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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Väinäimöinen: deidade finlandesa que inspirou Tolkien para criar Gandalf e Tom Bombadil

Akseli Gallen-Kallela: The Departure of Väinämöinen

por Natalia Klimczak

J.R.R. Tolkien criou marcantes histórias que inspiraram Peter Jackson a produzir filmes incríveis. Mas foi seu conhecimento em literatura e de lendas antigas que inspiraram o escritor a usar histórias de deuses e heróis para criar figuras icônicas tais como Gandalf, Tom Bombadill e muitos outros personagens. Uma das mais fascinantes de suas inspirações veio na forma de Väinämöinen, o deus finlandês da magia, que esteve presente em algumas lendas interessantes bem antes de Tolkien sonhar sobre seu famoso mundo ficcional.

A um olhar mais atento, os livros de Tolkien se parecem com uma paleta de mitos e lendas combinando histórias de diferentes culturas e períodos temporais. A influência das deidades antigas, criaturas míticas, e até mesmo conceitos do cristianismo, são todos claramente visíveis. Contudo, o impacto dessas histórias foi ainda muito pouco trabalhado pelos especialistas em literatura. Mas foi devido a obras como as de Tolkien que o lendário deus finlandês Väinämöinen ganhou novos contornos e aventuras -- fazendo com que ele se tornasse uma figura popular fora dos países escandinavos.


A Lenda de Väinämöinen

Väinämöinen foi um deus da magia e uma deidade misteriosa que amava poesia. Parece que ele era conhecido não apenas na Finlândia, mas também na Estônia e em outros países da Europa norte-central.

As histórias mais antigas referindo-se a Väinämöinen vêm do início do período medieval, mas nenhuma cópia dessas fábulas anteriores a 1551 sobreviveram. A lenda sobre o deus foi descrita por Mikael Agricola, que incluiu-o na lista dos deuses tavastianos. Logo depois, outros escritores começaram a seguir o exemplo e a tratar de Väinämöinen. Ele se tornou o personagem principal da épica nacional da Finlância chamada Kalevala, que é um dos textos escandinavos mais importantes. Entretanto, Kalevala é diferente dos outros escritos escandinavos famosos porque vem do século XIX e não da era medieval. O livro descreve um único mito de criação. Ele inclui todo o espectro de conceitos e características da mitologia nórdica e do folclore finlandês.

R.W Ekman: Väinämöinen

A história descreve o filho de Kaleva e do irmão de Ilmarinen. Conta que havia apenas Mar e Céu no início do mundo. O Céu teve uma filha, Ilmatar, que decidiu ver como era o Mar. Então, ela nadou nele por 700 anos. Finalmente, ela viu um belo pássaro paradisíaco que estava em busca de um lugar para descansar.

Inside front title page of The "Old" Kalevala, Finnish national epos, collection of old Finnish poems, by Elias Lönnrot.

Ela permitiu que o pássaro sentasse em seu joelho. O amigo empenado deixou seis ovos de ouro e um feito de ferro. A perna de Ilmatar logo ficou quente e ela a moveu, destruindo os ovos. As gemas se tornaram o sol e as claras se tornaram a lua e as estrelas. Mais tarde, Ilmatar teve um filho -- Väinämöinen. Seu pai era o Mar e ele era abençoado com todo conhecimento necessário. Ele nadou para a terra, onde ele começou uma nova vida e praticou mágicas.

Ilmatar by Robert Wilhelm Ekman. 


Tom Bombadil

Embora Tom Bombadil não tenha aparecido nas adaptações em filme de Peter Jackson dos livros de Tolkien, ele era um dos personagens preferidos dos leitores. De acordo com David Elton Gay em J.R.R. Tolkien and the Kalevala: Some Thought on the Finnish Origins of Tom Bombadil and Treebeard:

"Como fora muitas vezes notado, muito do que Tom diz é, na verdade, cantado. Assim como é o canto de Väinämöinen. O canto de Tom tem poder, e o poder de seu canto é claramente similar ao de Väinämöinen. Quando primeiramente encontramos Tom, ele salva Merry e Pippin do Salgueiro do Homem Velho através da ameaça de seu canto: assim como ele diz a Frodo e Sam, "eu cantarei suas raízes para fora. Eu cantarei o vento para cima e soprarei fora folhas e galhos" (LR 1.6, 117). Goldberry mais tarde conta a Frodo que Tom é o mestre de sua terra. E, como as conversas de Tom com os Hobbits deixam claro, seu domínio sobre sua terra, como o de Väinämöinen, é através do conhecimento e da experiência, ao invés da posse de propriedade (ownership). Se, como eu proponho, Tom Bombadil é baseado em parte no Väinämöinen, então o controle de Tom de seu mundo através do conhecimento expresso em canto é esperado: para ter poder sobre algo como a mitologia de Kalevala deve-se conhecer suas origens e ser capaz de cantar a ela cantos e encantamentos apropriados sobre essas origens, e foram suas obras que ajudaram a dar forma à terra. O mesmo é claro a respeito de Tom Bombadil. (...) A opção de Tom dos adjetivos "antigo" e "o mais antigo" para descrever a si mesmo o conecta a Väinämöinen, pois, ao longo do poema de Kalevala, dos antigos rascunhos de Lonrots para a edição da épica em 1849, Väinämöinen é "o firme e antigo Väinämöinen" (vaka vanha Väinämöinen)."

Tom Bombadil

Gandalf das Lendas Nórdicas

No caso de Gandalf, a situação é um pouco mais complicada. De acordo com especialistas na literatura tolkieniana, o autor usou mais de uma inspiração ao criar as características deste personagem ficcional.

Gandalf in the 1978 animated film

Ao criar um dos personagens mais icônicos de seus livros, Gandalf, Tolkien estava inspirado pelo deus nórdico Odin e por Väinämöinen. Embora existam conexões com personagens bíblicos, a influência dos países nórdicos, e do poema épico Kalevala é proeminente no mago.

Algumas fontes também compararam Väinämöinen com as criações tolkienianas como Treebard e os Ents. Além disso, a ideia de um "anel do poder" usado nas histórias da Terra Média também vêm de Kalevala. Estes exemplos providenciam evidência do quão Tolkien esteve fascinado com as lendas antigas sobre deuses e magia.

Odin, the Wanderer (1886) by Georg von Rosen (1843–1923)

As Influências Míticas nos Livros de Tolkien

Além de tudo, os nomes dos famosos anões de The Hobbit, a saber Thorin, Balin, Dwaliin, Bifur, Bofu, Bombur, Ori, Dori, Nori, Gloin, Oin, Kili, Fili, Dain, Nain, Thrain, Thror e Durin todos vêm do poema Edda -- uma coleção bem conhecida de poemas escrita em nórdico antigo.

Os livros de Tolkien são repletos de lendas e mitos de tempos pré-cristãos. Especialistas em escritos cristãos também sugerem que há muitos conceitos católicos presentes, contudo é impossível não notar as analogias entre seus livros e o nórdico antigo e os mitos celtas.



Referências:


Gay, David Elton, “J.R.R. Tolkien and the Kalevala: Some Thoughts on the Finnish Origins of Tom Bombadil and Treebeard" in Tolkien and the Invention of Myth: A Reader, ed. By Jane Chance, 2004


New Medievalisms edited by Javier Martín-Párraga, Juan de Dios Torralbo-Caballero, 2015.
Väinämöinen, available at: 

Väinämöinen, available at: 

domingo, 6 de setembro de 2015

Dostoievsky: Racionalismo Demoníaco

Em seu trabalho Dostoievsly e a Metafísica do Crime, o sociólogo dr. Vladislav Arkadyevich Bachinin analisa a aparentemente única correlação contraditória entre o racionalismo iluminista e o surgimento de forças infernais na obra Os Demônios de Dostoievsky. Segue abaixo:

A Razão Imoral de um Automaton Vivo

Pyotr Verkhovensky, o cínico sangue-frio que facilmente ultrapassa quaisquer obstáculos morais, representa um tipo especial de criminoso, ao qual é aplicável a metáfora de "homem-máquina".

Na França de 1748, o livro de Lematrie sob aquele título foi lançado. Seu autor molda o homem como uma máquina auto-regulada que se move por linhas perpendiculares. Na concepção de Lametrie um ser humano foi a direta semelhança a um relógio ou cravo, e ao mesmo tempo uma necessidade natural. Mas possuindo instintos, sentimentos e paixões, ele é privado de uma alma. Lametrie assumiu que o termo alma carecia de qualquer substância essencial qualquer que seja. O mundo no qual o homem-máquina habita é antropocêntrico; não há lugar para Deus. A realidade é arranjada de acordo com os princípios da mecânica newtoniana, e o mundo se apresenta como um conglomerado mecânico de elementos inanimados. Os processos naturais e sociais são movidos por uma e mesma força mecânica.

A filosofia da racionalidade mecânica se abre como único resultado da evolução do racionalismo clássico. A eliminação de todo conteúdo metafísico prepara o fundamento tanto para a chegada do positivismo quanto para a realização de planos a fim de construir a futura sociedade estritamente racionalizada com parâmetros calculados inteiramente sob o controle de uma vontade diretora. O homem-máquina e o Estado-máquina, que precisam um do outro, surgem como algo que lembra as razões télicas de Aristóteles, e direta e gradualmente determinarão o desenvolvimento de esquemas antropocêntricos positivistas.

De acordo com a pintura mecanicista do mundo, sempre existe a ameaça de deformações intencionais nas estruturas da ordem cósmica. Objetivamente existem possibilidades de violação da medida e da harmonia, da destruição da ordem e ascensão do caos. Um assassino pode realizar a possibilidade objetiva da morte que existe para sua vítima. Um ladrão ou bandido é capaz de realizar a possibilidade objetiva de alterar valores materiais no espaço social de umas mãos para outras, etc. Ou seja, fica apenas para o homem aplicar certos esforços para a possibilidade de desintegração das estruturas existentes, seu movimento para a realidade. Em tempos as forças mecânicas foram suficientes para isto. Ademais, quanto maior o grau de mecanismo de tais empresas, menor o espiritual, ético, religioso e de outros componentes similares, e mais efetivas provarão ser as ações destrutivas.

Dostoievsly tem a filosofia do homem-máquina aplicável primeiro e acima de tudo aos caracteres que representam o prático homem de negócio junto de tipos comerciais do modelo ocidental, i.e., a tais homens como Luzhin, Rakitin, Epanchin, Totsky, Ferdyschenko, etc. Indiferentes à realidade metafísica, eles subscrevem aos "ideais de Geneva" de Rousseau permitindo a possibilidade da "virtude sem Cristo". Imersos no orgulho de uma existência sem graça, prosaica e pragmática, "tendo ouvidos, eles não ouvem, e tendo olhos eles não veem". Tudo que vem de cima, das esferas da realidade metafísica, não chega às suas almas, e portanto estão imersos na escuridão da ignorância e incompreensão das coisas mais significativas da vida. Os pensamentos e sentimentos destes "Bernardos" carregam um caráter mundano e não diretamente dirigidos além. Eles não gostam de pensamentos abstratos, considerando um passa-tempo inútil. Para eles, como para Lametrie, Deus e a alma são magnitudes de falsa moral. Para eles todo o mundo habita no estado "desencantado" de um gigantesco conglomerado de elementos inanimados. Em nenhum deles Deus brilha faiscante. Todos estes homens são espiritualmente máquinas vivas empobrecidas, doentes, no entanto, por uma mão misteriosa, mas como Lev Shestov diria sobre eles, não são conscientes que suas vidas não são vidas, mas mortes.

Em suas descrições Dostoievsky expôs sua crítica da mente longe-da-limpeza, inteiramente imunda e imoral, mais precisamente a razão banal e básica "euclidiana" que é que são surdos à metafísica das morais absolutas, a mente que vê na alma "só vapor", que é governada por razão fria solitária e vê todo o mundo como aglomerado de ferramentas para alcançar seus insípidos objetivos.

Entre os espécimes do homem-máquina replicados por Dostoievsky, Pyotr Verkhovensky representa o exemplar mais odioso. Ele é calculista, impiedoso, e está pronto a ir toda a distância para alcançar seus objetivos, sem parar diante das mais vis infâmias e crimes.

A realidade criminal, dentro do que existe a verdade de Verkhovensky, o "eu", é distinguida por características tais como um duro distanciamento de outros mundos valorativos, e acima de tudo do mundo dos absolutos religiosos, morais e das leis naturais. Em segundo lugar, inerente a isto está uma aguda tensão nas relações com a realidade valorativa oficial. E sua terceira particularidade é uma vulnerabilidade para o desmaio, explicada pelo fato de que por toda sua posição antagônica, aspira copiar as estruturas das realidades legais em seu próprio estilo. Assim como o mal parodia Deus, tentando imitá-lo, o mundo criminoso busca, por toda sua natureza caricatural de seus esforços, reproduzir estereótipos normativo-valorativos dos mundos legítimo e sacro, tentando adquirir vitalidade adicional a seu custo.

Não é acidental que o assassinato de Chatov em Os Demônios traz as marcas de um sacrifício ritual. Juntamente com isto toma a forma de uma monstruosa paródia de um ritual antigo: ao invés da solenidade de um rito sagrado, há a imunda baixeza de toda a cena; ao invés da aberta oficialidade, há a covardia, o ato secretamente cerrado; ao invés de clamar em favor de forças superiores, há um jogo sobre elementos obscuros do mal, uma comiseração de todos os participantes do assassinato através do sangue derramado da vítima e do medo mútuo de um diante do outro.

O Espaço Normativo da Associação Político-Criminoso

Verkhovensky deliberadamente forma um espaço normativo-valorativo de "moralidade" corporativa-criminosa com princípios ásperos de auto-organização e auto-preservação. Ele requer aquela atitude de membros associados para que suas tarefas e objetivos sejam extremamente sérias, sem permitir ceticismo, auto-ironia ou crítica. Violadores são imediatamente punidos. Violência aplicada preenche uma função protetora, atuando como meios de soldadura e auto-defesa para seu micro-mundo artificial.

À parte da similaridade na estrutura e nas formas da atividade político-criminosa e organizações puramente criminosas, entre as duas há distinções essenciais. E assim, se os fins últimos de um grupo criminoso são limitados à resolução de tarefas mercantis auto-interessadas, então os fins das associações político-criminosas ultrapassam os limites dos interesses mercantis e são orientadas em direção ao alcance de domínio político, através do qual os membros da associação passam a uma posição de elite reinante.

Se criminosos associados, como regra, não emitem um desafio ao Estado e ao sistema estatal, mas preferem lidar com cidadãos individuais, uma associação político-criminosa audaciosamente caminha a um antagonismo com o poder estatal e suas instituições.

Se um grupo criminoso representa uma única forma de "coisa em si" e não esconde seu egoísmo corporativo, então uma associação político-criminosa mascara seus interesses fundamentais com a cortina de fumaça de mentiras sobre os interesses do povo que supostamente concernem a ele.

A última circunstância, notada por Dostoievsky, permite homens tais como Verkhovensky recrutar apoiadores não apenas do espectro de "perdedores" pouco-educados e fanáticos com um desejo doente por intrigas e poder, mas também envolver jovens com bom coração, mesmo que com "vibrações" nas suas visões. O fato da última provar-se genuinamente trágica, desde que estes encrenqueiros confidentes, que estudaram o lado magnânimo do coração humano e foram capazes de mexer em suas cordas como se fosse um instrumento musical, ultimamente transformaram estes jovens em criminosos.

Dostoievsky lamentava que a juventude contemporânea, em caminho da maturidade de firmar convicções e dureza morais, estava indefesa contra o "demonismo". Entre muitas unidades materiais elas dominam uma ideia superior, e uma educação genuína é substituída por estereótipos de negação impúdica através da voz de alguém, da insatisfação e impaciência. Como resultado "mesmo o menino honesto e puro, mesmo aquele estudioso, poderia de repente se tornar um Nechaevita... ou seja, de novo, se ele se cruzasse com Nechaev..." (21, 133). Para tais garotos, os atos criminosos de Nechaev e Verkhovensky se pintam como proezas políticas.

As transformações fatais que tomaram lugar nas almas de muitos "garotos russos" foram facilitadas por um "momento de tormentas", que forçou a civilização russa em primeiro lugar calmamente, e depois mais rápido, a escorregar por uma superfície lisa rumo ao caos.

"Em minha novela Os Demônios", escreveu Dostoievsky, "eu tentei expressar aqueles vários e diversos motivos pelos quais mesmo o mais puro dos corações e a mais sincera pessoa pode ser levada a cometes a mais monstruosa vilania. O terror está em que aí pode-se fazer a coisa mais infâmia e horrível, algumas vezes completamente sem ser um canalha! E não é algo apenas entre nós, mas por todo o mundo é assim, sempre e no início das eras, durante tempos de transição, em tempos de descontrole na vida das pessoas, de dúvidas e negações, ceticismo e instabilidade nas convicções sociais fundamentais. Mas temos mais do que em qualquer lugar, e especialmente em nossos tempos, e esta característica é a característica mais dolorosa e triste de nosso tempo presente. Na possibilidade de ver a si mesmo, e até mesmo, quase por vezes,  como uma questão de fato, não como um canalha, ao trabalhar em uma abominação clara e indefensável - eis nossa tragédia contemporânea!" (21, 131).

Racionalidade de "Máquina" de um Programa Político

Verkhovensky, possuindo um poder forte e mecanicamente voluptuoso, encontrou um programa político mecanicista que corresponde à sua natureza. Suas posições básicas remontam aos seguintes pontos:

- Um novo tipo de Estado com formas predominantemente totalitárias de governo é necessário.
- Este Estado deveria manter seus súditos em constante terror, sem cessar, conduzindo a vigilância de todos "a qualquer hora e a qualquer minuto".
- Desde que gênios, talentos e indivíduos admiráveis representam uma ameaça ao poder dos "líderes-máquinas" por sua natureza extraordinária, todas as pessoas serão levadas a um nível padrão de desenvolvimento através de terror ideológico e político, no curso do qual Cícero terá suas línguas cortadas, Copérnico seus olhos arrancados, Shakespeare amarrado em pedras, etc.
- Para o decreto deste programa, é necessário começar com a total destruição de tudo, na prática levando à transição da ordem ao caos.

Dois vetores uniram-se nesse programa político-criminoso - a racionalidade "de máquina" dos vilões desalmados com a irracionalidade demoníaca dos maníacos em fúria.

Um dos paradoxos mais impressionantes da personalidade de Verkhovensky é aquela combinação surpreendente do "tipo máquina" com um entusiasmo maníaco por destruição. Isto concede à figura do demônio político um caráter especialmente sinistro. Com a direta participação da insensível "máquina" em produzir desordem, eventos na novela tomam a forma de uma vindoura tempestade, um caos entronado, quando uma dúzia de assassinatos e suicídios são cometidos, ao lado de muitas lutas de loucura e fogo grandioso de um incêndio. Como resultado, o mundo fechado no quadro da novela começa a se parecer com um monstruoso covil de bestas, onde há ausência de amor e misericórdia, onde há somente lutas impiedosas de todos contra todos.

Dostoievsky viu uma das fontes desse caos nas mentalidades filosóficas de conteúdo racionalista, materialista e ateu que penetraram [na Rússia] do Ocidente. Caindo em solo russo, as doutrinas de Darwin, Mill, Strauss e outros representantes do pensamento "progressivo" europeu, como regra foram tomados na consciência eslava, não experiente de tantos séculos de escolas filosóficas, como axiomas filosóficos adamantinos. Ademais as conclusões práticas foram frequentemente tiradas deles, conclusões de possibilidade das quais os professores ocidentais não suspeitavam.

Claro, o conhecimento positivo não diretamente ensinou qualquer vilania. E se Strauss, Dostoievsky nota com ironia explícita, negou e brincou com Cristo, por sua vez ao homem e à humanidade ele demonstrou o amor mais carinhoso e desejou o futuro mais radiante.

Mas então isto é o que me parece indubitável - dar a todos estes professores superiores contemporâneos a completa oportunidade de destruir a antiga sociedade e construir uma nova - então virá uma tal escuridão, um tal caos, algo tão cru, cego e desumano, que toda a construção colapsaria sob o curso da humanidade antes que ele pudesse ter sido completado. Uma vez rejeitado Cristo, a mente humana pode chegar aos resultados mais espantosos. Isto é um axioma. A Europa, pelo menos nas representações superiores de seu pensamento, rejeita Cristo, e como é sabido, estamos obrigados a imitar a Europa. (21, 132 - 133)

Para Dostoievsky, a atividade valorativa-orientadora e prática-transformadora da consciência moral, legal e política deve ser fundamentada em princípios do teocentrismo. Ele dissemina o espírito da Teodiceia sobre todas as esferas da vida social e espiritual, sem exceção. A consciência legal ocidental é predominantemente antropocêntrica, e como regra não aceita fundamentos normativos-valorativos religiosos ou metafísicos.

Estes fundamentos são desnecessários para o homem-máquina, que descobre por suas ações que a imoralidade aberta, o crime e o maquiavelismo político são tudo de uma e mesma natureza. Todas elas começam com a negação dos princípios superiores do ser, dos valores e normas absolutos.

via souloftheeast

domingo, 26 de julho de 2015

Ivan Ilyin: Sobre o Diabo


Em seu ensaio de 1947, o filósofo russo Ivan Ilyin (1883-1954) aponta a realidade do diabo na história e em nossos tempos. Comentando, o avanço das formas seculares e materialistas corresponde com um fascínio sempre crescente pelo diabo - juntamente com sua justificação pública. Abaixo, segue um trecho do filósofo.


Na vida da raça humana, o princípio diabólico tem sua própria história. Sobre esta questão existem sérios estudos acadêmicos - não concernentes, no entanto, com as últimas décadas. Agora, essas últimas décadas verteram nova luz sobre os dois últimos séculos. A era do Iluminismo europeu (iniciando com os enciclopedistas franceses do século XVIII) minou no homem a fé no ser de um diabo pessoal. O homem educado não pode acreditar na existência de um ser antropomórfico revoltado "com um rabo, patas e chifres" (de acordo com Zhukovsky), não visto por ninguém, mas ilustrado em baladas e pinturas. Lutero ainda acreditava nele e até jogoou sujeira nele, mas depois os séculos rejeitaram o diabo, e ele gradualmente "desapareceu" e esfumaçeou como um "preconceito ultrapassado".

Mas foi precisamente o momento em que a arte e a filosofia se tornaram interessadas nele. O Iluminismo europeu tinha só um manto do Satã ainda, e ele começou a se vestir com fascínio. Queimou um desejo de encontrar mais sobre o diabo, discernir a "forma verdadeira", adivinhar seus pensamentos e desejos, "transformar-se" nele ou pelo menos caminhar diante dos homens sob a aparência dele...

E assim a arte começou a imaginá-lo e ilustrá-lo , enquanto a filosofia tendia à sua justificação teórica. O diabo, é claro, "não teve êxito", porque a imaginação humana é incapaz de contê-lo, mas na literatura, música e pintura começou uma cultura de demonismo. No início do século XIX a Europa estava fascinada com suas formas anti-divinas; lá aparece o demonismo da dúvida; a negação; o orgulho; a rebelião; a decepção; a amargura; a melancolia; o desdém; o egoísmo e até mesmo o tédio. Os poetas retratam Prometeu, o Filho da Aurora, Caim, Don Juan e Mefistófeles.

Byron; Goethe; Schiller; Chamisso; Hoffmann; Franz Liszt; e mais tarde Stuck, Baudelaire, e outros exibem toda uma galeria de demônios ou homens e disposições demoníacos. Ademais, esses demônios são inteligentes, espirituosos, educados, engenhosos e temperamentais, em uma palavra, charmosos e que evocam simpatia, enquanto homens demoníacos são a incarnação da "angústia do mundo", "protesto nobre", e alguma "consciência revolucionária superior".

Ao mesmo tempo, a doutrina mística, sustentando que há um "princípio negro", ainda mesmo dentro de Deus, é reavivada. Os Românticos Alemães encontram palavras poéticas em favor do "inocente despudor", e o Hegeliano de Esquerda, Marx Stirner, surge abertamente pregando a auto-deificação e o egoísmo demônico. A negação de um diabo pessoal é gradualmente substituída pela justificação do princípio diabólico...

O abismo oculto por trás disso foi visto por Dostoievsky. Ele o identificou, e com seu alarme profético viu os meios para vencer isto em toda sua vida.

Friedrich Nietzsche também alcançou este abismo, foi cativado por ele, e viria a exaltá-lo. Seus últimos trabalhos, A Vontade de Poder, O Anticristo e Ecce Homo contêm direta e aberta propagação do mal... Nietzsche designa a totalidade dos sujeitos religiosos (Deus, a alma, a virtude, o pecado, o outro mundo, a verdade, a vida eterna) como um "punhado de mentiras, nascidos de maus instintos com naturezas doentias e nocivas no sentido mais profundo". "A concepção cristã de Deus" é para ele "uma das concepções corruptas criadas na terra". Aos seus olhos todo o cristianismo é apenas uma "fábula bruta de um salvador embusteiro", e os cristãos, "o partido de ninguéns e idiotas rejeitados".

O que ele exalta são o "cinismo" e o despudor, "o mais que pode ser alcançado na terra". Ele invoca a besta no homem, o "animal superior" que deve ser libertado, seja lá o que virá depois disso. Ele demanda o "homem selvagem", "vicioso" com "pança satisfeita". Tudo "cruel, o inalienavelmente ferino, o criminoso" o arrebata. "Grandiosidade existe apenas onde está um grande crime". "Em cada um de nós a besta bárbara e selvagem se afirma a si mesma". Tudo na vida que cria uma irmandade de homens - ideias de "culpa, punição, justiça, honestidade, liberdade, amor, etc." - "deveria ser completamente removido da existência". "Em direção a", ele exclama, "blasfemos, imoralistas, independentes de todos os tipos, artistas, judeus, jogadores -todas as classes rejeitadas da sociedade!"...

E não há gozo maior para ele do que ver "a destruição do melhor homem e acompanhar como, passo a passo, eles vão à destruição"... "Eu conheço meu destino", ele escreve.

Um dia meu nome será associado com a recordação de algo assustador, uma crise como tal que nunca foi vista sobre a terra, o mais profundo choque de consciência, uma sentença conjurada contra tudo que até então fora acreditado, demandado, santificado. Não sou um homem, eu sou uma dinamite.

De um tal modo a justificação do mal encontra suas últimas formas teóricas diabólicas, e ela permaneceu apenas para esperar seu decreto. Nietzsche encontrou seus leitores, discípulos e admiradores; eles adotaram sua doutrina, combinando-a com a doutrina de Karl Marx, e tomou a execução desse plano 30 anos atrás...

"Demonismo" e "satanismo" não são um e o mesmo. Demonismo é uma questão humana, enquanto satanismo é uma questão de abismo espiritual. O homem demônico é entregue aos seus instintos básicos e pode ainda arrepender-se e converter-se, mas o homem no qual, pelas palavras do Evangelho, "Satã entrou", é possuído por uma força estranha e supra-humana, e ele próprio se torna um diabo em forma humana.
Judas joga fora as pratas, por Platon Vasiliev

Demonismo é um escurecimento espiritual transitório, sua fórmula sendo vida sem Deus; o satanismo é o total e final escurecimento do espírito, sua fórmula é a derrubada de Deus. No homem demônico se rebela um instinto desenfreado e apoiado pela razão fria; o homem satânico age como instrumento de alguém que serve o diabo, capaz de saborear seu serviço repulsivo. O homem demônico gravita em torno de Satã: brincando, se divertindo, sofrendo, entrando em pactos com ele (de acordo com a tradição popular), ele gradualmente se torna o domicílio conveniente do diabo; o homem satânico se perde e se torna o instrumento terrestre de uma vontade diabólica. Aqueles que não viram tais pessoas, ou que não as veem, não as reconhecem, não conhecem o perfeito demônio primordial e não têm um entendimento do elemento verdadeiramente diabólico.

Nossas gerações são estabelecidas diante de manifestações terríveis e misteriosas do seu elemento e até nossos tempos não resolvemos como expressar sua experiência de vida em palavras adequadas. Nós poderíamos descrever este elemento como "fogo negro", ou defini-lo como inveja eterna; ódio inextinguível; banalidade militante; mentiras despudoradas; absoluta impudência e desejo absoluto por poder; o atropelo da liberdade espiritual; a sede de degradação universal; gozo sobre a ruína do melhor homem, e o anti-cristianismo. O homem que sucumbiu a este elemento perde a espiritualidade, o amor, a consciência; dentro dele começa a degeneração e a dissolução. Ele se rende ao vício consciente e à sede de destruição; ele termina em um desafiador sacrilégio e tormento humano.

A simples percepção deste elemento diabólico provoca em uma alma saudável a repulsa e o horror que pode transitar em indisposição corporal genuína, um específico "desmaio" (o espasmo do sistema nervoso simpático, disritmia nervosa e doença psicológica - que também pode levar ao suicídio). Homens satânicos são reconhecidos por seus olhos, por seu sorriso, sua voz, suas palavras e atos. Nós, russos, os enxergamos vivos e em carne viva; nós sabemos quem eles são e de onde vêm. Os estrangeiros até agora não compreenderam este fenômeno e não querem compreendê-lo, pois os leva ao julgamento e à condenação.

E até hoje, certos teólogos reformistas continuam escrevendo sobre a "utilidade do diabo" e simpatizam com sua insurreição moderna.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Gogol e a Monarquia Sacra


"O governo de muitos não é bom. Que seja um só governador,
Um rei."
- Ilíada, livro II, 203-204
Família do Tsar Nicolau II, assassinada durante a Revolução Russa
 É possível que há um nível além de unidade nacional, uma avenida para a qual é aberta pela Santa Ortodoxia. Conforme Konstantin Malofeev, fundador de Tsargrad TV e presidente da Fundação Beneficente São Basílio, notou em uma entrevista recente que "hoje, 5% da população vai à igreja aos domingos. Quando isto será 30% ou até mesmo 50%, então a questão da monarquia surgirá por si."

É natural supor, todas as coisas sendo iguais, que as pessoas não aprenderão menos e não deixarão de saber - podemos confidencialmente conceder que a presença aos Serviços Divinos se intensificará. O dia em que a pergunta será feita chegará.

A monarquia não é apenas um sistema político entre outros, de acordo com a Igreja. É a ordem natural e supernatural das coisas. Como disse São João de Kronstadt:

O inferno é uma democracia, o Céu é um Reino. (Демократия – в аду, а на Небе – Царство)

A monarquia é a única forma de governo elaborada nas Sagradas Escrituras. A Igreja até o século passado não conhecia outra forma. Começando com a conversão de São Constantino através do Império Bizantino; em pé até a conversão do Grão Príncipe Vladimir; e finalmente terminando no Império Russo da Dinastia Romanov.

No que ela consiste?

A monarquia ortodoxa é aquela forma de um só governador soberano, ungido de Deus pela Santa Igreja, que vota para servir seus súditos; providenciar seu bem; agir no interesse da nação; defendê-los e proteger a igreja; manter a pureza da Fé Ortodoxa; e assegurar a segurança e qualidade de vida de todo seu povo, independente da religião ou confissão.

Seus súditos se voltam com lealdade ao soberano.

Soberano e súdito são igualmente responsáveis perante a Lei de Deus, preservada e interpretada pelos Concílios Ecumênicos e santos padres.

Todos são responsáveis perante o código de lei do país.

***

Mesmo com sua imaginação infinita, Gogol não poderia ter imaginado uma Rússia sem um Tsar. No Diário de um Louco, são as novidades da vacância do trono espanhol que despedaçam a já rachada sanidade de Aksenty Ivanovich.

...Há coisas estranhas pelos lados da Espanha... eles escrevem que o trono está vazio e que a nobreza está com dificuldade em eleger uma herdeiro, que está levando ao tumulto. Isto me fere de um modo extremamente estranho. Como pode um trono estar vazio? Eles dizem que alguma dona pode subir ao trono. Nenhuma dona pode subir ao trono. É simplesmente impossível. Só pode haver um rei no trono. Assim, eles dizem que não há rei. Nenhum Estado pode existir sem um rei. Há um rei, mas ninguém sabe quem ele é...

Tal dificuldade leva a esta declaração:

43º dia de abril no ano de 2000
Hoje celebramos um ilustríssimo evento! A Espanha tem um rei. Ele foi encontrado. Eu sou este rei.

Não foi por conta da ausência de visão que Gogol não pôde ver uma Rússia sem um Tsar. Ele estava consciente da alternativa. Ele sabia bem das ideias do Iluminismo. Uma das cartas mais interessantes em sua correspondência publicada se refere inteiramente ao tema do Iluminismo. Ele viveu depois que a ideia foi apropriada e aplicada (com violência) na França e (pela guerra civil) nos Estados Unidos da América. Ele sabia o que eram a liberal democracia e o republicanismo democrático.

Gogol não via o Iluminismo como algo contra a Santa Ortodoxia, contra a monarquia ou em qualquer sentido negativo do tipo. Ele se refere brilhantemente às medidas gerais de Pedro o Grande e apontou a falha do Império Russo para atingir todo o povo - ele não se poupou.

Quem quer que vê esses espaços desabitados e vazios desamparados pelas vilas ou casas não se sente deprimido, quem quer que nos lúgubres sons das nossas músicas não ouve a repreensão dorida em si mesmo - de fato, em si mesmo - ou preencheu seu dever como deveria, ou não é um Russo na alma. Quase 150 anos decorreram desde que nosso soberano Pedro I clareou nossos olhos pelo purgatório do iluminismo europeu; ele pôs nas nossas mãos os meios e instrumentos da ação...

Gogol, no entanto, realmente encontra uma falta. Mas do melhor jeito. É o tipo mais feio de preguiça intelectual para criticar, morder, rasgar, desmantelar e oferecer alternativa nenhuma. Reciprocamente é o melhor tipo de compromisso o oferecer novas ideias e perspectivas, criar novas possibilidades - para construir, não quebrar, fazer pontes e não queimá-las.

Gogol cruzando o Dnepr, por Anton Ivanov
O pensamento de Gogol era de que a preocupação francesa com o cristianismo cismático e sectário ocidental não deveria ser levada para o Império Russo. Mesmo Pedro e Catarina (os Grandes) parecem ter instintivamente percebido isto, embora eles ainda, tristes, capturam o conteúdo contagioso para o monasticismo através do contato com os polemistas ocidentais.

Gogol pensava que a Igreja era o veículo do autêntico Iluminismo, não um impedimento (Pedro e Catarina) ou seu inimigo (Voltaire).

A inteira e total visão de vida permaneceu na Igreja Ortodoxa, manifestamente mantida em reserva para mais tarde e para uma educação mais completa do homem. Ela tem o espaço não apenas para a alma e coração do homem,, mas também para sua razão, em todos os poderes supremos; neça está o caminho e a estrada pela qual tudo no homem se tornará um hino harmonioso do Ser Supremo...
... Iluminar não significa ensinar ou edificar, ou educar, ou até mesmo iluminar, mas iluminar um homem através de todas suas faculdades e não apenas se sua inteligência, tomar toda sua natureza através de um fogo purificador. Essa palavra é emprestada da nossa Igreja, que pronunciou por quase mil anos, apesar de toda a escuridão e melancolia ignorante que rodeia por todo lado, e sabe o porquê pronuncia. Não é por nada que o bispo, em celebração do serviço, elevando com uma mão o candelabro de três braços, que significa a Santa Trindade, e com a outra o candelabro de dois braços, que significa a descida à terra do Verbo em sua dupla natureza, Divina e humana, através desses [gestos] clarifica tudo, pronunciando 'Que a Luz de Cristo ilumine tudo!' Não é por nada também que num outro momento do serviço soam trovoando, como se fossem dos Céus, as palavras: 'Senhor da iluminação!' e nada mais é acrescentado.

Os arquitetos originais do ideal e seus expoentes durante o Iluminismo francês, apesar de seu anticlericalismo, foram eles mesmos monarquistas - Voltair incluso. Estes pensadores foram mais bem-vindos em São Petersburgo do que em Paris. Muitos, de novo entre eles Voltair, mantiveram correspondência com Catarina a Grande, confidenciando grandes esperanças na Rússia.

Os verdadeiros ideais do Iiluminismo, no início, eram
1. Governo de reis
2. Tolerância religiosa (não laicismo oficial do Estado)
3. Gosto elegante na arte e na literatura

A monarquia ortodoxa fecha mais com o critério do governo de reis do que a liberal democracia.

Quanto à tolerância religiosa - um Estado laico não é tolerância de religião. É, antes disso, a forma mais alta de intolerância, desde que não dá lugar nem concede participação no governo da religião da maioria - enquanto este sistema de governo reclama ser representativo do povo.

Uma exclusão geral a priori é uma ruidosa intolerância a todas as religiões, quer seja o aspecto mais vital da vida e dos trabalhos de uma nação: o governo. Não há tolerância religiosa quando a única menção à religião garantida na Constituição ou código de lei é uma nota que não tem espaço nos assuntos estatais.

Em contraste com isso, a monarquia ortodoxa faz da religião do povo o fator determinante do Estado do mesmo modo que define a maioria dos cidadãos como indivíduos. E enquanto o Império, o Tsar e a Família Real devem ser ortodoxos, por definição, a liberdade de religião é garantida para as minorias heterodoxas e até mesmo encorajadas em frases que lembram o primeiro Edito de Milão de Tolerância de 313 do Imperador Ortodoxo.

Lemos no capítulo VII, 67, das Leis Fundamentais Imperiais Russas de 1906:

A liberdade de religião é concedida não apenas para cristãos de seitas estrangeiras, mas também judeus, islâmicos e pagãos; assim, todos os povos que vivem na Rússia podem glorificar o Deus Todo Poderoso em várias línguas de acordo com as leis e confissões de seus ancestrais, abençoando o reino dos Monarcas Russos e suplicando ao Criador do universo para aumentar o bem-estar da nação e fortalecer o poder do Império.

Sobre o gosto elegante na arte e na literatura. Parece-me, um confirmado classicista, que é óbvio que o gosto e a literatura desapareceram junto com a Realeza do mundo moderno, desde que a monarquia melhor preenche a condição de governo dos reis em comparação com a liberal democracia. A melhor prova - ninguém se importa.

Ninguém hoje sentiria qualquer desejo para ter gosto, deixar de lado o gosto elegante, na arte e na literatura.

A maioria na verdade preza sobretudo o mau gosto. Elegância e (bom) gosto são tão ultrapassados! A mente hesita, os olhos rolam, o peito arfa, o coração suspira. Triste, mas assim é.

Por outro lado, a Santa Ortodoxia é a Mãe do que chamamos elegância e (bom) gosto e arte e literatura. Nossos templos e as altaneiras catedrais, abóbadas douradas e brilhantes cruzes, nossos iluminados ícones, nossos grandes compositores e incomparáveis escritores juntos com seus temas, assuntos e inspiração. Tudo isso vem da Santa Ortodoxia. Tudo isso foi patrocinado e apoiado pelos nossos Tsares.

***

Para um leitor moderno, uma pequena nota sobre a viabilidade da monarquia está em ordem.

Sua reação reflexiva não é algo como "Monarquia! Sério?" Esse é o auspicioso dia do roubo de identidade e armamentos nucleares. Estamos um pouco além da Realeza hoje.

Vamos consultar a Enciclopédia: "Preconceito é opinião sem juízo".

Você aprende algo todo dia, eles dizem. Hoje você aprendeu que a reação irracional é um preconceito. Que preconceito particular é apoiada em muitas asserções não-verdadeiras amplamente em circulação sobre monarquia. Que monarquia é inflexível, invariavelmente produz tiranos e que foi universalmente eliminada por oposição populista desde que as sociedades se tornaram suficientemente auto-conscientes.

Tsar Nicolau II num hospital com seus homens durante a Grande Guerra, por Pavel Rizhenko
A monarquia é inflexível? Não. As monarquias modernas provaram serem realistas e adaptáveis no início do século. Quase todas as monarquias modernas trabalharam em códigos legislativos e com corpos representativos, instituições civis, comitês consultivos, etc. A autocracia popular, invertida, emergirá no século XX na forma das ditaduras democraticamente eleitas depois que as coroas caíram ao chão.

Quanto à tirania, regimes e ditaduras muito mais brutais e opressivas surgiram no mundo moderno sob os auspícios e em nome da democracia, muito mais brutais e opressivas do que qualquer outra monarquia feita na história.

Finalmente, a maioria das monarquias caíram principalmente como consequência das Guerras Mundiais e foram forçosamente prevenidas de serem restauradas por poderes estrangeiros - mais conspicuamente o ferozmente anti-monarquista Estados Unidos da América. A presença de Woodrow Wilson em Versalhes é o início de um longo hábito dos EUA de interferir muito além da sua esfera legítima de interesses nacionais.

O Kaiser e o Sultão desaparecem depois da Primeira Guerra Mundial; o primeiro foi completamente proibido de ser restaurado, enquanto o segundo não foi de interesse britânico ou francês.

Os monarcas europeus orientais todos caíram sob a sombra soviética no pós-guerra - seu destino decidido por dois poderes anti-monárquicos vitoriosos: a URSS e os EUA.

De todas as monarquias modernas que terminaram na memória recente, três foram a consequência da oposição populista e só uma delas envolveu um referendo democrático (Itália, em que 59% votou pela república).

***

A restauração da monarquia ortodoxa dificilmente precisa de minha defesa. Prejuízos e estroinices à fora, é óbvio que uma monarquia poderia governar um país com sucesso, defender seus interesses e facilitar os direitos legais de seus cidadãos tanto quanto uma liberal democracia ou república democrática.

E se é a vontade de que o povo do país, como será em tempos na Federação Russa, então o verdadeiramente representativo governo poderia ser uma monarquia.

Ver parte I (Gogol e o Mundo Russo)
via souloftheeast

sábado, 18 de julho de 2015

Gogol e o Mundo Russo


Nikolai Gogol não é um escritor muito bem conhecido no Ocidente. A imagem dele se adquire em fontes em inglês - Wikipedia e introduções à traduções de sua ficção - é um escritor talentoso, mas não realizado. Um nacionalista cripto-ucraniano apesar de nunca escrever em Ucraniano, mesmo quando escrevia em casa para sua mãe. Um religioso fanático até o fim de sua vida e finalmente, ridiculamente, talvez um homossexual. Sua ficção é pouco apreciada, desesperadamente mal interpretada e superficialmente analisada, e seu pensamento fora disso é quase desconhecido.

Mas Gogol teve muito a dizer. Sobre Deus, sobre a Santa Igreja, Rússia, Europa, iluminismo, futuro. Estes temas o dominam e preocupam inclusive em sua ficção.

Sem tentar um estudo exaustivo de seu pensamento com constante referência ao seus escritos sobre todos os temas enumerados, eu gostaria de comentar sobre ele, desenvolver seu pensamento no contexto dos nossos dias que temos diante de nós, e fazer precisamente porque seus insights são tão vivamente relevantes agora.

Gogol viveu com seus olhos no futuro esperando pelo melhor. Não, como muitos frequentemente, com eles fixados sobre o que é comumente apenas uma caricatura auto-maquinada do passado e realçar o pior. Muito do que ele disse é assim. Muito do que ele antecipou aconteceu. E nós podemos investigar em que ele esperou de melhor.

O que eu escreverei parecerá ingênuo. Sejamos ingênuos. Se fôssemos um pouco mais seriamos todos muito mais felizes.

***

Русь! Русь!
. . .Что пророчит сей необъятный простор?
 Здесь ли, в тебе ли не родиться беспредельной мысли,
когда ты сама без конца?
[Russ! Russ!
... O que a vasta extensão prevê para ti?
Por acaso ela não nasce dos pensamentos infinitos,
já que tu mesma é infinita?]

Você fez seu voo nos bons tempos e a taça de champanha que brilhou no salão incandesce dentro de você enquanto você se acomoda. Lembra como soou quando foi derramada? Você pôs sua bolsa em cima, caminhou para seu assento na janela e se afundou na almofada. Desliga seu telefone. Por acaso a aeromoça não é bonita? É sim.

Quando chega em Moscou no Aeroporto Internacional de Sheremetievo há duas capelas para escolher na qual rezar. Depois que você fez o sinal da cruz pela última vez e beijou as portas na saída - você pode querer pegar o trem. E então quando você o pega você pode ligar o rádio e ouvir a vida dos santos e a história da Santa Russ.
Processão em São Petersburgo

Quando chega ao apartamento do seu amigo ou faz o check-in no hotel, você pode querer ligar a televisão por apenas uma hora, ou mais, antes de tomar banho. E você encontrará documentários que exploram frequente e excelentemente os assuntos ortodoxos. Uma novela em torno de um ícone. Um seriado de televisão sobre a Guarda Branca.

Mas não se acomode tanto. Você não pôde dispor que o hotel e seu amigo pudessem assistir 1612, um filme esplêndido sobre a derrota dos invasores poloneses vindos de fora da Moscou Ortodoxa.

A Rússia é hoje um país ortodoxo. A Federação Russa é o maior pode ortodoxo no mundo hoje.

Aproximadamente 7 a cada 10 russos são ortodoxos. De acordo tanto com o Centro Levada como com o Patriarcado de Moscou, o número aumenta.

Ícones retornaram, templos e mosteiros são restaurados, novas igrejas são construídas - em um ritmo de quase 1 por dia.

A educação religiosa está aumentando, e o comparecimento no Domingo está melhor a cada ano.

E isto é apenas o começo. Quais são as possibilidades?

Eu não pergunto o que podemos esperar, já que expectativas aqui estão fora de lugar. A convicção religiosa considera a livre consciência dos indivíduos. 50 anos antes da Revolução de Outubro ninguém poderia esperar o erguimento do comunismo soviético. E ninguém que viu a Revolução pôde esperar o milésimo Aniversário de Batismo da Russ. Possibilidades, na Rússia, são o que podemos pensar de melhor. A troika de Gogol, escancarando bocas em espanto na medida em que toma um caminho, apesar de tudo, pode prever. Mas as possibilidades, pelo menos, como eu disse, podem ser consideradas. Eu gostaria de focar em uma.

Suponha, conceda, imagine que a Santa Ortodoxia continue rapidamente satisfazendo as mentes, os corações e as almas de cada vez mais pessoas russas nas próximas décadas. Quais são as possíveis consequências e implicações geopolíticas disso? Eu tenho três que penso serem dignas de análise.

1. Unidade, cooperação e mente comum da Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, pelo menos em nível público e não no político (no caso de Kiev: quase certo que não neste último caso). Ou seja, o mundo russo (Русский мир).

2. Monarquia ortodoxa como uma viva possibilidade, pelo menos na Federação Russa.

3. Monarquia ortodoxa como modelo de governo, e ainda mesmo se não ressurgir a monarquia ortodoxa, um competidor em alguns lugares: uma alternativa à democracia liberal do Ocidente. Nestas instâncias onde um tal modelo de governo pode ser alternativa viável, este será o mundo ortodoxo (Православный мир).

Estou perfeitamente consciente e igualmente confortável de que todas as três possibilidades acima não serão consideradas boas por muitos leitores. Muitos descartam a primeira como sendo uma corrente tão fraca que não será capaz de aguentar o fardo de quaisquer esperanças. A segunda até mesmo Vladimir Vladimirovich publicamente descartou como impraticável. A terceira é material de imaginação da Rússia contemporânea, da postura do Estado e do orgulho histórico.

Mas depois da reação reflexiva, que eu generosamente permiti a você, pensemos um pouco sobre se haverá ou não algo do tipo.

Eu não quis tratar as três sistematicamente ou ainda necessariamente em ordem. Apenas tudo que eu disse circulará em torno de um ou outro de todos os três pontos.

***

É sobre o primeiro ponto que Gogol tem algo a nos dizer.

Gogol viveu em um Império Russo em que a Grande Rússia, a Pequena Rússia e a Rússia Branca estiveram unidas pela fé, pela esperança e pelo amor. Depois do colapso da URSS surgiram os nacionalismos e países surgiram - Federação Russa, Ucrânia e Bielorrússia. Mas nenhum amontoado de votos pode alterar a história. Ainda há uma cultura e uma memória comum. O termo cunhado para isto é o Mundo Russo.
Maly Kitezh, por Ilya Glazunov

A Russ que se tornou Império Russo tem seu início na conversão do Grande Príncipe Vladimir cuja capital foi Kiev, mãe de todas as cidades russas cuja fé cristã ortodoxa foi herdada de Bizâncio.

Nossos ancestrais fora batizados na água viva de Dnieper - a Dnieper que flui através da Ucrânia, da Rússia e da Bielorrússia. É isto que une a maioria dos russos, ucranianos e bielorrussos, e que pode unir todos nós de um modo que nem mesmo o nacionalismo estatal pode (nota: o nacionalismo estatal é um nacionalismo baseado na fidelidade ao Estado muito antes do que à etnia).

Há uma Russ histórica que é a fonte compartilhada e história comum de todos os três países contemporâneos - e há uma Igreja Ortodoxa Russa da qual a maioria em todos os três países são filhos e filhas.

Quem não notou que as fronteiras e a pronúncia importa menos para os dois povos ortodoxos? Em minha experiência, como Gogol foi um descendente de ucranianos, encontrei pessoas da Rússia que não enxergam diferença alguma entre mim e eles, mesmo com meu sobrenome rústico derivado de algum grão. (nota: o próprio nome Gogol é estranho o suficiente).

Então encontrei pessoas que têm um respeito "legal demais" por Deus, o epítome de russos que têm certeza de que eu sei que minha família não vem da Federação Russa, e que gracejam a minhas custas sobre a suposição de que as bocas ucranianas estão cheias apenas de linguagem chula, vodka ou varenniki. Nós os vemos como se fossem um centímetro maior que um bonobo em nosso desenvolvimento mental.

A mais sincera e séria está na Fé Ortodoxa, quanto mais eles conhecerão sobre a história da Santa Russ. Mais familiar com a vida dos santos e histórias de monastérios, locais de catedrais e templos. Espalhadas por todos os três países, mais inclinados ficamos a visitá-los. Quanto mais contato, mais unidos e menos pessoas estrangeiras serão uns aos outros.

A Santa Ortodoxia é o único poder unificador deixado por um momento antes que fôssemos "outros" uns para os outros. Tomados em conjunto com o fato de que o ensinamento da Igreja é inteiramente amor, bondade, não julgamento, harmonia de espírito, pureza de alma e balanço da mente. Supondo que por isto é que russos, ucranianos e bielorrussos estarão trabalhando ao alcançar e tentar seu melhor na prática. Ou até mesmo com estas coisas incansavelmente mantidas diante deles na vida e na devoção à Igreja. Paz, estabilidade e cooperação seriam consequências bem-vindas.

A Santa Ortodoxia é supra-racional. Os políticos e oligarcas não podem se opor ao inevitável. Unidade. E se o governo nesses países é representativo, a política virá para refletir isto.

A unidade do Mundo Russo hoje se estende a uma Fé compartilhada, a um calendário, uma cultura e uma história em comum. É possível que haja um nível ainda superior de unidade, um caminho aberto pela Santa Ortodoxia com destino à esta unidade?

Via souloftheeast

domingo, 28 de junho de 2015

Dostoievsky sobre o conservadorismo


Fiodor Dostoievsky foi bem considerado como um profeta da idade moderna. Com uma profundidade inigualável de sua visão, ele viu que a desordem cultural, política e econômica tem sua raiz em uma crise do espírito. Dostoievsky previu como a rebelião do homem contra o Transcendente progressivamente aceleraria para uma anarquia total. Essa ideia se tornou tema central de Os Demônios (ou Os Possessos), sua grande novela contra-revolucionária. Nesse livro foi dada atenção particular para a corrupção do espírito da classe dominante, os assim chamados elementos conservadores da sociedade.

Dostoievsky escreveu sobre a Rússia, mas ele também era profundamente sensível à decadência do Ocidente rumo ao secularismo. No século XIX, o homem europeu "iluminado" arremessou sua cabeça na apostasia, abandonando Cristo para a adoração de si mesmo; seu primeiro ato de regicídio foi o assassinato de Deus em seu coração. Sem autoridade sacra, o poder foi considerado um derivado da vontade perfeita do "Nós, O Povo", guiado por manipuladores endinheirados e tecnocratas. Partidos como o GOP e os Tories não fizeram nada para impedir o declínio das nossas sociedades porque eles compartilhavam os mesmos princípios radicais e anti-tradicionalistas da Esquerda. Como prova, vejamos a rápida transformação da Bretanha em um Estado criminoso, multicultural, onde os conservadores consideram o "casamento" homossexual como uma questão de legitimidade moral.

Os ideais da modernidade, manifestados no progresso, igualdade, democracia, total autonomia individual, etc., formam uma religião falsificada. Na medida em que o auto-proclamado Direito descamba rapidamente para qualquer uma dessas fantasias, a oposição ao liberalismo é insignificante e puramente cosmética. Os acenos retóricos à consolidação cultural, i. e., "valores familiares", são articulados dentro do quadro corrosivo da ideologia dos direitos do Iluminismo, e tão somente para o propósito de arrecadar votos (pegamos como exemplo a "direita" brasileira, que supostamente defende a família tradicional e a erradicação do aborto, mas que não o faz por um propósito tradicional, e sim para angariar votos, pois seus princípios são o mercado de trabalho e ainda dentro da família eles reconhecem a função principal do "indivíduo" nesse mercado, N. do B.). Alguém ainda consegue seriamente pensar que a liderança republicana tentará alguma coisa contra o infanticídio institucionalizado? Para que não esqueçamos, mais de 50 milhões de crianças foram assassinadas nos EUA desde que o aborto se tornou legal pela Suprema Corte em 1973. E é agora um ponto de orgulho que os homens e as mulheres americanos lutam por estas lendrárias liberdades do Hindu Kush ao Magreb.

Com o Ocidente tradicional devastado e hierarquicamente invertido, há muito pouco para conservar ao lado da fé e da herança de alguém, as necessidades da sobrevivência e ressurgência. Mas os conservadores modernos rejeitam a essência divina-humana e sincera da cultura, assim servindo como os defensores mais ardorosos da ordem liberal. O quão fácil é instigar a próxima guerra, a dissolução dos povos para o lucro das empresas e o crasso divertimento popular, todos os atos na base de um Jardim das Delícias Terrenas, o que Dostoievsky imaginou como um formigueiro glorificado. O movimento conservador sabe o que é importante: generosas contribuições das indústrias financeiras e de defesa para manter as políticas de centralização oligárquica e o império sobre mares.

O principal Direito levou o Ocidente ao colapso cultural sistêmico em total colisão com a extrema Esquerda. Os Demônios de Dostoievsky revela as dimensões espirituais e intelectuais desse longo processo e o malevolente espírito por trás disso. Uma conversa entre o governador da província, Von Lembke, e o revolucionário niilista Peter Verkhovensky facilmente encapsula a mentalidade e o caminho do conservadorismo na era moderna.

"Nós temos responsabilidades, e como um resultado nós também servimos a causa comum como você. Nós estamos apenas segurando o que você perdeu e o que sem nós se dispersaria em várias direções.

Nós não somos seus inimigos; dificilmente. Estamos dizendo a você: vá adiante, faça progresso, até mesmo destrua, ou seja, tudo o que é sujeito à mudança; mas quando necessitado, nós manteremos você dentro dos limites necessários e salvá-lo-emos de si mesmo, porque sem nós você só mandaria a Rússia para revoltas, privando-a de uma aparência própria, e nosso dever é olhar para as aparências próprias.

Compreenda que você e eu somos mutualmente necessários um ao outro. Na Inglaterra, os Tories e os Whigs também precisam um do outro. Então agora somos Tories, e você os Whigs..."

"Bem, no entanto você gosta disso", murmurou Peter Stepanovich. "Não obstante você está pavimentando o caminho para nós e preparando nosso sucesso."

Desvele as próprias aparências, e se tornará claro que o conservadorismo é a manufatura do niilismo revolucionário.

via souloftheeast

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Louis Ferdinand Céline: uma febre obsidional

por Manuel Fernández Espinosa, 27 de maio de 2015

Louis Ferdinand Auguste Destouches, mais conhecido como Louis Ferdinand Céline, nasceu em um dia como hoje, em 27 de maio de 1894, em Courbevoie. O sangue bretão que corria em suas veias teve que lhe dar esse toque melancólico, tão céltico, que às vezes se soma em sua obra. Em seu "Carnet do couraceiro Destouches" que, até certo ponto, constitui um caderno introspectivo, chega a se perguntar: "sou poético? Não. Não creio; só um fundo de tristeza há no fundo de mim mesmo, e se não tenho o valor de afugentá-lo com uma ocupação qualquer adquire em seguida grandes proporções".

Toda sua obra é um testemunho vital de alguém que nunca viu a si mesmo como um herói, mas como um sobrevivente. O "Viagem ao Fim da Noite" (sua novela mais famosa) nos pinta suas peripécias através das de seu alter ego, o protagonista do "Viagem...", Ferdinand Bardamu. Novela de aprendizagem, com um forte caráter picaresco, Céline lançou com ela ao mundo seu grito de rebelião. Uma rebelião com causa, a do indivíduo inteligente que não pode ajudar a salvar a entrada na dinâmica da sociedade hipócrita que o absorve, mas que resiste e que descobre que os valores estanhados, por muito que brilhem, não correspondem a nada autêntico. Céline sempre teve a ideia, alguns diriam que paranóica, de que foi o "Viagem..." o que nunca o perdoaram: "Se me procuram é pelo 'Viagem...' Uivo sob machado! É uma conta pendente entre eu e 'ELES'! no mais profundo... que não se pode contar... Estamos em perigo de Mística! Que coisa!" - escrevia em um prólogo retrospectivo para esta novela.

Os panfletos antissemitas de Céline lhe trariam nojentas consequências depois da Segunda Guerra Mundial. Pouco valeu alegar que seus livros foram proibidos na Alemanha hitlerista. A sorte estava lançada para ele: considerado como um colaborador, conforme os aliados iam lhe comendo o terreno dos alemães, Céline empreendeu uma fuga pela Europa central (poderíamos dizer que foi um prolongamento da viagem ao fim da noite, da noite que se alongava na Europa, da noite que persiste ainda hoje); com sua fuga escapava dos linchamentos que perpetravam na França os carrascos da mitificada "resistência", brutais represálias que ninguém condenou, que foram perpetradas contra aqueles que eram tachados de colaboradores. Certamente, a situação de Céline foi se agravando progressivamente conforme o Reich sucumbia e, por fim, pôde se refugiar na Dinamarca, onde foi preso para julgamento e, se os dinamarqueses tivessem-no entregado, Céline teria sido executado como tantos outros franceses; mas, isso sim, sem saber de fato nem a metade que outros que, para mais escárnio, esnobavam-se de terem combatido os nazis.

É o caso de Jean Paul Sartre ou Simone de Beavoir. Sartre, o guru do existencialismo e da "divina gauche", viveu pacificamente, até mesmo com êxito, enquanto os alemães acampavam em suas costas em Paris: as autoridades alemãs de ocupação permitiram a publicação de algumas obras de teatro do estrábico: o livro de Gilber Joseph, "Uma ocupação tão doce: Simone de Beavoir e Jean Paul Sartre, 1940-1944" revelou que Sartre jamais entrou em conflito com os nazis, por muito que depois - depois da vitória aliada - adotaria a pose de irredutível resistente intelectual. E sua companheira, a Beavoir, diva do feminismo, não teve nenhuma indigestão em colaborar com as emissoras do governo colaborador de Vichy. Não obstante, ninguém os torturou. Mas o Céline, ele sim: não fez tanto como estes dois que gozam de um prestígio imerecido, mas todos se opuseram a ele.

No "Viagem..." já havia indícios de uma suposta paranoia celiniana, mas a hostilidade que deverá sofrer depois da vitória aliada incrementa essa sensação de isolamento até mostrar uma febre obsidional como encontraremos em poucos casos da literatura. Seu estilo sincopado, seus pontos suspensivos, seus pitacos, suas crudelíssimas afirmações sobre homens e a vida imprimem em sua obra uma inconfundível nota de identidade. Céline soube transportar a vivência da linguagem oral para a escrita, podemos ler por aí; mas não é o único que pretendeu (talvez) Céline: nesses lapsos se entrevia o silêncio, o silêncio que sempre será uma constante tentação para um espírito orgulhoso que não se curva para qualquer coisa. Um orgulho de resistente que se reserva a totalidade do juízo , que lhe merecem as pantomimas e as grandiloquentes palavras dos valetes bem vestidos, bem reafirmados e pensantes; o orgulho, enfim, de quem não aceita ser presa de seus inimigos (a humanidade toda, descontando os mais próximos), que ri às gargalhadas de todas as mentiras do seu tempo (que também são as do nosso), de quem não pactua com as ficções que a maioria compartilha. Pontos suspensos... Não há palavras para expressar a repugnância que provocam tantas coisas como nos circundam: podemos ser barulhentos e loquazes, mas sempre (...) poderíamos ter dito muito mais (...)

Céline soube cultivar sua imagem iconoclasta e irredutível, mas o traço de toda sua nobreza residiu em que não o fez por cálculo ganancioso, mas por seu inexpugnável orgulho, o de que se sabe inocente e não dá gana de ser imolado nem se prestar a que o machuquem, com a convicção de ser um homem só, acompanhado de sua mulher, de seus mascotes e de poucos amigos, que não militou nunca em partido algum, que só queria se dedicar a escrever e que encontrou em suas adversidades a matéria para criar uma obra colossal que o mesmo faria chorar que rir e que, até seu mesmo adversário, Sartre, mimado pelo aparato cultural, teve que reconhecê-la como monumento imperecível da língua francesa.

Querer ser si mesmo se paga muito caro. Bem o soube Céline. Por isso, lê-lo é sempre um exercício de rebelião muito proveitoso que ajuda a ser si mesmo e purga muitas falsidades que nos querem impor.

domingo, 31 de maio de 2015

A Redimida Prostituta em Crime e Castigo e Outros Trabalhos de Dostoievsky

por John Barthelette

A prostituta é uma curiosa fixação da literatura na era Vitoriana. Nos trabalhos de William Thackeray e Samuel Richardson era quase clichê para a heroína acabar em casa de prostituição e então para transcender a situação em uma mostra das próprias morais vitorianas. Tendo muitas jovens sido forçadas à extrema pobreza para tomar o ofício de uma mulher perdida, Fiodor Dostoievsky, um pequeno-burguês caído em tempos difíceis, tomou uma diferente abordagem em todo o assunto; ele reconheceu que essas mulheres não são de total sem-mérito como muitas pessoas pensavam na época. Georg Brandes falou muito bem quando disse: "Dostoievsky explorou esses assuntos através dos caracteres da prostituta em muitos dos seus trabalhos. O mais famoso desses caracteres são encontrados em Crime e Castigo, Notas do Subsolo e em 'A Dócil'. Cada um desses apresenta uma abordagem única para a condição das prostitutas e o problema da sua redenção.

Em Crime e Castigo, Dostoievsky usa a personagem Sonia Marmeladov, cujo primeiro nome significa sabedoria, não só para ilustrar a misericórdia divina com relação à mulher decaída, mas para ter dela sua própria salvação e a de Raskolnikov através da misericórdia divina. Como na parábola dada pelo padre Zossima em sua morte na cama, em Irmãos Karamazov, a conexão inicial de Raskolnikov com Sonia no Livro I funciona como uma "semente" que mantém ele seguro de ser abandonado pela graça divina. Como a velha na parábola foi sem-mérito, exceto pelo fato de que ela deu ao mendigo uma semente, Raskolnikov carece de mérito depois de seu assassinato, exceto pelo fato de que ele teve caridade para com a família de Marmeladov. Ele estava totalmente desligado da sociedade por sua caridade para com aquela família necessitada. Assim essa conexão seria pervertida se não fosse pela virtude de Sônia. Quando ele confessa seu abominável crime para ela, ela chora em desconsolo por ele e o incita a salvar-se pela confissão. O ponto de Dostoievsky aqui é que tomando a si como anátema da sociedade e de Deus, Raskolnikov é destruído pelo seu próprio espírito. Ele não está permitindo a si mesmo a função devida que tem-lhe sido dada, e uma casa dividida contra si mesmo não pode permanecer. Então, Raskolnikov não pode sobreviver como um homem em um mundo destruído e rompido além da compreensão pelo seu ato de violência e dissidência social. A Providência está ilustrada aqui: Raskolnikov não pode sobreviver sem a ajuda de Sônia, mas nem a Sônia teria sido salva se Raskolnikov não viesse com intuito de se salvar ele próprio; ela poderia ter continuado no rumo à perdição do qual seu impulso de caridade a arrancou.

O que Dostoievsky está ilustrando aqui? Ele nos mostra a crueldade da luta interior e o fato de que essa luta pode ser vencida somente através do poder da graça e do arrependimento. Sônia luta com o fato de que ela própria é uma casa dividida. Por um lado ela é o epítome da sabedoria e da solidão, e por outro ela é o instrumento do prazer humano. Essa flagrante contradição não pode se sustentar; Sônia deve escolher um caminho ou o outro. Raskolnikov também demonstra sua contradição inerente: ele é um tão puro bondoso quanto um puro malvado. Essa mistura de pecado e sadismo, de pureza e esperança não pode sobreviver, não pode permanecer como um todo coerente. A loucura espera aqueles que deveriam tentar ser nem uma coisa nem outra. A balbúrdia das emoções de Raskolnikov e a culpa o dirigem a confessar-se com a ajuda de Sônia, e com ajuda dele Sônia foge de sua vida depravada a buscar um nível superior de existência na estética Sibéria. O último homem decaído pode apenas ser compreendido por uma última mulher decaída. O tema da mútua redenção é melhor visto através dos olhos de uma Eva e um Adão, e Dostoievsky usa essa ideia para engrandecer o efeito. Henry Miller expõe o âmago por lembrar: "Dostoievsky é caos e fecundidade. Humanidade, com ele, é nada mais do que um vórtice no borbulhante turbilhão".

Em Notas do Subsolo, Dostoievsky revela uma visão sobre prostituição e salvação que é muito mais reminiscente do "Paraíso Perdido" de Milton do que do "Paraíso" de Dante. Essas notas são reflexões de Dostoievsky sobre aspectos mais obscuros dos seus anos de devaneio pelas ruas de São Petersburgo, e ele invoca a esperança de um homem tão atolado em sua própria imundície mental e auto-ódio que regozija-se em sua doença, busca humilhação, e é a criatura mais perversa que se pode imaginar. Depois de tentar jantar com os velhos amigos do colégio, mas simplesmente se embaraçar todo e machucando a todos em torno dele, o Homem do Subsolo encontra uma puta sobre a qual inflige sua vitriólica carência de auto-estima. Ele encontra Liza, uma funcionária de um bordel. Seguindo a conubial atividade do Homem do Subsolo, erigida por um estranho impulso, começa a contar para Liza do fato inevitável de todas as prostitutas: ser usada, usada de novo e abandonada. Ele oferece-se para continuar conversando com ela e ser seu amigo, e ela tentativamente aceita. Essa é a abertura da graça para ambos deles: uma chance tanto de abrirem-se e reviverem o que há de humano neles. No entanto, o Homem do Subsolo está demasiadamente acostumado a usar de imundície, artimanhas e perversões mentais; quando Liza vem, ele rejeita sua amizade com ela violentamente. Duas almas completamente estranhas da humanidade permanecem assim para sempre porque não puderam cooperar um com o outro na graça. Este cenário toma o problema confrontado por Raskonlikov e Sônia e nos incita a considerar um final alternativo: um fim no qual o existencialista Homem do Subsolo "vence" a batalha contra sua humanidade e Liza se permite voltar para a penúria e para a prostituição. Os finais trágicos dessa história considerada à luz do epílogo de Crime e Castigo nos mostra apenas o quão ambos Sônia e Raskolnikov foram sortudos e o quanto ser aberto para a graça, ser honesto com seu próprio estado de ser, é em geral o bastante para Deus ajudar-nos através das crises de consciência.

Para uma mais refulgente compreensão de "A Dócil" vamos primeiro considerar outro caractere em Crime e Castigo, Dúnia, que gasta a maior parte da novela à beira da prostituição de outro tipo: prostituição espiritual. A ela Luzhin propõe casamento, um homem que deseja controlar os pensamentos, as mentes, e os corações de tudo em torno dele. Ele é um aborrecedor do pior tipo. Dúnia fugiu de uma posição sob o cruel Svidrigailov para evitar uma prostituição explícita, mas agora por amor de sua mãe e irmão ela é compelida a vender seu espírito tanto quanto o corpo. Dúnia é um tipo forte que vemos que é forçada em seu engajamento, tanto por seu próprio sentido de obrigação como por outros impulsos, ela vai à loucura e se mata. Esse é um fato terrível que sua família felizmente encontra um meio de inverter. No entanto, a heroína de "A Dócil" não é tão sortuda. Essa jovem moça está na mesma situação de Dúnia, ela só quer casar com seu Luzhin e se matar. Essa é a terceira possibilidade para uma mulher que vendeu sua alma: a "vitória" existencial da auto-destruição e a fuga da esperança. Como Ofélia, ela escolhe seu caminho longe das dificuldades da vida e desiste de sofrer para sofrer, desiste da loucura para loucuras piores, e cai no abismo ou do nada existencial ou da retribuição cristã.

Dostoievsky ilustra algumas ideias importantes quando examina a prostituta nos trabalhos que discutimos. Ele nos mostra que até mesmo os mais baixos dentre os inferiores são amados pelo Pai, e através dos seus sofrimentos ganham mérito. Em segundo lugar, ele nos mostra o fato de que eles também podem se salvar e podem funcionar como instrumentos da graça. Mas, o mais importante, ele nos conta que sem nossa tentativa de transcender nossa natureza pecadora acabaremos decaindo igual o Homem do Subsolo, ou então saltar para nossa morte espiritual e física como a heroína de "A Dócil" fez. Nós todos somos Raskolnikov, todos somos Sônia. A chave é lutar, lutar mais agressivamente e lutar sempre para alcançar a perfeição perdida para nós e inalcançável sem Deus.

Trabalhos citados e consultados:

-Dostoevsky, Fyodor. Crime and Punishment. Trans. Constance Garnett. New York: Bantam, 1981.

-Dostoevsky, Fyodor. The Brothers Karamazov. Trans. Constance Garnett. New York: Signet Classics, 1999.

-Dost. Research Station. Ed. Christiaan Stange. Vers. ? 17 July 1999 - kiosek.com/dostoevsky/quotations.html

-Martinsen, Deborah A., ed. Notes From Underground, The Double, and Other Stories. New York: Barnes and Noble Classics NY, 2003.