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terça-feira, 2 de julho de 2019

Putin, Lavrov e Xi Jinping convocam fim à DMA



por Matthew Ehret

O espectro da guerra nuclear há muito paira sobre o mundo como uma espada tenebrosa de Dâmocles, oferecendo à humanidade muita causa para desespero diante da natureza ambivalente da ciência enquanto uma fonte de poder criativo que enleva e enobrece por um lado, e atua como o arauto da morte e do caos por outro.

Todavia, seria errado culpar a ciência pela crise cuja humanidade desencadeou com o átomo, quando a realidade é que nós nunca nos libertamos da peste dos sistemas oligárquicos de governo. Retrocedendo aos registros dos impérios Romano, Persa e Babilônico tais sistemas tem sempre almejado manipular as massas na direção de padrões de comportamento de auto-policiamento e conflito constante.

Quer estejamos falando sobre as Cruzadas, as guerras religiosas Européias, as guerras Napoleônicas, a guerra da Criméia, Guerras do Ópio, ou as primeira e segunda guerras mundiais tem sido sempre a mesma receita: Pôr as vítimas para definir seus interesses ao redor de constrangimentos materiais, recursos em diminuição, ou vieses religioso/étnico/linguísticos que previnem cada pessoa de reconhecer seus interesses comuns com seu vizinho e então pô-los a lutar. Clássico dividir e conquistar.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, aquela antiga receita para administrar o caos não funcionava mais quando um novo ingrediente foi introduzido no “grande jogo” geopolítico. Esse ingrediente atômico era tão poderoso que aqueles “mestres do jogo” gerenciando de cima os problemas da terra como deuses Olímpicos separados entenderam que poderiam ser aniquilados tão rápido quanto suas vítimas e que um novo conjunto de regras devia ser criado às pressas.

A Aposta Nuclear do Senhor Russell

Um principal representativo da mente genocida do império Britânico foi o Senhor Bertrand Russell, um membro de sétima geração da elite hereditária conhecida hoje pelo seu celebrado pacifismo e profundo alcance filosófico. É um fato desconfortável que esse modelo exemplar da “lógica” e da paz tenha sido um dos primeiros pensadores registrados clamando pela aniquilação nuclear da União Soviética na esteira da rendição da Alemanha Nazista. Caso a União Soviética não se submetesse a um Governo Mundial Único, argumentou o Senhor Russel no Boletimpara os Cientistas Atômicos de 1946, então deveria simplesmente encarar uma punição nuclear.

É claro que aquela ameaça foi de vida curta, quando o anúncio surpresa da Rússia de haver “decifrado o código atômico” quebrou o monopólio sobre cujo qual os Anglo-Americanos salivavam e 1945 quando observavam o Japão (cuja rendição indireta já havia sido negociada) queimar sob a sombra de um renovado Leviatã Anglo-Americano emergente.

O Senhor Russel, entãodiretor da CIA/MI6 Congresso pela Liberdade Cultural (cujo objetivo era criar uma nova anti-cultura de hedonismo e irracionalismo nas artes durante a Guerra Fria) foi forçado a mudar o tom e a liberar, ao invés, uma nova doutrina que veio a ser conhecida como “Destruição Mútua Assegurada” (DMA). A obsessão de Russel em tentar escravizar toda a física a um estrito determinismo matemático tal qual fora disposto em seu Principia Mathematica (1910) e seu papel principal na promoção da arte abstrata/música atonal pela CIA sob a bandeira da CCF é um insight útil sobre como sociedades são gerenciadas por oligarcas.

Numa entrevista à BBC anos após Russell mudar suas visões sobre um primeiro ataque à Rússia, o aristocrata britânico, agora-convertido em advogado anti-nuclear descreveu sua mudança de opinião assim:
“Q: É verdadeiro ou falso que em anos recentes você defendeu que uma guerra preventiva pudesse ser feita contra o comunismo, contra a Rússia Soviética?”
RUSSELL: É completamente verdadeiro, e eu não me arrependo disso agora. Não era inconsistente com o que eu penso agora... Houve um tempo, logo após a última guerra, quando os americanos tinham um monopólio das armas nucleares e ofereceram para internacionalizar armas nucleares pelo plano Baruch, e eu pensei ser uma proposta extremamente generosa da parte deles, uma que seria muito desejável que o mundo aceitasse; não que eu defendesse uma guerra nuclear, mas eu pensava que uma grande pressão devesse ser posta sobre a Rússia para que aceitassem o plano Baruch, e eu de fato pensei que se eles continuassem a recusá-lo talvez fosse necessário de fato ir à guerra. Naquele tempo as armas nucleares existiam apenas em um lado e, portanto, as chances é que os Russos desistiriam. Eu pensei que eles iriam... .
Q: Suponhamos que eles não desistissem.
RUSSELL: Eu pensei e tinha esperanças que os Russos iriam desistir, mas é claro que você não pode ameaçar a não ser que esteja preparado para ter seu blefe confrontado.”

Um fim para o Mundo do DMA

O novo jogo tornou-se “balanço geopolítico do terror” sob o DMA, e em muitos aspectos o poder que ele oferecia a uma oligarquia era maior que qualquer coisa que uma sociedade pré-atômica tinha para oferecer. Ao mesmo tempo que grandes guerras não eram mais desejáveis (embora fossem sempre um risco nesse jogo psicótico de altas apostas de poker), guerra assimétrica e uma mudança de regime tornaram-se as novas “coisas grandes” pelos próximos setenta anos. Uma população em terror constante de aniquilação tornou-se um solo maduro para a disseminação de uma nova inquisição sob a orientação de um travestido megalomaníaco dirigindo o FBI. Essa inquisição purgou o Ocidente de líderes qualificados que fossem comprometidos para com a paz entre Oriente e Ocidente e incluiu grandes cientistas, artistas, professores e políticos que viram suas carreiras serem destruídos conforme o Estado Profundo tornou-se cada vez mais poderoso e bombas atômicas mais abundantes.

Enquanto muitos celebraram de maneira tola o sucesso do DMA com o colapso da União Soviética e a ascensão de um mundo uni-polar que iria supostamente conduzir a um pacífico “fim da história”, outros reconheceram o grande truque na medida em que a OTAN continuou se expandindo a despeito de sua razão de ser ter desaparecido. Yevgeni Primakov e um círculo de patriotas russos (cujo qual incluía um Vladimir Putin em ascensão) estavam entre aqueles que viram através da fraude. Essa rede trabalhou diligentemente com suas contrapartidas asiáticas para criar uma fundação para sobrevivência que manifestou-se na forma do G20 m 1999 e na Organização para Cooperação de Xangai em 2001.

No início de 2007, as guerras desencadeadas no Oriente Médio após o 9-11 não tinham um fim previsto, e uma intenção muito mais obscura do que muitos poderiam imaginar estava emergindo entre o caos. A construção de um escudo anti-mísseis balísticos liderada pela OTAN se iniciou ao redor do perímetro sul da Rússia por iniciativa de Dick Cheney e foi logo incrementada posteriormente pela circunscrição de um “Pivô-Asiático” da China, sob o mandato de Obama em 2011. Somente os tolos mais ingênuos acreditaram então que o Irã ou a Coréia do Norte eram as verdadeiras razões por trás dessa jogada Hobbesiana preemptiva de poder em favor de um monopólio. O fantasma do Senhor Russell podia ser sentido ao redor do mundo, ameaçando uma guerra nuclear se a soberania nacional não fosse abandonada em favor de um governo mundial gerenciado por uma “ditadura científica”.

A Convocação da Rússia e da China para controlar a Serpente de Fogo

O Presidente Putin junto a Sergei Lavrov e o Presidente Xi Jinping assinalaram um fim a era do DMA com uma importante convocação por uma nova doutrina internacional de segurança baseada sobre um “novo sistema operante”.

Saindo da Cúpula Econômica de São Petersburgo em 6 de Junho, Putin disse “se nós não mantermos essa serpente de fogo sob controle – se permitirmos que ela saia da garrafa, Deus proíba, isso pode levar a um catástrofe global. Todos estão fingindo ser surdos, cegos ou disléxicos. Precisamos reagir a isso de alguma maneira, não é? Claramente é isso.”

As palavras de Putin foram amplificadas por Sergei Lavrov em 11 de Junho ao falar na conferência do Primakov Readings de 2019 em Moscou, que reuniu diplomatas, especialistas e políticos de 30 países no tema do “Retornando à Confrontação: Existem Alternativas?” Lavrov disse:

“É de uma importância capital que a Rússia e os Estados Unidos tranquilizem o resto do mundo e transmitam uma declaração conjunta de alto escalão de que não pode haver vitória numa guerra nuclear e que, portanto, ela é inaceitável e inadmissível. Nós não entendemos porque eles não podem reassegurar essa posição agora. Nossa proposta está sendo considerada pelo lado dos Estados Unidos.”

Desde que se puseram entre o pelotão de fuzilamento Anglo-Americano e as nações da Síria e da Venezuela, em conjunto com uma surpreendente divulgação de um conjunto de novas tecnologias militares em Março de 2018, Putin transformou as “regras do jogo” geopolítico no sentido de que a proposta de Lavrov é agora uma possibilidade real. As novas tecnologias divulgadas pela Rússia em 2018 incluem mísseis supersônicos, drones subaquáticos e outros foguetes nucleares que garantem a capacidade de um ataque retaliatório caso alguém seja estúpido o suficiente em atacar a Rússia primeiro.

O ICR (BRI, da sigla em inglês) e o Novo Sistema Operante

A cúpula econômica de São Petersburgo de 5-6 de Junho testemunhou não apenas 19000 participantes de 145 países assinado $47.8 bilhões em acordos, mas caracterizou-se como um encontro importante entre o chinês Xi Jinping e Putin, que descreveram seu relacionamento como o de melhores amigos e travaram suas nações mais profundamente que nunca no novo panorama operacional da Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR, ou BRI da sigla em inglês), que rapidamente está se estendendo no Ártico.

Esse encontro foi levado ainda a um outro patamar em Bishkek Kyrgyzstan, com a cúpula da Organização para Cooperação de Xangai em 13-14 de Junho,  que integrou ainda mais as nações Eurasianas no ICR. Putin e Xi não apenas se encontraram novamente nessa cúpula, mas agora foram acompanhados pelo indiano recentemente eleito Narendra Modi, cuja participação é vital para a reorganização do sistema mundial. Após a cúpula da OCX, o mundo aguardaria pelo encontro potencial de 28-29 de Junho, na cúpula do G20 em Osaka, Japão, onde o presidente norte-americano Donald Trump indicou seu desejo de encontrar com os três líderes para negociações bilaterais. Muitos espectadores criticaram a ideia de que Trump de fato pudesse desejar um encontro honesto, mas Lavrov demonstrou seu entendimento superior da complexidade estratégica na América argumentando numa entrevista em 6 de Junho, quando ele disse que os fracassos do Presidente Trump em estabelecer relações construtivas com a Rússia devem-se à sabotagem de forças enraizadas dentro do governo: “Certos políticos estado-unidenses, incluindo aqueles que ataram as mãos do Presidente Trump não permitindo que ele cumprisse com suas promessas de campanha de normalizar e melhorar as relações com a Rússia, ainda são incapazes de aceitar esse fato.”

A propósito numa conferência em 12 de Junho junto ao presidente da Polônia, Trump foi pressionado por um repórter a tomar a linha dura contra a Rússia, que aparentemente está “ameaçando a Polônia”. Enquanto fingia concordar com a narrativa Rússia=bully, Trump concluiu sua resposta dizendo “Espero que a Polônia venha a ter um excelente relacionamento com a Rússia. Espero que nós venhamos a ter um excelente relacionamento com a Rússia e, inclusive, com a China e muitos outros países.” Trump tinha anteriormente convocado a Rússia, a China e a América para converterem suas centenas de milhões de dólares gastos em forças armadas em projetos que sejam do interesse comum de todos. Durante sua declaração chave ao Fórum Econômico, Putin desvelou o “elefante na sala” trazendo o tema da quebra do sistema financeiro global: “a degeneração do modelo de universalista de globalização e sua transformação numa paródia, numa caricatura de si próprio, onde as regras internacionais comuns são substituídas pelas leis... de um país.” Putin prosseguiu alertando para uma “fragmentação do espaço econômico global e por uma quebra forçada devido a uma política de egoísmo econômico completamente ilimitada. Mas esse é o caminho para um conflito sem fim, guerras comerciais e talvez não apenas comerciais. Figurativamente esse é o caminho para a terminal luta de todos contra todos.”

O ponto ressaltado foi que em última instância sem um novo sistema econômico, o perigo de injustiça e de aniquilação global pairará sempre sobre a humanidade. Ecoando a filosofia da cooperação ganha-ganha de Xi Jinping, Putin disse que o que é necessário em última instância é “um modelo mais justo e estável de desenvolvimento. Esses acordos deveriam não só ser escritos claramente, mas deveriam ser observados por todos os participantes. Entretanto, eu estou convencido que falar sobre uma ordem econômica como essa continuará sendo um pensamento caprichoso, a não ser que retornemos ao centro da discussão, isto é, noções como as de soberania, como o direito incondicional de cada país na sua estrada desenvolvimentista e, deixe-me acrescentar, responsabilidade pelo desenvolvimento sustentável universal, e não apenas pelos próprios desenvolvimentos.”


BIO: Matthew J.L. Ehret é um jornalista, palestrante e fundador da revista Canadian Patriot Review (O Patriota Canadense). Ele é um autor junto ao The Duran, à Fundação de Cultura Estratégica, Fort Russ e o Orient Review. Seus trabalhos têm sido destacados em Zero Hedge, Executive Intelligence Review, Global Times, Asia Times, L.A. Review of Books, and Sott.net. Matthew também publicou o livro “Chegou o Tempo do Canadá Ingressar na Nova Rota da Seda” e três volumes da História Não-contada do Canadá (disponíveis em untoldhistory.canadianpatriot.org). Ele pode ser contatado em matt.ehret@tutamail.com

sábado, 16 de maio de 2015

Alberto Buela: Quem controla o mundo?

Por Alberto Buela*

Pela primeira vez desde a finalização da segunda guerra mundial (1945) os Estados Unidos tomam uma decisão política internacional à qual se opõe o Estado de Israel e os judeus em geral, como é o acordo nuclear com o Irã com o apoio da Alemanha, Grã Bretanha, Rússia, China e França.

Este acordo que tem que ser feito em forma definitiva em 30 de junho para fechar os detalhes técnicos e jurídicos é explicitamente boicotado pelo Estado de Israel e o lobby judeu estabelecido nos governos dos Estados Unidos, Alemanha, Grã Bretanha, França e, inclusive, Irã. Sobre este último recordemos que nos funerais do Papa João Paulo II, teve só dois chefes de Estado que falavam farsi, o aiatolá Jatami e o então presidente israelita Moshe Katsav, e entre eles se entenderam. A comunidade judia no Irã é a mais forte dentre todos os países árabes.

O Irã é considerado um perigo para a existência do Estado israelita. Os atentados de Buenos Aires há 23 anos se explicam como atentados de falsa bandeira produzidos por serviços secretos de Israel e dos EUA para buscar um motivo pelo qual declarar guerra ao Irã.

Este objetivo depois se deixou de lado e nós, os argentinos, terminamos pagando os pratos vermelhos e medidos em um conflito que não têm nada que ver conosco, mas que pagamos generosamente com o dinheiro de nosso minguado Estado.

Os lobbies judeus estão trabalhando contra o tempo para fazer abortar o pacto final do acordo que acaba de ser feito nesta primeira semana de abril de 2015, e nesse sentido já o chefe supremo iraniano Ali Khamenei acaba de pôr em dúvida que se possa firmar o acordo definitivo em 30 de junho.

Os dirigentes máximos do mundo, em sua maioria, veem com bons olhos o acordo de um pacto nuclear, pois isso traria algo de tranquilidade ao infortúnio internacional que estamos vivendo hoje. Até o Papa Francisco, de quem ninguém pode duvidar que é, por convicção própria, o maior defensor dos interesses judeus, apoiou o pacto.

De modo tal que não fica nenhuma autoridade de peso sobre a terra que se oponha ao acordo de há uma semana atrás, mas, não obstante, há indícios de que o pacto não seja fechado de forma definitiva. E então surge a questão "mas quem manda no mundo? Quem tem o mais poder que a vontade explícita dos cinco poderosos da terra, para anular sua decisão?"

Retorna mais uma vez à nossa memória o velho ensinamento do velho ministro inglês Disraeli quando afirmou: Ignora o mundo quem maneja o poder detrás dos bastidores. Será o imperialismo internacional do dinheiro manejado pelos dois bancos mais poderosos: Rockefeller e Rotschild?

A nós, como convidados de pedra destas grandes medidas geopolíticas e estratégicas, só cabe distinguir que estas são manobras dos homens, mas que outras podem ser as medidas de Deus. Mal de muitos consolos de pobres.

*Filósofo e escritor

via elespiadigital

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Acordo nuclear iraniano e luta por influência na Eurásia

por Yusuf Fernández – 

Desde a Revolução Islâmica no Irã que derrubou a ditadura de Shah Reza Pahlavi, apoiado pelos EUA, em 1979, uma constante na política externa estadunidense foi uma implacável hostilidade contra o Irã. Washington apoiou a guerra de Saddam Hussein contra esse país (1980-1988) e em 2003 a Administração de Bush preparou planos para a guerra contra ele. Desde 2011, EUA e seus aliados da União Europeia submeteram o Irã ao regime de sanções econômicas mais duro da história.

Não obstante, a estratégia norteamericana mudou nos últimos anos. Depois do fracasso das guerras dos EUA no Afeganistão e no Iraque, onde Washington foi incapaz de derrotar as respectivas insurgências ou convencer os governos desses países a se submeter a seus ditados, a opinião pública e o establishment político dos EUA não querem ver o país arrastado em novos conflitos no Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, Washington desconfia da ascensão da China na região da Ásia, no Pacífico e no mundo em geral. Obama aprovou a nova estratégia do "giro para a Ásia", que busca opor-se ao crescente papel da China na região, onde os EUA estão tratando de construir uma nova aliança anti-Pequim. O executivo pró-estadunidense da Austrália e o governo de Shinzo Abe no Japão, que está determinado a executar um papel mais agressivo na Ásia e busca eliminar a assim chamada "cláusula pacifista" na constituição japonesa, foi convertido nos aliados naturais dos EUA nesta estratégia.

A crise da Ucrânia empurrou também o EUA e seus aliados da OTAN a um confronto político e estratégico contra Rússia. Moscou tomou medidas com o fim de reforçar seu poder militar, incluindo o desenvolvimento de novos barcos, aviões e mísseis nucleares. Também está promovendo a União Eurasiana com alguns estreitos aliados, como Bielorrússia, Cazaquistão, Armênia e outros Estados.

Irã é um ator central neste jogo. Além de ser um grande e populoso país, Irã possui as segundas reservas de gás e as terceiras de petróleo no mundo. Sua posição geoestratégica é única. O país une a Ásia Central com o Oriente Médio e o Golfo Pérsico, e construiu uma sólida aliança com alguns países da região, incluindo Síria, Iraque e o Líbano. Milhões de muçulmanos no mundo seguem também o Imam Ali Jamenei e os líderes religiosos iranianos. Suas relações com a África, Ásia e América Latina estão se tornando cada vez mais importantes.

Durante mais de uma década, os EUA, que sempre souberam que Irã não tem intenção de construir armas nucleares como numerosas evidências mostra, utilizou desse tema com o fim de pressionar este último país a obstaculizar seu desenvolvimento tecnológico e econômico. Agora, a situação no mundo mudou e os EUA estão tentando levar o assunto para sua perspectiva real. A crise nuclear com Irã se converteu em um fardo para Washington porque lhe impede de pôr em prática sua estratégica anti-chinesa e anti-russa e, desse modo, teria que ser resolvida.

Irã se converteu em um baluarte na luta contra o terrorismo no Oriente Médio. Teerã apoia Iraque, Síria e o Líbano contra a agressão terrorista, que estão sendo alimentada pela Arábia Saudita, pelo Qatar e pela Turquia. Os EUA e seus aliados europeus apoiaram durante anos o esforço destes países para utilizar os terroristas como instrumentos na região contra os governos amigos de Irã, mas agora eles temem a crescente ameaça destes grupos, que estão determinados a atacar também as nações ocidentais. Alguns governos e mídias ocidentais estão mudando sua posição com relação ao Irã e Síria e começando a advogar por uma cooperação com tais países nesta luta.

Ao mesmo tempo, as companhias norteamericanas estão ansiosas por entrar no mercado iraniano. Elas vêem o Irã como um novo El Dorado, onde podem lograr enormes benefícios. Até agora, as companhias russas e chinesas, e em menor escala europeias, estão muito melhor posicionadas para se aproveitar do levantamento das sanções sobre o Irã. As empresas estadunidenses estão tratando de mudar essa situação e voltar ao Irã, mas necessitam que Washington elimine as sanções unilaterais com o fim de alcançar este objetivo.

A influência israelense e a pressão do lobby sionista sobre o Congresso se converteram em um obstáculo principal para a implementação desta nova estratégia. Eles têm uma grande influência sobre a política externa norteamericana, mas desta vez seus interesses chocam com os de uma parte importante do establishment político e militar e com das grandes corporações estadunidenses. Isso poderia fazê-los perder sua batalha contra o acordo sobre o Irã. Em um desafio aberto ao lobby sionista, as mídias corporativas, tais como New York Times ou Washington Post, mostraram seu apoio ao acordo nuclear e dizem abertamente que uma acomodação com Irã reforçaria a mão dos EUA contra suas mais importantes e formidáveis rivais geo-estratégicas: Rússia e China.

Um recente artigo no New York Times, escrito por Michael Godeon e David Sanger, ambos autores com estreitos vínculos com o establishment militar e de inteligência dos EUA, mostrou um apoio ao acordo nuclear. Os autores salientaram que um entendimento com Irã reforçaria a posição mundial dos EUA frente a Rússia e China em múltiplas formas.

China é agora o maior sócio econômico do Irã e o mais importante investidor. Rússia foi durante muito tempo seu principal provedor de armamento. Não obstante, esta associação sofreu um revés em 2010 quando Moscou negou implementar um contrato de provisão de mísseis terra-ar S-300 ao Irã citando as sanções da ONU. Washington espera que um acordo nuclear e a necessidade de cooperar contra o terrorismo lhe permitirão competir pela influência geopolítica e econômica no Irã com o objetivo de neutralizar a influência russa e chinesa nesse país.

EUA, no entanto, necessita da Rússia e da China como mediadores em suas comunicações com Teerã, mas está convertendo-se em algo cada vez mais problemático para Washington o fato de depender de Moscou e Pequim neste esforço em um momento em que as relações estão piorando.

A reposta da Rússia e da China

Não há dúvida de que a China e a Rússia compreendem este perigo e tomaram medidas para manter sua influência sobre o Irã.

Em Janeiro, durante uma visita do ministro de defesa russo, Serguei Shoigu, em Terrã, os dois lados firmaram um novo acordo de cooperação. Em uma conferência de imprensa onde explicou o mesmo, o ministro de defesa do Irã, Hossein Dehqan, disse que seu país e Rússia "compartilham uma análise da estratégia global dos EUA e sua ingerência nos assuntos regionais e internacionais" e eles puseram assim mesmo de relevo a necessidade de cooperar na luta contra o terrorismo".

Algumas horas depois do anúncio do acordo de Lausana, Igor Korotchenko, que lidera o think tank Centro de Análise do Comércio Global de Armas de Moscou, disse a Sputnik que "o levantamento de sanções ao Irã, incluindo o embargo de armas, seria o mais absolutamente lógico". "De grande importância para nós é a entrega de mísseis atualizados S-300 ao Irã. Um contrato nesse sentido poderia ser renovado em termos aceitáveis para Moscou e Teerã", acrescentou.

Rússia salienta que está também disposta a vender automóveis, aviões e barcos ao Irã depois da eliminação das sanções contra a República Islâmica. "Estamos interessados nas provisões a este país. Isso inclui os automóveis, aviões, construção de barcos e outras indústrias", disse o ministro de Indústria e Comércio Denis Manturov na cidade de Javarovsk, no leste da Rússia, salienta Interfax. "Estamos preparados para trabalhar juntos para incrementar a cooperação e os projetos conjuntos", salientou.

Por sua vez, o ministro de relações internacionais, Wang Yi, visitou Teerã em fevereiro com o fim de incrementar os vínculos políticos e econômicos entre os dois países. As importações chinesas de petróleo do Irã aumentaram quase 30% no ano passado e Wang disse que "existe aliás um enorme espaço para a cooperação no terreno da energia e nos parques industriais de acordo com as necessidades de desenvolvimento do Irã e as capacidades da China", disse o ministro citado pela agência Reuters.

Wang visitará Moscou em abril e os dois países analisarão a situação criada depois do alcance do acordo com Irã e as medidas dirigidas a impedir que os EUA incrementem sua influência na Eurásia.

Rússia e China podem agora abrir a porta para a adesão do Irã à Organização de Cooperação de Shangai. Esta grande organização busca garantir a estabilidade, promover a unidade da Eurásia e contrabalancear a influência norteamericana neste grande espaço.

domingo, 19 de janeiro de 2014

A verdade sobre o programa nuclear secreto de Israel

Israel andou roubando segredos nucleares e dissimuladamente fabricando bombas desde 1950. E os governos ocidentais, incluindo o Reino Unido e os EUA, fecham os olhos. Mas como podemos esperar que o Irã freie suas ambições nucleares se os israelitas não jogam limpo?

Dimona
Muito abaixo das areias desérticas, um Estado do Oriente Médio preparado para o combate constrói bombas nucleares às escondidas, usando tecnologia e materiais providenciados por poderes aliados ou roubados por redes clandestinas de agentes. É o tipo de coisa e de relatos usados para caracterizar os piores medos com relação ao programa nuclear iraniano. Na verdade, nem os EUA nem a inteligência britânica acreditam que Teerã tenha decidido construir uma bomba, e os projetos atômicas iranianos estão sob constante monitoramento internacional.

No entanto, o conto exótico da bomba escondida no deserto é verdadeiro. É apenas algo que se aplica a um outro país. Em uma façanha de subterfúgio, Israel conseguiu montar um arsenal nuclear subterrâneo - agora estimado em 80 ogivas, em par com Índia e Paquistão - e ainda testaram uma bomba a quase meio século atrás, com um mínimo de alarido internacional ou sequer consciência pública do que estava acontecendo.

Apesar do fato de que o programa nuclear israelense tem sido um segredo aberto desde um técnico descontente, Mordechai Vanunu, difundiu em 1986, a posição oficial israelense até hoje nunca confirmou ou negou sua existência.

Quando o ex-portavoz de Knesset, Avraham Burg, quebrou o tabu mês passado, declarando a posse de Israel tanto de armas nucleares como de armas químicas e descrevendo a política oficial não-divulgada como "antiquada e infantil" um grupo de direita formalmente o chamou para uma investigação policial por traição.

Enquanto isso, os governos ocidentais ajudaram com a política de "opacidade" evitando toda menção do fato. Em 2009, quando uma repórter de Washington veterana, Helen Thomas, perguntou ao Barack Obama no primeiro mês de sua presidência se ele sabia de algum país no Oriente Médio que tenha bombas nucleares, ele desviou do assunto dizendo apenas que não gostaria de "especular".

Os governos do Reino Unido seguiram esse comportamento. Perguntado na House of Lords em Novembro sobre as armas nucleares israelenses, Baroness Warsi respondeu tangenciando. "Israel não declarou um programa de armas nucleares. Nós temos discussões regulares com o governo de Israel no domínio de questões nucleares", disse a ministra. "O governo de Israel está sem dúvida nas nossas visões. Nós encorajamos Israel a participar no Tratado de Não Proliferação [NPT em inglês]".

Mas através das rachaduras na parede, mais e mais detalhes continuam a emergir de como Israel construiu suas armas nucleares contrabandeando partes e roubando tecnologia.

O conto serve como um contraponto histórico na atual luta prolongada sobre as ambições nucleares iranianas. Os paralelos não são exatos - Israrael, diferentemente do Irã, nunca assinou o Tratado de Não Proliferação de 1968, então não poderia violá-lo. Mas quase certamente quebrou um tratado banindo testes nucleares, bem como incontáveis leis nacionais e internacionais restringindo o tráfico de materiais nucleares e tecnologia.

A lista de nações que secretamente venderam a Israel material e tecnologia para a fabricação de ogivas, ou quem fechou os olhos ao seu roubo, inclui hoje os partidários mais ferrenhos contra a proliferação: EUA, França, Alemanha, Reino Unido e até mesmo a Noruega.
Mordechai Vanunu

Enquanto isso, os agentes israelenses comandam a compra de material e a tecnologia encontrada, em alguns dos mais sensíveis estabelecimentos industriais do mundo. Este ousado e incrivelmente bem sucedido anel de espionagem, conhecido por Lakam, o acrônimo hebreu para o som-inócuo de Science Laision Bureau, incluiu figuras coloridas como Arnon Milchan, um bilhonário, produtor de Hollywood e de filmes tais como Pretty Woman, LA Confidential e 12 Years a Slave, que finalmente admitiu seu papel mês passado.

"Vocês sabe o que é ser uma criança de vinte e poucos anos e seu país deixá-lo ser James Bond? Uau! A ação! Foi incrível", disse ele no documentário israelita.

A história de vida de Milchan é colorida, e diferente o bastante para ser sujeito de um sucesso que ele banca. No documentário, Robert de Niro relembra a discussão do papel de Milchan na aquisição ilícita de ogivas nucleares. "Em algum ponto eu perguntei sobre aquilo, sendo amigos, mas não de uma forma acusatória. Eu apenas gostaria de saber", disse De Niro. "E ele disse: sim, eu fiz. Israel é meu país".

Milchan não estava envergonhado sobre usar as conexões de Hollywood para ajudar sua segunda e sombria carreira. Em certo ponto, ele admitiu no documentário, ele usou a isca de uma visita ao ator Richard Dreyfuss para conseguir um cientista top dos EUA, Arthur Biehl, para se juntar ao trabalho de uma de suas companhias.

De acordo com a biografia de Milchan, feita pelos jornalistas Meir Doron e Joseph Gelman, ele foi recrutado em 1965 pelo presidente israelita, Shimon Peres, com quem ele encontrou em Tel Aviv em um bar noturno (chamado Mandy's, nomeado depois que sua própria esposa, Mandy Rice-Davis, se envolveu num escândalo de sexo). Milchan, que então comandou a companhia, nunca olhou para trás, ocupando um cargo central no programa de aquisição clandestina israelita.

Ele foi responsável por garantir tecnologia de enriquecimento de Urânio, conseguir projetos centrífugos que um executivo alemão foi subornado a extraviar em sua cozinha. Os mesmos diagramas, pertencendo ao consórcio europeu de enriquecimento de Urânio, Urenco, foram roubados em uma segunda vez por um empregado paquistanês, Abdul Qadeer Khan, que usou para encontrar seu programa de enriquecimento e para estabelecer um contrabando nuclear global, vendendo o design para Líbia, Coreia do Norte e Irã.

Por esta razão, as centrífugas israelitas são muito parecidas com as iranianas, uma convergência que permitiu aos israelitas desenvolver um vírus de computador, de codenome Stuxnet, nas suas próprias centrífugas antes de deixá-la para o Irã em 2010.

Indiscutivelmente, as façanhas de Lakam foram ainda mais ousadas que as de Khan. Em 1968, organizou o desaparecimento de um cargueiro cheio de Urânio em minério no meio do Mediterrâneo. No que ficou conhecido como o caso Plumbat, os israelitas usaram uma rede de companhias para comprar uma consignação de óxido de Urânio, conhecido como Yellowcake, em Antwerp. O Yellowcake foi concedido em tambores etiquetados por 'Plumbat', um derivado de Chumbo, e carregado em um cargueiro arrendado por uma companhia de telefone liberiana. A venda foi camuflada como transação entre companhias da Alemanha e Itália com ajuda de oficiais alemães, em troca de uma oferta israelita para ajudar os alemães com tecnologia centrífuga.

Quando o barco, o Scheersberg A, ancorou em Rotterdam, todo pessoal foi demitido sob pretexto de que o navio foi vendido e um pessoal israelita tomou seu lugar. O barco embarcou em direção ao Mediterrâneo onde, sob a guarda naval israelita, a carga foi transferida para outro barco.

Documentos britânicos e estadunidenses desclassificados ano passado também revelaram um prévio desconhecimento da aquisição israelita de mais de 100 toneladas de yellowcake da Argentina em 1963 ou 1964, sem as salvaguardas tipicamente usadas em transações nucleares para prevenir o material usado em armas.

Israel teve algumas vertigens sobre a proliferação de armas nucleares bem conhecidas e materiais, dando ao regime de apartheid sul-africano ajuda no desenvolvimento de sua própria bomba nos anos 70 por 600 toneladas de yellowcake.
Dimona, planta camuflada

O reator nuclear israelita também exigiu óxido de Deutério, também conhecido como água pesada, para moderar a reação de fissão. Para isso, Israel foi atrás da Noruega e do Reino Unido. Em 1959, Israel conseguiu comprar 20 toneladas de água pesada que a Noruega vendeu ao Reino Unido, mas foi escessivo para o programa nuclear britânico. Ambos governos suspeitaram de que o material seria usado para fabricar armamento, mas decidiram olhar de outra forma. Em documentos vistos pela BBC em 2005, oficiais britânicos argumentaram que seria "zeloso demais" impôr salvaguardas. Por sua vez, Noruega se encarregou de apenas uma visita de inspeção em 1961.

O projeto de armas nucleares israelita nunca poderia ter ficado oculto, embora, sem uma enorme contribuição da França. O país que tomou a mais ferrenha linha na contra-proliferação quando se tratou do Irã, dirigido por um senso de culpa sobre permitir a queda de Israel em 1956 no conflito de Suez, simpatia dos cientistas franco-judaicos, compartilhamento de inteligência sobre Algéria e um direcionamento para a venda de especialistas franceses e estrangeiros.

"Houve uma tendência para tentar exportar e houve um sentimento geral de apoio a Israel", contou Andre Finkelstein, ex-vice deputado n no Comissariado Francês de Energia Atômica e deputado diretor geral na Agência Internacional de Energia Atômica, a Avner Cohen, um estadunidense-israelita historiador nuclear. O primeiro reator francês foi crítico como em 1948, mas a decisão de construir armas nucleares parece ter sido tomada em 1954, depois que Pierre Mendès France fez sua primeira viagem para Washington como presidente do conselho de ministros da caótica Quarta República. Na volta ele contou a um assessor: "É exatamente como um encontro de uma quadrilha. Todo mundo põe sua arma na mesa, e se você não tiver arma você não é ninguém. Então temos que ter um programa nuclear."

Mendès France deu ordem para começar a construir bombas em dezembro de 1954. E conforme construíra seu arsenal, Paris vendeu material de assistência para outros Estados aspirantes, não apenas Israel.

"Assim foi muitos, muitos anos até que tenhamos feito exportações estúpidas, incluindo Iraque e a planta no Paquistão, o que foi uma loucura", lembrou Finkelstein em uma entrevista que pode agora ser lida em uma coleção dos papeis de Cohen em um thintank Wilson Centre em Washington. "Nós tivemos sido o país mais irresponsável na não-proliferação".

Em Dimona, engenheiros franceses resolveram ajudar Israel a construir um reator nuclear e uma planta de reprocessamento secreto ainda mais secreta capaz de separar Plutônio do combustível gasto no reator. Essa foi a real doação que o programa nuclear israelita visava na produção de armas.

No fim dos anos 50, haviam 2500 cidadãos franceses em Dimona, transformando-a de uma vila para uma cidade cosmopolita, completa com liceus franceses e estradas cheias de Renaults, e já todo empenho foi conduzido sob um grosso véu de segredo. O jornalista investigador estadunidense Symour Hersh escreveu em seu livro The Samson Option: "Trabalhadores franceses em Dimona foram proibidos de escrever diretamente a parentes e amigos na França ou em qualquer lugar, mas enviam correio a uma caixa-postal na América Latina".

Os britânicos foram mantidos fora desse laço, sendo informados em diferentes momentos que a enorme construção estava em institutos de pesquisa em pradarias desérticas e em uma planta de processo de Manganês. Os estadunidenses, também mantidos no escuro tanto por Israel como pela França, mandaram aviões espiões U2 sobre Dimona em uma tentativa de encontrar o que estavam buscando. Os israelitas admitiram possuir um reator, mas insistiram que tinha propósitos totalmente pacíficos. O combustível gasto foi enviado para a França para reprocessamento, eles diziam, ainda providenciando filmagens do que supostamente estava sendo carregado em cargueiros franceses. Durante toda a década de 60 foi negada a existência de uma planta de reprocessamento subterrânea em Dimona que produzia Plutônio para bombas.
Produtor Arnon Milchan com Bred Pitt e Angeolina Jolie

Israel recusou visitas de compostura feitas pela Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), assim no início dos anos 60 o presidente Kennedy exigiu que aceitassem inspetores estadunidenses. Físicos estadunidenses foram despachados para Dimona, mas foram atrasados desde o início. As visitas nunca foram duas vezes ao ano como combinado com Kennedy e foram sujeitas a repetidos adiamentos. Os físicos norteamericanos enviados para Dimona não foram permitidos trazer seu próprio equipamento ou coletar dados. O inspetor líder estadunidense, Floyd Culler, um especialista em extração de Plutônio, notou em suas anotações que foram novamente engessadas e pintadas paredes em uma das construções. Concluiu-se que antes de cada visita estadunidense, os israelitas construíam falsas paredes em torno dos elevadores que desciam seis andares para a planta de reprocessamento subterrânea.

Conforme mais e mais evidência de um programa de armas isralita emerge, o papel estadunidense progrediu de um joguete involuntário para cúmplice. Em 1968 o diretor da CIA, Richard Helms, contou ao presidente Johnson que Israel de fato construiu armas nucleares e que sua força aérea levou tipos a largarem eles.

A cronometragem não poderia ter sido pior. O NPT, tentado a prevenir muitos gênios nucleares de escapar das suas garrafas, compôs-se e se notícias surgissem que um dos Estados supostamente sem armas nucleares secretamente tivesse construído sua própria bomba, teria que se tornar letra morta que muitos países, especialmente árabes, recusariam a assinar.

A Casa Branca de Johnson decidiu não dizer nada, e a decisão foi formalizada em 1969 no encontro entre Richard Nixon e Golda Meir, no qual o presidente estadunidense concordou em não pressionar Israel a assinar o NPT, enquanto que o primeiro ministro israelita concordou que seu país não seria o primeiro a "introduzir" armas nucleares no Oriente Médio e não fazer nada para tornar pública sua existência.

De fato, o envolvimento dos EUA se tornou mais profundo que mero silêncio. No encontro em 1976 que teve só recentemente se tornado público conhecimento, o diretor deputado da CIA, Carl Duckett, informou uma dúzia de oficiais da Comissão de Regulamento Nuclear dos EUA que a agência suspeitou que algumas das bombas de fissão israelitas foram de urânio, roubadas diante do nariz estadunidense de uma planta de processamento na Pensilvânia.

Não apenas foi uma quantidade alarmante de material de fissão sendo perdida na companhia, Corporação de Materiais e Equipamento Nucleares (Numec), mas foi visitada por um verdadeiro agente de inteligência israelita, incluindo Rafael Eitan, descrito pela firma como ministro de defesa "química" israelita, mas, na verdade, um alto agente do Mossad da chefia de Lakam.

"Foi um choque. Todo mundo ficou de boca aberta", lembra Victor Gilinsky, que foi um dos oficiais norteamericanos informados por Duckett. "Foi um dos casos mais flagrantes de material nuclear desviado, mas as consequências pareceram tão surpreendentes para as pessoas envolvidas e para os EUA que ninguém realmente quis saber o que estava acontecendo".

A investigação foi adiada e nenhuma cobrança foi feita.

Poucos anos mais tarde, em 22 de setembro de 1979, um satélite dos EUA, Vela 6911, detectou o duplo-flash típico de um teste de arma nuclear na costa da África do Sul. Leonard Weiss, um matemático e especialista em proliferação nuclear, estava trabalhando como assessor no momento e depois tendo sido informado sobre os incidentes pelas agências de inteligência dos EUA e dos laboratórios de armas nucleares do país, ele se tornou convicto de um teste nuclear, em contravenção sobre o Tratado Limitado de Teste (Limited Test Ban Treaty).

Foi apenas depois de ambas administrações, de Carter e depois de Reagan, tentarem silenciá-lo sobre o incidente e tentarem caiar com um não-convincente painel de inquérito, que raiou sobre Weiss que foram os israelitas, e não os sul-africanos, que detonaram a bomba.

"Foi dito que isto criaria um problema de política externa muito sério para os EUA, se fosse dito que foi um teste. Alguém deixou claro que os EUA quisessem que ninguém ficasse sabendo", disse Weiss.

Fontes israelitas contaram a Hersh que o flash pego pelo satélite Vela foi o terceiro de uma série de testes dos testes nucleares da Índia Oceânica que Israel conduziu em cooperação com a África do Sul.

"Foi fodido", uma fonte lhe contou. "Houve uma tempestade e nós pensamos que bloquearia Vela, mas houve uma brecha no tempo - uma janela - e Vela se cegou pelo flash".

A política estadunidense de silêncio continua ainda hoje, ainda apesar de Israel parecer continuar a agir no mercado negro nuclear, embora em volumes reduzidos. Em um documento no mercado ilegal de material e tecnologia nuclear publicado em Outubro, o Instituto de Ciência e Segurança Internacional baseado em Washington (ISIS) notou: "Sob a pressão dos EUA nos anos 1980 e 90, Israel... decidiu amplamente parar sua procura ilícita pelo programa de armas nucleares. Hoje, há evidência que Israel pode ainda fazer procurações ocasionais ilícitas - operações ferroadas dos EUA e casos legais mostram isto".

Avner Cohen, autor de dois livros sobre bombas israelitas, disse que a política de opacidade tanto de Israel como de Washington é mantida agora por inércia. "Em nível político, ninguém quer tratar disso com medo de abrir a caixa de Pandora. Isto se tornou de muitas formas um fardo para os EUA, mas pessoas em Washington, todo caminho até Obama não irá tocar nisto, por causa do medo de se comprometer com muitas bases do entendimento Israel-EUA".

No mundo árabe e além, cresce a impaciência com o enviesado status quo nuclear. O Egito em particular ameaçou rumar ao NPT a menos que haja progresso com relação a criar uma zona livre de força nuclear no Oriente Médio. Os poderes ocidentais prometeram manter uma conferência na proposta em 2012, mas foi jogada fora, largamente no comando estadunidense, para reduzir a pressão sobre Israel a atender e declarar seu arsenal nuclear.

"De alguma maneira o kabuki vai em frente", disse Weiss. "Se é admitido que Israel tem armas nucleares ao menos você pode ter uma discussão honesta. Parece a mim ser muito difícil manter uma resolução sobre o Irã sem ser honesto sobre o assunto".

Via Theguardian

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Brasil e Argentina se aliam à Rússia para projetos nucleares



 

RT informou que a Rússia negocia com Argentina e Brasil a possibilidade de construir novas centrais nucleares. Segundo funcionários da nação eurasiática, os países da América Latina são muito interessantes para a Russia neste campo.

O diretor da agência russa Rosatom informou que um grupo de Estados latinoamericanos está interessado em desenvolver seus próprios programas nucleares.

“Uma série de países anunciou seus programas de desenvolvimento de energia nuclear, e o alcance destes programas é compreensível, mas não passaram ao nível da licitação. Por ora se mantêm conversações preliminares. Entre eles figuram, por exemplo, Argentina e Brasil. América Latina apresenta para nós um grande interesse”, afirmou Serguéi Kiriyenko, conselheiro delegado da corporação estatal Rosatom.

No final do ano passado informou-se que Argentina ia anunciar um concurso para a construção de uma central nuclear com capacidade de 1800 megavats. Neste país latinoamericano agora opera a central nuclear Atucha, com duas unidades de potência, uma das quais está sendo completada e cuja realização está prevista para este ano de 2014.

Quanto a Brasil, Rosatom mostrou interesse em particular como construtor e investidor no programa estatal de construção de entre quatro e oito centrais nucleares para 2030.

Ao mesmo tempo, o funcionário informou que a Rússia também mantém negociações com Eslováquia neste sentido, “mas a discussão segue sendo preliminar”, segundo Kiriyenko.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Irã detém espião do MI6 que executava ataques terroristas


Irã anunciou neste Sábado a detenção de um membro da agência de espionagem britânica, MI6. "Com a ajuda e poder de Deus, o espião foi preso depois de meses de complexos movimentos de inteligência", disse hoje o chefe da Corte Revolucionária de Kerman, Dadkhoda Salari.

Salari salientou que o espião detido teve "20 reuniões" com oficiais da inteligência britânica, tanto dentro como fora do Irã, provendo-os de informação necessária e recebendo instruções para danificar os interesses nacionais iranianos.

O governo do Irã revelou ainda o nome do agente do MI6, mas disse que lhe foi pedido coletar inteligência e atacar diversas áreas culturais, econômicas e políticas do regime. Indicando que o agente teve contato com "cinco oficiais da inteligência britânica", Salari informou a preparação de um julgamento enquanto o detido confessar seus crimes.

Em 2010, o ex-ministro do Interior iraniano, Mustafa Mohammad Najjar, salientou que as agências estadunidense, israelita e britânica de espionagem, tinham estado diretamente envolvidas em realizar ataques contra cientistas iranianos.

 "Com respeito a recentes movimentos terroristas, a participação do Mossad, da CIA e do MI6, pode se ver claramente", disse Najjar aos repórteres. "Neste mesmo sentido, temos detido um número de pessoas e estamos fazendo os seguimentos necessários para prender os principais cabeças por detrás destes atos terroristas", indicou.

No quinto ataque desta natureza nos últimos dois anos, uma bomba magnética foi aderida ao veículo do cientista iraniano de 32 anos, Mustafa Ahmadi Roshan Behdast, em janeiro de 2012. Seu condutor também foi assassinado.

Rosan Behdast foi o quinto cientista iraniano desde 2007. A explosão de janeiro de 2012 teve lugar no segundo aniversário do martírio do professor universitário e cientista nuclear iraniano, Massoud Ali Mohammadi, que foi assassinado por um ataque bomba em Teerã em janeiro de 2010.

O método de assassinato usado no bombardeiro foi similar aos ataques terroristas de 2010 contra o professor Fereidoun Abbasi Davani e seu colega Majid Shahriari. Enquanto que Abbasi Davani sobreviveu ao ataque, Shahriari faleceu. Outro cientista iraniano, Dariush Rezaeinejad, acabou morto com o mesmo modus operandi em 23 de julho de 2011.

Irã culpou reiteradamente a CIA, o MI6 e o Mossad israelita, pelos ataques terroristas que mataram seus cientistas.

Via Laverdadoculta

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

"Sem acordo com Irã. Culpa do Ocidente"


Presstv entrevistou Hamidreza Emadi, diretor de redação da Presstv em Teerã, a fim de discutir a negociação entre Irã e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha.

O que segue é uma transcrição aproximada da entrevista.

Presstv: Sua opinião sobre o que o Sr. Kaplan (o outro convidado) disse e que basicamente trouxe plutônio nisto, basicamente dizendo que é Paris que atualmente por alguma razão não quer que este acordo siga em frente.

Emadi: Deixe-me citar algo da revista Arab Magazine, “O ministro de defesa francês recentemente acata uma visita à região pela conclusão do acordo de U$ 1.5 bilhões com Arábia Saudita para todos os navios arábicos”.

Isto mostra que os franceses recentemente estão tendo acordos financeiros com países regionais como Arábia Saudita que, todo mundo sabe, é muito contra o acordo com Teerã.

Ao mesmo tempo sabemos que a França providenciou armas nucleares a Israel e que ambos têm acordos militares muito fortes. Assim, a França está ajudando Israel a obter armas nucleares. A França está ajudando Arábia Saudita a reforçar seu setor militar. Assim é como a França trata com estas duas entidades e estes dois mais ferrenhos críticos do tratado com Irã.

É possível que os Israelitas pediram para que a França sabotasse a conversação para o acordo. Sabemos que nada pode acontecer sem a permissão dos EUA. Talvez os EUA também se envolveram nisto. Mas o que sabemos por enquanto é que a França foi a única que tentou seu melhor para contrariar o acordo com Irã no encontro em Genebra.

Presstv: O que você pensa sobre a sub-secretária de Estado estadounidense, Wendy Sherman, ao viajar para Tel um dia depois que as intensas conversas terminaram?

Parece que ela vai à Tel Aviv basicamente para reportar ou receber ordens de Israel. Sua opinião acerca disso; por que ela deveria ir diretamente de Genebra para Tel Aviv sem retornar a Washington?

Emadi: É muito constrangedor para os estadounidenses, para o povo estadounidense, e até para os europeus, que seus governos recebem ordens de Tel Aviv.

Israel é uma entidade que existe há seis décadas e agora dá ordens a países como EUA, França, Grã-Bretanha, Alemanha e até mesmo Rússia e China, sobre o que fazer e como pensar.

Então, o primeiro ministro israelita disse hoje mais cedo que chamou aqueles líderes e que pediu a eles que esperassem e não fizessem acordo com Irã.

O que isto significa? O que o G5+1 está fazendo agora é apenas gastar o tempo dos iranianos. Apenas gastando o tempo dos europeus. Apenas gastando o tempo dos EUA, se ouvir o que Israel está lhe dizendo.

[Em resposta a Lee Kaplan]: Não se trata de judeus, Sr. Kaplan, não estamos falando de judeus. É Israel. É um regime falso. Não tem que ver com os judeus. Tem tudo que ver com os sionistas. Não se trata de atacar os judeus; não tem nada que ver com ataque aos judeus.

Quem tem armas nucleares? Israel tem armas nucleares, Israel não assinou o Tratado da Não-Proliferação (NPT), Israel está tecnicamente em guerra com todos os países regionais. É assim que é, esta é a realidade.

Presstv: S.r Kaplan disse o que o Sr. Netanyahu disse – que “um acordo ruim é um acordo ruim” – agora que estamos falando sobre uma entidade sobre a qual supõe-se ter muitas armas nucleares e que conseguiram – se for oportuno dizer – criticar Irã, que continuamente disse que é um projeto nuclear pacífico e que não estão buscando armas nucleares nem as possuem.

Então, o que isto significa? Assim como na comunidade internacional e na legislação internacional, onde Israel tenta anular e evitar um acordo entre Irã, que não tem armas nucleares, e os G5+, tem de continuar a tratar com sanções e todas as outras pressões de partes da comunidade internacional?

Emadi: Israel não quer que a crise termine. Israel quer que essa crise fique onde está, porque Israel é um tipo parasita de criatura que vive das crises. Ele quer crise na região. Quer crise no mundo, porque pode contar ao povo que temos um inimigo, que temos de gastar dinheiro em projetos militares, que temos de atacar outros países porque temos inimigos.

Então estes projetos belicistas e de difusão do medo têm de continuar para que Israel sobreviva. De outro modo Israel não poderia sobreviver, porque Israel é um regime falso.

Voltando à conversação do G5+1 com Irã, o fato do problema é o time de negociação iraniano, um monte de pessoas diriam que não era um grupo sério, mas nesse momento em torno do Sr. Zarif, Ministro de Relações Exteriores, e seu time são um grupo sério e ninguém no Irã duvida da sua seriedade.

Se o ministro de relações exteriores não pode chegar a um acordo com o outro partido significa para os iranianos que não é culpa do time de negociação iraniano, que foi a culpa do outro grupo. Assim fica bem claro para os iranianos que o outro partido, o partido ocidental em particular, está perdendo tempo, não está negociando de boa fé, de forma séria. Isso precisa mudar.

Esta dinâmica precisa mudar e o partido ocidental em conversações deve parar de ouvir Israel se desejam pôr um fim a esta crise de uma vez por todas.

[Em resposta a Kaplan]: Nós temos direitos nucleares sob a lei internacional. Não se trata de judeus. Trata-se de Israelitas. Trata-se de sionistas…e o mundo todo sabe o que os sionistas são agora, o que eles estão fazendo ao mundo todo. Os sionistas estão destruindo o mundo inteiro.

Presstv: O sr. Kaplan disse antes de tudo que Israel não tem usado armas nucleares. Eles podem ter, mas claro que nós sabemos que Israel usou armas químicas contra palestinos e outras muitas vezes sem ser condenado na comunidade internacional, como sustenta agora a situação na base. Quão provável que Teerã e o G5+1 será capaz de chegar ou não a um acordo?

Emadi: Irã é muito sério sobre a conversação. Irã diz que estamos prontos a aliviar toda a preocupação dos EUA e outros sobre seu programa nuclear. Irã diz que estamos sendo mais transparentes. Irã diz que estamos prontos a qualquer coisa para mostrar ao mundo inteiro que o nosso programa nuclear é pacífico.


Mas enquanto Israel influenciar a conversação, enquanto o primeiro ministro israelense chamar esses líderes ocidentais e dar ordens a eles para não entrar em acordo com Irã, não sei o que estas conversas repercutem, não sei qualquer ponto na negociação com países que não têm autoridade para negociar. Assim é como é a situação. Eles devem parar de dar ouvidos a Israel se desejam chegar a um acordo.

Via Presstv

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Os grandes vencedores na Síria: BRICS e o Grupo de Xangai

Por Alfredo Jalife Rahme


Como antecipado  (28/08/13, 1, 4, 8 e 11/09/13), o presidente Barack Obama aceita que o acordo sobre a Síria "pode influenciar as negociações nucleares com o Irã", e chegou a confessar que tinha correspondência com seu colega iraniano Hassan Rouhani sobre a situação na Síria (VOA News, 19/09/13).



Obama acabou por mitigar perigo de desencadear uma "corrida armamentista" no Oriente Médio.

Erich Follath (Der Spiegel, 16/09/13) relata que o presidente iraniano, Rouhani está pronto para fechar sua usina nuclear de Fordo - local de seu maior avanço em enriquecimento de urânio de 20 por cento: longe do mínimo de 90 por cento necessários construir uma bomba atômica - se  o ocidente parar com as sanções.

Juan Cole, professor de história na Universidade de Michigan e renomado orientalista, diz em seu site Informed Comment (15/09/13) como é o mundo após o acordo Kerry-Lavrov sobre a Síria.

Ele acredita que "o seqüestro de armas químicas na Síria provavelmente não encurtará a guerra civil ou salvará muitas vidas", mas há "vencedores e perdedores na região no mundo."

Os "perdedores" são os falcões, como a cubano-americana Ileana Ros-Lehtinen (Republicana-Florida),sem falar nos superbélicos senadores John McCain e Lindsey Graham, que esperavam que o ataque de mísseis pelos EUA mudasse a balança a favor dos rebeldes e em detrimento do Partido Baath sírio.

Comanta que o acordo "desiludiu (sic) profundamente a Turquia, Qatar e Arábia Saudita", que queriam que o bombardeio dos Estados Unidos.

Na Europa, o grande perdedor foi o "socialismo" francês em sua associação bélica com Obama: "A França pensava se posicionar em sua anterior colônia Síria e se reinserir no centro dos assuntos globais."

De acordo com Juan Cole, os grandes vencedores foram os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e do Grupo de Xangai (China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão), com o que concorda "Bajpo la Lupa" (15/09/13).


Chama grandemente a atenção o status de "observadores" do grupo de Xangai - Índia, Mongólia, Afeganistão, Irã (sic) e Paquistão, que se sobrepõe com três membros do BRICS através do denominador comum do triângulo geoestratégico nuclear Rússia/China/India.

Cita que o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov "agradeceu explicitamente os BRICS e o Grupo de Xangai" seu "apoio a abordagem baseada em princípios para resolver o problema de armas químicas na Síria exclusivamente por meios pacíficos."

De acordo com Lavrov, a resolução do problema das armas químicas na Síria "será um grande passo para a criação uma zona livre de armas de destruição em massa no Oriente Médio", que, na minha opinião, é uma quádrupla pressão vigorosa para que Israel ratifique a Convenção sobre a Proibição de armas Químicas, exume sua posse ilegal de armas químicas e biológicas, aceite a inspeção de seu máximo de 400 bombas atômicas por parte da AIEA e assine o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares.

Depois da repreensão do Ministério da Defesa ao agregado militar israelense por lançar em conjunto com os Estados Unidos um teste de míssil em direção a Moscou (Haaretz, 09/09/13), o venenoso primeiro-ministro Netanyahu tem de compreender perfeitamente que as novas dinâmicas do "grande Oriente Médio" não está a seu favor - minuciosamente detalhado por Haaretz (20/09/13) - assim pode-se pensar que ele irá procurar por todos os meios inviabilizar um acordo nuclear entre os EUA e o Irã, ao que antecipou o ex-ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman, hoje líder do partido fundamentalista Yisrael Beytenu, que ameaçou que "Israel deve contar consigo mesmo" para subjugar o Irã (The Times of Israel, 10/09/13).

De fato, o chanceler Lavrov mencionou que a China enviou um navio de guerra para o Mar Mediterrâneo, perto da Síria, durante o auge da crise.

Juan Cole argumenta que o ataque unilateral de Obama a Damasco "foi simbolicamente sublinhado que a Rússia não é uma grande potência e carece de invioláveis ​​esferas de influência". O inverso é mais do que verdadeiro: "A Rússia tem sido tratado como um igual pelos diplomatas norte-americanos" e "sua estatura cresceu", o que é confirmado pela revista Foreign Policy, que qualifica o presidente russo como "Vlad da Arábia" (13/09/13), referindo-se a "Lawrence da Arábia", o lendário espião britânico encarregado de implementar no campo militar o acordo da Grã-Bretanha e da França para dividir o Império Otomano pelo mapeamento Sykes-Picot.

O diretor da Rede Voltaire, Thierry Meyssan - que foi um dos poucos no mundo que previram o acordo entre Putin e Obama -, informa que os EUA e a Rússia redesenharam o novo mapa do Oriente Médio, em semelhança com o Sykes-Picot de 1916, que, como é entendido, deve passar inevitavelmente pela desnuclearização da área.

Juan Cole argumenta que "o governo Putin apoia a Síria, em parte, porque protege os cristãos ortodoxos sírios", além de Aleppo, a principal cidade do país, "está apenas 24 horas de estrada, através da Turquia , da cidade de Grozny, onde a Rússia tem enfrentado turbulência substancial nas últimas duas décadas". O Fantasma do Cáucaso e da sua silhueta na Chechênia, território russo, sempre planejou por trás da crise síria.
Cole resume que "a Rússia venceu, a nova junta militar do Egito venceu, Irã e Índia e Indonésia ganharam". "Bajo la Lupa" assinalou a grande importância da rejeição da Indonésia (a maior população muçulmana sunita do planeta) para a aventura unilateral de Obama durante a Cúpula do G20, em São Petersburgo.

Ele também afirma que não há muita diferença entre março de 2003 - quando Bush junior supôs que os EUA "eram a superpotência unipolar e a primeira potência hegemônica no Oriente Médio" - com o anúncio do acordo de Putin-Obama, 10 anos depois, quando a Rússia surge para fazer frente aos EUA em um domínio bipolar.

Juan Cole conclui que o acordo Kerry-Lavrov "retorna ao mundo do século XIX, quando havia vários centros de poder, cada um com suas respectivas esferas de influência".

Na minha opinião, o mundo não muda em São Petersburgo - já havia mudado há cinco anos no Cáucaso em 2008, mas avança e aprofunda o seu caminho à inevitável o nova organização policêntrica multipolar, um verdadeiro G-3 que não se ousa dizer seu nome: EUA-Rússia-China.

Quase 100 anos mais tarde (exatamente 97 anos), o acordo russo-americano Kerry/Lavrov substitui a ultrapassado divisão colonial franco-britânica de Sykes-Picot no Oriente Médio.

Dois novos jogadores, a Rússia e os Estados Unidos - com a China na retaguarda - durante a Cúpula do G20, em St. Petersburg impôs um novo mapa, mas com o mesmo petróleo, a maior reserva do mundo, que permanece lá.

Sigue a desnuclearização. Poderão Putin e Obama persuadir o messianismo nuclear israelense? (N.d.B.: Provavelmente isso nem passe pela cabeça de Obama...)

Via Bajo la Lupa