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sábado, 29 de junho de 2019

Fusaro: 'Tontos de esquerda combatem fascismo inexistente e apoiam o mercado'


Diego Fusaro é um dos intelectuais mais polêmicos da Itália, uma vez que ocupa uma posição ideológica que aglutina posições conservadoras e de esquerda. É marxista e suas referências são Gramsci, Pasolini e Costanzo Preve, ao mesmo tempo que é antiglobalista e soberanista, e isso o levou a sustentar posições com as quais muitos salvinistas não estão em desacordo. Vários livros seus foram editados na Espanha, tanto por editoras ligadas à esquerda, como 'Antonio Gramsci, la pasión de estar en el mundo' (Ed. Siglo XXI) ou 'Todavía Marx' (Ed. El Viejo Topo), ou à direita, como o recém publicado 'El contragolpe' (Ed. Fides). O pensamento de Fusaro é um tanto heterodoxo, que está destinado a receber críticas de um lado e de outro, e em não poucas ocasiões foi tachado de vermelho e de fascista, como também se fez com quem o entrevistou, que acusam de branqueamento. Mas aqui assumimos com gosto este risco, porque as ideias do filósofo na moda na política italiana também merecem ser conhecidas.

PERGUNTA. Acaba de publicar 'La notte del mondo'. Explica-me, por favor, por que estamos em uma noite escura, em que ponto se cruzam Marx e Heidegger.

RESPOSTA. Meu livro 'La notte del mondo. Marx, Heidegger e il tecnocapitalismo' (UTET, 2019) é uma tentativa de raciocinar segundo as categorias de Marx e Heidegger sobre o que o próprio Heidegger, com os versos de Hölderlin, define "A noite do mundo". A noite do mundo é uma época na qual a escuridão está tão presente que já não vemos mais sequer a escuridão em si e, portanto, não somos conscientes desta escuridão. Heidegger o expressa dizendo que "é a noite da fuga dos deuses", na qual já nem sequer somos conscientes da pobreza e da miséria nas quais nos encontramos. Esta é uma situação de máxima emergência. Por sua vez, Marx nos 'Grundrisse' dizia que "o mundo moderno deixa insatisfeito, ou, se satisfaz em algo, é de modo trivial". É outra maneira de dizer que estamos efetivamente na noite do mundo, onde sequer vemos o enorme problema em que nos encontramos. No livro eu emprego as categorias de dois autores muito diferentes, como Marx e Heidegger, para tratar de expressar quais são as contradições de nosso presente em que todo o mundo calcula e ninguém pensa. No qual a razão econômica e técnica, técnico-científica, se impôs como a única razão válida e pretende substituir todas as demais.

P. Insiste que o eixo político não deve ser esquerda e direita, mas os de cima e os de baixo. E que ideologicamente devemos ser conservadores nos valores (enraizamento, lealdade, família, eticidade, pátria) e de esquerda [na economia] (emancipação, socialismo democrático, dignidade do trabalho). Essa é a forma de ser marxista hoje?

R. Sim, creio que a geografia da política atual mudou profundamente. Hoje há uma espécie de totalitarismo liberal que nos permite ser liberais de direita, liberais de esquerda, liberais de centro, sempre e quando formos liberais, sempre, portanto, esquerda e direita se convertem em duas formas diferentes de ser liberais ou, precisamente, em liberalismo político e econômico, em prática libertária nos costumes e, claro, em atlantista na esfera geopolítica. Creio que hoje devemos repensar uma recategorização da realidade política de acordo com a dicotomia alto/baixo ou a categoria elite/povo, que às vezes se utiliza como sinônimo. Isso implica que se a elite, o senhor globalista, é precisamente cosmopolita, a favor da abertura ilimitada da livre circulação, o servo, pelo contrário, deve lutar pela soberania nacional-popular como base da democracia dos direitos sociais. Hoje é necessário restabelecer o vínculo entre o Estado nacional e a revolução socialista. Este é o ponto fundamental.

P. Qual vai ser o futuro da UE? Romper-se-á? Quais opções se abririam? Acredita ser possível uma aliança dos países do norte, como Alemanha, Países Baixos, Suécia e outros e outra [aliança] dos países do sul? Como recompor-se-á a ordem internacional se a UE se tornar ainda mais fraca ou se vier a se romper?

R. Devemos ser muito claros ao dar uma definição da União Europeia. A União Europeia é a união das classes dominantes europeias contra as classes trabalhadoras e os povos da Europa. É a vitória pós-1989 de um capitalismo que se realiza completamente, dissolvendo os últimos bastiões de resistência: os Estados soberanos nacionais com o primado do político e da democracia sobre o automatismo total do tecnocapitalismo. Esta é a União Europeia. Um processo de globalização, de despolitização da economia e da imposição do interesse do capital cosmopolita contra os interesses das comunidades nacionais. Por isso, a luta contra o capitalismo em nosso continente hoje não pode deixar de ser uma luta contra a União Europeia. A tragédia é que a esquerda abandonou esta luta, na medida em que passou do internacionalismo proletário ao cosmopolitismo liberal e, portanto, deixa a luta contra a União Europeia, contra a globalização capitalista, para as forças que, muito frequentemente, não querem a emancipação humana nem a solidariedade dos trabalhadores, tratam simplesmente de reagir, olhando para um passado que já não existe.

P. Como deveriam atuar os países da Europa diante dos EUA e da China?

R. Creio que a Europa pode se salvar apenas se recuperar, por um lado, suas próprias identidades culturais e sua pluralidade estrutural e, por outro lado, se se libertar da ditadura chamada União Europeia, que é a ditadura do capital, dos mercados contra os trabalhadores e os povos, e se se libertar do jugo mortal do atlantismo de Washington. Temos que apontar para um eixo eurasiático que vá desde a Rússia de Putin até a China em função antiatlantista. Devemos nos libertar disso e mudar nosso ponto de vista.

P. Insiste que deve-se combater o globalismo, mas tampouco deve-se apoiar o nacionalismo. Qual é a opção?

R. Creio que hoje devemos ir mais além do globalismo e do nacionalismo. Afinal de contas, o globalismo não é mais que o nacionalismo estadunidense que se tornou mundo e, portanto, é uma forma de nacionalismo levado a seu máximo desenvolvimento. Creio que é necessário fazer valer, contra estes dois opostos, um modelo de internacionalismo entre Estados soberanos solidários, baseados na democracia, no socialismo e nos direitos das classes mais frágeis e, em consequências, em uma espécie de soberania internacionalista, democrática e socialista, distanciada tanto do cosmopolitismo que destrói as nações, quanto do nacionalismo que é um egoísmo pensado a nível da própria nação individual.

P. O Estado é o primado do político sobre o econômico. Por isso o mundo global quer acabar com os Estados?

R. Os Estados nacionais soberanos, na modernidade, não apenas foram os lugares do imperialismo, do nacionalismo e das guerras, como repete a ordem do discurso dominante, que quer destruir os Estados para impor o primado do capital globalista, onde os Estados se converteriam unicamente nos mordomos do capital. Esta é a visão liberal do Estado. Na verdade, os Estados nacionais soberanos também foram lugares das democracias e das conquistas salariais das classes fracas. E por essa razão que hoje o capital quer destruí-los, certamente não para evitar as guerras ou o imperialismo que, de fato, prosperam mais que nunca no marco pós-nacional. Hoje o Estado pode representar o único vetor de uma revolução opositora contra o capital mundialista, tal como demonstram perfeitamente os acontecimentos dos países bolivarianos, como Bolívia, Venezuela ou Equador que, apesar de seus limites estruturais, estão criando formas de populismo soberanista, socialista, patriótico, anti-globalista e identitário [identitário: de identidade étnica].

P. Por ideias como estas você foi chamado de fascista. Suas posturas políticas assustam mais a esquerda que a direita. Por quê? Nessa demonização, que papel desempenham os meios de comunicação e a Academia?

R. Claro, hoje em dia a categoria de 'fascismo' é usada de maneira completamente a-histórica e descontextualizada, para demonizar simplesmente ao interlocutor. Hoje quem reafirma a necessidade de controlar politicamente a economia e, portanto, reintroduzir a soberania contra a abertura cosmopolita, é vilipendiado e tachado imediatamente de 'fascista', 'vermelho-pardo' e 'estalinista'. A categoria de fascismo está, pois, completamente a-historizada, apenas serve para ocultar o verdadeiro rosto do que Pasolini já havia identificado como o verdadeiro fascismo de hoje: o da sociedade de mercado, o totalitarismo dos mercados e das bolsas de valores especulativas. Este é o verdadeiro rosto do poder hoje em dia, e muitos tontos que se intitulam de 'esquerda' lutam contra o fascismo, que já não existe, para aceitar completamente o totalitarismo do mercado. Estes últimos são os que lutam na França contra Le Pen para aceitar de bom grado Macron. Lutam contra um fascismo que já não existe para poder aceitar a nova porrada invisível da economia de mercado. E, claro, a classe intelectual, o circo midiático e o clero intelectual desempenham um papel fundamental neste processo; a tarefa da classe intelectual, acadêmica e periodística é garantir que os dominados aceitem o domínio da classe dominante ao invés de se rebelar. De modo que, como na caverna de Platão, amem suas próprias correntes e lutem contra qualquer libertador.

P. Insistiu que com uma mão nos dão direitos civis e com a outra nos cortam direitos sociais. Nisto consistem as chamadas políticas da diversidade?

R. Os chamados 'direitos civis' [LGBT, feminismo e afins] são hoje em dia, na verdade, nem mais nem menos que os direitos do 'burguês', que Marx havia descrito em 'A questão judaica'. Em outras palavras, são os direitos do consumidor, como diríamos hoje, os direitos do indivíduo que quer todos os direitos individuais que pode comprar concretamente. Estou pensando nos ventres de aluguel, por exemplo, na custódia das crianças segundo a lógica de custo do consumidor. Pois bem, hoje estamos assistindo a um processo mediante o qual o capital nos corta os direitos sociais, que são direitos vinculados ao trabalho, à vida comunitária da pólis; anula estes direitos e, em troca, aumenta os direitos do consumidor, sempre vinculados a um consumo que se leva a cabo de maneira individual, sem questionar nunca a ordem da produção e o fato de que, realmente, terminam fortalecendo o sistema capitalista ao invés de debilitá-lo.

Além disso, criam uma espécie de microconflitualidade generalizada que atua como uma arma de distração massiva e, também poderíamos dizer, como uma arma de divisão massiva permanente. Por um lado, distrai da contradição capitalista que já nem sequer se menciona, e, por outro lado, por assim dizer, divide as massas em homossexuais e heterossexuais, muçulmanos e cristãos, veganos e carnívoros, fascistas e antifascistas, etc. E enquanto isso ocorre de maneira natural, o capital deixa que as pessoas saiam às ruas pelo orgulho gay, pelos animais e por tudo, mas que não se atrevam a fechar as ruas para lutar contra a escravidão dos salários, contra a precariedade ou contra a economia capitalista? De ser assim, aí está a repressão, como aconteceu na França com os Coletes Amarelos.

P. Salienta que os laços estáveis, representados no matrimônio, se converteram hoje em revolucionários. Por quê? Como mudaram as coisas para que algo radicalmente frequente na História se converta hoje em revolucionário? Em que consiste o consumismo erótico?

R. O capitalismo atual é flexível e precarizador. Desagrega toda a comunidade humana e quer ver em todas as partes o indivíduo sem identidade e sem vínculos, o consumir que trava relações descartáveis baseadas no consumo. Por isso, o capitalismo hoje declarou a guerra ao que eu, em meu livro 'Storia e coscienza del precariato. Servi e signori della globalizzazione' (Bompiani, 2018) chamo de raízes éticas em sentido hegeliano; quer dizer, aquelas formas comunitárias de solidariedade que vão desde a família até os organismos públicos como os sindicatos, a escola, a universidade, até se completar no Estado. Tem como objetivo rompê-las para reduzir o mundo a um mercado único, como disse Alain de Benoist: a sociedade se converte em um único mercado global. Esta é a razão pela qual hoje em dia a reetização da sociedade, quer dizer, a revalorização das raízes éticas em sentido hegeliano é um gesto revolucionário.

P. Afirma que deve-se recuperar Gramsci e distanciá-lo das esquerdas liberal-libertárias que hoje dominam e que são quem mais o utilizaram ultimamente e que encarnam exatamente o que Gramsci combateu. Definiria também, por ir ao caso espanhol, a Pablo Iglesias, ou Íñigo Errejón, e a Podemos em geral, como um fenômeno cultural de glorificação do capitalismo globalizado?

R. Sim, no essencial, Gramsci é todo o oposto do que está fazendo a esquerda na Itália e em grande parte da Europa, as esquerdas já não são vermelhas, mas fúcsias, já não são a foice e o martelo, mas o arco-íris. Lutam pelo capital e não pelo trabalho, lutam pelo cosmopolitismo liberal e não pelo internacionalismo das classes trabalhadoras. O caso específico de Podemos em Espanha me parece bastante interessante, porque começou como força soberanista e socialista, mais além da direita e da esquerda, mas me parece que ultimamente está entrando cada vez mais no fronte único do partido único do capital, e é realmente uma lástima porque o partido Podemos originalmente parecia ser um partido de ruptura.

P. Que papel deve desempenhar o intelectual neste cenário?

R. Na minha opinião, o intelectual de hoje deve restabelecer o que Gramsci chamada de 'conexão sentimental com o povo-nação', quer dizer, deve voltar a conectar o povo à política, à intelectualidade mesma, para que o povo saia da passividade e se transforme em subjetividade ativa, como já está acontecendo, na medida em que o povo está se rebelando contra a elite cosmopolita. Isso ele faz votando por Brexit, votando por Trump, votando na Itália contra o referendo constitucional, na Grécia pelo referendo contra a austeridade da União Europeia. Mas o povo, disse Gramsci, deve ser 'interpretado', necessita de uma filologia viva, o povo é um texto que deve ser interpretado e não dirigido de maneira unívoca. Deve-se escutar suas necessidades, suas exigências, o que a esquerda hoje não está fazendo; a esquerda é demofóbica, quer dizer, odeia o povo, odeia o povo porque o povo lhe escapa das mãos, já não se sente representado por uma esquerda amiga do capital e dos senhores, ao invés dos trabalhadores e do povo.

P. Propõe recuperar a utilização do italiano frente ao inglês, e além disso de um italiano bem falado ou escrito. Entende isso como uma batalha cultural imprescindível. Por quê?

R. Sim, eu proponho, contra a neolíngua dos mercados que fala o inglês do 'spread',  do 'spending review', da 'austerity' e da 'governance', uma veterolíngua baseada na recuperação do italiano com toda sua riqueza, o italiano de Dante e de Maquiavel. É uma batalha cultural de resistência á globalização e a este 'genocídio cultural', como chamada Pasolini, que a globalização está levando a cabo ao destruir as culturas em nome do único modelo permitido: o consumidor de mercadorias, apátrida, pós-identitário, que fala o inglês anônimo dos mercados financeiros apátridas.

Tradução: Álvaro Hauschild

via Elconfidencial

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Crises: as explanações convencionais e a marxista

 por Valentin Katasonov

Não muitas pessoas corretamente desvendam sinais enviados de cima chamados "crises". Essas crises econômicas pelos dois últimos séculos já surpreendente e periodicamente têm atormentado a humanidade. Algumas pessoas consideram-nas como uma variedade dos desastres naturais como secas e tsunamis. Ao mesmo tempo, as pessoas frequentemente se negam a ver as razões humanas por trás das crises - razões condicionadas, acima de tudo, pela mudança de consciência do homem, e então por suas ações e por seu comportamento.

A doutrina de William Jevons, economista inglês, estatístico e filósofo (1836-1882), é considerada um exemplo de uma abordagem natural e física à explanação das crises periódicas. De acordo com sua opinião, o fator do desenvolvimento cíclico é um processo conectado ao movimento de manchas sobre o sol (que, por sua vez, influencia a condição da agricultura, e assim o cientistas arranjou uma corrente de causas e efeitos que explicam as mudanças de todos os aspectos da vida em sociedade).

Aliás, Alexander Chizhevsky (1897-1964), nosso cientista doméstico, é muito mais conhecido na Rússia como um dos representantes dessa abordagem. Ademais, ele não foi um economista, mas um bio-físico. De acordo com Chizhevsky, a atividade solar tem uma amplitude definida de oscilações que se encontram nos 11 anos de amplitude de oscilações da indústria.

A abordagem subjetiva-psicológica não é menos popular durante os dois últimos séculos. O ponto é que o fator de todas as mudanças na economia são as mudanças no humor do homem (otimismo, desânimo, desapontamento, pânico, etc.).

Por exemplo, Arthur Pigu (1877-1959), economista inglês, acreditou que a crise foi causada por acumulação de "erros de otimismo". Pigu explicou essas ideias em 1929 em seu trabalho Flutuações Industriais.

John Keynes (1883-1946), um conhecido economista inglês, também viu uma repetição do desenvolvimento da economia nas mudanças dos humores psicológicos das pessoas e usou tais conceitos que pouco tem que ver com as ideias exatas da ciência, como "inclinação para salvamentos", "inclinação para investimentos", etc. "O Psicologismo" de Keynes é revisado em sua obra-prima Teoria Geral da Apreensão, do Interesse e do Dinheiro.

As razões da ordem demográfica são frequentemente tomadas como razões da crise de superprodução. A lógica do raciocínio dos "deterministas demográficos" é assim: a produção de bens (serviço) cresce até a saturação da demanda no mercado dos tais bens (serviço). A capacitação do mercado, de acordo com eles, é especificada, antes de tudo, pela população do país. No entanto, as dadas razões não explicam coisa alguma. Primeiro, porque pode ajudar a explicar apenas a interrupção do crescimento de produção, mas não sua queda e progresso cíclico. Em segundo lugar, porque não está nada claro o porquê precisamos de crescimento permanente da economia se todas as necessidades da sociedade por bens e serviços é satisfeita. Basicamente, a produção deveria crescer na economia com a demanda saturada, mas deveria encontrar crescimento demográfico e nada mais.

A análise de tendências do crescimento econômico e dos processos demográficos demonstra que os ritmos do incremento de renda bruta para o século XX como um todo sobre o mundo são orientados por uma lei além e maior do que o nível de aumento populacional. Isso prova apenas que a dinâmica econômica (ao menos na economia moderna) não é determinada pela demografia. Um tal rápido desenvolvimento da economia no século XX difere de uma sociedade medieval, onde a demografia e a economia tiveram trajetórias muito similares.

Provavelmente, é possível e necessário estudar as ligações entre a dinâmica da economia e as tendências demográficas, mas você deve entender que a) a dinâmica econômica e das tendências demográficas podem ter ainda direções distintas (por exemplo, a recessão econômica pode ocorrer em condições de rápido crescimento da população); b) na ligação "economia-demografia" o ciclo de negócios é primário, e os processos demográficos são secundários, a dinâmica da economia é derivativa (mas não o contrário). Particularmente, a recessão da economia causa processos demográficos desfavoráveis; a expansão da economia melhora os processos demográficos.

Em uma palavra, explicando o ciclo da economia pelas mudanças na demografia, os "deterministas demográficos" confundem causa e efeito.

Um grande grupo de economistas consideram as crises um inadvertido "pagamento" pela engenharia e pelo progresso econômico da humanidade. A ciclicidade é posta no desenvolvimento da ciência, da engenharia, das forças produtivas. É a abordagem tecnocrata.

As ideias tecnocráticas sobre a natureza das crises prevalece entre os economistas modernos. Por exemplo, a teoria do "desenvolvimento de onda da economia" de Nikolai Kondratiev (1892-1938), nosso economista doméstico, é muito popular. As chamadas "longas ondas de Kondratiev" são explicadas por um certo mecanismo misterioso de desenvolvimento da ciência e da tecnologia: periodicamente (uma vez a cada 50-60 anos) há descobertas causando mudanças revolucionárias na engenharia e em todas as forças produtivas da sociedade. No entanto, as ideias similares foram populares no século XIX quando o Ocidente enfrentou a primeira crise de superprodução. Aqui podemos nos lembrar da teoria do "desenvolvimento cíclico da economia" de Karl Marx (1818-1883); as gerações velhas e adultas se lembram dessa teoria muito bem devido aos livros de economia política capitalista. O comprimento dos ciclos de Marx é muito menor que o comprimento dos ciclos de Kondratiev.

No Ocidente, os trabalhos de Josef Shumpeter (1883-1950), economista austríaco, são ampplamente conhecidos entre os trabalhos sobre explanação do desenvolvimento cíclico da economia. Antes de tudo, é seu trabalho publicado em Business Cycles, 1939.

Todas as teorias tecnocratas, apesar da diferença na linguagem utilizada, a estimativa do comprimento do ciclo, entre as fases do ciclo e algumas outras partes têm semelhança no geral. Seus autores tomam como as razões do desenvolvimento cíclico da economia (e de acordo com isso a periodicidade das crises) os "avanços tecnológicos", mais estritamente a ciclicidade dos processos de deslocamento dos fundos financeiros com uma nova base de engenharia. Por diferentes variações os autores de teorias similares demarcam as seguintes fases do ciclo:

1) explosão da produção baseada em novas tecnologias e larga escala de investimentos em indústrias "locomotivas";
2) expansão do mercado e elevação da demanda efetiva em todas as indústrias (as fontes de dinheiro originadas nas indústrias "locomotivas" espalhadas em toda a economia);
3) O multiplicativo aumento em todas as indústrias das despesas da crescente demanda efetiva agregada;
4) a exaustão do efeito multiplicativo e decréscimo da produção (crise de superpopulação, recessão) com todas as consequências (dificuldade em vendas de produtos, quebra de negócios, redundância, desmoronamento de preços para os bens e ativos etc.).

Os "tecnocratas" como Kondratiev têm pouca consideração em aspectos antropológicos, sociais e políticos da atividade econômica, e sua estrutura lógica é como um esboço astrológico ou cabalístico. Tais autores, voluntariamente ou não, atribuem algumas propriedades místicas do desenvolvimento em "cíclico", "onda", "espiral", à ciência, à engenharia, às forças produtivas como se o assunto fosse sobre nascer do sol ou crepúsculos ou mudanças de estação. Esse misticismo lembra um pouco o panteísmo - uma filosofia e concepção religiosa da existência de uma certo Deus impessoal identificado com a natureza.

O paradoxo está no fato de que antes que a humanidade transferisse a economia para a civilização capitalista realmente teve uma natureza sazonal de progresso desde que era predominantemente agrária. Mas nessa economia não havia crises econômicas de superprodução (logo mais as crises de subprodução como um resultado das secas e outros desastres naturais). Na civilização capitalista, a atividade trabalhista do homem foi concentrada na indústria, i.e., se afastou das influências dos fatores sazonais. No entanto, desde aquele tempo a sociedade experimentou crises cíclicas na economia, e com surpreendente periodicidade.

Para os partidários das diferentes abordagens dos economistas "profissionais" em relação à explicação das crises (tecnocratas, subjetivas, psicológicas, monetaristas, etc.), a medida moral e espiritual da vida econômica parece estar além das teorias. De acordo com isso, as propostas "construtivas" de tais "profissionais" são combinadas para corrigir o atual modelo (capitalista), não tocando na fundação espiritual e moral da sociedade. Por exemplo, impulsionar ou, pelo contrário, refrear a regulação estatal da atividade econômica. Ou corrigir a política monetária por meios de aumento de fornecimento de moeda (ou, pelo contrário, retirar uma parte do dinheiro de seu movimento). Ou substituir o papel moeda por ouro (metal). E assim por diante. No entanto, tais medidas "cosméticas" podem apenas suavizar as crises, no máximo. Um pouco mais tarde, a doença da economia volta ainda mais forte. Os sintomas são muito diferentes e chamados diferentemente: inflação ou desinflação, desemprego, superprodução ou subprodução, recessão, depressão, estagnação, estagflação, bancarrota, pânico bancário, revelia, etc.

O retorno da doença sob seus diferentes nomes significa que o diagnóstico e os métodos de tratamento foram especificados incorretamente.

Economia política por Marx: definição do capitalismo

Representantes separados da abordagem tecnocrata tiveram nuances que detalham e suplementam a explanação tecnocrata da crise com fatores sociais, psicológicos e até mesmo políticos. É razoável expandir sobre a teoria de Karl Marx que foi a "única teoria correta" em nosso país (Rússia) por 70 anos. Ademais, nas condições da crise atual podemos assistir o Renascimento do Marxismo, muitos buscam por uma explicação da atual (a primeira em cem anos na Rússia) crise em Das Kapital - o principal trabalho dentre os clássicos.

Certamente, Marx como um filósofo é claramente tecnocrata, desde que busca quaisquer variações da vida pública nas variações da força produtiva, e a força produtiva ele, acima de tudo, reduz aos meios de produção, i.e., maquinário e tecnologias. Mas em Das Kapital a abordagem tecnocrata aparece como a meia-distância, e forja a abordagem da economia política. Figurativamente falando, Marx em Das Kapital subiu um passo acima: a abordagem da economia política estipula a análise das relações humanas, mas não todas e apenas aquelas que se relacionam com a economia. As relações econômicas sob Marx são relações entre pessoas ligadas à produção, ao intercâmbio, à distribuição e ao consumo de produtos do trabalho (bens, serviços). Na verdade, Marx vê no homem o Homo oeconomicus. Quando traduzido, isso significa "homem econômico", i.e., uma criatura com um simples conjunto de necessidades e instintos (Marx chama isso de "preocupações econômicas"). Algo como um animal ou uma máquina com as reações conhecidas antecipadamente a um ou outro "sinal do mercado".

Para explicar a teoria de progresso cíclico de Marx, devemos ainda antes falar sobre o entendimento "clássico" de algumas categorias chaves. Antes de tudo, da categoria do "capitalismo". Vejam, ele afirma muito definidamente que as crises cíclicas são características somente do capitalismo. O capitalismo é o que timidamente hoje chamamos de "economia de mercado". Do próprio nome "capitalismo" segue-se uma tal organização da sociedade em que o principal objetivo da atividade humana é acumulação, aumento de capital, mas não produção de bens e serviços para satisfação de necessidades vitais de todos os membros da sociedade.

Vamos nos colocar de lado por um momento: a palavra "capitalismo" descobre todo o sentido e propósito dessa civilização a qual costumamos chamá-la deste modo. O problema é que em relação ao acúmulo de capital a elite da sociedade tem propósitos ainda "maiores", que durante toda a história foram escondidos e continuam a ficarem escondidos.

Dialética dos ricos e do poder

Estou me referindo à supremacia do mundo, o poder mundial. Os ricos são o poder sobre todas as coisas. E há o poder sobre o povo. Se falarmos sobre o poder sobre o corpo humano, sua capacidade de criar quaisquer confortos, é uma mera "conservação do corpo". Já foi assim na história. Mas há o poder sobre a alma do homem, "conservação da alma". A elite dessa sociedade que mecanicamente chamamos de "capitalista" também tende a este objetivo maior. Quando o poder sobre a alma do homem é alcançado, será o poder sobre seu corpo, e todos os valores materiais sobre a Terra.

Em relação a este objetivo maior, os milionários parecem apenas meios. Apenas os "selecionados" e "iniciados" na elite assim chamada sociedade "capitalista", os usurários, entendem isso e são guiados por isso, e estaremos falando sobre eles mais tarde. Aqueles "selecionados" não são materialistas vulgares em geral, eles têm altos "ideais", "espiritualidade" e "religião". Do ponto de vista do cristianismo, é a insanidade, a espiritualidade com sinal menor, objetivando o homem a ocupar um lugar de Deus e dominar sobre a natureza e sobre as pessoas, como um Deus. É como a nebulosidade espiritual ocorrida com Lúcifer, o anjo de Deus (2 Crusts. 11-14) que desejou ser como Deus, e pareceu ser prostrado e transformado em Satã conhecido como Lúcifer. É notável que muitos "selecionados" e "iniciados" conscientemente vangloriam Lúcifer.

Eu penso que, ainda do ponto de vista deles, a doutrina de Marx sobre o "capitalismo" é materialismo rude, tratamento vulgar da civilização, o "produto intelectual" das plebes. Aqueles que estudam o marxismo e sua doutrina de formações sócio-econômicas não podem entender até agora o sentido espiritual-político da história moderna e aqueles eventos que a Rússia experiencia hoje.

Como nós a tempo fomos ensinados pelos professores do marxismo-leninismo baseados na teoria de Marx de formações socio-econômicas, aquele "capitalismo vem para mudar o feudalismo". Atualmente, essa frase padrão esconde a maior mudança da história da humanidade: uma nova civilização sob o codenome "capitalismo" vem para mudar a civilização cristã (que foi mascarada sob um "feudalismo" indiferente). Para mascarar sua natureza espiritual, os clássicos reduziram tudo ao "capital", "valor excedente" e "lucro". O problema é que essa civilização nega e se sobrepõe ao cristianismo. Max Weber (1864-1920) falou sobre isso aproximadamente em meio século depois do Das Kapital em seu trabalho Ética Protestante e Espírito do Capitalismo.

Capitalismo é uma civilização anticristã

Hoje o processo da "sobreposição" do capitalismo sobre o cristianismo foi tão longe que qualquer pessoa imparcial entende que a civilização anticristã está por trás do símbolo "capitalismo".

A definição correta desse sistema público que começou a alguns séculos atrás nos permite desvendar o objetivo "maior" que a elite da sociedade "capitalista" está erigindo. Esse objetivo é a chegada do Anticristo. Só o Mal, um inimigo da humanidade, sabe bem sobre esse objetivo "maior". Os usurários pensam que eles serão donos de todo o mundo. Atualmente, eles apenas limpam o caminho para o Mal, são seus mensageiros. Eles usam usurários "em silêncio". Nós não vamos desvendar as iguarias espirituais da civilização com o codenome "capitalismo". Você pode ler o que é sua estrutura, o "núcleo" espiritual-religioso, o desenvolvimento do caminho etc. estão no recentemente publicado livro de O. Zabegailo, Entendimento Espiritual da História (vejam a lista de referências ao fim do capítulo).

Mas devemos retornar ao problema das crises. Os clássicos entram no esquema do progresso cícliclo no conceito econômico de "demanda pagável limitada" que, em sua opinião, é um "defeito" orgânico do capitalismo. Para salvar o leitor de recontar sobre o Das Kapital, onde Marx com linguagem Talmudista profissional tenta explicar o caráter cíclico do desenvolvimento da economia capitalista, devemos dizer apenas: o fator de "demanda pagável limitada" no modelo de Marx "cobre" o fator do "cíclico progresso do capital fixo" (melhoramento, envelhecimento e deslocamento dos fundos fixos obsoletos), criando um efeito sinergético negativo periódico poderoso como as crises destrutíveis de superprodução.

A doutrina de Marx: meia verdade ou meia mentira

De acordo com Marx, há um conflito incurável do capitalismo - entre demanda pagável limitada e oferta de bens e serviços. A demanda pagável limitada (demanda de população para bens de consumo e serviços, e companhias - sobre máquinas, equipamento e outros bens de investimento, matéria prima, energia), a decadência e a estagnação da economia é o "padrão" do capitalismo. É a doença que "surge", e todo mundo pode ver o "podre" do capitalismo. A doença pode ser "interna" apenas por um curto período - na fase da expansão econômica. Como a crise do capitalismo de modo engraçado nota, em um tal sistema social a estagnação é um padrão do estado econômico da sociedade, e o progresso e o crescimento são curtos períodos entre os períodos de estagnação.

De acordo com Marx, atraso de demanda pagável (i.e. demanda providenciada com dinheiro) da oferta de bens e serviços é causada por exploração capitalista. Essa exploração é exibida, acima de tudo, na apropriação por um capitalista (o dono da empresa) do básico criado por um produto do trabalhador (novo custo) - assim chamado "produto excedente", ou "valor excedente". O trabalhador apenas "permanece" do custo recreado como um "produto indispensável". Tal "permanece" não pode providenciar um processo pagável necessário, especialmente tomando em conta o precipitado processo de polarização de propriedade da sociedade e acumulação do capital nas mãos de capitalistas e homens de negócio. Marx chamou este processo de "lei universal de acumulação capitalista".

As provisões mencionadas acima dos clássicos são populares o bastante, e bem conhecidas para não apenas professoras de economia. Hoje, nas condições de crise em que observamos um certo Renascimento do Marxismo, o Das Kapital se tornou um livro requerido de novo. Realmente, muitas provisões dos clássicos como "sobreposição" são atuais. No entanto, o que Marx falou sobre o progresso cíclico da economia e da demanda pagável limitada, como mostraremos em seguida, - apenas metade - a verdade. O criador de Das Kapital não terminou o discurso mamis importante. Ele fala que o atraso crônico da demanda pagável da oferta de bens é causada por capitalistas, pela classe capitalista. E atualmente, o capitalista vai ao primeiro plano, que recebe um valor excedente, i.e. um operário, industrialista ou dono de usina. E aqui Marx mistura a verdade com a mentira, ele faz um coquetel chamado "meia-verdade". E a meia-verdade é algumas vezes pior que uma fraude, desde que a mentira "pura" pode ser pega mais facilmente. As explanações mencionadas acima sobre as crises (ainda acrescidas com explanações de economia política) são superficiais, elas não toca as "fontes" da operação de uma civilização capitalista.

Via Kathateon