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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Väinäimöinen: deidade finlandesa que inspirou Tolkien para criar Gandalf e Tom Bombadil

Akseli Gallen-Kallela: The Departure of Väinämöinen

por Natalia Klimczak

J.R.R. Tolkien criou marcantes histórias que inspiraram Peter Jackson a produzir filmes incríveis. Mas foi seu conhecimento em literatura e de lendas antigas que inspiraram o escritor a usar histórias de deuses e heróis para criar figuras icônicas tais como Gandalf, Tom Bombadill e muitos outros personagens. Uma das mais fascinantes de suas inspirações veio na forma de Väinämöinen, o deus finlandês da magia, que esteve presente em algumas lendas interessantes bem antes de Tolkien sonhar sobre seu famoso mundo ficcional.

A um olhar mais atento, os livros de Tolkien se parecem com uma paleta de mitos e lendas combinando histórias de diferentes culturas e períodos temporais. A influência das deidades antigas, criaturas míticas, e até mesmo conceitos do cristianismo, são todos claramente visíveis. Contudo, o impacto dessas histórias foi ainda muito pouco trabalhado pelos especialistas em literatura. Mas foi devido a obras como as de Tolkien que o lendário deus finlandês Väinämöinen ganhou novos contornos e aventuras -- fazendo com que ele se tornasse uma figura popular fora dos países escandinavos.


A Lenda de Väinämöinen

Väinämöinen foi um deus da magia e uma deidade misteriosa que amava poesia. Parece que ele era conhecido não apenas na Finlândia, mas também na Estônia e em outros países da Europa norte-central.

As histórias mais antigas referindo-se a Väinämöinen vêm do início do período medieval, mas nenhuma cópia dessas fábulas anteriores a 1551 sobreviveram. A lenda sobre o deus foi descrita por Mikael Agricola, que incluiu-o na lista dos deuses tavastianos. Logo depois, outros escritores começaram a seguir o exemplo e a tratar de Väinämöinen. Ele se tornou o personagem principal da épica nacional da Finlância chamada Kalevala, que é um dos textos escandinavos mais importantes. Entretanto, Kalevala é diferente dos outros escritos escandinavos famosos porque vem do século XIX e não da era medieval. O livro descreve um único mito de criação. Ele inclui todo o espectro de conceitos e características da mitologia nórdica e do folclore finlandês.

R.W Ekman: Väinämöinen

A história descreve o filho de Kaleva e do irmão de Ilmarinen. Conta que havia apenas Mar e Céu no início do mundo. O Céu teve uma filha, Ilmatar, que decidiu ver como era o Mar. Então, ela nadou nele por 700 anos. Finalmente, ela viu um belo pássaro paradisíaco que estava em busca de um lugar para descansar.

Inside front title page of The "Old" Kalevala, Finnish national epos, collection of old Finnish poems, by Elias Lönnrot.

Ela permitiu que o pássaro sentasse em seu joelho. O amigo empenado deixou seis ovos de ouro e um feito de ferro. A perna de Ilmatar logo ficou quente e ela a moveu, destruindo os ovos. As gemas se tornaram o sol e as claras se tornaram a lua e as estrelas. Mais tarde, Ilmatar teve um filho -- Väinämöinen. Seu pai era o Mar e ele era abençoado com todo conhecimento necessário. Ele nadou para a terra, onde ele começou uma nova vida e praticou mágicas.

Ilmatar by Robert Wilhelm Ekman. 


Tom Bombadil

Embora Tom Bombadil não tenha aparecido nas adaptações em filme de Peter Jackson dos livros de Tolkien, ele era um dos personagens preferidos dos leitores. De acordo com David Elton Gay em J.R.R. Tolkien and the Kalevala: Some Thought on the Finnish Origins of Tom Bombadil and Treebeard:

"Como fora muitas vezes notado, muito do que Tom diz é, na verdade, cantado. Assim como é o canto de Väinämöinen. O canto de Tom tem poder, e o poder de seu canto é claramente similar ao de Väinämöinen. Quando primeiramente encontramos Tom, ele salva Merry e Pippin do Salgueiro do Homem Velho através da ameaça de seu canto: assim como ele diz a Frodo e Sam, "eu cantarei suas raízes para fora. Eu cantarei o vento para cima e soprarei fora folhas e galhos" (LR 1.6, 117). Goldberry mais tarde conta a Frodo que Tom é o mestre de sua terra. E, como as conversas de Tom com os Hobbits deixam claro, seu domínio sobre sua terra, como o de Väinämöinen, é através do conhecimento e da experiência, ao invés da posse de propriedade (ownership). Se, como eu proponho, Tom Bombadil é baseado em parte no Väinämöinen, então o controle de Tom de seu mundo através do conhecimento expresso em canto é esperado: para ter poder sobre algo como a mitologia de Kalevala deve-se conhecer suas origens e ser capaz de cantar a ela cantos e encantamentos apropriados sobre essas origens, e foram suas obras que ajudaram a dar forma à terra. O mesmo é claro a respeito de Tom Bombadil. (...) A opção de Tom dos adjetivos "antigo" e "o mais antigo" para descrever a si mesmo o conecta a Väinämöinen, pois, ao longo do poema de Kalevala, dos antigos rascunhos de Lonrots para a edição da épica em 1849, Väinämöinen é "o firme e antigo Väinämöinen" (vaka vanha Väinämöinen)."

Tom Bombadil

Gandalf das Lendas Nórdicas

No caso de Gandalf, a situação é um pouco mais complicada. De acordo com especialistas na literatura tolkieniana, o autor usou mais de uma inspiração ao criar as características deste personagem ficcional.

Gandalf in the 1978 animated film

Ao criar um dos personagens mais icônicos de seus livros, Gandalf, Tolkien estava inspirado pelo deus nórdico Odin e por Väinämöinen. Embora existam conexões com personagens bíblicos, a influência dos países nórdicos, e do poema épico Kalevala é proeminente no mago.

Algumas fontes também compararam Väinämöinen com as criações tolkienianas como Treebard e os Ents. Além disso, a ideia de um "anel do poder" usado nas histórias da Terra Média também vêm de Kalevala. Estes exemplos providenciam evidência do quão Tolkien esteve fascinado com as lendas antigas sobre deuses e magia.

Odin, the Wanderer (1886) by Georg von Rosen (1843–1923)

As Influências Míticas nos Livros de Tolkien

Além de tudo, os nomes dos famosos anões de The Hobbit, a saber Thorin, Balin, Dwaliin, Bifur, Bofu, Bombur, Ori, Dori, Nori, Gloin, Oin, Kili, Fili, Dain, Nain, Thrain, Thror e Durin todos vêm do poema Edda -- uma coleção bem conhecida de poemas escrita em nórdico antigo.

Os livros de Tolkien são repletos de lendas e mitos de tempos pré-cristãos. Especialistas em escritos cristãos também sugerem que há muitos conceitos católicos presentes, contudo é impossível não notar as analogias entre seus livros e o nórdico antigo e os mitos celtas.



Referências:


Gay, David Elton, “J.R.R. Tolkien and the Kalevala: Some Thoughts on the Finnish Origins of Tom Bombadil and Treebeard" in Tolkien and the Invention of Myth: A Reader, ed. By Jane Chance, 2004


New Medievalisms edited by Javier Martín-Párraga, Juan de Dios Torralbo-Caballero, 2015.
Väinämöinen, available at: 

Väinämöinen, available at: 

sábado, 2 de julho de 2016

Contos de fadas são mais antigos que mitos gregos e a Bíblia

Cinderela, indiscutivelmente um dos mais famosos contos de todos os tempos, crê-se que tenha sido originado apenas no fim do século XVII. Da mesma forma outras histórias e narrativas reconhecidas tradicionalmente fizeram sua estreia na consciência popular apenas depois dos séculos XVIII e XIX. Entretanto, uma pesquisa (publicada no Royal Society Open Science) parece mudar a situação. De acordo com as investigações, muitos dos contos (senão todos) não apenas datam de tempos anteriores às línguas europeias, mas são também mais antigos que a maioria das grandes religiões do mundo. De fato, a pesquisa alude a como a confecção de tais narrativas possivelmente influenciou o quadro dos famosos caracteres mitológicos gregos e romanos. E, interessantemente, os pesquisadores conectaram às tradições folclóricas anteriores aos falantes indoeuropeus muitos desses mitos.

De modo simples, de acordo com os pesquisadores, muitos desses contos de fadas têm em torno de 4000 e 6000 mil anos de idade. Os dois autores do estudo - Jamshid Tehrani da Universidade de Durham e Sara Graça da Silva da Nova Universidade de Lisboa, começaram seu projeto identificando em torno de 275 contos de fadas com origens aparentemente indoeuropeias. Este arranjo de contos foi utilizado para analisar como o folclore era possivelmente familiar a populações proximamente familiares umas às outras - tanto em termos de suas respectivas línguas como de suas habitações geográficas. Em outras palavras, a avaliação permitiu aos especialistas distinguir entre contos que eram intrinsecamente parte de uma proto-cultura e histórias que eram mais 'globais' em natureza - espalhadas por viajantes e mercadores.

Depois de algumas avaliações rigorosas, os pesquisadores foram capazes de diminuir sua lista para 76 contos que provavelmente compartilharam um legado comum. Estes espécimes folclóricos comuns foram então conectados a alguns ramos das línguas indoeuropeias - muito parecido com o processo usado ao estudar uma árvore familiar genealógica. E ao traçar os pontos, os pesquisadores concluíram que o conto mais antigo dentre os escolhidos era "O Ferreiro e o Diabo". A história esposa o tropo familiar de uma pessoa vendendo sua alma ao diabo em troca de algum poder extraordinário. E os pesquisadores hipotetizaram que esse conto de fada foi esquematizado pelos ancestrais da Idade de Bronze dos falantes indoeuropeus. Similarmente, estes especialistas também acreditam que as famosas fábulas como 'A Bela e a Fera', 'O Anão Salteador' e 'João e o Pé de Feijão' todas tiveram suas origens antes do surgimento das línguas europeias modernas.

Interessantemente, no caso de O Ferreiro e o Diabo, a história pertence a uma realização tecnológica na história humana, melhor conhecida como metalurgia. Isso talvez ajuda a resolver a questão história com relação a como as línguas indoeuropeias foram desenvolvidas no contexto da linha histórica do desenvolvimento tecnológico. Os pesquisadores acreditam aqui que as línguas evoluíram só depois de avanços feitos no trabalho com metais. Mas claro que além de apenas metais e magias, alguns dos contos populares perscrutam a moralidade e o comportamento ético, como na história de Os Animais Encantados, onde o herói resgata um grupo de animais a fim de conquistar o afeto de uma princesa. Estas narrativas por sua vez aludem à dicotomia que tem sido prevalente desde então, com contos que cercam a relação (e o conflito) entre o bem e o mal, homens e mulheres, moral e imoral, e a justificação subjetiva do correto e do errado.

Jack Zipes, um professor emérito da Universidade de Minnesota, e um bem conhecido especialista no campo de fábulas e contos de fadas disse (para Discovery News) que

Tehrani e Graça da Silva demonstraram claramente e cientificamente que as origens dos contos populares e de fadas podem de fato ser traçadas até as sociedades antigas ao usar métodos filogenéticos. Seu trabalho pode servir como fundamento para estudos que investigam por que certos tipos de contos foram originados, como eles se disseminaram e se espalharam ao redor do mundo, e por que continuamos a contar os mesmos contos, embora em diferentes modalidades, no presente. 

via Realmofhistory