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sábado, 6 de julho de 2019

Benoist: '[ideologia de gênero] visa converter masculinidade em condição patológica'


Entrevista com Alain De Benoist, por Nicolas Gauthier (Elmanifiesto)

O feminismo de antes lutava para promover os direitos das mulheres. O atual neofeminismo passou a negar as próprias noções de masculinidade e feminidade. Como explicar esta transformação?

Produziu-se em dois tempos. Em um primeiro momento, as feministas de tendência universalista (as que concebem a igualdade como sinônimo de mesmidade) quiseram mostrar que as mulheres são "homens como os demais". Tratava-se, por exemplo, de provar que não há qualquer tarefa reservada por natureza a um ou outro sexo, que pode haver mulheres soldados, mulheres pilotos de avião etc. Por que não? Mas evidentemente, se deixa de haver "tarefas de homens", todas as tarefas se convertem em unissexuais. Ao mesmo tempo, se exigia paridade em todas as áreas, pressupondo que ambos os sexos têm não apenas as mesmas capacidades, mas também os mesmos desejos e aspirações. Este requisito se estendeu gradualmente até o absurdo, embora não abundem mulheres de caminhão de lixo e homens parteiros! Claro, a falta de paridade apenas se mostra chocante quando se exerce em benefício dos homens: que a magistratura esteja feminizada em 66% (mais de 86% entre os jovens de 30 a 34 anos), que o pessoal da Educação Nacional esteja em 68% (82% no ensino primário) não provoca o mínimo protesto. Quando hoje se assiste a um filme policial, é até difícil imaginar que também existam homens na polícia nacional!

As coisas pioraram com a ideologia de gênero, que, negando que o sexo biológico seja um fator determinante na vida sexual, faz dele uma "construção social" e o opõe à multiplicidade de "gêneros". A ideia geral aqui é que ao nascer, todo mundo é mais ou menos transexual. Tu já terás notado a importância do "trans" no discurso LGBTQI+: embora os verdadeiros transexuais são apenas uma minoria, o uso da visão do mundo queer torna possível afirmar que estão todos em todo lugar e vice-versa. Às crianças de quatro ou cinco anos se diz que podem eleger seu "gênero" como melhor lhes parece.

Assim, pois, se nega as noções de masculinidade e feminidade, mas ao mesmo tempo, sob a influência da correção política, se ressuscita constantemente o masculino para pô-lo no pelourinho. Por um lado, se afirma que o biológico não determina absolutamente nada, enquanto que, por outro lado, se afirma que o homem é por natureza um estuprador em potencial e que o patriarcado (a "cultura do estupro") está de alguma maneira inscrito em seus genes. Contesta-se a ideia do "eternamente feminino", mas se essencializa o macho com o argumento de que sempre fora agressivo e "dominante".

Então nos dirigimos para uma desvalorização geral da masculinidade?

Sim, inclusive cabe dizer que se declarou guerra contra o cromossomo Y. Não apenas deve-se perseguir o "sexismo" até suas manifestações mais inócuas, já que haveria continuidade de "assédio" e "feminicídio", mas que se deve fazer todo o possível para conseguir que os homens renunciem a sua hombridade -- ao que agora se chama de "masculinidade tóxica". Ontem as mulheres queriam ser "homens como os demais"; hoje são os homens os que devem aprender a se converter em "mulheres como as demais".

A masculinidade se converte em uma condição patológica. Nova significação orwelliana: o homem é uma mulher (Deus também, sem dúvida: lésbica, inclusive). Portanto, os homens devem se feminizar, deixar de se "comportar como homens", como uma vez se lhes recomendava no passado, dar rédea solta às suas emoções (recomenda-se que chorem e gemam), sufocar o gosto pelo risco e pela aventura, encantar-se pelos produtos de beleza (o que compraz muito o capitalismo e a sociedade dos propulsores de carrinhos de bebê), e sobretudo -- em especial -- nunca considerar as mulheres como um objeto de desejo. E esta é uma nova versão da guerra dos sexos, em que o inimigo é chamado a se redimir, desfazendo-se de sua identidade.

O que as sabichonas (marisabidillas) da escritura inclusiva e as amazonas do girl-power exigem agora são homens que se unam com a "interseccionalidade" das lutas "anticoloniais", que comunguem em uma virtuosa devoção com as "vencedoras" do futebol feminino, que militem pela "ampliação da visibilidade das sexualidades alternativas" e se mobilizem contra a "precariedade menstrual", esperando sem dúvida em converter-se em um generalizado conjunto andrógino em um mundo transformado em gineceu regido por Big Brother, o Estado terapêutico prescritor de condutas. Basta de "cisgêneros"! Um passo aos "não-binários", aos "gêneros fluidos" que conseguiram se extrair dos estereótipos do universo "heterocêntrico"!

Esta é a razão pela qual nossa época não gosta de heróis e prefere as vítimas. Veja como, durante as cerimônias do fim do centenário da Primeira Guerra Mundial, tentou-se "desmilitarizar" o evento, celebrando o "retorno à paz" para não ter que falar de vitória. Como se os poilous[1] quiseram apenas acabar com as guerras, sem se preocupar de quem terminaria vencendo a guerra! Do que não há dúvida é de que as classes trabalhadoras admiram espontaneamente o heroísmo de um coronel Beltrame ou o dos comandos mortos em Malí, Cédric de Pierrepont e Alain Bertoncello. O espírito da época, ao contrário, pede que nos reconhecemos no travesti Bilal Hassani, "representante da França" no Eurovision e titular do "prêmio LGBTI" do ano. Não se trata exatamente da mesma humanidade.

Tu falas da desvalorização do heroísmo. Mas então, como explicar a moda cinematográfica dos "super-heróis"? É uma forma de compensação?

Sem dúvida, mas não é o essencial. Deve-se ter em conta que, na verdade, o super-herói não é nenhum herói exponencial, mas que nele se inclui todo o oposto do herói. O herói é uma figura trágica. É um homem que elegeu ter uma vida gloriosa, mas breve, ao invés de uma vida cômoda e medíocre. O herói é um homem que sabe que um dia ou outro terá que dar sua vida. Não há nada disso em Iron Man, Superman, Spiderman e outras tristes produções de DC ou Marvel. Não são heróis porque são invencíveis, não sente o mínimo medo, não há nada de trágico neles. São super-homens, mas de um ponto de vista da testosterona. Não são, estritamente falando, nada além de "homens incrementados", tal como se imaginam os defensores do "sobre-humanismo". Estamos a mil léguas de Aquiles ou de Siegfried.

[1] Literalmente, "os peludos", como se denomina na França os soldados franceses da Guerra Mundial.

sexta-feira, 23 de março de 2018

O que representa a candidatura de Ciro Gomes

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Ciro Gomes e Leonel Brizola
Por Leonardo Benitz

Diante da grave crise que assola o país, que deixou de ser somente econômica, tornando-se política, institucional e social, onde os grandes poderes da mídia, baronato e bancos digladiam-se oferecendo cada um a sua própria narrativa. Narrativa que oculta um jogo de interesses muitas vezes difícil de ser compreendido até por um estudioso do assunto quanto mais para a grande maioria da população que, fatalmente, torna-se refém das simplificações grosseiras e das reações emocionais a uma situação justamente percebida como insuportável. Uma situação caótica é sempre propícia ao surgimento não somente de arrivistas políticos, mas de ideários estrangeiros propagados por parcela da elite ligada aos interesses internacionais que procura mistificar sua dominação sobre o restante do povo. 

Uma das simplificações mais comuns, com maior adesão por parte de grande parcela da população que está irritada, talvez a mais perigosa dela, é aquela que liga o protagonismo, ainda que atualmente deprimido, que o Estado tem na economia com escândalos de corrupção, ineficiência, burocracia excessiva, e que, portanto, o Estado deveria ser mínimo, isto é, apenas louvar pela aplicação sadia das regras do mercado, e, no máximo, realizar um papel de assistência social, apequenar-se. Acreditar que um país de proporções continentais como o Brasil, com uma das desigualdades mais brutais do mundo, onde 6 pessoas concentram a mesma renda que 100 milhões de pessoas como mostram os dados de pesquisa recentemente realizada pela ONG britânica Oxfam, deve relegar seus problemas a espontaneidade do mercado é inocência ou má-fé. Dentre as duas opções, acredito que a primeira ocorre na grande parte do povo que propaga esse ideário por ignorância e por despercebidamente introjetar valores contrários aos seus próprios interesses através da intoxicação midiática, enquanto a segunda, que tem representantes de peso nos grandes órgãos midiáticos e instituições empresariais e bancos, que age de forma organizada para fazer com que seus interesses tenham aparência de ciência neutra e objetiva, merece ser analisada com mais cuidado. 

Para compreender esse movimento, devemos notar que, no caso específico brasileiro, a ideia já datada do neoliberalismo volta com força, após um breve período de experimentação com os governos de esquerda da América Latina que, na maior parte dos casos, entraram em descrédito. Essa ideia é datada porque os próprios órgãos de governança global que fizeram parte da propagação do ideário do Consenso de Washington, como o FMI, Banco Mundial e Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, já a criticaram em relatórios recentes. O relatório "Neoliberalism:Oversold?" lançado por três economistas do FMI em junho de 2016, estabelece que as políticas de austeridade defendidas ; com base na ideia de rigidez orçamentária dos gastos do governo prejudicou a demanda e aprofundou o desemprego, a remoção das restrições do fluxo de capital -- abertura financeira -- contribuiu para o aumento da desigualdade e do número de crises financeiras, e, para fechar o caixão dessa ideologia, concluíram que o aumento da desigualdade tem efeitos negativos sobre o crescimento de longo-prazo, observação substanciada por novo artigo escrito em fevereiro de 2017, onde há um gráfico que evidencia uma correlação negativa entre desigualdade e crescimento de longo-prazo. Deve-se atentar para a gravidade dessa observação, ou seja, instituições criadas para (fato brilhantemente demonstrado por John Perkins em seu livro "Confissões de um Assassino Econômico", onde o autor narra a estratégia realizada pelo Banco Mundial que, a serviço dos Estados Unidos, realiza empréstimos para países em desenvolvimento procurando escravizá-los por dívidas, lançando-os, de forma subalterna, na esfera do poderio norte-americano) e por países ricos (em reunião realizada pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, que ficou conhecida como Conferência de Bretton Woods em 1944) estão nos alertando sobre os efeitos perniciosos da desigualdade e da liberalização econômica. A indagação que fica é: se os ouvimos no passado (através da doutrina neoliberal do governo de Fernando Henrique Cardoso) por que não os ouvimos agora? 

A ideia de que o Estado não deve ter protagonismo no combate à desigualdade e desenvolvimento econômico e a economia nacional deve ser aberta ao mundo, não é uma ideia antiga. Como habilmente demonstrado pelo economista Ha-Joon Chang, os Estados Unidos, hoje o campeão mundial do liberalismo, já foram submetidos a pressões estrangeiras para liberalizar-se, no seu caso, por ninguém menos do que o ilustre pai da economia moderna Adam Smith. Vejamos suas observações contidas no livro A Riqueza das Nações: 

` "Se os americanos, seja mediante boicote, seja por meio de qualquer outro tipo de violência, suspenderem a importação das manufaturas europeias aos seus compatriotas capazes da fabricar os mesmos bens, desviando uma parcela considerável de capital para esse fim, estarão retardando o futuro crescimento do valor do seu produto anual, em vez de acelerá-lo, e estarão obstruindo o progresso do país rumo à riqueza e à grandeza verdadeiras, em vez de promovê-lo" 

Em outros escritos considera o futuro do país norte-americano como de uma economia agrária como a Polônia, proposta muito similar àquela recomendada atualmente por economistas liberais como Marcos Lisboa à nação brasileira. É preciso ressaltar que os Estados Unidos não apenas sonoramente rejeitaram esse conselho, e seguiram o conselho do Secretário do Tesouro americano Alexander Hamilton, tornando-se os campeões mundiais do protecionismo até meados do século XX, desenvolvendo o ensino público, investindo em infraestrutura através da concessão de terras e subsídios às empresas ferroviárias, como através de golpes de estado e intervenções em países como Havaí, Cuba, Porto Rico, Filipinas, Nicarágua, Honduras, Guatemala, Irã, Vietnã, Chile e mais recentemente Iraque e Líbia, também expandindo seu poderio no Leste Europeu através da OTAN, consolidaram seu lugar como a potência hegemônica ocidental desbancando seu antecessor, a Inglaterra, tudo isso com a presença de um mastodôntico aparato militar que consumiu 611 bilhões de dólares em 2016, valor superior aos 595 bilhões de dólares dos oito países com os maiores gastos em defesa juntos no mesmo ano de acordo com dados da Peter G. Peterson Foundation. Deixa-se sem passar que indústrias nas quais os EUA se mantêm na vanguarda internacional como de computadores, internet e aeroespacial não seriam possíveis sem a P&D militar financiada pelo governo americano, como muito bem apontado pela economista Mariana Mazzucato em seu livro "O Estado Empreendedor": "a maioria das inovações radicais revolucionárias, que alimentaram a dinâmica do capitalismo -- das ferrovias à internet, até a nanotecnologia e farmacêutica modernas -- aponta para o Estado na origem dos investimentos empreendedores mais corajosos, incipientes e de capital intensivo", até mesmo o Iphone que é propalado como fruto da genialidade empreendedora do Steve Jobs não teria sido possível sem a utilização de tecnologias financiadas pelo governo como o GPS, tela sensível ao toque, mecanismo de reconhecimento de voz. O que não falta na sede do pensamento liberal é, ironicamente, Estado. 

Poder-se-ia analisar com tranquilidade a experiência histórica de qualquer outro país desenvolvido, seja a Coréia do Sul com sua reforma agrária radical, a criação da usina siderúrgica POSCO construída à contragosto do Banco Mundial, os planos quinquenais estabelecidos pelo General Park, seja no Japão com a Restauração Meiji de 1868 e seu programa de modernização, até a Alemanha de Bismarck que teve um papel pioneiro na introdução do seguro de acidente industrial (1871), seguro saúde (1883), e as pensões estatais (1889), ou até mesmo a Inglaterra, com as barreiras protecionistas impostas para proteger as manufaturas têxteis de algodão e as reformas protecionistas introduzidas pelo primeiro primeiro-ministro britânico Robert Walpole em 1721, que ao defendê-la em discurso do trono ao Parlamento observou que "é evidente que nada contribui mais para promover o bem-estar público do que a exportação de bens manufaturados e a importação de matéria-prima estrangeira". Os exemplos da experiência histórica comparada são infindáveis, e unanimemente eles atestam para a centralidade do papel do Estado no desenvolvimento econômico, portanto, agora aproximando-se mais da realidade e do futuro brasileiros, acredito ser imperativo que se escolha um candidato ciente desses temas na eleição de 2018, e proposto a restaurar o papel do Estado na economia brasileira. 

Necessita-se contextualizar o momento pré-eleição de 2018; o Brasil enfrenta a maior crise da sua história com diversos estados quebrados, os partidos políticos tradicionais desacreditados pela corrupção, tudo isso deflagrado pela crise econômica que ocorreu com a redução do crescimento da China que provocou uma queda nos preços das nossas principais exportações, as commodities, como minério de ferro, trigo, soja, junto com a queda do preço do barril de petróleo. Em 2016, após um processo de impeachment ilegítimo, o vice-presidente Michel Temer assume a presidência e anuncia reformas de desmonte do Estado brasileiro e de entrega do patrimônio nacional, atendendo aos interesses do empresariado apátrida e dos bancos brasileiros e estrangeiros, aprovando a reforma trabalhista que alterou 100 itens da CLT (a mando de lobistas de bancos, indústrias e transportes), enfraquecendo a Justiça do Trabalho, fazendo com que o negociado prevaleça sobre o legislado, como se o empregado estivesse em posição de igualdade efetiva com o empregador, covardemente vendendo os campos de exploração do pré-sal para multinacionais como a Shell, num momento em que os preços do barril de petróleo estão prestes a subir, anunciando um programa de privatizações de 57 empresas estatais incluindo a Casa da Moeda e a Eletrobrás, e, sua obra magna, a Emenda Constitucional 95 que estabelece o teto dos gastos de acordo com a inflação por um período de 20 anos, contendo apenas as despesas primárias (isto é, as que não incluem os juros), privilegiando os rentistas brasileiros à custa de gastos que atendem, ainda que precariamente, a maioria da população como saúde e educação, tudo isso num cenário de desemprego alto remediado por uma crescente informalidade, que garante um sustento com salários e condições baixas de trabalho a uma parcela crescente da população... 

Diante desse péssimo cenário, nós, eleitores, temos que fazer uma escolha que será fatídica no dia da eleição, definindo, rompimentos antidemocráticos à parte, a forma como país sairá ou tentará sair dessa crise. Com o provável impedimento da participação de Lula, vítima de uma perseguição jurídica que, deixando de lado ódios e paixões, curiosamente não encontra paralelos com qualquer político tucano, representando o candidato mais popular da esquerda, líder nas pesquisas, provavelmente teremos uma predominância de candidatos de centro-direita a direita, com nomes como Geraldo Alckmin (PSDB) e Jair Bolsonaro despontando, todos adotando uma percepção neoliberal dos problemas do Brasil; Bolsonaro, com uma retórica nacionalista, no entanto, uma prática não condizente com o discurso, exemplificado perfeitamente pelo episódio simbólico da continência batida à bandeira americana em sua viagem aos Estados Unidos, e também por sua provável escolha para ministro da fazenda, Paulo Guedes, um dos fundadores do Instituto Millenium que recebe financiamento do Bank of America e do grupo RBS. E temos, pela centro-esquerda, a candidatura de Ciro Gomes pelo PDT. Ciro Gomes é conhecido publicamente pela sua inteligência e habilidade retórica, mas sua valentia e coerência também são qualidades que devem ser ressaltadas. Já em livro escrito em 1996, em parceria com o professor Roberto Mangabeira Unger, chamado "O Próximo Passo", apresentava uma proposta alternativa ao neoliberalismo, denunciando a utilização peremptória de juros escorchantes e câmbio sobrevalorizado como expediente de combate a um processo inflacionário que já havia sido superado e que havia se tornado um entrave para o desenvolvimento econômico do país. As propostas do Ciro para essas questões seriam, como relevadas recentemente pelo seu assessor econômico Nelson Marconi, trazer a taxa de câmbio para um patamar condizente com a competitividade das exportações brasileiras entre R$3,80 e R$4, e uma taxa de juros mais baixa, espelhando-se nas experiências dos Estados Unidos e Europa em que a taxa de juros real chega a ser negativa. 

Pode-se concluir que muita coisa mudou para não mudar nada, o problema dos juros continua sendo central na economia brasileira, tendo consumido 1.130.149.667.981,00 (1,13... trilhão) de reais que representa 43,94% do Orçamento Geral da União em 2016 de acordo com dados do Tesouro Nacional. Para ter-se uma medida de comparação, gastou-se 3,90% em Saúde e 3,70% em Educação. O povo brasileiro deve tomar conhecimento de quem manda no país. De acordo com dados publicados pelo IBGE, em 2017 a participação da indústria no PIB caiu para 11,8% retrocedendo aos níveis de 1950; parte desse problema foi ocasionado pelo alto custo do capital provocado por altas taxas de juros, e a outra faceta desse problema é o câmbio sobrevalorizado, abordado anteriormente, que torna nossas exportações menos competitivas e aumenta o custo das importações, provocando um déficit na balança comercial, desnacionalizando nossa indústria. 

Em termos mais categóricos, Ciro define-se como um Nacional-Desenvolvimentista, isto é, defende um projeto no qual um Estado fortalecido promove o desenvolvimento econômico de uma sociedade, algo que não seria atingido caso fosse deixado por conta do mercado. Acredita-se que o artigo deixou bem claro que essa é a experiência vivida por grande parte dos países avançados até mesmo aqueles que propagam a retórica neoliberal. Em termos geopolíticos, Ciro Gomes já se manifestou favorável à construção de um mundo multipolar, repudiando as intervenções unilaterais americanas recentes no Iraque, Afeganistão e Líbia, comemorando o surgimento e protagonismo de Vladimir Putin na Síria como uma forma de equilíbrio e alívio para o mundo que assistiu horrorizado à criação de um cenário caótico no Oriente Médio e o renascimento dos movimentos terroristas islâmicos amplamente financiados por governos ocidentais. Ciro Gomes apresenta uma respeitável compreensão de que, a despeito de todo tipo de retórica sobre paz e liberdade, a ordem mundial é assentada na força e na violência, portanto, um mundo multipolar, com a crescente importância da Rússia e a ascensão econômica da China, poderia conter as arbitrariedades cometidas pelos americanos, e beneficiar até mesmo o Brasil, livrando-nos de intervenções e pressões unilaterais de um país que historicamente considerou a América Latina como seu quintal, e o mundo inteiro como seu. 

Portanto, está na ordem do dia uma redução do oneroso encargo da dívida pública através de uma auditoria e da diminuição do nível de taxa de juros a um patamar condizente com a perspectiva de desenvolvimento industrial nacional, uma reforma tributária estabelecendo uma taxação progressiva, recuperando a sanidade fiscal do Estado que, empoderado, possa assumir seus deveres e retomar seu papel de protagonismo no desenvolvimento econômico e combate à desigualdade através de um projeto nacional-desenvolvimentista. O repúdio a qualquer ideologia estrangeira propagada pelo império e seus representantes, isso é o neoliberalismo, que propõe aos estados subdesenvolvidos uma liberalização econômica que ele mesmo não realizou, ou seja, como bem descrito pelo economista alemão Friedrich List, chuta a escada pela qual subiu, deixando os subdesenvolvidos permanentemente no andar de baixo. 

Uma integração da iniciativa privada, universidades e Estado, no desenvolvimento de tecnologias, tornaria o país menos dependente de insumos externos normalmente dolarizados. A luta deve ser pelo estabelecimento de uma ordem geopolítica multipolar, em que o Brasil possui um papel relevante, deixando de ser um celeiro para os países ricos e um reprodutor de manuais propagados pela metrópole e seus órgãos globais, e lute para a formação de polos de poder que distribuam melhor a capacidade de decisão em assuntos internacionais. 

No presente momento o candidato que possui um histórico e um discurso alinhado com esse ideário é o Ciro Gomes, portanto, como se tentou demonstrar no presente artigo, aqueles brasileiros que não se deixam dobrar pelo discurso dominante devem apoiá-lo nas eleições de 2018.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O Ensaio de Golpe da Direita Globalista no Brasil

por Amarílis Demartini & Caimmy de Sá

Após os primeiros meses do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, intensos ataques à sua gestão começaram a ser disparados pela oposição e logo adquiriram o semblante de golpismo. Aécio Neves, recém-derrotado nas eleições, assumiu o papel de garoto propaganda das manobras e FHC veio à tona conclamar seus partidários. Logrou-se até derrubar alguns peemedebistas de cima do muro e convocar manifestações que, se não foram bem o que se esperava, conseguiram encher avenidas por todo o país e gerar apreensão. Em meados do ano já cogitávamos seriamente a possibilidade de que o governo do PT fosse derrubado, trazendo algo ainda pior do que o seu “neodesenvolvimentismo” alinhado com os usurários[1], e essa impressão se intensificou na última semana com a aprovação de um pedido de impeachment pelo presidente da Câmara dos Deputados. Mas, apesar de tudo, ficamos com a sensação de que a concretização das ameaças não será tão simples.

           Uma pista de qual seria a ponta solta da trama golpista está na série de declarações públicas contra a derrubada da presidente, vindas de notórios representantes dos interesses atlantistas[2], de bancos a órgãos de mídia[3]. Se o povo já não se levantar com o ímpeto necessário para defender o governo após o “pacote de maldades”, outros atores – os quais na democracia ocidental são, obviamente, muito importantes: os próprios beneficiários das medidas de austeridade, isto é, os credores do Estado – podem vir a evitar a sua derrocada. As questões que se colocam, então, e às quais tentaremos buscar respostas, são: por que a finança globalista, já estando em uma posição vantajosa com o PT, alimentou a possibilidade de golpe? Como se explicam os recentes desenvolvimentos dessa ofensiva? Quais são as possíveis estratégias por trás deles? E, mais importante, qual a posição mais adequada a ser tomada nessa
conjuntura por aqueles que, como nós, buscam um Brasil soberano?

            Achamos que as respostas estão em boa parte nas condições políticas particulares do Brasil. Dentre as dezenas de partidos políticos ativos, poucas são as figuras interessantes, com projetos diferentes e condizentes com a nossa realidade, e essas poucas (poucas mesmo) são quase sempre desconhecidas do grande público. As instituições políticas no geral e aqueles que as compõem são alvo de desanimador (embora compreensível) descrédito por parte da população, e se é verdade que esta está insatisfeita com o PT, o PSDB não goza de maior prestígio. Assim, o jogo democrático torna-se para o brasileiro cada vez mais um amontoado propagandístico sem capacidade representativa, sofremos com a carência de líderes e ideias autênticas, enquanto, por outro lado, isso se traduz num movimento de maior acirramento e envolvimento das pessoas com questões políticas, especialmente por parte dos jovens. Isto caracteriza uma tendência à instabilidade, que poderia muito bem resultar favorável para uma dissidência organizada, mas que carrega em si uma alta dose de imprevisibilidade. Tendo isso em mente, passemos a analisar os meios aventados para um golpe.

O Golpe Militar
            A sanha oposicionista parecia tanta, que chegou a ser considerada por muitos a ideia de uma intervenção direta das Forças Armadas no plano político federal. É bem verdade que existem grupos de oligarcas nacionais que trabalham para isso desde a derrubada do Regime Militar, os quais se agitam esperançosamente a cada momento de efervescência política no Brasil e se tornam mais impacientes a cada ano do Partido dos Trabalhadores no poder. Entretanto, estes elementos da burguesia interna vêm perdendo forças mesmo dentro das corporações militares, seu poder de mobilização é débil e estão já obsoletos para influenciar decisivamente os funcionários do governo americano, que ingenuamente consideram seu parceiro.Isso porque ao longo do regime militar essa oligarquia foi suplantada pelo aparelho midiático e a presença de corporações multinacionais agindo com muito mais liberdade no cenário político brasileiro. Embora ela mantenha sua influência local em alguma medida, o imperialismo pode agora, quase sempre, dispensar o emprego de intermediários nas questões de interesse externo.Tal situação apenas se agravou durante a vigência do neoliberalismo pós-Constituição de 1988.

Analisando as condições históricas, parece-nos que um golpe nos moldes de 64, ou seja, perpetrado pela intervenção direta das forças armadas, dificilmente se repetiria. No tempo de João Goulart não havia margem para uma alternativa democrática, legal ou institucional, que representasse um alinhamento com o poder anglo-americano que naquele momento exigia colaboração de todos os países da América, iniciando a Operação Condor com aval e apoio de setores políticos, militares, e associações civis ligadas, diretamente ou não, aos interesses da burguesia (e podemos citar com certa importância no caso brasileiro, a Opus Dei, a Maçonaria e outros círculos do tipo).

            Naquela situação, além do Ministério da Fazenda nas mãos de um economista do naipe de Celso Furtado, tínhamos um Darcy Ribeiro, ambos expoentes da corrente trabalhista.Não só isso, como se tinha um nacionalista feroz no governo do Estado do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que estava disposto a reunir e convocar todo o III Exército a uma guerra anti-imperialista que se daria em solo brasileiro. Ou seja, a perspectiva de instaurarem-se projetos nacionalistas que poderiam vir a contrariar ou se indispor com os EUA era algo muito palpável, mesmo porque, no contexto de então, muito pouco era preciso para ser alvo de suspeitas.

           Com a vitória do modelo estadunidense sobre a antiga União Soviética, a ordem bipolar da Guerra Fria desmoronou e os representantes do Ocidente puderam avançar em muito com suas expectativas de uma ordem unipolar, sabendo que países que buscassem se livrar da sua influência não teriam mais outra potência à qual recorrer para sua sustentação no cenário geopolítico. Nós, na Ibero-América, logo sentimos os efeitos da nova postura dos EUA e da onda neoliberal que se sucedeu. Hoje no Brasil, temos um defensor de grandes conglomerados financeiros ocupando a pasta da economia, o governo faz privatizações, concessões, e até apoia na ONU a demonização do governo sírio de Assad.

           A própria oposição política, que caracteriza o maior veículo da ameaça golpista contra o PT, não gostaria de dividir seu protagonismo com os militares e correr o risco de ver o sistema democrático liberal enfraquecido. Para os atlantistas estrangeiros, tampouco é desejável que se abale esse sistema que tem garantido tão bem seus interesses no nosso continente – um fechamento político nas mãos das Forças Armadas poderia significar maior investimento na área de defesa, mudança de atitude com relação à cultura e até arroubos patrióticos, o que para aqueles seria puro retrocesso.

Além disso, dentre os oficiais do Exército já são poucos os que aspiram a meter-se pela política, a atitude legalista é enfatizada na instituição desde as primeiras lições e a discussão ideológica desencorajada. Isso vem em boa parte do fato de que os militares sofrem até agora as amargas consequências do antigo golpe, em um duplo sentido. Por um lado, há uma política que tende a condenar os militares não como traidores da Pátria(que de fato foram), mas como violadores dos "direitos humanos", política que leva a processos, sindicâncias, assédio e ações vexatórias vindas de movimentos de esquerda (principalmente, mas não só de esquerda).  A Comissão da Verdade,criada por Dilma Rousseff e pautada por uma moral "humanitária",quase nada falou do papel representado pelo empresariado envolvido com multinacionais nas manobras que levaram ao colapso de Jango, mas trouxe uma série de incômodos ao meio militar e poderia ter sido bem pior, se fossem instaurados processos criminais tal como certos movimentos cobravam. Digamos que as recentes provocações certamente irritaram muitas pessoas ligadas à caserna brasileira, mas ao invés de incitara uma reação revanchista,fizeram essas pessoas quererem manter-se longe de dores de cabeça por algum tempo.

           Por outro lado, o próprio processo de golpe instalou uma cultura de despolitização das Forças Armadas ao distanciá-las do amplo debate público. No momento que precedeu o golpe, era comum ver os militares divididos entre grupos nacionalistas, comunistas e liberais filo-atlantistas. Com a vitória da ala liberal através do golpe, os elementos militares pertencentes aos outros dois campos foram purgados do aparato de defesa, levando à hegemonia de um único grupo e, por consequência, à despolitização. Basta pensarmos na exclusão de Ivan Cavalcanti Proença e Nelson Werneck Sodré, respectivamente um nacionalista e um comunista.

O Golpe Institucional
           A forma mais cômoda para um golpe da direita contra Dilma seria a via institucional, jurídica ou parlamentar. Isso poderia acontecer através da anulação das eleições, o que foi tentado quando Gilmar Mendes, ministro do STF(Supremo Tribunal Federal) requisitou a investigação das contas de campanha da chapa eleita, alegando o possível uso de dinheiro proveniente do esquema de corrupção da “Lava Jato”[4]. Mas o pedido foi arquivado pelo procurador-geral eleitoral, que alegou falta de indícios suficientes e expiração do prazo para a entrada com recursos. Desde então, Mendes vem tentando outros caminhos para invalidar o pleito, mas até agora nenhum logrou progresso.

           Outra forma de atacar pela via institucional é através da abertura de processos de impeachment, e Eduardo Cunha (deputado eleito pelo PMDB e presidente da Câmara) finalmente aceitou um pedido depois de ter recebido uns 15 deles. Os antecedentes deste acontecimento envolvem toda uma trama de denúncias e negociações políticas que vem se desenvolvendo entre o governo e sua base, pressionada pela oposição. Já em setembro havia sido criado um movimento congressista oficial pelo impeachment unindo deputados oposicionistas e os rebeldes da base, ao que a bancada governista reagiu com um movimento “anti”. Cunha vem sendo acuado por investigações de corrupção e lavagem de dinheiro, e o fato de o PT ser o principal partido que pretende levar adiante o processo de cassação que corre contra ele no Conselho de Ética certamente influenciou sua ação de ataque à presidência.

           Para que o processo de impedimento da presidente tenha sucesso, é necessário que seja analisado por uma comissão parlamentar especial e aprovado na Câmara por mais de dois terços dos deputados, com o que Dilma Roussef seria afastada por 180 dias, assumindo o vice-presidente Michel Temer (PMDB). A partir daí, o processo se encaminha ao Senado e, havendo a condenação de dois terços dos senadores, Dilma deixa a função. Entretanto, essas maiorias não são fáceis de conseguir, pois exigiriam uma ruptura total da base com o governo e aqui vemos a necessidade de falar do principal componente dela, o PMDB.

           O chamado Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) protagoniza a situação politicamente escorregadia e imprevisível na qual nos encontramos. A sigla representa o maior partido do país, o qual tem sido essencial para o que se convencionou chamar “governabilidade”: sem nunca ter elegido um presidente, a legenda está profundamente arraigada em todo o aparelho estatal, influencia toda decisão abrangente e é afamada por seu oportunismo. Dilma vem negociando com o PMDB constantemente, os favoreceu na nomeação dos ministérios, mas ainda assim o partido mostra-se pouco interessado em colaborar e nenhuma declaração de apoio contra o impeachment veio até agora, nem sequer do vice-presidente Michel Temer, de quem Roussef disse esperar “integral confiança”. Muito pelo contrário, uma embaraçosa carta de Temer à presidente foi divulgada na mídia essa semana, e Eliseu Padilha, homem próximo àquele, acaba de pedir demissão do Ministério da Aviação Civil. O partido ainda lançou, no final de outubro, um documento contendo críticas às políticas econômicas dos petistas e reforçando seu compromisso com o liberalismo econômico. Porém, não seria surpresa nenhuma se esta organização grande, ideologicamente débil e com tantos interesses conflitantes, acabasse dividida, o que inviabilizaria os planos golpistas.

           O cenário de golpe institucional é possível, mas lhe falta respaldo de importantes setores. O ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto, entre outros especialistas do Direito Constitucional, manifestou-se anteriormente ressaltando que não há base jurídica para um impeachment. Há também diversas entidades de pressão popular que se mantêm do lado do governo, pela sua ligação histórica com o Partido dos Trabalhadores. A capacidade de apaziguar as demandas classistas dos trabalhadores tem sido, na verdade, um dos pontos positivos para o capital nos anos de PT, mas também vem gradualmente se desgastando. Apesar de toda a insatisfação que as medidas deste mandato têm suscitado entre os seus apoiadores mais à esquerda (ou simplesmente mais conscientes), em uma situação de golpe da direita, provavelmente eles iriam às ruas e não seriam facilmente reprimidos. O mesmo não se pode esperar dos partidários da oposição.

O que é que está acontecendo?
            A disputa pelo Estado que nos aparece na forma básica de PT versus PSDB se digladiando corresponde a projetos concorrentes, em ambos os quais atores econômicos saem ganhando e o país sai perdendo, mas um deles se destaca como potencialmente mais nocivo do que o outro. Este se caracteriza pela alternativa deliberadamente atlantista encabeçada pelo PSDB.

            É notório que o governo petista tem cedido terreno ao grande capital e garantido seu lucro em detrimento do nosso desenvolvimento (não apenas econômico, mas também cultural e moral), quando não abertamente, por seu envolvimento em práticas de corrupção que, além de constituir alta traição em si mesmas, tornam nosso Estado vulnerável aos ataques do interesse globalista.  O escândalo da Petrobrás, por exemplo, não obstante se tenha tornado um “escândalo” com um empurrãozinho da influência externa e da mídia sua serviçal, resultou na desvalorização da nossa principal estatal, com a venda de ativos a investidores privados e a abertura do precedente para maiores concessões do pré-sal a gigantes internacionais. Esta perda é incalculável para o Brasil.

            Se, no entanto, o capital internacional tem avançado sobre os bens brasileiros e o setor financeiro tem quebrado sucessivos recordes de lucro por aqui[5], o fato é que nunca se dão por satisfeitos e sabem que estariam em situação mais vantajosa com o PSDB no poder. Esta afirmação é corroborada pela análise dos financiamentos de campanha das últimas eleições[6]. O PT aparece atrás do PMDB, como o terceiro colocado com relação ao montante arrecadado e uma receita total de $385,993,122.54, enquanto o PSDB, campeão de arrecadação, tem um total de $629,323,035.76. Ao sondar-se a proveniência das doações, nota-se a aberta preferência do setor bancário e de serviços financeiros pelo PSDB. Ora, qualquer um que esteja a par da importância da geopolítica para se compreender o mundo atual e agir nele, sabe que o setor bancário não é simplesmente mais um braço qualquer do capital[7], servindo como o principal instrumento de submissão das nações pelo projeto liberal globalista. É quando a atuação dos bancos é rechaçada por governos resistentes que o atlantismo passa a lançar mão de outros tipos de intervenção, suscitando guerras e “revoluções laranjas”, como vimos recentemente na Líbia, na Síria e em um bocado de outras nações, nesses tempos de ofensiva da unipolaridade.

            No Brasil, bem menos que isso foi necessário para incomodar aqueles que se sentem os donos do mundo: a presença dos bancos estatais na nossa economia vem irritando os banqueiros. Ao disponibilizar linhas de crédito acessíveis, a Caixa Econômica Federal tirou deles uma fatia importante do mercado, e isso se traduziu em ataques à instituição, ao que o governo respondeu sinalizando a privatização[8]. O BNDES, ainda mais incômodo por financiar os grandes projetos do PAC, foi o alvo seguinte, com a abertura de uma CPI debaixo de intensas críticas da mídia. Além disso, outras movimentações do governo também contribuíram para exasperar os financistas, são algumas delas: a intenção de não mais operar com o manejo da taxa SELIC, que beneficiava os bancos; a sanção da lei de superávit primário que privilegia as empreiteiras em detrimento daqueles; a taxação sobre o lucro dos bancos que, ao estender o ajuste fiscal aos mais ricos, aumentaria em 3 a 4 bilhões a arrecadação estatal; e o esforço para restabelecer a CPMF.

            Como toda ação que leve ao desabono de empresas nacionais abrirá espaço para o capital internacional, e ainda com base nos financiadores do PSDB e o projeto de enfraquecimento do aparelho estatal ao qual esse partido se propõe, podemos afirmar que a disputa política entre PT e PSDB reflete em boa medida a disputa levada a cabo entre capitais internos e externos, não se limitando ao setor financeiro. Com isso, temos de onde saíram, em termos econômicos, os incentivos ao golpismo e não há dúvidas de que foram seguidos de perto pela intrusão política e ideológica dos EUA[9].
            Então, por que duvidamos do sucesso da empreitada golpista?
  1. Em parte, pelo fracasso da oposição em conseguir apoio popular e político.As bases impulsionadas pelos thinktanks americanos e que lideraram as manifestações de rua anti-PTtem se enfraquecido, sofrendo seguidos rachas por discordâncias entre os líderes e também porque setores mais propensos ao conservadorismo, usados como idiotas úteis pelos liberais, têm começado a ressentir-se[10]. Por mais que a população esteja descontente com a crise financeira e desaprove a administração de Dilma Roussef, não há indícios de um movimento massivo e disposto a sair às ruas pelo impeachment.
  2. Além disso, as medidas de austeridade impostas pelo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy,garantirão que o Brasil continue pagando as dívidas regularmente, com os juros abusivos de sempre, subsídios para o agronegócio, a deterioração dos direitos trabalhistas para a burguesia industrial (turbinada pela imigração direcionada pelos capitalistas aos municípios industriais) e a alegria do setor exportador com a alta vertiginosa do dólar. Sendo assim, para o capital atlantista pode ser mais seguro evitar a instabilidade e tentar manter os níveis de insatisfação das massas contra Dilma para serem usados em uma derrota eleitoral em 2018.
            Temendo o trunfo Lula, a oposição emplacou ainda certas alterações legislativas que inviabilizariam o financiamento da campanha petista, já prejudicado de todo modo pelo desmonte dos esquemas com empreiteiras. Nesse sentido, os oposicionistas sofreram uma derrota com a aprovação do fim do financiamento de empresas nas campanhas. De toda forma, a ofensiva liberal não está derrotada e o Brasil precisa de um movimento que não se acue diante dela para livrar-se do jugo imperialista de uma vez por todas. A nós está muito claro que esse movimento não virá do PT.
 
Conclusão
            Queremos deixar claro que repudiamos o PT, por toda sua condescendência para com o globalismo no campo da economia e também pela adoção de um programa completamente afeito às piores degenerações liberais nos âmbitos social e cultural, com grande prejuízo para a tradição brasileira. Entretanto, em política a neutralidade é impossível e pretender refugiar-se nela é apoiar um ou outro lado, conscientemente ou não. Com a crise política instalada no Brasil este ano, vimos partir tanto de círculos da extrema-esquerda quanto de nacionalistas o reforço ao coro golpista anti-PT por vários motivos. Essa atitude pode ser fruto de legítima revolta, mas, no momento, não ajuda o Brasil, nem a classe trabalhadora brasileira.

Não estamos dizendo, com isso, que o governo petista (especialmente o de Dilma Rousseff e ainda mais nesse segundo mandato) seja minimamente contra- hegemônico. Por muito do que dissemos nesse texto, é evidente que não é esse o caso. A questão que faz com que nos oponhamos à derrubada do governo é a falta de qualquer alternativa que ofereça melhores perspectivas no curto prazo – o fiasco nacional que é o sistema partidário atual não acabará sem trabalho árduo e revolucionário, de conscientização, desconstrução e conquista de espaços. A ascensão de figuras do PSDB ou PMDB, partidos que não se preocupam em manter sequer uma imagem de resistência, representaria uma vitória ainda maior para o capital financeiro por aqui, causando danos que, mesmo com a construção de uma alternativa realmente dissidente não poderiam ser reparados sem muita dificuldade. O PT, por querer manter-se no poder, sabendo que não tem a confiança do atlantismo e que pode perder o apoio das próprias bases militantes, fica na defensiva e para isso precisa amparar-se em algumas das posições que serão importantes para retomar uma política soberana.A postura do PT contra a pilhagem do aparelho e empresas estatais é fraca demais para impedir a rapina, mas ela não seria nem encontrada com a oposição no poder, e o processo seria acelerado. Talvez, tentando ser otimistas em uma situação bem pouco propícia a isso, poderíamos pensar que uma pressão vinda das ruas lograria uma postura mais incisiva do governo. Foram formadas frentes de esquerda com esse propósito, ainda que por um viés com o qual temos muito desacordo[11].

            Assim, reafirmamos nossa ruptura com toda a política moderna, com as direitas e as esquerdas, mas sem nunca tirar os pés do chão. Porque queremos uma revolução real,será preciso saber valer-se de tudo o que puder se tornar um recurso contra o inimigo e agir no mundo que ele mesmo construiu para implodi-lo. Assim, buscamos no momento de crise a oportunidade para inserir no debate público nacional uma opção autêntica pautada pela Quarta Teoria Política[12] e não por falsas dicotomias como petismo ou anti-petismo, dicotomias essas calcadas namodernidade a ser ultrapassada e que podem distrair tanto dos pontos fundamentais sobre os quais devemos estar atentos quanto do poder real de escolha que temos.

Notas:
[1]As aspas são porque a versão de que os governos de Lula e Dilma foram neodesenvolvimentistas é contestável. Falta à política petista uma série de características centrais do desenvolvimentismo de Celso Furtado, do qual a versão “neo” procederia. Furtado tinha em vista a soberania nacional, através da internalização das decisões políticas e econômicas, portanto, a condescendência atual para com as instâncias estrangeiras já seria uma contradição, daí a ironia. Para maiores detalhes referentes ao questionamento de tal tese, conferir:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-66282012000400004&script=sci_arttext

[2] “Atlantismo” é um termo importante para nós. Ele foi sucintamente definido por Aleksandr Dugin da seguinte forma:
“Atlantismo – termo geopolítico significando:
- sob o ponto de vista histórico e geográfico, o setor ocidental da civilização mundial;
- sob o ponto de vista estratégico-militar, os países membros da OTAN (em primeiro lugar, os EUA);
- sob o ponto de vista cultural, a rede unificada de informações criada pelos impérios midiáticos Ocidentais;
- sob o ponto de vista social, o ‘sistema de mercado’, afirmado como sendo absoluto e negando todas as formas diferentes de organização da vida econômica.”
Texto completo e traduzido em: http://evrazia.info/article/4436

[3]Aqui podemos citar Itaú, NY Times, Globo, entre outros.
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/08/1672332-nao-ha-motivos-para-tirar-dilma-do-cargo-diz-presidente-do-itau-unibanco.shtml
http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/08/impeachment-sem-evidencia-concreta-traria-dano-diz-new-york-times.html
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/08/em-editorial-surpreendente-globo-pede-sustentacao-ao-governo-dilma.html

[4]Esta Operação mereceria um texto inteiro e é certamente a antessala da estratégia golpista.

[5]http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2015/08/mesmo-diante-de-crise-lucro-dos-bancos-nao-para-de-crescer.html

[6]Devemos os créditos dessa análise e outros dados, referentes à conjuntura econômica, ao artigo de Pablo Polese (Mestre em Sociologia pela UNICAMP, doutorando em Serviço Social pela UERJ e UFRJ) no blog esquerdista Passa Palavra.

[7] Ao que parece, a maior parte dos marxistas se esforça para ignorar peremptoriamente este fato.
8http://www.valor.com.br/politica/3833616/vou-abrir-o-capital-da-caixa-mas-processo-demora-adianta-dilma

[9]http://mundo.sputniknews.com/americalatina/20150414/1036371835.html

[10]Por exemplo, o desentendimento entre “libertários” e “liberais” no Instituto Mises Brasil, e entre o Movimento Brasil Livre e os seguidores de Olavo de Carvalho, etc.

[11]É o casoda Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo. Embora essas iniciativas tenham muitas pautas válidas, infelizmente, se desviam do foco e valem-se de um discurso de cunho liberal em questões não econômicas, defendendo degenerações absolutamente impopulares, como é comum às esquerdasnos nossos dias.

[12]Quem não conhece os fundamentos da Quarta Teoria Política, neste vídeo pode ver uma breve explicação do Professor Aleksandr Dugin com legendas em português: https://www.youtube.com/watch?v=YpRykFhRlIA

domingo, 1 de novembro de 2015

Dos verdadeiros mecanismos da economia liberal: um caso brasileiro



por Maurício Oltramari

Assim como a grande maioria dos países do Ocidente, nas últimas décadas o Brasil tem sido cada vez mais consoante com a abertura de seus mercados a empresas multinacionais e com a integração de suas transações econômicas à dinâmica de negociação dos mercados globalizados. Essa postura trouxe ao país investimentos em setores importantes da indústria, do comércio e da prestação de serviços, e com eles, a chegada -ou a formação- de novos oligopólios e monopólios, fenômeno ao qual estão suscetíveis todas as economias regionais integradas aos seus respectivos mercados nacionais e ao mercado global.



As mesmas estruturas e poderes reguladores do liberalismo econômico -o sistema capitalista- que permitem a formação desses monopólios e oligopólios a nível internacional, também permitem, mutatis mutandis, a sua formação na esfera nacional. Isso significa, em termos econômicos, que há setores da prestação de serviços, do comércio e da indústria nacional que são dominados por uma empresa ou um seleto (e pequeno) grupo de empresas. Fato que dificulta e prejudica gravemente a existência e a manutenção dos pequenos e micro negócios em geral, nos quais se incluem, evidentemente, as empresas e os ofícios familiares.



Distante da obsoleta teoria econômica da “mão invisível”, -proposta por Adam Smith em “A Riqueza das Nações”- que postula a existência de uma determinada ordem de interesses coordenando a economia como uma entidade autônoma, as transações econômicas dos mercados globalizados movimentam-se por “mecanismos” muito diferentes, que nada tem a ver com a “oferta e demanda” que descreve a figura metafórica do filósofo inglês.



A nível nacional e internacional, esses “mecanismos” são os verdadeiros reguladores dos preços e de outras variáveis que estão diretamente relacionadas com a produção e venda de determinados bens e serviços. Nesse caso específico, estamos falando dos cartéis ou dos acordos informais -para definição de preços e quantidade de produção de bens- que os grandes empresários estabelecem entre si para garantir a maximização dos seus lucros. No caso brasileiro há alguns exemplos que podem ser utilizados para echar luz sobre essa realidade nefasta que passa despercebida pela grande maioria da população. Nesse texto, relataremos o caso de uma empresa que foi confrontada pela realidade dos oligopólios em um setor da indústria brasileira, e decidiu levar até as últimas consequências a determinação de não cooperar com a formação desses verdadeiros cartéis. Tratam-se dos fatos que levaram ao fechamento das empresas do empresário argentino Ramiro Vasena. O relato que segue é uma reprodução resumida de sua entrevista dada ao canal argentino Toda La Verdad Primero, no programa Producción Nacional, apresentado e comandado por Juan Manuel Soaje Pinto.



O caso do empresário e hoje dirigente político, aconteceu no Rio de Janeiro nos anos 90 e ganhou notoriedade na mídia nacional, tendo matérias publicadas nos principais veículos de comunicação do país. Ramiro Vasena foi proprietário de um grupo de empresas fabricante de peças para automóveis e caminhões, que registrava um crescimento expressivo nesse setor da indústria em meados da década de 90. A primeira empresa do grupo foi fundada por seu pai na zona oeste do Rio de Janeiro, e na época que Ramiro assumiu, contava com cerca de 50 funcionários. A empresa foi constituída com o intuito de suprir a necessidade de mercadorias daquele setor, já que existia uma grande demanda por esses produtos e os mecânicos e industriais -os principais consumidores- reclamavam dos preços altos e abusivos cobrados pelos fabricantes. Depois de cinco anos à frente do comando das empresas -que contavam já com mais de 550 funcionários no total- e alavancando seus negócios a patamares cada vez mais altos o empresário viu de súbito sua empresa ser subjugada pelos interesses de um oligopólio que manejava os preços das mercadorias segundo seus próprios interesses econômicos.



Quando as empresas do seu grupo abarcavam já uma fatia expressiva no mercado consumidor brasileiro do ramo de autopeças, o empresário foi procurado pelos maiores industriais do ramo e convidado a fazer parte de uma associação informal que estabelece preços e regras específicas para a produção e venda dessas peças. Em definitivo: uma associação ilícita; um cartel. Como nos relata Ramiro, as regras propostas pelo cartel foram as seguintes: elevar os preços dos bens e reduzir a produção, com o intuito de maximizar o lucro e reduzir os custos. E assim, alinhar-se aos preços praticados pelo mercado, ou seja, os preços definidos arbitrariamente por um seleto grupo de empresários, proprietários das maiores empresas do ramo em questão.  



Ramiro afirma que se negou a atender a essas exigências dos outros industriais, entendendo as consequências que essa decisão poderia trazer: iria prejudicar tanto aos seus consumidores quanto ao povo brasileiro como um todo, já que estaria infringindo as leis que vigoravam no país naquele momento. Como Ramiro enfatiza, periodicamente as novas exigências e regras decididas pelo cartel eram transmitidas ao empresário. Confrontado e ameaçado caso não aceitasse os termos impostos, manteve a decisão de não fazer parte da associação e ele salienta o que lhe diziam os empresários que o intimaram: “o Brasil é nosso”.



Inicialmente, a empresa de Ramiro foi alvo de um conhecido “mecanismo” regulador do mercado, o dumping. Resumidamente, essa prática comercial consiste na venda -por parte de uma ou mais empresas- de produtos por um preço considerado abaixo ou muito abaixo de seu valor justo ou do preço praticado em um determinado país. O intuito dessa técnica é prejudicar ou eliminar os concorrentes, fato que se verificou nas empresas do empresário argentino, quando seus concorrentes reduziram os preços de determinados produtos para valores que estavam abaixo do preço de custo desses bens. Além do dumping, Ramiro afirma que muitos de seus produtos eram sabotados e danificados nas lojas de revenda de autopeças. Nessa época, a empresa já enfrentava dificuldades para a realização e entrega de pedidos dos clientes.



Com o faturamento prejudicado e reduzido frente às condições impostas pelas regras ocultas do mercado, as empresas do grupo de Ramiro começaram a enfrentar dificuldades financeiras. Mas essas dificuldades não afetaram somente a Ramiro e sua família, mas a todos os seus trabalhadores e suas famílias. Mais uma vez estavam se repetindo a sina da desigualdade e injustiça impostas por um sistema econômico que favorece a ganância de poucos e prejudica os mais necessitados: os trabalhadores e suas famílias.  Por fim, ele decidiu levar a questão à Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, apresentando uma denúncia formal, relatando a situação atual de sua empresa e apontando as práticas ilegais levadas a cabo pelos industriais do ramo de autopeças. As denúncias foram por abuso de poder econômico, tentativa de formação de cartel e práticas ilegais de comércio, segundo o empresário, que chegou a conversar com cinco ministros de justiça durante todo o período em que tentava desmantelar o cartel e dar fim às injustiças que lhe eram impostas.



Ele aponta a existência de uma “máfia” por detrás das empresas e dos órgãos de justiça no Brasil. Segundo as gravações que ele fez de suas conversas com participantes do cartel, como Roberto Kasinski*, ficou comprovada a ligação que eles mantinham com Salomon Rotenberg, diretor da Secretaria de Direito Econômico na época em que as denúncias foram feitas. O diretor era amigo pessoal de Kasinski, e segundo o que este último havia dito em tom claro ao próprio Ramiro, nada aconteceria se as denúncias fossem levadas à frente. De forma concomitante, os veículos de comunicação que inicialmente haviam dado grande atenção ao seu caso, agora silenciavam.



Ramiro relata também como organizou protestos nas ruas do Rio de Janeiro para tornar público o que acontecia com suas empresas, quando era auxiliado pela polícia e muitos voluntários, sendo esta a única forma que ele conseguia para que o processo na justiça fosse levado adiante. Enquanto toda essa epopeia às avessas se desdobrava, eram as famílias dos trabalhadores que sofriam as consequências mais nefastas dessa verdadeira conspiração, que não é uma exceção no mundo empresarial dos mercados liberais.



Não será difícil para o leitor imaginar qual é o fim dessa história. Com suas empresas severamente prejudicadas pela ação desse cartel e acumulando um número cada vez maior de dívidas Ramiro teve que retirar-se do ramo da venda de autopeças e sua empresa acabou vendida para uma multinacional estrangeira. Na esfera econômica, viu a sina dos negócios familiares repetir-se: os grandes oligarcas engoliram sua empresa e continuaram tornando-se ainda mais ricos e projetando suas garras país afora. Na esfera social, viu seus trabalhadores e a comunidade prejudicados e sem possibilidade de reação, engolindo as injustiças e as dificuldades, sempre esperando por dias melhores. A cartilha liberal foi seguida à risca.



É evidente pelo relato da experiência de Ramiro -e como o próprio industrial afirma- a existência de uma “máfia”; um cartel estabelecido no ramo de autopeças do Brasil, mas não apenas isso. É possível estender essa experiência para que possamos analisar outros grandes setores da indústria e do comércio no Brasil e no mundo, e entender quais são os verdadeiros “mecanismos” e agentes ocultos que orientam a economia das nações. Cujas únicas preocupações são o próprio enriquecimento e a perpetuação de seu status de elite mundial, à custa, obviamente, da exploração dos povos e de suas culturas.



Estabelecidas e sustentadas pelas estruturas de poder das democracias do Ocidente, as elites ocultas que determinam o rumo das economias nacionais e dos mercados globais continuam a exercer seu poder, fundado nos princípios do liberalismo econômico. Sem o ataque direto ao aparato militar e econômico dos centros de poder será impossível reverter a situação que recai sobre nossas cabeças e afeta a todos, principalmente aos trabalhadores e aos empresários familiares, que estão à base da comunidade. E são esses trabalhadores e empresários -o povo brasileiro- os responsáveis diretos pela tarefa de desmantelar essa teia liberal, infiltrada -através da economia- em todos os aspectos da vida cotidiana, e assim restaurar ao trabalho e ao comércio o lugar e a dignidade que lhes pertence dentro da sociedade.



*Filho de Abraham Kasinski, fundador e dono de uma das maiores empresas de autopeças do Brasil nos anos 90, a COFAP.

Entrevista (em espanhol)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A Parceria Transpacífico (TTP): Economia e Guerra



A Parceria Transpacífico (TPP - Trans-Pacific Partnership) possui como objetivo minar a influência dos países do BRICS. Além disso, o tratado ameaça transformar-se no maior instrumento de influência das corporações multinacionais, não apenas na região, mas a nível mundial.


Nos Estados Unidos, chegou-se a um consenso para o estabelecimento da Parceria Transpacífico. É o maior acordo de livre comércio incluindo a América, Austrália e o sudoeste asiático.


Estas são as doze nações:

Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Singapura, Estados Unidos, Vietnam.

É esperado que sua abrangência alcance um território habitado por 400 milhões de pessoas, representando 40% da economia mundial. O acordo é acompanhado por fortes críticas dos especialistas devido à atmosfera de mistério que o cerca. De fato, o texto do documento ainda não foi publicado.

O estabelecimento da Parceria Transpacífico foi feito em segredo. Ele inclui doze países dos dois lados do Pacífico. O centro, é claro, é ocupado pelos Estados Unidos da América, que busca fortalecer sua influência na região. Não é segredo que no mundo moderno a economia é um dos instrumentos utilizados para alcançar dominação geopolítica. Em primeira instância, o acordo da Parceria Transpacífico é um golpe desferido contra a China.

A Parceria Transpacífico está estabelecida como uma união econômica. No entanto, esse tipo de associação sempre traz implicações geopolíticas. Vamos entender porque foi necessário estabelecer associações naquela região. Doze estados, que entraram na parceria para formar um anel de abrangência transcontinental que se estende do polo Norte ao polo Sul. Incluindo 40% do comércio mundial. Oficialmente, os membros da parceria buscam a derrubada das barreiras comerciais. Porém, vamos observar quais são as consequências dessa união na esfera militar. Um passo importante na eliminação de barreiras – um espaço comum para a aviação civil. Para a comodidade dos voos livres é necessária a criação de uma zona identificada para a defesa aérea comum. Se isso ocorre, os americanos poderão mover-se secretamente pelo extenso espaço aéreo e atacar zonas internas da China, sem aproximar-se da costa do país.

Isso implica cortar os meios de expansão da China em direção ao Sul. Um envolvimento da Malásia na área onde os EUA dominam permite controlar o estreito de Malaca, que serve como rota comercial para a Europa e por onde passa o fornecimento de petróleo para o Japão. Portanto, a China é privada da oportunidade de tornar-se mais forte no pacífico. Finalmente, a Parceria Transpacífico é o próximo passo executado pelos Estados Unidos para ditar sua vontade à Eurásia, e é a chave para conseguir a hegemonia mundial. O controle direto não pode ser obtido nas circunstâncias atuais. O que resta é confiar na artimanha do isolamento. A mais de meio século atrás os americanos construíram uma zona de influência no atlântico e no mediterrâneo. Agora é hora de tentar limitar a Rússia na área do pacífico. Nesse sentido, um cordão é a figura ideal para tentar empurrar e encurralar alguém.

Barack Obama: “Nós precisamos fazer todos os esforços para que os Estados Unidos estabeleça os princípios da economia mundial. Afinal de contas, se não formularmos as regras do comércio internacional, quem o fará? Evidentemente, a China.”

A atmosfera de mistério pode ser explicada. De acordo com especialistas, o acordo irá inevitavelmente destruir o negócio americano, levará ao aumento do desemprego e fará com que os países participantes tornem-se reféns das corporações multinacionais. A história nos relata alguns precedentes. A visita de Nixon à China foi em 1972. Antes que os Estados Unidos tivessem a tarefa de transferir a disputa –que na época era frente à União Soviética-  em direção à China, seu antigo aliado geopolítico. Os americanos investiram energicamente na economia chinesa. O número de americanos empregados na indústria caiu de 25% do total de empregados para 17%. Vinte anos depois a situação ficou ainda pior. Os indicadores caíram para 10%. Isto resultou no encerramento do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio no começo dos anos 90. Muitas das industrias dos EUA transferiram-se para o Canadá e México. O mesmo está acontecendo agora. Porém, na zona de comércio não há apenas um país ou dois, mas doze países. Os EUA sacrificando os interesses de seus próprios cidadãos para satisfazer as ambições geopolíticas de companhias multinacionais.

“O governo dos EUA é uma marionete, que está a favor e serve àqueles que possuem o dinheiro. Os principais acionistas do Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos. Esse acordo, que legaliza a posição privilegiada e os direitos das corporações multinacionais, que, se acordo iniciar-se, irão ditar seus termos aos países.”

A aliança econômica tem como objetivo minar a influência dos países do BRICS, especialmente China, Rússia e Índia. O histórico pacto entre os países do Círculo do Pacífico demonstra o quanto a Índia –apesar de seus esforços para modernizar e abrir sua economia, a terceira maior da Ásia- acabou ficando para trás de seus vizinhos no que diz respeito à derrubada de barreiras comerciais.

A Índia ficou de lado enquanto ocorriam as longas negociações das doze nações que compõem a Parceria Transpacífico, ao mesmo tempo em que as autoridades do país focaram-se em promover outras parcerias comerciais. E ainda, um tratado de investimento entre os EUA e a Índia avançou timidamente enquanto os dois países discutiam à respeito dos direitos de propriedade intelectual e acessibilidade de mercado. Um acordo de livre comércio ficou estagnado por anos, com ambas as partes relutantes em abrir seus mercados agricultores.

À medida que seus maiores parceiros comerciais juntaram-se em blocos com tarifas reduzidas, a Índia arriscou-se a ficar isolada dos principais mercados em um momento em que o Primeiro Ministro Narenda Modi tenta acelerar o crescimento econômico e integrar o seu país nas redes de fornecimento globais.

Além disso, o acordo comercial ameaça tornar-se o maior instrumento de influência de corporações multinacionais, não apenas na região, mas também à nível mundial.

A razão pela qual o povo desses países ditos “democráticos” não saberá dos termos, até que quatro anos tenham se passado nesse acordo secreto, que seus governos assinaram, é que eles terão assinado para autorizar as corporações multinacionais a processar os seus respectivos governos (os pagadores de impostos), potencialmente por cifras assustadoras. Não em uma corte jurídica democrática na qual o público tenha elegido os juízes ou elegido as pessoas que apontariam os juízes. Ao invés disso, serão eleitos três árbitros, selecionados de acordo com algo chamado de “convenção CIADI”, e “a convenção CIADI estabelece que a maioria dos árbitros não deve compartilhar a nacionalidade das partes que discutem a causa” – em outras palavras: a maioria dos árbitros será de origem estrangeira; todos os árbitros, com exceção de um, serão escolhidos por corporações multinacionais, e o árbitro que não for escolhido por estes, não será necessariamente escolhido pelo país em a empresa está estabelecida. De qualquer maneira, apenas um dos árbitros poderá possivelmente ser escolhido pelo país em que a empresa está estabelecida.

Se o árbitro não corporativo acaba sendo selecionado por um país estrangeiro, então o país que disputa a causa não será representado em todos esses processos, que podem estabelecer multas que irão impactar profundamente a nação processada e enriquecer a corporação à frente do processo. Isso não significa necessariamente que a multa, se houver, será maior do que ela deve ser, mas simplesmente que não há contabilidade democrática no processo de determinar qual multa será imposta ao país processado.

Ademais, as decisões tomadas nesse cenário, diferente das decisões dos tribunais -nas quais é possível recorrer à sentença- não serão passíveis de recurso.

Além disso, nessa Parceria do Transpacífico nenhuma nação irá possuir o direito de processar qualquer corporação multinacional, enquanto estas podem, no proceder do acordo, processar unicamente a um governo nacional.

Finalmente, através da criação da Parceria Transpacífico o governo dos EUA está matando dois coelhos numa cajadada só. Por um lado, ele permite que as multinacionais estejam unidas por tempo indeterminado à elite americana. Por outro lado, tenta manter seu lugar como hegemonia global. Liberalismo americano requer sacrifício. E as vítimas são pessoas comuns, como as que saíram para protestar em todos os estados dos EUA, do Oregon à Carolina do Norte. 

Traduzido por Maurício Oltramari, via Katehon

terça-feira, 28 de julho de 2015

Rússia expulsa os alimentos geneticamente modificados


 
Neonnettle: O vice-primeiro ministro russo, Arkady Dvorkovich anunciou que o futuro da agricultura para a Rússia não envolverá GMO (alimentos geneticamente modificados). A Rússia agora tende a focar em melhorar a saúde do solo e em ter a comida mais limpa do mundo.
 
De acordo com WorldTruthTV, a Rússia não importa GMO como fazem os países europeus, nem os faz crescer. Contrariamente aos EUA, a Rússia aprofundou sua preocupação quanto à segurança dos GMO e optou em implementar um moratorium estendido sobre seu uso como parece aos outros, tecnologias mais seguras que não vêm com o risco de nascidos defeituosos, disrupção endócrina e câncer.
 
No recente Fórum Econômico Internacional feito em São Petersburgo, Dvorkovich contou aos ouvintes que a Rússia "optou por um caminho diferente", e que o país "não mais usará tecnologias genéticas em alimentos" que aumentem a produção. O anúncio coincide com as afirmações feitas pelo presidente Vladimir Putin em 2014 sobre a necessidade de proteger os cidadãos russos contra os GMO. 

"Precisamos construir adequadamente nosso trabalho de modo que não esteja contrário às nossas obrigações perante a WTO (Organização Mundial do Comércio, pela sigla em inglês)", afirmou Putin. "Mas mesmo com isto em mente, não obstante temos métodos e instrumentos legítimos para proteger nosso próprio mercado, e sobretudo os cidadãos".

Oficial: GMO causam obesidade e câncer, e não serão tolerados.

Esse é o tipo de coisa que os americanos deveriam demandar dos seus próprios políticos eleitos - uma ênfase sobre proteger as pessoas ao invés dos lucros das corporações - mas, infelizmente, os Estados Unidos olham para os GMO de modo muito diferente. A despeito de todos os riscos envolvidos, os fantoches políticos americanos acreditam que os GMO deveriam continuar a dominar o mercado de alimentos nacional sem que eles próprios sejam etiquetados.

Enquanto isto, a Rússia está rumando para a expulsão dos venenos tóxicos, enfatizando a necessidade de políticas agrárias que tomam uma abordagem precavida às modalidades controversas como biotecnologia que envolvem gens artificiais e pesticidas tóxicos. A vice-presidente da Associação Nacional para Segurança Genética Russa, Irina Ermakova, disse recentemente:

"Foi provado que não apenas na Rússia, mas também em muitos outros países do mundo que os GMO são perigosos. O consumo e o uso de GMO podem levar a tumores, cânceres e obesidade".

O primeiro ministro: Se os americanos querem GMO, tudo bem, mas os russos preferem orgânicos.

O primeiro ministro Dmitri Medvedev também fez algumas chamadas ano passado quando anunciou que a Rússia não mais importaria quaisquer produtos GMO, audaciosamente proclamando que a Rússia tem mais que o bastante de terras e recursos para produzir alimentos orgânicos seguros e limpos, sem qualquer necessidade de alimentos multinacionais e bio-pirateados, além de químicos venenosos.

Ele afirmou, conforme a RT.com, que "se os americanos gostam de comer produtos GMO, deixemos que comam então. Nós não precisamos disto; temos o bastante de espaço e oportunidades para produzir alimentos orgânicos".

Com tudo isso em mente, os "Rússia maligna" da mídia americana se tornou menos convincente. Os estadounidenses serão duramente pressionados a nunca ter um político contra a GMO, como são os líderes russos, e então estes é que são os "bandidos" e os estadounidenses é que são os "mocinhos"?