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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Os grandes vencedores na Síria: BRICS e o Grupo de Xangai

Por Alfredo Jalife Rahme


Como antecipado  (28/08/13, 1, 4, 8 e 11/09/13), o presidente Barack Obama aceita que o acordo sobre a Síria "pode influenciar as negociações nucleares com o Irã", e chegou a confessar que tinha correspondência com seu colega iraniano Hassan Rouhani sobre a situação na Síria (VOA News, 19/09/13).



Obama acabou por mitigar perigo de desencadear uma "corrida armamentista" no Oriente Médio.

Erich Follath (Der Spiegel, 16/09/13) relata que o presidente iraniano, Rouhani está pronto para fechar sua usina nuclear de Fordo - local de seu maior avanço em enriquecimento de urânio de 20 por cento: longe do mínimo de 90 por cento necessários construir uma bomba atômica - se  o ocidente parar com as sanções.

Juan Cole, professor de história na Universidade de Michigan e renomado orientalista, diz em seu site Informed Comment (15/09/13) como é o mundo após o acordo Kerry-Lavrov sobre a Síria.

Ele acredita que "o seqüestro de armas químicas na Síria provavelmente não encurtará a guerra civil ou salvará muitas vidas", mas há "vencedores e perdedores na região no mundo."

Os "perdedores" são os falcões, como a cubano-americana Ileana Ros-Lehtinen (Republicana-Florida),sem falar nos superbélicos senadores John McCain e Lindsey Graham, que esperavam que o ataque de mísseis pelos EUA mudasse a balança a favor dos rebeldes e em detrimento do Partido Baath sírio.

Comanta que o acordo "desiludiu (sic) profundamente a Turquia, Qatar e Arábia Saudita", que queriam que o bombardeio dos Estados Unidos.

Na Europa, o grande perdedor foi o "socialismo" francês em sua associação bélica com Obama: "A França pensava se posicionar em sua anterior colônia Síria e se reinserir no centro dos assuntos globais."

De acordo com Juan Cole, os grandes vencedores foram os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e do Grupo de Xangai (China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão), com o que concorda "Bajpo la Lupa" (15/09/13).


Chama grandemente a atenção o status de "observadores" do grupo de Xangai - Índia, Mongólia, Afeganistão, Irã (sic) e Paquistão, que se sobrepõe com três membros do BRICS através do denominador comum do triângulo geoestratégico nuclear Rússia/China/India.

Cita que o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov "agradeceu explicitamente os BRICS e o Grupo de Xangai" seu "apoio a abordagem baseada em princípios para resolver o problema de armas químicas na Síria exclusivamente por meios pacíficos."

De acordo com Lavrov, a resolução do problema das armas químicas na Síria "será um grande passo para a criação uma zona livre de armas de destruição em massa no Oriente Médio", que, na minha opinião, é uma quádrupla pressão vigorosa para que Israel ratifique a Convenção sobre a Proibição de armas Químicas, exume sua posse ilegal de armas químicas e biológicas, aceite a inspeção de seu máximo de 400 bombas atômicas por parte da AIEA e assine o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares.

Depois da repreensão do Ministério da Defesa ao agregado militar israelense por lançar em conjunto com os Estados Unidos um teste de míssil em direção a Moscou (Haaretz, 09/09/13), o venenoso primeiro-ministro Netanyahu tem de compreender perfeitamente que as novas dinâmicas do "grande Oriente Médio" não está a seu favor - minuciosamente detalhado por Haaretz (20/09/13) - assim pode-se pensar que ele irá procurar por todos os meios inviabilizar um acordo nuclear entre os EUA e o Irã, ao que antecipou o ex-ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman, hoje líder do partido fundamentalista Yisrael Beytenu, que ameaçou que "Israel deve contar consigo mesmo" para subjugar o Irã (The Times of Israel, 10/09/13).

De fato, o chanceler Lavrov mencionou que a China enviou um navio de guerra para o Mar Mediterrâneo, perto da Síria, durante o auge da crise.

Juan Cole argumenta que o ataque unilateral de Obama a Damasco "foi simbolicamente sublinhado que a Rússia não é uma grande potência e carece de invioláveis ​​esferas de influência". O inverso é mais do que verdadeiro: "A Rússia tem sido tratado como um igual pelos diplomatas norte-americanos" e "sua estatura cresceu", o que é confirmado pela revista Foreign Policy, que qualifica o presidente russo como "Vlad da Arábia" (13/09/13), referindo-se a "Lawrence da Arábia", o lendário espião britânico encarregado de implementar no campo militar o acordo da Grã-Bretanha e da França para dividir o Império Otomano pelo mapeamento Sykes-Picot.

O diretor da Rede Voltaire, Thierry Meyssan - que foi um dos poucos no mundo que previram o acordo entre Putin e Obama -, informa que os EUA e a Rússia redesenharam o novo mapa do Oriente Médio, em semelhança com o Sykes-Picot de 1916, que, como é entendido, deve passar inevitavelmente pela desnuclearização da área.

Juan Cole argumenta que "o governo Putin apoia a Síria, em parte, porque protege os cristãos ortodoxos sírios", além de Aleppo, a principal cidade do país, "está apenas 24 horas de estrada, através da Turquia , da cidade de Grozny, onde a Rússia tem enfrentado turbulência substancial nas últimas duas décadas". O Fantasma do Cáucaso e da sua silhueta na Chechênia, território russo, sempre planejou por trás da crise síria.
Cole resume que "a Rússia venceu, a nova junta militar do Egito venceu, Irã e Índia e Indonésia ganharam". "Bajo la Lupa" assinalou a grande importância da rejeição da Indonésia (a maior população muçulmana sunita do planeta) para a aventura unilateral de Obama durante a Cúpula do G20, em São Petersburgo.

Ele também afirma que não há muita diferença entre março de 2003 - quando Bush junior supôs que os EUA "eram a superpotência unipolar e a primeira potência hegemônica no Oriente Médio" - com o anúncio do acordo de Putin-Obama, 10 anos depois, quando a Rússia surge para fazer frente aos EUA em um domínio bipolar.

Juan Cole conclui que o acordo Kerry-Lavrov "retorna ao mundo do século XIX, quando havia vários centros de poder, cada um com suas respectivas esferas de influência".

Na minha opinião, o mundo não muda em São Petersburgo - já havia mudado há cinco anos no Cáucaso em 2008, mas avança e aprofunda o seu caminho à inevitável o nova organização policêntrica multipolar, um verdadeiro G-3 que não se ousa dizer seu nome: EUA-Rússia-China.

Quase 100 anos mais tarde (exatamente 97 anos), o acordo russo-americano Kerry/Lavrov substitui a ultrapassado divisão colonial franco-britânica de Sykes-Picot no Oriente Médio.

Dois novos jogadores, a Rússia e os Estados Unidos - com a China na retaguarda - durante a Cúpula do G20, em St. Petersburg impôs um novo mapa, mas com o mesmo petróleo, a maior reserva do mundo, que permanece lá.

Sigue a desnuclearização. Poderão Putin e Obama persuadir o messianismo nuclear israelense? (N.d.B.: Provavelmente isso nem passe pela cabeça de Obama...)

Via Bajo la Lupa

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Assad fala, Rússia atua

por Pepe Escobar



Assim que Bashar al-Assad falou, exclusivamente com o jornal argentino Clarín (há uma imensa diáspora síria na Argentina, assim como no vizinho Brasil).

Vendo através da névoa da histeria ocidental, fez algumas observações valiosas. O histórico mostra que sim o regime aceitou várias vezes falar com a oposição; mas a miríade de grupos "rebeldes" sem uma liderançã crível e unificada, sempre se negou. Portanto, não existe uma maneira de cessar-fogo que possa finalmente ser aceita em uma cúpula, como a próxima conferência em Genebra de EUA e Rússia.

Assad faz sentido quando disse: "Nós não podemos discutir um roteiro com uma parte que não sabemos nem quem é".

Bem, a essa altura qualquer um que observa a tragédia síria sabe quem são em sua maioria. Sabemos que o exército de Canibais não-livres da Síria, perdão, o Exército Livre da Síria (ELS), é uma coleção heterogênea de senhores da guerra, bandidos e oportunistas de todo tipo juntos com os jihadistas linha-dura tipo Jabhat al-Nusra (mas também a outros grupos ligados à al-Qaeda ou inspirados por ela).

Reuters levou meses para finalmente admitir que os jihadistas dominam o show no terreno [1]. Mesmo um comandante "rebelde" queixou-se a Reuters, "Nusra é agora dos Nusras". Um que segue a agenda da Al Qaeda em um país islâmico e outro que é sírio com uma agenda nacional para ajudar a combater Assad". O que não disse que o grupo realmente efetivo está vinculado à al-Qaeda.

Síria é agora o inferno das Milícias; muito parecido ao Iraque em meados dos anos 2000, muito parecido ao "liberto" Estado fracassado líbio. Essa "agfanização/somalização" é uma consequência direta da interferência do eixo OTAN/CCG/Israel [2]. Portanto Assad tem razão quando diz que o ocidente está atiçando fogo e que só está interessado na mudança do regime, seja qual for o custo.

O que Assad não disse

Não se pode dizer que Assad seja exatamente o político mais brilhante, pois desperdiçou uma excelente oportunidade de explicar à opinião pública ocidental, ainda que brevemente, por quê as petro-monarquias do CCG, Arábia Saudita e Qatar, mais Turquia, estão interessadas em incendiar a Síria. Não pode falar que Qatar quer entregar a Síria à Irmandade Muçulmana e Arábia Saudita sonha com uma colônia que seja um "cripto-emirado". Pode falar que ambos estão aterrorizados com os xiitas do Golfo Pérsico que portam legítimos ideais da Primavera Árabe.

Pode apontar a ruína absoluta da política externa turca de "zero problemas com os nossos vizinhos": um dia há uma tríplice colaboração de Ancara-Damasco-Bagdá, e no dia seguinte Ancara quer mudança de regime em Damasco e se põe a frente de Bagdá. E ainda por cima Turquia se desconcerta ao ver que os curdos se sentem encorajados desde o norte do Iraque até o norte da Síria.

Pode detalhar que Grã-Bretanha e França dentro da OTAN, mas ainda não mencionou os EUA, assim como seus petro-monarcas marionetes, estão usando a desintegração da Síria para prejudicar o Irã e que a nenhum desses atores que fornecem armas e muito dinheiro lhes interessam os sofrimentos do "povo sírio". A única coisa que importa são os objetivos estratégicos.

Enquanto falava Bashar al-Assad, a Rússia atuava. O presidente Vladimir Putin - bem consciente de que as conversações de Genebra estão sendo prejudicadas por vários atores, mesmo antes que tenham lugar - enviou navios de guerra russos no Mediterrâneo Oriental e na Síria ofereceu um número de mísseis terra-mar Yakhont ultramodernos mais um quantidade de mísseis anti-aéreos S-300, o equivalente russo do Patriot dos EUA. A Síria também tem mísseis anti-aéreos russos SA-17.

Então, deixe, qualquer um de vocês, membros do bando OTAN-CCG, mesmo deixando de lado a ONU, de ter uma comoçãozinha  e pavorzinho contra Damasco. Ou instalar uma zona de exclusão aérea. Qatar e a Casa de Saud, são uma piada do ponto de vista militar. Os britânicos e franceses estão seriamente tentados, mas não tem os meios, ou coragem. Washington tem os meios, mas não a coragem. Putin estava absolutamente certo de que o Pentágono compreenderia a sua mensagem de forma clara.

Não se deve esquecer do "Oleodutostão"

Assad também pôde falar - do que mais? - do "Oleodutostão". Dois minutos seria suficiente para explicar o significado do acordo do Irã-Iraque-Síria de 10 mil milhões que foi assinado em julho de 2012. Este nó crucial do "Oleodutostão" exportará gás do campo de Pars do Sul do Irã (o maior do mundo, compartilhado com Qatar), através do Iraque para a Síria, com uma possível extensão para o Líbano, com os clientes confirmados na Europa Ocidental. É o que os chineses chamam de situação que você não pode perder (para os brasileiros, "negócio da China").

Mas não para - quem será? - Qatar e Turquia. Qatar sonha com um gasoduto rival do Campo do Norte (ao lado do campo de Pars Sul do Irã) passando a Arábia Saudita, Jordânia, Síria e finalmente Turquia (que é apresentado como o centro privilegiado de trânsito de energia entre Leste e Oeste). O destino mais uma vez: a Europa Ocidental.

Como em tudo que tem a ver com o "Oleodutostão", o ponto crucial do jogo é deixar de lado Irã e Rússia. É o que acontece com o oleoduto catari, freneticamente apoiado pelos Estados Unidos. Mas no caso do gasoduto Irã-Iraque-Síria, a rota de exportação não pode se originar de outro lugar senão Tartus, o porto sírio no Mediterrâneo Oriental que abriga a marinha russa. Obviamente a Gazprom faria parte da coisa toda, desde os investimentos até a distribuição.

Que não haja dúvidas: o "Oleodutostão" - novamente ligado a contornar a Rússia e o Irã, explica muito sobre a destruição da Síria.

O instrumento do petróleo da União Européia para a al-Qaeda

Enquanto isso, o verdadeiro exército Sírio - apoiado pelo Hezbollah - recupera metodicamente Al-Quseir do controle "rebelde". Seu próximo passo é olhar para o leste, onde al-Nusra Jabhat está se beneficiando alegremente outra "bola fora" típica da UE: a decisão de impor sanções petroleiras contra a Síria [3].

O blogueiro da Syria Comment, Joshua Landis, tirou as conclusões necessárias: Quem assume a petróleo, água e agricultura, terá em suas mãos a Síria sunita. Por enquanto é al-Nusra. O fato é que o mercado petróleo europeu abriu impôs esta situação. Daí a conclusão dessa insanidade que a Europa está financiando a Al Qaeda. Chamemos de instrumento do petróleo da União Européia para a al-Qaeda.

O Sudoeste da Ásia, o que o Ocidente chama o Oriente Médio, continuará a ser um campo privilegiado de irracionalidade. Como as coisas estão na Síria, ao invés de uma zona de exclusão aérea, o que na verdade deve ser estabelecido é "todos voam para a paz", e cada homem e seu vizinho devem ser envolvidos: os EUA, Rússia, União Europeia e Hezbollah, Irã, Israel e, certamente, com o mesmo entusiasmo, destacou o chanceler russo, Sergei Lavrov [4].

Muito além da obsessão ocidental pela mudança de regime, o que a problemática conferência de Genebra pode produzir é um acordo pela Constituição da Síria que, aliás, é absolutamente legítima, adotada em 2012 pela maioria dos votos do verdadeiro e sofrido "povo sírio". Isso pode até significar que Assad não seja um candidato a presidente nas eleições previstas para 2014. Mudança de regime, sim. Mas, por meios pacíficos. Permitirão OTAN, CCG e Israel que isso aconteça? Não.

via Voltairenet

[1] Insight: Syria’s Nusra Front eclipsed by Iraq-based al Qaeda, Reuters, 17 de mayo de 2013.
[2] Organización del Tratado del Atlántico Norte-Consejo de Cooperación del Golfo-Israel.
[3] EU decision to lift Syrian oil sanctions boosts jihadist groups, Guardian, 19 de mayo de 2013.
[4] Russia says Iran must take part in proposed Syria talks, Reuters, 16 de mayo de 2013.