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sexta-feira, 23 de março de 2018

O que representa a candidatura de Ciro Gomes

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Ciro Gomes e Leonel Brizola
Por Leonardo Benitz

Diante da grave crise que assola o país, que deixou de ser somente econômica, tornando-se política, institucional e social, onde os grandes poderes da mídia, baronato e bancos digladiam-se oferecendo cada um a sua própria narrativa. Narrativa que oculta um jogo de interesses muitas vezes difícil de ser compreendido até por um estudioso do assunto quanto mais para a grande maioria da população que, fatalmente, torna-se refém das simplificações grosseiras e das reações emocionais a uma situação justamente percebida como insuportável. Uma situação caótica é sempre propícia ao surgimento não somente de arrivistas políticos, mas de ideários estrangeiros propagados por parcela da elite ligada aos interesses internacionais que procura mistificar sua dominação sobre o restante do povo. 

Uma das simplificações mais comuns, com maior adesão por parte de grande parcela da população que está irritada, talvez a mais perigosa dela, é aquela que liga o protagonismo, ainda que atualmente deprimido, que o Estado tem na economia com escândalos de corrupção, ineficiência, burocracia excessiva, e que, portanto, o Estado deveria ser mínimo, isto é, apenas louvar pela aplicação sadia das regras do mercado, e, no máximo, realizar um papel de assistência social, apequenar-se. Acreditar que um país de proporções continentais como o Brasil, com uma das desigualdades mais brutais do mundo, onde 6 pessoas concentram a mesma renda que 100 milhões de pessoas como mostram os dados de pesquisa recentemente realizada pela ONG britânica Oxfam, deve relegar seus problemas a espontaneidade do mercado é inocência ou má-fé. Dentre as duas opções, acredito que a primeira ocorre na grande parte do povo que propaga esse ideário por ignorância e por despercebidamente introjetar valores contrários aos seus próprios interesses através da intoxicação midiática, enquanto a segunda, que tem representantes de peso nos grandes órgãos midiáticos e instituições empresariais e bancos, que age de forma organizada para fazer com que seus interesses tenham aparência de ciência neutra e objetiva, merece ser analisada com mais cuidado. 

Para compreender esse movimento, devemos notar que, no caso específico brasileiro, a ideia já datada do neoliberalismo volta com força, após um breve período de experimentação com os governos de esquerda da América Latina que, na maior parte dos casos, entraram em descrédito. Essa ideia é datada porque os próprios órgãos de governança global que fizeram parte da propagação do ideário do Consenso de Washington, como o FMI, Banco Mundial e Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, já a criticaram em relatórios recentes. O relatório "Neoliberalism:Oversold?" lançado por três economistas do FMI em junho de 2016, estabelece que as políticas de austeridade defendidas ; com base na ideia de rigidez orçamentária dos gastos do governo prejudicou a demanda e aprofundou o desemprego, a remoção das restrições do fluxo de capital -- abertura financeira -- contribuiu para o aumento da desigualdade e do número de crises financeiras, e, para fechar o caixão dessa ideologia, concluíram que o aumento da desigualdade tem efeitos negativos sobre o crescimento de longo-prazo, observação substanciada por novo artigo escrito em fevereiro de 2017, onde há um gráfico que evidencia uma correlação negativa entre desigualdade e crescimento de longo-prazo. Deve-se atentar para a gravidade dessa observação, ou seja, instituições criadas para (fato brilhantemente demonstrado por John Perkins em seu livro "Confissões de um Assassino Econômico", onde o autor narra a estratégia realizada pelo Banco Mundial que, a serviço dos Estados Unidos, realiza empréstimos para países em desenvolvimento procurando escravizá-los por dívidas, lançando-os, de forma subalterna, na esfera do poderio norte-americano) e por países ricos (em reunião realizada pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, que ficou conhecida como Conferência de Bretton Woods em 1944) estão nos alertando sobre os efeitos perniciosos da desigualdade e da liberalização econômica. A indagação que fica é: se os ouvimos no passado (através da doutrina neoliberal do governo de Fernando Henrique Cardoso) por que não os ouvimos agora? 

A ideia de que o Estado não deve ter protagonismo no combate à desigualdade e desenvolvimento econômico e a economia nacional deve ser aberta ao mundo, não é uma ideia antiga. Como habilmente demonstrado pelo economista Ha-Joon Chang, os Estados Unidos, hoje o campeão mundial do liberalismo, já foram submetidos a pressões estrangeiras para liberalizar-se, no seu caso, por ninguém menos do que o ilustre pai da economia moderna Adam Smith. Vejamos suas observações contidas no livro A Riqueza das Nações: 

` "Se os americanos, seja mediante boicote, seja por meio de qualquer outro tipo de violência, suspenderem a importação das manufaturas europeias aos seus compatriotas capazes da fabricar os mesmos bens, desviando uma parcela considerável de capital para esse fim, estarão retardando o futuro crescimento do valor do seu produto anual, em vez de acelerá-lo, e estarão obstruindo o progresso do país rumo à riqueza e à grandeza verdadeiras, em vez de promovê-lo" 

Em outros escritos considera o futuro do país norte-americano como de uma economia agrária como a Polônia, proposta muito similar àquela recomendada atualmente por economistas liberais como Marcos Lisboa à nação brasileira. É preciso ressaltar que os Estados Unidos não apenas sonoramente rejeitaram esse conselho, e seguiram o conselho do Secretário do Tesouro americano Alexander Hamilton, tornando-se os campeões mundiais do protecionismo até meados do século XX, desenvolvendo o ensino público, investindo em infraestrutura através da concessão de terras e subsídios às empresas ferroviárias, como através de golpes de estado e intervenções em países como Havaí, Cuba, Porto Rico, Filipinas, Nicarágua, Honduras, Guatemala, Irã, Vietnã, Chile e mais recentemente Iraque e Líbia, também expandindo seu poderio no Leste Europeu através da OTAN, consolidaram seu lugar como a potência hegemônica ocidental desbancando seu antecessor, a Inglaterra, tudo isso com a presença de um mastodôntico aparato militar que consumiu 611 bilhões de dólares em 2016, valor superior aos 595 bilhões de dólares dos oito países com os maiores gastos em defesa juntos no mesmo ano de acordo com dados da Peter G. Peterson Foundation. Deixa-se sem passar que indústrias nas quais os EUA se mantêm na vanguarda internacional como de computadores, internet e aeroespacial não seriam possíveis sem a P&D militar financiada pelo governo americano, como muito bem apontado pela economista Mariana Mazzucato em seu livro "O Estado Empreendedor": "a maioria das inovações radicais revolucionárias, que alimentaram a dinâmica do capitalismo -- das ferrovias à internet, até a nanotecnologia e farmacêutica modernas -- aponta para o Estado na origem dos investimentos empreendedores mais corajosos, incipientes e de capital intensivo", até mesmo o Iphone que é propalado como fruto da genialidade empreendedora do Steve Jobs não teria sido possível sem a utilização de tecnologias financiadas pelo governo como o GPS, tela sensível ao toque, mecanismo de reconhecimento de voz. O que não falta na sede do pensamento liberal é, ironicamente, Estado. 

Poder-se-ia analisar com tranquilidade a experiência histórica de qualquer outro país desenvolvido, seja a Coréia do Sul com sua reforma agrária radical, a criação da usina siderúrgica POSCO construída à contragosto do Banco Mundial, os planos quinquenais estabelecidos pelo General Park, seja no Japão com a Restauração Meiji de 1868 e seu programa de modernização, até a Alemanha de Bismarck que teve um papel pioneiro na introdução do seguro de acidente industrial (1871), seguro saúde (1883), e as pensões estatais (1889), ou até mesmo a Inglaterra, com as barreiras protecionistas impostas para proteger as manufaturas têxteis de algodão e as reformas protecionistas introduzidas pelo primeiro primeiro-ministro britânico Robert Walpole em 1721, que ao defendê-la em discurso do trono ao Parlamento observou que "é evidente que nada contribui mais para promover o bem-estar público do que a exportação de bens manufaturados e a importação de matéria-prima estrangeira". Os exemplos da experiência histórica comparada são infindáveis, e unanimemente eles atestam para a centralidade do papel do Estado no desenvolvimento econômico, portanto, agora aproximando-se mais da realidade e do futuro brasileiros, acredito ser imperativo que se escolha um candidato ciente desses temas na eleição de 2018, e proposto a restaurar o papel do Estado na economia brasileira. 

Necessita-se contextualizar o momento pré-eleição de 2018; o Brasil enfrenta a maior crise da sua história com diversos estados quebrados, os partidos políticos tradicionais desacreditados pela corrupção, tudo isso deflagrado pela crise econômica que ocorreu com a redução do crescimento da China que provocou uma queda nos preços das nossas principais exportações, as commodities, como minério de ferro, trigo, soja, junto com a queda do preço do barril de petróleo. Em 2016, após um processo de impeachment ilegítimo, o vice-presidente Michel Temer assume a presidência e anuncia reformas de desmonte do Estado brasileiro e de entrega do patrimônio nacional, atendendo aos interesses do empresariado apátrida e dos bancos brasileiros e estrangeiros, aprovando a reforma trabalhista que alterou 100 itens da CLT (a mando de lobistas de bancos, indústrias e transportes), enfraquecendo a Justiça do Trabalho, fazendo com que o negociado prevaleça sobre o legislado, como se o empregado estivesse em posição de igualdade efetiva com o empregador, covardemente vendendo os campos de exploração do pré-sal para multinacionais como a Shell, num momento em que os preços do barril de petróleo estão prestes a subir, anunciando um programa de privatizações de 57 empresas estatais incluindo a Casa da Moeda e a Eletrobrás, e, sua obra magna, a Emenda Constitucional 95 que estabelece o teto dos gastos de acordo com a inflação por um período de 20 anos, contendo apenas as despesas primárias (isto é, as que não incluem os juros), privilegiando os rentistas brasileiros à custa de gastos que atendem, ainda que precariamente, a maioria da população como saúde e educação, tudo isso num cenário de desemprego alto remediado por uma crescente informalidade, que garante um sustento com salários e condições baixas de trabalho a uma parcela crescente da população... 

Diante desse péssimo cenário, nós, eleitores, temos que fazer uma escolha que será fatídica no dia da eleição, definindo, rompimentos antidemocráticos à parte, a forma como país sairá ou tentará sair dessa crise. Com o provável impedimento da participação de Lula, vítima de uma perseguição jurídica que, deixando de lado ódios e paixões, curiosamente não encontra paralelos com qualquer político tucano, representando o candidato mais popular da esquerda, líder nas pesquisas, provavelmente teremos uma predominância de candidatos de centro-direita a direita, com nomes como Geraldo Alckmin (PSDB) e Jair Bolsonaro despontando, todos adotando uma percepção neoliberal dos problemas do Brasil; Bolsonaro, com uma retórica nacionalista, no entanto, uma prática não condizente com o discurso, exemplificado perfeitamente pelo episódio simbólico da continência batida à bandeira americana em sua viagem aos Estados Unidos, e também por sua provável escolha para ministro da fazenda, Paulo Guedes, um dos fundadores do Instituto Millenium que recebe financiamento do Bank of America e do grupo RBS. E temos, pela centro-esquerda, a candidatura de Ciro Gomes pelo PDT. Ciro Gomes é conhecido publicamente pela sua inteligência e habilidade retórica, mas sua valentia e coerência também são qualidades que devem ser ressaltadas. Já em livro escrito em 1996, em parceria com o professor Roberto Mangabeira Unger, chamado "O Próximo Passo", apresentava uma proposta alternativa ao neoliberalismo, denunciando a utilização peremptória de juros escorchantes e câmbio sobrevalorizado como expediente de combate a um processo inflacionário que já havia sido superado e que havia se tornado um entrave para o desenvolvimento econômico do país. As propostas do Ciro para essas questões seriam, como relevadas recentemente pelo seu assessor econômico Nelson Marconi, trazer a taxa de câmbio para um patamar condizente com a competitividade das exportações brasileiras entre R$3,80 e R$4, e uma taxa de juros mais baixa, espelhando-se nas experiências dos Estados Unidos e Europa em que a taxa de juros real chega a ser negativa. 

Pode-se concluir que muita coisa mudou para não mudar nada, o problema dos juros continua sendo central na economia brasileira, tendo consumido 1.130.149.667.981,00 (1,13... trilhão) de reais que representa 43,94% do Orçamento Geral da União em 2016 de acordo com dados do Tesouro Nacional. Para ter-se uma medida de comparação, gastou-se 3,90% em Saúde e 3,70% em Educação. O povo brasileiro deve tomar conhecimento de quem manda no país. De acordo com dados publicados pelo IBGE, em 2017 a participação da indústria no PIB caiu para 11,8% retrocedendo aos níveis de 1950; parte desse problema foi ocasionado pelo alto custo do capital provocado por altas taxas de juros, e a outra faceta desse problema é o câmbio sobrevalorizado, abordado anteriormente, que torna nossas exportações menos competitivas e aumenta o custo das importações, provocando um déficit na balança comercial, desnacionalizando nossa indústria. 

Em termos mais categóricos, Ciro define-se como um Nacional-Desenvolvimentista, isto é, defende um projeto no qual um Estado fortalecido promove o desenvolvimento econômico de uma sociedade, algo que não seria atingido caso fosse deixado por conta do mercado. Acredita-se que o artigo deixou bem claro que essa é a experiência vivida por grande parte dos países avançados até mesmo aqueles que propagam a retórica neoliberal. Em termos geopolíticos, Ciro Gomes já se manifestou favorável à construção de um mundo multipolar, repudiando as intervenções unilaterais americanas recentes no Iraque, Afeganistão e Líbia, comemorando o surgimento e protagonismo de Vladimir Putin na Síria como uma forma de equilíbrio e alívio para o mundo que assistiu horrorizado à criação de um cenário caótico no Oriente Médio e o renascimento dos movimentos terroristas islâmicos amplamente financiados por governos ocidentais. Ciro Gomes apresenta uma respeitável compreensão de que, a despeito de todo tipo de retórica sobre paz e liberdade, a ordem mundial é assentada na força e na violência, portanto, um mundo multipolar, com a crescente importância da Rússia e a ascensão econômica da China, poderia conter as arbitrariedades cometidas pelos americanos, e beneficiar até mesmo o Brasil, livrando-nos de intervenções e pressões unilaterais de um país que historicamente considerou a América Latina como seu quintal, e o mundo inteiro como seu. 

Portanto, está na ordem do dia uma redução do oneroso encargo da dívida pública através de uma auditoria e da diminuição do nível de taxa de juros a um patamar condizente com a perspectiva de desenvolvimento industrial nacional, uma reforma tributária estabelecendo uma taxação progressiva, recuperando a sanidade fiscal do Estado que, empoderado, possa assumir seus deveres e retomar seu papel de protagonismo no desenvolvimento econômico e combate à desigualdade através de um projeto nacional-desenvolvimentista. O repúdio a qualquer ideologia estrangeira propagada pelo império e seus representantes, isso é o neoliberalismo, que propõe aos estados subdesenvolvidos uma liberalização econômica que ele mesmo não realizou, ou seja, como bem descrito pelo economista alemão Friedrich List, chuta a escada pela qual subiu, deixando os subdesenvolvidos permanentemente no andar de baixo. 

Uma integração da iniciativa privada, universidades e Estado, no desenvolvimento de tecnologias, tornaria o país menos dependente de insumos externos normalmente dolarizados. A luta deve ser pelo estabelecimento de uma ordem geopolítica multipolar, em que o Brasil possui um papel relevante, deixando de ser um celeiro para os países ricos e um reprodutor de manuais propagados pela metrópole e seus órgãos globais, e lute para a formação de polos de poder que distribuam melhor a capacidade de decisão em assuntos internacionais. 

No presente momento o candidato que possui um histórico e um discurso alinhado com esse ideário é o Ciro Gomes, portanto, como se tentou demonstrar no presente artigo, aqueles brasileiros que não se deixam dobrar pelo discurso dominante devem apoiá-lo nas eleições de 2018.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A corrupção do sagrado, ou: o elevado índice de suicídio indígena no Brasil

 
Uma vez saiu uma importantíssima notícia afirmando que a maioria dos moradores de rua são homens desiludidos com o amor. Muitos dos homens desiludidos chegam à depressão, outra parte se mata, e outro tanto toma outro rumo: se tornam andarilhos, vagabundos, gente sem rumo, sem casa, sem vida. É uma alternativa ao suicídio.

Estes homens perderam tudo em sua vida: para eles, o casamento é um sacramento, e a mulher que amaram: um templo de Deus. Corrompido, destruído e pulverizado este templo, manchado com a sujeira demoníaca da traição e da falta de comprometimento a Deus, não mais por ele Deus poderá ser louvado. E não será louvado enquanto não houver um templo.

O que estes homens perderam foi a conexão com o Centro do Mundo. Tudo se tornou, para eles, um erro, uma desordem, uma anarquia ontológica. Eles não perderam uma mulher, perderam um veículo de Deus, perderam o caminho rumo a Ele.

Mircea Eliade compreendeu este fenômeno ao apresentar exemplos de civilizações antigas que, tendo perdido o templo em alguma catástrofe natural ou em alguma guerra, todo um povo se dissolve em suicídio, muitas vezes por morte de fome voluntária. Neste artigo apresentaremos outro exemplo da perda do sagrado, algo muito próximo de nós, e muito próximo das civilizações antigas. Trata-se dos índios brasileiros que sofrem com a corrupção de suas terras e tribos, com a poluição da natureza e com as mudanças forçadas às quais são sujeitos por parte de empresas e governos. Os índios não perdem apenas as matas, os rios, seus povos sagrados e amados, perdem o Centro do Mundo.

Uma nova reportagem publicada pela Survival International revela que o temível índice de suicídio entre os indígenas Guarani Kaiowá do sul do Brasil é o maior do mundo.

O índice de mortes auto-provocadas dentro da tribo é 34 vezes o índice padrão do Brasil e estatisticamente o maior entre qualquer sociedade no planeta. Os índices de suicídios entre outros povos indígenas, tais como os australianos aborígenes e os nativos americanos no Alasca, também são excepcionalmente altos. Isso pode ser visto como resultado inevitável do roubo histórico e contínuo de de sua terra e do "desenvolvimento" forçado sobre eles.

A reportagem, "O progresso pode matar", expõe as devastadoras consequências da perda de terra e autonomia de povos tribais. Assim como os altos índices de suicídio entre tribos, isso também revela os altos índices de alcoolismo, obesidade, depressão e outros problemas de saúde.

A estatísticas particularmente impressionantes incluem os índices altíssimos de infecção HIV na Papua Ocidental, que de quase nenhum caso em 2000 aumentou para 10.000 em 2015, e o índice de mortalidade infantil entre australianos aborígenes é duas vezes o da sociedade australiana. Em grande parte no mundo, a subnutrição continua causando mais problemas, tais como a desnutrição das crianças guaranis no Brasil, que são forçadas a viver em rodovias, e a obesidade de muitos nativos americanos, para os quais a comida sem qualidade é a única opção viável.

Roy Sesana do Botswana Bushmen, que forçosamente foi despejado de suas terras em 2002, disse: "que tipo de desenvolvimento é este em que o povo é levado a viver menos do que antes? Eles pegam HIV/AIDS. Nossas crianças são espancadas na escola e não vão lá. Algumas se tornam prostitutas. Não somos permitidos a caçar. Eles brigam porque estão aborrecidos e bebem. Estão começando a cometer suicídio. Nunca vimos isso antes. Isso é "desenvolvimento"?

Olímpio, da tribo Guajajara na Amazônia brasileira, disse: "Somos contra o tipo de desenvolvimento que o governo está propondo. Penso que alguma ideia não-indígena de "progresso" é loucura! Eles vêm com essas ideias agressivas de progresso e as impõe a nós, seres humanos, especialmente a povos indígenas que são os mais oprimidos de todos. Para nós, isso não é progresso de jeito nenhum!"

Todas essas estatísticas demonstram as consequências fatais de forçar a mudança nas sociedades tribais em nome do "progresso" e do "desenvolvimento". Em muitos casos, as tribos foram forçadas a mudar de fontes de alimento abundantes e sustentáveis e de uma fonte de identidade em favor da pobreza e da marginalização nas margens da sociedade em geral. As trágicas repercussões dessas mudanças forçadas podem continuar ainda por várias gerações de aqui em diante.

Ao redor do mundo, as tribos continuam a lutar pelo reconhecimento do seu direito de viver em suas terras em paz. Onde esse direito foi respeitado ou restaurado, as tribos florescem. Por exemplo, depois da criação de uma reserva indígena no norte da Amazônia em 1992, grupos médicos trabalharam com shamãs tribais e junto deles reduziram à metade o índice de mortalidade entre os índios Yanomamis. Da mesma forma, os Jarawa na Índia vivem nas terras dos seus ancestrais e desfrutam do que tem sido chamado de "vida de opulência". Os nutricionistas classificam sua dieta como "ótima".

Survival Internation, o movimento global para o direito de povos tribais, está clamando às Nações Unidas para reforçar a proteção dos direitos de terras tribais e chamar atenção dos governos para que mantenham seus compromissos para com seus povos indígenas.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O Ensaio de Golpe da Direita Globalista no Brasil

por Amarílis Demartini & Caimmy de Sá

Após os primeiros meses do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, intensos ataques à sua gestão começaram a ser disparados pela oposição e logo adquiriram o semblante de golpismo. Aécio Neves, recém-derrotado nas eleições, assumiu o papel de garoto propaganda das manobras e FHC veio à tona conclamar seus partidários. Logrou-se até derrubar alguns peemedebistas de cima do muro e convocar manifestações que, se não foram bem o que se esperava, conseguiram encher avenidas por todo o país e gerar apreensão. Em meados do ano já cogitávamos seriamente a possibilidade de que o governo do PT fosse derrubado, trazendo algo ainda pior do que o seu “neodesenvolvimentismo” alinhado com os usurários[1], e essa impressão se intensificou na última semana com a aprovação de um pedido de impeachment pelo presidente da Câmara dos Deputados. Mas, apesar de tudo, ficamos com a sensação de que a concretização das ameaças não será tão simples.

           Uma pista de qual seria a ponta solta da trama golpista está na série de declarações públicas contra a derrubada da presidente, vindas de notórios representantes dos interesses atlantistas[2], de bancos a órgãos de mídia[3]. Se o povo já não se levantar com o ímpeto necessário para defender o governo após o “pacote de maldades”, outros atores – os quais na democracia ocidental são, obviamente, muito importantes: os próprios beneficiários das medidas de austeridade, isto é, os credores do Estado – podem vir a evitar a sua derrocada. As questões que se colocam, então, e às quais tentaremos buscar respostas, são: por que a finança globalista, já estando em uma posição vantajosa com o PT, alimentou a possibilidade de golpe? Como se explicam os recentes desenvolvimentos dessa ofensiva? Quais são as possíveis estratégias por trás deles? E, mais importante, qual a posição mais adequada a ser tomada nessa
conjuntura por aqueles que, como nós, buscam um Brasil soberano?

            Achamos que as respostas estão em boa parte nas condições políticas particulares do Brasil. Dentre as dezenas de partidos políticos ativos, poucas são as figuras interessantes, com projetos diferentes e condizentes com a nossa realidade, e essas poucas (poucas mesmo) são quase sempre desconhecidas do grande público. As instituições políticas no geral e aqueles que as compõem são alvo de desanimador (embora compreensível) descrédito por parte da população, e se é verdade que esta está insatisfeita com o PT, o PSDB não goza de maior prestígio. Assim, o jogo democrático torna-se para o brasileiro cada vez mais um amontoado propagandístico sem capacidade representativa, sofremos com a carência de líderes e ideias autênticas, enquanto, por outro lado, isso se traduz num movimento de maior acirramento e envolvimento das pessoas com questões políticas, especialmente por parte dos jovens. Isto caracteriza uma tendência à instabilidade, que poderia muito bem resultar favorável para uma dissidência organizada, mas que carrega em si uma alta dose de imprevisibilidade. Tendo isso em mente, passemos a analisar os meios aventados para um golpe.

O Golpe Militar
            A sanha oposicionista parecia tanta, que chegou a ser considerada por muitos a ideia de uma intervenção direta das Forças Armadas no plano político federal. É bem verdade que existem grupos de oligarcas nacionais que trabalham para isso desde a derrubada do Regime Militar, os quais se agitam esperançosamente a cada momento de efervescência política no Brasil e se tornam mais impacientes a cada ano do Partido dos Trabalhadores no poder. Entretanto, estes elementos da burguesia interna vêm perdendo forças mesmo dentro das corporações militares, seu poder de mobilização é débil e estão já obsoletos para influenciar decisivamente os funcionários do governo americano, que ingenuamente consideram seu parceiro.Isso porque ao longo do regime militar essa oligarquia foi suplantada pelo aparelho midiático e a presença de corporações multinacionais agindo com muito mais liberdade no cenário político brasileiro. Embora ela mantenha sua influência local em alguma medida, o imperialismo pode agora, quase sempre, dispensar o emprego de intermediários nas questões de interesse externo.Tal situação apenas se agravou durante a vigência do neoliberalismo pós-Constituição de 1988.

Analisando as condições históricas, parece-nos que um golpe nos moldes de 64, ou seja, perpetrado pela intervenção direta das forças armadas, dificilmente se repetiria. No tempo de João Goulart não havia margem para uma alternativa democrática, legal ou institucional, que representasse um alinhamento com o poder anglo-americano que naquele momento exigia colaboração de todos os países da América, iniciando a Operação Condor com aval e apoio de setores políticos, militares, e associações civis ligadas, diretamente ou não, aos interesses da burguesia (e podemos citar com certa importância no caso brasileiro, a Opus Dei, a Maçonaria e outros círculos do tipo).

            Naquela situação, além do Ministério da Fazenda nas mãos de um economista do naipe de Celso Furtado, tínhamos um Darcy Ribeiro, ambos expoentes da corrente trabalhista.Não só isso, como se tinha um nacionalista feroz no governo do Estado do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que estava disposto a reunir e convocar todo o III Exército a uma guerra anti-imperialista que se daria em solo brasileiro. Ou seja, a perspectiva de instaurarem-se projetos nacionalistas que poderiam vir a contrariar ou se indispor com os EUA era algo muito palpável, mesmo porque, no contexto de então, muito pouco era preciso para ser alvo de suspeitas.

           Com a vitória do modelo estadunidense sobre a antiga União Soviética, a ordem bipolar da Guerra Fria desmoronou e os representantes do Ocidente puderam avançar em muito com suas expectativas de uma ordem unipolar, sabendo que países que buscassem se livrar da sua influência não teriam mais outra potência à qual recorrer para sua sustentação no cenário geopolítico. Nós, na Ibero-América, logo sentimos os efeitos da nova postura dos EUA e da onda neoliberal que se sucedeu. Hoje no Brasil, temos um defensor de grandes conglomerados financeiros ocupando a pasta da economia, o governo faz privatizações, concessões, e até apoia na ONU a demonização do governo sírio de Assad.

           A própria oposição política, que caracteriza o maior veículo da ameaça golpista contra o PT, não gostaria de dividir seu protagonismo com os militares e correr o risco de ver o sistema democrático liberal enfraquecido. Para os atlantistas estrangeiros, tampouco é desejável que se abale esse sistema que tem garantido tão bem seus interesses no nosso continente – um fechamento político nas mãos das Forças Armadas poderia significar maior investimento na área de defesa, mudança de atitude com relação à cultura e até arroubos patrióticos, o que para aqueles seria puro retrocesso.

Além disso, dentre os oficiais do Exército já são poucos os que aspiram a meter-se pela política, a atitude legalista é enfatizada na instituição desde as primeiras lições e a discussão ideológica desencorajada. Isso vem em boa parte do fato de que os militares sofrem até agora as amargas consequências do antigo golpe, em um duplo sentido. Por um lado, há uma política que tende a condenar os militares não como traidores da Pátria(que de fato foram), mas como violadores dos "direitos humanos", política que leva a processos, sindicâncias, assédio e ações vexatórias vindas de movimentos de esquerda (principalmente, mas não só de esquerda).  A Comissão da Verdade,criada por Dilma Rousseff e pautada por uma moral "humanitária",quase nada falou do papel representado pelo empresariado envolvido com multinacionais nas manobras que levaram ao colapso de Jango, mas trouxe uma série de incômodos ao meio militar e poderia ter sido bem pior, se fossem instaurados processos criminais tal como certos movimentos cobravam. Digamos que as recentes provocações certamente irritaram muitas pessoas ligadas à caserna brasileira, mas ao invés de incitara uma reação revanchista,fizeram essas pessoas quererem manter-se longe de dores de cabeça por algum tempo.

           Por outro lado, o próprio processo de golpe instalou uma cultura de despolitização das Forças Armadas ao distanciá-las do amplo debate público. No momento que precedeu o golpe, era comum ver os militares divididos entre grupos nacionalistas, comunistas e liberais filo-atlantistas. Com a vitória da ala liberal através do golpe, os elementos militares pertencentes aos outros dois campos foram purgados do aparato de defesa, levando à hegemonia de um único grupo e, por consequência, à despolitização. Basta pensarmos na exclusão de Ivan Cavalcanti Proença e Nelson Werneck Sodré, respectivamente um nacionalista e um comunista.

O Golpe Institucional
           A forma mais cômoda para um golpe da direita contra Dilma seria a via institucional, jurídica ou parlamentar. Isso poderia acontecer através da anulação das eleições, o que foi tentado quando Gilmar Mendes, ministro do STF(Supremo Tribunal Federal) requisitou a investigação das contas de campanha da chapa eleita, alegando o possível uso de dinheiro proveniente do esquema de corrupção da “Lava Jato”[4]. Mas o pedido foi arquivado pelo procurador-geral eleitoral, que alegou falta de indícios suficientes e expiração do prazo para a entrada com recursos. Desde então, Mendes vem tentando outros caminhos para invalidar o pleito, mas até agora nenhum logrou progresso.

           Outra forma de atacar pela via institucional é através da abertura de processos de impeachment, e Eduardo Cunha (deputado eleito pelo PMDB e presidente da Câmara) finalmente aceitou um pedido depois de ter recebido uns 15 deles. Os antecedentes deste acontecimento envolvem toda uma trama de denúncias e negociações políticas que vem se desenvolvendo entre o governo e sua base, pressionada pela oposição. Já em setembro havia sido criado um movimento congressista oficial pelo impeachment unindo deputados oposicionistas e os rebeldes da base, ao que a bancada governista reagiu com um movimento “anti”. Cunha vem sendo acuado por investigações de corrupção e lavagem de dinheiro, e o fato de o PT ser o principal partido que pretende levar adiante o processo de cassação que corre contra ele no Conselho de Ética certamente influenciou sua ação de ataque à presidência.

           Para que o processo de impedimento da presidente tenha sucesso, é necessário que seja analisado por uma comissão parlamentar especial e aprovado na Câmara por mais de dois terços dos deputados, com o que Dilma Roussef seria afastada por 180 dias, assumindo o vice-presidente Michel Temer (PMDB). A partir daí, o processo se encaminha ao Senado e, havendo a condenação de dois terços dos senadores, Dilma deixa a função. Entretanto, essas maiorias não são fáceis de conseguir, pois exigiriam uma ruptura total da base com o governo e aqui vemos a necessidade de falar do principal componente dela, o PMDB.

           O chamado Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) protagoniza a situação politicamente escorregadia e imprevisível na qual nos encontramos. A sigla representa o maior partido do país, o qual tem sido essencial para o que se convencionou chamar “governabilidade”: sem nunca ter elegido um presidente, a legenda está profundamente arraigada em todo o aparelho estatal, influencia toda decisão abrangente e é afamada por seu oportunismo. Dilma vem negociando com o PMDB constantemente, os favoreceu na nomeação dos ministérios, mas ainda assim o partido mostra-se pouco interessado em colaborar e nenhuma declaração de apoio contra o impeachment veio até agora, nem sequer do vice-presidente Michel Temer, de quem Roussef disse esperar “integral confiança”. Muito pelo contrário, uma embaraçosa carta de Temer à presidente foi divulgada na mídia essa semana, e Eliseu Padilha, homem próximo àquele, acaba de pedir demissão do Ministério da Aviação Civil. O partido ainda lançou, no final de outubro, um documento contendo críticas às políticas econômicas dos petistas e reforçando seu compromisso com o liberalismo econômico. Porém, não seria surpresa nenhuma se esta organização grande, ideologicamente débil e com tantos interesses conflitantes, acabasse dividida, o que inviabilizaria os planos golpistas.

           O cenário de golpe institucional é possível, mas lhe falta respaldo de importantes setores. O ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto, entre outros especialistas do Direito Constitucional, manifestou-se anteriormente ressaltando que não há base jurídica para um impeachment. Há também diversas entidades de pressão popular que se mantêm do lado do governo, pela sua ligação histórica com o Partido dos Trabalhadores. A capacidade de apaziguar as demandas classistas dos trabalhadores tem sido, na verdade, um dos pontos positivos para o capital nos anos de PT, mas também vem gradualmente se desgastando. Apesar de toda a insatisfação que as medidas deste mandato têm suscitado entre os seus apoiadores mais à esquerda (ou simplesmente mais conscientes), em uma situação de golpe da direita, provavelmente eles iriam às ruas e não seriam facilmente reprimidos. O mesmo não se pode esperar dos partidários da oposição.

O que é que está acontecendo?
            A disputa pelo Estado que nos aparece na forma básica de PT versus PSDB se digladiando corresponde a projetos concorrentes, em ambos os quais atores econômicos saem ganhando e o país sai perdendo, mas um deles se destaca como potencialmente mais nocivo do que o outro. Este se caracteriza pela alternativa deliberadamente atlantista encabeçada pelo PSDB.

            É notório que o governo petista tem cedido terreno ao grande capital e garantido seu lucro em detrimento do nosso desenvolvimento (não apenas econômico, mas também cultural e moral), quando não abertamente, por seu envolvimento em práticas de corrupção que, além de constituir alta traição em si mesmas, tornam nosso Estado vulnerável aos ataques do interesse globalista.  O escândalo da Petrobrás, por exemplo, não obstante se tenha tornado um “escândalo” com um empurrãozinho da influência externa e da mídia sua serviçal, resultou na desvalorização da nossa principal estatal, com a venda de ativos a investidores privados e a abertura do precedente para maiores concessões do pré-sal a gigantes internacionais. Esta perda é incalculável para o Brasil.

            Se, no entanto, o capital internacional tem avançado sobre os bens brasileiros e o setor financeiro tem quebrado sucessivos recordes de lucro por aqui[5], o fato é que nunca se dão por satisfeitos e sabem que estariam em situação mais vantajosa com o PSDB no poder. Esta afirmação é corroborada pela análise dos financiamentos de campanha das últimas eleições[6]. O PT aparece atrás do PMDB, como o terceiro colocado com relação ao montante arrecadado e uma receita total de $385,993,122.54, enquanto o PSDB, campeão de arrecadação, tem um total de $629,323,035.76. Ao sondar-se a proveniência das doações, nota-se a aberta preferência do setor bancário e de serviços financeiros pelo PSDB. Ora, qualquer um que esteja a par da importância da geopolítica para se compreender o mundo atual e agir nele, sabe que o setor bancário não é simplesmente mais um braço qualquer do capital[7], servindo como o principal instrumento de submissão das nações pelo projeto liberal globalista. É quando a atuação dos bancos é rechaçada por governos resistentes que o atlantismo passa a lançar mão de outros tipos de intervenção, suscitando guerras e “revoluções laranjas”, como vimos recentemente na Líbia, na Síria e em um bocado de outras nações, nesses tempos de ofensiva da unipolaridade.

            No Brasil, bem menos que isso foi necessário para incomodar aqueles que se sentem os donos do mundo: a presença dos bancos estatais na nossa economia vem irritando os banqueiros. Ao disponibilizar linhas de crédito acessíveis, a Caixa Econômica Federal tirou deles uma fatia importante do mercado, e isso se traduziu em ataques à instituição, ao que o governo respondeu sinalizando a privatização[8]. O BNDES, ainda mais incômodo por financiar os grandes projetos do PAC, foi o alvo seguinte, com a abertura de uma CPI debaixo de intensas críticas da mídia. Além disso, outras movimentações do governo também contribuíram para exasperar os financistas, são algumas delas: a intenção de não mais operar com o manejo da taxa SELIC, que beneficiava os bancos; a sanção da lei de superávit primário que privilegia as empreiteiras em detrimento daqueles; a taxação sobre o lucro dos bancos que, ao estender o ajuste fiscal aos mais ricos, aumentaria em 3 a 4 bilhões a arrecadação estatal; e o esforço para restabelecer a CPMF.

            Como toda ação que leve ao desabono de empresas nacionais abrirá espaço para o capital internacional, e ainda com base nos financiadores do PSDB e o projeto de enfraquecimento do aparelho estatal ao qual esse partido se propõe, podemos afirmar que a disputa política entre PT e PSDB reflete em boa medida a disputa levada a cabo entre capitais internos e externos, não se limitando ao setor financeiro. Com isso, temos de onde saíram, em termos econômicos, os incentivos ao golpismo e não há dúvidas de que foram seguidos de perto pela intrusão política e ideológica dos EUA[9].
            Então, por que duvidamos do sucesso da empreitada golpista?
  1. Em parte, pelo fracasso da oposição em conseguir apoio popular e político.As bases impulsionadas pelos thinktanks americanos e que lideraram as manifestações de rua anti-PTtem se enfraquecido, sofrendo seguidos rachas por discordâncias entre os líderes e também porque setores mais propensos ao conservadorismo, usados como idiotas úteis pelos liberais, têm começado a ressentir-se[10]. Por mais que a população esteja descontente com a crise financeira e desaprove a administração de Dilma Roussef, não há indícios de um movimento massivo e disposto a sair às ruas pelo impeachment.
  2. Além disso, as medidas de austeridade impostas pelo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy,garantirão que o Brasil continue pagando as dívidas regularmente, com os juros abusivos de sempre, subsídios para o agronegócio, a deterioração dos direitos trabalhistas para a burguesia industrial (turbinada pela imigração direcionada pelos capitalistas aos municípios industriais) e a alegria do setor exportador com a alta vertiginosa do dólar. Sendo assim, para o capital atlantista pode ser mais seguro evitar a instabilidade e tentar manter os níveis de insatisfação das massas contra Dilma para serem usados em uma derrota eleitoral em 2018.
            Temendo o trunfo Lula, a oposição emplacou ainda certas alterações legislativas que inviabilizariam o financiamento da campanha petista, já prejudicado de todo modo pelo desmonte dos esquemas com empreiteiras. Nesse sentido, os oposicionistas sofreram uma derrota com a aprovação do fim do financiamento de empresas nas campanhas. De toda forma, a ofensiva liberal não está derrotada e o Brasil precisa de um movimento que não se acue diante dela para livrar-se do jugo imperialista de uma vez por todas. A nós está muito claro que esse movimento não virá do PT.
 
Conclusão
            Queremos deixar claro que repudiamos o PT, por toda sua condescendência para com o globalismo no campo da economia e também pela adoção de um programa completamente afeito às piores degenerações liberais nos âmbitos social e cultural, com grande prejuízo para a tradição brasileira. Entretanto, em política a neutralidade é impossível e pretender refugiar-se nela é apoiar um ou outro lado, conscientemente ou não. Com a crise política instalada no Brasil este ano, vimos partir tanto de círculos da extrema-esquerda quanto de nacionalistas o reforço ao coro golpista anti-PT por vários motivos. Essa atitude pode ser fruto de legítima revolta, mas, no momento, não ajuda o Brasil, nem a classe trabalhadora brasileira.

Não estamos dizendo, com isso, que o governo petista (especialmente o de Dilma Rousseff e ainda mais nesse segundo mandato) seja minimamente contra- hegemônico. Por muito do que dissemos nesse texto, é evidente que não é esse o caso. A questão que faz com que nos oponhamos à derrubada do governo é a falta de qualquer alternativa que ofereça melhores perspectivas no curto prazo – o fiasco nacional que é o sistema partidário atual não acabará sem trabalho árduo e revolucionário, de conscientização, desconstrução e conquista de espaços. A ascensão de figuras do PSDB ou PMDB, partidos que não se preocupam em manter sequer uma imagem de resistência, representaria uma vitória ainda maior para o capital financeiro por aqui, causando danos que, mesmo com a construção de uma alternativa realmente dissidente não poderiam ser reparados sem muita dificuldade. O PT, por querer manter-se no poder, sabendo que não tem a confiança do atlantismo e que pode perder o apoio das próprias bases militantes, fica na defensiva e para isso precisa amparar-se em algumas das posições que serão importantes para retomar uma política soberana.A postura do PT contra a pilhagem do aparelho e empresas estatais é fraca demais para impedir a rapina, mas ela não seria nem encontrada com a oposição no poder, e o processo seria acelerado. Talvez, tentando ser otimistas em uma situação bem pouco propícia a isso, poderíamos pensar que uma pressão vinda das ruas lograria uma postura mais incisiva do governo. Foram formadas frentes de esquerda com esse propósito, ainda que por um viés com o qual temos muito desacordo[11].

            Assim, reafirmamos nossa ruptura com toda a política moderna, com as direitas e as esquerdas, mas sem nunca tirar os pés do chão. Porque queremos uma revolução real,será preciso saber valer-se de tudo o que puder se tornar um recurso contra o inimigo e agir no mundo que ele mesmo construiu para implodi-lo. Assim, buscamos no momento de crise a oportunidade para inserir no debate público nacional uma opção autêntica pautada pela Quarta Teoria Política[12] e não por falsas dicotomias como petismo ou anti-petismo, dicotomias essas calcadas namodernidade a ser ultrapassada e que podem distrair tanto dos pontos fundamentais sobre os quais devemos estar atentos quanto do poder real de escolha que temos.

Notas:
[1]As aspas são porque a versão de que os governos de Lula e Dilma foram neodesenvolvimentistas é contestável. Falta à política petista uma série de características centrais do desenvolvimentismo de Celso Furtado, do qual a versão “neo” procederia. Furtado tinha em vista a soberania nacional, através da internalização das decisões políticas e econômicas, portanto, a condescendência atual para com as instâncias estrangeiras já seria uma contradição, daí a ironia. Para maiores detalhes referentes ao questionamento de tal tese, conferir:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-66282012000400004&script=sci_arttext

[2] “Atlantismo” é um termo importante para nós. Ele foi sucintamente definido por Aleksandr Dugin da seguinte forma:
“Atlantismo – termo geopolítico significando:
- sob o ponto de vista histórico e geográfico, o setor ocidental da civilização mundial;
- sob o ponto de vista estratégico-militar, os países membros da OTAN (em primeiro lugar, os EUA);
- sob o ponto de vista cultural, a rede unificada de informações criada pelos impérios midiáticos Ocidentais;
- sob o ponto de vista social, o ‘sistema de mercado’, afirmado como sendo absoluto e negando todas as formas diferentes de organização da vida econômica.”
Texto completo e traduzido em: http://evrazia.info/article/4436

[3]Aqui podemos citar Itaú, NY Times, Globo, entre outros.
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/08/1672332-nao-ha-motivos-para-tirar-dilma-do-cargo-diz-presidente-do-itau-unibanco.shtml
http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/08/impeachment-sem-evidencia-concreta-traria-dano-diz-new-york-times.html
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/08/em-editorial-surpreendente-globo-pede-sustentacao-ao-governo-dilma.html

[4]Esta Operação mereceria um texto inteiro e é certamente a antessala da estratégia golpista.

[5]http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2015/08/mesmo-diante-de-crise-lucro-dos-bancos-nao-para-de-crescer.html

[6]Devemos os créditos dessa análise e outros dados, referentes à conjuntura econômica, ao artigo de Pablo Polese (Mestre em Sociologia pela UNICAMP, doutorando em Serviço Social pela UERJ e UFRJ) no blog esquerdista Passa Palavra.

[7] Ao que parece, a maior parte dos marxistas se esforça para ignorar peremptoriamente este fato.
8http://www.valor.com.br/politica/3833616/vou-abrir-o-capital-da-caixa-mas-processo-demora-adianta-dilma

[9]http://mundo.sputniknews.com/americalatina/20150414/1036371835.html

[10]Por exemplo, o desentendimento entre “libertários” e “liberais” no Instituto Mises Brasil, e entre o Movimento Brasil Livre e os seguidores de Olavo de Carvalho, etc.

[11]É o casoda Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo. Embora essas iniciativas tenham muitas pautas válidas, infelizmente, se desviam do foco e valem-se de um discurso de cunho liberal em questões não econômicas, defendendo degenerações absolutamente impopulares, como é comum às esquerdasnos nossos dias.

[12]Quem não conhece os fundamentos da Quarta Teoria Política, neste vídeo pode ver uma breve explicação do Professor Aleksandr Dugin com legendas em português: https://www.youtube.com/watch?v=YpRykFhRlIA

domingo, 1 de novembro de 2015

Dos verdadeiros mecanismos da economia liberal: um caso brasileiro



por Maurício Oltramari

Assim como a grande maioria dos países do Ocidente, nas últimas décadas o Brasil tem sido cada vez mais consoante com a abertura de seus mercados a empresas multinacionais e com a integração de suas transações econômicas à dinâmica de negociação dos mercados globalizados. Essa postura trouxe ao país investimentos em setores importantes da indústria, do comércio e da prestação de serviços, e com eles, a chegada -ou a formação- de novos oligopólios e monopólios, fenômeno ao qual estão suscetíveis todas as economias regionais integradas aos seus respectivos mercados nacionais e ao mercado global.



As mesmas estruturas e poderes reguladores do liberalismo econômico -o sistema capitalista- que permitem a formação desses monopólios e oligopólios a nível internacional, também permitem, mutatis mutandis, a sua formação na esfera nacional. Isso significa, em termos econômicos, que há setores da prestação de serviços, do comércio e da indústria nacional que são dominados por uma empresa ou um seleto (e pequeno) grupo de empresas. Fato que dificulta e prejudica gravemente a existência e a manutenção dos pequenos e micro negócios em geral, nos quais se incluem, evidentemente, as empresas e os ofícios familiares.



Distante da obsoleta teoria econômica da “mão invisível”, -proposta por Adam Smith em “A Riqueza das Nações”- que postula a existência de uma determinada ordem de interesses coordenando a economia como uma entidade autônoma, as transações econômicas dos mercados globalizados movimentam-se por “mecanismos” muito diferentes, que nada tem a ver com a “oferta e demanda” que descreve a figura metafórica do filósofo inglês.



A nível nacional e internacional, esses “mecanismos” são os verdadeiros reguladores dos preços e de outras variáveis que estão diretamente relacionadas com a produção e venda de determinados bens e serviços. Nesse caso específico, estamos falando dos cartéis ou dos acordos informais -para definição de preços e quantidade de produção de bens- que os grandes empresários estabelecem entre si para garantir a maximização dos seus lucros. No caso brasileiro há alguns exemplos que podem ser utilizados para echar luz sobre essa realidade nefasta que passa despercebida pela grande maioria da população. Nesse texto, relataremos o caso de uma empresa que foi confrontada pela realidade dos oligopólios em um setor da indústria brasileira, e decidiu levar até as últimas consequências a determinação de não cooperar com a formação desses verdadeiros cartéis. Tratam-se dos fatos que levaram ao fechamento das empresas do empresário argentino Ramiro Vasena. O relato que segue é uma reprodução resumida de sua entrevista dada ao canal argentino Toda La Verdad Primero, no programa Producción Nacional, apresentado e comandado por Juan Manuel Soaje Pinto.



O caso do empresário e hoje dirigente político, aconteceu no Rio de Janeiro nos anos 90 e ganhou notoriedade na mídia nacional, tendo matérias publicadas nos principais veículos de comunicação do país. Ramiro Vasena foi proprietário de um grupo de empresas fabricante de peças para automóveis e caminhões, que registrava um crescimento expressivo nesse setor da indústria em meados da década de 90. A primeira empresa do grupo foi fundada por seu pai na zona oeste do Rio de Janeiro, e na época que Ramiro assumiu, contava com cerca de 50 funcionários. A empresa foi constituída com o intuito de suprir a necessidade de mercadorias daquele setor, já que existia uma grande demanda por esses produtos e os mecânicos e industriais -os principais consumidores- reclamavam dos preços altos e abusivos cobrados pelos fabricantes. Depois de cinco anos à frente do comando das empresas -que contavam já com mais de 550 funcionários no total- e alavancando seus negócios a patamares cada vez mais altos o empresário viu de súbito sua empresa ser subjugada pelos interesses de um oligopólio que manejava os preços das mercadorias segundo seus próprios interesses econômicos.



Quando as empresas do seu grupo abarcavam já uma fatia expressiva no mercado consumidor brasileiro do ramo de autopeças, o empresário foi procurado pelos maiores industriais do ramo e convidado a fazer parte de uma associação informal que estabelece preços e regras específicas para a produção e venda dessas peças. Em definitivo: uma associação ilícita; um cartel. Como nos relata Ramiro, as regras propostas pelo cartel foram as seguintes: elevar os preços dos bens e reduzir a produção, com o intuito de maximizar o lucro e reduzir os custos. E assim, alinhar-se aos preços praticados pelo mercado, ou seja, os preços definidos arbitrariamente por um seleto grupo de empresários, proprietários das maiores empresas do ramo em questão.  



Ramiro afirma que se negou a atender a essas exigências dos outros industriais, entendendo as consequências que essa decisão poderia trazer: iria prejudicar tanto aos seus consumidores quanto ao povo brasileiro como um todo, já que estaria infringindo as leis que vigoravam no país naquele momento. Como Ramiro enfatiza, periodicamente as novas exigências e regras decididas pelo cartel eram transmitidas ao empresário. Confrontado e ameaçado caso não aceitasse os termos impostos, manteve a decisão de não fazer parte da associação e ele salienta o que lhe diziam os empresários que o intimaram: “o Brasil é nosso”.



Inicialmente, a empresa de Ramiro foi alvo de um conhecido “mecanismo” regulador do mercado, o dumping. Resumidamente, essa prática comercial consiste na venda -por parte de uma ou mais empresas- de produtos por um preço considerado abaixo ou muito abaixo de seu valor justo ou do preço praticado em um determinado país. O intuito dessa técnica é prejudicar ou eliminar os concorrentes, fato que se verificou nas empresas do empresário argentino, quando seus concorrentes reduziram os preços de determinados produtos para valores que estavam abaixo do preço de custo desses bens. Além do dumping, Ramiro afirma que muitos de seus produtos eram sabotados e danificados nas lojas de revenda de autopeças. Nessa época, a empresa já enfrentava dificuldades para a realização e entrega de pedidos dos clientes.



Com o faturamento prejudicado e reduzido frente às condições impostas pelas regras ocultas do mercado, as empresas do grupo de Ramiro começaram a enfrentar dificuldades financeiras. Mas essas dificuldades não afetaram somente a Ramiro e sua família, mas a todos os seus trabalhadores e suas famílias. Mais uma vez estavam se repetindo a sina da desigualdade e injustiça impostas por um sistema econômico que favorece a ganância de poucos e prejudica os mais necessitados: os trabalhadores e suas famílias.  Por fim, ele decidiu levar a questão à Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, apresentando uma denúncia formal, relatando a situação atual de sua empresa e apontando as práticas ilegais levadas a cabo pelos industriais do ramo de autopeças. As denúncias foram por abuso de poder econômico, tentativa de formação de cartel e práticas ilegais de comércio, segundo o empresário, que chegou a conversar com cinco ministros de justiça durante todo o período em que tentava desmantelar o cartel e dar fim às injustiças que lhe eram impostas.



Ele aponta a existência de uma “máfia” por detrás das empresas e dos órgãos de justiça no Brasil. Segundo as gravações que ele fez de suas conversas com participantes do cartel, como Roberto Kasinski*, ficou comprovada a ligação que eles mantinham com Salomon Rotenberg, diretor da Secretaria de Direito Econômico na época em que as denúncias foram feitas. O diretor era amigo pessoal de Kasinski, e segundo o que este último havia dito em tom claro ao próprio Ramiro, nada aconteceria se as denúncias fossem levadas à frente. De forma concomitante, os veículos de comunicação que inicialmente haviam dado grande atenção ao seu caso, agora silenciavam.



Ramiro relata também como organizou protestos nas ruas do Rio de Janeiro para tornar público o que acontecia com suas empresas, quando era auxiliado pela polícia e muitos voluntários, sendo esta a única forma que ele conseguia para que o processo na justiça fosse levado adiante. Enquanto toda essa epopeia às avessas se desdobrava, eram as famílias dos trabalhadores que sofriam as consequências mais nefastas dessa verdadeira conspiração, que não é uma exceção no mundo empresarial dos mercados liberais.



Não será difícil para o leitor imaginar qual é o fim dessa história. Com suas empresas severamente prejudicadas pela ação desse cartel e acumulando um número cada vez maior de dívidas Ramiro teve que retirar-se do ramo da venda de autopeças e sua empresa acabou vendida para uma multinacional estrangeira. Na esfera econômica, viu a sina dos negócios familiares repetir-se: os grandes oligarcas engoliram sua empresa e continuaram tornando-se ainda mais ricos e projetando suas garras país afora. Na esfera social, viu seus trabalhadores e a comunidade prejudicados e sem possibilidade de reação, engolindo as injustiças e as dificuldades, sempre esperando por dias melhores. A cartilha liberal foi seguida à risca.



É evidente pelo relato da experiência de Ramiro -e como o próprio industrial afirma- a existência de uma “máfia”; um cartel estabelecido no ramo de autopeças do Brasil, mas não apenas isso. É possível estender essa experiência para que possamos analisar outros grandes setores da indústria e do comércio no Brasil e no mundo, e entender quais são os verdadeiros “mecanismos” e agentes ocultos que orientam a economia das nações. Cujas únicas preocupações são o próprio enriquecimento e a perpetuação de seu status de elite mundial, à custa, obviamente, da exploração dos povos e de suas culturas.



Estabelecidas e sustentadas pelas estruturas de poder das democracias do Ocidente, as elites ocultas que determinam o rumo das economias nacionais e dos mercados globais continuam a exercer seu poder, fundado nos princípios do liberalismo econômico. Sem o ataque direto ao aparato militar e econômico dos centros de poder será impossível reverter a situação que recai sobre nossas cabeças e afeta a todos, principalmente aos trabalhadores e aos empresários familiares, que estão à base da comunidade. E são esses trabalhadores e empresários -o povo brasileiro- os responsáveis diretos pela tarefa de desmantelar essa teia liberal, infiltrada -através da economia- em todos os aspectos da vida cotidiana, e assim restaurar ao trabalho e ao comércio o lugar e a dignidade que lhes pertence dentro da sociedade.



*Filho de Abraham Kasinski, fundador e dono de uma das maiores empresas de autopeças do Brasil nos anos 90, a COFAP.

Entrevista (em espanhol)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Ameaças ao Brasil: Projeto Triplo A e outros ataques

É sabido que universidades brasileiras estão se reaproximando da Rússia (UFRGS, UFSM, UNB, etc.) a fins de projetos tecnológicos, energéticos e geopolíticos. Este é o motivo pelo qual começam a receber ataques vergonhosos como o feito contra a UFSM recentemente. Ademais, há uma suposta crise financeira que abala as universidades e as dificulta de levar os projetos adiante e de criar outros; tudo não passa de uma reação dos ativistas e espiões da OTAN, que abundam no Brasil, com vistas a derrubar o atual governo e retirar o país do seu rumo para guiá-lo segundo os interesses dos EUA e da OTAN.

As conspirações crescem, os ataques crescem, em todas as frentes: os escândalos da FIFA (detenção de José Maria Marin e afastamento de Blatter) são a maneira que os agentes atlantistas encontraram para dificultar o andamento da Copa e das Olimpíadas, respectivamente na Rússia e no Brasil, que muito temem o "propagandismo político", medo responsável também pelo silêncio de muitas mídias ocidentais sobre os eventos do Dia da Vitória ocorridos na Rússia (os maiores do mundo todo), ofuscados por eventos improvisados e mal-feitos em países da OTAN para ter pretexto de dominar o assunto na mídia. O objetivo social é este: isolar a Rússia, impedir a aproximação cultural/intelectual/geopolítica do povo brasileiro com os russos. O objetivo político é este: manter o país na progressiva decadência anti-tradicional, laica e de ideologia liberal. O econômico é este: dominar os setores mais importantes do país e tomar o controle da "cabeça" (ver: FHC promete entregar parte do Brasil aos EUA).

Abaixo, reportagem retirada de Sputnik:

No Dia Mundial do Meio Ambiente, o Brasil se vê diante de uma proposta do presidente da Colômbia para criar um “corredor ecológico” que iria dos Andes ao Atlântico, passando pela Amazônia. Segundo o professor Rogério Maestri, porém, as preocupações supostamente ambientais do projeto podem esconder interesses estrangeiros bem mais perversos.

“Esse tal corredor ecológico, que pra mim não é um corredor, é uma verdadeira ocupação. É o germe de uma ocupação de uma parte do Brasil com o objetivo de isolá-lo do norte, do Caribe, e a América do Sul da parte norte”, disse o especialista em entrevista à Sputnik.

Professor visitante de Engenharia Hidráulica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Maestri se preocupa não apenas com os aspectos técnicos da questão ambiental, mas também com os fatores geopolíticos por trás de ideias como a do chefe de Estado colombiano, Juan Manuel Santos, que anunciou publicamente em fevereiro que iria propor ao Brasil e à Venezuela este “ambicioso” corredor ecológico.

“Será o maior corredor do mundo, com 136 milhões de hectares, que batizamos de Triplo A, pois seria andino, amazônico e atlântico, indo dos Andes até o Atlântico, no Brasil”, declarou Santos no programa oficial de televisão Agenda Colômbia, em 16 de fevereiro. Segundo as palavras do presidente colombiano, a proposta serviria para “preservar a área e como uma contribuição da humanidade para a discussão sobre como deter as mudanças climáticas”. No entanto, de acordo com Maestri, é bastante provável que o discurso de Santos esconda intenções menos louváveis.

Em primeiro lugar, conforme aponta o professor, o termo “corredor ecológico” é impróprio para qualificar o projeto do Triplo A. “De acordo com o costume internacional, se fazem corredores com largura de, digamos, no máximo 1 km. (…) O que chamam de corredor ambiental é algo que varia aqui [no Triplo A] de 50km a 500km”, ressaltou.

“Pode ser qualquer coisa, menos corredor ambiental. É um rasgo que se faz no norte do Brasil”.

De fato, segundo lembra Maestri, um corredor ecológico legítimo na Amazônia, a saber, que levasse em conta a necessidade de preservar a integridade de uma determinada extensão de mata a fim de garantir o fluxo genético entre espécies e evitar a endogamia, deveria integrar outras regiões mais prejudicadas pela exploração humana na região, e não teria a necessidade ambiental de ir até o Atlântico.

“Por que ir até o Atlântico? Se é problema ambiental, era pra ir mais para o sul, mais para baixo da Venezuela, por exemplo, e não precisava ir exatamente até o Atlântico. Chegar de um lado a outro é claramente estratégico, e não é por acaso que [o Triplo A] teria dois pontos de acesso”.

Talvez seja interessante notar que a ideia inicial do “ambicioso” projeto de Santos seja atribuída a Martín von Hildebrand, fundador da ONG Gaia Amazonas e membro da Gaia Foundation, organização também não governamental, mas com fortes vínculos com a Casa Real Britânica.

Segundo o site oficial da ONG inglesa, o trabalho na Amazônia começou com a mediação do ambientalista brasileiro José Lutzenberg, que também atuou no ministério do governo Fernando Collor de Mello. Na época, ele sofreu diversas críticas, sendo acusado inclusive de receber dinheiro indevido da Gaia Foundation, como noticiado pela revista Executive Intelligence Review, bem como de isolar os ambientalistas brasileiros das decisões políticas, preferindo o conselho de estrangeiros.

“Todas as cabeças coroadas europeias gostam muito de ONGs – não as que queiram fazer alguma coisa no seu próprio país, mas que queiram fazer nos outros países”, afirmou o professor da UFRGS.

De acordo com Maestri, de fato, o envolvimento da Gaia Foundation na proposta do Triplo A é mais um indício “de uma direção em termos de ocupação de espaço por outros países”.

“Se se olha a tradição europeia, vê-se que eles enxergam muito longe… Não é, por exemplo, como o americano, que é um pouco mais intempestivo, que tenta invadir no momento. Os ingleses, europeus, em geral, têm um raciocínio mais em longo prazo. Então eles vão implantando essas pequenas coisas, esse tal corredor ecológico, que pra mim não é um corredor, é uma verdadeira ocupação”.

Além disso, Maestri também chama a atenção para o fato de a ideia ser patrocinada pela Colômbia, um dos maiores aliados dos EUA na América Latina, onde Washington dispõe de sete bases militares.

“Do lado da Colômbia tem bases americanas, e do lado do Brasil pode ter bases francesas. Então nas duas extremidades ficam países do Norte, com grande possibilidade de ter acesso a esse ‘corredor’… a essa ocupação. Faz sentido dentro de uma lógica estratégica”, explica o professor.

Se efetuado, o Triplo A seria composto em 62% por território brasileiro, 34% por território colombiano e 4% por território venezuelano. Ou seja, a gestão do “corredor” teria que ser tripartite, o que, de acordo com Maestri, facilitaria a dominação estrangeira da região amazônica, especialmente porque o projeto da Gaia Foundation envolve o conceito de autogestão dos povos indígenas.

“Essas tribos estão em um processo de incorporação de tecnologias modernas, algumas ainda bem atrasadas, outras mais evoluídas. (…) Com essa autogestão, eles [os índios] ficam sujeitos à manipulação. É mais ou menos o que acontece em diversos países da África, que foram fragmentados ao extremo e agora são sujeitos a invasões permanentes de tropas neocoloniais. (…) Ou seja, essa visão de uma autodeterminação também serve [a interesses estrangeiros]; pode levar eles, daqui a um tempo, a escolherem o país que vai ser o seu suporte. Isso já contraria o princípio pétreo da Constituição que é a indivisibilidade do Brasil”, adverte o especialista.

“Essas comunidades têm todo o direito e devem ser preservadas (…). Porém, provavelmente com o tempo – e isso é mais ou menos lógico –, essas culturas indígenas não vão ficar satisfeitas em viver na ‘Idade da Pedra’ e vão querer mais. Bem, quem vai fornecer esse mais? Vai ser o Brasil, a Colômbia, a Venezuela, ou os países europeus?”, acrescentou.

A gigantesca área abrangida pelo Triplo A guarda enormes reservas de água, minérios e biodiversidade. Ou seja, seria uma imensa riqueza a ser pretensamente “gerida” por povos indígenas, que, segundo observa o professor, “podem ser enganados por qualquer um, um posseiro qualquer”, assim como “podem ser enganados por outros países”.

Outra evidência dos interesses econômicos por trás da proposta, segundo o professor, é o fato de que o corredor abarcaria a região acima do Rio Amazonas – partes mais altas que, sendo mais secas, seriam mais aproveitáveis para atividades lucrativas, como a criação de gado.

De qualquer forma, o presidente colombiano prometeu apresentar o projeto na próxima conferência ambiental da COP 21, que será realizada entre os dias 7 e 8 de dezembro em Paris. Na opinião de Maestri, entretanto, a ideia não deve dar frutos pelo menos dentro dos próximos cinco anos.

“É um projeto de longo prazo. Depois da COP 21, [a ideia] vai evoluindo, evoluindo, até que vão questionar a própria capacidade do Brasil de gerir essa parte. Como se eles, os europeus, americanos, fossem capazes de gerir. As florestas deles simplesmente foram acabadas. Onde teve colonialismo, acabaram com florestas imensas”, notou o professor.

“Somos tão incompetentes assim? Se a Amazônia existe, é porque tinha um governo brasileiro, que bem ou mal ainda conservou. Qual a moral que têm países que desmataram, que colonializaram ao máximo – e ainda colonizam, agora com o neocolonialismo –, em chegar e falar que o Brasil é incapaz?”

De acordo com Maestri, não se pode negar a importância da conservação da Amazônia, mas a tarefa deve ser levada a cabo “dentro da lógica nacional”. O especialista defende, sobretudo, a “presença forte do Exército brasileiro impedindo o corte dessas matas”, o reforço da ocupação do Estado na região e uma “cobertura de satélites” para melhorar o monitoramento, tarefa que, segundo ele, pode ser feita em parcerias múltiplas com outros países, inclusive com o sistema de navegação GLONASS, da Rússia, que acaba de ganhar sua segunda estação no Brasil.

No entanto, Maestri ressalva que o Estado tem que se fazer presente não só na parte da defesa, mas também na esfera social. “A Amazônia não é um vazio”, diz o professor, defendendo a necessidade de dar assistência em saúde e educação às pessoas que habitam a região amazônica. “Ocupar a Amazônia para evitar ser ocupado”, resume ele.

“Se o Estado brasileiro ocupar aquela região efetivamente, ninguém entra. Ocupar integralmente, desde o médico, da professora, do pequeno hospital, até as Forças Armadas”, concluiu o especialista.

Saibamos escolher nossos parceiros que não querem nos subjugar, mas ajudar a nos erguermos.
LUTEMOS PELO BRASIL!

sábado, 25 de abril de 2015

Brasil: identidades regionais e culturais


O Brasil é uma união de múltiplas belezas, cada qual com seu sistema tradicional, com suas crenças e superstições, seu modo de ver o mundo e de vivê-lo. Mas todas são igualmente belas e sagradas, e absolutamente fundamental para você e para todos nós. Não apenas "porque sim", ou como remédio psicológico, mas como verdade e visão de mundo - querendo ou não, a tradição de cada um de nós permanece na sua alma, e ela dá significado ao mundo que vivemos. Distanciar-se da tradição é distanciar-se do mundo e de si mesmo, é perder-se. Portanto, preserve a sua tradição e seu povo e, principalmente, participe deles! Enraíze-se, prenda-se, entregue-se à beleza da sua tradição. "A beleza salvará o mundo", dizia Dostoievsky, e não há dúvida de que todos nós concordamos com ele.

A maioria das informações deste artigo foi retirada de um fórum e traduzida do inglês. Está claro que ele não abrange todas as variedades culturais da nossa bela e grande pátria; isto não quer dizer que aquelas que não aparecem aqui (como, por exemplo, as comunidades fechadas ortodoxas russas e ucranianas no Paraná, as comunidades germânicas do oeste catarinense, a variedade cultural dos indígenas no norte e centro-oeste do país e no interior nordestino, etc.) são menos importantes. Muito pelo contrário. Em outra oportunidade, esperamos publicar mais sobre elas neste blog. Por outro lado, o que está aqui é uma pequena e breve exposição das diferenças culturais entre alguns povos e tradições do Brasil; a maior parte (música, língua, religiosidade, psicologia, mitologia, lendas e contos populares, etc.), e os fundamentos históricos e culturais mesmos de cada povo e tradição, ficam ocultos.

Mas aí estão algumas identidades regionais e segmentos culturais. Claro que hoje a maioria das pessoas que vivem em cidades tendem à globalização, mas elas ainda retêm muitos aspectos das culturas regionais na qual seus ancestrais viveram antes do êxodo rural nos anos 1950.

Muitos sociologistas dividiram o Brasil em regiões distintas considerando os habitantes e seus hábitos. O trabalho mais conhecido sobre este assunto foi feito por Darcy Ribeiro (O Povo Brasileiro), onde ele dividiu o Brasil em suas maiores regiões culturais: O Caipira, O Caboclo, O Sertanejo, O Gaúcho/Sulino. Outros intelectuais do final do século XIX e início do XX descreveram, sobre as suas regiões ou de outros, traços culturais distintos, como José de Alencar (escreveu sobre o Gaúcho, embora muito tendencioso, desde que ele era do nordeste), Sílvio Romero, Monteiro Lobato (sobre o Caipira) e Euclides da Cunha (do Rio de Janeiro, mas escreveu algo sobre o Caipira de São Paulo, quando viveu em Lorena, no estado de São Paulo, e sobre o Sertanejo do interior da região do Nordeste, quando ele estava cobrindo a Revolta dos Canudos no estado da Bahia).

1 - O CAIPIRA

Originado onde hoje é o estado de São Paulo, o Caipira se espalhou por todas as áreas da região de São Paulo, especialmente no interior, no Triângulo Mineiro (Sul de Minas Gerais), Goiás, Mato Grosso do Sul, partes do Mato Grosso e no Paraná, e em algumas cidades do Rio de Janeiro próximas a São Paulo (Resende, Paraty). Os Caipiras originais foram descendentes de colonizadores brancos misturados aos ameríndios do início da colonização do estado de São Paulo. Mais tarde, os imigrantes nessas áreas foram assimilados na cultura e na identidade Caipira. O folclore Caipira é muito rico e sua música típica é representada pela música Caipira. Seus hábitos são uma mistura de traços arcaicos ibéricos com ameríndios. O dialeto Caipira, falado nas áreas onde vivem os Caipiras, é uma reminiscência de um dialeto antigo Tupi chamado Língua Geral Paulista. As áreas no litoral do estado de São Paulo e algumas cidades do Rio de Janeiro próximas a São Paulo têm uma versão similar do Caipira, o Caiçara, com alguns traços mais peculiares, mas que podem ser postos na mesma matriz.

A localização aproximativa da civilização Caipira, assim como o termo, foram cunhados pelo sociólogo Darcy Ribeiro (em vermelho):



 A área em branco no estado de São Paulo é a Região Metropolitana da cidade de São Paulo (capital do estado). Embora é onde o Caipira se originou no passado, no século XIX e nos fins dos anos 1960 essa área foi fortemente influenciada por imigrantes europeus (principalmente italianos) e perdeu muito do seu caráter Caipira. No fim dos anos 1950, essa região começou a receber migração em massa das outras regiões brasileiras (principalmente do norte de Minas Gerais e do nordeste brasileiro) e atualmente é uma área completamente cosmopolita com em torno de 20 milhões de habitantes.

Alguns ritmos musicais do Caipira:
http://www.youtube.com/watch?v=2Q6Ap_IKmYE
http://www.youtube.com/watch?v=bv3593lmltY
http://www.youtube.com/watch?v=s0SeDOjJBS0
http://www.youtube.com/watch?v=95rp7JlvRdM

Algumas imagens do Caipira:

Amácio Mazzaropi imortalizou o Caipira no cinema brasileiro. Ele nasceu na cidade de São Paulo, mas cresceu em Taubaté, na cidade de sua mãe, uma cidade considerada como um dos berços da cultura Caipira. Por toda sua vida ele foi uma das pessoas que espalharam a imagem do Caipira para outros povos.
Abaixo, pinturas de Almeida Jr.(08/05/1850, Itu - 13/11/1899, Piracicaba), ele próprio um caipira de Itu, do interior do estado de São Paulo.
A Catira (também conhecida como Cateretê) é uma dança tradicional dos Caipiras:

2 - O GAÚCHO

O habitante tradicional do estado do Rio Grande do Sul, o Gaúcho, partilha de alguns traços com os gaúchos da Argentina e do Uruguai, seus "primos", mas também com o Caipira brasileiro. O Gaúcho se espalhou pelo estado do Rio Grande do Sul e por outras áreas do país, ao longo das migrações do século XIX, como Oeste do estado de Santa Catarina e grande parte do estado do Paraná. O Gaúcho tem suas próprias tradições e seu dialeto é repleto de vocabulários distintos, como tchê (semelhante ao ché argentino), barbaridade! (encurtado para o simples bah!), etc.

Região aproximativa da civilização Gaúcha:


A área em branco no estado do Rio Grande do Sul é a Serra Gaúcha, mais influenciada pelos italianos do que pelos Gaúchos. Essa região é uma das áreas mais europeias do Brasil, além das áreas de Santa Catarina, do Paraná e do próprio Rio Grande do Sul onde se estabeleceram imigrantes alemães, poloneses e russos.

Vale notar que o Gaúcho é originado pelos hábitos dos longos campos (pampas), onde o clima, a vegetação, a fauna e a geologia peculiares, misturados pelos elementos ibéricos e ameríndios (dos quais surge a etnia Gaúcha), forma uma tradição que recorda a dos cossacos e dos tártaros, povos que tendem mais ao nomadismo, à cavalaria e à inclinação às artes com espadas e outros elementos de guerra e contemplativos.

Alguns ritmos musicais do Gaúcho:
http://www.youtube.com/watch?v=n47iU8Hj8KY
http://www.youtube.com/watch?v=y-2UfOsneug
http://www.youtube.com/watch?v=o2mWc_48jxE
http://www.youtube.com/watch?v=KI0ppcrK49E

Retrato típico do Gaúcho:


3 - O SERTANEJO

Este um preenche uma grande área no interior da maioria dos estados nordestinos, no nordeste do estado do Goiás e no norte de Minas Gerais. O Sertanejo é um homem de hábitos duros, costuma viver em áreas áridas e difíceis em geral do Sertão Nordestino, como dito pelo escritor Euclides da Cunha. Do gado eles tiram tudo que precisam para viver: alimentação e material para as roupas, que são costumeiramente feitas por couro cru. Sua música tradicional é o forró, que possui uma grande variedade de sub-gêneros.

Na imagem, em vermelho, a área aproximada da civilização Sertaneja:


Alguns ritmos musicais do Sertanejo (Forró/Baião):
http://www.youtube.com/watch?v=cWiJL0_yj9c
http://www.youtube.com/watch?v=LDph1JxVHBM
http://www.youtube.com/watch?v=EpyY_Z797UE
http://www.youtube.com/watch?v=g69wNRtgpic

Algumas imagens do Sertanejo nordestino:

4 - O CABOCLO AMAZONENSE

Este grupo é descendente principalmente da mistura entre europeus e ameríndios, com predominância da cultura ameríndia e da assimilação dos europeus para dentro da tradição ameríndia. Eles desenvolveram uma cultura conhecida como "cultura ribeirinha", que se desenvolveu próxima dos rios dos quais tiram o que precisam. Há muitos ameríndios puros entre eles, grande parte vive em reservas indígenas. Nessa região os traços ameríndios são os mais fortes em todo o território brasileiro.

Local aproximado da civilização "ribeirinha":

Alguns traços e retratos do Caboclo Amazonense:

5 - O CARIOCA ("FLUMINENSE")

Este é formado pela influência cosmopolita do Rio de Janeiro em seus aspectos cultural, linguístico, econômico e social. O Carioca foi fortemente influenciado tanto por culturas europeias como por africanas, e em um grau menor por ameríndias. Esse é o tipo cultural que o Brasil exporta para o mundo todo, sendo tomado erroneamente pela "cultura brasileira". A música popular Carioca é o Samba, mas outros muitos conhecidos ritmos brasileiros, como o Bossa-Nova, são também do Rio de Janeiro. O Samba é a música carioca por definição. Há muitos Sambistas em outras regiões, sendo originado em verdade na Bahia, mas o "centro" do Samba, o lugar onde foi reformado do modo como é conhecido hoje, foi no Rio de Janeiro, sendo exportado então para outros cantos do Brasil e do mundo.

Área aproximada da civilização Carioca:

 

As áreas em branco no Espírito Santo são regiões montanhosas habitadas por imigrantes italianos e alemães (principalmente pomeranos), dos quais se falará em seguida.

O Samba Carioca:
http://www.youtube.com/watch?v=rETSGoLBjjk
http://www.youtube.com/watch?v=DhD5FzoPgdA
http://www.youtube.com/watch?v=2Az0YHEymdU

A Bossa Nova:
http://www.youtube.com/watch?v=-11-YI0EBEs

Alguns retratos e imagens do Carioca e sua cultura:

Acima, imagens do Carnaval Carioca e, a seguir, a Bossa-Nova (que depois se modificou em MPB - Música Popular Brasileira). A música "Garota de Ipanema" talvez seja a música mais famosa da Bossa Nova.
 


 O Zé Carioca é a personificação do Carioca feita pela Walt Disney:

 6 - O CRIOULO

O Brasil Crioulo (o negro brasileiro), de acordo com Darcy Ribeiro, é a área onde a presença negra é mais forte em todo o país, e moldou a cultura mais do que qualquer outra região habitada por negros. Essa região é localizada no litoral da região nordeste do país, em cidades como Salvador, capital do estado da Bahia. Há muitas manifestações culturais dos Crioulos, como os cultos do Candomblé e da Umbanda, a Capoeira, que é uma mistura de artes marciais com música e dança. O Samba foi criado na Bahia, entretanto foi desenvolvido no Rio de Janeiro e foi lá que o segmento se tornou famoso. Outros ritmos típicos desta área costeira são o Axé e o Frevo.

Área aproximada da civilização Crioula:

Alguns ritmos (Frevo):

(Axé):

Alguns retratos do Crioulo brasileiro e dos seus hábitos:

O Frevo de Olinda e Recife, no estado do Pernambuco:
A Capoeira, típica desta região:

O Candomblé:
A Umbanda:

7 - OS AÇORIANOS

Os açorianos não foram representados por Darcy Ribeiro, que supõe que o litoral de Santa Catarina se inclui na região Sulina. Não está de todo errado, mas esta região desenvolveu uma cultura particular à parte das outras regiões brasileiras. Esta cultura foi muito influenciada pelos imigrantes açorianos (Ilha dos Açores, próxima de Portugal) que se assentaram lá no século XVIII. Santa Catarina foi o maior assentamento de açorianos no Brasil. Haviam lá poucos habitantes antes: paulistas, ameríndios, alguns espanhóis e alguns poucos negros escravos. Logo, os açorianos ultrapassaram esta população (haviam 6.071 açorianos contra 4.193 de outras origens no século XVIII). Entre os traços culturais deixados pelos açorianos em Santa Catarina estão o Boi-deMamão, o Terno de Reis e a Dança do Pau-de-Fita. Seu sotaque ainda mantém muitas influências açorianas.

Área aproximada da civilização açoriana:

Alguns retratos dos açorianos:
Um mapa mostrando a colonização de Santa Catarina. Na região costeira está escrito "Vicentistas (como os paulistas eram chamados no século XVI) e Açorianos".

8 - O MINEIRO

Embora todos os nascidos em Minas Gerais são chamados de "mineiros", este grupo se refere aos que vivem no núcleo de Minas Gerais, onde as influências de São Paulo (caipira), Rio de Janeiro (carioca) e Bahia (sertanejo) não são fortes. Esta civilização começou quando os paulistas buscavam ouro no fim do século XVII e no início do século XVIII. Os primeiros habitantes dessa região (excluindo os índios nativos), assim, foram migrantes da região de São Paulo. Uma guerra estalou entre os paulistas e o governo português para decidir quem teria o monopólio das minas de ouro, e os primeiros foram derrotados (Guerra dos Emboabas). Isto fez com que a influência paulista nesta região decaísse drasticamente, com poucos deles restando (mais assentados em regiões como Goiás ou Mato Grosso) na área de Minas Gerais. Durante todo o século XVIII, tanto os portugueses como os africanos migraram para lá. Mais ou menos 700.000 portugueses se assentaram nessa região naquele período. Um alto número de escravos africanos chegaram também. Durante o século XIX e o início do século XX, a imigração italiana também aconteceu, principalmente na nova capital do estado, Belo Horizonte. A cultura dos Mineiros tem um certo parentesco com as culturas próximas (caipira, sertanejo, etc.) e teve também uma forte influência portuguesa no século XVIII (Saint-Hilaire, um viajante francês no Brasil no início do século XIX disse que o Mineiro era bastante português na cultura e que eles, ao mesmo tempo, falavam o melhor português no Brasil, por exemplo). Essa região mantém uma das mais portuguesas arquitetura em todo o Brasil, como Ouro Preto, Mariana, São João del-Rei e assim por diante.

Área aproximada da civilização Mineira:

Algumas imagens e retratos dos Mineiros:
Pessoas em Ouro Preto:

Alguns retratos antigos
Rugendas (1835):

 9 - A REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO (PAULISTANA)

Essa região foi o sítio original da civilização caipira e foi parte dela até as primeiras décadas do século XX, mas devido à imigração em massa da Europa, ela perdeu a maioria dos aspectos da cultura caipira,embora manteve muitas também, mas nada em comparação às regiões que permaneceram Caipiras. A última onda de imigração foi em 1950, quando São Paulo-capital e as cidades vizinhas começaram a receber migrantes de outros estados brasileiros com diferentes culturas (como foi dito, a maioria dos migrantes vieram do norte de Minas Gerais e do sertão nordestino, regiões de predominância sertaneja), transformando essa região em um espaço completamente cosmopolita, um cruzamento de culturas europeias, asiáticas, caipira e sertaneja. Vê-se em São Paulo, hoje, pessoas de todo lugar do Brasil e do mundo. A cultura típica paulistana, aquela entre 1900 e 1960, é predominantemente europeia (italiana e portuguesa) com alguns traços menores caipiras, mas hoje se vê muitas culturas estrangeiras passeando pelas ruas de São Paulo-capital: bolivianos tocando flautas pelas praças, promotores do Forró, bairros asiáticos, locais dominados pelas tribos urbanas como o Funk, o Rap, os festivais de Rock, etc.

Área aproximada desta civilização (ou, mais atualmente, anti-civilização):
Algumas imagens. Na pintura abaixo, resquício da tradição Caipira antes do século XX.

A São Paulo europeia: nas fotos, vê-se trabalhadores italianos, predominante força de trabalho dos anos 1900 até 1920.
Abaixo, a São Paulo cosmopolitana, desprovida de tradição.

10 - O TEUTO-BRASILEIRO

Essas regiões foram habitadas e construídas quase exclusivamente por imigrantes vindos da Alemanha e da Itália desde o século XIX, e mantiveram suas influências até hoje, embora bastante enfraquecidas e em perigo de esquecimento generalizado nos dias de hoje, com a geração nascida no fim do século XX. Suas culturas derivam dos ancestrais da Alemanha, Áustria, Suíça, Polônia, Norte da Itália, etc. No entanto, apesar da forte influência europeia, esses imigrantes construíram, com a mudança climática, política e até pelo isolamento com relação à pátria antiga, uma tradição própria que se distanciou ao longo do tempo das dos seus países de origem. Além disso, enquanto a Itália e a Alemanha, ao longo do tempo, tiveram inúmeras reformas linguísticas, culturais e religiosas, os imigrantes no Brasil permaneceram em uma tradição "parada no tempo", cujos princípios mais arcaicos permitiram uma mais forte e duradoura preservação da tradição.

O problema começou na segunda guerra mundial: o governo brasileiro tratou de cortar todos os laços dos imigrantes com parentes no exterior, e de doutriná-los à força (opressão da língua original, dos costumes, festas tradicionais, obrigação da utilização da língua portuguesa, dos costumes do Estado, do dever civil, etc.) para que se misturassem ao Brasil como um todo e perdessem a identidade e a obrigação tradicional para com sua própria civilização germânica/italiana/polonesa/russa.

Abaixo, áreas aproximadas dos imigrantes da Europa Continental, a civilização Teuto-Brasileira:

Seguem imagens de descendentes de alemães em Santa Catarina (Blumenau, Joinville, Brusque, etc.)

Abaixo, Serra Gaúcha (colonizada principalmente por italianos). Nessa região, Taliano, um dialeto de Veneto, era falado até a Segunda Guerra Mundial, quando as ações nacionalistas tomadas pela ditadura do Estado Novo tornaram um crime os cidadãos brasileiros falarem italiano ou alemão nas ruas, escolas, e até mesmo em casa (casas eram invadidas e livros e documentos escritos em outra língua que não o português, quando encontrados pelos oficiais, provocavam prisão, obrigando uma queima em massa de materiais tradicionais por parte do próprio povo).


Povos de Santa Maria de Jetibá, no estado do Espírito Santo. Esta cidade, juntamente com outras cidades nas montanhas do Espírito Santo, foi colonizada por alemães, italianos e poloneses. Santa Maria é uma grande colônia de pomeranos (alemães).