca humilhação, e é a criatura mais perversa que se pode imaginar. Depois de tentar jantar com os velhos amigos do colégio, mas simplesmente se embaraçar todo e machucando a todos em torno dele, o Homem do Subsolo encontra uma puta sobre a qual inflige sua vitriólica carência de auto-estima. Ele encontra Liza, uma funcionária de um bordel. Seguindo a conubial atividade do Homem do Subsolo, erigida por um estranho impulso, começa a contar para Liza do fato inevitável de todas as prostitutas: ser usada, usada de novo e abandonada. Ele oferece-se para continuar conversando com ela e ser seu amigo, e ela tentativamente aceita. Essa é a abertura da graça para ambos deles: uma chance tanto de abrirem-se e reviverem o que há de humano neles. No entanto, o Homem do Subsolo está demasiadamente acostumado a usar de imundície, artimanhas e perversões mentais; quando Liza vem, ele rejeita sua amizade com ela violentamente. Duas almas completamente estranhas da humanidade permanecem assim para sempre porque não puderam cooperar um com o outro na graça. Este cenário toma o problema confrontado por Raskonlikov e Sônia e nos incita a considerar um final alternativo: um fim no qual o existencialista Homem do Subsolo "vence" a batalha contra sua humanidade e Liza se permite voltar para a penúria e para a prostituição. Os finais trágicos dessa história considerada à luz do epílogo de Crime e Castigo nos mostra apenas o quão ambos Sônia e Raskolnikov foram sortudos e o quanto ser aberto para a graça, ser honesto com seu próprio estado de ser, é em geral o bastante para Deus ajudar-nos através das crises de consciência.

Para uma mais refulgente compreensão de "A Dócil" vamos primeiro considerar outro caractere em Crime e Castigo, Dúnia, que gasta a maior parte da novela à beira da prostituição de outro tipo: prostituição espiritual. A ela Luzhin propõe casamento, um homem que deseja controlar os pensamentos, as mentes, e os corações de tudo em torno dele. Ele é um aborrecedor do pior tipo. Dúnia fugiu de uma posição sob o cruel Svidrigailov para evitar uma prostituição explícita, mas agora por amor de sua mãe e irmão ela é compelida a vender seu espírito tanto quanto o corpo. Dúnia é um tipo forte que vemos que é forçada em seu engajamento, tanto por seu próprio sentido de obrigação como por outros impulsos, ela vai à loucura e se mata. Esse é um fato terrível que sua família felizmente encontra um meio de inverter. No entanto, a heroína de "A Dócil" não é tão sortuda. Essa jovem moça está na mesma situação de Dúnia, ela só quer casar com seu Luzhin e se matar. Essa é a terceira possibilidade para uma mulher que vendeu sua alma: a "vitória" existencial da auto-destruição e a fuga da esperança. Como Ofélia, ela escolhe seu caminho longe das dificuldades da vida e desiste de sofrer para sofrer, desiste da loucura para loucuras piores, e cai no abismo ou do nada existencial ou da retribuição cristã.

Dostoievsky ilustra algumas ideias importantes quando examina a prostituta nos trabalhos que discutimos. Ele nos mostra que até mesmo os mais baixos dentre os inferiores são amados pelo Pai, e através dos seus sofrimentos ganham mérito. Em segundo lugar, ele nos mostra o fato de que eles também podem se salvar e podem funcionar como instrumentos da graça. Mas, o mais importante, ele nos conta que sem nossa tentativa de transcender nossa natureza pecadora acabaremos decaindo igual o Homem do Subsolo, ou então saltar para nossa morte espiritual e física como a heroína de "A Dócil" fez. Nós todos somos Raskolnikov, todos somos Sônia. A chave é lutar, lutar mais agressivamente e lutar sempre para alcançar a perfeição perdida para nós e inalcançável sem Deus.

Trabalhos citados e consultados:

-Dostoevsky, Fyodor. Crime and Punishment. Trans. Constance Garnett. New York: Bantam, 1981.

-Dostoevsky, Fyodor. The Brothers Karamazov. Trans. Constance Garnett. New York: Signet Classics, 1999.

-Dost. Research Station. Ed. Christiaan Stange. Vers. ? 17 July 1999 - kiosek.com/dostoevsky/quotations.html

-Martinsen, Deborah A., ed. Notes From Underground, The Double, and Other Stories. New York: Barnes and Noble Classics NY, 2003.

Dostoievsky e a "Questão da Mulher"

por Steve Kogan

O problema dos "direitos das mulheres" já era quase centenário quando Nietzsche o cortou rapidamente com uma resposta de cinco palavras: "Feminismo: a feificação (de tornar-se feio, N. do B.) da Europa". Por anos, não pensei nada para equiparar sua picada até que recentemente veio à mente a recordação em The Dostoevsky Archive: Firsthand Accounts of the Novelist from Contemporaries’ Memoirs and Rare Periodicals (1997). A descrição é tomada das memórias de um Príncipe Vladimir Meshchersky (São Petersburgo, 1898), um amigo de Tchaikovsky e neto de Nikolai Karamzin, historiador do século XVIII e XIX, cujos volumes sobre a história russa se tornaram clássicos em seu tempo:

Nas festas que dei, Dostoievsky mostrou-se uma pessoa charmosa. Contava histórias e demonstrou sua inteligência e seu humor, tão bem quanto seu incomum e original modo de pensar. Na medida em que uma nova pessoa entrava na sala, no entanto, Dostoievsky se silenciava por um momento e olhava como um caracol entrando na sua concha, ou como um silencioso e maquiavélico ídolo pagão. E isto durava até que o novato produzia boa impressão para ele... Se o estranho travava conversa com Dostoievsky, poder-se-ia ouvi-lo fazer algumas considerações rudes, ou ver uma expressão azeda no seu rosto. Dostoievsky se opunha à tão chamada "Questão da Mulher". Na época, este movimento tomou a forma de um comportamento excêntrico e uma personificação em algumas mulheres, tal como cortes de cabelos curtos, espetáculos de azul-escuro e outros caprichos. Entre outras coisas, essas mulheres não notavam que Dostoievsky as detestava, e até mesmo elas o veneravam como seu professor.

Muitas vezes, estive presente em tais encontros. Uma mulher contemporânea entrou na sala. Ela não notou a expressão repugnante no rosto de Dostoievsky. Ela não ouviu seu tom frio de voz ou sua expressão formal, "O que você quer?". Esta mulher, cheia de seu enlevo, começou a contar sua história, com os olhos brilhantes e bochechas coradas.

Dostoievsky a ouviu atentamente. Sua expressão se tornou muito nervosa, e eu vi que toda característica de seu rosto se tornou muito tensa, assim que ele queimava por dentro. Senti que ele estava se contendo. Assim que sua mulher terminou seu discurso sobre a Questão da Mulher, ela esperou alguma palavra de apoio de Dostoievsky. Neste ponto, o inimigo resoluto da Questão da Mulher retribuiu a ela sua própria questão. "Terminou?" "Sim, terminei", respondeu a mulher de cabelos curtos.

"Então me escute. Meu discurso será bem mais curto que o seu. Quero contar-te isto: tudo que você contou-me agora foi muito estúpido e banal. Você me entendeu? Foi estúpido. Seria melhor desistir de você, nesse assunto, mas sua família, suas crianças e sua cozinha não podem sobreviver sem uma mulher... uma mulher tem somente um propósito na vida: ser uma esposa e uma mãe... não há, não houve e não haverá nenhum outro 'propósito social' para uma mulher. Isso é tudo estupidez, falação sem-sentido, algazarra. Tudo que você me contou não tem sentido, você me entendeu? É sem-sentido, e não direi mais nada para você."

Esta foi a conversação que testemunhei e de que eu lembro. Ele foi igualmente estrito e descompromissado com relação a todos os modismos, questões liberais e sociais, e ele odiava esses assuntos porque considerava-os falsos.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A Guerra secreta de Dostoiévski


A seguir um capítulo do livro Sekretnaya Agentura, sobre espionagem e subversão, de Eduard Makarevich.




O grande escritor russo Fiódor Mikhailovich Dostoiévski não podia evitar e tentação de uma revolução. Ele já era famoso como autor do conto “Gente Pobre” quando teve um encontro com um certo Mikhail Petrashevski. Os pontos de vista liberais do burocrata do Ministério de Relações Exteriores deixaram uma impressão no jovem Dostoiévski. Ele tinha então apenas 26 anos de idade – uma idade de grandes esperanças e desejos de mudar o mundo. E com tais intenções que o escritor começou a visitar o clube secreto de Petrashevski. Vários tipos de pessoas se reuniram lá: intelectuais não nobres de nascimento, representantes do nacionalismo com visões liberais, oficiais empolgados com ideias socialistas, etc.

Alguém estava expondo sobre o capítulo seguinte dos ensinamentos do socialista utópico francês Charles Fourier quando a polêmica entrou em pleno vapor sobre a essência da questão discutida. Dostoiévski se mostrou um ardente debatedor. Ele rompeu com Petrashevski por pontos de vista sobre patriotismo. Como veemente ocidentalista, Petrashevski rejeitou o sentimento nacional, o qual ele relacionou ao patriotismo. Com algum tipo de entusiasmo precipitado, ele se dirigiu ao encontro com uma e sempre a mesma tese, embora a abordasse de diferentes ângulos. A tese seguia:

Apenas pelo desenvolvimento, que é perder as características individuais, que a nação pode atingir o auge do desenvolvimento cosmopolita. Quanto mais baixo uma pessoa estiver na escala de desenvolvimento moral, político ou religioso, mais nitidamente sua nacionalidade se manifestará.

Dostoievski se opôs e falou severamente: Esse rigor veio de uma fé inteligente e do fato que o brilhante crítico literário Vissarion Belinsky, a quem o jovem escritor respeitava profundamente, manteve as mesmas convicções. Essas objeções eram, por certo, em defesa da nacionalidade:

Há muito temos admirado tudo que é europeu, e só porque é da Europa e não da Rússia. Mas chegou a hora da Rússia se desenvolver por conta própria. Dentro de nós a vida nacional é forte, e somos chamados a falar a nossa palavra ao mundo . Um povo sem nacionalidade é como um homem sem personalidade. A grandeza do poeta e a que ele vem a incorporar a nacionalidade no mais elevado grau.

O frenesi das discussões no círculo de Petrashevski superou qualquer desejo de agir – uma condição típica dos intelectuais. Alguns não foram terrivelmente incomodados por esse desejo, mas Dostoiévski estava atormentado pela inação. Debates não traziam nenhuma paz à sua alma. No momento que essa discórdia espiritual tinha atingido Dostoiévski, um certo Nikolai Speshnev aparece no círculo.

Um proprietário de terras relativamente rico, bem afeiçoado, fanfarrão, romântico e galanteador, Speshnev pertenceu àqueles russos que viam a vida como um campo de batalha. Dostoiévski se deu bem com ele imediatamente, chamando-o de “meu Mefistófeles”.

Speshnev inicialmente atacou Petrashevski através da ideias de espalhao o socialismo, ateísmo e o terror. Para isso a haveria a imprensa clandestina. Ele sem cerimônia deixou de lado a teoria socialista utópica de Fourier e propôs uma orientação para o Manifesto Comunista, que Marx e Engels já tinham escrito naquele tempo. E sua próxima proposta foi excepcional em seu radicalismo extremo. Ele falou, não mais e nem menos, sobre um golpe armado com uma força de ataque de grupos terroristas – “células de cinco”.

Petrashevski entrou em pânico – tais propostas não se encaixam em seu estilo de vida e os objetivos do seu círculo. Foi Dostoiévski que salvou a situação com o programa revolucionário. Sem qualquer qualificação ele disse a Speshnev “Nós não estamos no mesmo caminho como Petrashevski. Nós precisamos de nosso próprio círculo, uma sociedade secreta. Vamos procurar pelos homens certos”.

Depois de um anúncio tão franco, ele fez sua primeira visita ao seu amigo Apollon Maikov, o mesmo poeta que escreveu:

Divinos segredos da harmonia elementar
Não serão descobertos em livros de homens sábios
Por acaso e vagando só pelas margens de águas quietas
Ouça com sua alma o sussurrar dos juncos

Que tipo de conversa ocorreu entre eles iremos transmitir nesta descrição precisa e bem fundamentada de Yuri Seleznev, um dos biógrafos de Dostioévski:

“É claro que você entende,” começou Dostoiévski, “que Petrashevski é um tagarela, um homem frívolo e que nada vem de suas empreitadas. E então algumas pessoas sérias decidiram romper com seu círculo e formar uma sociedade especial, secreta, com uma imprensa secreta para publicar vários livros e até jornais. Há sete de nós: Speshnev, Mordvinov, Mombelli, Pavel Filipov, Grigoriev, Vladimir Miliutin e eu. Nós te escolhemos como o oitavo, quer se juntar à sociedade?

"Mas qual é o objetivo?"

"A Realização de um golpe de Estado na Rússia, é claro..."

"E eu me lembro", Maikov contaria sobre essa noite após vários anos, "Dostoiévski, sentando como um Sócrates prestes a morrer com seus amigos, em um pijama e um colar solto, exercendo toda sua oratória sobre a sacralidade da causa, sobre o nosso dever de salvar a Pátria..."

"Então, sim ou não?" concluiu.

"Não, não e não"

Na manhã seguinte, após o chá, como ele estava partindo:

"Precisa dizer que não haverá uma palavra sobre isso?"

"Claro que não."

Isso não deu certo com Maikov, mas com os outros ele teve sucesso. Com Nikolai Grigoriev, por exemplo. Este cavalheiro se tornou especialmente próximo a Dostoiévski, quase seu braçoi direito na criação da nova sociedade secreta. Como se fosse um chefe de gabinete. Todos os assuntos organizacionais foram discutidos com ele, e havia muito o que discutir. Dostoiévski estava em exultante expectativa. As perspectivas, os objetivos, as atividades - tudo alçava seu espírito.

E então um golpe cruel e preciso caiu sobre ele. No final da noite de 23 de abril de 1849, policiais beteram à porta. Dostoiévski foi preso, e com ele seus colegas do novo círculo. Petrashevsky e seus companheiros de jornadas também foram levados.para o Fontanka 16, o quartel general da Terceira Seção. Lá eles foram recebidos por Leontii Vasilevich Dubelt, então chefe adjunto da Terceira Seção, liderada pelo conde Aleksei Orlov. Dubelt dirigiu toda a operação para esmagar o circulo de Petrashevski.

Os deveres profissionais de Dubelt tratavam primeiramente com investigações e se utilizar de informantes secretos, e ele manejou seus agentes habilmente. Os grupos de Dostoiévski e Petrashevski foram pegos com tanto ânimo e de forma tão completa por causa da infiltração dentro do circulo deste último por um dos melhores agentes da Terceira Seção, Ivan Liprandi. De origem italiana, era oficial de Estado na Rússia e durante a investigação da trama Dezembrista deu informações muito úteis. A essa altura ele foi convidado pela Terceira Seção a se envolver em um trabalho conjunto, ele não hesitou em sua decisão e respondeu de forma afirmativa.
Liprandi acabou por ser um agente competente. E o seu melhor trabalho - o seu melhor resultado - foi obter adesão no círculo de Petrachévski, um feito marcado por discursos notáveis​​, polêmicas gerais e relações confidenciais, tanto com colegas e Petrashevski. E foi ele quem abriu o caminho so clube para outro agente de Dubelt, Antonelli.

Era Antonelli que Liprandi tinha em mente quando tinha pensado em uma forma de desacreditar Petrashevski e colocá-lo na prisão. O plano de Liprandi era bem simples. Antonelli foi para aconselhar Petrashevski a se reunir em segredo com os homens de Shamil, o mesmo Imam Shamil que liderou um movimento rebelde na região do Cáucaso, e contra quem o exército russo estava lutandoSe essa encontro acontecesse, então Petrashevski e seu círculo seriam julgados sob a lei para estabelecer ligação com um inimigo da Rússia. Não se trataria mais apenas uma discussão das teorias de Fourier, com isso seria difícil por alguém na cadeia. A operação estava sendo preparada, e dois circassianos de uma companhia de guarda-costas do Imperador foram escolhidos para o papel de emissários de Shamil. Mas de repente os preparativos pararam.  Tudo cheirava a uma grande provocação, e Dubelt não poderia fazer a sua mente. Além disso, uma outra base para iniciar uma investigação e prisão foi anunciada - a leitura de uma carta proibida de Belinsky para Gogol. Liprandi prontamente entregou esta informação para seu chefe. 

Dubelt usou bem seu agente, definindo tarefas, dando conselhos e resolvendo situações que surgiram. E Liprandi também pôs muito esforço. Seus agradecimentos seria a patente de coronel e trabalhar na equipe da Terceira Seção. Tal promoção de status de agente oficial foi um caso inédito na história dos serviços de segurança. Dubelt o fez responsável pela censura política e agentes nos círculos políticos, tendo em conta a sua propensão para invenções e o seu potencial em se "fantasiar". Liprandi já era conhecido como o autor de tratados históricos interessantes. 

A organização de Petrashevski foi desmantelada pela base. Dubelt atribuiu esta operação grande significado, porque preocupava, antes de mais nada, uma organização da intelligentsia. E os intelectuais, em seu raciocínio, eram pessoas que geraram idéias e de suas fileiras emergiam os mestres do pensamento dos homens. Sob sua influência, o destino da Rússia poderia ser alterado. E aqui temos de compreender quem exatamente Dubelt era. 

Leontii Vasilevich Dubelt foi um esplêndido achado do chefe original do Terceira Seção, Conde Benckendorff. De raciocínio rápido e corajoso, Rotmeister Dubelt tinha adquirido um gosto para o serviço militar a partir dos 15 anos. Ele nunca se curvou às balas, mas, mesmo assim, um dos projéteis malditos conseguiu feri-lo em Borodino. Depois de ter sido notado por sua coragem e capacidade de organização, serviu como um ajudante para o General Dokhturov e, em seguida, o renomado Raevksy. Dubelt lutou nas campanhas russas em toda a Europa e terminou a guerra em Paris. 

Ah, Europa, Europa! Civilização no início do século 19 evocava imagens de estradas, bens de consumo e liberdade. Na Rússia, por sua vez, as sociedades secretas de oficiais estavam se formando, e Leontii Vasilevich estava próximo a eles. Os futuros Dezembrista S. Volkonsky e M. Orlov eram ambos seus amigos, e as idéias de liberdade pareciam indivisível do brilho das ombreiras do coronel arrojado.  

Após a rebelião na Praça do Senado, o comandante do regimento de infantaria Dubelt não foi preso, ele havia se envolvido em conversas sobre a liberdade, mas ele não era um membro de uma organização secreta. No entanto, ele o fez em uma lista de suspeitos e esteve diante de uma comissão de investigação nomeada pelo Imperador. Foi aqui que Benckendorff o viu, sentado naquela comissão - vendo-o e comprometendo-o a memória, o chefe da Terceira Seção ficou satisfeito com o comportamento do coronel. Dubelt evitou um julgamento, mas manteve-se num registo de figuras "incertas". Ele também não estava fazendo a vida mais fácil para os seus próprios superiores, com os quais ele estava em conflito. Em algum momento ele não se conteve e dostensivamente demitiu-se do serviço, o exército não estava perturbado com a partida brilhante do coronel. Nesta hora dramática, Benckendorff convidou Dubelt para trabalhar com ele na Terceira Seção. 

O chefe do movimento do serviço secreto era estranho e inesperado, embora como Dubelt, ele também tinha estado em Paris. Mas ele voltou com diferentes impressões. Como S. Volkonsky disse:
Benckendorff retornou de Paris ... e como um homem influenciável e pensativo, viu o utilidade nos guardas franceses. Ele assumiu que em bases honrosas e optando por homens honestos e brilhantes, a introdução deste ramo de supervisores seria útil para o czar e a pátria, e, portanto, preparou um projeto para a formação dessa diretoria. Ele nos convidou, muitos entre os nossos companheiros, para entrar neste grupo do que ele chamou pensadores benevolentes ... 

E ele convenceu Dubelt a se juntar ao grupo chamado de Terceira Seção. Desde o exército para os policiais, mas de forma honrosa. Tendo concordado, Dubelt iria escrever para sua esposa que ele solicitou a Benckendorff não ter planos para ele se tivesse que assumir deveres ignóbeis. Ele não concordaria em entrar no Corpo de Policiais se ele estivesse "ordena que um homem bom e honrado acharia terrível contemplar." Ainda Benckendorff considerou sinceramente serviço dos policiais uma causa nobre e conseguiu convencer até mesmo quando bastante cansado disso. E assim, o coronel de infantaria tornou-se um coronel policial.

 E que talento foi descoberto no campo das investigações! Dubelt tinha a incrível habilidade de construir uma imagem de um caso a partir de poucos fatos e em seguida dar um prognóstico. De tal manira que ele adivinhou qual teria sido o destino de Pushkin. Dentro do cinco anos Dubelt já era general e chefe de gabinete da Corporação, e mais tarde gerenciando a Terceira Seção. A personalidade dura e direta que havia prejudicado sua carreira nas forças armadas não impediu o seu serviço com Benckendorff, e ele foi estimado não apenas pelo serviço secreto, como também por muito de seus alvos operacionais.

O trabalho de Dubelt era com homens instruídos, no departamendo de Benckendorff ele era considerado o mais esclarecido e letrado, ele mesmo um pouco. Ele trabalhou com editores de jornais densos, com pessoas como Pushkin e Herzen. Eles conheciam seu principal método - convencimento e persuasão. Esse era o estilo de Benckendorff ampliado pela sensibilidade literária de Dubelt, sua tolerância e tato, sua simpatia e empatia. O oficial sentiu que a tragédia daqueles investigados estava "indo na direção errada". Ele sinceramente simpatizava com eles e tentou mudar a direção. Herzen aqui é próximo a Benckendorff quando ele notou que Dubelt era o homem mais esperto da Terceira Seção, e mais esperto que todas as três seções da Chancelaria Imperial juntos.

Os casos Petrashevski e Dostoiévski levaram à prisão 37 pessoas. Os prisioneiros foram tratados com cortesia, e enquanto estavam inegavelmente na cadeia, o regime era ao menos tolerável. Os suspeitos foram acusados principalmente de ler e discutir a carta banida de Belinsky a Gogol, uma que foi escrita em 1847 em conexão com uma publicação do livro de Gogol Correspondência com amigos. Gogol era favorável à ideia de governo monárquico na Rússia e tomou frente como defensor das relações estabelecidas, ele via a Igreja como aliada do Czar em cultivar dentro do povo russo o espírito de lealdade ao regime. Belinsky o denunciava passional e raivosamente: A Rússia, dizia, era um país onde "pessoas negociam pessoas", onde não havia "garantia para os indivíduos", mas apenas grandes organizações de vários ladrões estatais e bandidos". E a Igreja era "sempre o suporte para o chicote e um lacaio do despotismo", enquanto a chamada profunda religiosidade do povo russo era mais um mito do que a realidade.

O prório Dubelt conduziu o interrogatório, e mesmo assim, por vezes era manos interrogarótio que discussão e argumentos sobre pontos de visão de mundo. Dubelt falou como um oponente e mentor, razoavelmente e convincente. E como isso aconteceu, isto se tornou longe de ser inútil. Ele tinha o dom do raciocício, que era uma qualidade inestimável para um oficial da política policial. Quando estava lá, o efeito pode ser surpreendente - como no caso de Dostoiévski, sobre o qual a profundidade dos julgamentos de Dubelt deixaram uma grande impressão.

Em forma de tese, os julgamentos ocorreram conforme o seguinte:

1 - A vida deve ser da fato justa e imparcial. mas isso é impossível enquanto as pessoas não forem esclarecidas e educadas. E se as pessoas forem esclarecidas e lhes for dado educação esntão um senso de honra e dignidade será cultivado nelas, então ninguém pegaria uma besta, mas "meio homem" e o tornario um homem pleno. Apenas após isso pode ser dada a liberdade. Educação e formação são os precursores da liberdade.

2 - Em relação à liberdade a questão tem dois lados: Irá um camponês esclarecido arar o solo, ou ele partiu para procurar a "verdade"?

3 - Seus debates sobre a carte levou à conspiração, e a conspiração é o caminho para desordem e caos. Mas desejar o caos não é uma qualidade de homens inteligentes.

4 - O principal dever de um homem inteligente e honrado é acima de tudo amar a sua pátria, e isso significa servir fielmente seu Czar.

5 - Pessoas totalmente absorvidas com o secular, preocupações terrenas, nunca compreenderão o significado da vida e não percebem nenhuma mensagem direcionada às suas almas pelo Altíssimo, essa é a tragédia daqueles que perderam seu caminho.

E mais um motivo de Dubelt, a sexta das teses emitidas. O que é a Rússia sem o Czar, sem a Ortodoxia? Nada! Revoluções, golpes de Estado - tudo isso vem da Europa. Nós temos o nosso caminho, o caminho da Rússia.

Leontii Vasilevich era obviamente inclinado à eslavofilia, e por vezes falava como Gogol. Com isso, ele foi capaz de convencer Dostoiévski, que guardou suas conclusões ao coração. Os argumentos não foram rejeitados, mesmo que viessem de um genereal da polícia. Dostoiévski faria sua mensagem à comissão investigativa sob influência de Dubelt. Ele disse que leu a carta de Belinsky, mas poderia o homem que informou sobre ele dizer a qual dos dois, Belinsky ou Gogol, ele foi mais parcial? O escritor também fez saber que foi sempre a pátria e as mudanças progressivas para mudar a vida, e que isso deve emanar de uma autoridade sem nenhuma revolução ou convulção.

Dostoiévski tinha apenas assimilado o conteúdo de suas discussões com Dubelt, integrado sua nova posição de pensamento e elaborado isso à comissão investigativa quando um novo golpe foi tratado - a decisão da corte.

A corte militar considera o réu Dostoiévski culpado de ter recebido uma cópia da carta criminal de Belinsky e lido essa carta em encontros. Dostoiévski estava como réu durante a leitura de Speshnev da obra inflamatória do tentente Grogoriev sob o título "Uma discussão de soldado". E então a corte militar sentenciou o tenente engenheiro reservista Dostoiévski por não informar as autoridades para ser privado de todas as posições e direitos de propriedade e ser sujeito a pena de porte por pelotão de fuzilamento.

Para Dostoiévski a sentença foi um choque, o mundo tinha acabado e se tornado obscuro. E foi assim por 36 dias até que a sentença fosse cumprida.

E então aconteceu um milagre. Nicolau I emitiu um veredito final: "quatro anos de trabalho pesado e então serviço o exército como soldado raso". Junto com uma observasão pedantemente astuta: "Anunciar anistia somente somente saquele minuto em que tudo estiver preparado para a execução". Assim foi feito, e mais uma vez um golpe tremendo. Apesar de ser 22 de dezembro de 1849, sete da manhã com escuridão e gelo cobrindo a praça Semenovsky, para Dostoiévski o mundo ressucitou e começou a respirar em novas cores e sons. 

Após um após o outro, estes choques nervosos criados como tensão emocional que todas as exortações de Dubelt foram gravadas em sua memória, e elas não deixaram Dostoiévski até o fim de seus dias criativos. Ou seja, sob a influência de Dubelt, e sob a impressão produzida por debates com ele, Dostoiévski após seu retorno de trabalhos forçados na Sibéria havia se tornado um ortodoxo monarquista convicto e um opositor consciente da revolução e todos os seus contágios.

Se lermos nas entrelinhas nas seguintes obras, cartas e notas do diário de Dostoiévski e olhar para as suas iniciativas no âmbito social, podemos detectar a sombra de Dubelt. Julgue por si mesmo. Em uma carta para o mesmo Maikov, algum tempo depois de 1859, Dostoiévski escreve:

Eu li a sua carta e não entendi o ponto principal. Estou falando de patriotismo, com a idéia da Rússia, sobre um senso de dever, honra nacional, sobre tudo o que você fala com tal êxtase. Mas meu amigo! Alguma vez estiveste em outra mente? Eu sempre compartilhei esses sentimentos e convicções. Rússia, dever, honra - sim! Eu sempre fui verdadeiramente russo - Falo-vos francamente ... Sim! Quero compartilho contigo a idéia de que a Europa e seu objetivo será concluída pela Rússia. Para mim, isso tem sido claro ...

Quase se espera por Dostoiévski terminar sua declaração solene a Maikov com a frase de Dubels: "Nós temos o nosso caminho, o caminho russo".

Quando dostoiévski estava cumprindo a determinação, realizando serviços como oficial subalterno no comando de um pelotão, à noite ele iria escrever seu conto "A vila de Stepanshikovo". Foi difícil de escrever e mais ainda de encontrar leitores. Na revista Russky Vestnik, editada por Mikhail Nikiforovich Katkov, todos estavam em dúvida: eles precisavam imprimir isso? Sovremennik o pegou, mas Nikolai Alekseevich Nekrasov, o principal editor, também não pode decidir. Sua recusa, é verdade, ele velou com referência à taxa irrisória que estava disponível a ser paga caso a obra fosse realmente impressa. Dostoiévski rejeitou com honra, e finalmente Andrei Aleksandrovich Kraevsky concordou em publicar a história em Notas Pátrias por uma taxa de 120 rublos por edição impressa.

O que era tão terrível que causou a reação nos editores mencionados acima de serem tomados por um sentimento de perigo, com até mesmo Nekrasov disendo "Dostoiévski passou do seu auge, ele não escreve mais nada importante"? Foi o personagem terrível e ridículo que Dostoiévski trouxe ma pessoa de Foma Fomich Opiskin, um ditafor ideologico local. Opiskin era um falso profeta possuido por um fetiche de mundança social, se apegando às ideias de liberdade incondicional, juntamente com o patriotismo, e começou a esclarecer os moradores locais. Ele ensinou liberdade e patriotismo enquanto odiava a Rússia, e ele ensinou a fim de satisfazer a propria vaidade política, seu poder sobre outras almas, que por sua vez foram enganadas e debochadas pelas frases liberais e patrióticas. As pessoas, hipnotizadas por tal imprudência "acadêmica", continuaram engolindo o veneno, aceitando o pregador como genuíno mestre. 

Quando Dostoiévski estava escrevendo "A Vila de Stepantchikovo", palavras de Dubelt permaneceram com ele: "Será um camponês esclarecido arar a terra? Ele não vai se tornar escravo de uma idéia prejudicial, ele vai partir em busca da "verdade?" Pode-se ler como a história é uma ilustração das palavras de um general da Terceira Seção. É por isso que o trabalho intimidava os editores esclarecidos dos principais jornais literários da Rússia?  

Dostoiévski continuou seu diálogo com eles, quando ele estava escrevendo o texto para anunciar o lançamento do jornal Vremya. A idéia básica da revista foi a afirmação na consciência social de um novo caminho de desenvolvimento do Estado fundado na resolução da questão do campesinato - a abolição da servidão. Dostoiévski considerou tal decisão uma revolução social de enorme significado. Portanto na abordagem assinantes, ele não esquece de enfatizar: " Esta revolução é a fusão da educação e seus representantes com o seio do povo e da comunhão de todo o grande povo russo com todos os elementos de nossa vida atual".
 
E Dubelt se pronunciou sobre o mesmo. Afinal, dez anos antes, ele havia sugerido a Dostoiévski:

A vida deve ser da fato justa e imparcial. mas isso é impossível enquanto as pessoas não forem esclarecidas e educadas. E se as pessoas forem esclarecidas e lhes for dado educação esntão um senso de honra e dignidade será cultivado nelas, então ninguém pegaria uma besta, mas "meio homem" e o tornario um homem pleno. Apenas após isso pode ser dada a liberdade. Educação e formação são os precursores da liberdade.

E novamente de Dubelt, um credo familiar: "Nós temos nosso próprio caminho, o caminho da Rússia" Dostoiévski aparentemente desenvolve isso: "Sabemos agora que... que não estamos em condições de nos jogar em uma das formas sociais ocidentais vividas e produzidos a partir de seus próprios princípios ... Nós finalmente nos convencemos de que também somos uma nacionalidade separada, em um grau mais elevado e único, e que a nossa tarefa é criar para nós uma nova forma, a nossa própria forma nativa retirada de nosso solo, a partir do espírito popular e elementos populares... " e acrescenta quase como encantado: "Aqui, o primeiro e principal passo é a expansão reforçada da educação ". 

Na primavera de 1870, Dostoiévski, vivendo naquele tempo com a sua família na Itália, leu em um jornal local um artigo de Moscou: "Na Academia Petropavlovskaya no bairro Razumovsky, um estudante com o nome de Ivanov foi encontrado assassinado. Os detalhes do crime são terríveis. Suas pernas estavam envoltas em uma capa carregado com tijolos... Ele era bolsista na Academia e dava a maior parte do dinheiro para sua mãe e irmã". Então outros detalhes apareceram;. Descobriu-se que o estudante Sergei Nechaiev fundara uma organização terrorista em Moscou a chamou "o Comitê de represália do Povo", cujo emblema era um machado. 

Começando, Nechaiev decidiu organizar células terroristas de cinco; estes compunham O Comitê de represália do Povo. Estes homens que se vinculados a uma célula renunciaram sua humanidade e fizeram um voto de servir a causa da destruição terrível e cruel. Este Comitê fazia os preparativos para uma revolução política, tendo inicialmente organizado a fúria das massas. Mas o estudante Ivanov, um membro do Comitê falou contra esse plano e se envolveu em uma longa e feroz discussão com Nechaiev sobre o assunto. O debate terminou mal: Ivanov foi "condenado" por decisão secreta, ou seja, assassinado, e seu corpo jogado em um buraco no gelo, suas pernas foram carregadas de tijolos.

Essa é toda a história, mas isso chocou Dostoiévski. Era como se tudo o que tivesse retornado a círculo completo de vinte e poucos anos atrás. A figura de Speshnev à tona, juntamente com o seu programa de conspirações para um golpe armado, onde a força de ataque seria essas mesmas células de cinco. 

Spechniev foi um precursor para Nietcháiev. Onde estaria o destino do próprio Dostoiévski se os agentes de Dubelt não tivessem parado a corrida desenfreada ao terror político? Dostoiévski admite: "Eu provavelmente não poderia ter sido um Niechaiev mas um Nechaievita, não podemos garantir, talvez, eu poderia ter sido... nos dias de minha juventude."

As reflexões de Dostoiévski sobre a terrível história do estudante Ivanov, sobre Speshnev, sobre si mesmo, e novamente sobre Dubelt, precedeu a resseção da vontade de falar, e de uma certa medida de se arrepender, perante o mundo. A princípio, ele pensou em um panfleto político, mas quanto mais ele ponderou, mais clara a sua ideia para um romance se tornou. Um romance como um ato de arrependimento, um romance e um aviso, um romance sobre o seu destino, graças a Deus, isso nunca aconteceu.

Ele entitulou a história de "Demônios", e os principais atores, todos esses demônios, são em grande parte baseados em pessoas reais. O assassino Nechaiev virou Pyotr Verkhovensky, enquanto o assassinado estudante Ivanov, tendo em vista que se opôs ao plano de Nachaiev, ficou com o plano de Shatov. Shatov procura por um novo significado, mas ele cambaleia em suas conclusões intelectuais. Também havia o ancião Verkhovensky, o pai de Pyotr, cujo personagem é destinado a expor as diferentes interpretações de pais e filhos sobre o problema do niilismo contemporâneo, a partir do qual somente pode vir o mal. É uma continuação das idéias de Ivan Sergeievich Turgenev, cujo "Pais e filhos" se tornou para a Rússia um romance e um aviso sobre o terrível poder do niilismo. Não foi em vão que a Terceira Seção manifestou sua gratidão para com Turgenev por revelar a desinteressante figura do niilista revolucionário Bazarov.

Do problema do niilismo, Dostoiévski foi mais longe com a ideia de demonismo, a ideia da total destruição e desintegração, mas sob a máscara de luta para o homem, por justiça e pela vinda de um mundo melhor. As dissimuladas ideias de demonismo em ultima instância trituram o homem em pó e resultam em derramamento de sangue. É isso que Dostoiévski procurou expressar em sua obra.

Mas quem em "Demônios" é o heroi, portador do ideal demoníaco? Stavrogin - assim Dostoiévski nomeou seu idealista. Stavrogin é o personagem principal, em torno do qual gira o vórtice do diabolismo. Descobrindo a essência de Stavrogin e sua linha de pensamento, Dostoiévski exorciza de si mesmo o jovem que estava pronto a seguir Speshnev vinte anos atrás.

E no fimdas contas esse drama demoníaco é... o sabão que Nikolai Vsevolodovich Stavrogin passou na corda em que ele mesmo se enforcou. Foi esse romance, embora escrito de forma voluntária, talvez um produto de uma ordem implícita da Terceira Seção? Eles aprovaram o "Pais e filhos" de Turgenev afinal de contas. Dubelt deveria estar satisfeito, a prevenção do demonismo correspondeu a seus pontos de vista bem como os objetivos gerais do serviço secreto.

"Demônios" é o epitáfio de Dubelt, um romance para a glória da Terceira Seção.

Via The Soul of The East

Tradução por Conan Hades