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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O Confronto: Dugin, Fukuyama e Krastev

Por Flavia Virginia

Steve Paikin da TVO - âncora da mídia educacional canadense de Ontário, o mesmo entrevistador de Michael Millerman em Dezembro passado - convida o filósofo russo Alexandr Dugin, o político-cientista norte-americano Francis Fukuyama e o búlgaro presidente do Centro de Estratégias Liberais (Sofia), Ivan Krastev, para discutir suas perspectivas sobre um punhado de temas no campo político.

Os caráteres

Steve Paikin é o âncora da TVO - não muito inteligente, mas esperto o bastante para fazer duas coisas importantes: jogar a bola para Fukuyama sempre que necessário; convidar uma pessoa para fazer o papel que ele não poderia fazer como um convidado, mas precisa de um empregado liberal: Krastev, o descrente.

Fukuyama aparece como um liberal de moda antiga: operando através de mentiras físicas e metafísicas, levando seus credos e maneiras liberais, para o indissimulado contentamento de Paikin. Ele é certamente um habitué no show e se sente confortável, e também fatigado. O que ele faz ali? Vende seu livro, agradece seus empregados, troça as pessoas com algumas técnicas refinadas - o que é comum.

Krastev, por outro lado, é um liberal pós-moderno contemporâneo, que procede via verdades virtuais, ou seja, verdades que não convêm humanamente. Ele é, assim, mais preparado aos aspectos dividualistas da próxima época (pós-modernidade), e oferece suas bênçãos em uma conversa que terminará como que "por que confiar em instituições que falharam conosco? Atualmente, se é livre para criar/recriar a gama de relações, o modo como se trabalha, o sexo; portanto, é puramente natural que também se escolha sua política, uma política que fecha precisamente com você! Espere apenas dez minutos, estou preparando um app que ajudará você a fazer isto!"

O app não vem, não porque os mestres não podem fazê-lo, mas porque seu dever é gerar um topos de descrença, um vácuo epistêmico, uma desesperança epistêmica. E ele é bom nisso.

Alexandr Dugin pacientemente e etnosociologicamente faz o papel do Outro, de que o liberalismo não pode permanecer de qualquer modo. Ele explica que outros povos podem querer, e querem, destinos feitos por eles mesmos e que o direito de não-interferência é uma dignidade pela qual se deve lutar. Ele também cria uma ponte vanguardista, mas difícil de sustentar, entre passado e futuro, entre tradição e uma Pós-Modernidade feita por cada povo sem a intrusão do Ocidente. Ele explica como o sofrimento, por exemplo, é visto como parte natural da vida russa. Ele está querendo problemas.

Os Dogmas Principais

Os de Fukuyama:
1- Nunca ir ao núcleo das coisas - "Nós [EUA] não somos bons em democratizar países". Mas então de novo, quem no mundo perguntou a você para fazer isto "por nós"? Esta questão tem de ser respondida honestamente - o fato de Paikin não fazer esta questão prova que o show é vendido.
2- Substituir a verdade por correção política - "Democracias liberais não lutam entre si". A ideia é misciva no mínimo por três razões:
2.1 - o problema com esta afirmação está não só na exatidão em si (houveram guerras entre democracias), mas também no fato de que seu credo é precisamente o que leva à guerra entre outros tipos de regime, que são considerados intrinsecamente um crime punível pela guerra; portanto, a afirmação reconhece sua visão prejudicial do Outro como um fenômeno e legitimiza a necessidade de sua morte;
2.2 - a guerra, então, assume uma variedade de funções que, acima de tudo, enfraquecem o valor da vida, que o liberalismo pretende defender, precisamente, a todo custo; a guerra é um sistema fechado de negócios com a participação de alguns terceiros partidos, que fecham com os interesses dos próprios grupos específicos e, por aquelas razões extremamente importantes, não tem de seguir qualquer papel internacional, incluindo o "acordo de gentlemen" estabelecido acima;
2.3 - até mesmo antes da guerra, no entanto, precisamos tomar em consideração outras formas de opressão, como a economia, violência, corrupção, patrocínios de ditaduras, mercado negro, psicologia farmacêutica, substituição de cultura por subculturas, etc., todas elas muito mais "corretas" no quadro discursivo.
3 - tão logo que os princípios soam politicamente corretos ou têm chegado ao nível de cega conformidade, os meios para se chegar a eles e as consequências não contam, deixando de existir no discurso epistêmico liberal - "Há uma obrigação moral para apoiar povos que querem ser auto-determinados". Sim, como no Iraque, levando democracia através do sangramento do povo se supõe salvá-los através da democracia.

Os de Krastev
1 - concordando e discordando na mesma sentença para dissimular suas visões reais e assim manter-se trabalhando por seu mestre, executando suas ordens: descreditar, confundir e, acima de tudo, não deixar espaço para uma conclusão pessoal de parte do telespectador. Krastev vai como "Não quero, não vejo, não creio". Ele soa como um homem no meio do caminho, mas ele é realmente bem assentado na presidência do seu Centro de Estratégias Liberais.

2 - não há confiança possível. O que estava certo é o que ultimamente estava errado. Coisas fora de si. Ou, nas entrelinhas, criar um NGO e obter algum dinheiro para pesquisas de liberais, que é o que melhor pode fazer;

3- Claro que apoia a União Europeia acima de tudo (não está dito lá, mas quase em tudo o mais em sua obra).

Os de Dugin

1 - ele representa o Outro total: tudo que foi antes virtua, tudo que deve existir depois. Dugin deve seguir adiante - nós somos a verdadeira maioria, mas temos muito poucos profetas para lutar nas velozes arenas. Ademais, para lutar com virtualidade. Verdade para manter, apenas não-liberais podem compreender sua mensagem. Entretanto, somos muitos e o que mais precisamos agora é representação.

A moral: vamos traduzir mais dos seus trabalhos, treinar mais pessoas para estar no fronte e vamos nos unir por liberdade.

O Sentido Final

Tanto Fukuyama como Krastev sempre se submeteram a um quadro institucional, nunca chegando ao papel da espiritualidade, da coletividade, da família como entidades outras além das institucionais. Por sua vez, a Igreja existe para atender "momentos" religiosos; como votar ou participação política substitui a coletividade e a família está realmente sob ataque. A pessoa não é vista como um todo, e esta não-antropologia ou pós-antropologia é tão importante para suas ideologias ocultas como a nossa antropologia holística é central para a Quarta Teoria Política.

Isto fica bem claro quando Fukuyama diz "eu não penso que a cultura guia as características humanas que transcendem a cultura - ou seja instituições políticas contam para a cultura", ou com Krastev repetindo "a cultura muda". O resultado desse pensamento é que as identidades podem ser substituídas por qualquer construto ideológico. Isso é precisamente a razão dos liberais compreenderem a cultura como uma configuração de instituições apesar da dinâmica expressão da própria identidade.

Mas, como dito antes, Fukuyama (ou o fukuyanismo) não mais representa um perigo para o cerne das instâncias tais como a Quarta Teoria Política, Eurasianismo e Multipolaridade. Essa retórica carece de pós-modernidade, ainda está cheia de cegas crenças nas maravilhas do mundo liberal ainda mesmo se Fukuyama entitula seu livro "Political Order and Political Decay". Há ainda um gosto de esperança humana aí, e isso deve ficar no passado. Essa é outra era quando povos estão sendo preparados para um profundo mergulho no niilismo. Eles precisam de um discurso nessa direção. Eles precisam estar desconectados do que está dentro, rompido e fragmentado. Uma existência virtual trabalhará como um refúgio para as mentiras que a política, uma pseudo-espiritualidade e um fácil entretenimento cria para eles. Krastev é sua meta perfeita.

Assim, ultimamente, nós temos o seguinte quadro:

-Fukuyama: permanece com o liberalismo (democracia liberal, liberdade individual, individualismo, relatividade, livre-mercado, unipolaridade, imperialismo, politicamente correto);
-Krastev: permanece com o pós-liberalismo (pós-humanidade, dividuum e dividualismo, hegemonia norte-americana/OTAN como globalização, vacuum de valores, virtualidade);
-Dugin: permanece com a Quarta Teoria Política (Tradição, Eternidade, Pós-Modernidade da Luz, Multipolaridade, Eurasianismo, Família, o Sagrado).

Nossas tarefas futuras

Precisamos reconfigurar o modo de transmitir informação e nossas ideias centrais através da mídia. Não podemos emular o modo liberal, não funciona para nós - modo demasiado oco, e somos criaturas do profundo, da amplitude e das alturas. O todo é o nome de nossa identidade, com muitos comos. Nossa principal tarefa é a desconstrução do liberalismo.

via 4pt 

Abaixo, o debate em inglês
 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Dugin: Uma Europa livre precisa de uma Alemanha livre dos EUA


Com a derrota militar do Reich III, a Alemanha foi ocupada pelas superpotências vitoriosas: Estados Unidos e União Soviética, tendo como consequência um processo de reeducação através da qual se negou ao povo alemão uma identidade nacional e o direito à soberania. Com a queda do império soviético, sua situação não melhorou. A reunificação" da Alemanha não foi mais que a anexação da parte oriental ao território controlado por Washington. Assim considera o importante politólogo e filósofo russo Alexander Dugin, que nesta entrevista acrescenta ademais que para que haja uma Europa soberana, uma Alemanha independente deve existir como requisito prévio.

Manuel Ochsenreiter: Professor Dugin, o escândalo de espionagem da NSA causou um profundo impacto nas relações germano-estadounidense. Aos alemães nos foi dito por décadas que Washington é nosso "amigo" e "sócio". Agora muitos alemães se deram conta de que os Estados Unidos se comportam até hoje mais ou menos como uma força de ocupação. Por que demoraram tanto tempo para se darem conta?

Dugin: Não podemos responder a esta importante pergunta sem precisões históricas. Em primeiro lugar, a Alemanha perdeu a Segunda Guerra Mundial. Em maio de 1945 se produziu a rendição incondicional das forças armadas alemãs. A resposta à derrota total da guerra foi a ocupação total das duas principais potências: Estados Unidos e União Soviética. Washington e Moscou não foram apenas as forças principais ao final da guerra, também representaram os dois campos ideológicos da era posterior à guerra. As províncias do Leste da Alemanha, eventualmente anexadas pela Polônia e União Soviética, e o centro da Alemanha foram ocupados pelo exército soviético, Alemanha Ocidental pelo exército estadounidense e seus aliados ocidentais do Reino Unido0 e França. A Alemanha foi dividida por suas forças de ocupação. Nenhuma parte da Alemanha estava livre. Falando com sinceridade, ocupação é ocupação. Não há níveis de ocupação.

Com a ideologia da Guerra Fria em ambos os lados da Alemanha ocupada, o rosto da ocupação mudou. Os alemães da República Democrática Alemã (RDA) foram educados de uma maneira que a União Soviética os livrou do nazismo e que agora são "livres". A ocupação soviética foi interpretada nas escolas e a educação como garantia da "liberdade e independência". O mesmo podemos ver na República Federal da Alemanha (RFA), onde os poderes anglosaxões da ocupação reeducaram a população. Ali foi dito aos alemães que as forças ocidentais os livraram em 1945 e protegeram sua "liberdade e democracia" contra a "ameaça comunista" no Oriente. Mas nem os alemães da RDA nem os da RFA eram livres e soberanos, mas seguiam invadidos.

M.O.: Este era o passado. Mas com a reunificação da Alemanha em 1990, a Guerra Fria terminou oficialmente. Isso foi o que os líderes políticos de todas as forças de ocupação e o chanceler alemão Helmut Kohl afirmaram...

Dugin: Este é talvez um dos maiores erros de interpretação da recente história alemã. Esta não foi a reunificação de uma Alemanha livre, independente e soberana - foi a absorção de uma parte da Alemanha ocupada pela outra parte da Alemanha ocupada.

A parte anglosaxã da Alemanha simplesmente "anexou" a antiga parte soviética da Alemanha. Este passo tem que ver com o final da guerra fria: a frente socialista tinha capitulado diante a frente capitalista. Agora toda a Alemanha está ocupada pelo Ocidente. Política, econômica, estratégica e intelectualmente, a Alemanha é um país ocupado. Ao mesmo tempo, a antiga propaganda ocidental da Guerra Fria se converteu em um tipo de filosofia importante para o conceito do mundo unipolar com um só polo de decisões - o Ocidente.

M.O.: Assim não havia oportunidade de ter obtido verdadeira liberdade em 1990?

Dugin: Havia uma possibilidade. Depois da queda do bloco comunista não havia mais nenhuma razão para a ocupação ocidental da Alemanha. A Alemanha não necessitava mais militares estadounidenses para defendê-la, porque a ameaça tinha desaparecido. A Rússia pós-soviética era muito débil para apresentar qualquer tipo de desafio ou perigo para a Alemanha. Não tinha nenhuma necessidade em absoluto da presença de militares estadounidenses em solo alemão.

O puro fato de que não abandonaram a Alemanha depois de 1990 mostra que segue sendo um país ocupado. O escândalo de espionagem contra a população, a economia e os líderes políticos da Alemanha só expõe este fato de novo.

M.O: Quando se negociou o "Tratado sobre o acordo final com respeito a Alemanha" em 1990, o líder soviético Mikhail Gorbachov aceitou uma Alemanha pertencente à OTAN e a retirada dos soldados soviéticos, enquanto que os soldados estadounidenses e armas nucleares continuam aqui até o dia de hoje. Por que Gorbachov não realizou uma campanha em favor de uma Alemanha livre, neutra e indeepndente?

Dugin: Em termos gerais, todo o período da década de 1990 é considerado na Rússia moderna como a época da "grande traição" de nossos interesses nacionais. Tudo o que foi feito na política interna e externa por Gorbachov, e mais tarde por Boris Yeltsin, é julgado como um completo fracasso. Consideramos sua política como uma absoluta estupidez e incompetência. A rendição perante o Ocidente em 1990, o abandono da RDA, não para uma nova Alemanha mas para uma RFA maior, se considera hoje na Rússia como uma das vergonhas desta grande traição. Além disso, Gorbachov e Yeltsin sacrificaram nossa Rússia!
Zbigniev Brzezinski e Alexandr Dugin

M.O.: ... te refere à União Soviética?

Dugin: Não, me refiro à Rússia! A Grande Rússia não foi criada pelos bolcheviques, eles só a tomaram e chamaram de União Soviética. O Estado existia desde centenas de anos antes dos bolcheviques.

M.O.: Voltando à Alemanha em 1990: a independência e a neutralidade da Alemanha foi discutida até mesmo em Washington...

Dugin: Falei com o politólogo, geoesrategista e estadista polaco-estadounidense, que serviu como assessor de Segurança Nacional para os Estados Unidos, Zbigniew Brzezinski. Perguntei-lhe por que os estadounidenses prometeram a Gorbachov neutralidade nas primeiras negociações. Brzezinski é uma pessoa muito valente e sincera. Ele me respondeu com sinceridade: "Enganamos Gorbachov!" Creio que Brzezinski me disse a verdade.

M. O.: Gorbachov era tão ingênuo, ou também um malicioso?

Dugin: Gorbachov não só é ingênuo, mas também um criminoso. Ele estava entregando todas nossas posições estratégicas ao oponente sem obter nada em troca. E neste sistema a reunificação alemã entra perfeitamente. Não foi um evento nacional alemão, mas simplesmente o intercâmbio de um regime de ocupação por outro na entidade da RDA. Não houve liberação ou obtenção da soberania alemã, apenas uma ampliação da parte ocupada pelos anglosaxões de seu país.

Para Washington, este foi um passo muito bom e inteligente, a potência hegemônica liberal ocidental obteve poder não só na parte alemã ocupada pelos soviéticos, mas também tiveram no Leste europeu, sem sacrificar uma só gota de sangue.

Podemos dizer hoje: a debilidade da União Soviética em 1990 foi desgraça da Alemanha. Com uma Moscou forte, a Alemanha poderia ter se convertido em um Estado independente, livre e soberano.

M. O.: Os políticos estadounidenses, assim como os políticos alemães, utilizam os termos "amizade" e "associação"...

Dugin: Não há nenhuma possibilidade em absoluto de chamar a ocupação como amizade ou associação. Associação e ocupação se contradizem. Estados Unidos não pode ser um verdadeiro aliado enquanto ocupar a Alemanha.

M. O.: Alguns jornalistas tradicionalistas alemães defendem a presença das instalações militares dos Estados Unidos na Alemanha. Dizem: a Alemanha tem que ser "vigiada" pelos aliados ocidentais porque nos comportamos de forma "pouco fiável" no passado...

Dugin: (Risos) Sério? Façamos uma vistoria na Alemanha atual. Seu país é completamente liberal, democrático e absolutamente inocente em sua política interna e externa. Mais uma vez: não há uma só razão para a ocupação - mas a ocupação continua. E este é o verdadeiro escândalo - não a espionagem e as atividades de inteligência dos Estados Unidos sobre a Alemanha. Esta situação status quo se converte agora óbvia para a sociedade alemã. Cada vez mais alemães se perguntam por que a ocupação continua, e para quê?

M. O.: Estes políticos e jornalistas respondem muito claramente: por causa causa da "vergonha do passado"...

Dugin: Esta "vergonha do passado" foi há muito tempo. Se torna mais e mais difícil justificar a ocupação pelos acontecimentos que aconteceram há 70 anos. Para a Alemanha é um desafio hoje em dia, devido ao fato da classe política em Berlim ter se acostumado com a situação da ocupação, mas isso não pode continuar para sempre. Assim hoje só há uma opção: ou acabar com a ocupação, ou aceitar como um tipo de situação eterna na Alemanha.

M. O.: Quanto mais tempo passa da rendição incondicional das forças armadas alemãs em 1945, maior é nossa celebração aos estadounidenses e seu exército como "libertadores"...

Dugin: Nada pode continuar com esta demagogia para sempre. Não há nenhuma razão para que a Alemanha seja membro da OTAN, não há razão para que as tropas estadounidenses continuem em solo alemão, não há razão para considerar Washington como "aliado", não há razão para considerar como iguais os interesses nacionais dos Estados Unidos e da Alemanha.

Em todos os aspectos a Alemanha tem sua própria agenda. Assim em longo prazo, só pode haver uma solução: a Alemanha deveria se reafirmar como entidade política independente, livre e soberana. Qualquer coisa que digam os políticos americanos ou alemães, a verdade é muito simples: não há liberdade com a ocupação. Se os alemães querem liberdade, independência e soberania, devem se rebelar contra a ocupação. Não se rebelar contra ela significa aceitá-la.

M. O.: Isso soa demasiado fácil...

Dugin: (Risos) Certamente não é fácil em absoluto. Falemos de um passo político e histórico muito importante e decisivo. Mas é inevitável, porque a lógica da ocupação se volta agora mais e mais transparente. Já não é possível ocultar esta situação. A ocupação estadounidense na Alemanha se baseia em puro poder político e militar e não em razões estratégicas da Alemanha. Agora fica claro para todos na Alemanha - mas o reconhecimento deste fato é muito difícil.

M. O.: Assim como o escândalo da NSA não é outra coisa senão um sintoma do verdadeiro problema - a ocupação?

Dugin: Exato! Não há que confundir-se ao converter um sintoma no problema real. O que fazem os estadounidenses na Alemanha, o fazem no contexto de uma força de ocupação. Por certo: Washington não "espia" na Alemanha - Washington simplesmente controla seu território.

Depois da Segunda Guerra Mundial os EUA foram donos da metade da Europa - agora são donos de toda Europa. A intervenção de Washington nos assuntos políticos internos dos Estados europeus não é "política externa" - é visto como uma forma de política interna.

M. O.: Nos principais meios de comunicação da Alemanha, assim como nos comunicados da imprensa dos políticos alemães, podemos ler a seguinte interpretação do escândalo da NSA: "Deveríamos estar contentes de que são os nossos amigos que nos espiam e não os Estados autoritários como a Rússia! Isto seria muito pior!" Isso é o surgimento da retórica da Guerra Fria ou simplesmente uma manobra de distração?

Dugin: Sim, também li esta estranha argumentação. Mas temos que entender o que significa "guerra de redes". Se trata de um tipo de guerra de informação e de inteligência. Um dos princípios desta guerra não é só controlar os inimigos, mas também os aliados. O sócio de hoje pode converter-se no rival de amanhã. Precisamente a Alemanha está sob ataque. Que os grandes meios de comunicação e os políticos da Alemanha defendem os interesses dos Estados Unidos é um aspecto desta guerra, assim como "vacinar" o povo alemão contra a Rússia. Estou convencido de que aquelas pessoas que estão por detrás da defesa dos interesses dos Estados Unidos e por detrás das campanhas anti-russas são armas estratégicas de informação dos EUA na Alemanha.

M. O.: Os críticos responderam agora: "Hein professor Dugin, você é um teórico da conspiração!"

Dugin: (Risos) Claro, o fariam. Mas o conceito de "guerra de redes" foi declarado abertamente na década de 1990 pelo governo dos Estados Unidos.

M. O.: A classe política em Berlim, especialmente nossa chanceler Angela Merkel e seu partido CDU, é pró-estadounidense. Durante o escândalo de PRISM em Junho de 2013, defenderam os interesses de Washington. Agora, depois se soube que a NSA estava espiando o telefone celular da chanceler, não puderam evitar mais uma reação. Mas simplesmente discutiram sobre os direitos de privacidade em todo o mundo, nunca sobre a ocupação ou sobre a soberania nacional. Por acaso o governo alemão pró-estadounidense nos distrai do verdadeiro problema?

Dugin: Não estou seguro disto. Podemos considerar esta situação como a primeira etapa da aparição na superfície do verdadeiro e mais importante problema. Falemos com franqueza: não podemos esperar da atual classe política alemã qualquer declaração dos direitos de soberania. Isto é muito pouco realista, ou não?

M. O.: Seria um tipo de milagre...

Dugin: Então não esperemos milagre na política. A atual classe política alemã faz o que pode. Os políticos alemães tentam protestar de uma forma suave e aceitável para as forças de ocupação. É uma espécie de "crítica de baixo". Vem junto como: o pequeno cidadão privado está um pouco irritado pela vigilância do governo em seus assuntos privados. É a reação dos débeis, dos completamente submissos, a reação servil do escravo perante o senhor.

M. O.: Claro, não é a reação entre sócios iguais...

Dugin: Não, em absoluto. Mas não sejamos tão pessimistas.

M. O.: Por que não?

Dugin: Acredito que esta reação mostra uma espécie de compreensão da situação. Se reconhece que não pode seguir assim sem nenhuma mudança. A sociedade está cada vez mais insatisfeita com a situação. A Alemanha está economicamente bem, socialmente mais ou menos, enquanto que os Estados europeus que a rodeiam enfrentam problemas muito difíceis. A Alemanha é o motor da Europa.

Nesta situação, a dominação estadounidense contradiz os interesses nacionais da Alemanha cada vez mais, assim como os interesses comuns europeus. Estou convencido de que a classe política alemã encontrou por ora a maneira mais inocente de reagir porque precisam, queiram ou não. Por certo, é muito lógico que o governo alemão não proteste contra a violação dos direitos de soberania alemã.

M. O.: Por quê?

Dugin: Porque a Alemanha não é um Estado soberano. Se não tem direitos de soberania, não podem ser violados por outros. Se a Alemanha quer se converter num Estado soberano, deve se rebelar contra a ocupação. A liberação vem primeiro, depois a soberania. Não se pode querer ser soberano e livre enquanto se está ocupado.

M. O.: "Rebelião" soa violento!

Dugin: (Risos) Não, em absoluto, isso é um clichê. Rebelião seria que um chanceler alemão exigisse abertamente ao governo dos EUA a retirada de suas tropas do solo alemão.

M. O.: Agora falamos realmente de milagres!

Dugin: A reunificação alemã não foi considerada um milagre muito pouco provável, até mesmo no verão de 1989?

M. O.: Disse uma coisa importante! Mas de todos os modos: agora mesmo Berlim parece ser mais fiel a Washington que a outros países ocidentais.

Dugin: Acredito que a Alemanha é um país muito disciplinado. O liderado alemão se sente contratado por seus senhores de Washington. Na relação germano-estadounidense somos testemunhas de um possível relançamento trágico da velha proclamação alemã das Waffen SS "Meine Ehre Heisst Treue" ("Minha honra se chama lealdade"). Desta vez, a lealdade aos Estados Unidos.

M. O.: Que interessante interpretação das relações germano-estadounidenses...

Dugin: (Risos) Sim, é uma espécie de fidelidade. Mas acredito que só uma parte da sociedade alemã compartilha esta atitude com a elite política de seu país.

M. O.: Nosso governo diz que não há alternativa à política transatlantista e à "associação" com os Estados Unidos...

Dugin: A independência alemã é um passo futuro inevitável completamente calculada racionalmente que tem que vir algum dia. É o interesse da sociedade alemã, assim como da economia.

Façamos uma vistoria à sociedade alemã de hoje: é liberal e democrática. Atualmente não há mais influência nacionalista ou revanchista. Quando falamos da soberania alemã, estas coisas não têm nenhum papel. Existem razões sociais, racionais e econômicas puras para que a Alemanha rompa as estratégias ditadas por Washington.

A razão é que todos estes aspectos entram em conflito mais e mais com os Estados Unidos, o qual quer organizar e controlar seu espaço europeu, assim como de outras regiões do mundo. Temos que esperar o ressurgimento alemão não da parte nacionalista ou tradicionalista da sociedade alemã, que está débil e completamente saturada pela "vergonha do passado". Mas até o aspecto liberal e democrático da sociedade alemã tem um vivo interesse na independência perante os Estados Unidos. Economistas alemães têm atualmente um profundo interesse contra o controle dos Estados Unidos. Encontramos a sociedade alemã atual em profundo conflito com Washington; não se trata só de espionagem da NSA.

M. O.: Você fala de economia, de aspectos sociais e da sociedade liberal da Alemanha. Que papel desempenha coisas como "a identidade nacional alemã" no conflito com os Estados Unidos?

Dugin: Eu sabia que esta pergunta chegaria...

M. O.: ...já que é um aspecto importante?

Dugin: É, mas não terá papel nenhum no conflito futuro com Wahington. Tais aspectos estão totalmente proibidos atualmente. Sejamos realistas: na Alemanha temas como "a identidade nacional alemã" não se discutem.

Quando não tem nenhum papel na própria Alemanha, como será isto um ponto importante no conflito com Washington? Os conflitos de interesses econômicos e sociais entre Washington e Berlim são atualmente muito mais perigosos para a presença dos Estados Unidos na Alemanha e Europa do que qualquer agenda identitária ou nacional-cultural.

M. O.: Então, na sua opinião, nossa identidade nacional não terá nenhum papel hoje ou no futuro na "questão alemã"?

Dugin: Eu não disse isso! Certamente não terá papel nenhum em um futuro próximo e na questão da emancipação alemã da potência ocupante estadounidense. Agora temos razões completamente racionais para tal emancipação que preocupam muito mais Washington do que qualquer aspecto tradicional anti-estadounidense na Alemanha.
Alexandr Dugin e Manuel Ochsenreiter em Freiburg, Alemanha
M. O.: Faz um par de semanas teve uma situação irônica em um programa de entrevistas alemão. O ex-embaixador dos EUA na Alemanha, John Kornblum, deu uma conferência a políticos e jornalistas alemães. Disse que Washington e Berlim são "sócios", não "amigos". Otto von Bismarck disse uma vez que a política externa está próxima de interesses, não de amizade. Como é que chega um diplomata dos EUA a nos dar sermão na forma de pensar de Bismarck atualmente?

Dugin: Essas coisas realmente não me surpreendem. Depois da Segunda Guerra Mundial o pensamento livre, especialmente sobre as relações com as forças de ocupação, foi absolutamente proibido na Alemanha.

Antes de 1945 fomos testemunhas do pensamento nação-centrista sobre o destino da Alemanha em todos os campos políticos de seu país. Comunistas, social-democratas, centristas, nacional conservadores e nacionalsocialistas tinham a nação alemã no centro de seus pensamentos.

O patriotismo alemão não foi em absoluto uma invenção dos nacionalsocialistas como muitos alemães acreditam hoje em dia. O pensamento nação-centrista na política se encontra também em outros países como França, Estados Unidos, Reino Unido ou Rússia. É completamente normal pensar assim. E foi até 1945 uma tradição alemã. Depois de 1945, esta forma de pensar foi proibida e difamada na Alemanha. Os alemães se viram obrigados de repente a penas pela "humanidade", pela "comunidade internacional", "nos valores ocidentais" ou de qualquer outra forma cosmopolita.

A reeducação no período pós-guerra buscou assegurar que a nova elite alemã não trabalhasse para estabelecer uma Alemanha livre e independente. A ausência completa de qualquer possibilidade de uma forma de pensar nação-centrista na política alemã foi lograda pelo poder soviético na RDA e pelos EUA na RFA.

Os alemães foram educados no pensamento anti-alemão. Não podemos esperar da elite ou da inteligência alemã, claro que com algumas exceções, pensamento centrado na Alemanha.

Assim não devemos nos surpreender que os políticos e intelectuais alemães falem em termos de "amizade" e não de "interesses" quando se trata das relações com as forças de ocupação.

Quando um político alemão deixa sua esfera, será substituído imediatamente pelos alemães que defendem exatamente esta esfera anti-alemã. É uma espécie de "Gulag" ou "campo de concentração" intelectual ou mental. Mas desta vez os norteamericanos são os comandantes e capitães deste campo e a elite alemã interpreta o papel da "Kapo", a polícia do campo.

Você deve aceitar isto ou se rebelar. Para a rebelião é cedo, mas chegará com segurança. Uma Alemanha livre e independente é uma grande oportunidade para toda a Europa. A Europa só pode se emancipar da dominação estadounidense com uma Alemanha emancipada.

Traduzido por Álvaro Hauschild, via Elministerio

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Che sonhava com uma América Latina unida e forte contra os EUA

Segue se a tradução da entrevista de Aleida Guevara concedida ao RT

RT: Sra. Guevara, bem-vinda e obrigado por se juntar a nós. A senhora disse ter estado perto de Fidel Castro. O que a senhora pensa sobre a especulação mediática sobre sua saúde; alguns relatórios afirmando que ele está morto, alguns relatórios afirmando que ele está vivo? O que a senhora pensa sobre isso?

Aleida Guevara: Fidel é um homem totalmente único. Ele não se ofende facilmente, deve ser algo realmente ofensivo e geralmente algo sobre outra pessoa para ele se sentir ofendido. É porque, por exemplo, agora ele está chateado com todo esse falatório da mídia sobre os problemas médicos de Hugo Chávez. Mas Fidel nunca se importou com o que os outros diziam sobre ele. Ele não presta atenção em tais coisas, a menos que seja algo realmente ofensivo ou algo sobre o povo. É aí que ele reage imediatamente.



RT: Aleida, sua mãe ficou em silêncio sobre seu romance com o lendário Comandante Che Guevara há quase 40 anos - até recentemente, quando ela publicou um livro revelando alguns detalhes. Por que ela teve tanta dificuldade para contar sua história? Por que ela esperou tanto tempo?

AG: Em primeiro lugar, você deve conhecer a minha mãe. Ela veio de uma área rural, e o povo vilarejo de Cuba - como em qualquer, suponho - são muio sensíveis sobre suas experiências românticas. Eles são muito calados sobre essas coisas, e ela foi criada nessa cultura. Ela sempre foi assim. Quer dizer, ela estava extremamente apaixonada por ele. Foi uma incrível história de amor. E uma das coisas que me faz sentir tão especial - não porquê eu seja filha de um grande homem, ah não. Eu me sinto especial pois sou filha de um homem e uma mulher que estavam em um amor muito intenso um pelo outro, e eu sou fruo desse amor. Isso é que me faz sentir especial.

O livro da minha mãe conta a história de seu relacionamento, a história de sua vida através da lente daquele amor. Apenas imagine como foi para minha mãe quando o pai morreu. Ele tinha sido seu primeiro homem. Ele era seu noivo, seu companheiro, seu amigo, seu mentor, seu amante, o pai de seus filhos. Ele era tudo.

E então, assim, ele se foi. Imagine a dor que ela passou. Ela tinha que criar e apoiar quatro filhos pequenos. Então, ela foi obrigada a trancar todas essas memórias em algum lugar lá no fundo e seguir com sua vida. Se ela tivesse sido aberta, ela não teria sido capaz de seguir em frente. Um longo, longo tempo teve que passar antes que ela se sentisse forte o suficiente para revisitar essas memórias. Quando ela estava ficando para baixo para escrever o livro muitas vezes eu ia vê-la em lágrimas. Ela chorou tanto que eu uma vez disse-lhe: "Mãe, por que você não esquece esse livro." Felizmente, ela não me deu ouvidos e ela acabou. E esse livro é um presente verdadeiramente incrível para mim.



RT: Essa é uma história bonita. Nos últimos dez anos, houve muitos filmes sobre Ernesto Che Guevara, e muitas biografias escritas. Qual dos trabalhos que você já viu e leu dão relatos mais confiáveis​​?

AG: Até agora, não há uma única biografia que eu recomendaria. Quando falo com os jovens, eu normalmente os aconselho a ler o que meu pai escreveu sobre si mesmo. Ele tinha esse hábito de anotar tudo o que estava acontecendo em torno dele desde que ele tinha 17 anos. Muitos de seus diários têm feito isso através de nós, você pode lê-lo em primeira mão e tirar suas próprias conclusões. O único filme que eu, provavelmente indico é 'Diários de Motocicleta', a única produção digna na minha opinião. Ela foi feita inteiramente por latino-americanos. É um grande filme e eu recomendo fortemente.

RT: Há uma abundância de pontos de vista diferentes sobre Che Guevara. Alguns dizem que ele foi um herói e um mártir, outros dizem que ele era um terrorista, um assassino. O que a senhora acha sobre esse capítulo em sua vida, quando tinha que matar as pessoas por causa de suas idéias?

AG: Nós estamos falando sobre a guerra. Quando você está envolvido em numa guerrilha, você tanto vive quanto morre. Esta é a lei da guerra de guerrilha. Mas não é assassinato. Você não assassina pessoas. Assassinato é quando você ataca uma pessoa indefesa. Mas este não é o caso quando você está envolvido em uma batalha. Em uma batalha, você atira neles, porque eles atiram em você. Você mata porque senão eles vão te matar. Isso é guerra. Pelo contrário, foi o Che, que foi assassinado. Ele foi capturado, ele estava desarmado e indefeso, e eles o mataram sem julgamento. Isso foi assassinato real.

Mas meu pai nunca fez nada parecido. Eles nunca mataram seus prisioneiros; que cuidavam deles, davam assistência médica, eles até mesmo retardavam seu avanço porque eles tinham que guardar os presos e deixá-los em um lugar seguro.

Então, as pessoas que o acusam de assassinato simplesmente não sabem a história toda e não tem idéia de quão grande eram essas pessoas - não apenas Che, mas todo mundo que lutou com ele, todas essas pessoas. Esta guerra moldaram eles. A revolução cubana nunca envolveu o assassinato. Nós estávamos nos defendendo. E vamos continuar fazendo isso.

RT: Há também uma série de especulações sobre Fidel neste assunto. Alguns até dizem que Che morto seria muito mais útil para Castro do que quando ele estava vivo.

AG: Esta é a coisa mais estúpida que se pode dizer. Quando Che estava vivo, ele foi imensamente útil para Fidel em Cuba. Fidel disse isso muitas, muitas vezes. Ele disse que estava em paz trabalhando em outras coisas, porque ele sabia que o Che era o ministro de indústrias. A economia cubana estava em boas mãos, porque Fidel confiava totalmente em Che. Mas a situação mudou quando Che saiu. Mas Che teve que seguir em frente. Desde o início, quando Fidel e Che estavam no México, eles fizeram um acordo. Che prometeu a Fidel que iria permanecer em Cuba até que fosse liberado, e então, se ele ainda estivesse vivo, ele iria passar para outros países da América Latina. Fidel concordou com isso, e ele manteve a promessa.



Uma vez cheguei a Fidel. Tivemos uma conversa muito longa, nós conversamos por várias horas e, finalmente, eu disse a ele: "Diga-me sobre seus desentendimentos com o meu pai. Conte-me sobre estes argumentos que as pessoas continuam falando".

Então, ele me disse que uma vez, quando eles estavam no México, eles sabiam que seriam todos presos, e Fidel disse a todos para manter sua boca fechada sobre suas opiniões políticas. E então ele me perguntou: "O que você acha que o seu pai fez?" Quando ele estava na prisão, ele começou a falar com agentes penitenciários sobre política. Ele até conversou com eles sobre Stalin! Como resultado, todo mundo foi libertado, exceto Che, porque a polícia disse que ele era comunista. Fidel tentou falar com ele, mas, eventualmente, ele percebeu que o meu pai não podia mentir.

Ele era muito honesto, ele não podia mentir. E não havia nada que Fidel poderia dizer, não havia nada para falar. "Como posso discutir com uma pessoa assim?" Fidel disse. Então, esse é um dos argumentos que as pessoas dizem que eles tinham. Mas isso não era ainda um argumento. E Fidel esteve no México e não deixou até meu pai foi libertado, mesmo que isso comprometesse todo o plano que tinham para Cuba. E este foi o início de uma amizade única entre Fidel e meu pai. Meu pai percebeu que Fidel era um general de  verdade que sempre se sentiu responsável por cada um de seus soldados.

Naquela mesma noite, quando eu tive essa conversa com Fidel, eu ri e ele me perguntou o que era tão engraçado. Eu disse: "Tio, - ele sempre foi o tio Fidel para mim - eu estou rindo de você." Ele disse: "Por quê?" Eu disse: "Você nem percebe, mas você fala sobre o pai no tempo presente , como se ele ainda estivesse vivo". Ele me deu um olhar muito sério e disse: "Não, seu pai está realmente aqui com a gente". E isso foi o fim da nossa conversa naquela noite.

RT: O mundo inteiro conhece a cara do seu pai, e as pessoas compram mercadorias com a sua foto. O que  a senhora sente quando vê isso?

AG: Às vezes eu fico com raiva porque em muitos casos as pessoas abusam de sua imagem. Às vezes eu até brinco que eu vou processá-los por distorcer seu rosto porque meu pai era um homem bonito. Algumas de suas imagens são apenas feias. Por outro lado, eu sempre digo que essas imagens não significam nada se você não sabe o que elas representam, se você não está familiarizado com a sua vida e que ele fez. Às vezes eu gostaria de pedir a alguém: "Por que você colocou essa camiseta com Che?" E eles dizem: "Eu tenho um exame chegando, e eu não tenho certeza que vou passar. Então eu coloquei a camiseta, olho pro Che e digo a mim mesmo para não desistir, porque se ele fez isso, então eu também posso". Algumas respostas são simplesmente maravilhosas. Isso significa que, apesar de toda a propaganda e absurdo dito sobre ele, as pessoas não se deixam enganar. Eles não acreditam nessas mentiras. Eles entendem que tipo de pessoas eram os revolucionários.



RT: Viajar pela América Latina mudou mentalidade de Che Guevara. Isso fez dele um revolucionário. Se ele fosse fazer uma viagem semelhante hoje, o que ele veria? Teria impactado tanto quanto naquela época na década de 1950?

AG: Lamentavelmente, o que fez de Che buscar a justiça social para todos ainda está vivo e tem até ganhou espaço desde então. O fosso entre ricos e pobres está cada vez maior, e as pessoas na América Latina sabe m muito bem disso. No entanto, nos últimos anos temos observado uma nova tendência, com os líderes se preocupando mais com as necessidades das pessoas. Os líderes latino-americanos estão começando a entender que, se juntarmos os nossos esforços, nada vai nos parar.

Meu pai teria certamente gostaria de descobrir que um nativo americano como Evo Morales chegou à Presidência. Eu acho que Che iria apoiá-lo e oferecer toda a assistência que podia. Ele teria também apoiaria a Revolução Bolivariana na Venezuela. Pela primeira vez na história, um presidente fez seu povo o único proprietário de todos os recursos de petróleo do país. Ele é único na história moderna. Eu acho que Che teria acolhido e teria feito o seu melhor para ajudar a Chávez. Tantas coisas que hoje em dia teria feito a ele um pouco mais feliz, mas as mesmas coisas que o teria tornado ainda mais zeloso, porque ainda há muito mais a fazer.

RT: Como você acha que Che iria responder a integração de hoje na América Latina? Será que ele apoiaria?

AG: Bem, isso tem sido um sonho, e não apenas para Che. Che dizia que a unidade entre todos os latino-americanos é a nossa única esperança de ficar forte contra nosso inimigo comum. E ele deixou claro que o pior inimigo da América Latina é os Estados Unidos.

RT: E sobre Cuba? Se Che fosse ver a situação e da qualidade de vida em Cuba de hoje, ele se sentiria orgulhoso sobre isso?

AG: Ele iria perceber que ainda há muitas questões que precisam ser abordadas, e muitas coisas que precisam ser melhoradas. Mas meu pai sempre acompanhou o povo de Cuba. Ele tinha essa maneira de expressar sua crítica, e as pessoas estavam sempre dispostas a ouvir. Então, se ele ainda estivesse conosco hoje, ele estaria trabalhando como todo mundo, tentando fazer as coisas melhores. Eu acho que ele não iria segurar sua crítica, também, mas ele estaria empenhado em encontrar soluções. Ele estaria muito ocupado.

Entrevista feita pelo RT

Tradução por Conan Hades