Até 1989, muitas empresas ocidentais produziam seus artigos na
Alemanha de regime comunista. A mão de obra barata, no entanto, muitas
vezes era de prisioneiros, submetidos a más condições de trabalho.
Tudo começou com acusações contra o fabricante de móveis Ikea, segundo
as quais os produtos vendidos pelo grupo sueco teriam sido produzidos,
durante anos, por trabalhadores forçados. No dia 2 de maio, a rede de
televisão sueca SVT transmitiu uma reportagem com depoimentos de antigos
prisioneiros da República Democrática Alemã (RDA), a Alemanha de regime
comunista.
Segundo os testemunhos, prisioneiros políticos da RDA teriam fabricado
móveis da Ikea em prisões da antiga Alemanha Oriental até a queda do
Muro de Berlim, no final de 1989. Este não seria um caso isolado, mas
uma prática comum de que muitas empresas da Alemanha Ocidental também
teriam tirado proveito, já que todos os prisioneiros na Alemanha
Oriental eram obrigados a trabalhar.

Ikea foi acusada de utilizar trabalho forçado na então Alemanha Oriental
"Os prisioneiros eram obrigados a fazer, sob as piores condições, o
trabalho mais pesado e sujo, que mais ninguém queria fazer", diz o
pesquisador Steffen Alisch, da Universidade Livre de Berlim,
especialista em Alemanha Oriental.
A empresa Ikea quer agora saber se as alegações correspondem à verdade.
Para isso, pretende pesquisar nos arquivos da polícia política da
Alemanha Oriental, a Stasi. Em 2011, uma reportagem da televisão pública
alemã WDR revelou que 65 locais de produção na então Alemanha Oriental
haviam trabalhado para a firma sueca. Não se sabe, no entanto, a
proporção de trabalho forçado usado para fazer móveis para a Ikea.
O trabalho forçado era planejado

Hildigund Neubert, responsável pelos arquivos da Stasi na Turíngia
Sabe-se, no entanto, que o trabalho forçado fazia parte da economia
da RDA. Em meados dos anos 1980, havia no país 20 mil presos. Os
prisioneiros representavam "apenas" 1% da produção industrial, mas o
governo "não queria abrir mão deles", disse à DW Hildigund Neubert,
responsável pelos arquivos da Stasi no estado da Turíngia. "Quando eram
concedidos indultos, havia reclamações dos ministérios. Eles temiam que,
sem esses trabalhadores, as metas econômicas não seriam alcançadas".
Pelo seu trabalho, os prisioneiros recebiam um salário miserável.
Neubert diz ser difícil apurar as responsabilidades de firmas ocidentais
em particular. Para ela, seria um gesto louvável se as empresas que
lucraram com o negócio sujo do trabalho forçado fizessem doações a
fundações como forma de restituição.
Não era segredo, mas era pouco conhecido

Tecidos produzidos na antiga Alemanha Oriental
Era do conhecimento público que a RDA fabricava produtos para
empresas ocidentais, que tiravam proveito dos salários baixos na RDA. A
Alemanha Oriental via as exportações para o ocidente como oportunidade
para obter divisa forte, que precisava em ritmo crescente.
Neste sentido, a RDA tinha acordos de cooperação com a Suécia e o
Japão. "Com a Alemanha [Ocidental] um acordo formal teria sido
impossível", diz a economista Maria Haendcke-Hoppe-Arndt, antiga
funcionária do arquivo da Stasi. Isto porque, em nível oficial, a
Alemanha Oriental queria evitar qualquer ligação com a Alemanha
Ocidental. Por outro lado, o governo alemão-ocidental tinha interesse
nas relações de comércio e em uma política de "mudança através da
aproximação".
Por isso, a "troca" acontecia sob um complicado esquema indireto
descrito assim por Haendcke-Hoppe-Arndt: "Se, por exemplo, a empresa de
venda por catálogo Quelle precisasse de 10 mil máquinas de lavar, isso
era registrado na Comissão Central de Planejamento e, depois,
encaminhado para o ministério competente. Daí, o pedido ia para o
Departamento de Comércio Exterior, que não produzia nada e era apenas
responsável pela venda. Ou seja, as máquinas de lavar acabavam no plano
de exportações sem que o nome Quelle aparecesse".
De combustível a aventais

Moda prática do Leste alemão
"Havia acordos sobre quem poderia fornecer o quê e como", ressalta a jornalista Anne Worst, autora de
Produtos do Leste para o Ocidente,
um documentário abrangente da emissora pública alemã MDR. "Um local de
encontro importante era a Feira de Comércio de Leipzig [no leste da
Alemanha], por concentrar muitos empresários".
De acordo com Worst, 6 mil empresas da Alemanha Ocidental tinham
ligações comerciais com a RDA. Entre elas, as empresas de venda por
catálogo Quelle e Neckermann, a fabricante de calçados Salamander e a
empresa de cosméticos Beiersdorf, mas também outras empresas menos
conhecidas, como a fabricante de pilhas Varta e a Underberg.
Enquanto a então União Soviética fornecia ao país também de regime
comunista petróleo a preços baixos, as exportações da Alemanha Oriental
de produtos derivados do petróleo eram enormes, tal como as exportações
de produtos químicos, de máquinas e de produtos têxteis.
A margem de lucro era grande. Anne Worst ficou particularmente
impressionada com um exemplo dos anos 1970. Ao liberar uma grande
quantidade de mercadorias de uma só vez, a RDA disponibilizou dez
milhões de aventais: "A empresa Quelle comprou estes aventais por alguns
centavos, colocou-os em pacotes de três e os vendeu no seu catálogo por
9,99 marcos alemães". Em poucas semanas, havia vendido tudo com um
lucro de 30 milhões de marcos.
Interdependência

Produtos nas lojas Intershop normalmente só eram acessíveis aos alemães-ocidentais
Os têxteis eram os produtos de exportação mais conhecidos da Alemanha
comunista, mas não eram os mais exportados: "A RDA fornecia um incrível
número de alimentos para o oeste. Carne de porco, legumes e vegetais,
que, em parte, faltavam aos alemães-orientais. No que diz respeito a
alimentos frescos, Berlim Ocidental inteira dependia dos produtos da
Alemanha Oriental".
A exportação de produtos era possível através da chamada "produção
permitida" [para a Alemanha Ocidental]. Matérias-primas, máquinas e
planos eram entregues à RDA, que entregava os produtos já acabados ou
processados. Parte da produção permanecia na Alemanha Oriental para
incrementar o estoque das lojas Intershop. Estas vendiam produtos mais
caros, de alta qualidade. Por não aceitarem o marco da Alemanha
Oriental, eram uma forma de o governo arrecadar moeda forte.
Negócios secretos
Para além destas transações bastante burocráticas, havia outra área de
relações comerciais que permanece largamente desconhecida. Em 1966, foi
criado um departamento especial para a "Coordenação Comercial" no
Ministério do Comércio Exterior. O seu diretor era Alexander
Schalck-Golodkowski, que se tornou ministro do Comércio Exterior em
1975. Schalck-Golodkowski tornou-se famoso em 1983 por negociar com o
então governador da Baviera, Franz Josef Strauss, uma linha de crédito
para a RDA de vários bilhões de dólares.
O seu departamento, conhecido por "KoKo", abreviatura do nome em
alemão, tinha como função juntar moeda forte de todas as formas
possíveis. Em 1976, o departamento foi desmembrado, se tornou autônomo e
se transformou em uma das instituições mais fortes no país.
Como o departamento conseguia dinheiro? Essa é uma "extensa área ainda a ser pesquisada", diz a jornalista Anne Worst.
Autor: Günther Birkenstock (gcs)
Revisão: Roselaine Wandscheer
Via
Deutsche Welle