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sábado, 6 de julho de 2019

Benoist: '[ideologia de gênero] visa converter masculinidade em condição patológica'


Entrevista com Alain De Benoist, por Nicolas Gauthier (Elmanifiesto)

O feminismo de antes lutava para promover os direitos das mulheres. O atual neofeminismo passou a negar as próprias noções de masculinidade e feminidade. Como explicar esta transformação?

Produziu-se em dois tempos. Em um primeiro momento, as feministas de tendência universalista (as que concebem a igualdade como sinônimo de mesmidade) quiseram mostrar que as mulheres são "homens como os demais". Tratava-se, por exemplo, de provar que não há qualquer tarefa reservada por natureza a um ou outro sexo, que pode haver mulheres soldados, mulheres pilotos de avião etc. Por que não? Mas evidentemente, se deixa de haver "tarefas de homens", todas as tarefas se convertem em unissexuais. Ao mesmo tempo, se exigia paridade em todas as áreas, pressupondo que ambos os sexos têm não apenas as mesmas capacidades, mas também os mesmos desejos e aspirações. Este requisito se estendeu gradualmente até o absurdo, embora não abundem mulheres de caminhão de lixo e homens parteiros! Claro, a falta de paridade apenas se mostra chocante quando se exerce em benefício dos homens: que a magistratura esteja feminizada em 66% (mais de 86% entre os jovens de 30 a 34 anos), que o pessoal da Educação Nacional esteja em 68% (82% no ensino primário) não provoca o mínimo protesto. Quando hoje se assiste a um filme policial, é até difícil imaginar que também existam homens na polícia nacional!

As coisas pioraram com a ideologia de gênero, que, negando que o sexo biológico seja um fator determinante na vida sexual, faz dele uma "construção social" e o opõe à multiplicidade de "gêneros". A ideia geral aqui é que ao nascer, todo mundo é mais ou menos transexual. Tu já terás notado a importância do "trans" no discurso LGBTQI+: embora os verdadeiros transexuais são apenas uma minoria, o uso da visão do mundo queer torna possível afirmar que estão todos em todo lugar e vice-versa. Às crianças de quatro ou cinco anos se diz que podem eleger seu "gênero" como melhor lhes parece.

Assim, pois, se nega as noções de masculinidade e feminidade, mas ao mesmo tempo, sob a influência da correção política, se ressuscita constantemente o masculino para pô-lo no pelourinho. Por um lado, se afirma que o biológico não determina absolutamente nada, enquanto que, por outro lado, se afirma que o homem é por natureza um estuprador em potencial e que o patriarcado (a "cultura do estupro") está de alguma maneira inscrito em seus genes. Contesta-se a ideia do "eternamente feminino", mas se essencializa o macho com o argumento de que sempre fora agressivo e "dominante".

Então nos dirigimos para uma desvalorização geral da masculinidade?

Sim, inclusive cabe dizer que se declarou guerra contra o cromossomo Y. Não apenas deve-se perseguir o "sexismo" até suas manifestações mais inócuas, já que haveria continuidade de "assédio" e "feminicídio", mas que se deve fazer todo o possível para conseguir que os homens renunciem a sua hombridade -- ao que agora se chama de "masculinidade tóxica". Ontem as mulheres queriam ser "homens como os demais"; hoje são os homens os que devem aprender a se converter em "mulheres como as demais".

A masculinidade se converte em uma condição patológica. Nova significação orwelliana: o homem é uma mulher (Deus também, sem dúvida: lésbica, inclusive). Portanto, os homens devem se feminizar, deixar de se "comportar como homens", como uma vez se lhes recomendava no passado, dar rédea solta às suas emoções (recomenda-se que chorem e gemam), sufocar o gosto pelo risco e pela aventura, encantar-se pelos produtos de beleza (o que compraz muito o capitalismo e a sociedade dos propulsores de carrinhos de bebê), e sobretudo -- em especial -- nunca considerar as mulheres como um objeto de desejo. E esta é uma nova versão da guerra dos sexos, em que o inimigo é chamado a se redimir, desfazendo-se de sua identidade.

O que as sabichonas (marisabidillas) da escritura inclusiva e as amazonas do girl-power exigem agora são homens que se unam com a "interseccionalidade" das lutas "anticoloniais", que comunguem em uma virtuosa devoção com as "vencedoras" do futebol feminino, que militem pela "ampliação da visibilidade das sexualidades alternativas" e se mobilizem contra a "precariedade menstrual", esperando sem dúvida em converter-se em um generalizado conjunto andrógino em um mundo transformado em gineceu regido por Big Brother, o Estado terapêutico prescritor de condutas. Basta de "cisgêneros"! Um passo aos "não-binários", aos "gêneros fluidos" que conseguiram se extrair dos estereótipos do universo "heterocêntrico"!

Esta é a razão pela qual nossa época não gosta de heróis e prefere as vítimas. Veja como, durante as cerimônias do fim do centenário da Primeira Guerra Mundial, tentou-se "desmilitarizar" o evento, celebrando o "retorno à paz" para não ter que falar de vitória. Como se os poilous[1] quiseram apenas acabar com as guerras, sem se preocupar de quem terminaria vencendo a guerra! Do que não há dúvida é de que as classes trabalhadoras admiram espontaneamente o heroísmo de um coronel Beltrame ou o dos comandos mortos em Malí, Cédric de Pierrepont e Alain Bertoncello. O espírito da época, ao contrário, pede que nos reconhecemos no travesti Bilal Hassani, "representante da França" no Eurovision e titular do "prêmio LGBTI" do ano. Não se trata exatamente da mesma humanidade.

Tu falas da desvalorização do heroísmo. Mas então, como explicar a moda cinematográfica dos "super-heróis"? É uma forma de compensação?

Sem dúvida, mas não é o essencial. Deve-se ter em conta que, na verdade, o super-herói não é nenhum herói exponencial, mas que nele se inclui todo o oposto do herói. O herói é uma figura trágica. É um homem que elegeu ter uma vida gloriosa, mas breve, ao invés de uma vida cômoda e medíocre. O herói é um homem que sabe que um dia ou outro terá que dar sua vida. Não há nada disso em Iron Man, Superman, Spiderman e outras tristes produções de DC ou Marvel. Não são heróis porque são invencíveis, não sente o mínimo medo, não há nada de trágico neles. São super-homens, mas de um ponto de vista da testosterona. Não são, estritamente falando, nada além de "homens incrementados", tal como se imaginam os defensores do "sobre-humanismo". Estamos a mil léguas de Aquiles ou de Siegfried.

[1] Literalmente, "os peludos", como se denomina na França os soldados franceses da Guerra Mundial.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Putin, Lavrov e Xi Jinping convocam fim à DMA



por Matthew Ehret

O espectro da guerra nuclear há muito paira sobre o mundo como uma espada tenebrosa de Dâmocles, oferecendo à humanidade muita causa para desespero diante da natureza ambivalente da ciência enquanto uma fonte de poder criativo que enleva e enobrece por um lado, e atua como o arauto da morte e do caos por outro.

Todavia, seria errado culpar a ciência pela crise cuja humanidade desencadeou com o átomo, quando a realidade é que nós nunca nos libertamos da peste dos sistemas oligárquicos de governo. Retrocedendo aos registros dos impérios Romano, Persa e Babilônico tais sistemas tem sempre almejado manipular as massas na direção de padrões de comportamento de auto-policiamento e conflito constante.

Quer estejamos falando sobre as Cruzadas, as guerras religiosas Européias, as guerras Napoleônicas, a guerra da Criméia, Guerras do Ópio, ou as primeira e segunda guerras mundiais tem sido sempre a mesma receita: Pôr as vítimas para definir seus interesses ao redor de constrangimentos materiais, recursos em diminuição, ou vieses religioso/étnico/linguísticos que previnem cada pessoa de reconhecer seus interesses comuns com seu vizinho e então pô-los a lutar. Clássico dividir e conquistar.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, aquela antiga receita para administrar o caos não funcionava mais quando um novo ingrediente foi introduzido no “grande jogo” geopolítico. Esse ingrediente atômico era tão poderoso que aqueles “mestres do jogo” gerenciando de cima os problemas da terra como deuses Olímpicos separados entenderam que poderiam ser aniquilados tão rápido quanto suas vítimas e que um novo conjunto de regras devia ser criado às pressas.

A Aposta Nuclear do Senhor Russell

Um principal representativo da mente genocida do império Britânico foi o Senhor Bertrand Russell, um membro de sétima geração da elite hereditária conhecida hoje pelo seu celebrado pacifismo e profundo alcance filosófico. É um fato desconfortável que esse modelo exemplar da “lógica” e da paz tenha sido um dos primeiros pensadores registrados clamando pela aniquilação nuclear da União Soviética na esteira da rendição da Alemanha Nazista. Caso a União Soviética não se submetesse a um Governo Mundial Único, argumentou o Senhor Russel no Boletimpara os Cientistas Atômicos de 1946, então deveria simplesmente encarar uma punição nuclear.

É claro que aquela ameaça foi de vida curta, quando o anúncio surpresa da Rússia de haver “decifrado o código atômico” quebrou o monopólio sobre cujo qual os Anglo-Americanos salivavam e 1945 quando observavam o Japão (cuja rendição indireta já havia sido negociada) queimar sob a sombra de um renovado Leviatã Anglo-Americano emergente.

O Senhor Russel, entãodiretor da CIA/MI6 Congresso pela Liberdade Cultural (cujo objetivo era criar uma nova anti-cultura de hedonismo e irracionalismo nas artes durante a Guerra Fria) foi forçado a mudar o tom e a liberar, ao invés, uma nova doutrina que veio a ser conhecida como “Destruição Mútua Assegurada” (DMA). A obsessão de Russel em tentar escravizar toda a física a um estrito determinismo matemático tal qual fora disposto em seu Principia Mathematica (1910) e seu papel principal na promoção da arte abstrata/música atonal pela CIA sob a bandeira da CCF é um insight útil sobre como sociedades são gerenciadas por oligarcas.

Numa entrevista à BBC anos após Russell mudar suas visões sobre um primeiro ataque à Rússia, o aristocrata britânico, agora-convertido em advogado anti-nuclear descreveu sua mudança de opinião assim:
“Q: É verdadeiro ou falso que em anos recentes você defendeu que uma guerra preventiva pudesse ser feita contra o comunismo, contra a Rússia Soviética?”
RUSSELL: É completamente verdadeiro, e eu não me arrependo disso agora. Não era inconsistente com o que eu penso agora... Houve um tempo, logo após a última guerra, quando os americanos tinham um monopólio das armas nucleares e ofereceram para internacionalizar armas nucleares pelo plano Baruch, e eu pensei ser uma proposta extremamente generosa da parte deles, uma que seria muito desejável que o mundo aceitasse; não que eu defendesse uma guerra nuclear, mas eu pensava que uma grande pressão devesse ser posta sobre a Rússia para que aceitassem o plano Baruch, e eu de fato pensei que se eles continuassem a recusá-lo talvez fosse necessário de fato ir à guerra. Naquele tempo as armas nucleares existiam apenas em um lado e, portanto, as chances é que os Russos desistiriam. Eu pensei que eles iriam... .
Q: Suponhamos que eles não desistissem.
RUSSELL: Eu pensei e tinha esperanças que os Russos iriam desistir, mas é claro que você não pode ameaçar a não ser que esteja preparado para ter seu blefe confrontado.”

Um fim para o Mundo do DMA

O novo jogo tornou-se “balanço geopolítico do terror” sob o DMA, e em muitos aspectos o poder que ele oferecia a uma oligarquia era maior que qualquer coisa que uma sociedade pré-atômica tinha para oferecer. Ao mesmo tempo que grandes guerras não eram mais desejáveis (embora fossem sempre um risco nesse jogo psicótico de altas apostas de poker), guerra assimétrica e uma mudança de regime tornaram-se as novas “coisas grandes” pelos próximos setenta anos. Uma população em terror constante de aniquilação tornou-se um solo maduro para a disseminação de uma nova inquisição sob a orientação de um travestido megalomaníaco dirigindo o FBI. Essa inquisição purgou o Ocidente de líderes qualificados que fossem comprometidos para com a paz entre Oriente e Ocidente e incluiu grandes cientistas, artistas, professores e políticos que viram suas carreiras serem destruídos conforme o Estado Profundo tornou-se cada vez mais poderoso e bombas atômicas mais abundantes.

Enquanto muitos celebraram de maneira tola o sucesso do DMA com o colapso da União Soviética e a ascensão de um mundo uni-polar que iria supostamente conduzir a um pacífico “fim da história”, outros reconheceram o grande truque na medida em que a OTAN continuou se expandindo a despeito de sua razão de ser ter desaparecido. Yevgeni Primakov e um círculo de patriotas russos (cujo qual incluía um Vladimir Putin em ascensão) estavam entre aqueles que viram através da fraude. Essa rede trabalhou diligentemente com suas contrapartidas asiáticas para criar uma fundação para sobrevivência que manifestou-se na forma do G20 m 1999 e na Organização para Cooperação de Xangai em 2001.

No início de 2007, as guerras desencadeadas no Oriente Médio após o 9-11 não tinham um fim previsto, e uma intenção muito mais obscura do que muitos poderiam imaginar estava emergindo entre o caos. A construção de um escudo anti-mísseis balísticos liderada pela OTAN se iniciou ao redor do perímetro sul da Rússia por iniciativa de Dick Cheney e foi logo incrementada posteriormente pela circunscrição de um “Pivô-Asiático” da China, sob o mandato de Obama em 2011. Somente os tolos mais ingênuos acreditaram então que o Irã ou a Coréia do Norte eram as verdadeiras razões por trás dessa jogada Hobbesiana preemptiva de poder em favor de um monopólio. O fantasma do Senhor Russell podia ser sentido ao redor do mundo, ameaçando uma guerra nuclear se a soberania nacional não fosse abandonada em favor de um governo mundial gerenciado por uma “ditadura científica”.

A Convocação da Rússia e da China para controlar a Serpente de Fogo

O Presidente Putin junto a Sergei Lavrov e o Presidente Xi Jinping assinalaram um fim a era do DMA com uma importante convocação por uma nova doutrina internacional de segurança baseada sobre um “novo sistema operante”.

Saindo da Cúpula Econômica de São Petersburgo em 6 de Junho, Putin disse “se nós não mantermos essa serpente de fogo sob controle – se permitirmos que ela saia da garrafa, Deus proíba, isso pode levar a um catástrofe global. Todos estão fingindo ser surdos, cegos ou disléxicos. Precisamos reagir a isso de alguma maneira, não é? Claramente é isso.”

As palavras de Putin foram amplificadas por Sergei Lavrov em 11 de Junho ao falar na conferência do Primakov Readings de 2019 em Moscou, que reuniu diplomatas, especialistas e políticos de 30 países no tema do “Retornando à Confrontação: Existem Alternativas?” Lavrov disse:

“É de uma importância capital que a Rússia e os Estados Unidos tranquilizem o resto do mundo e transmitam uma declaração conjunta de alto escalão de que não pode haver vitória numa guerra nuclear e que, portanto, ela é inaceitável e inadmissível. Nós não entendemos porque eles não podem reassegurar essa posição agora. Nossa proposta está sendo considerada pelo lado dos Estados Unidos.”

Desde que se puseram entre o pelotão de fuzilamento Anglo-Americano e as nações da Síria e da Venezuela, em conjunto com uma surpreendente divulgação de um conjunto de novas tecnologias militares em Março de 2018, Putin transformou as “regras do jogo” geopolítico no sentido de que a proposta de Lavrov é agora uma possibilidade real. As novas tecnologias divulgadas pela Rússia em 2018 incluem mísseis supersônicos, drones subaquáticos e outros foguetes nucleares que garantem a capacidade de um ataque retaliatório caso alguém seja estúpido o suficiente em atacar a Rússia primeiro.

O ICR (BRI, da sigla em inglês) e o Novo Sistema Operante

A cúpula econômica de São Petersburgo de 5-6 de Junho testemunhou não apenas 19000 participantes de 145 países assinado $47.8 bilhões em acordos, mas caracterizou-se como um encontro importante entre o chinês Xi Jinping e Putin, que descreveram seu relacionamento como o de melhores amigos e travaram suas nações mais profundamente que nunca no novo panorama operacional da Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR, ou BRI da sigla em inglês), que rapidamente está se estendendo no Ártico.

Esse encontro foi levado ainda a um outro patamar em Bishkek Kyrgyzstan, com a cúpula da Organização para Cooperação de Xangai em 13-14 de Junho,  que integrou ainda mais as nações Eurasianas no ICR. Putin e Xi não apenas se encontraram novamente nessa cúpula, mas agora foram acompanhados pelo indiano recentemente eleito Narendra Modi, cuja participação é vital para a reorganização do sistema mundial. Após a cúpula da OCX, o mundo aguardaria pelo encontro potencial de 28-29 de Junho, na cúpula do G20 em Osaka, Japão, onde o presidente norte-americano Donald Trump indicou seu desejo de encontrar com os três líderes para negociações bilaterais. Muitos espectadores criticaram a ideia de que Trump de fato pudesse desejar um encontro honesto, mas Lavrov demonstrou seu entendimento superior da complexidade estratégica na América argumentando numa entrevista em 6 de Junho, quando ele disse que os fracassos do Presidente Trump em estabelecer relações construtivas com a Rússia devem-se à sabotagem de forças enraizadas dentro do governo: “Certos políticos estado-unidenses, incluindo aqueles que ataram as mãos do Presidente Trump não permitindo que ele cumprisse com suas promessas de campanha de normalizar e melhorar as relações com a Rússia, ainda são incapazes de aceitar esse fato.”

A propósito numa conferência em 12 de Junho junto ao presidente da Polônia, Trump foi pressionado por um repórter a tomar a linha dura contra a Rússia, que aparentemente está “ameaçando a Polônia”. Enquanto fingia concordar com a narrativa Rússia=bully, Trump concluiu sua resposta dizendo “Espero que a Polônia venha a ter um excelente relacionamento com a Rússia. Espero que nós venhamos a ter um excelente relacionamento com a Rússia e, inclusive, com a China e muitos outros países.” Trump tinha anteriormente convocado a Rússia, a China e a América para converterem suas centenas de milhões de dólares gastos em forças armadas em projetos que sejam do interesse comum de todos. Durante sua declaração chave ao Fórum Econômico, Putin desvelou o “elefante na sala” trazendo o tema da quebra do sistema financeiro global: “a degeneração do modelo de universalista de globalização e sua transformação numa paródia, numa caricatura de si próprio, onde as regras internacionais comuns são substituídas pelas leis... de um país.” Putin prosseguiu alertando para uma “fragmentação do espaço econômico global e por uma quebra forçada devido a uma política de egoísmo econômico completamente ilimitada. Mas esse é o caminho para um conflito sem fim, guerras comerciais e talvez não apenas comerciais. Figurativamente esse é o caminho para a terminal luta de todos contra todos.”

O ponto ressaltado foi que em última instância sem um novo sistema econômico, o perigo de injustiça e de aniquilação global pairará sempre sobre a humanidade. Ecoando a filosofia da cooperação ganha-ganha de Xi Jinping, Putin disse que o que é necessário em última instância é “um modelo mais justo e estável de desenvolvimento. Esses acordos deveriam não só ser escritos claramente, mas deveriam ser observados por todos os participantes. Entretanto, eu estou convencido que falar sobre uma ordem econômica como essa continuará sendo um pensamento caprichoso, a não ser que retornemos ao centro da discussão, isto é, noções como as de soberania, como o direito incondicional de cada país na sua estrada desenvolvimentista e, deixe-me acrescentar, responsabilidade pelo desenvolvimento sustentável universal, e não apenas pelos próprios desenvolvimentos.”


BIO: Matthew J.L. Ehret é um jornalista, palestrante e fundador da revista Canadian Patriot Review (O Patriota Canadense). Ele é um autor junto ao The Duran, à Fundação de Cultura Estratégica, Fort Russ e o Orient Review. Seus trabalhos têm sido destacados em Zero Hedge, Executive Intelligence Review, Global Times, Asia Times, L.A. Review of Books, and Sott.net. Matthew também publicou o livro “Chegou o Tempo do Canadá Ingressar na Nova Rota da Seda” e três volumes da História Não-contada do Canadá (disponíveis em untoldhistory.canadianpatriot.org). Ele pode ser contatado em matt.ehret@tutamail.com

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Capitalismo, não o Socialismo, que Levou aos Direitos Gays

Por David Boaz


Alguns historiadores gostam de declarar que ideias socialistas ajudaram a trazer os direitos gays na era moderna. Mas eles estão erroneamente tomando a teoria acadêmica pela realidade.


Jim Downs é um historiador no Connecticut College e em Harvard. Um especialista na história da raça e da escravidão, ele publicou recentemente um novo livro, Stand by Me: The Forgotten History of Gay Liberation, no qual ele tenta remover a história gay recente de um foco excessivo no sexo e na AIDS.

Há várias coisas erradas nisto. Primeiro, é superestimado. Eu estive por perto, em torno dos anos da década de 1970, e eu diria que o socialismo era uma parte bem marginal da comunidade gay ou mesmo do movimento dos direitos gays. Ativistas gays definitivamente se inclinavam para a esquerda, mas eles eram focados no avanço dos direitos gays através do Democratic Party. Downs também tem um novo artigo na revista digital Aeon, no qual ele escreve que "ao longo dos anos 1970, as pessoas LGBT teorizavam sobre os benefício do socialismo em livros e panfletos e criticavam o capitalismo nos jornais e na cultura impressa". Ele segue adiante para discutir os "grupos LGBT" e os jornais que "fizeram do socialismo um assunto principal do interesse político no movimento". Mais significativamente, ele argumenta que "se você quiser dar crédito para a liberação gay e para a igualdade do casamento, crédito deve também ser dado ao socialismo".

Segundo, houveram escritores libertários gays na época, também, na academia, na imprensa popular, e se juntavam em torno do Libertarian Party, salientando os benefícios dos livre-mercados e os problemas do socialismo.

Terceiro, o uso do LGBT é anacrônico. O termo foi dificilmente, se é que foi, usado nos anos 1970. (Ele não usa muito no livro.)

Mas a declaração é mais que superestimada. É errada. E o artigo do próprio Downs oferece a evidência. Em meio ao seu artigo sobre como o socialismo infundiu o movimento dos direitos gays e levou à liberação gay, ele nota o trabalho do historiador John D'Emilio sobre como "o capitalismo tornou possível que o LGBT se movesse para as cidades e se tornasse independente da família como uma fonte de renda. Uma vez que o capitalismo criou a oportunidade para que pessoas vivessem autonomamente, ele involuntariamente permitiu que as pessoas LGBT privilegiassem o desejo homossexual como força diretriz em suas vidas".

Apesar das inclinações à esquerda, D'Emilio viu o mundo de modo mais claro que Downs. Todos os avanços nos direitos humanos que nós vimos na história americana -- abolicionismo, feminismo, direitos civis, direitos gays -- partem de nossa fundação de ideias pela vida, pela liberdade, e pela busca de felicidade. A ênfase na mente individual no Iluminismo, a natuyreza individualista do capitalismo de mercado, e a demanda pelos direitos individuais que inspiraram a Revolução Americana naturalmente levaram as pessoas a pensar mais cuidadosamente sobre a natureza do individual e a gradualmente reconhecer que a dignidade dos direitos individuais deveria ser estendida para todas as pessoas.

Aquelas tendências intelectuais rapidamente levaram aos sentimentos feministas e abolicionistas. Levou mais tempo para que as pessoas tomassem a sério a ideia da atividade homossexual como uma questão de liberdade pessoal e para reconhecer os homossexuais como um grupo de pessoas com direitos. Mas os libertários e seus ancestrais liberais-clássicos chegaram lá primeiro. De Adam Smith e Jeremy Bentham ao Libertarian Party e ao Cato Institute (onde eu trabalho), os libertários estiveram à frente da curva intelectual ao aplicar as ideias da liberdade individual às pessoas gays.

É claro que o capitalismo é mais que uma ideia. É um conjunto de instituições sociais, que Downs corretamente nota que veio sob ataque contundente dos socialistas gays. Mas, como D'Emilio reconheceu, foi o capitalismo que, na verdade, permitiu que os indivíduos vivessem autonomamente e florescessem. O capitalismo libertou as pessoas do feudalismo e da fazenda da família. Ele permitiu a eles que construíssem suas próprias vidas em uma sociedade de mercado com espaço para vidas pessoais e profissionais separadas. Ele deu a elas liberdade e afluência para viver por sua própria conta. O capitalismo levou à industrialização, que levou à urbanização, que ofereceu a anonimidade da cidade para qualquer um que atritava sob as constrições da família e da vila, bem como a chance de encontrar pessoas que compartilhassem seus próprias interesses.

O escritor Eric Marcus produziu um livro de entrevistas com ativistas gays chamado Making History. O que seus assuntos ilustraram -- mesmo quando eles não se davam conta -- foi que era a liberdade de sair de casa e a afluência que permitiu às pessoas que fizessem assim que tornou possível que elas se movessem e escolhessem estilos de vida que quisessem.

Em 1982 o intelectual australiano Dennis Altman escreveu:

"A mudança real na década passada foi um movimento de massa político e cultural através do qual mulheres e homens gays se definiram como uma nova minoria. Este desenvolvimento foi possível apenas sob o capitalismo moderno consumista, que, por todas as duas injustiças, criou as condições para uma maior liberdade e diversidade que são presentes em qualquer outra sociedade conhecida até então. Para aqueles de nós que são socialistas, isso apresenta um importante dilema político, a saber como guardar aquelas qualidades do capitalismo que permitem a diversidade individual enquanto abandona suas iniquidades, exploração, desperdício e feiura."

É claro, qualquer um que encontrar "iniquidades, exploração, desperdício e feiura" nos países capitalistas provavelmente não viveu em países socialistas. Mas como D'Emilio, Altman entendeu as fundações institucionais reais para a vida gay moderna e a identidade gay.

Estes efeitos do capitalismo não aconteceram apenas na Europa e nos Estados Unidos. Em China's Long March to Freedom, o acadêmico chinês-americano Kate Zhou escreve que quando a habitação pertencia e era alocada pelo Estado, era apenas alocado geralmente para casais casados. Uma vez que a habitação foi privatizada, pessoas solteiras e casais gays poderiam providenciar ou alugar acomodações. Mercados de propriedade mais livres também levaram à criação de bares gays, algo que as autoridades estatais de habitação provavelmente não aceitariam. Olhe ao redor do mundo, e está claro que os países com maior liberdade para pessoas gays são aqueles com um grau maior de liberdade econômica. Países que são realmente socialistas estão no nível mais baixo de qualquer medida de liberdade política, liberdades civis, liberdade pessoal, e os direitos LGBT.

Claro, alguns países que são chamados de "socialistas", tais como Dinamarca, Suécia e Canadá, não são realmente socialistas. Eles têm sistemas políticos e econômicos baseados na propriedade privada, no livre-mercado, nos valores liberais, e altos níveis de taxas e transferência de pagamentos -- não tão libertário, mas definitivamente economias de mercado.

Não é o que socialistas gays dos anos 1970 buscavam. Eles queriam o socialismo real, o fim das relações de mercado. Os países que implementaram um tal sistema, desde a União Soviética à Tanzânia e à Venezuela, tiveram menos sucesso em sustentar tanto a prosperidade quanto a liberdade individual do que os países capitalistas.

Aqueles gays intelectuais disseram muito sobre socialismo, mas eles viveram no capitalismo. E se tratava da realidade capitalista, não dos sonhos socialistas, que liberaram o povo gay.

Homo-Imperialismo: Gayzificando o Mundo em benefício do Capital


por Jonathan McCormack

Há -- contam-nos os políticos com os olhos marejados -- povos primitivos ainda tateando de modo obscuro neste ano sem as bênçãos de nossos próprios e iluminados valores sexuais ocidentais. O presidente Trump, portanto, jurou civilizar estas terras atrasadas, promovendo guerras contra a criminalização da homossexualidade. Seu pronunciamento veio logo depois de um relato sobre o enforcamento feito pelo governo iraniano de um homem de 31 anos culpado por sequestrar e estuprar dois garotos de 15 anos de idade. Uma vez que a sodomia lá é ilegal, muitas agências de notícias pensaram apenas em incluir este estuprador de crianças entre a minoria LGBT perseguida no Irã. Neste caso, é provável que a administração de Trump esteja usando os direitos gays como um pretexto sutil para obter influência sobre o Irã. Afinal, a diferença entre um ato de agressão e um de emancipação é apenas um adesivo com arco-íris. Contudo, os direitos globais LGBT conforma um espectro maior. Mobilizar toda uma campanha ao redor do mundo em nome de uma subdivisão menor da população pode parecer extravagante, mas há uma lógica colonial em jogo aqui. A liberdade sexual é meramente um preâmbulo fundamental para a liberação maior -- a liberação do capital.
O gênero, assim nos dizem, é uma construção social. Certamente, há alguma verdade nisso. Segue-se, então, que arranjos sociais diferentes efetivarão uma variedade de identidades sexuais. Foucault, ele mesmo, o queridinho da Esquerda, documentou a construção da identidade homossexual moderna, nascida, diz ele, no século XIX em meio à medicalização da sexualidade. Foi nesse período, ele concluiu, que a sodomia deixou de ser um ato e passou a ser parte da essência interna da personalidade de alguém.

Sem dúvidas, há indivíduos, no Oriente Médio e em outros lugares, que praticam sodomia, mas -- confusamente -- isso não significa que eles necessariamente constroem identidades em torno de tais atos, e certamente não da mesma maneira que ocidentais fazem. O Ocidente está exportando suas próprias noções culturais determinadas da sexualidade enquanto arrogantemente presumem sua universalidade. É uma sexualidade de estilo euro-americana que tem pouco que ver com identidades sexuais estrangeiras. E, conforme Edward Said nos lembra, "imperialismo é a exportação da identidade".

O homem europeu, no sonho febril rousseauniano, imagina um homem universal abstraído da história, o puro sujeito. E então ele se encaixa no molde de um homem do século XXI, branco, cosmopolita de classe média -- l'homme naturel, primitivo, sem civilização, grunhindo na selva -- que ouve NPR e lê The Washington Post.

Um dos filhos de Columbia, Joseph Massad, professor de Política Moderna Árabe e de História Intelectual, reiterou exatamente isto por anos em seu trabalho. Com um fanatismo que supera o da Igreja Católica no auge do fanatismo evangélico, Massad diz que a pressão pelos direitos gays no Oriente Médio é resultado de uma campanha "missionária" orquestrada pelo que ele chama de "Internacional Gay". Em seu livro Sesiring Arabs, ele escreve que "é o próprio discurso da Internacional Gay que produz os homossexuais, assim como gays e lésbicas, onde eles não existem". Ele acrescenta que "é a publicização das identidades socio-sexuais, e não os atos sexuais eles mesmos, que induzem à repressão", e que ao forçar os árabes que praticam sexo entre mesmo gênero para que vão a público, "A Internacional Gay está destruindo as configurações sociais e sexuais de desejo no interesse de reproduzir um mundo à sua própria imagem".

Embora isso se refira ao mundo árabe, a análise de Massad é aplicável a outros países também. Na Rússia, por exemplo, bares gays operam abertamente e sem perseguição. As paradas gay, contudo, são proibidas. Não é a homossexualidade em si, mas a intrusão dela na esfera pública que os russos pensam ser censurável.

O negócio da liberação gay global oficialmente começou quando o presidente Obama fez dos direitos LGBT um pilar da política externa. Mais de US$41 milhões foram destinados ao complexo industrial do glitter, ao lado de uma porção de U$700 milhões reservados para grupos marginalizados para apoiar as comunidades gays e as causas gays em todo o mundo. Uma quantidade substancial foi destinada para a crise na África subsaariana, aparentemente necessitada de paradas de orgulho gay. Para outros desconfortos menores -- epidemia de fome, altas taxas de mortalidade infantil, AIDS, pobreza descontrolada e assim por diante -- Obama estrategicamente usou a ameaça da descontinuidade da assistência para o desenvolvimento como uma arma para oprimir e forçar os Estados africanos a descriminalizar a homossexualidade. Depois do presidente da Uganda assinar uma dura lei anti-gay, por exemplo, a administração Obama astutamente anunciou que o dinheiro para assistência seria cortado ou redirecionado.

Ao mesmo tempo, o Banco Mundial anunciou que estaria atrasando um empréstimo de US$90 milhões para Uganda, alegando que a lei adversamente afetaria os programas de saúde que o empréstimo visaria apoiar. Uma posição intrigante para um banco. Eles justificaram a decisão afirmando que "quando sociedades promulgam leis que previnem pessoas produtivas de participar plenamente na força de trabalho, economias sofrem". A lei de Uganda não preveniria pessoa alguma de trabalhar, embora tenha demandado que nenhum trabalho houvesse que envolva sodomia.

Este é parte de um padrão de subversão da soberania nacional em nome do que o Papa Francisco chamou de "colonização ideológica". Não é surpreendente que o Terceiro Mundo considere que a imposição de valores sexuais estrangeiros seja outra instância da supremacia branca. Na revista do The African Holocaust Society, um grupo de acadêmicos africanos argumentam que os direitos LGBT são 'a porta de entrada para o controle político ocidental sobre nações soberanas (Uganda etc.) e, mais importante, uma ameaça ao nosso populismo (peoplehood) e ao caminho que nós escolhemos como agentes livres para determinar nossa realidade africana".

Em conjunto com as pressões políticas, corporações têm sido, curiosamente, instrumentais em exaltar os benefícios da sodomia. Poder-se-ia argumentar que eles estão apenas lucrando com o capricho, mas estudos mostraram que há pouca evidência de que as iniciativas de responsabilidade social resultam em lucros positivos para os negócios. A verdade é que os direitos gays foram agressivamente promovidos e defendidos por grandes negócios. Centenas de companhias globais, em uma estranha reversão de sua usual neutralidade social, vieram para assinar cartas de amicus para afirmar o casamento entre mesmo sexo em Obergefell.

De acordo com informações dos Funders for LGBTQ Issues, doações corporativas contam para uma considerável porção do grantmaking LGBTQ. Em 2016, o apoio totalizou US$20,4 milhões. Mais de 500 fundações e agências governamentais deram um total de US$524 milhões para causas LGBT em 2015 e 2016 juntos, quase um quarto mais que nos dois anos anteriores. Muito generosos estes CEOs.

E poder-se-ia questiona por que exatamente republicanos bilionários, como o maior doador do Republican Party Paul Singer, estão doando milhões para grupos de ativismo gay. Singer, a propósito, declara para a BBC que "virtualmente inventou os fundos abutres". O financiamento abutre, como descrito pelo The Guardian, acontece quando o país "está em um estado de caos. Quando o país se estabilizou, os fundos abutres retornam para demandar milhões de dólares em interesse de repagamentos e soldos sobre o débito original".

Aqui nós nos movemos mais próximo da verdade. Os avanços dirigidos pela elite de mudar sexualidades alimentam indivíduos desavergonhados que se definem não pela família, nação, filiação religiosa ou tradição, mas antes através de auto-criação de acordo com a vontade libertária individual. Com este chão de fundo, corporações podem então obter controle da população ao ditar e manipular identidades multiformes baseadas em nada mais que apetites atomizados a partir de redes culturais mais amplas.

O objetivo é não criar mais pessoas gays. O casamento de mesmo sexo tem uma importância simbólica; sua vitória no quadro público valida todas as outras relações sexuais libertadas de gerar filhos e compromissos familiares. Controlar a gramática simbólica da sociedade é um meio incrivelmente efetivo de alcançar o domínio. Casais homossexuais são meramente a ponta de lança contemporânea mobilizada na produção de novos ideais normativos.

Sobre a função social do eros liberador, Zygmunt Bauman escreveu que:

"A grande maior das pessoas, homens bem como mulheres, estão hoje totalmente integrados através da sedução mais do que do policiamento, através da propaganda mais do que da doutrinação, necessidade de criação mais do que da regulação normativa.
O erotismo de livre-flutuação é, portanto, eminentemente útil para a tarefa de tencionar para o tipo de identidade que, como todos os outros produtos culturais pós-modernos, é (nas palavras memoráveis de George Steiner) calculado pelo "máximo impacto e pela obsolescência instantânea."

É um alfaiate de identidade feito para o livre-mercado. O homo-capitalismo global disciplina, e então exporta, estas subjetividades revolucionárias mundo afora.

Em seu famoso ensaio "Capitalism and Gay Identity", o historiador John D'Emillo ilustra como a ascensão do trabalho assalariado e a produção de commodity quebrou os agregados familiares, enfraqueceu as relações de parentesco, e produziu o indivíduo moderno -- sem relações fortes com lugar, história ou comunidade, com o sexo separado da função social. Agora liberados da família como uma fonte de renda, os indivíduos podem voar para a anonimidade das grandes cidades em que novas normas sociais, não mais dependentes da organização familiar, permitiram que as identidades homossexuais distintivas florescessem. O desejo sexual foi agora abstraído das obrigações sociais embutidas, inerentes na criação de crianças, e o desejo homossexual pôde funcionar como fator decisivo para a identidade de alguém.

A homossexualidade é comensurável com a ascensão do capitalismo. Países que são realmente socialistas estão bem abaixo no rank de toda medição de liberdade política, liberdades civis, liberdades individuais, e direitos LGBT. Em nome da liberdade individual, os laços sociais são dissolvidos no ácido da lógica de mercado (escolha consumista expandida, disponibilidade e mutação de objetos, competição impiedosa) aplicada às relações humanas. Volker Woltersdorff, escrevendo no Institute for Queer Theory em Berlim, conclui assim: "A des-solidarização é a precondição histórica do reconhecimento estatal de alguns modos não-heterossexuais de viver".

Além disso, isso requere um enorme apoio estatal, pois o pequeno governo é incompatível com a "homossexualidade oficial". Nós vemos no Ocidente como agências de governo tecnocráticos continuamente expansivos chegaram para substituir as antigas instituições intermediárias como a Igreja e a família, que costumavam vigiar e constranger o discurso de normas. Para assegurar os meios de produção discursiva das identidades gays euro-americanas, são necessárias massivas intervenções institucionais.

A estrutura da família estável baseada em identidades sexuais tradicionais -- na transmissão da herança de geração para geração, inseridas em uma comunidade maior -- deve ser derrubada e reconstruída na imagem do Homem-Homo-Neoliberal, do qual o homossexual -- infantil, auto-determinado e autônomo -- é o arquétipo ideal.

Gundula Ludwig, que explora o nexo da ciência política com a teoria queer, descreve como as demandas do novo fluido pós-moderno de uma economia neoliberal impactam a formação de gênero:

"Imaginar um 'estilo de vida' homossexual no qual os sujeitos são flexíveis, dinâmicos e auto-determinados configura gays e lésbicas como modelos de papeis neoliberais...
A diversificação e a pluralização do que conta como uma forma 'normal' ou 'aceitável' de sexualidade, de desejo, de parceria ou família implica que indivíduos e a população são governados de um modo que os ajuda a integrar a governabilidade neoliberal nas práticas e nos comportamentos cotidianos.
A flexibilização do aparato da sexualidade ajuda a produzir uma realidade social que pressupõe a existência de governabilidade neoliberal."

O objetivo é substituir as subjetividades tradicionalmente constituídas com fim de reconstituir as relações sociais maduras para a exploração neoliberal.

No momento, na maioria das nações do Terceiro Mundo, o casamento gay é uma proposição ininteligível, mesmo para casais de mesmo sexo. Para eles, a autoridade para definir relações sociais é recebida da tradição e da religião. A ideia de que alguém pode redefinir o que significa o casamento pressupõe um conjunto de ideologias ocidentais e práticas sociais que não têm qualquer lógica simbólica nestes lugares. Escrevendo em The Encyclopaedia of African Religion, Molefi Kete Asante, um professor na Temple University, afirma que:

"A filosofia africana em geral é a de que a vida e a reprodução da vida sentam no núcleo da sociedade humana. Homens e mulheres têm crianças que ritualizam seus pais e ancestrais. No processo da construção da comunidade, a cultura africana não tem lugar, nem categoria e nem conceito que possa acomodar a homossexualidade enquanto modo de vida porque isto não se encaixa na visão segundo a qual humanos deveriam se reproduzir com o fim de serem lembrados pela eternidade."

Ele segue adiante e afirma que "nada é mais importante que o ciclo da vida a partir dos não-nascidos até os ancestrais; qualquer coisa que romper este ciclo, tal como a homossexualidade enquanto modo de vida, ameaça o próprio núcleo da sociedade africana e de sua filosofia."

O Ocidente deseja usurpar tal autoridade e entregá-las às maquinarias científicas e políticas que se disseminaram como ervas asfixiantes em nossos países.

Na luz da disrupção potencial para modos de vida ancestrais, afirmações chocantes como essas feitas recentemente por Kingsford Sumana Bagbin, o orador adjunto do parlamento de Gana, se tornaram incompreensíveis. À chamada de Theresa May para a inspeção de leis anti-gays, Bagbin respondeu com desprezo: "a homossexualidade é pior que a bomba atômica", ele disse, acrescentando que "não há modo de aceitarmos isso em meu país". Esta estratégia de catalizar e reforçar a poluição sócio-cultural para a governança neoliberal é o que John Millbank chamou de "tirania biopolítica". Em suas palavras,

"a relação (exchange) heterossexual e a reprodução sempre foi precisamente a 'gramática' da relação social como tal. O abandono dessa gramática implicaria, assim, uma sociedade não mais constituída pelo parentesco estendido, mas antes por um estado de controle e de trocas (exchange) e reproduções meramente monetárias."

Esta Ocidentoxização espalha seu próprio, bem único, conjunto de crenças, significados e prioridades sociais na base dos atos sexuais. Uma vez contraído, ele atacará os laços sociais até que tenham se tornado anêmicos, se rompam e feneçam. Corpos governamentais estrangeiros podem então astutamente invadir, injetando forças de mercado implacáveis na cultura hospedeira.

Instalar a lógica do casamento gay nas sociedades tradicionais, finalmente, é trazer à tona todo um novo cosmos, uma regra neoliberal receptiva. Relações, estruturas econômicas, auto-conhecimentos, mesmo palavras elas mesmas, devem tudo passar por um processo de transvaloração radical. Os mestres da nova colonização usam o chicote da ideologia para recriar o logos de um povo. De fato, o direito humano mais ameaçado, no fim das contas, pode ser o direito natural de uma cultura não-Ocidental.

domingo, 24 de janeiro de 2016

A Ilusão da Democracia


Alguém uma vez definiu o "idiota" como uma pessoa que continua respondendo a uma mesma situação do mesmo modo, esperando um resultado diferente. Talvez a melhor ilustração dessa enfermidade é encontrada, a cada dois anos, no sistema conhecido como votação, em que milhões de pessoas são induzidas às urnas para votar por candidatos que continuam prometendo cumprir as promessas feitas nas eleições anteriores[1]

Ocasionalmente, nesses momentos corruptos, degenerados e decadentes existem eleições políticas das quais se espera que participamos. Supõe-se que façamos nosso "dever enquanto cidadãos do livre mundo democrático" e "defendamos nosso modo de vida". Contra o quê nunca é propriamente definido. É típico que a palavra 'nosso' é usada com fim de arrastar todo mundo para o mesmo nível. É realmente meu modo de vida e é realmente meu dever defendê-lo? O que, na verdade, está sendo pedido que se defenda? Se nós realmente temos liberdade de escolha, não deveríamos ser livres para escolher não defender algo que eu nem sequer posso dizer que desejo? Se eu decido não tomar parte no processo democrático e não votar, instantaneamente surgem acusações de que eu não estou "cumprindo com meu dever", ou que estou renunciando e, portanto, não tenho direito de comentar e, menos que isso, queixar-me. Eles me dizem que é a coisa mais passiva não votar e sugerem que é porque eu sou de algum modo moralmente corrupto.

Mas se eu realmente quero uma mudança; se eu realmente desejaria fazer algo em relação a uma situação, o que mais eu poderia fazer em um mundo de cabeça para baixo além de me abster do voto? Não é meu "direito democrático"? Se vivemos em um mundo de cabeça para baixo, não é o que é considerado "ativo" em verdade o "passivo" e vice-versa?

O que é democracia?

A maioria das pessoas pensam que democracia é algo "bom". Isso representa tudo que a maioria das pessoas consideram valoroso e precioso. A mídia de massa moderna usa a democracia como um rótulo para ideias, valores e princípios que eles consideram "corretos". Frequentemente se vê e se ouve pessoas dizendo coisas como "é meu direito democrático", ou "é o dever democrático de cada um" - votar, por exemplo. "Parecem valores democráticos" é outra expressão críptica frequentemente usada por qualquer um dos líderes mundiais e influentes homens de negócio até os jornalistas e pessoas comuns. Ninguém questiona ou define estas vagas expressões. Espera-se de nós todos que "sabemos" o que é entendido por elas - não apenas isso, mas que nós todos esperamos ter o mesmo entendimento deles.

Mas todos os pontos acima são de fato a democracia?

Não. As coisas mencionadas acima são todos valores relativos e vagos ou definições não-existentes dadas à palavra democracia por pessoas que as usam ao seu modo.

Democracia é uma forma de governo. Não tem valor intrínseco. Além disso, democracia é o governo "do povo". Pelo menos "o povo" gosta de pensar assim. Mas o que é o povo? Eles estão realmente qualificados a governar e se estão, por qual autoridade eles estão qualificados a governar? Quem faz o papel do governador? Eles mesmos?

O fato é que o povo nunca pode governar, seja em uma democracia ou em qualquer outra forma de governo. O povo é incapaz de governar. O povo é sempre governado em qualquer forma de governo. Em uma democracia o povo delega seu poder a um representante que supõe-se representar seus interesses. Em outras palavras, o povo capitula - renuncia seu poder sobre si mesmo a outra pessoa. O quão provável esta pessoa representará o eleitor ao invés de ele mesmo e seus próprios interesses? Quão provável é que os interesses do eleitor e os interesses do representante político do eleitor são idênticos?

A democracia é o governo dos muitos sobre os poucos. Nós sempre ouvimos que "é o maior bem para a maioria do povo". Sim, estas pessoas concedem, a minoria não tem espaço, mas pelo menos a maioria tem e isto é justo. Tão logo você concorde com a maioria você não tem que sofrer sua decisão. Isso poderia ser comparável à descrição popular de democracia como dois lobos e uma ovelha decidindo o que terá para o jantar. O que a maioria decide sempre é a melhor decisão para todos? Em que base eles tomam suas decisões? Eles são tão bem informados para serem capazes de uma decisão balanceada e pesada, tendo tomado todo aspecto em consideração? E é realmente eles, a maioria, quem toma sua decisão?

Se alguém de repente colapsa na rua o povo se reuniria em volta dele e votaria para decidir o que deveria ser feito pela pessoa machucada? Não seria mais provável que a questão levanta seria "alguém é médico"? Em outras palavras, olhar-se-ia por alguém com qualificações, competência e habilidade, que fosse treinado, para lidar com a pessoa machucada. Nenhuma necessidade de voto, o senso comum decide o curso da ação.[2]

É um mistério para mim que ninguém aplicou à democracia a máxima antiga de divide et impera.

O sistema democrático divide a população em duas partes de políticas e ideologias ostensivamente diferentes. Tomemos como exemplo que temos cinco grandes partidos em um país. Se a população dividiria seus votos igualmente entre os cinco partidos eles teriam 20% cada com uma participação de voto de 100%. Desse modo nenhum partido estaria à frente. Daremos então a um partido 30%, a outro 28, 23, a outro 15 e ao último 4. O partido com 30% dos votos vence e governa. Mas 30% é realmente uma minoria, não uma maioria, o que quer dizer que nossa teoria da maioria do povo não é verdade. A porcentagem real é na verdade ainda menor, porque 100% de participação eleitoral é uma fantasia. Este é o motivo do porque é mais importante para os políticos democratas convencer o povo pelo voto - não importa quem, porque quanto menor o número de participação de eleitores em uma eleição, menos justificados são os políticos ao afirmarem que o sistema é legítimo. Se cada vez menos e menos pessoas realmente rendessem seu poder aos políticos que clamam ser seus representantes, eventualmente o sistema implodiria.

Se formos ainda mais a fundo na questão, a democracia é a manipulação das massas - a mente da massa - por uma minoria que persegue seus próprios interesses. Mas essa minoria é qualificada a governar sobre a maioria? Eles estão em posse das qualidades necessárias para ter a autoridade de empunhar o poder político e tomar as decisões que têm consequências para todos? Hoje é inquestionável que a autoridade do governo é derivada da riqueza econômica. Quantidade de ativos econômicos decidem quem se torna um governador. O que nós na verdade temos é o governo da quantidade sobre o da qualidade; a quantidade de dinheiro sobre a qualidade de ideais. Você pode advogar por qualquer ideologia - não importa o quão degenerada e corrupta - se você tem apoio financeiro suficiente, enquanto que a defesa dos maiores e mais nobres ideais está condenada a fracassar sem qualquer dinheiro para apoiá-lo na arena política. Um exemplo mais palpável é a recente criação de um partido político que advoga pela pedofilia na Holanda. Sem qualquer apoio financeiro e conexões poderosas esta ideia jamais teria a cobertura da mídia.

Agora, quanto mais partidos em um sistema democrático de governo, mais divisão no país, e assim menor é a minoria que governa sobre a maioria que não votou no partido vencedor. A maioria desejaria acreditar que quanto mais partidos políticos estão disponíveis, maior é a "liberdade de escolha" - quanto mais partidos políticos, mais opiniões políticas você está permitido a ter, parece lógico - só o povo não desejaria colocá-la negativamente.

Como eu mencionei acima, nestes dias a democracia é tão oca que os políticos candidatos nem mesmo se preocupam se o povo realmente vota neles, desde que votem. É como o imbecil politicamente correto afirma: "não é a vitória que importa, é a participação". Pessoalmente, não tenho interesse de participar mais dessa piada oca. Não estou interessado a estar do lado "vencedor".

Notas
[1] A Holiday For Fools by Butler Shaffer
[2] The Illusion of Democracy by Rene Guenon

via cakravartin (1 e 2)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O Jogo de Contas de Vidro: Hermann Hesse sobre Meditação e Yoga



Não existe vida nobre e elevada
sem o conhecimento de diabos e demônios
e sem a contínua luta contra eles.
- Padre Jacobus

O Jogo das Contas de Vidro foi a última obra publicada de Hermann Hesse, e venceu o Prêmio Nobrel de Literatura em 1946 muito por seus méritos. A maioria das novelas de Hesse exploram temas da espiritualidade oriental e de doutrinas esotéricas, e o Jogo das Contas de Vidro leva isso além ao descrever a sociedade utópica (embora satírica) feita pela elite estudiosa engajados na preservação da cultura ocidental (e a um grau menor, a cultura oriental).

Hesse disse que pensou que o narrador estivesse escrevendo em torno de 2400. Anteriormente, o mundo ocidental tinha degenerado na Idade de Feuilleton, que foi marcada por numerosas guerras, completamente burguesa, e "dada a um quase desregrado individualismo". É uma era que não pode bem ser considerada ausente na cultura, desde que as pessoas "tagarelam" sobre isso de um modo familiar aos leitores do The New York Times nos dias de hoje. Músicos famosos seriam entrevistados sobre política e atores populares sobre a crise financeira. Algumas das manchetes na Era de Feuilleton incluiram:

-"Friedrich Nietzsche e a Moda Feminina de 1870";
-"Os Pratos Favoritos do Compositor Rossini";
-"O Papel dos Poudles [original: lapdog] na Vida das Grandes Cortesãs".

Ainda durante a Era de Feuilleton, pequenos grupos de pessoas resolveram permanecer fiéis à verdadeira cultura e "devotar todas suas energias para preservar no futuro um núcleo de boa tradição, disciplina, método e rigor intelectual". Assim eventualmente foi formada Castália, uma elite, sociedade hierárquica devota à mente e imaginação. Garotos são selecionados ainda jovens para adentrar às escolas da elite - não apenas para habilidade técnica, mas para ter algum potencial de ser um artista ou gênio (meninas não são mencionadas, e a Ordem Castaliana é aparentemente toda masculina). Se eles continuarem com sucesso são admitidos na Ordem. O nível mais alto da sociedade são os Magistrados de várias disciplinas. E o pico da elite é o Mestre do Jogo das Contas de Vidro, que é visto como quase um algo-sacerdote entre os jogadores.

Os detalhes do Jogo de Contas de Vidro nunca são totalmente descritos no livro. Surgiu simultaneamente na Alemanha e na Inglaterra como um exercício para o desenvolvimento da memória entre os músicos. O Jogo evoluiu para algo parecido com o xadrez, mas abrangendo toda a esfera da arte, da filosofia, da música, da matemática, assim como mais e mais disciplinas obscuras como astrologia, alquimia e arquitetura chinesa. Assim como a Árvore da Vida na Kabbalah Hermética, parece ser uma forma de síntese entre os aparentemente distintos sistemas de pensamento. De acordo com o que Hesse escreve, "o Jogo de Contas de Vidro é, assim, um modo de jogar com todos os conteúdos e valores de nossa cultura". Ela elabora:

Ao longo de sua história o Jogo esteve muito próximo da música e geralmente procedeu de acordo com as regras da música ou da matemática. Um tema, dois temas, ou três temas foram estabelecidos, elaborados, variados e experimentaram um desenvolvimento bem parecido com o tema da fuga de Bach ou de um movimento de concerto. Um Jogo, por exemplo, pode começar de uma dada configuração astronômica, ou de um tema real da fuga de Bach, ou de uma frase de Leibniz ou das Upanishads, e deste tema, dependendo do talento do jogador, poderia ainda explorar e elaborar o motivo inicial ou enriquecer sua expressividade por alusões a conceitos aparentados.

Os Aspectos Religiosos de Castália

Embora Castália não seja religiosa em sentido algum - eles não têm deuses ou igreja - a ênfase sobre exercícios de meditação é parte central do currículo e Castália compartilha muito com as ordens religiosas. Como juntar-se a um monastério, os membros da ordem asseveram que seus "laços com a família e com a casa até então deixariam de significar e respeitar qualquer aliança outra que a Ordem". Eles devem obedecer as regras da Ordem de pobreza e celibato, não possuir propriedade, serem exclusos da vida política, ter poucas posses materiais e viver uma vida simples, exceto por seu acesso às bibliotecas e aos instrumentos musicais. Durante o anualmente público Jogo de Contas de Vidro, os jogadores e os visitantes jejuam, meditam e "vivem uma vida ascética e altruísta de absoluta absorção, comparável à penitência estritamente regulada requerida fos participantes em um dos exercícios de Santo Inácio de Loyola". Muitos outros exemplos de exercícios espirituais abundam: O "Grande Exercício" é um período de 12 dias de jejum e meditação. Um membro da Ordem foi conhecido simplesmente como "o Yogi". Outro é Elder Brother, que vive em um Bosque Bambu e é mestre de I Ching, ainda usando o oráculo para decidir se um visitante pode ficar com ele. Para Joseph Knecht, o protagonista da novela, o Jogo das Contas de Vidro em si é um exercício espiritual: "Pois o escuro interior, os esotéricos do Jogo, aponta para o Um de Todos, para dentro daqueles abismos onde o eterno Atman eternamente respira, suficiente de si mesmo".

O Mestre da Música explica o objetivo dos métodos da Ordem a Joseph:

Há a verdade, meu amigo. Mas a doutrina que você deseja, o dogma absoluto e perfeito que sozinho providencia sabedoria, não existe. Nem você deveria almejar uma doutrina perfeita, meu amigo. Antes disso, você deveria almejar pela perfeição de você mesmo. A deidade está dentro de você, não nas ideias e nos livros. A verdade é vivida, não pensada.

A Meditação no 'Jogo das Contas de Vidro'

Os exercícios de meditação na Castália não são descritos profundamente, mas podem ser divididos em duas categorias gerais: exercícios de respiração e exercícios de imaginação. Não se sabe ao certo como esses exercícios são proscritos na Castália, mas eles parecem ser indicados para pelo menos uma vez ao dia, ou talvez várias vezes durante o dia desde que meditações específicas para a noite são mencionadas. Em um momento difícil na vida de Joseph, o Mestre da Meditação, Alexander, aconselhou-o um "breve" exercício de meditação três vezes ao dia, com o número de minutos especificados para cada exercício. Em outro momento, Alexander gasta tempo "em meditação cuidadosa para acalmar suas intensas emoções" na noite anterior ao dia difícil.

Assim como os exercícios de imaginação, depois de uma das sessões de meditação de Joseph o Mestre de Música diz-lhe para tentar copiar imagens que ele viu durante sua meditação. Outro momento, Joseph indica a um amigo para olhar para o céu e para as estrelas antes de dormir e render-se às ideias e sonhos que lhe inspiram. Uma descrição diz em estágios iniciais de meditação para permitir o fluxo das imagens interiores que vão sem direção, como nos sonhos.

As experiências de Joseph com meditação são melhor resumidas nessa descrição, depois que ele vinha meditando por muitos anos:

No jardim, ele sentou num banco repleto de folhas, regulou sua respiração e lutou pela tranquilidade interior, até que com um coração purgado ele buscou a contemplação em que os padrões dessa hora em sua vida se arranjaram em imagens universais suprapessoais.

A descrição claramente revela esse tipo de meditação como similar aos exercícios baseados na Kabbalah. Uma forma relacionada envolve meditação sobre um assunto. Por exemplo, uma vez é dada a Joseph  um parágrafo das regras da Ordem como assunto de uma meditação. Hesse foi influenciado por Carl Jung ao desenvolver esses exercícios de meditação que tão fortemente lembram a técnica de Jung para imaginação ativa. Em 1916, Hesse experimentou a psicanálise com um discípulo de Jung e, como o psiquiatra suíço, ele teve pelo menos um entendimento apressado das religiões orientais e suas práticas.

Um par de exercícios de respiração específico são mencionados no Jogo de Contas de Vidro. Para um amigo em aflição, Joseph auxilia guiando-o com comandos rítmicos. Também aprendemos que Castálios são pensados como uma meditação emergencial para uso "em momentos de repentino perigo para reconquistar o auto-controle e tranquilidade interior". Consiste de "esvaziar duas vezes o intestino e manter a respiração por longos momentos". Joseph descreve a importância da meditação, especialmente em momentos de coação:

No momento em que um atleta recebe um golpe ou pressão inesperados, seus músculos reagem de acordo ao fazer movimentos necessários, alongando-se ou contraindo automaticamente e então ajudando-o a governar a situação... no momento em que você recebe o golpe, você deveria ter aplicado a primeira medida defensiva contra assaltos psíquicos e recorrer a tornar lenta e cuidadosamente controlada a respiração. Ao invés disso você respirou como um ator quando tenta representar extrema emoção.

Ao longo do Jogo das Contas de Vidro, a importância da meditação é reiterada. O Mestre de Música conta a Joseph sobre um momento em sua vida quando ele estava bem focado nos seus estudos e negligenciou suas meditações - uma situação que a maioria dos que experimentaram meditação ou outras disciplinas espirituais terão experimentado. O Mestre diz que quanto mais exigimos de nós mesmos, "mais dependentes somos da meditação como fonte de energia, como o sempre-renovador acordo da mente e da alma". Ele diz que durante esses momentos de paixão e excitação sobre um projeto ainda mais negligenciaremos nossas meditações.

Outra prática é o que o Mestre de Meditação chama de "sentindo o próprio pulso". Ela consiste em revisar cada dia, notando o que foi feito bem ou mal, assim como "reconhecer e medir a própria situação atual, estado de saúde, distribuição das próprias energias, as próprias esperanças e cuidados - em uma palavra, vendo-se e diariamente trabalhando objetivamente e não deixando nada irresolvido na noite para o próximo dia". Os Castalianos usam suas práticas de yoga para exorcizar a besta dentro de si, bem como em seus esforços para escolher nem a vita activa nem a vita contemplativa exclusivamente, mas participar de ambas.

Além disso, os Castalianos podem engajar-se em interpretação de sonhos: quando Joseph pergunta ao Mestre de Música se eles deveriam ser atentos aos sonhos e se eles podem ser interpretados, ele responde que "deveríamos ser atentos a tudo, pois podemos interpretar tudo".

Vidas Passadas no Jogo das Contas de Vidro

Castália não tem nenhuma crença dogmática em reencarnação.Mas tem uma tradição curiosa de requerer estudantes engajados em seus anos de livres estudos para escrever uma "Vida" cada ano. Cada Vida é uma fictícia autobiografia estabelecida em algum período do passado. O autor deve "transpôr a si mesmo aos circundantes cultura e clima intelectual de qualquer era anterior e imaginar-se vivendo uma vida adequada a aquele período".

O propósito de escrever as vidas não é, em verdade, fazer uma regressão no passado, mesmo que alguns estudantes acreditassem na verdade de seus escritos. Ao invés disso, as Vidas servem a um propósito duplo: como um exercício na imaginação, e aprender a "considerar suas próprias pessoas como máscaras, como o traje transitório de um intelecto".

Os cenários para as três Vidas de Joseph apresentados ao fim da novela são altamente reveladores sobre sua constituição interna: uma cultura matriarcal (onde ele é o fazedor de chuva), a Era Dourada da Índia, e o período patrístico da antiga Igreja Cristã.

***

Há muito mais que poderia ser escrito sobre o Jogo de Contas de Vidro: o quão Knecht é parecido com Hesse, a influência do cristianismo em Castália, temas de nobreza, hierarquia, santidade e a preservação da cultura ocidental e esotérica. No início da concepção da novela, em 1933, Hesse escreveu a um amigo que "há uma cultura espiritual que é digna de viver e servir - esse é o desejo sonhado que eu deveria gostar de retratar" [1]. Entretanto, naquele tempo em que Hesse iria escrever a novela, sua opinião de Castália como utopia mudou. Como visto na novela, há muita crítica sobre Castália, especialmente com relação ao seu isolamento do mundo e sua viabilidade de longa-data. Independentemente disso, O Jogo das Contas de Vidro é cativante por sua apresentação de uma sociedade ideal, similar à descrita por Platão n'A República.

Notas
1. Ziolkowski, Theodore. “The Glass Bead Game: Beyond Castalia.” de The Novels of Hermann Hesse: A Study in Theme and Structure, (1965: Princeton University Press). Reimpresso em Hermann Hesse, ed. Harold Bloom, p. 46.

domingo, 6 de setembro de 2015

Dostoievsky: Racionalismo Demoníaco

Em seu trabalho Dostoievsly e a Metafísica do Crime, o sociólogo dr. Vladislav Arkadyevich Bachinin analisa a aparentemente única correlação contraditória entre o racionalismo iluminista e o surgimento de forças infernais na obra Os Demônios de Dostoievsky. Segue abaixo:

A Razão Imoral de um Automaton Vivo

Pyotr Verkhovensky, o cínico sangue-frio que facilmente ultrapassa quaisquer obstáculos morais, representa um tipo especial de criminoso, ao qual é aplicável a metáfora de "homem-máquina".

Na França de 1748, o livro de Lematrie sob aquele título foi lançado. Seu autor molda o homem como uma máquina auto-regulada que se move por linhas perpendiculares. Na concepção de Lametrie um ser humano foi a direta semelhança a um relógio ou cravo, e ao mesmo tempo uma necessidade natural. Mas possuindo instintos, sentimentos e paixões, ele é privado de uma alma. Lametrie assumiu que o termo alma carecia de qualquer substância essencial qualquer que seja. O mundo no qual o homem-máquina habita é antropocêntrico; não há lugar para Deus. A realidade é arranjada de acordo com os princípios da mecânica newtoniana, e o mundo se apresenta como um conglomerado mecânico de elementos inanimados. Os processos naturais e sociais são movidos por uma e mesma força mecânica.

A filosofia da racionalidade mecânica se abre como único resultado da evolução do racionalismo clássico. A eliminação de todo conteúdo metafísico prepara o fundamento tanto para a chegada do positivismo quanto para a realização de planos a fim de construir a futura sociedade estritamente racionalizada com parâmetros calculados inteiramente sob o controle de uma vontade diretora. O homem-máquina e o Estado-máquina, que precisam um do outro, surgem como algo que lembra as razões télicas de Aristóteles, e direta e gradualmente determinarão o desenvolvimento de esquemas antropocêntricos positivistas.

De acordo com a pintura mecanicista do mundo, sempre existe a ameaça de deformações intencionais nas estruturas da ordem cósmica. Objetivamente existem possibilidades de violação da medida e da harmonia, da destruição da ordem e ascensão do caos. Um assassino pode realizar a possibilidade objetiva da morte que existe para sua vítima. Um ladrão ou bandido é capaz de realizar a possibilidade objetiva de alterar valores materiais no espaço social de umas mãos para outras, etc. Ou seja, fica apenas para o homem aplicar certos esforços para a possibilidade de desintegração das estruturas existentes, seu movimento para a realidade. Em tempos as forças mecânicas foram suficientes para isto. Ademais, quanto maior o grau de mecanismo de tais empresas, menor o espiritual, ético, religioso e de outros componentes similares, e mais efetivas provarão ser as ações destrutivas.

Dostoievsly tem a filosofia do homem-máquina aplicável primeiro e acima de tudo aos caracteres que representam o prático homem de negócio junto de tipos comerciais do modelo ocidental, i.e., a tais homens como Luzhin, Rakitin, Epanchin, Totsky, Ferdyschenko, etc. Indiferentes à realidade metafísica, eles subscrevem aos "ideais de Geneva" de Rousseau permitindo a possibilidade da "virtude sem Cristo". Imersos no orgulho de uma existência sem graça, prosaica e pragmática, "tendo ouvidos, eles não ouvem, e tendo olhos eles não veem". Tudo que vem de cima, das esferas da realidade metafísica, não chega às suas almas, e portanto estão imersos na escuridão da ignorância e incompreensão das coisas mais significativas da vida. Os pensamentos e sentimentos destes "Bernardos" carregam um caráter mundano e não diretamente dirigidos além. Eles não gostam de pensamentos abstratos, considerando um passa-tempo inútil. Para eles, como para Lametrie, Deus e a alma são magnitudes de falsa moral. Para eles todo o mundo habita no estado "desencantado" de um gigantesco conglomerado de elementos inanimados. Em nenhum deles Deus brilha faiscante. Todos estes homens são espiritualmente máquinas vivas empobrecidas, doentes, no entanto, por uma mão misteriosa, mas como Lev Shestov diria sobre eles, não são conscientes que suas vidas não são vidas, mas mortes.

Em suas descrições Dostoievsky expôs sua crítica da mente longe-da-limpeza, inteiramente imunda e imoral, mais precisamente a razão banal e básica "euclidiana" que é que são surdos à metafísica das morais absolutas, a mente que vê na alma "só vapor", que é governada por razão fria solitária e vê todo o mundo como aglomerado de ferramentas para alcançar seus insípidos objetivos.

Entre os espécimes do homem-máquina replicados por Dostoievsky, Pyotr Verkhovensky representa o exemplar mais odioso. Ele é calculista, impiedoso, e está pronto a ir toda a distância para alcançar seus objetivos, sem parar diante das mais vis infâmias e crimes.

A realidade criminal, dentro do que existe a verdade de Verkhovensky, o "eu", é distinguida por características tais como um duro distanciamento de outros mundos valorativos, e acima de tudo do mundo dos absolutos religiosos, morais e das leis naturais. Em segundo lugar, inerente a isto está uma aguda tensão nas relações com a realidade valorativa oficial. E sua terceira particularidade é uma vulnerabilidade para o desmaio, explicada pelo fato de que por toda sua posição antagônica, aspira copiar as estruturas das realidades legais em seu próprio estilo. Assim como o mal parodia Deus, tentando imitá-lo, o mundo criminoso busca, por toda sua natureza caricatural de seus esforços, reproduzir estereótipos normativo-valorativos dos mundos legítimo e sacro, tentando adquirir vitalidade adicional a seu custo.

Não é acidental que o assassinato de Chatov em Os Demônios traz as marcas de um sacrifício ritual. Juntamente com isto toma a forma de uma monstruosa paródia de um ritual antigo: ao invés da solenidade de um rito sagrado, há a imunda baixeza de toda a cena; ao invés da aberta oficialidade, há a covardia, o ato secretamente cerrado; ao invés de clamar em favor de forças superiores, há um jogo sobre elementos obscuros do mal, uma comiseração de todos os participantes do assassinato através do sangue derramado da vítima e do medo mútuo de um diante do outro.

O Espaço Normativo da Associação Político-Criminoso

Verkhovensky deliberadamente forma um espaço normativo-valorativo de "moralidade" corporativa-criminosa com princípios ásperos de auto-organização e auto-preservação. Ele requer aquela atitude de membros associados para que suas tarefas e objetivos sejam extremamente sérias, sem permitir ceticismo, auto-ironia ou crítica. Violadores são imediatamente punidos. Violência aplicada preenche uma função protetora, atuando como meios de soldadura e auto-defesa para seu micro-mundo artificial.

À parte da similaridade na estrutura e nas formas da atividade político-criminosa e organizações puramente criminosas, entre as duas há distinções essenciais. E assim, se os fins últimos de um grupo criminoso são limitados à resolução de tarefas mercantis auto-interessadas, então os fins das associações político-criminosas ultrapassam os limites dos interesses mercantis e são orientadas em direção ao alcance de domínio político, através do qual os membros da associação passam a uma posição de elite reinante.

Se criminosos associados, como regra, não emitem um desafio ao Estado e ao sistema estatal, mas preferem lidar com cidadãos individuais, uma associação político-criminosa audaciosamente caminha a um antagonismo com o poder estatal e suas instituições.

Se um grupo criminoso representa uma única forma de "coisa em si" e não esconde seu egoísmo corporativo, então uma associação político-criminosa mascara seus interesses fundamentais com a cortina de fumaça de mentiras sobre os interesses do povo que supostamente concernem a ele.

A última circunstância, notada por Dostoievsky, permite homens tais como Verkhovensky recrutar apoiadores não apenas do espectro de "perdedores" pouco-educados e fanáticos com um desejo doente por intrigas e poder, mas também envolver jovens com bom coração, mesmo que com "vibrações" nas suas visões. O fato da última provar-se genuinamente trágica, desde que estes encrenqueiros confidentes, que estudaram o lado magnânimo do coração humano e foram capazes de mexer em suas cordas como se fosse um instrumento musical, ultimamente transformaram estes jovens em criminosos.

Dostoievsky lamentava que a juventude contemporânea, em caminho da maturidade de firmar convicções e dureza morais, estava indefesa contra o "demonismo". Entre muitas unidades materiais elas dominam uma ideia superior, e uma educação genuína é substituída por estereótipos de negação impúdica através da voz de alguém, da insatisfação e impaciência. Como resultado "mesmo o menino honesto e puro, mesmo aquele estudioso, poderia de repente se tornar um Nechaevita... ou seja, de novo, se ele se cruzasse com Nechaev..." (21, 133). Para tais garotos, os atos criminosos de Nechaev e Verkhovensky se pintam como proezas políticas.

As transformações fatais que tomaram lugar nas almas de muitos "garotos russos" foram facilitadas por um "momento de tormentas", que forçou a civilização russa em primeiro lugar calmamente, e depois mais rápido, a escorregar por uma superfície lisa rumo ao caos.

"Em minha novela Os Demônios", escreveu Dostoievsky, "eu tentei expressar aqueles vários e diversos motivos pelos quais mesmo o mais puro dos corações e a mais sincera pessoa pode ser levada a cometes a mais monstruosa vilania. O terror está em que aí pode-se fazer a coisa mais infâmia e horrível, algumas vezes completamente sem ser um canalha! E não é algo apenas entre nós, mas por todo o mundo é assim, sempre e no início das eras, durante tempos de transição, em tempos de descontrole na vida das pessoas, de dúvidas e negações, ceticismo e instabilidade nas convicções sociais fundamentais. Mas temos mais do que em qualquer lugar, e especialmente em nossos tempos, e esta característica é a característica mais dolorosa e triste de nosso tempo presente. Na possibilidade de ver a si mesmo, e até mesmo, quase por vezes,  como uma questão de fato, não como um canalha, ao trabalhar em uma abominação clara e indefensável - eis nossa tragédia contemporânea!" (21, 131).

Racionalidade de "Máquina" de um Programa Político

Verkhovensky, possuindo um poder forte e mecanicamente voluptuoso, encontrou um programa político mecanicista que corresponde à sua natureza. Suas posições básicas remontam aos seguintes pontos:

- Um novo tipo de Estado com formas predominantemente totalitárias de governo é necessário.
- Este Estado deveria manter seus súditos em constante terror, sem cessar, conduzindo a vigilância de todos "a qualquer hora e a qualquer minuto".
- Desde que gênios, talentos e indivíduos admiráveis representam uma ameaça ao poder dos "líderes-máquinas" por sua natureza extraordinária, todas as pessoas serão levadas a um nível padrão de desenvolvimento através de terror ideológico e político, no curso do qual Cícero terá suas línguas cortadas, Copérnico seus olhos arrancados, Shakespeare amarrado em pedras, etc.
- Para o decreto deste programa, é necessário começar com a total destruição de tudo, na prática levando à transição da ordem ao caos.

Dois vetores uniram-se nesse programa político-criminoso - a racionalidade "de máquina" dos vilões desalmados com a irracionalidade demoníaca dos maníacos em fúria.

Um dos paradoxos mais impressionantes da personalidade de Verkhovensky é aquela combinação surpreendente do "tipo máquina" com um entusiasmo maníaco por destruição. Isto concede à figura do demônio político um caráter especialmente sinistro. Com a direta participação da insensível "máquina" em produzir desordem, eventos na novela tomam a forma de uma vindoura tempestade, um caos entronado, quando uma dúzia de assassinatos e suicídios são cometidos, ao lado de muitas lutas de loucura e fogo grandioso de um incêndio. Como resultado, o mundo fechado no quadro da novela começa a se parecer com um monstruoso covil de bestas, onde há ausência de amor e misericórdia, onde há somente lutas impiedosas de todos contra todos.

Dostoievsky viu uma das fontes desse caos nas mentalidades filosóficas de conteúdo racionalista, materialista e ateu que penetraram [na Rússia] do Ocidente. Caindo em solo russo, as doutrinas de Darwin, Mill, Strauss e outros representantes do pensamento "progressivo" europeu, como regra foram tomados na consciência eslava, não experiente de tantos séculos de escolas filosóficas, como axiomas filosóficos adamantinos. Ademais as conclusões práticas foram frequentemente tiradas deles, conclusões de possibilidade das quais os professores ocidentais não suspeitavam.

Claro, o conhecimento positivo não diretamente ensinou qualquer vilania. E se Strauss, Dostoievsky nota com ironia explícita, negou e brincou com Cristo, por sua vez ao homem e à humanidade ele demonstrou o amor mais carinhoso e desejou o futuro mais radiante.

Mas então isto é o que me parece indubitável - dar a todos estes professores superiores contemporâneos a completa oportunidade de destruir a antiga sociedade e construir uma nova - então virá uma tal escuridão, um tal caos, algo tão cru, cego e desumano, que toda a construção colapsaria sob o curso da humanidade antes que ele pudesse ter sido completado. Uma vez rejeitado Cristo, a mente humana pode chegar aos resultados mais espantosos. Isto é um axioma. A Europa, pelo menos nas representações superiores de seu pensamento, rejeita Cristo, e como é sabido, estamos obrigados a imitar a Europa. (21, 132 - 133)

Para Dostoievsky, a atividade valorativa-orientadora e prática-transformadora da consciência moral, legal e política deve ser fundamentada em princípios do teocentrismo. Ele dissemina o espírito da Teodiceia sobre todas as esferas da vida social e espiritual, sem exceção. A consciência legal ocidental é predominantemente antropocêntrica, e como regra não aceita fundamentos normativos-valorativos religiosos ou metafísicos.

Estes fundamentos são desnecessários para o homem-máquina, que descobre por suas ações que a imoralidade aberta, o crime e o maquiavelismo político são tudo de uma e mesma natureza. Todas elas começam com a negação dos princípios superiores do ser, dos valores e normas absolutos.

via souloftheeast