segunda-feira, 8 de julho de 2019

Väinäimöinen: deidade finlandesa que inspirou Tolkien para criar Gandalf e Tom Bombadil

Akseli Gallen-Kallela: The Departure of Väinämöinen

por Natalia Klimczak

J.R.R. Tolkien criou marcantes histórias que inspiraram Peter Jackson a produzir filmes incríveis. Mas foi seu conhecimento em literatura e de lendas antigas que inspiraram o escritor a usar histórias de deuses e heróis para criar figuras icônicas tais como Gandalf, Tom Bombadill e muitos outros personagens. Uma das mais fascinantes de suas inspirações veio na forma de Väinämöinen, o deus finlandês da magia, que esteve presente em algumas lendas interessantes bem antes de Tolkien sonhar sobre seu famoso mundo ficcional.

A um olhar mais atento, os livros de Tolkien se parecem com uma paleta de mitos e lendas combinando histórias de diferentes culturas e períodos temporais. A influência das deidades antigas, criaturas míticas, e até mesmo conceitos do cristianismo, são todos claramente visíveis. Contudo, o impacto dessas histórias foi ainda muito pouco trabalhado pelos especialistas em literatura. Mas foi devido a obras como as de Tolkien que o lendário deus finlandês Väinämöinen ganhou novos contornos e aventuras -- fazendo com que ele se tornasse uma figura popular fora dos países escandinavos.


A Lenda de Väinämöinen

Väinämöinen foi um deus da magia e uma deidade misteriosa que amava poesia. Parece que ele era conhecido não apenas na Finlândia, mas também na Estônia e em outros países da Europa norte-central.

As histórias mais antigas referindo-se a Väinämöinen vêm do início do período medieval, mas nenhuma cópia dessas fábulas anteriores a 1551 sobreviveram. A lenda sobre o deus foi descrita por Mikael Agricola, que incluiu-o na lista dos deuses tavastianos. Logo depois, outros escritores começaram a seguir o exemplo e a tratar de Väinämöinen. Ele se tornou o personagem principal da épica nacional da Finlância chamada Kalevala, que é um dos textos escandinavos mais importantes. Entretanto, Kalevala é diferente dos outros escritos escandinavos famosos porque vem do século XIX e não da era medieval. O livro descreve um único mito de criação. Ele inclui todo o espectro de conceitos e características da mitologia nórdica e do folclore finlandês.

R.W Ekman: Väinämöinen

A história descreve o filho de Kaleva e do irmão de Ilmarinen. Conta que havia apenas Mar e Céu no início do mundo. O Céu teve uma filha, Ilmatar, que decidiu ver como era o Mar. Então, ela nadou nele por 700 anos. Finalmente, ela viu um belo pássaro paradisíaco que estava em busca de um lugar para descansar.

Inside front title page of The "Old" Kalevala, Finnish national epos, collection of old Finnish poems, by Elias Lönnrot.

Ela permitiu que o pássaro sentasse em seu joelho. O amigo empenado deixou seis ovos de ouro e um feito de ferro. A perna de Ilmatar logo ficou quente e ela a moveu, destruindo os ovos. As gemas se tornaram o sol e as claras se tornaram a lua e as estrelas. Mais tarde, Ilmatar teve um filho -- Väinämöinen. Seu pai era o Mar e ele era abençoado com todo conhecimento necessário. Ele nadou para a terra, onde ele começou uma nova vida e praticou mágicas.

Ilmatar by Robert Wilhelm Ekman. 


Tom Bombadil

Embora Tom Bombadil não tenha aparecido nas adaptações em filme de Peter Jackson dos livros de Tolkien, ele era um dos personagens preferidos dos leitores. De acordo com David Elton Gay em J.R.R. Tolkien and the Kalevala: Some Thought on the Finnish Origins of Tom Bombadil and Treebeard:

"Como fora muitas vezes notado, muito do que Tom diz é, na verdade, cantado. Assim como é o canto de Väinämöinen. O canto de Tom tem poder, e o poder de seu canto é claramente similar ao de Väinämöinen. Quando primeiramente encontramos Tom, ele salva Merry e Pippin do Salgueiro do Homem Velho através da ameaça de seu canto: assim como ele diz a Frodo e Sam, "eu cantarei suas raízes para fora. Eu cantarei o vento para cima e soprarei fora folhas e galhos" (LR 1.6, 117). Goldberry mais tarde conta a Frodo que Tom é o mestre de sua terra. E, como as conversas de Tom com os Hobbits deixam claro, seu domínio sobre sua terra, como o de Väinämöinen, é através do conhecimento e da experiência, ao invés da posse de propriedade (ownership). Se, como eu proponho, Tom Bombadil é baseado em parte no Väinämöinen, então o controle de Tom de seu mundo através do conhecimento expresso em canto é esperado: para ter poder sobre algo como a mitologia de Kalevala deve-se conhecer suas origens e ser capaz de cantar a ela cantos e encantamentos apropriados sobre essas origens, e foram suas obras que ajudaram a dar forma à terra. O mesmo é claro a respeito de Tom Bombadil. (...) A opção de Tom dos adjetivos "antigo" e "o mais antigo" para descrever a si mesmo o conecta a Väinämöinen, pois, ao longo do poema de Kalevala, dos antigos rascunhos de Lonrots para a edição da épica em 1849, Väinämöinen é "o firme e antigo Väinämöinen" (vaka vanha Väinämöinen)."

Tom Bombadil

Gandalf das Lendas Nórdicas

No caso de Gandalf, a situação é um pouco mais complicada. De acordo com especialistas na literatura tolkieniana, o autor usou mais de uma inspiração ao criar as características deste personagem ficcional.

Gandalf in the 1978 animated film

Ao criar um dos personagens mais icônicos de seus livros, Gandalf, Tolkien estava inspirado pelo deus nórdico Odin e por Väinämöinen. Embora existam conexões com personagens bíblicos, a influência dos países nórdicos, e do poema épico Kalevala é proeminente no mago.

Algumas fontes também compararam Väinämöinen com as criações tolkienianas como Treebard e os Ents. Além disso, a ideia de um "anel do poder" usado nas histórias da Terra Média também vêm de Kalevala. Estes exemplos providenciam evidência do quão Tolkien esteve fascinado com as lendas antigas sobre deuses e magia.

Odin, the Wanderer (1886) by Georg von Rosen (1843–1923)

As Influências Míticas nos Livros de Tolkien

Além de tudo, os nomes dos famosos anões de The Hobbit, a saber Thorin, Balin, Dwaliin, Bifur, Bofu, Bombur, Ori, Dori, Nori, Gloin, Oin, Kili, Fili, Dain, Nain, Thrain, Thror e Durin todos vêm do poema Edda -- uma coleção bem conhecida de poemas escrita em nórdico antigo.

Os livros de Tolkien são repletos de lendas e mitos de tempos pré-cristãos. Especialistas em escritos cristãos também sugerem que há muitos conceitos católicos presentes, contudo é impossível não notar as analogias entre seus livros e o nórdico antigo e os mitos celtas.



Referências:


Gay, David Elton, “J.R.R. Tolkien and the Kalevala: Some Thoughts on the Finnish Origins of Tom Bombadil and Treebeard" in Tolkien and the Invention of Myth: A Reader, ed. By Jane Chance, 2004


New Medievalisms edited by Javier Martín-Párraga, Juan de Dios Torralbo-Caballero, 2015.
Väinämöinen, available at: 

Väinämöinen, available at: 

sábado, 6 de julho de 2019

Benoist: '[ideologia de gênero] visa converter masculinidade em condição patológica'


Entrevista com Alain De Benoist, por Nicolas Gauthier (Elmanifiesto)

O feminismo de antes lutava para promover os direitos das mulheres. O atual neofeminismo passou a negar as próprias noções de masculinidade e feminidade. Como explicar esta transformação?

Produziu-se em dois tempos. Em um primeiro momento, as feministas de tendência universalista (as que concebem a igualdade como sinônimo de mesmidade) quiseram mostrar que as mulheres são "homens como os demais". Tratava-se, por exemplo, de provar que não há qualquer tarefa reservada por natureza a um ou outro sexo, que pode haver mulheres soldados, mulheres pilotos de avião etc. Por que não? Mas evidentemente, se deixa de haver "tarefas de homens", todas as tarefas se convertem em unissexuais. Ao mesmo tempo, se exigia paridade em todas as áreas, pressupondo que ambos os sexos têm não apenas as mesmas capacidades, mas também os mesmos desejos e aspirações. Este requisito se estendeu gradualmente até o absurdo, embora não abundem mulheres de caminhão de lixo e homens parteiros! Claro, a falta de paridade apenas se mostra chocante quando se exerce em benefício dos homens: que a magistratura esteja feminizada em 66% (mais de 86% entre os jovens de 30 a 34 anos), que o pessoal da Educação Nacional esteja em 68% (82% no ensino primário) não provoca o mínimo protesto. Quando hoje se assiste a um filme policial, é até difícil imaginar que também existam homens na polícia nacional!

As coisas pioraram com a ideologia de gênero, que, negando que o sexo biológico seja um fator determinante na vida sexual, faz dele uma "construção social" e o opõe à multiplicidade de "gêneros". A ideia geral aqui é que ao nascer, todo mundo é mais ou menos transexual. Tu já terás notado a importância do "trans" no discurso LGBTQI+: embora os verdadeiros transexuais são apenas uma minoria, o uso da visão do mundo queer torna possível afirmar que estão todos em todo lugar e vice-versa. Às crianças de quatro ou cinco anos se diz que podem eleger seu "gênero" como melhor lhes parece.

Assim, pois, se nega as noções de masculinidade e feminidade, mas ao mesmo tempo, sob a influência da correção política, se ressuscita constantemente o masculino para pô-lo no pelourinho. Por um lado, se afirma que o biológico não determina absolutamente nada, enquanto que, por outro lado, se afirma que o homem é por natureza um estuprador em potencial e que o patriarcado (a "cultura do estupro") está de alguma maneira inscrito em seus genes. Contesta-se a ideia do "eternamente feminino", mas se essencializa o macho com o argumento de que sempre fora agressivo e "dominante".

Então nos dirigimos para uma desvalorização geral da masculinidade?

Sim, inclusive cabe dizer que se declarou guerra contra o cromossomo Y. Não apenas deve-se perseguir o "sexismo" até suas manifestações mais inócuas, já que haveria continuidade de "assédio" e "feminicídio", mas que se deve fazer todo o possível para conseguir que os homens renunciem a sua hombridade -- ao que agora se chama de "masculinidade tóxica". Ontem as mulheres queriam ser "homens como os demais"; hoje são os homens os que devem aprender a se converter em "mulheres como as demais".

A masculinidade se converte em uma condição patológica. Nova significação orwelliana: o homem é uma mulher (Deus também, sem dúvida: lésbica, inclusive). Portanto, os homens devem se feminizar, deixar de se "comportar como homens", como uma vez se lhes recomendava no passado, dar rédea solta às suas emoções (recomenda-se que chorem e gemam), sufocar o gosto pelo risco e pela aventura, encantar-se pelos produtos de beleza (o que compraz muito o capitalismo e a sociedade dos propulsores de carrinhos de bebê), e sobretudo -- em especial -- nunca considerar as mulheres como um objeto de desejo. E esta é uma nova versão da guerra dos sexos, em que o inimigo é chamado a se redimir, desfazendo-se de sua identidade.

O que as sabichonas (marisabidillas) da escritura inclusiva e as amazonas do girl-power exigem agora são homens que se unam com a "interseccionalidade" das lutas "anticoloniais", que comunguem em uma virtuosa devoção com as "vencedoras" do futebol feminino, que militem pela "ampliação da visibilidade das sexualidades alternativas" e se mobilizem contra a "precariedade menstrual", esperando sem dúvida em converter-se em um generalizado conjunto andrógino em um mundo transformado em gineceu regido por Big Brother, o Estado terapêutico prescritor de condutas. Basta de "cisgêneros"! Um passo aos "não-binários", aos "gêneros fluidos" que conseguiram se extrair dos estereótipos do universo "heterocêntrico"!

Esta é a razão pela qual nossa época não gosta de heróis e prefere as vítimas. Veja como, durante as cerimônias do fim do centenário da Primeira Guerra Mundial, tentou-se "desmilitarizar" o evento, celebrando o "retorno à paz" para não ter que falar de vitória. Como se os poilous[1] quiseram apenas acabar com as guerras, sem se preocupar de quem terminaria vencendo a guerra! Do que não há dúvida é de que as classes trabalhadoras admiram espontaneamente o heroísmo de um coronel Beltrame ou o dos comandos mortos em Malí, Cédric de Pierrepont e Alain Bertoncello. O espírito da época, ao contrário, pede que nos reconhecemos no travesti Bilal Hassani, "representante da França" no Eurovision e titular do "prêmio LGBTI" do ano. Não se trata exatamente da mesma humanidade.

Tu falas da desvalorização do heroísmo. Mas então, como explicar a moda cinematográfica dos "super-heróis"? É uma forma de compensação?

Sem dúvida, mas não é o essencial. Deve-se ter em conta que, na verdade, o super-herói não é nenhum herói exponencial, mas que nele se inclui todo o oposto do herói. O herói é uma figura trágica. É um homem que elegeu ter uma vida gloriosa, mas breve, ao invés de uma vida cômoda e medíocre. O herói é um homem que sabe que um dia ou outro terá que dar sua vida. Não há nada disso em Iron Man, Superman, Spiderman e outras tristes produções de DC ou Marvel. Não são heróis porque são invencíveis, não sente o mínimo medo, não há nada de trágico neles. São super-homens, mas de um ponto de vista da testosterona. Não são, estritamente falando, nada além de "homens incrementados", tal como se imaginam os defensores do "sobre-humanismo". Estamos a mil léguas de Aquiles ou de Siegfried.

[1] Literalmente, "os peludos", como se denomina na França os soldados franceses da Guerra Mundial.

Tradução: Álvaro Hauschild

terça-feira, 2 de julho de 2019

Putin, Lavrov e Xi Jinping convocam fim à DMA



por Matthew Ehret

O espectro da guerra nuclear há muito paira sobre o mundo como uma espada tenebrosa de Dâmocles, oferecendo à humanidade muita causa para desespero diante da natureza ambivalente da ciência enquanto uma fonte de poder criativo que enleva e enobrece por um lado, e atua como o arauto da morte e do caos por outro.

Todavia, seria errado culpar a ciência pela crise cuja humanidade desencadeou com o átomo, quando a realidade é que nós nunca nos libertamos da peste dos sistemas oligárquicos de governo. Retrocedendo aos registros dos impérios Romano, Persa e Babilônico tais sistemas tem sempre almejado manipular as massas na direção de padrões de comportamento de auto-policiamento e conflito constante.

Quer estejamos falando sobre as Cruzadas, as guerras religiosas Européias, as guerras Napoleônicas, a guerra da Criméia, Guerras do Ópio, ou as primeira e segunda guerras mundiais tem sido sempre a mesma receita: Pôr as vítimas para definir seus interesses ao redor de constrangimentos materiais, recursos em diminuição, ou vieses religioso/étnico/linguísticos que previnem cada pessoa de reconhecer seus interesses comuns com seu vizinho e então pô-los a lutar. Clássico dividir e conquistar.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, aquela antiga receita para administrar o caos não funcionava mais quando um novo ingrediente foi introduzido no “grande jogo” geopolítico. Esse ingrediente atômico era tão poderoso que aqueles “mestres do jogo” gerenciando de cima os problemas da terra como deuses Olímpicos separados entenderam que poderiam ser aniquilados tão rápido quanto suas vítimas e que um novo conjunto de regras devia ser criado às pressas.

A Aposta Nuclear do Senhor Russell

Um principal representativo da mente genocida do império Britânico foi o Senhor Bertrand Russell, um membro de sétima geração da elite hereditária conhecida hoje pelo seu celebrado pacifismo e profundo alcance filosófico. É um fato desconfortável que esse modelo exemplar da “lógica” e da paz tenha sido um dos primeiros pensadores registrados clamando pela aniquilação nuclear da União Soviética na esteira da rendição da Alemanha Nazista. Caso a União Soviética não se submetesse a um Governo Mundial Único, argumentou o Senhor Russel no Boletimpara os Cientistas Atômicos de 1946, então deveria simplesmente encarar uma punição nuclear.

É claro que aquela ameaça foi de vida curta, quando o anúncio surpresa da Rússia de haver “decifrado o código atômico” quebrou o monopólio sobre cujo qual os Anglo-Americanos salivavam e 1945 quando observavam o Japão (cuja rendição indireta já havia sido negociada) queimar sob a sombra de um renovado Leviatã Anglo-Americano emergente.

O Senhor Russel, entãodiretor da CIA/MI6 Congresso pela Liberdade Cultural (cujo objetivo era criar uma nova anti-cultura de hedonismo e irracionalismo nas artes durante a Guerra Fria) foi forçado a mudar o tom e a liberar, ao invés, uma nova doutrina que veio a ser conhecida como “Destruição Mútua Assegurada” (DMA). A obsessão de Russel em tentar escravizar toda a física a um estrito determinismo matemático tal qual fora disposto em seu Principia Mathematica (1910) e seu papel principal na promoção da arte abstrata/música atonal pela CIA sob a bandeira da CCF é um insight útil sobre como sociedades são gerenciadas por oligarcas.

Numa entrevista à BBC anos após Russell mudar suas visões sobre um primeiro ataque à Rússia, o aristocrata britânico, agora-convertido em advogado anti-nuclear descreveu sua mudança de opinião assim:
“Q: É verdadeiro ou falso que em anos recentes você defendeu que uma guerra preventiva pudesse ser feita contra o comunismo, contra a Rússia Soviética?”
RUSSELL: É completamente verdadeiro, e eu não me arrependo disso agora. Não era inconsistente com o que eu penso agora... Houve um tempo, logo após a última guerra, quando os americanos tinham um monopólio das armas nucleares e ofereceram para internacionalizar armas nucleares pelo plano Baruch, e eu pensei ser uma proposta extremamente generosa da parte deles, uma que seria muito desejável que o mundo aceitasse; não que eu defendesse uma guerra nuclear, mas eu pensava que uma grande pressão devesse ser posta sobre a Rússia para que aceitassem o plano Baruch, e eu de fato pensei que se eles continuassem a recusá-lo talvez fosse necessário de fato ir à guerra. Naquele tempo as armas nucleares existiam apenas em um lado e, portanto, as chances é que os Russos desistiriam. Eu pensei que eles iriam... .
Q: Suponhamos que eles não desistissem.
RUSSELL: Eu pensei e tinha esperanças que os Russos iriam desistir, mas é claro que você não pode ameaçar a não ser que esteja preparado para ter seu blefe confrontado.”

Um fim para o Mundo do DMA

O novo jogo tornou-se “balanço geopolítico do terror” sob o DMA, e em muitos aspectos o poder que ele oferecia a uma oligarquia era maior que qualquer coisa que uma sociedade pré-atômica tinha para oferecer. Ao mesmo tempo que grandes guerras não eram mais desejáveis (embora fossem sempre um risco nesse jogo psicótico de altas apostas de poker), guerra assimétrica e uma mudança de regime tornaram-se as novas “coisas grandes” pelos próximos setenta anos. Uma população em terror constante de aniquilação tornou-se um solo maduro para a disseminação de uma nova inquisição sob a orientação de um travestido megalomaníaco dirigindo o FBI. Essa inquisição purgou o Ocidente de líderes qualificados que fossem comprometidos para com a paz entre Oriente e Ocidente e incluiu grandes cientistas, artistas, professores e políticos que viram suas carreiras serem destruídos conforme o Estado Profundo tornou-se cada vez mais poderoso e bombas atômicas mais abundantes.

Enquanto muitos celebraram de maneira tola o sucesso do DMA com o colapso da União Soviética e a ascensão de um mundo uni-polar que iria supostamente conduzir a um pacífico “fim da história”, outros reconheceram o grande truque na medida em que a OTAN continuou se expandindo a despeito de sua razão de ser ter desaparecido. Yevgeni Primakov e um círculo de patriotas russos (cujo qual incluía um Vladimir Putin em ascensão) estavam entre aqueles que viram através da fraude. Essa rede trabalhou diligentemente com suas contrapartidas asiáticas para criar uma fundação para sobrevivência que manifestou-se na forma do G20 m 1999 e na Organização para Cooperação de Xangai em 2001.

No início de 2007, as guerras desencadeadas no Oriente Médio após o 9-11 não tinham um fim previsto, e uma intenção muito mais obscura do que muitos poderiam imaginar estava emergindo entre o caos. A construção de um escudo anti-mísseis balísticos liderada pela OTAN se iniciou ao redor do perímetro sul da Rússia por iniciativa de Dick Cheney e foi logo incrementada posteriormente pela circunscrição de um “Pivô-Asiático” da China, sob o mandato de Obama em 2011. Somente os tolos mais ingênuos acreditaram então que o Irã ou a Coréia do Norte eram as verdadeiras razões por trás dessa jogada Hobbesiana preemptiva de poder em favor de um monopólio. O fantasma do Senhor Russell podia ser sentido ao redor do mundo, ameaçando uma guerra nuclear se a soberania nacional não fosse abandonada em favor de um governo mundial gerenciado por uma “ditadura científica”.

A Convocação da Rússia e da China para controlar a Serpente de Fogo

O Presidente Putin junto a Sergei Lavrov e o Presidente Xi Jinping assinalaram um fim a era do DMA com uma importante convocação por uma nova doutrina internacional de segurança baseada sobre um “novo sistema operante”.

Saindo da Cúpula Econômica de São Petersburgo em 6 de Junho, Putin disse “se nós não mantermos essa serpente de fogo sob controle – se permitirmos que ela saia da garrafa, Deus proíba, isso pode levar a um catástrofe global. Todos estão fingindo ser surdos, cegos ou disléxicos. Precisamos reagir a isso de alguma maneira, não é? Claramente é isso.”

As palavras de Putin foram amplificadas por Sergei Lavrov em 11 de Junho ao falar na conferência do Primakov Readings de 2019 em Moscou, que reuniu diplomatas, especialistas e políticos de 30 países no tema do “Retornando à Confrontação: Existem Alternativas?” Lavrov disse:

“É de uma importância capital que a Rússia e os Estados Unidos tranquilizem o resto do mundo e transmitam uma declaração conjunta de alto escalão de que não pode haver vitória numa guerra nuclear e que, portanto, ela é inaceitável e inadmissível. Nós não entendemos porque eles não podem reassegurar essa posição agora. Nossa proposta está sendo considerada pelo lado dos Estados Unidos.”

Desde que se puseram entre o pelotão de fuzilamento Anglo-Americano e as nações da Síria e da Venezuela, em conjunto com uma surpreendente divulgação de um conjunto de novas tecnologias militares em Março de 2018, Putin transformou as “regras do jogo” geopolítico no sentido de que a proposta de Lavrov é agora uma possibilidade real. As novas tecnologias divulgadas pela Rússia em 2018 incluem mísseis supersônicos, drones subaquáticos e outros foguetes nucleares que garantem a capacidade de um ataque retaliatório caso alguém seja estúpido o suficiente em atacar a Rússia primeiro.

O ICR (BRI, da sigla em inglês) e o Novo Sistema Operante

A cúpula econômica de São Petersburgo de 5-6 de Junho testemunhou não apenas 19000 participantes de 145 países assinado $47.8 bilhões em acordos, mas caracterizou-se como um encontro importante entre o chinês Xi Jinping e Putin, que descreveram seu relacionamento como o de melhores amigos e travaram suas nações mais profundamente que nunca no novo panorama operacional da Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR, ou BRI da sigla em inglês), que rapidamente está se estendendo no Ártico.

Esse encontro foi levado ainda a um outro patamar em Bishkek Kyrgyzstan, com a cúpula da Organização para Cooperação de Xangai em 13-14 de Junho,  que integrou ainda mais as nações Eurasianas no ICR. Putin e Xi não apenas se encontraram novamente nessa cúpula, mas agora foram acompanhados pelo indiano recentemente eleito Narendra Modi, cuja participação é vital para a reorganização do sistema mundial. Após a cúpula da OCX, o mundo aguardaria pelo encontro potencial de 28-29 de Junho, na cúpula do G20 em Osaka, Japão, onde o presidente norte-americano Donald Trump indicou seu desejo de encontrar com os três líderes para negociações bilaterais. Muitos espectadores criticaram a ideia de que Trump de fato pudesse desejar um encontro honesto, mas Lavrov demonstrou seu entendimento superior da complexidade estratégica na América argumentando numa entrevista em 6 de Junho, quando ele disse que os fracassos do Presidente Trump em estabelecer relações construtivas com a Rússia devem-se à sabotagem de forças enraizadas dentro do governo: “Certos políticos estado-unidenses, incluindo aqueles que ataram as mãos do Presidente Trump não permitindo que ele cumprisse com suas promessas de campanha de normalizar e melhorar as relações com a Rússia, ainda são incapazes de aceitar esse fato.”

A propósito numa conferência em 12 de Junho junto ao presidente da Polônia, Trump foi pressionado por um repórter a tomar a linha dura contra a Rússia, que aparentemente está “ameaçando a Polônia”. Enquanto fingia concordar com a narrativa Rússia=bully, Trump concluiu sua resposta dizendo “Espero que a Polônia venha a ter um excelente relacionamento com a Rússia. Espero que nós venhamos a ter um excelente relacionamento com a Rússia e, inclusive, com a China e muitos outros países.” Trump tinha anteriormente convocado a Rússia, a China e a América para converterem suas centenas de milhões de dólares gastos em forças armadas em projetos que sejam do interesse comum de todos. Durante sua declaração chave ao Fórum Econômico, Putin desvelou o “elefante na sala” trazendo o tema da quebra do sistema financeiro global: “a degeneração do modelo de universalista de globalização e sua transformação numa paródia, numa caricatura de si próprio, onde as regras internacionais comuns são substituídas pelas leis... de um país.” Putin prosseguiu alertando para uma “fragmentação do espaço econômico global e por uma quebra forçada devido a uma política de egoísmo econômico completamente ilimitada. Mas esse é o caminho para um conflito sem fim, guerras comerciais e talvez não apenas comerciais. Figurativamente esse é o caminho para a terminal luta de todos contra todos.”

O ponto ressaltado foi que em última instância sem um novo sistema econômico, o perigo de injustiça e de aniquilação global pairará sempre sobre a humanidade. Ecoando a filosofia da cooperação ganha-ganha de Xi Jinping, Putin disse que o que é necessário em última instância é “um modelo mais justo e estável de desenvolvimento. Esses acordos deveriam não só ser escritos claramente, mas deveriam ser observados por todos os participantes. Entretanto, eu estou convencido que falar sobre uma ordem econômica como essa continuará sendo um pensamento caprichoso, a não ser que retornemos ao centro da discussão, isto é, noções como as de soberania, como o direito incondicional de cada país na sua estrada desenvolvimentista e, deixe-me acrescentar, responsabilidade pelo desenvolvimento sustentável universal, e não apenas pelos próprios desenvolvimentos.”


BIO: Matthew J.L. Ehret é um jornalista, palestrante e fundador da revista Canadian Patriot Review (O Patriota Canadense). Ele é um autor junto ao The Duran, à Fundação de Cultura Estratégica, Fort Russ e o Orient Review. Seus trabalhos têm sido destacados em Zero Hedge, Executive Intelligence Review, Global Times, Asia Times, L.A. Review of Books, and Sott.net. Matthew também publicou o livro “Chegou o Tempo do Canadá Ingressar na Nova Rota da Seda” e três volumes da História Não-contada do Canadá (disponíveis em untoldhistory.canadianpatriot.org). Ele pode ser contatado em matt.ehret@tutamail.com

sábado, 29 de junho de 2019

Fusaro: 'Tontos de esquerda combatem fascismo inexistente e apoiam o mercado'


Diego Fusaro é um dos intelectuais mais polêmicos da Itália, uma vez que ocupa uma posição ideológica que aglutina posições conservadoras e de esquerda. É marxista e suas referências são Gramsci, Pasolini e Costanzo Preve, ao mesmo tempo que é antiglobalista e soberanista, e isso o levou a sustentar posições com as quais muitos salvinistas não estão em desacordo. Vários livros seus foram editados na Espanha, tanto por editoras ligadas à esquerda, como 'Antonio Gramsci, la pasión de estar en el mundo' (Ed. Siglo XXI) ou 'Todavía Marx' (Ed. El Viejo Topo), ou à direita, como o recém publicado 'El contragolpe' (Ed. Fides). O pensamento de Fusaro é um tanto heterodoxo, que está destinado a receber críticas de um lado e de outro, e em não poucas ocasiões foi tachado de vermelho e de fascista, como também se fez com quem o entrevistou, que acusam de branqueamento. Mas aqui assumimos com gosto este risco, porque as ideias do filósofo na moda na política italiana também merecem ser conhecidas.

PERGUNTA. Acaba de publicar 'La notte del mondo'. Explica-me, por favor, por que estamos em uma noite escura, em que ponto se cruzam Marx e Heidegger.

RESPOSTA. Meu livro 'La notte del mondo. Marx, Heidegger e il tecnocapitalismo' (UTET, 2019) é uma tentativa de raciocinar segundo as categorias de Marx e Heidegger sobre o que o próprio Heidegger, com os versos de Hölderlin, define "A noite do mundo". A noite do mundo é uma época na qual a escuridão está tão presente que já não vemos mais sequer a escuridão em si e, portanto, não somos conscientes desta escuridão. Heidegger o expressa dizendo que "é a noite da fuga dos deuses", na qual já nem sequer somos conscientes da pobreza e da miséria nas quais nos encontramos. Esta é uma situação de máxima emergência. Por sua vez, Marx nos 'Grundrisse' dizia que "o mundo moderno deixa insatisfeito, ou, se satisfaz em algo, é de modo trivial". É outra maneira de dizer que estamos efetivamente na noite do mundo, onde sequer vemos o enorme problema em que nos encontramos. No livro eu emprego as categorias de dois autores muito diferentes, como Marx e Heidegger, para tratar de expressar quais são as contradições de nosso presente em que todo o mundo calcula e ninguém pensa. No qual a razão econômica e técnica, técnico-científica, se impôs como a única razão válida e pretende substituir todas as demais.

P. Insiste que o eixo político não deve ser esquerda e direita, mas os de cima e os de baixo. E que ideologicamente devemos ser conservadores nos valores (enraizamento, lealdade, família, eticidade, pátria) e de esquerda [na economia] (emancipação, socialismo democrático, dignidade do trabalho). Essa é a forma de ser marxista hoje?

R. Sim, creio que a geografia da política atual mudou profundamente. Hoje há uma espécie de totalitarismo liberal que nos permite ser liberais de direita, liberais de esquerda, liberais de centro, sempre e quando formos liberais, sempre, portanto, esquerda e direita se convertem em duas formas diferentes de ser liberais ou, precisamente, em liberalismo político e econômico, em prática libertária nos costumes e, claro, em atlantista na esfera geopolítica. Creio que hoje devemos repensar uma recategorização da realidade política de acordo com a dicotomia alto/baixo ou a categoria elite/povo, que às vezes se utiliza como sinônimo. Isso implica que se a elite, o senhor globalista, é precisamente cosmopolita, a favor da abertura ilimitada da livre circulação, o servo, pelo contrário, deve lutar pela soberania nacional-popular como base da democracia dos direitos sociais. Hoje é necessário restabelecer o vínculo entre o Estado nacional e a revolução socialista. Este é o ponto fundamental.

P. Qual vai ser o futuro da UE? Romper-se-á? Quais opções se abririam? Acredita ser possível uma aliança dos países do norte, como Alemanha, Países Baixos, Suécia e outros e outra [aliança] dos países do sul? Como recompor-se-á a ordem internacional se a UE se tornar ainda mais fraca ou se vier a se romper?

R. Devemos ser muito claros ao dar uma definição da União Europeia. A União Europeia é a união das classes dominantes europeias contra as classes trabalhadoras e os povos da Europa. É a vitória pós-1989 de um capitalismo que se realiza completamente, dissolvendo os últimos bastiões de resistência: os Estados soberanos nacionais com o primado do político e da democracia sobre o automatismo total do tecnocapitalismo. Esta é a União Europeia. Um processo de globalização, de despolitização da economia e da imposição do interesse do capital cosmopolita contra os interesses das comunidades nacionais. Por isso, a luta contra o capitalismo em nosso continente hoje não pode deixar de ser uma luta contra a União Europeia. A tragédia é que a esquerda abandonou esta luta, na medida em que passou do internacionalismo proletário ao cosmopolitismo liberal e, portanto, deixa a luta contra a União Europeia, contra a globalização capitalista, para as forças que, muito frequentemente, não querem a emancipação humana nem a solidariedade dos trabalhadores, tratam simplesmente de reagir, olhando para um passado que já não existe.

P. Como deveriam atuar os países da Europa diante dos EUA e da China?

R. Creio que a Europa pode se salvar apenas se recuperar, por um lado, suas próprias identidades culturais e sua pluralidade estrutural e, por outro lado, se se libertar da ditadura chamada União Europeia, que é a ditadura do capital, dos mercados contra os trabalhadores e os povos, e se se libertar do jugo mortal do atlantismo de Washington. Temos que apontar para um eixo eurasiático que vá desde a Rússia de Putin até a China em função antiatlantista. Devemos nos libertar disso e mudar nosso ponto de vista.

P. Insiste que deve-se combater o globalismo, mas tampouco deve-se apoiar o nacionalismo. Qual é a opção?

R. Creio que hoje devemos ir mais além do globalismo e do nacionalismo. Afinal de contas, o globalismo não é mais que o nacionalismo estadunidense que se tornou mundo e, portanto, é uma forma de nacionalismo levado a seu máximo desenvolvimento. Creio que é necessário fazer valer, contra estes dois opostos, um modelo de internacionalismo entre Estados soberanos solidários, baseados na democracia, no socialismo e nos direitos das classes mais frágeis e, em consequências, em uma espécie de soberania internacionalista, democrática e socialista, distanciada tanto do cosmopolitismo que destrói as nações, quanto do nacionalismo que é um egoísmo pensado a nível da própria nação individual.

P. O Estado é o primado do político sobre o econômico. Por isso o mundo global quer acabar com os Estados?

R. Os Estados nacionais soberanos, na modernidade, não apenas foram os lugares do imperialismo, do nacionalismo e das guerras, como repete a ordem do discurso dominante, que quer destruir os Estados para impor o primado do capital globalista, onde os Estados se converteriam unicamente nos mordomos do capital. Esta é a visão liberal do Estado. Na verdade, os Estados nacionais soberanos também foram lugares das democracias e das conquistas salariais das classes fracas. E por essa razão que hoje o capital quer destruí-los, certamente não para evitar as guerras ou o imperialismo que, de fato, prosperam mais que nunca no marco pós-nacional. Hoje o Estado pode representar o único vetor de uma revolução opositora contra o capital mundialista, tal como demonstram perfeitamente os acontecimentos dos países bolivarianos, como Bolívia, Venezuela ou Equador que, apesar de seus limites estruturais, estão criando formas de populismo soberanista, socialista, patriótico, anti-globalista e identitário [identitário: de identidade étnica].

P. Por ideias como estas você foi chamado de fascista. Suas posturas políticas assustam mais a esquerda que a direita. Por quê? Nessa demonização, que papel desempenham os meios de comunicação e a Academia?

R. Claro, hoje em dia a categoria de 'fascismo' é usada de maneira completamente a-histórica e descontextualizada, para demonizar simplesmente ao interlocutor. Hoje quem reafirma a necessidade de controlar politicamente a economia e, portanto, reintroduzir a soberania contra a abertura cosmopolita, é vilipendiado e tachado imediatamente de 'fascista', 'vermelho-pardo' e 'estalinista'. A categoria de fascismo está, pois, completamente a-historizada, apenas serve para ocultar o verdadeiro rosto do que Pasolini já havia identificado como o verdadeiro fascismo de hoje: o da sociedade de mercado, o totalitarismo dos mercados e das bolsas de valores especulativas. Este é o verdadeiro rosto do poder hoje em dia, e muitos tontos que se intitulam de 'esquerda' lutam contra o fascismo, que já não existe, para aceitar completamente o totalitarismo do mercado. Estes últimos são os que lutam na França contra Le Pen para aceitar de bom grado Macron. Lutam contra um fascismo que já não existe para poder aceitar a nova porrada invisível da economia de mercado. E, claro, a classe intelectual, o circo midiático e o clero intelectual desempenham um papel fundamental neste processo; a tarefa da classe intelectual, acadêmica e periodística é garantir que os dominados aceitem o domínio da classe dominante ao invés de se rebelar. De modo que, como na caverna de Platão, amem suas próprias correntes e lutem contra qualquer libertador.

P. Insistiu que com uma mão nos dão direitos civis e com a outra nos cortam direitos sociais. Nisto consistem as chamadas políticas da diversidade?

R. Os chamados 'direitos civis' [LGBT, feminismo e afins] são hoje em dia, na verdade, nem mais nem menos que os direitos do 'burguês', que Marx havia descrito em 'A questão judaica'. Em outras palavras, são os direitos do consumidor, como diríamos hoje, os direitos do indivíduo que quer todos os direitos individuais que pode comprar concretamente. Estou pensando nos ventres de aluguel, por exemplo, na custódia das crianças segundo a lógica de custo do consumidor. Pois bem, hoje estamos assistindo a um processo mediante o qual o capital nos corta os direitos sociais, que são direitos vinculados ao trabalho, à vida comunitária da pólis; anula estes direitos e, em troca, aumenta os direitos do consumidor, sempre vinculados a um consumo que se leva a cabo de maneira individual, sem questionar nunca a ordem da produção e o fato de que, realmente, terminam fortalecendo o sistema capitalista ao invés de debilitá-lo.

Além disso, criam uma espécie de microconflitualidade generalizada que atua como uma arma de distração massiva e, também poderíamos dizer, como uma arma de divisão massiva permanente. Por um lado, distrai da contradição capitalista que já nem sequer se menciona, e, por outro lado, por assim dizer, divide as massas em homossexuais e heterossexuais, muçulmanos e cristãos, veganos e carnívoros, fascistas e antifascistas, etc. E enquanto isso ocorre de maneira natural, o capital deixa que as pessoas saiam às ruas pelo orgulho gay, pelos animais e por tudo, mas que não se atrevam a fechar as ruas para lutar contra a escravidão dos salários, contra a precariedade ou contra a economia capitalista? De ser assim, aí está a repressão, como aconteceu na França com os Coletes Amarelos.

P. Salienta que os laços estáveis, representados no matrimônio, se converteram hoje em revolucionários. Por quê? Como mudaram as coisas para que algo radicalmente frequente na História se converta hoje em revolucionário? Em que consiste o consumismo erótico?

R. O capitalismo atual é flexível e precarizador. Desagrega toda a comunidade humana e quer ver em todas as partes o indivíduo sem identidade e sem vínculos, o consumir que trava relações descartáveis baseadas no consumo. Por isso, o capitalismo hoje declarou a guerra ao que eu, em meu livro 'Storia e coscienza del precariato. Servi e signori della globalizzazione' (Bompiani, 2018) chamo de raízes éticas em sentido hegeliano; quer dizer, aquelas formas comunitárias de solidariedade que vão desde a família até os organismos públicos como os sindicatos, a escola, a universidade, até se completar no Estado. Tem como objetivo rompê-las para reduzir o mundo a um mercado único, como disse Alain de Benoist: a sociedade se converte em um único mercado global. Esta é a razão pela qual hoje em dia a reetização da sociedade, quer dizer, a revalorização das raízes éticas em sentido hegeliano é um gesto revolucionário.

P. Afirma que deve-se recuperar Gramsci e distanciá-lo das esquerdas liberal-libertárias que hoje dominam e que são quem mais o utilizaram ultimamente e que encarnam exatamente o que Gramsci combateu. Definiria também, por ir ao caso espanhol, a Pablo Iglesias, ou Íñigo Errejón, e a Podemos em geral, como um fenômeno cultural de glorificação do capitalismo globalizado?

R. Sim, no essencial, Gramsci é todo o oposto do que está fazendo a esquerda na Itália e em grande parte da Europa, as esquerdas já não são vermelhas, mas fúcsias, já não são a foice e o martelo, mas o arco-íris. Lutam pelo capital e não pelo trabalho, lutam pelo cosmopolitismo liberal e não pelo internacionalismo das classes trabalhadoras. O caso específico de Podemos em Espanha me parece bastante interessante, porque começou como força soberanista e socialista, mais além da direita e da esquerda, mas me parece que ultimamente está entrando cada vez mais no fronte único do partido único do capital, e é realmente uma lástima porque o partido Podemos originalmente parecia ser um partido de ruptura.

P. Que papel deve desempenhar o intelectual neste cenário?

R. Na minha opinião, o intelectual de hoje deve restabelecer o que Gramsci chamada de 'conexão sentimental com o povo-nação', quer dizer, deve voltar a conectar o povo à política, à intelectualidade mesma, para que o povo saia da passividade e se transforme em subjetividade ativa, como já está acontecendo, na medida em que o povo está se rebelando contra a elite cosmopolita. Isso ele faz votando por Brexit, votando por Trump, votando na Itália contra o referendo constitucional, na Grécia pelo referendo contra a austeridade da União Europeia. Mas o povo, disse Gramsci, deve ser 'interpretado', necessita de uma filologia viva, o povo é um texto que deve ser interpretado e não dirigido de maneira unívoca. Deve-se escutar suas necessidades, suas exigências, o que a esquerda hoje não está fazendo; a esquerda é demofóbica, quer dizer, odeia o povo, odeia o povo porque o povo lhe escapa das mãos, já não se sente representado por uma esquerda amiga do capital e dos senhores, ao invés dos trabalhadores e do povo.

P. Propõe recuperar a utilização do italiano frente ao inglês, e além disso de um italiano bem falado ou escrito. Entende isso como uma batalha cultural imprescindível. Por quê?

R. Sim, eu proponho, contra a neolíngua dos mercados que fala o inglês do 'spread',  do 'spending review', da 'austerity' e da 'governance', uma veterolíngua baseada na recuperação do italiano com toda sua riqueza, o italiano de Dante e de Maquiavel. É uma batalha cultural de resistência á globalização e a este 'genocídio cultural', como chamada Pasolini, que a globalização está levando a cabo ao destruir as culturas em nome do único modelo permitido: o consumidor de mercadorias, apátrida, pós-identitário, que fala o inglês anônimo dos mercados financeiros apátridas.

Tradução: Álvaro Hauschild

via Elconfidencial

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Capitalismo, não o Socialismo, que Levou aos Direitos Gays

Por David Boaz


Alguns historiadores gostam de declarar que ideias socialistas ajudaram a trazer os direitos gays na era moderna. Mas eles estão erroneamente tomando a teoria acadêmica pela realidade.


Jim Downs é um historiador no Connecticut College e em Harvard. Um especialista na história da raça e da escravidão, ele publicou recentemente um novo livro, Stand by Me: The Forgotten History of Gay Liberation, no qual ele tenta remover a história gay recente de um foco excessivo no sexo e na AIDS.

Há várias coisas erradas nisto. Primeiro, é superestimado. Eu estive por perto, em torno dos anos da década de 1970, e eu diria que o socialismo era uma parte bem marginal da comunidade gay ou mesmo do movimento dos direitos gays. Ativistas gays definitivamente se inclinavam para a esquerda, mas eles eram focados no avanço dos direitos gays através do Democratic Party. Downs também tem um novo artigo na revista digital Aeon, no qual ele escreve que "ao longo dos anos 1970, as pessoas LGBT teorizavam sobre os benefício do socialismo em livros e panfletos e criticavam o capitalismo nos jornais e na cultura impressa". Ele segue adiante para discutir os "grupos LGBT" e os jornais que "fizeram do socialismo um assunto principal do interesse político no movimento". Mais significativamente, ele argumenta que "se você quiser dar crédito para a liberação gay e para a igualdade do casamento, crédito deve também ser dado ao socialismo".

Segundo, houveram escritores libertários gays na época, também, na academia, na imprensa popular, e se juntavam em torno do Libertarian Party, salientando os benefícios dos livre-mercados e os problemas do socialismo.

Terceiro, o uso do LGBT é anacrônico. O termo foi dificilmente, se é que foi, usado nos anos 1970. (Ele não usa muito no livro.)

Mas a declaração é mais que superestimada. É errada. E o artigo do próprio Downs oferece a evidência. Em meio ao seu artigo sobre como o socialismo infundiu o movimento dos direitos gays e levou à liberação gay, ele nota o trabalho do historiador John D'Emilio sobre como "o capitalismo tornou possível que o LGBT se movesse para as cidades e se tornasse independente da família como uma fonte de renda. Uma vez que o capitalismo criou a oportunidade para que pessoas vivessem autonomamente, ele involuntariamente permitiu que as pessoas LGBT privilegiassem o desejo homossexual como força diretriz em suas vidas".

Apesar das inclinações à esquerda, D'Emilio viu o mundo de modo mais claro que Downs. Todos os avanços nos direitos humanos que nós vimos na história americana -- abolicionismo, feminismo, direitos civis, direitos gays -- partem de nossa fundação de ideias pela vida, pela liberdade, e pela busca de felicidade. A ênfase na mente individual no Iluminismo, a natuyreza individualista do capitalismo de mercado, e a demanda pelos direitos individuais que inspiraram a Revolução Americana naturalmente levaram as pessoas a pensar mais cuidadosamente sobre a natureza do individual e a gradualmente reconhecer que a dignidade dos direitos individuais deveria ser estendida para todas as pessoas.

Aquelas tendências intelectuais rapidamente levaram aos sentimentos feministas e abolicionistas. Levou mais tempo para que as pessoas tomassem a sério a ideia da atividade homossexual como uma questão de liberdade pessoal e para reconhecer os homossexuais como um grupo de pessoas com direitos. Mas os libertários e seus ancestrais liberais-clássicos chegaram lá primeiro. De Adam Smith e Jeremy Bentham ao Libertarian Party e ao Cato Institute (onde eu trabalho), os libertários estiveram à frente da curva intelectual ao aplicar as ideias da liberdade individual às pessoas gays.

É claro que o capitalismo é mais que uma ideia. É um conjunto de instituições sociais, que Downs corretamente nota que veio sob ataque contundente dos socialistas gays. Mas, como D'Emilio reconheceu, foi o capitalismo que, na verdade, permitiu que os indivíduos vivessem autonomamente e florescessem. O capitalismo libertou as pessoas do feudalismo e da fazenda da família. Ele permitiu a eles que construíssem suas próprias vidas em uma sociedade de mercado com espaço para vidas pessoais e profissionais separadas. Ele deu a elas liberdade e afluência para viver por sua própria conta. O capitalismo levou à industrialização, que levou à urbanização, que ofereceu a anonimidade da cidade para qualquer um que atritava sob as constrições da família e da vila, bem como a chance de encontrar pessoas que compartilhassem seus próprias interesses.

O escritor Eric Marcus produziu um livro de entrevistas com ativistas gays chamado Making History. O que seus assuntos ilustraram -- mesmo quando eles não se davam conta -- foi que era a liberdade de sair de casa e a afluência que permitiu às pessoas que fizessem assim que tornou possível que elas se movessem e escolhessem estilos de vida que quisessem.

Em 1982 o intelectual australiano Dennis Altman escreveu:

"A mudança real na década passada foi um movimento de massa político e cultural através do qual mulheres e homens gays se definiram como uma nova minoria. Este desenvolvimento foi possível apenas sob o capitalismo moderno consumista, que, por todas as duas injustiças, criou as condições para uma maior liberdade e diversidade que são presentes em qualquer outra sociedade conhecida até então. Para aqueles de nós que são socialistas, isso apresenta um importante dilema político, a saber como guardar aquelas qualidades do capitalismo que permitem a diversidade individual enquanto abandona suas iniquidades, exploração, desperdício e feiura."

É claro, qualquer um que encontrar "iniquidades, exploração, desperdício e feiura" nos países capitalistas provavelmente não viveu em países socialistas. Mas como D'Emilio, Altman entendeu as fundações institucionais reais para a vida gay moderna e a identidade gay.

Estes efeitos do capitalismo não aconteceram apenas na Europa e nos Estados Unidos. Em China's Long March to Freedom, o acadêmico chinês-americano Kate Zhou escreve que quando a habitação pertencia e era alocada pelo Estado, era apenas alocado geralmente para casais casados. Uma vez que a habitação foi privatizada, pessoas solteiras e casais gays poderiam providenciar ou alugar acomodações. Mercados de propriedade mais livres também levaram à criação de bares gays, algo que as autoridades estatais de habitação provavelmente não aceitariam. Olhe ao redor do mundo, e está claro que os países com maior liberdade para pessoas gays são aqueles com um grau maior de liberdade econômica. Países que são realmente socialistas estão no nível mais baixo de qualquer medida de liberdade política, liberdades civis, liberdade pessoal, e os direitos LGBT.

Claro, alguns países que são chamados de "socialistas", tais como Dinamarca, Suécia e Canadá, não são realmente socialistas. Eles têm sistemas políticos e econômicos baseados na propriedade privada, no livre-mercado, nos valores liberais, e altos níveis de taxas e transferência de pagamentos -- não tão libertário, mas definitivamente economias de mercado.

Não é o que socialistas gays dos anos 1970 buscavam. Eles queriam o socialismo real, o fim das relações de mercado. Os países que implementaram um tal sistema, desde a União Soviética à Tanzânia e à Venezuela, tiveram menos sucesso em sustentar tanto a prosperidade quanto a liberdade individual do que os países capitalistas.

Aqueles gays intelectuais disseram muito sobre socialismo, mas eles viveram no capitalismo. E se tratava da realidade capitalista, não dos sonhos socialistas, que liberaram o povo gay.

Homo-Imperialismo: Gayzificando o Mundo em benefício do Capital


por Jonathan McCormack

Há -- contam-nos os políticos com os olhos marejados -- povos primitivos ainda tateando de modo obscuro neste ano sem as bênçãos de nossos próprios e iluminados valores sexuais ocidentais. O presidente Trump, portanto, jurou civilizar estas terras atrasadas, promovendo guerras contra a criminalização da homossexualidade. Seu pronunciamento veio logo depois de um relato sobre o enforcamento feito pelo governo iraniano de um homem de 31 anos culpado por sequestrar e estuprar dois garotos de 15 anos de idade. Uma vez que a sodomia lá é ilegal, muitas agências de notícias pensaram apenas em incluir este estuprador de crianças entre a minoria LGBT perseguida no Irã. Neste caso, é provável que a administração de Trump esteja usando os direitos gays como um pretexto sutil para obter influência sobre o Irã. Afinal, a diferença entre um ato de agressão e um de emancipação é apenas um adesivo com arco-íris. Contudo, os direitos globais LGBT conforma um espectro maior. Mobilizar toda uma campanha ao redor do mundo em nome de uma subdivisão menor da população pode parecer extravagante, mas há uma lógica colonial em jogo aqui. A liberdade sexual é meramente um preâmbulo fundamental para a liberação maior -- a liberação do capital.
O gênero, assim nos dizem, é uma construção social. Certamente, há alguma verdade nisso. Segue-se, então, que arranjos sociais diferentes efetivarão uma variedade de identidades sexuais. Foucault, ele mesmo, o queridinho da Esquerda, documentou a construção da identidade homossexual moderna, nascida, diz ele, no século XIX em meio à medicalização da sexualidade. Foi nesse período, ele concluiu, que a sodomia deixou de ser um ato e passou a ser parte da essência interna da personalidade de alguém.

Sem dúvidas, há indivíduos, no Oriente Médio e em outros lugares, que praticam sodomia, mas -- confusamente -- isso não significa que eles necessariamente constroem identidades em torno de tais atos, e certamente não da mesma maneira que ocidentais fazem. O Ocidente está exportando suas próprias noções culturais determinadas da sexualidade enquanto arrogantemente presumem sua universalidade. É uma sexualidade de estilo euro-americana que tem pouco que ver com identidades sexuais estrangeiras. E, conforme Edward Said nos lembra, "imperialismo é a exportação da identidade".

O homem europeu, no sonho febril rousseauniano, imagina um homem universal abstraído da história, o puro sujeito. E então ele se encaixa no molde de um homem do século XXI, branco, cosmopolita de classe média -- l'homme naturel, primitivo, sem civilização, grunhindo na selva -- que ouve NPR e lê The Washington Post.

Um dos filhos de Columbia, Joseph Massad, professor de Política Moderna Árabe e de História Intelectual, reiterou exatamente isto por anos em seu trabalho. Com um fanatismo que supera o da Igreja Católica no auge do fanatismo evangélico, Massad diz que a pressão pelos direitos gays no Oriente Médio é resultado de uma campanha "missionária" orquestrada pelo que ele chama de "Internacional Gay". Em seu livro Sesiring Arabs, ele escreve que "é o próprio discurso da Internacional Gay que produz os homossexuais, assim como gays e lésbicas, onde eles não existem". Ele acrescenta que "é a publicização das identidades socio-sexuais, e não os atos sexuais eles mesmos, que induzem à repressão", e que ao forçar os árabes que praticam sexo entre mesmo gênero para que vão a público, "A Internacional Gay está destruindo as configurações sociais e sexuais de desejo no interesse de reproduzir um mundo à sua própria imagem".

Embora isso se refira ao mundo árabe, a análise de Massad é aplicável a outros países também. Na Rússia, por exemplo, bares gays operam abertamente e sem perseguição. As paradas gay, contudo, são proibidas. Não é a homossexualidade em si, mas a intrusão dela na esfera pública que os russos pensam ser censurável.

O negócio da liberação gay global oficialmente começou quando o presidente Obama fez dos direitos LGBT um pilar da política externa. Mais de US$41 milhões foram destinados ao complexo industrial do glitter, ao lado de uma porção de U$700 milhões reservados para grupos marginalizados para apoiar as comunidades gays e as causas gays em todo o mundo. Uma quantidade substancial foi destinada para a crise na África subsaariana, aparentemente necessitada de paradas de orgulho gay. Para outros desconfortos menores -- epidemia de fome, altas taxas de mortalidade infantil, AIDS, pobreza descontrolada e assim por diante -- Obama estrategicamente usou a ameaça da descontinuidade da assistência para o desenvolvimento como uma arma para oprimir e forçar os Estados africanos a descriminalizar a homossexualidade. Depois do presidente da Uganda assinar uma dura lei anti-gay, por exemplo, a administração Obama astutamente anunciou que o dinheiro para assistência seria cortado ou redirecionado.

Ao mesmo tempo, o Banco Mundial anunciou que estaria atrasando um empréstimo de US$90 milhões para Uganda, alegando que a lei adversamente afetaria os programas de saúde que o empréstimo visaria apoiar. Uma posição intrigante para um banco. Eles justificaram a decisão afirmando que "quando sociedades promulgam leis que previnem pessoas produtivas de participar plenamente na força de trabalho, economias sofrem". A lei de Uganda não preveniria pessoa alguma de trabalhar, embora tenha demandado que nenhum trabalho houvesse que envolva sodomia.

Este é parte de um padrão de subversão da soberania nacional em nome do que o Papa Francisco chamou de "colonização ideológica". Não é surpreendente que o Terceiro Mundo considere que a imposição de valores sexuais estrangeiros seja outra instância da supremacia branca. Na revista do The African Holocaust Society, um grupo de acadêmicos africanos argumentam que os direitos LGBT são 'a porta de entrada para o controle político ocidental sobre nações soberanas (Uganda etc.) e, mais importante, uma ameaça ao nosso populismo (peoplehood) e ao caminho que nós escolhemos como agentes livres para determinar nossa realidade africana".

Em conjunto com as pressões políticas, corporações têm sido, curiosamente, instrumentais em exaltar os benefícios da sodomia. Poder-se-ia argumentar que eles estão apenas lucrando com o capricho, mas estudos mostraram que há pouca evidência de que as iniciativas de responsabilidade social resultam em lucros positivos para os negócios. A verdade é que os direitos gays foram agressivamente promovidos e defendidos por grandes negócios. Centenas de companhias globais, em uma estranha reversão de sua usual neutralidade social, vieram para assinar cartas de amicus para afirmar o casamento entre mesmo sexo em Obergefell.

De acordo com informações dos Funders for LGBTQ Issues, doações corporativas contam para uma considerável porção do grantmaking LGBTQ. Em 2016, o apoio totalizou US$20,4 milhões. Mais de 500 fundações e agências governamentais deram um total de US$524 milhões para causas LGBT em 2015 e 2016 juntos, quase um quarto mais que nos dois anos anteriores. Muito generosos estes CEOs.

E poder-se-ia questiona por que exatamente republicanos bilionários, como o maior doador do Republican Party Paul Singer, estão doando milhões para grupos de ativismo gay. Singer, a propósito, declara para a BBC que "virtualmente inventou os fundos abutres". O financiamento abutre, como descrito pelo The Guardian, acontece quando o país "está em um estado de caos. Quando o país se estabilizou, os fundos abutres retornam para demandar milhões de dólares em interesse de repagamentos e soldos sobre o débito original".

Aqui nós nos movemos mais próximo da verdade. Os avanços dirigidos pela elite de mudar sexualidades alimentam indivíduos desavergonhados que se definem não pela família, nação, filiação religiosa ou tradição, mas antes através de auto-criação de acordo com a vontade libertária individual. Com este chão de fundo, corporações podem então obter controle da população ao ditar e manipular identidades multiformes baseadas em nada mais que apetites atomizados a partir de redes culturais mais amplas.

O objetivo é não criar mais pessoas gays. O casamento de mesmo sexo tem uma importância simbólica; sua vitória no quadro público valida todas as outras relações sexuais libertadas de gerar filhos e compromissos familiares. Controlar a gramática simbólica da sociedade é um meio incrivelmente efetivo de alcançar o domínio. Casais homossexuais são meramente a ponta de lança contemporânea mobilizada na produção de novos ideais normativos.

Sobre a função social do eros liberador, Zygmunt Bauman escreveu que:

"A grande maior das pessoas, homens bem como mulheres, estão hoje totalmente integrados através da sedução mais do que do policiamento, através da propaganda mais do que da doutrinação, necessidade de criação mais do que da regulação normativa.
O erotismo de livre-flutuação é, portanto, eminentemente útil para a tarefa de tencionar para o tipo de identidade que, como todos os outros produtos culturais pós-modernos, é (nas palavras memoráveis de George Steiner) calculado pelo "máximo impacto e pela obsolescência instantânea."

É um alfaiate de identidade feito para o livre-mercado. O homo-capitalismo global disciplina, e então exporta, estas subjetividades revolucionárias mundo afora.

Em seu famoso ensaio "Capitalism and Gay Identity", o historiador John D'Emillo ilustra como a ascensão do trabalho assalariado e a produção de commodity quebrou os agregados familiares, enfraqueceu as relações de parentesco, e produziu o indivíduo moderno -- sem relações fortes com lugar, história ou comunidade, com o sexo separado da função social. Agora liberados da família como uma fonte de renda, os indivíduos podem voar para a anonimidade das grandes cidades em que novas normas sociais, não mais dependentes da organização familiar, permitiram que as identidades homossexuais distintivas florescessem. O desejo sexual foi agora abstraído das obrigações sociais embutidas, inerentes na criação de crianças, e o desejo homossexual pôde funcionar como fator decisivo para a identidade de alguém.

A homossexualidade é comensurável com a ascensão do capitalismo. Países que são realmente socialistas estão bem abaixo no rank de toda medição de liberdade política, liberdades civis, liberdades individuais, e direitos LGBT. Em nome da liberdade individual, os laços sociais são dissolvidos no ácido da lógica de mercado (escolha consumista expandida, disponibilidade e mutação de objetos, competição impiedosa) aplicada às relações humanas. Volker Woltersdorff, escrevendo no Institute for Queer Theory em Berlim, conclui assim: "A des-solidarização é a precondição histórica do reconhecimento estatal de alguns modos não-heterossexuais de viver".

Além disso, isso requere um enorme apoio estatal, pois o pequeno governo é incompatível com a "homossexualidade oficial". Nós vemos no Ocidente como agências de governo tecnocráticos continuamente expansivos chegaram para substituir as antigas instituições intermediárias como a Igreja e a família, que costumavam vigiar e constranger o discurso de normas. Para assegurar os meios de produção discursiva das identidades gays euro-americanas, são necessárias massivas intervenções institucionais.

A estrutura da família estável baseada em identidades sexuais tradicionais -- na transmissão da herança de geração para geração, inseridas em uma comunidade maior -- deve ser derrubada e reconstruída na imagem do Homem-Homo-Neoliberal, do qual o homossexual -- infantil, auto-determinado e autônomo -- é o arquétipo ideal.

Gundula Ludwig, que explora o nexo da ciência política com a teoria queer, descreve como as demandas do novo fluido pós-moderno de uma economia neoliberal impactam a formação de gênero:

"Imaginar um 'estilo de vida' homossexual no qual os sujeitos são flexíveis, dinâmicos e auto-determinados configura gays e lésbicas como modelos de papeis neoliberais...
A diversificação e a pluralização do que conta como uma forma 'normal' ou 'aceitável' de sexualidade, de desejo, de parceria ou família implica que indivíduos e a população são governados de um modo que os ajuda a integrar a governabilidade neoliberal nas práticas e nos comportamentos cotidianos.
A flexibilização do aparato da sexualidade ajuda a produzir uma realidade social que pressupõe a existência de governabilidade neoliberal."

O objetivo é substituir as subjetividades tradicionalmente constituídas com fim de reconstituir as relações sociais maduras para a exploração neoliberal.

No momento, na maioria das nações do Terceiro Mundo, o casamento gay é uma proposição ininteligível, mesmo para casais de mesmo sexo. Para eles, a autoridade para definir relações sociais é recebida da tradição e da religião. A ideia de que alguém pode redefinir o que significa o casamento pressupõe um conjunto de ideologias ocidentais e práticas sociais que não têm qualquer lógica simbólica nestes lugares. Escrevendo em The Encyclopaedia of African Religion, Molefi Kete Asante, um professor na Temple University, afirma que:

"A filosofia africana em geral é a de que a vida e a reprodução da vida sentam no núcleo da sociedade humana. Homens e mulheres têm crianças que ritualizam seus pais e ancestrais. No processo da construção da comunidade, a cultura africana não tem lugar, nem categoria e nem conceito que possa acomodar a homossexualidade enquanto modo de vida porque isto não se encaixa na visão segundo a qual humanos deveriam se reproduzir com o fim de serem lembrados pela eternidade."

Ele segue adiante e afirma que "nada é mais importante que o ciclo da vida a partir dos não-nascidos até os ancestrais; qualquer coisa que romper este ciclo, tal como a homossexualidade enquanto modo de vida, ameaça o próprio núcleo da sociedade africana e de sua filosofia."

O Ocidente deseja usurpar tal autoridade e entregá-las às maquinarias científicas e políticas que se disseminaram como ervas asfixiantes em nossos países.

Na luz da disrupção potencial para modos de vida ancestrais, afirmações chocantes como essas feitas recentemente por Kingsford Sumana Bagbin, o orador adjunto do parlamento de Gana, se tornaram incompreensíveis. À chamada de Theresa May para a inspeção de leis anti-gays, Bagbin respondeu com desprezo: "a homossexualidade é pior que a bomba atômica", ele disse, acrescentando que "não há modo de aceitarmos isso em meu país". Esta estratégia de catalizar e reforçar a poluição sócio-cultural para a governança neoliberal é o que John Millbank chamou de "tirania biopolítica". Em suas palavras,

"a relação (exchange) heterossexual e a reprodução sempre foi precisamente a 'gramática' da relação social como tal. O abandono dessa gramática implicaria, assim, uma sociedade não mais constituída pelo parentesco estendido, mas antes por um estado de controle e de trocas (exchange) e reproduções meramente monetárias."

Esta Ocidentoxização espalha seu próprio, bem único, conjunto de crenças, significados e prioridades sociais na base dos atos sexuais. Uma vez contraído, ele atacará os laços sociais até que tenham se tornado anêmicos, se rompam e feneçam. Corpos governamentais estrangeiros podem então astutamente invadir, injetando forças de mercado implacáveis na cultura hospedeira.

Instalar a lógica do casamento gay nas sociedades tradicionais, finalmente, é trazer à tona todo um novo cosmos, uma regra neoliberal receptiva. Relações, estruturas econômicas, auto-conhecimentos, mesmo palavras elas mesmas, devem tudo passar por um processo de transvaloração radical. Os mestres da nova colonização usam o chicote da ideologia para recriar o logos de um povo. De fato, o direito humano mais ameaçado, no fim das contas, pode ser o direito natural de uma cultura não-Ocidental.