domingo, 11 de novembro de 2018

Neomania -- A Obsessão pelo Novo

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Por Roberto Pecchioli

A obsessão por tudo que é novo é uma das mais surpreendentes características da nossa época. É uma mania, uma verdadeira e própria patologia de massa, uma doença da alma, a neomania. E estão conscientes disso também os intelectuais do campo progressista. Escrevia o comunista ortodoxo Alberto Asor Rosa há vários anos atrás: vivemos um presente caracterizado pela ausência de uma regra e pela presença de muitas regras transitórias. Tudo deve sempre ser novo, inédito. O psicanalista Massimo Recalcati observa em uma página que confundimos o "novo" com o diverso, uma fuga do "mesmo" que nos entedia, cuja tensão com qual nos impulsionamos em direção ao novo é uma fuga de uma carência, de uma ausência que nos aflige.

Ainda mais explícita é uma passagem de uma antiga Enciclopédia da Moda, segundo a qual "é com o advento da sociedade capitalista que coincide o surgimento daquele tipo de obsessão pelo novo, ou neomania, da qual a moda de vestidos representa um dos aspectos mais vistosos". Trata-se de uma verdade parcial, cujo núcleo da questão escapa.

A mania pelo novo é filha da ruptura antropológica da modernidade com todo o passado, o símbolo e a consequência da perda da dimensão espiritual e transcendente do homem ocidental. A busca constante pela novidade se torna um antídoto contra a angústia para uma humanidade privada da parte mais elevada de si mesma, um efeito placebo que impõe doses sempre mais altas do "novo". Um vício extra, que exorciza a ansiedade e a falta de sentido, criando um eterno presente.

Albert Camus intuiu alguma coisa, para quem o futuro é a última transcendência do homem sem Deus. O autor de O Estrangeiro e A Peste, ateu, não podia reconhecer que todo o futuro, para o homem moderno, é a porta aberta para o Nada. É o Novo o verdadeiro substituto da transcendência, o substituto da esperança perdida dos indivíduos transformados em elementos estatísticos (Gabriel Marcel), que sofrem de angústia, "a disposição fundamental que se coloca diante do Nada" (Heidegger). Condição da modernidade falsamente iluminada pelas Luzes, a descarga de adrenalina obrigatória que consente em suportar a insatisfação do presente sem precipitar no escuro.

Neste vazio existencial se insere a psicologia de massa da sociedade de consumo, que produz insatisfação ao vender desejo, irmão espúrio do futuro. Se nos mudamos frequentemente, se a mudança a consideramos positiva a priori é porque procuramos algo que não é encontrado, que na verdade não deverá ser encontrado. O objetivo do novo é a viagem, o panorama sempre diverso do viajante em fuga de si mesmo. Ele não suporta o vazio, saturado de abundância de objetos. O desejo do novo é a expectativa do gozo que não será satisfeito, resignado ou disponível para experiência ulterior, "novo", mas em verdade o desdobramento do idêntico. A experiência sempre renovada é aquela do consumo, ou do desperdício, do exaurimento, da dissipação.

Grotesca é a atitude dos fãs de novidades tecnológicas, prontos para encarar filas quilométricas para garantir os primeiros exemplares dos aparatos que em poucos meses serão substituídos por novos e mais novos. Bárbaros induzidos a recomeçar pela pobreza da experiência ultrapassada e não vivenciada, indiferentes à evidência que o novo brilhante se torna em breve se torna antiguidade e às vezes faz o velho reaparecer sob novas formas, na pós-modernidade fatigada e pouco criativa, exaurida em ideias, reduzida a reforma, remake, imitação, do modo como a arte depois do Renascimento. O novo detesta o silêncio, a introspecção, antecâmeras da angústia. Sua forma é o ruído indistinto, o zumbido confuso de vozes, porque o novo tem a obrigação de romper o silêncio.

A neomania é compulsiva e neurótica como a triunfante sexualidade do consumo. Mudar de cônjuge para viver uma experiência nova, tratando a si mesmo e o outro como coisa, objetos de consumo. Tudo envelhece cedo, ninguém parece longe, a dimensão do espaço e do tempo se confundem. A neomania é também a adoração de um ídolo, o Progresso, cujo culto coincide com aquele da Razão. Ele não deve ser discutido e menos ainda limitado, sua marcha é imparável; o novo é bom mesmo se amanhã ele já estará velho. Tudo deve ser feito segundo a nova moda, a nova descoberta, a nova tecnologia, ao modo hodierno, significado literal de uma palavra eternamente ambígua, modernidade. Em um poema famoso, Addio, o poeta simbolista Arthur Rimbaud o sintetiza em versos dramáticos: "Deve-se ser absolutamente moderno. Apenas cante: segue o passo. Dura noite! O sangue seco esfumaça em minha volta, e não há coisa alguma atrás de mim". De fato, o novo não tolera nada atrás de si, pretende tábula rasa para seu breve triunfo.

O novo tem por missão induzir em tentação, prever a tentação contra a qual não é concedido resistir. Nisto consiste o livre arbítrio de hoje, dar um consenso entusiasta e efêmero a toda novidade, evitando a tomada de sentido, a reflexão sobre o bem e sobre o mal. Qualquer coisa que podemos tecnicamente fazer deve ser feito e experimentado. No máximo, a questão é: posso me permitir? A resposta está também ela mesma no novo. As fórmulas de consumo de dívida mudam continuamente e promete acesso ao mundo brilhoso da última descoberta, do produto "definitivo", aquele 2.0. Passada a festa, clamou o santo: chega o modelo 3, depois 4.0 e a roda continua. É essencial que a nova ideia, os novos bens, o comportamento inédito quebrem temporariamente a solidão de tantos indivíduos idênticos que se sentem únicos. A idolatria do novo resulta em desprezo pelo passado. A escuridão por definição, povoada por homens e mulheres sem um telefone e inconscientes da conexão online, produz um particular tipo de angústia: eu não estava lá, no passado; esta insustentável ausência do "eu" é uma característica desconhecida para outras épocas. A única terapia é a remoção forçada através da descarga elétrica da novidade.

Pelo contrário, o princípio fundamental da vida é a conservação, a tendência que em biologia se define homeostase, ou a inclinação natural à realização de uma certa estabilidade interna e comportamental, uma disposição que une todos os viventes mesmo que as condições externas mudem. Na política como na cultura, depois da Revolução Francesa o conservador é zombado, declarado anacrônico (a obrigação de estar "à altura dos tempos"), a definição mesma é uma condenação preventiva, um meio de excluir do debate. John Stuart Mill, um dos patriarcas do liberalismo, definiu os conservadores como "o partido estúpido". A neomania é uma naturalização progressista, convencida da perfectibilidade ilimitada do homem e das coisas. Ela não crê no limite do homem, na sua imperfeição, e assim está necessariamente em guerra contra a natureza. Ela torna absurda a ideia de que existem princípios permanentes.

O novo impõe a transgressão, isto é, a violação do comportamento comum. Seus adoradores transgridem disciplinadamente seguindo as regras "novas", em uma corrida ridícula para romper [com a normalidade], transformada em conformismo inconsciente. A ordem, o ético, o civil, natural, pessoal, é detestado como expressão da estabilidade. Vêm aplaudir os falsos profetas que proclamam a relatividade de todo princípio, sustentando que todos provêm da vontade e do desejo. O paradoxo é a exaltação do último valor na ordem do tempo, o mais "novo".

Odiar tudo que é permanente gera instabilidade, destrói todo padrão elevado e reduz o mundo pretensamente civilizado ao satisfazer os fúteis e momentâneos desejos materiais, sem distinção entre necessidades, direitos, caprichos, esquisitices e impulsos infernais. O chamado à razão humana como único critério de juízo se resolve no seu contrário, uma irracionalidade arrogante que nega a tendência natural da humanidade à violência e aquilo que uma vez se chamava pecado. A razão se transforma em instinto, o determinismo se torna guia para o bem social, a religião vem a ser refutada e as mais diversas ideologias e crenças tomam o seu lugar. Além disso, desde que tem a auréola do novo, o homem que não crê em nada está disposto a crer em tudo (Chateaubriand, O Gênio do Cristianismo).

O novo, enfim, se tornou um direito. Isto de tomar qualquer coisa como sendo a mesma, lançando alto todos os dias o impulso do desejo. Tudo deve ser "avançado", como a tecnologia atual, cujo destino é se tornar atrasada com a próxima descoberta, a futura explicação que, enquanto "nova", será objeto de insatisfação daquele que não a possui, de inveja e de desejo. Está claro a degeneração de todo sentido moral em um mundo dominado pelo novo. Qualquer ética tem o defeito de ser persistente, de se crer verdadeira e permanente, de imprimir um sinal forte.

Alguns elementos da neomania surpreendem mais do que outros. A renovada popularidade das tatuagens, por exemplo, pode ser explicada pelo o desejo de se ser criador de si mesmo a partir do aspecto exterior, mas como se se concilia com a permanência durante a vida da tatuagem? Evidentemente, o impulso gregário do conformismo é potentíssimo, ou a confiança no "novo" é tão difundida que convence que as futuras tecnologias permitirão que se remova o nome dos cônjuges não mais amados, as frases que eles não gostam mais, os símbolos caídos em desgraça. Além disso, o objetivo é sempre a emancipação, a liberação das velhas crenças e dos juramentos do passado.

O amante do novo prensa que se alegra e deseja em plena liberdade, com autossuficiência e auto-governo de si. Ele não suspeita de estar submetido a novos ídolos e de ter decretado a vitória do Id, segundo Freud a força impessoal que "vive" e contém as pulsões agressivas e autodestrutivas. A aplicação, da parte do sistema de poder político e econômico, da descoberta da psicologia de massa, determinou uma aceitação geral de tudo que é novo como sendo melhor, fruto do progresso, da liberação humana. Um reflexo condicionado positivo é alimentado a respeito de qualquer inovação, pronto para dissolver a resistência ligada aos princípios morais e para construir um sentido comum orientado para o consumo, para o desejo, para o instinto dos pulsões.

Na espécie humana largada por si mesma ou condicionada a responder unicamente ao instinto -- pelo qual é exonerada através da civilidade, a abertura à transcendência e a adesão racional ao verdadeiro e ao justo -- os desejos são vorazes, ilimitados e por vezes sanguinários. A razão abstrata, que se tornou universal para o propósito da dominação e do enriquecimento, produziu uma irracionalidade difusa fundamentada no desejo compulsivo do novo: a neomania. O homem comum é induzido a confundir os direitos com os desejos, a perseguir a indisciplina espiritual, a refutar o senso do limite e a negar a validade de qualquer princípio geral. O conformismo mais deprimente é chamado de juízo pessoal, a disciplina consumista e novista é chamada transgressão.

Sobre todas as coisas, reina uma mania de refutar tudo que é considerado antigo, exaurir, jogar fora. Abandonado o velho, o novo é rapidamente consumido; não resta nada senão desfazer-se, jogá-lo no aterro material e espiritual que nos circula, mas que não percebemos mais como tal. A luz do novo a ser mordido e consumido brilha como um poderoso farol que impede a vista de tudo que está em torno de seu raio, engolido por uma sombra da qual nos retiramos angustiados, em busca de uma alternativa capaz de afastar os pensamentos ruins, de uma aceleração do desejo, do novo que promete um outro início; e o jogo continua.

O novo enfatiza o movimento; pouco interessa a direção e o sentido. Isto entendeu Goethe em sua época, que fez Fausto dizer, o homem febril, o primeiro conscientemente apaixonado pelo novo que avança, dizer "no início era a Ação", destronizando o Verbo, Deus, o permanente. A adoração do novo caracterizou a arte do início do século XX, abolindo as formas clássicas e a mesma figura humana. A novidade enquanto tal foi o programa do futurismo. O manifesto de Filippo Tommaso Marinetti de 1909 inicia com uma afirmação que atravessa toda a civilização ocidental sucessiva: afirmamos que a magnificência do mundo é enriquecida por uma beleza nova: a beleza da velocidade.

A palavra-chave do adjetivo novo e o substantivo velocidade. Reunidos, eles representam o único polo sobrevivente da nossa decadente civilização. Tudo deve ser novo e rápido, ao "tempo real", o imediato da informática. As leis do homem não escapam ao ataque. Nada é destinado a durar, o reformismo é louvado a prescindir, mudar, renovar é o gesto de que se projeta "adiante". Duradouro é um vocábulo indesejável, primeiro aos padrões do mundo, interessados em que as ideias e coisas se tornem logo obsoletas. É claro que se o novo é mais veloz do que o antigo, desvanecerá facilmente em algum momento, muitas vezes antes que se possa avaliar os efeitos, com o risco de extraviar o lado positivo daquilo que muda.

Enfim, paira sobre o novo um materialismo sufocante, a obsessiva aspiração ao apagamento dos sentidos, à mediocridade justa de si mesma, à dissolução de todo vínculo. É como se fôssemos nus de alma e nos despíssemos com pressa para nos libertarmos, não as roupas, mas nossa história e nossa personalidade, a fim de assumir uma nova para todo o dia, Zelig compulsivo forçado à novidade. O grande romancista escocês Walter Scott, estandarte do pensamento conservador, previu o resultado da neomania já na primeira metade do século XIX: "poucos são melhorados, muitos são piorados. Nossos desejos se multiplicam e estamos aqui para lutar com cada vez maiores dificuldades graças à força de repetidas invenções. Ao fim teremos que devorar uns aos outros, ou, como outrora, haverá na terra a queda de um cometa?"

A resposta está na obstinação desesperada com a qual algum homem conserva a certeza que em princípio não era a ação ou a matéria em movimento, mas o Verbo. A mania do novo, a mudança a todo custo produz o sono da razão e o precipício do espírito. Lucifer mesmo era um belíssimo anjo cadente e a verdade, dizia Nikolay Berdyaev, é o redespertar do espírito no homem. O velho que salva.

sexta-feira, 23 de março de 2018

O que representa a candidatura de Ciro Gomes

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Ciro Gomes e Leonel Brizola
Por Leonardo Benitz

Diante da grave crise que assola o país, que deixou de ser somente econômica, tornando-se política, institucional e social, onde os grandes poderes da mídia, baronato e bancos digladiam-se oferecendo cada um a sua própria narrativa. Narrativa que oculta um jogo de interesses muitas vezes difícil de ser compreendido até por um estudioso do assunto quanto mais para a grande maioria da população que, fatalmente, torna-se refém das simplificações grosseiras e das reações emocionais a uma situação justamente percebida como insuportável. Uma situação caótica é sempre propícia ao surgimento não somente de arrivistas políticos, mas de ideários estrangeiros propagados por parcela da elite ligada aos interesses internacionais que procura mistificar sua dominação sobre o restante do povo. 

Uma das simplificações mais comuns, com maior adesão por parte de grande parcela da população que está irritada, talvez a mais perigosa dela, é aquela que liga o protagonismo, ainda que atualmente deprimido, que o Estado tem na economia com escândalos de corrupção, ineficiência, burocracia excessiva, e que, portanto, o Estado deveria ser mínimo, isto é, apenas louvar pela aplicação sadia das regras do mercado, e, no máximo, realizar um papel de assistência social, apequenar-se. Acreditar que um país de proporções continentais como o Brasil, com uma das desigualdades mais brutais do mundo, onde 6 pessoas concentram a mesma renda que 100 milhões de pessoas como mostram os dados de pesquisa recentemente realizada pela ONG britânica Oxfam, deve relegar seus problemas a espontaneidade do mercado é inocência ou má-fé. Dentre as duas opções, acredito que a primeira ocorre na grande parte do povo que propaga esse ideário por ignorância e por despercebidamente introjetar valores contrários aos seus próprios interesses através da intoxicação midiática, enquanto a segunda, que tem representantes de peso nos grandes órgãos midiáticos e instituições empresariais e bancos, que age de forma organizada para fazer com que seus interesses tenham aparência de ciência neutra e objetiva, merece ser analisada com mais cuidado. 

Para compreender esse movimento, devemos notar que, no caso específico brasileiro, a ideia já datada do neoliberalismo volta com força, após um breve período de experimentação com os governos de esquerda da América Latina que, na maior parte dos casos, entraram em descrédito. Essa ideia é datada porque os próprios órgãos de governança global que fizeram parte da propagação do ideário do Consenso de Washington, como o FMI, Banco Mundial e Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, já a criticaram em relatórios recentes. O relatório "Neoliberalism:Oversold?" lançado por três economistas do FMI em junho de 2016, estabelece que as políticas de austeridade defendidas ; com base na ideia de rigidez orçamentária dos gastos do governo prejudicou a demanda e aprofundou o desemprego, a remoção das restrições do fluxo de capital -- abertura financeira -- contribuiu para o aumento da desigualdade e do número de crises financeiras, e, para fechar o caixão dessa ideologia, concluíram que o aumento da desigualdade tem efeitos negativos sobre o crescimento de longo-prazo, observação substanciada por novo artigo escrito em fevereiro de 2017, onde há um gráfico que evidencia uma correlação negativa entre desigualdade e crescimento de longo-prazo. Deve-se atentar para a gravidade dessa observação, ou seja, instituições criadas para (fato brilhantemente demonstrado por John Perkins em seu livro "Confissões de um Assassino Econômico", onde o autor narra a estratégia realizada pelo Banco Mundial que, a serviço dos Estados Unidos, realiza empréstimos para países em desenvolvimento procurando escravizá-los por dívidas, lançando-os, de forma subalterna, na esfera do poderio norte-americano) e por países ricos (em reunião realizada pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, que ficou conhecida como Conferência de Bretton Woods em 1944) estão nos alertando sobre os efeitos perniciosos da desigualdade e da liberalização econômica. A indagação que fica é: se os ouvimos no passado (através da doutrina neoliberal do governo de Fernando Henrique Cardoso) por que não os ouvimos agora? 

A ideia de que o Estado não deve ter protagonismo no combate à desigualdade e desenvolvimento econômico e a economia nacional deve ser aberta ao mundo, não é uma ideia antiga. Como habilmente demonstrado pelo economista Ha-Joon Chang, os Estados Unidos, hoje o campeão mundial do liberalismo, já foram submetidos a pressões estrangeiras para liberalizar-se, no seu caso, por ninguém menos do que o ilustre pai da economia moderna Adam Smith. Vejamos suas observações contidas no livro A Riqueza das Nações: 

` "Se os americanos, seja mediante boicote, seja por meio de qualquer outro tipo de violência, suspenderem a importação das manufaturas europeias aos seus compatriotas capazes da fabricar os mesmos bens, desviando uma parcela considerável de capital para esse fim, estarão retardando o futuro crescimento do valor do seu produto anual, em vez de acelerá-lo, e estarão obstruindo o progresso do país rumo à riqueza e à grandeza verdadeiras, em vez de promovê-lo" 

Em outros escritos considera o futuro do país norte-americano como de uma economia agrária como a Polônia, proposta muito similar àquela recomendada atualmente por economistas liberais como Marcos Lisboa à nação brasileira. É preciso ressaltar que os Estados Unidos não apenas sonoramente rejeitaram esse conselho, e seguiram o conselho do Secretário do Tesouro americano Alexander Hamilton, tornando-se os campeões mundiais do protecionismo até meados do século XX, desenvolvendo o ensino público, investindo em infraestrutura através da concessão de terras e subsídios às empresas ferroviárias, como através de golpes de estado e intervenções em países como Havaí, Cuba, Porto Rico, Filipinas, Nicarágua, Honduras, Guatemala, Irã, Vietnã, Chile e mais recentemente Iraque e Líbia, também expandindo seu poderio no Leste Europeu através da OTAN, consolidaram seu lugar como a potência hegemônica ocidental desbancando seu antecessor, a Inglaterra, tudo isso com a presença de um mastodôntico aparato militar que consumiu 611 bilhões de dólares em 2016, valor superior aos 595 bilhões de dólares dos oito países com os maiores gastos em defesa juntos no mesmo ano de acordo com dados da Peter G. Peterson Foundation. Deixa-se sem passar que indústrias nas quais os EUA se mantêm na vanguarda internacional como de computadores, internet e aeroespacial não seriam possíveis sem a P&D militar financiada pelo governo americano, como muito bem apontado pela economista Mariana Mazzucato em seu livro "O Estado Empreendedor": "a maioria das inovações radicais revolucionárias, que alimentaram a dinâmica do capitalismo -- das ferrovias à internet, até a nanotecnologia e farmacêutica modernas -- aponta para o Estado na origem dos investimentos empreendedores mais corajosos, incipientes e de capital intensivo", até mesmo o Iphone que é propalado como fruto da genialidade empreendedora do Steve Jobs não teria sido possível sem a utilização de tecnologias financiadas pelo governo como o GPS, tela sensível ao toque, mecanismo de reconhecimento de voz. O que não falta na sede do pensamento liberal é, ironicamente, Estado. 

Poder-se-ia analisar com tranquilidade a experiência histórica de qualquer outro país desenvolvido, seja a Coréia do Sul com sua reforma agrária radical, a criação da usina siderúrgica POSCO construída à contragosto do Banco Mundial, os planos quinquenais estabelecidos pelo General Park, seja no Japão com a Restauração Meiji de 1868 e seu programa de modernização, até a Alemanha de Bismarck que teve um papel pioneiro na introdução do seguro de acidente industrial (1871), seguro saúde (1883), e as pensões estatais (1889), ou até mesmo a Inglaterra, com as barreiras protecionistas impostas para proteger as manufaturas têxteis de algodão e as reformas protecionistas introduzidas pelo primeiro primeiro-ministro britânico Robert Walpole em 1721, que ao defendê-la em discurso do trono ao Parlamento observou que "é evidente que nada contribui mais para promover o bem-estar público do que a exportação de bens manufaturados e a importação de matéria-prima estrangeira". Os exemplos da experiência histórica comparada são infindáveis, e unanimemente eles atestam para a centralidade do papel do Estado no desenvolvimento econômico, portanto, agora aproximando-se mais da realidade e do futuro brasileiros, acredito ser imperativo que se escolha um candidato ciente desses temas na eleição de 2018, e proposto a restaurar o papel do Estado na economia brasileira. 

Necessita-se contextualizar o momento pré-eleição de 2018; o Brasil enfrenta a maior crise da sua história com diversos estados quebrados, os partidos políticos tradicionais desacreditados pela corrupção, tudo isso deflagrado pela crise econômica que ocorreu com a redução do crescimento da China que provocou uma queda nos preços das nossas principais exportações, as commodities, como minério de ferro, trigo, soja, junto com a queda do preço do barril de petróleo. Em 2016, após um processo de impeachment ilegítimo, o vice-presidente Michel Temer assume a presidência e anuncia reformas de desmonte do Estado brasileiro e de entrega do patrimônio nacional, atendendo aos interesses do empresariado apátrida e dos bancos brasileiros e estrangeiros, aprovando a reforma trabalhista que alterou 100 itens da CLT (a mando de lobistas de bancos, indústrias e transportes), enfraquecendo a Justiça do Trabalho, fazendo com que o negociado prevaleça sobre o legislado, como se o empregado estivesse em posição de igualdade efetiva com o empregador, covardemente vendendo os campos de exploração do pré-sal para multinacionais como a Shell, num momento em que os preços do barril de petróleo estão prestes a subir, anunciando um programa de privatizações de 57 empresas estatais incluindo a Casa da Moeda e a Eletrobrás, e, sua obra magna, a Emenda Constitucional 95 que estabelece o teto dos gastos de acordo com a inflação por um período de 20 anos, contendo apenas as despesas primárias (isto é, as que não incluem os juros), privilegiando os rentistas brasileiros à custa de gastos que atendem, ainda que precariamente, a maioria da população como saúde e educação, tudo isso num cenário de desemprego alto remediado por uma crescente informalidade, que garante um sustento com salários e condições baixas de trabalho a uma parcela crescente da população... 

Diante desse péssimo cenário, nós, eleitores, temos que fazer uma escolha que será fatídica no dia da eleição, definindo, rompimentos antidemocráticos à parte, a forma como país sairá ou tentará sair dessa crise. Com o provável impedimento da participação de Lula, vítima de uma perseguição jurídica que, deixando de lado ódios e paixões, curiosamente não encontra paralelos com qualquer político tucano, representando o candidato mais popular da esquerda, líder nas pesquisas, provavelmente teremos uma predominância de candidatos de centro-direita a direita, com nomes como Geraldo Alckmin (PSDB) e Jair Bolsonaro despontando, todos adotando uma percepção neoliberal dos problemas do Brasil; Bolsonaro, com uma retórica nacionalista, no entanto, uma prática não condizente com o discurso, exemplificado perfeitamente pelo episódio simbólico da continência batida à bandeira americana em sua viagem aos Estados Unidos, e também por sua provável escolha para ministro da fazenda, Paulo Guedes, um dos fundadores do Instituto Millenium que recebe financiamento do Bank of America e do grupo RBS. E temos, pela centro-esquerda, a candidatura de Ciro Gomes pelo PDT. Ciro Gomes é conhecido publicamente pela sua inteligência e habilidade retórica, mas sua valentia e coerência também são qualidades que devem ser ressaltadas. Já em livro escrito em 1996, em parceria com o professor Roberto Mangabeira Unger, chamado "O Próximo Passo", apresentava uma proposta alternativa ao neoliberalismo, denunciando a utilização peremptória de juros escorchantes e câmbio sobrevalorizado como expediente de combate a um processo inflacionário que já havia sido superado e que havia se tornado um entrave para o desenvolvimento econômico do país. As propostas do Ciro para essas questões seriam, como relevadas recentemente pelo seu assessor econômico Nelson Marconi, trazer a taxa de câmbio para um patamar condizente com a competitividade das exportações brasileiras entre R$3,80 e R$4, e uma taxa de juros mais baixa, espelhando-se nas experiências dos Estados Unidos e Europa em que a taxa de juros real chega a ser negativa. 

Pode-se concluir que muita coisa mudou para não mudar nada, o problema dos juros continua sendo central na economia brasileira, tendo consumido 1.130.149.667.981,00 (1,13... trilhão) de reais que representa 43,94% do Orçamento Geral da União em 2016 de acordo com dados do Tesouro Nacional. Para ter-se uma medida de comparação, gastou-se 3,90% em Saúde e 3,70% em Educação. O povo brasileiro deve tomar conhecimento de quem manda no país. De acordo com dados publicados pelo IBGE, em 2017 a participação da indústria no PIB caiu para 11,8% retrocedendo aos níveis de 1950; parte desse problema foi ocasionado pelo alto custo do capital provocado por altas taxas de juros, e a outra faceta desse problema é o câmbio sobrevalorizado, abordado anteriormente, que torna nossas exportações menos competitivas e aumenta o custo das importações, provocando um déficit na balança comercial, desnacionalizando nossa indústria. 

Em termos mais categóricos, Ciro define-se como um Nacional-Desenvolvimentista, isto é, defende um projeto no qual um Estado fortalecido promove o desenvolvimento econômico de uma sociedade, algo que não seria atingido caso fosse deixado por conta do mercado. Acredita-se que o artigo deixou bem claro que essa é a experiência vivida por grande parte dos países avançados até mesmo aqueles que propagam a retórica neoliberal. Em termos geopolíticos, Ciro Gomes já se manifestou favorável à construção de um mundo multipolar, repudiando as intervenções unilaterais americanas recentes no Iraque, Afeganistão e Líbia, comemorando o surgimento e protagonismo de Vladimir Putin na Síria como uma forma de equilíbrio e alívio para o mundo que assistiu horrorizado à criação de um cenário caótico no Oriente Médio e o renascimento dos movimentos terroristas islâmicos amplamente financiados por governos ocidentais. Ciro Gomes apresenta uma respeitável compreensão de que, a despeito de todo tipo de retórica sobre paz e liberdade, a ordem mundial é assentada na força e na violência, portanto, um mundo multipolar, com a crescente importância da Rússia e a ascensão econômica da China, poderia conter as arbitrariedades cometidas pelos americanos, e beneficiar até mesmo o Brasil, livrando-nos de intervenções e pressões unilaterais de um país que historicamente considerou a América Latina como seu quintal, e o mundo inteiro como seu. 

Portanto, está na ordem do dia uma redução do oneroso encargo da dívida pública através de uma auditoria e da diminuição do nível de taxa de juros a um patamar condizente com a perspectiva de desenvolvimento industrial nacional, uma reforma tributária estabelecendo uma taxação progressiva, recuperando a sanidade fiscal do Estado que, empoderado, possa assumir seus deveres e retomar seu papel de protagonismo no desenvolvimento econômico e combate à desigualdade através de um projeto nacional-desenvolvimentista. O repúdio a qualquer ideologia estrangeira propagada pelo império e seus representantes, isso é o neoliberalismo, que propõe aos estados subdesenvolvidos uma liberalização econômica que ele mesmo não realizou, ou seja, como bem descrito pelo economista alemão Friedrich List, chuta a escada pela qual subiu, deixando os subdesenvolvidos permanentemente no andar de baixo. 

Uma integração da iniciativa privada, universidades e Estado, no desenvolvimento de tecnologias, tornaria o país menos dependente de insumos externos normalmente dolarizados. A luta deve ser pelo estabelecimento de uma ordem geopolítica multipolar, em que o Brasil possui um papel relevante, deixando de ser um celeiro para os países ricos e um reprodutor de manuais propagados pela metrópole e seus órgãos globais, e lute para a formação de polos de poder que distribuam melhor a capacidade de decisão em assuntos internacionais. 

No presente momento o candidato que possui um histórico e um discurso alinhado com esse ideário é o Ciro Gomes, portanto, como se tentou demonstrar no presente artigo, aqueles brasileiros que não se deixam dobrar pelo discurso dominante devem apoiá-lo nas eleições de 2018.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A necessidade de um novo revisionismo histórico

Por Marcelo Gullo Omodeo*
Caricatura do imperialismo inglês,
como um polvo que controla o mundo, do final do século XIX

"A `guerra da independência da Espanha´ foi um fracasso não somente como sustentavam os homens da geração do ‘900, por não conseguir configurar politicamente a grande nação hispano-americana, mas, também, porque as diferentes repúblicas que surgiram, produto da fragmentação dos diferentes Vice-reinados, passaram da dependência formal da Espanha à dependência informal da Grã-Bretanha(...) o instrumento principal, através do qual a Inglaterra havia conseguido a subordinação ideológico-cultural da América espanhola e da Argentina em particular, havia consistido na ``falsificação da história"

Apresentada no primeiro congresso de revisionismo histórico Manuel Dorrego, celebrado em Navarro(província de Buenos Aires), em 14 de maio de 2011.

A vulnerabilidade ideológica

A hipótese sobre a qual repousam as Relações Internacionais, como sustenta Raymond Aron, é dada pelo fato de que as unidades políticas se esforçam em impor, umas às outras, suas vontades.
[1] A Política Internacional compõe-se, sempre, de uma luta de vontades: vontade para impor ou vontade para não se deixar impor a vontade do outro.

Para impor sua vontade, os Estados mais poderosos tendem, num primeiro momento, a tentar impor sua dominação cultural. O exercício da dominação de não encontrar uma resistência adequada por parte do Estado receptor provoca a subordinação ideológico-cultural, e como resultado, o Estado subordinado sofre de uma espécie de síndrome de Imunodeficiência ideológica, assim, o Estado receptor perde até sua vontade de defesa. Podemos afirmar, seguindo o pensamento de Hans Morgenthau, que o objetivo ideal ou teleológico da dominação cultural, em suas palavras, ``imperialismo cultural[2], consiste na conquista das mentalidades de todos os cidadãos que fazem a política do Estado em particular e a cultura do cidadão em geral, ao qual quer subordinar.Porém para alguns pensadores, como Juan José Hernández Arregui a política de subordinação cultural tem como finalidade última não só a ``conquista das mentalidades´´ mas a destruição do ``ser nacional´´ do Estado sujeito à política de subordinação. E ainda que geralmente, segundo Hernández Arregui, o Estado emissor da dominação cultural (o ``Estado metrópole´´ em termos de Hernández Arregui), não consegue o aniquilamento do ser nacional do estado receptor, o emissor consegue criar no receptor, ``… um conjunto orgânico de maneiras de pensar e de sentir, uma visão de mundo extremada e sutilmente fabricada, que se torna em atitude `normal´ de conceitualização da realidade [que] se expressa como uma consideração pessimista da realidade, como um sentimento generalizado de desânimo, de falta de segurança perante a si próprio, e na convicção de que a subordinação do país e sua des-hierarquização cultural, é uma predestinação histórica, com seu equivalente, a ambígua sensação de incapacidade congenita do povo em que nasceu e que só a ajuda estrangeira pode o redimir.´´[3]

É preciso destacar que, embora o exercício de subordinação cultural por parte do Estado emissor não consiga a subordinação ideológica total do Estado receptor, pode condenar profundamente a estrutura de poder deste último. Realiza-se por meio do convencimento de uma parte importante da população, uma vulnerabilidade ideológica que resulta ser -em tempos de paz – a mais grave e perigosa das vulnerabilidades possíveis para o poder nacional porque, ao condicionar o processo da formação de visão do mundo de uma parte importante dos cidadãos e da elite dirigente, condiciona, portanto, a orientação estratégica da política econômica, da política externa e, o que é mais grave ainda, corroe a autoestima da população, debilitando a moral e o caráter nacional, ingredientes indispensáveis - como ensinara Morgenthau – do poder nacional necessário para levar adiante uma política tendendo a alcançar os objetivos de interesse nacional.

Sobre a importância que a subordinação cultural teve e têm para o sucesso da imposição da vontade das grandes potências, refere-se Zbigniew Brzezinski: ``O Império Britânico de ultramar foi adquirido inicialmente mediante uma combinação de explorações, comércio e conquista.Porém, de uma maneira mais semelhante a de seus predecessores romanos e chineses ou de seus rivais franceses e espanhóis, sua capacidade de permanência derivou em grande parte da percepção da superioridade cultural britânica.Essa superioridade não era só uma questão de arrogância subjetiva por parte da classe governante imperial, mas uma perspectiva compartilhada por muitos dos súditos não-britânicos. [...] A superioridade cultural, afirmada com êxito e aceitada com calma, teve como efeito a diminuição de depender de grandes forças para manter o poder do centro imperial.Antes de 1914 só uns poucos milhares de militares e funcionários britânicos controlavam ao redor de sete milhões de quilômetros quadrados e quase quatrocentos milhões de pessoas não-britânicas.´´ [4]

A subordinação ideológico-cultural produz, nos Estados subordinados uma ``superestrutura cultural´´ que forma um verdadeiro ``teto de vidro´´ que impede a criação e a expressão do pensamento anti-hegemônico e o desenvolvimento profissional dos intelectuais que expressam esse pensamento. O uso que aqui damos a expressão ``teto de vidro´´ pretende representar a limitação invisível para o progresso dos intelectuais anti-hegemônicos, tanto nas instituições culturais como nos meios de comunicação de massa. [5]

O surgimento do pensamento nacional

Em alguns dos estados que foram submetidos pelas potências hegemônicas a uma política de subordinação cultural surge, como reação, um pensamento anti-hegemônico que leva adiante uma insubordinação ideológica que é, sempre, a primeira etapa de todo processo emancipatório exitoso. Quando esse pensamento anti-hegemônico consegue se traduzir em uma política de estado, então, se inicia um processo de ´´insubordinação fundadora`` [6] que, ao ser exitoso, consegue romper as cadeias que prendem o Estado, tanto cultural, econômica e politicamente, com a potência hegemônica.

Na Argentina o pensamento anti-hegemônico foi designado pelos seus próprios protagonistas como ``Pensamento Nacional´´ por contraposição ao pensamento produzido pela subordinação cultural, pensamento, este último, ao que denominaram implicitamente, como ´´Pensamento Colonial”. O pensamento colonial, para os homens do pensamento nacional, dava origens a partidos políticos, de esquerda ou de direita, que não questionavam a estrutura material nem a superestrutura cultural da dependência.

Portanto, poderia haver, nos termos expressados por esses mesmos homens do pensamento nacional, tanto uma direita como uma esquerda ´´mercenárias``.

A geração do ‘900 e a primeira insubordinação ideológica

Na América Latina, a primeira insubordinação ideológica foi protagonizada pelos homens da chamada Geração do ‘900, cujas figuras mais representativas foram o uruguaio José Enrique Rodó[7] (1871-1917), o mexicano José Vasconcelos[8] (1882-1959) e o argentino Manuel Ugarte (1875-1951).Eles concluíram que o processo de rebelião colonial hispano-americana iniciado em 1810, havia sido, em realidade, um ´´grande fracasso``, porque ao contrário do processo de rebelião colonial protagonizado pelas Treze Colônias norte-americanas, não havia terminado na ´´Unidade``, isto é, na conformação de um único Estado, mas pelo contrário - a diferença dos desejos e esforços de seus principais heróis, Artigas, San Martín, Belgrano, O’Higgins, Bolívar e Sucre – na fragmentação da nação hispano-americana. [9]

Esta primeira insubordinação ideológica, se materializou politicamente no Aprismo fundado pelo jovem peruano Víctor Raúl Haya de la Torre (1895-1979) que formou o primeiro partido político hispano-americano cuja finalidade era a construção de um estado latino-americano que abarcaria desde o Rio Grande à Tierra del Fuego, abraçando uma ideologia concreta, o pensamento daqueles homens da Geração do ‘900. [10]

A Geração Revisionista e a segunda insubordinação ideológica

A segunda insubordinação ideológica, melhor localizada geograficamente, porém talvez, mais intensa do ponto de vista conceitual originada no Rio da Prata, foi protagonizada por aqueles homens a quem podemos chamar de ´´ A Geração Revisionista``. Ao falar dessa Geração é imprescindível mencionar seus mais destacados integrantes como foram os argentinos Arturo Jauretche (1901-1974), Raúl Scalabrini Ortiz (1899-1959), José María Rosa (1906-1991), José Luis Torres (1901-1965), Arturo Sampay (1911-1977), Rodolfo Puiggrós (1906-1980), José Hernández Arregui  (1913-1974), Jorge Abelardo Ramos (1921-1994), Fermín Chaves (1924-2006), os uruguaios Washington Reyes Abadie (1919-2002), Vivian Trías (1922-1980) e o mais jovem de todos eles, Alberto Methol Ferré (1929-2009). Fora do Rio da Prata, podem também ser considerados inscritos nesta corrente, o boliviano Andrés Soliz Rada e o chileno Pedro Godoy, estes dois últimos ainda vivos.

 A ´´idéia força`` fundamental descoberta pela ´´Geração Revisionista`` que se transformará na pedra angular de todo seu pensamento, consiste em revelar que a ´´guerra de independência da Espanha`` foi um fracasso não só como sustentam os homens da Geração do ‘900, por não se conseguir configurar a grande nação hispano-americana, mas também, porque as distintas repúblicas que surgiram, produto da fragmentação dos diferentes Vice-reinados, passaram da dependência formal da Espanha à dependência informal da Grã-Bretanha; essa dependência informal da Grã-Bretanha fez que todas as Repúblicas hispano-americanas se incorporarem à economia internacional como simples produtores de matérias-primas e, ao contrário de Estados Unidos e Canadá[11], subordinadas ideologicamente, não aplicaram uma política protecionista que houvesse lhes permitido se converter, também, em medianos ou fortemente industrializados, o que, por sua vez, teria facilitado a unidade que propunham os homens do ‘900.  [12]

A Geração Revisionista é uma corrente de pensamento que descobre, também, que o instrumento principal através do qual a Inglaterra conseguiu a subordinação ideológico-cultural da América espanhola e da Argentina em particular, consistiu na ´´falsificação da história``.

É por isso que escreveu Raúl Scalabrini Ortiz:´´Se não temos presente a constante e astuta compulsão, com que a diplomacia inglesa leva estes povos aos destinos planejados e mantidos por eles, as histórias americanas e seus fenômenos sociais são narrações absurdas em que os acontecimentos mais graves ocorrem sem antecedentes e acabam sem consequência. Neles atuam anjos e demônios, não homens...a história oficial argentina é uma obra da imaginação em que os fatos foram consciente e deliberadamente distorcidos, falsificados, de acordo com um plano preconcebido que tende a dissimular o trabalho de intriga feito pela diplomacia inglesa, promotora subterrânea dos principais acontecimentos ocorridos neste continente.´´[13]

Esta simples, porém contundente citação de Scalabrini Ortiz poderia resumir de modo tão claro como é lapidário, o núcleo do descobrimento dessa série de elevadas penas ao serviço da nação: deixar claro que não só fomos desintegrados, mas que fomos para a maior glória, senhorio e riqueza da Inglaterra. Novo amo que se instalou para saquear nossos recursos, frustrar nossas ânsias de liberdade nacional e justiça para nossa gente.

E claro, como a verdade de que seguíamos sendo uma colônia, embora dependentes de outro mestre, a Grã-Bretanha, não era um filme ´´adequado para todo público``, teve-se que ´´inventar`` uma nova história, uma história que oculte, distorça e ajuste os fatos aos desígnios do novo mestre. Essa tarefa que, com maestria de veterano sofista levou adiante Bartolomé Mitre, depois da batalha de Caseros, foi difundida pela escola pública e pelos programas oficiais: ´´A história que nos ensinaram desde pequenos, a história que nos inculcaram como uma verdade que já não é analisada, pressupõe que o território argentino flutuava beatificamente no seio de uma matéria angélica. Não nos cercava nem avidezas nem cobiças estranhas. Tudo de ruim que aconteceu entre nós, entre nós mesmos foi engendrado...as lutas diplomáticas estiveram ausentes de nossas contenções...para esconder a responsabilidade dos verdadeiros instigadores, a história argentina adota esse ar de ficção em que os protagonistas se movem sem relação com as duras realidades desta vida. As revoluções são explicadas como simples explosões passionais e ocorrem sem que ninguém forneça fundos, viveres, munições, armas, equipamentos. O dinheiro não está presente nelas, porque rastreando as pegadas do dinheiro pode-se chegar a descobrir os principais mobilizadores revolucionários... essa história é a maior inibição que pesa sobre nós. A reconstrução da história argentina é, por isso, urgente, inevitável e impostergável.`` [14]

Conhecer a existência de uma verdade diferente da ´´oficial``, como bem aponta Scalabrini Ortiz, no parágrafo anterior, para aqueles homens torna-se impostergável o trabalho de ´´descobrir`` a história verdadeira, a história que nos relegava a servos e nos atava ao destino da potência que, sorrateiramente, nos dominava. Não podiam aqueles homens de política e caneta, deixar de encarar a tarefa de estabelecer, sobre bases sólidas, os princípios ocultos, aquelas premissas que nos levarão a conclusões verdadeiras, longe da falácia mitrista e perto do conhecimento de nossa realidade e de nossos problemas reais, para que munidos de verdades, encaremos a solução dos verdadeiros problemas. Era para isso, necessário revisar (e refutar documentos em mão) a farsa mitrista, alheia à verdade. A essa tarefa se dedicaram, principalmente, entre outros, José Maria Rosa, Jorge Abelardo Ramos e Fermín Chávez.

Segundo Arturo Jauretche, a falsificação da história argentina, prosseguiu como propósito: ´´Impedir, através da desfiguração do passado, que os argentinos possuam a técnica, a atitude para conceber e realizar uma política nacional... desejando que ignoremos como uma nação é construída e como sua formação autêntica é prejudicada, para que ignoremos como se conduz, como se constrói uma política de fins nacionais, uma política nacional... não é pois um problema de historiografia, mas de política: o que nos apresentaram como história é uma política da história em que essa, é só um instrumento de planos mais vastos destinados precisamente a impedir a história, a verdadeira história, com a formação de uma consciência histórica nacional que é a base necessária de toda política da nação... a política da história falsificada é, e foi, a política da anti-nação, da negação do ser e de suas próprias possibilidades, é incontestável, por outro lado, que a verdade histórica é o antecedente de qualquer política que se defina como nacional, e todos terão de concordar na necessária destruição da falsificação que tem impedido que nossa política exista como coisa própria, como criação própria, para um destino próprio.`` [15]

A necessidade de um Novo Revisionismo Histórico para a concretização da nossa segunda independência

Enquanto que a primeira insubordinação ideológica dos homens da Geração do ‘900, materializou-se politicamente no aprismo, a segunda insubordinação ideológica, protagonizada pelos homens da Geração Revisionista, materializou-se no peronismo que iniciou, em 1945, um processo de Insubordinação Fundante que foi abortado, quando produzido, dez anos depois, induzido pela Inglaterra e pelos Estados Unidos, o golpe de estado que derrubou o governo constitucional de Juan Domingo Perón (1895-1974). Caído o peronismo, foi vítima, como havia sido, em sua época, o rosismo [16], da falsificação da história, e se apresentou o governo peronista, como um governo ´´populista``, a Perón como um General fascista e a seu grande amor e companheira, María Eva Duarte de Perón, Evita (1919-1952), como uma ´´revolucionária``, oposta ao General burguês que era incapaz de levar adiante a revolução, criando, dessa forma o ´´evitismo`` como forma superior do anti-peronismo.[17].

Foi então, que os homens da Geração Revisionista, empreenderam a tarefa de reivindicar o peronismo, como já haviam feito com o rosismo, porém sua tarefa permaneceu inconclusa porque, muitos destes homens de caneta e política, os surpreendeu, antes, a morte. Concluir essa tarefa, é a missão inevitável do Novo Revisionismo Histórico.

*Marcelo Gullo nasceu na cidade de Rosário em 1963. Nos primeiros meses de 1981, começou sua militância política contra a ditadura militar. Doutor em Ciência Política pela Universidade del Salvador, Bacharel pela Universidade Nacional de Rosário, Graduado em Estudos Internacionais pela Escola Diplomática de Madri, obteve o Diploma de Estudos Superiores em Relações Internacionais, especialização em História e Política Internacional, pelo ´´ Institut Universitaire de Hautes Etudes Internationales`` da Universidade de Genebra. Discípulo do cientista político brasileiro Helio Jaguaribe e do sociólogo e historiador uruguaio Alberto Methol Ferré, publicou numerosos artigos e livros e é acessor em matéria de Relações Internacionais da Federação Latino-americana de Trabalhadores da Educação e da Cultura (FLATEC) e professor de História Argentina na UNLa (Universidade Nacional de Lanús).


[1] Ver Aron, Raymond, Paix et guerre entre les nations (avec une presentation inédite de l’auteur), Paris, Ed. Calmann-Lévy, 1984.

[2] Hans Morgenthau define o imperialismo cultural do seguinte modo: ´´Se alguém pudesse imaginar a cultura e, mais particularmente, a ideologia política de um Estado A com todos seus objetivos imperialistas concretos em processo de conquistar as mentalidades de todos os cidadãos que fazem a política de um estado B, observaríamos que o primeiro dos estados teria conquistado uma vitória mais que completa e teria estabelecido seu domínio sobre uma base mais sólida que a de qualquer conquistador militar ou amo econômico. O Estado A não precisaria ameaçar com a força militar ou usar pressões econômicas para alcançar seus fins. Para isso, a subordinação do Estado B à sua vontade teria sido produzida pela persuasão de uma cultura superior e por uma maior atrativo de sua filosofia política``. Morghentau, Hans, Política entre as nações. A luta pelo poder e pela paz, Buenos Aires, Grupo Editor Latino – americano, 1986, p. 86.

[3] Hernández Arregui, Juan José, Nacionalismo e libertação, Buenos Aires, Ed. Peña Lillo, 2004, p.140.

[4] Brzezinski, Zbigniew, O grande conselho mundial. A supremacia estadunidense e seus imperativos geoestratégicos, Barcelona, Ed. Paidos, 1998, p.29.

[5] Segundo as reflexões de Gustavo Battistoni, podemos dizer que os intelectuais anti-hegemônicos, são dissidentes do sistema que, ao não aceitar as ideias hegemônicas, sofrem, como castigo, o esquecimento. Pela pressão da superestrutura cultural que, nos países subordinados, está a serviço das estruturas do poder mundial.  BATTISTONI, Gustavo, Dissidentes e esquecidos, Rosario, Ed. Germinal, 2008.

[6] Sobre o conceito de Insubordinação Fundante ver Gullo, Marcelo, A Insubordinação Fundante, Breve história da construção do poder das nações, Buenos Aires, Ed. Biblos, 2008.

[7] Foi com a geração do ‘900 que, após cem anos de solidão, se resgata, pelo menos intelectualmente, a unidade histórica da América Latina. A Geração do ‘900 foi a primeira – após o fim da guerra da independência – que concebeu a ideia de que todas as repúblicas hispânicas eram artificiais, na realidade, eram parte de uma mesma pátria dividida. Um dos membros mais destacados desta geração, o uruguaio José Enrique Rodó, foi o primeiro que, no Rio da Prata, reivindicou Simón Bolívar, e retomou a ideia bolivariana de que todas as repúblicas hispano-americanas eram apenas fragmentos de uma Pátria Grande. É, nesse sentido, que afirma Rodó, já em 1905: “Pátria é, para os hispano-americanos, a América espanhola. Dentro do sentimento de Pátria, cabe o sentimento de adesão, não menos natural e indestrutível para a província, para a região, para a comarca; e províncias, regiões ou comarcas de nossa pátria, são as nações em que ela politicamente se divide... A unidade política que consagre e encarne essa unidade moral – o sonho de Bolívar -, é ainda um sonho cuja realidade não verão talvez as gerações hoje vivas. O que importa! A Itália não era apenas a ‘expressão geográfica’ de Metternich, antes de a espada de Garibaldi e o apostolado de Mazzini a constituírem em expressão política”. RODO, José Enrique, El Mirador de Próspero, Barcelona, Ed. Cervantes, 1928, p. 170.

[8] Significativamente José Vasconcelos em 1923, por ocasião de seu discurso que pronunciou na Faculdade de Humanidades de Santiago do Chile, dia em que recebeu o grau de professor honorário, argumentou: ´´Eu vejo a bandeira ibero-americana flutuante, uma só, no Brasil, no México, no Peru e na Argentina, no Chile e no Equador, e me sinto nesta Universidade de Santiago tão encarregado de responsabilidades com o presente, como se aqui mesmo estivesse passado todos meus anos.`` Claridad, Lima, Ano 1, maio, 1923, p.2.

[9] A este respeito afirma Manuel Ugarte em sua obra ´´O futuro da América Espanhola``, os seguintes conceitos: ´´Contemplemos o mapa da América Latina. O que primeiro ressalta aos olhos é o contraste entre a unidade dos anglo-saxões, reunidos com toda autonomia que implica um regime eminentemente federal, baixo uma só bandeira, em uma nação única, e o desmantelamento do latinos, divididos em vinte nações, algumas vezes indiferentes entre si e outras hostis. Ante a tela pintada que representa o Novo Mundo é impossível evitar a comparação. Se a América do Norte, após o impulso de 1775, houvesse sancionado a dispersão de seus fragmentos para formar repúblicas independentes; se Geórgia, Maryland, Rhode Island, Nova Iorque, Nova Jersey, Connecticut, New Hampshire, Maine, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Pensilvânia houvessem se erguido em nações autônomas, comprovaríamos o progresso implausível distintivo dos Yankees? O que facilitou foi a união das treze jurisdições coloniais que se separaram da Inglaterra, jurisdições que estavam longe de apresentarem a homogeneidade que notamos entre as que se separaram da Espanha. Esse é o ponto de partida da superioridade anglo-saxã, no Novo Mundo. Apesar da Guerra da Secessão o interesse supremo se sobrepôs, no Norte, às convenções regionais e o povo inteiro se lançou ao topo, enquanto no sul, subdividíamos o esforço deslumbrados por apetites e liberdades teóricas que nos faria adormecer``. UGARTE, Manuel, O futuro da América Espanhola, Valência, Ed. F Sempere, 1911, p 110.

[10] Em 29 de junho de 1925, seguindo a convocação de José Ingenieros realizou-se uma assembléia anti-imperialista em Paris, na Maison de Savants, na rua Danton, para protestar contra a ameaça estadunidense de invadir o México. No cenário o melhor do pensamento ibero-americano. Miguel de Unamuno, José Vasconcelos, Manuel Ugarte, Eduardo Ortega y Gasset, o poeta guatemalteco Miguel Ángel Asturias, o líder estudantil uruguaio Carlos Quijano – mais tarde diretor do Semanário ´´Marcha`` - e Vítor Raúl Haya de la Torre.

O ato foi encerrado com as seguintes palavras de Vítor Raúl Haya de la Torre: ´´Um dos mais importantes planos do imperialismo é manter a nossa América dividida, América Latina unida, federada, formaria um dos países mais poderosos do mundo e seria visto como um perigo... Consequentemente, o plano mais simples é... nos dividir. O melhor instrumento para esta tarefa são as oligarquias crioulas, e a palavra mágica para a execução é ´pátria`. Pátria pequena e patriotismo pequeno, na América Latina, são as Clestinas do imperialismo. Patriotismo significa hostilidade ao vizinho, ódio, xenofobia, nacionalismo provinciano e bastardo. E sabem bem quem nos dominam na América Latina que o culto da pequena pátria é um culto suicida. Sabem bem que dividir nossa pátria com ódios é abrir as portas ao conquistador...Nossas classes dominantes atraiçoam-nos, vendem-nos, são nossos inimigos de dentro. O único caminho dos povos latino-americanos que lutam por sua liberdade é se unir contra essas classes, derrubá-las do poder, castigar sua traição. Essa é a grande missão da nova geração revolucionária anti-imperialista da América Latina. Acusar e punir os mercadores da pátria pequena e formar a pátria grande``. HAYA DE LA TORRE, Víctor Raúl, Para a Emancipação da América Latina, Buenos Aires, Ed. Gleizer, 1927, p. 108

[11] No que diz respeito a história política e econômica do Canadá, é necessário assinalar que: durante a campanha eleitoral de 1878 o líder do partido conservador John Mcdonald levantou as bandeiras do protecionismo e da industrialização. Seus adversários do partido liberal, a do destino agrário do Canadá. O partido liberal defendia mais livre comércio para a saída da crise, o partido conservador mais e mais protecionismo econômico, tudo o que os industriais necessitavam. São significativas as seguintes palavras que Mcdonald pronunciou em um encontro com industriais: ``Não posso dizer que tipo de proteção eles exigem. Porém, deixemos que cada industrial nos diga o quer, que nós trataremos de dar o que necessitam´´. Nas eleições de 1878, o velho líder conservador John Mcdonald, obteve um grande triunfo eleitoral. Em 14 de março de 1879 a Câmara dos Comuns, sancionou oficialmente a National Policy, estabelecendo desta forma uma forte política protecionista que duraria por mais de 50 anos.

[12] Diferente da Argentina que após a batalha de Caseros levantou a bandeira do livre comércio, o Estados Unidos foi, até depois da Segunda Guerra Mundial, o bastião mais poderoso das políticas protecionistas e seu lar intelectual. Em 1816, a tarifa para quase todos os produtos manufaturados era de 35%. Em 1820, a tarifa média para os produtos manufaturados era de 40 %. Em 1832, a Lei Tarifária concedeu uma proteção especial de 45% para os produtos manufaturados de lã e 50% para os tecidos de algodão. Em 1875, as tarifas para produtos manufaturados oscilavam entre 35% e 45%. Somente em 1913, houve uma diminuição das tarifas, porém a medida foi revertida um ano mais tarde, quando estourou a Primeira Guerra Mundial. Em 1922, a porcentagem paga sob produtos manufaturados de importação, subiu 30%. Em 1925, a tarifa média dos produtos manufaturados era de 37% e, em 1931, de 48%. Todavia em 1960, os Estados Unidos mantiveram uma tarifa média de 13%. A este respeito, ver Chang, Ha-Joon, Remova a escada. A estratégia de desenvolvimento em perspectiva histórica, Madrid, Ed Instituto Complutense de Estudos Internacionais (ICEI), 2004 e SEVARES, Julio, Por que cresceram os países que cresceram, Buenos Aires, Ed Edhasa, 2010.

[13] Scalabrini Ortiz, Raúl, Política Britânica no Rio da Prata, Buenos Aires, Ed. Sol 90, 2001, Págs. 46 e 47.

[14] Ibid., Pgs. 47 a 49.

[15] JAURETCHE, Arturo. Política Nacional e Revisionismo Histórico, Buenos Aires, Ed. Corregidor, 2006, p. 14 a 16.

[16] ``A ``Revolução Libertadora´´ de 1955 queria fazer com o peronismo a mesma política da história que havia feito com os federais, reforçada pelas cátedras da Educação Democrática e pelas medidas destinadas a enterrar o passado, proibindo símbolos, cânticos e retratos... Por exemplo, para prejudicar Perón, tentaram identificá-lo com Rosas e resultou que Rosas saiu ganhando porque então o povo começou a entendê-lo´´ JAURETCHE, Arturo, ``Os vencedores de Caseros não fizeram uma história da política mas uma política da história´´. Crisis, dezembro de 1973.

[17] A respeito afirma Noberto Galasso: ``Na polícia armada da frente de libertação nacional, o General necessitava de um contato direto com ‘a espinha dorsal’ - os sindicatos – e essa tarefa foi realizada por ela, que já começou a ser ‘Evita’ e deixou os luxuosos vestidos pelo terno de alfaiate... Então, veio sua viagem à Europa e ao regressar, põe em marcha a Fundação, duplicando assim a tarefa social de apoiar o movimento. Ali entregou sua vida. ‘Não foi caridade’ – recordava seu confessor, o padre Hernán Benítez -. Era preciso ficar até a madrugada para responder às cartas porque nenhum argentino deveria ficar desapontado por falta de resposta, superando a fraqueza dos 38 quilos. O povo entendeu esse amor desenfreado. A oligarquia também por isso à odiava: ‘Viva o câncer’ escreveram nas paredes. Ela, consumida pela doença, disse suas últimas palavras: ‘Obrigado, Juan’. Os evitistas de última hora jamais serão capazes de compreendê-lo, esse é o ‘evistismo anti-perón’ que como disse alguém, é o estágio superior do gorilismo.” GALASSO, Norberto, Aquela mulher, segunda-feira, 9 de maio de 2011.

Tradução: Elvis Braz Fernandes

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Soros para "terrorista" arrecada 140mil assinaturas


Uma petição feita à Casa Branca para declarar o bilionário húngaro-americano George Soros como terrorista arrecadou mais de 140.000 assinaturas, muito além do exigido 100.000 para ser considerada pela administração.

A petição, que também pede o confisco de todos os ativos de Soros, argumenta que o bilionário "voluntariamente age com o fim de desestabilizar e comete atos de sedição" contra os Estados Unidos. Também que "ele desenvolveu uma influência doentia e indevida sobre todo o Partido Democrata e uma larga porção do governo federal dos EUA".

A Influência Indevida

Está mais do que certo que Soros mantém uma influência doentia sobre o Partido Democrata, bem como sobre os sistemas políticos ao redor do mundo (tráfico de drogas, ONGs e Fóruns dissolvedores de tradições, financiamento de ativismo feminista como o FEMEN, tráfico de órgãos, de pessoas, envolvimento com prostituição massiva, pedofilia e rituais de sacrifício; além disso, o golpe contra Yanukovitch e o massacre na Ucrânia sob Poroshenko, por exemplo, jamais teria acontecido sem o esforço de Soros).

Soros foi o maior doador à campanha de Hillary Clinton nas eleições de 2016, superando as doações milionárias da Arábia Saudita, e por décadas usou sua vasta riqueza para influenciar a política, provocar descontentamento generalizado e financiar o caos em países ao redor do mundo sob o disfarce de filantropia e humanitarianismo. Mas Soros (e muitos dos seus beneficiários) representa uma hipocrisia alarmante. Sob a desculpa de apoiar e promover a democracia ao redor do mundo, as ações de Soros consistentemente a destroem. Ou, como um escritor para o The Observer afirmou: "não há nada de filantrópico em afogar uma democracia em dinheiro".

Afogar uma democracia em dinheiro é exatamente o Soros faz -- e isso tem pouco que ver com filantropia, justiça ou consciência social. Os Democratas financiados por Soros rotineiramente atacam qualquer um que realmente ousa enfrentar o sistema que permite um bilionário manter um controle sobre as "democracias" que supera os povos legais que vivem e votam nelas. Observemos os ataques viciosos deles sobre Bernie Sanders -- um candidato que ao menos teve a integridade de evitar os Super PACS que ele acreditava estarem infectando a democracia estadunidense.

Mesmo depois da derrota para Doland Trump, Clinton ainda continua mirando em Sanders -- um homem que a aprovou, apesar das revelações de que o suposto neutro Comitê Democrático Nacional trabalhava secretamente para minar sua campanha popular.

Soros foi elogiado pela esquerda e satanizado pela direita. Como tal, muitas das críticas contra ele são encontradas em websites e blogs de direita, enquanto o mainstream liberal permanece inerte -- um contraste distintivo em relação ao qual eles tratam bilionários como os irmãos Koch, que enchem os bolsos dos Republicanos.

Dois Pesos, Duas Medidas

Os estadunidenses assinantes da petição estão descontentes com o financiamento de Soros de movimentos como Black Lives Matter (que se espalha pelo Brasil através de programas universitários, que sempre dão preferência a LGBTs e meninas mimadas e egoístas com sede de sucesso, mostrando o baixíssimo nível da nossa academia brasileira, sempre subserviente ao que manda o american-way-of-live) e suas ligações com os grupos de esquerda. Há ainda aqueles que acreditam que Soros está por trás de ambos os lados que lutaram entre si nos protestos violentos de Charlottesville mês passado, o que não é de modo algum absurdo, quando se tem que o mesmo ocorreu na Ucrânia, na Líbia, na Síria, na Venezuela, e em 2013 no Brasil, em suma, todo lugar onde Soros põe a mão.

Muitos críticos de Soros acabam atacando-o muito agressivamente, motivo que lhe dá para acusá-los de antissemitas, uma vez que Soros é judeu ashkenazi. Além disso, Soros culpa o presidente russo Vladimir Putin por todos os males do mundo, o que, não obstante, parece ser um tipo de retórica muito comum entre judeus, que adoram culpar os outros por aquilo que eles fazem (Holodomor e Holocausto são apenas alguns exemplos: os próprios termos vêm de tradições judaicas de sacrifício sanguinário, completamente estranhas aos povos pagãos indo-europeus e sobretudo eslavo-germânicos).

Mas há, realmente, uma hipocrisia evidente por parte dos estadunidenses que acusam Soros. Por um lado, estão de pleno direito de se ofender com os esforços de Soros para influenciar a política nos EUA, mas não têm direito de permanecer calados quando isto acontece no estrangeiro, que é o que fazem. Eles sequer estão interessados em saber o que seu governo faz (através de Soros, em grande parte das vezes) para promover a "revolução" e minar governos estrangeiros.

Na verdade, quando Washington se empenha neste tipo de comportamento, os críticos de Soros até mesmo o apoiam aqui. Acusar Soros de financiar "notícias falsas" nazistas em Charlottesville é uma coisa, mas quando ele ajuda o governo dos EUA a instalar nazistas de verdade na Ucrânia em 2014, pouquíssimos estadunidenses, tanto da esquerda quanto da direita, se sentem incomodados. Eles certamente não assinaram as petições para considerar seu próprio governo como terrorista, de modo algum. É estranho como "atos de sedição" são tomados a sério apenas quando pensam estar minando a si e sua agenda política.

Mas Soros, famoso por sua política liberal, não tem escrúpulos em usar $25 bilhões (+- R$85 bilhões) de sua fortuna para financiar conservadores também. Tomemos como exemplo os $100.000 (R$350.000,00) que ele doou à fundação do ultra-belicista senador John MacCain, que também aceitou $1 milhão (R$3,5 milhões) da Arábia Saudita. Uma coleção interessante de filantropistas amantes da democracia!

Um cético pode conjecturar de que Soros não é realmente um liberal de coração sanguinário, mas um altruísta de algum modo. Contudo, não se pode negar que um bilionário usa seu dinheiro para preservar os meios que mantêm ele rico.

A Resposta de Trump

As chances da Casa Branca levar esta petição a sério são basicamente zero. Esquerda e direita, progressistas e conservadores são todos liberais. A imensa esmagadora maioria deles (além da totalidade do Estado Profundo, isto é, o Pentágono, quem controla todo o sistema estadunidense) está totalmente afundada na mesma lama. Soros e Trump podem se odiar naquilo que seus projetos superficiais diferem, mas o que importa para eles acima de tudo é o dinheiro.

Confrontos públicos mascaram os tapinhas nas costas feitos em privado. Soros se uniu a Ivanka Trump e seu marido Jared Kushner em uma recepção dos Hamptons feita por um editor da Washington Post. Kushner, por sua vez, fundou uma start-up imobiliário que recebeu $250 milhões de linha de crédito de Soros. O bilionário e financiador dos Republicanos David Koch estava presente. O mesmo acontece entre Trump e Clinton.

Quanto às petições em geral, há uma extensa história de petições requisitando ações implausíveis que alcançam os números de assinaturas necessários para um parecer oficial. Em 2012, a Casa Branca recebeu petições de secessão de 50 estados através do "We The People", uma iniciativa fundada pela própria administração Obama.

A iniciativa requeria inicialmente que uma petição recebesse apenas 25.000 assinaturas para uma resposta oficial da Casa Branca -- uma subestimação infantil de quantas pessoas assinam petições como brincadeira. Da mesma maneira, por exemplo, foi uma sugerindo que a sexta-feira fosse considerada final de semana, outra pedindo que o governo trouxesse de volta Doritos 3D.

Engraçado ou não, Trump não é um fã de petições. Desde que ele tomou seu posto em janeiro, em torno de uma dúzia de petições alcançou a assinatura de 100.000 e permaneceu sem resposta. Na verdade, Trump está até considerando acabar com a operação em geral. Talvez por causa dos "custos de manutenção", mas talvez também porque a maior das petições, com mais de 1.1 milhão de assinaturas, requisita um retorno dos impostos, ou quem sabe porque ele não gosta mesmo da transparência da Casa Branca.

Contudo, o caso de Trump é mais complicado do que parece. Sua campanha e seu discurso na tomada de posse tiveram grande influência de Steve Bannon, que manteve uma direção explicitamente populista e socialista. No primeiro mês de serviço de Trump, foi Kushner e o próprio John McCain quem pressionaram Trump a abandonar sua linha anterior. O resultado foi imediato: a amizade com os russos e as promessas de paz com iranianos, sírios e norte-coreanos desfaleceu e Bannon foi despedido. A partir de então, Trump apenas segue os mandamentos do Pentágono, que é a mesma de Soros, de Clinton, McCain etc.

Olavo de Carvalho

Sabe-se que as ligações de Soros são com quem menos se espera. Financia ambos os lados de uma guerra para desestabilizar países, continentes ou partidos políticos. O objetivo é claro: aumentar a potencialidade de arrecadar poder, isto é, dinheiro.

Assim, tanto esquerda quanto direita, também no Brasil, só brigam nas redes sociais. Olavo faz o papel da desinformação generalizada, do emburrecimento massivo da população brasileira, tanto quanto qualquer formador de opinião em vloggers que abundam no país, inspirados no Mephstre e nos doutorzinhos da esquerda.

Olavo com Soros, Rockefeller, Luciano Huck, FHC, ONGs feministas e muito mais, confiram neste links: