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domingo, 2 de dezembro de 2018

Alexandr Dugin: "Síria é importante para acabar com a hegemonia ocidental de destruição de países árabes"

Alexandr Dugin (nascido em Moscou, 7 de janeiro de 1962) é um dos grandes ideólogos da Rússia contemporânea. Analista político, filósofo político e historiador de religiões com estreitas conexões com o Kremlin e os militares. É um homem vinculado à alta política há anos sendo, além disso, o grande ideólogo da Quarta Teoria Política, do Neo-eurasianismo, com uma grande e crescente influência e autoridade entre o povo russo, dentro do Kremlin e, cada vez mais, fora da Rússia. Teve a graça de conceder uma entrevista para a Oltracultura.com.
1- Quais foram os desafios internos que Rússia teve que operar, particularmente desde a chegada de Vladimir Putin ao poder depois da década dos anos noventa (a década Yeltsin) na qual a Rússia teve uma brutal crise econômica, viu-se nas mãos de oligarquias ou de países estrangeiros (Estados Unidos enviava grandes quantidades de dinheiro para a Rússia), viu-se com um gravíssimo problema na Chechênia e com grande descrédito internacional. Quais foram os desafios que Putin teve que superar e como se chegou a essa situação tão delicada e perigosa para a Rússia de aberto comprometimento com a grande superpotência internacional que são os Estados Unidos? Como a Rússia se recuperou nestes quinze anos de governo de Putin?
Dugin: Sim, este foi o momento mais difícil, mais dramático da história da Rússia atual. Quando Putin chegou ao poder, foi o momento de mudança total do curso, mas, paradoxalmente, Putin foi posto lá por Yeltsin, não veio de fora do sistema, era membro do grupo dos liberal-democratas de São Petersburgo, trabalhava com Anatoly Sobchak, que era figura simbólica do liberalismo ocidentalista demagógico russo, dos piores; interessante que Putin chegou ao poder não como a alternativa a Yeltsin, mas como o representante de seu sistema, de seu grupo. Desde os anos noventa, [este grupo] era chamado "a família" de Yeltsin, não no sentido de sua família real, natural, mas no sentido da gente, dos oligarcas que sustentavam Yeltsin.
O liberalismo, esta ocupação do país pelo Ocidente, precisamente porque nos anos noventa foi a ocupação... Gorbachov quis fazer um acordo com o Ocidente para deixar a Guerra Fria, mas Ocidente entendeu isto como uma capitulação da Rússia, e a resposta foi a expansão da OTAN, da pressão sobre a Rússia para acelerar seu término, seu fim. Brzezinski declarou abertamente que se deveria destruir totalmente a Rússia. Era a política geral do unipolarismo ocidental nos anos noventa. A elite que chegou ao poder, liberal-democrata, era uma elite pró-ocidentalista que ajudava o Ocidente com a destruição do país, eles venderam quase tudo, e Putin era um deles; é muito importante compreender, entender, o que se produziu no momento de sua chegada ao poder.
Era uma parte deste sistema. Este sistema rumava no sentido da destruição total do país, a posição era fraca, não se pôde opor em nada contra este caminho dos liberais, dos oligarcas, dos traidores, e Putin era parte deste grupo. Mas quando ele chegou ao poder, ele mudou tudo de supetão, completamente. Sendo o homem de Yeltsin desde seus primeiros passos no poder, Putin começou a seguir uma linha completamente oposta à linha de Yeltsin.
Yeltsin não pôde nem quis acabar com a guerra na Chechênia, o que ele quis era continuar colaborando com o Ocidente, e Putin transformou tudo isso imediatamente, com vontade e decisão acabou com a guerra na Chechênia, começou a reconstruir a Rússia, saindo do Fundo Monetário, dos preceitos do Banco Mundial, e começou a reafirmar, reconstruir a soberania nacional da Rússia. Nisso ele foi apoiado completamente pelo povo russo, totalmente; faltava a Putin o partido, a estrutura, a ideologia, a elite também lhe faltava; foi apenas posto pelos liberais, os oligarcas e Yeltsin mesmo, mas mudou tudo, era uma forma.
Não era a oposição que vencera as eleições; pelo contrário, era integrante do grupo de Yeltsin nos anos noventa que se revoltou, depois de chegar ao poder, contra tudo isso e, desde então, começa outra história para a Rússia. A história de Putin com o conservadorismo, a soberania nacional, o patriotismo, com o curso em geral, com a multipolaridade, com a integração do espaço pós-soviético no sistema eurasiático. Uma mudança completa e radical com respeito ao curso de Yeltsin. Putin era o oposto, mas há que compreender que Putin não mudou a elite; a elite é a mesma. É a elite liberal dos anos noventa que não pode se revelar abertamente contra Putin, mas conserva suas opiniões e ideias liberais. Putin não criou outra elite, não criou instituições para o apoio de seu decurso.
Por isso devemos considerá-lo um líder solitário, um Czar solitário, que tem o apoio do povo geral, mas da elite nas instituições não têm qualquer apoio nem mesmo estrutura, exceto talvez o exército, o círculo dos militares, do Estado profundo russo, mas no nível da elite não tem apoio.
2- Há um tema muito interessante, falando sobre os liberais na Rússia, como muitos desses oligarcas como, por exemplo, citando nomes, Abramovitch (que comprou o Chelsea, um time de futebol britânico), como Berezovsky; eles abandonam a Rússia e se refugiam no Reino Unido, assim como Ahmad Zakaev, que foi presidente da Chechênia quando foi independente e que obviamente fugiu da Rússia para o Reino Unido; e do Reino Unido quero falar porque há pouco, há apenas uma semana se difundiu uma notícia sobre uma operação do Estado profundo britânico na Europa, cuja função consistia, precisamente, em evitar através de diferentes lobbys na Europa continental (entre eles Espanha) que a influência russa fosse avançando. Por acaso estamos agora mesmo na Europa, evidenciando o caso da Ucrânia, sobre o qual falaremos depois, por acaso estamos assistindo a uma guerra entre um eixo que é o Reino Unido e os Estados Unidos, de um lado, e a Rússia por outro?
Dugin: Sim, você perguntou muitas coisas em uma só questão; para começar, falemos dos oligarcas. Putin não destruiu os oligarcas, ele apenas fez uma diferenciação, uma divisão entre os oligarcas. Uns aceitaram sua inclinação, como Abramovitch, os outros se revelaram contra Putin, como Berezovsky. Putin não é anti-oligarquista, sua política consiste na promoção dos oligarcas leais à sua inclinação, à ideia da soberania da Rússia; o reconhecimento dos valores conservadores soberanos lhes deixa viver. Os que se revelam contra esta inclinação, contra Putin e os valores que esta inclinação representa, saem do país, como Berezovsky.
Berezovsky foi assassinado, creio eu, pelos britânicos porque quis voltar à Rússia. Ele tinha saudades, pensava que tinha cometido o erro de se mostrar contra Putin, quis voltar e foi assassinado; ele tinha os contatos com os serviços secretos britânicos e americanos, e foi assassinado porque enviou uma carta a Putin com a explicação de sua saudade pela Rússia, com o reconhecimento de seus erros etc. etc., e foi assassinado por isso.
Sobre o Reino Unido agora. A Inglaterra sempre foi o inimigo geopolítico da Rússia, o ponto central do imperialismo anglosaxão, e esta tradição continua. No Reino Unido, recentemente se publicaram documentos que mostram que Reino Unido quis apresentar a Rússia como agressora, apresentá-la também como influenciadora das eleições na Catalunha para destruir a Europa, apoiando os elementos extremistas. Tudo era mentira, tudo era completamente falso e foi organizado com fakenews e propaganda pelos britânicos.
Não creio que as relações com os Estados Unidos sejam muito diferentes das relações com o Reino Unido, porque, apesar de certa simpatia entre Trump e Putin, Trump não pode sair dos limites do atlantismo e da elite americana. A elite norte-americana não deixa Trump se aproximar de Putin e ele entende isto perfeitamente, por isso [Putin] busca o apoio mais a oriente, na China, no Irã, na Turquia e outros países orientais e com alguns representantes conservadores alternativos antiglobalistas europeus de esquerda ou direita. Por isso, apesar de que Putin não faz grandes coisas para o apoio do movimento alternativo no Ocidente, creio que este movimento de esquerda e de direita vê em Putin precisamente este símbolo da luta contra a globalização, o globalismo, contra a hegemonia das elites liberais mundiais que destroem não apenas o mundo asiático, africano ou latino-americano, mas também a própria Europa.
A Europa começa pouco a pouco a se revelar, como os gilets jaunes na França atual. Putin, como o defensor da ordem multipolar, é o inimigo geopolítico do globalismo e da hegemonia americana, e representa um símbolo nesta luta. Os britânicos estão em pânico precisamente porque a autoridade de Putin cresce no mundo e na Europa. A Europa quer um líder como Putin, forte, popular, que defenda a sociedade e que luta contra os que querem debilitar as sociedades. Creio que hoje Putin seja o líder mais popular em toda a Europa; apesar das pretensões dos liberais e dos oligarcas europeus que querem demonizar Putin, ele não é um demônio, é um líder muito querido na Rússia precisamente porque representa o povo, não tanto as elites, mas o povo.
3- Sobre isso eu quis falar. Durante muitos anos na Europa os líderes se encontraram distanciados dos diferentes povos da Europa porque se encontram ao serviço de organizações internacionais, em muitos casos dentro desta ordem mundial também imposta pelo liberalismo estadunidense, falo de presidentes que seguiam diretamente as diretrizes do Banco Central Europeu, do FMI etc...o domínio dos Estados Unidos sobre a União Europeia e, agora, o fato de que Reino Unido saiu da União Europeia também levou a que os países da União Europeia se encontrem sob controle dos Estados Unidos, evita boas relações de dependência entre Rússia e a União Europeia a nível financeiro, a nível econômico, enquanto Europa necessita de recursos naturais que Rússia possui, e Rússia precisa do financiamento que a Europa tem. Essa ruptura, completamente artificial, é devido ao liberalismo vindo dos Estados Unidos, o atlantismo. Qual é a opção que a ideologia, o movimento Eurasiático, que você tem desenvolvido em seus textos para salvar estas relações entre União Europeia e Rússia, oferece?
Dugin: Sim, estou de acordo que Rússia e Europa têm todos seus interesses regionais comuns ao serem aliados, porque a Rússia contemporânea não tem mais ideologia radical comunista ou socialista, não é mais imperialista ou colonialista como nos tempos passados. A Rússia contemporânea é bastante fraca para representar perigo para a Europa.
Essa fraqueza é muito importante para compreender que Rússia não representa perigo, mas que representa a possibilidade positiva, os recursos, grande mercado para os produtos, investimentos, frandes recursos naturais para apoiar a economia europeia. Graças ao desenvolvimento das relações normais, naturais, entre a Europa contemporânea e a Rússia, que não representa mais este perigo para a Europa, lutam com esta elite liberal dos americanos, porque as elites europeias lutam contra os interesses regionais de seus povos, são não tanto antirussos, mas sobretudo antipopulares e antieuropeus estas elites, são traidores dos interesses regionais dos europeus, e por isso querem trazer mais e mais imigrantes para destruir esta classe média europeia e destruir as sociedades tradicionais e democráticas europeias, querem destruir a Europa essas elites, os governantes atuais da Europa não são europeus, não são representantes dos povos.
Macron, Merkel e todos os demais. Creio que com líderes com responsabilidade, que defendam os interesses da Europa, seria necessário um pacto comum com a Rússia, desenvolver as relações. Contra isso estão mobilizadas as forças antieuropeias e antirussas. Querem mostrar a Rússia como o perigo, como o poder autoritário e totalitário, e creio que o problema com a Ucrânia foi criado artificialmente, precisamente para destruir essa imagem (positiva da Rússia) e provocar a guerra civil dentro da Rússia. Nós somos o povo eslavo, cristão, eslavos orientais. Creio que os líderes europeus que apoiaram o Maydan, este golpe de Estado dos ultranacionalistas, ultraliberais ucranianos contra Rússia, quiseram precisamente destruir completamente as relações entre Rússia e Europa.
Sobre a ideologia, a Rússia atualmente não tem qualquer ideologia, não tem ideologia comunista, nacionalista ou liberal. O Eurasianismo, sobretudo a Quarta Teoria Política, está se desenvolvendo como a teoria política do Estado profundo ou da corrente nacional patriótica independente da Rússia contemporânea, porque no nível das elites a Rússia está na situação de confusão com muitos aspectos do liberalismo dos anos noventa, os restos do comunismo e socialismo, e não está organizada intelectualmente, mas o grupo dos patriotas desenvolveram esta ideia do eurasianismo. A teoria do mundo multipolar, a Quarta Teoria Política, fora do liberalismo, fora do comunismo e do fascismo.
(A Quarta Teoria Política) propõe superar estas teorias do mundo moderno para unir a pré-modernidade com a pós-modernidade, a fim de criar uma crítica radical da modernidade ocidentalista. A Europa precisa desta nova ideologia para sair da modernidade política, no interior da qual o liberalismo mostra sua essência niilista, sua essência suicida; porque o liberalismo, depois de vencer o comunismo e o fascismo, mostrou a essência da própria modernidade na Europa moderna, que representa, como disse Heidegger, o niilismo puro, total.
O liberalismo hoje se mostra como a ideologia totalitária que impõe os princípios da correção política como a forma necessária junto com a política de gênero ou a imigração, que não correspondem em nada aos interesses dos europeus normais, concretos. Contra esta ideologia liberal há que lutar, mas sem cair no comunismo ou no fascismo, que são duas formas superadas desta visão antiliberal. Precisamos de uma forma mais atualizada e totalmente diferente, totalmente fora do comunismo e do fascismo, porque ambos são, também, produtos da modernidade, da Europa moderna e do niilismo que operam com os sujeitos artificiais de classe, nação ou raça, que são artificialmente compostos na mesma medida em que o conceito de indivíduo, que é o conceito central do liberalismo.
Não existe, na verdade, indivíduo nem raça nem classe. Tudo isso são abstrações; existe homo, existe o Dasein heideggeriano, existe a existência pensante, a presença pensante como Heidegger dizia. Precisamos construir a Quarta Teoria Política, baseando-a nesta instância nova e ao mesmo tempo eterna.
4- Sobre esta Quarta Teoria Política, e na verdade que foi muito interessante sua resposta, eu gostaria de lhe perguntar: quais seriam as respostas desta Quarta Teoria Política para os problemas que transcorrem agora mesmo na Europa ocidental, por exemplo, respostas do Eurasianismo frente à problemática migratória que está acontecendo agora na Europa, frente aos movimentos homossexuais e feministas histriônicos que estamos encontrando desproporcionalmente belicosos, frente à questão econômica; falo de salários muito baixos, vida muito cara que cada vez mais está destruindo a classe média que, em muitos casos, se perdeu -- qual seria a resposta para estes problemas citadinos concretos que seriam resolvidos pelo Eurasianismo na Europa ou na América Latina?
Dugin: sim, para começar em ordem, primeiramente deve-se compreender que o problema é o liberalismo, o liberalismo é o mal absoluto. Todos os problemas que afetam hoje as sociedades ocidentais provêm diretamente da ideologia liberal, que traz os imigrantes, que destrói a classe média pela política liberal, que faz com que os ricos se tornem mais e mais ricos enquanto os pobres se tornem mais e mais pobres, sem pensar na justiça social, porque o liberalismo leva ideologicamente, dogmaticamente, a ideia da justiça social. Quando não há mais justiça social. Não se deve estranhar que quando aceitamos os liberais de esquerda e direita, a ambos, votamos para que não haja justiça social.
Deve-se entender que a política de gênero também é consequência direta do liberalismo, porque o liberalismo é a ideologia que insiste que devemos liberar o homem, o ser humano, de todos os vínculos com a identidade coletiva. A identidade coletiva da igreja, da nação, mas também a identidade coletiva do sexo, porque o sexo também é coletivo, identidade coletiva. Os homens e as mulheres são tais como são enquanto coletivos, não individualmente. A política de gênero é a política liberal; em breve, o último passo será o de que ser humano também é uma opção, assim como hoje é a respeito do gênero, da nação, da religião. Isso é liberalismo.
Temos o mesmo a respeito dos imigrantes; são indivíduos iguais aos demais, não há qualquer diferença entre os imigrantes europeus tradicionais, aos olhos dos liberais, porque não existe qualquer identidade coletiva (neles). Esta é a ideia dos Direitos Humanos, que é uma forma de ideologia que destrói o ser humano. É uma ideologia totalitária a dos Direitos Humanos, porque insiste sobre a identificação entre os direitos dos cidadãos e a dos não-cidadãos. Desta maneira, os liberais destroem os Estados, as nações e as identidades, destroem os povos.
O povo começa a compreender que se trata de uma forma de política completamente destrutiva e começa a se revoltar, mas não pode encontrar a ideologia correspondente para explicar e dar um apoio a esta revolução, porque a ideologia de direita, o fascismo, perdeu sua luta historicamente e é muito fácil demonizar os que estão a favor do Estado fascista e acabar com eles; a mesma coisa ocorre com os comunistas, socialistas tradicionais, uns são traidores e aceitaram ser liberais como muitas da esquerda tradicional, e os outros são marginalizados como os stalinistas etc. etc.
A esquerda anticapitalista e a direita conservadora perderam a possibilidade de estarem presentes na estrutura política, e não podemos, nem devemos, salvá-los. A Quarta Teoria Política propõe lutar contra o liberalismo sem se apoiar no fascismo ou no comunismo. Como salvar a situação? Por exemplo, deve-se mudar o poder na Europa, deve-se mudar as elites que estão contra o povo, para que o poder seja tomado por um governo popular, como na Itália.
A Itália é um exemplo. Se a elite não quer sair, deve-se organizar os protestos e as revoluções como na França hoje, com os gilets jaunes, mas é muito importante que a exemplo do êxito ocorrido na Itália, a revolução popular dos gilets jaunes na França não seja nem de direita nem de esquerda. O governo italiano está criado com os populistas de direita e os populistas de esquerda, a fim de criar o populismo integral; os gilets jaunes também não são de esquerda ou de direita, são os representantes do povo. A Quarta Teoria Política quer dar o apoio ideológico, a doutrina ideológica, para que o povo se revolte contra as elites; tudo deve ser mudado, todo este dogmatismo liberal, em todos os aspectos, na economia, na política cultural, na política de gênero, mas não deve ser o retorno para trás, e sim o passo em direção ao futuro.
Podemos imaginar a vida depois do liberalismo, depois dos liberais, depois do fim do dogmatismo e do totalitarismo contemporâneo. Podemos encontrar respostas fáceis para salvar a situação, porque a raiz do problema está precisamente no liberalismo. O liberalismo deve ser aniquilado completamente, os liberais não porque não são responsáveis. Precisamos lutar contra a ideologia, contra a ideia, mais que contra a pessoa; não deve ser brutal, deve ser a mudança ideológica e política acima de tudo, e só depois podemos salvar o problema de quem deve governar, não as identidades dos políticos, dos grupos ou partidos, mas as ideias. Precisamos começar com as ideias e mudar o idealismo.
Somente depois poderemos salvar os problemas, quando os liberais deixarem de estar em seus cargos; enquanto nada puder ser mudado, nada absolutamente, este sistema não tem a possibilidade de evolução. Insistirá sobre seus princípios, imigração ilimitada, política de gênero mais extremista, o enriquecimento dos mais ricos até o momento último da catástrofe; esta elite catastrófica leva a Europa ao abismo; para salvar a Europa desta situação devemos destruir o liberalismo, não os ideais, mas a ideologia e a dogmática.
Com isso, também, devemos entender que as raízes desta situação está na modernidade política europeia, o modernismo; a modernidade que destruiu os vínculos com a tradição, o sagrado, a identidade profunda europeia era o começo do fim.
5 De fato, temos visto, durante um tempo, tentativas por parte de diferentes organizações internacionais vinculadas a serviços secretos ocidentais de introduzir esta ideologia na Rússia com a mão das famosas Pussy Riot, por um lado, FEMEN por outro. De fato, FEMEN foi um dos elementos desestabilizadores nos protestos contra Viktor Yanukovitch. Em chave geopolítica, como poderíamos ler a situação na Ucrânia, a ruptura da Ucrânia, a aparição do Estado da Novorrússia, por um lado, e, por outro, a reintegração da Crimeia ao território da Federação Russa, as relações diplomáticas e de inteligência entre Rússia e Europa, isto é, entre Quarta Teoria Política e liberalismo?
Dugin: Na Rússia, os que se opõem a Putin diretamente, como o Pussy Riot ou outros, não representam o perigo, não são perigosos, são muito pouco conhecidos e sua importância é exagerada demais no Ocidente, são nada. Pussy Riot não representa coisa alguma. Neste sentido, nós chamamos isto de quinta coluna e não representa perigo; um perigo maior representa a sexta coluna, que são os liberais que estão em torno de Putin e que não compartilham de seus princípios, seu conservadorismo ou a ideia da soberania. Eles calcularam que não é possível se voltar contra ele diretamente, sem Putin não é possível conservar sua posição, por conformismo são leais, porém são os representantes da rede ocidentalista-liberal pró-atlantista e representa mais perigo do que a quinta coluna.
A quinta coluna não representa tanto perigo, já a sexta sim é perigosa de verdade. Contudo, mais perigosa é a forma geopolítica. Por exemplo, o fato de que temos vencido a situação na Chechênia não apenas com armas, mas que propusemos aos chechenos uma lealdade à Rússia e, ao mesmo tempo, permitimos que conservassem e desenvolvessem sua própria identidade islâmica e étnica etc. etc.
Kadyrov é leal a Putin, não por sua servidão, mas, pelo contrário, pelo cálculo lógico de que Putin é a única possibilidade de assegurar a independência e a identidade dos chechenos, e porque o Ocidente nunca poderia assegurar o mesmo porque está contra a religião, a tradição, a etnicidade e a cultura tradicional. O Ocidente utiliza as minorias para destruir as grandes identidades, mas depois de destruir as grandes identidades, as grandes nações, acabará com as pequenas, após usar os pequenos nacionalismos contra os grandes nacionalismos. Os chechenos entenderam isto perfeitamente, são leais baseando-se no entendimento de seu futuro, porque são tradicionalistas, são muçulmanos, querem conservar sua identidade, e a Rússia, tradicional, eurasianista, permite esta possibilidade.
O que acontece na Ucrânia? Na Ucrânia, a situação é muito difícil, porque, depois do Maydan, começou a guerra civil entre os povos irmãos, que são dois ramos do mesmo povo dos eslavos orientais, pequenos russos e grandes russos. É catastrófica a tragédia organizada pelos ocidentais atlantistas e os elementos extremistas da Ucrânia ocidental; depois da reunificação com a Crimeia e a declaração de independência das repúblicas do Donbass, a situação é muito, muito difícil. Não é a vitória do eurasianismo, a Quarta Teoria Política, não, de modo algum; é uma tragédia, porque a maioria da Ucrânia permaneceu sob o controle da junta de Poroshenko, dos pró-ocidentalistas liberais e neonazistas ucranianos, e a maioria da população sofre esta pressão de Kiev.
Nós libertamos uma parte pequena da Ucrânia, mas seria muito melhor não libertar, e sim ter uma Ucrânia integral, inteira e unificada, porém neutra ou aliada da Rússia. Não obstante, depois do Maydan não era possível contar com sua neutralidade ou amizade, e era necessário realizar os passos que Putin fez, embora não fosse o ideal. Devo reconhecer que teve muitos erros por parte da própria Rússia, que não entendia a importância da Ucrânia e que não desenvolvera uma política efetiva para salvar a Ucrânia como um país neutro ou irmão. A situação de hoje não é boa para os dois povos, porque não corresponde à visão natural, nem é harmônica, porque a Ucrânia está separada internamente.
Estão os que aceitam a junta e os que estão contra a junta ucraniana, que hoje declarou o estado de emergência e a militarização plena em sua guerra contra a Rússia. Mas é uma provocação, porque Poroshenko perde suas posições e não há qualquer possibilidade de ser reeleito, por isso precisa de um estado de emergência para salvar sua posição política; mas, apesar disso, nada está de verdade decidido na Ucrânia, a situação catastrófica está congelada, mas não está, ainda resolvida.
6- O papel de Lukashenko foi muito interessante nas conversações entre Rússia e Ucrânia. Mas me chama muito a atenção uma coisa, e eu gostaria de perguntar sobre isso, e é o fato de que com Crimeia, a Rússia assegura uma posição de superioridade no Mar Negro, porém, realmente, também Sebastopol é o início de uma rota muito interessante que termina em Tartous, na Síria. Estaríamos dizendo que Sebastopol era necessário para assegurar o interesse russo tanto no Mar Negro quanto no no leste do Mediterrâneo, e para poder ter uma rota segura para a Síria, a fim de ajudar o presidente legítimo Bashar al Assad dentro da guerra que está lutando contra os mercenários e grupos terroristas pagos pelo Ocidente?
Dugin: Sim, acredito precisamente nisto, e que a Síria era necessária não apenas para assegurar os interesses estratégicos da Rússia, mas também para acabar com esta hegemonia ocidental de destruição de países árabes; era necessária para poder fim ao unipolarismo, porque os americanos destruíram Afeganistão, destruíram Iraque, sem quaisquer explicações, e depois interviram na Líbia e mataram o presidente Gaddafi, depois começaram a fazer o mesmo no Egito e na Síria.
Era necessário, era absolutamente necessário acabar com isso e demonstra que existem outras potências que não estão de acordo com estas maneiras de intervir onde bem entenderem, matando líderes, querendo impor sua visão vem perguntar as população, criando massas de refugiados, imigrantes, criando o caos, governar com o caos. Rússia interveio na Síria não tanto para assegurar seus interesses nacionais egoístas, mas para pôr fim ao caos organizado ou manipulado que os Estados Unidos e o Ocidente, os liberais globalistas usaram em toda parte com as revoluções coloridas, com as redes apoiadas pelo fanático, totalitário, maníaco, terrorista Soros, cuja organização Open Society é criminosa. Ele apoiou feitos ilegais e se trata de uma organização terrorista, sendo reconhecida em alguns países como organização terrorista, George Soros é mais perigoso que Bin Laden.
É o perigo à estabilidade dos países, à liberdade, à lei, e deve ser julgado. Deve ser preso e julgado por seus feitos, seu apoio ao terror e às mortes da gente, milhões de pessoas que são vítimas das revoluções organizadas com seu apoio, suas redes, seus grupos de influência e financiados por este grande capitalista, é um criminoso número um.
Isso acontece na história: se começas a lutar contra Hitler, pouco a pouco surge um Hitler em ti mesmo. Esta velha história da transformação do herói que luta contra o dragão e se converte ele mesmo em dragão. Soros é a demonstração desta forma de loucura, porque seu antifascismo e anticomunismo pouco a pouco se tornaram fascistas e comunistas, totalitário. Sua luta contra o totalitarismo é totalitária e se transformou na nova forma de totalitarismo. Por isso creio que nossa intervenção na Síria foi a intervenção contra esta forma de governo pelo caos imposta aos países árabes pelo Ocidente.
E era o caminho necessário para a afirmação da ordem multipolar das coisas, e Putin é a forma e a garantia não tanto para o presidente Assad, mas também para todos os povos árabes para elegerem. Podem optar pelos Estados Unidos, pela Rússia ou pela China, com isso obtêm a liberdade de escolha, creio que a Rússia se torna mais e mais o polo mais atraente, simpático quase a todos os grupos no mundo. Os árabes eu vejo, mais e mais, os representantes dos países muçulmanos que vêm para Moscou para encontrar com os representantes russos e estabelecer contatos conosco, e estão muito interessados na Quarta Teoria Política, no Eurasianismo e na Teoria do Mundo Multipolar.
7- De fato, isso explica as boas relações entre a Rússia e outro Estado do Oriente Médio, como o Irã. É mais para os muçulmanos em geral o exemplo da Chechênia como comentávamos há pouco, o respeito que se oferece desde Moscou em relação a Grozny, e como Ramzan Kadyrov responde a este respeito com uma lealdade total. Pois também está penetrando nos países islâmicos, porque, obviamente, a diplomacia russa é muito mais sofisticada, muito menos agressiva que a norte-americana ou liberal, mas, ao mesmo tempo, consegue muitas más coisas; ganha a adesão destes países e, para is terminando, gostaria de perguntar sobre George Soros e sua implicação nesta onde de imigrantes que atravessaram os balcãs desde a Turquia e chegaram no centro da Europa, falamos de entre um e dois milhões de pessoas. Como Soros instrumentalizou este problema dos refugiados e como ele e certos serviços de inteligência penetraram em países europeus e nos submeteram a seus planos de introdução destes refugiados que vêm de fora da União Europeia?
Dugin: Seria, a meu ver, um erro identificar gentes como George Soros como estando a favor do islã e que desejam desenvolver ou fortalecer a influência muçulmana na Europa. Soros é o inimigo jurado de todas as religiões e tradições, dos valores verticais transcendentes do cristianismo, do islã, mas também do judaísmo, porque Soros está muito mal visto em Israel também.
Soros é um fanático dogmático do liberalismo que quer destruir todas as identidades coletivas, todas. Precisamente o livro que é mais caro a Soros é o livro de Karl Popper, que Soros considera seu mestre, que se chama "A Sociedade Aberta e seus Inimigos"; os inimigos da sociedade aberta é a gente que tem religião, pátria, identidade, consciência de classe, nação, valores tradicionais. Todos são representantes para esta ideia do liberalismo radical extremista, eles são os inimigos.
Para destruir a Europa com os valores tradicionais e sua identidade, Soros quer, praticamente, organizar esta corrente de imigração artificial para destruir a identidade europeia, mas com os imigrantes, que representam outras sociedades tradicionais religiosas como islã e outras tradições. Os curdos tradicionalistas, e tenho visitado o Curdistão, são profundamente tradicionalistas, mas quando chegam na Europa, os curdos, afegãos, árabes, africanos, sírios, todos, todos perdem sua identidade e começam a se dissolver em sociedade pós-moderna, liberal, de gênero, perdem sua religião ou transformam esta religião na forma radical, na caricatura do islã.
Porque o islã, sem o ambiente cultural oriental, se transforma em uma caricatura, um simulacro. Precisamente esta é a ideia de Soros e suas redes, destruir ambas as identidades. Destruir a identidade da sociedade europeia com os imigrantes de identidades opostas ou diferentes, e assim também destruir a identidade dos povos tradicionais do Oriente, como muçulmanos principalmente, ou ainda africanos, com esta confusão na sociedade pós-moderna europeia. Depois de voltar da Europa para seus países, os imigrantes levam com eles também os aspectos desta pós-modernidade que destrói sua identidade. Soros quer destruir todas as sociedades tradicionais, todas as identidades coletivas, porque a identidade coletiva é o inimigo maior da sociedade aberta.
É seu fanatismo, mas Soros é muito forte que representa parte do governo mundial, sua força não é tanto seu dinheiro, mas seus princípios liberais. O liberalismo é uma ideologia criminosa, e Soros é um dos manipuladores, por detrás dele estão Rothschild, Rockefeller, os grandes monopólios globais, o governo mundial que em sua campanha eleitoral Trump declarou que esta era a coisa mais poderosa, maior que o presidente dos Estados Unidos. A organização é mais forte que os Estados Unidos, seu exército... sua estrutura é mundial, a seita dos globalistas, e Soros é um dentre os quais controlam toda a terra atualmente.
Por isso têm também relações com os serviços secretos, governos e chefes dos Estados que são seus escravos. Macron foi posto por Rothschild, Macron é um algoritmo. O homem é um servo, uma forma de ordenador, é virtual, criado por gente como Rothschild e Soros, por isso a maioria dos deputados europeus estão pagos por Soros, para promover a agenda de destruição das identidades coletivas, por isso é muito perigoso.
Os povos não são livres até o momento em que este governo mundial caia, precisamos lutar todos contra este governo em todos os países. Temos o governo italiano, temos na Hungria a Orban, temos Vladimir Putin com o apoio do povo russo, temos Irã, temos em novo curso Erdogan, temos a grande China que representa a potência, a segunda economia do mundo, que rechaça e nega esta hegemonia unipolar, este globalismo ocidental. Temos Trump, Bannon, temos a revolução da América profunda que se mostrou nas eleições de Trump, temos muito, mas não devemos subestimar sua força atual.
Os grupos do Soros são muito poderosos, podem influenciar os governos. Tenho esperança de que um dia na Espanha também apareça a frente populista comum entre a direita populista e a esquerda populista, mas precisará superar o antifascismo e o anticomunismo, porque servem aos liberais para dividir entre os populistas de direita e de esquerda, portanto em luta comum contra os liberais, os populistas podem ter vitória.
8- Para ir terminando, por exemplo, desde a frente liberal, desde a União Europeia, existe uma tendência de alarmar a população sobre o papel da Rússia, sobre a infiltração da Rússia na U.E., o papel da Rússia no movimento de extrema direita, movimentos de extrema esquerda, no nacionalismo catalão etc...., mas quando nos atemos aos fatos, vemos que o peso dos lobbys em Bruxelas recai sobre os Estados Unidos, apenas Rússia tem presença em Bruxelas ou Londres. Temos que ver, por exemplo, que a União Europeia está fagocitada pela CIA e pelo MI6. Ao mesmo tempo, qual é a maneira que a Rússia terá de aumentar sua presença na Europa Ocidental? por exemplo, temos o canal Russia Today, mas essa presença da Rússia aumentando na Europa Ocidental não pode fazer com que os liberais busquem uma guerra com a Rússia, que estão desejando-a, atendendo aos fatos que estamos vendo com a expansão da OTAN em direção a leste, a presença da OTAN na Estônia, Letônia e Lituânia e a situação na Ucrânia?
Dugin: Sim, é tradicional para os criminosos dizer que as vítimas são os criminosos eles mesmos, por isso os serviços secretos britânicos que se ocupam das fakenews, de acusar a Rússia de intervir nas eleições, apoiar os movimentos radicais. São eles que fazem estas coisas, que se ocupam da desinformação, da propaganda, das provocações etc. etc. isso é tradicional.
Eles querem fazer da Rússia o monstro ou o inimigo, dizendo que a Rússia quer dominar a Europa Oriental e Ocidental etc. etc., todos estes mitos existem para não mostrar diante dos olhos dos europeus o verdadeiro inimigo, que são os liberais. Querem mobilizar a consciência europeua contra a Rússia porque não representa qualquer perigo, não representa tampouco a salvação nem a alternativa, entretanto, o que é seguro é que a Rússia não representa perigo.
Se não representa o perigo, qual é o grande problema? Pois é o governo que é completamente incapaz de satisfazer os interesses dos povos, e Rússia não têm nada que ver com tudo isso, por isso creio que os europeus conscientes devem compreender que se trata de propaganda pura, mas não de propaganda russa, porque os russos não estão promovendo propaganda. Russia Today e outros meios dizem mais verdades, mas não se trata de propaganda. Não dizem que Rússia é o melhor de tudo ou que as ideias da Rússia devem ser aceitas pelos demais, nada que ver com a propaganda liberal, a propaganda comunista ou fascista.
A Rússia se defende com esses meios e também mostra outra versão, outra posição, não é propaganda. É muito neutro. Creio que importa compreender mais e mais uma coisa: o que de fato a Rússia pode ser -- não é amiga da Europa ainda, não é inimiga nem o perigo. O perigo maior são os liberais. Depois de entender isto, amar ou odiar a Rússia não importa nem para os russos nem para os europeus. A Rússia é uma civilização à parte, ao lado.
Pode provocar interesse, simpatia, amor, ou pode ser totalmente indiferente para os europeus, mas qual é a verdade concreta? que Rússia não representa perigo. Não quer e não pode invadir a Europa ou submeter a Europa Oriental, não temos tantos desejos ou capacidades. Não queremos e não podemos fazer isto. Não somos mais comunistas nem imperialistas, somos russos que queremos defender nossa identidade e nossa soberania nacional -- e isso é tudo.
Isso é mais importante, mas é verdade que, depois disso, o problema europeu se tornará totalmente diferente, o problema serão os liberais, o governo mundial da maneira que não corresponde aos interesses de seus próprios povos. Por isso creio que não são o problema os grupos extremistas. Os verdadeiros extremistas são a gente do Soros, são os liberais que organizam e utilizam, às vezes, estes grupos como utilizam o radicalismo islâmico, wahabismo, salafismo, fundamentalismo, muçulmano para chegar a seus próprios interesses e ter a razão de intervir em todos os países para desestabilizar a situação nas sociedades. Eles são os verdadeiros criminosos, a Rússia é o poder neutro que luta para sobreviver e pelo mundo multipolar -- não bipolar, mas multipolar, o que é muito importante.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Sexo com o Vento: Sobre Rituais de Fertilidade na Rússia Pagã

Em Небесные Жены Луговых Мари [Esposas Celestiais dos Prados de Mari], o cineasta Aleksey Fedorchenko explora os rituais ocultos e práticas de fertilidade de uma tribo pagã nos Urais Russos.

Uma mulher estende uma roupa branca e azul no chão coberto de folhas do outono. Então ela põe três pães redondos, três ovos, alguns chocolates em embalagens brilhantes e farfalhantes, e estaca uma vela. "Mãe do Nascimento, ajudai-me", diz ela. "Retira minhas marcas de nascença, elas me tornam feia". Esta é a cena de abertura do filme de Aleksey Fedorchenko, Esposas Celestiais dos Prados de Mari, uma exploração dos costumes antigos do povo Mari e uma das mais cativantes narrativas femininas do cinema contemporâneo russo.

Os Mari são um grupo fino-úgrico que vive na parte oriental da Rússia Ocidental: principalmente na República Mari e em torno das Montanhas Urais no Bashkortostão e no Tatarstão. Eles não são uma minoria isolada por quaisquer motivos - no censo russo de 2010, mais de 574.000 pessoas se identificavam como Mari - mas suas histórias são em geral esquecidas da narrativa oficial russa como país branco, eslavo e cristão ortodoxo.

Não é a primeira fez que Fedorchenko trabalha com religiões e culturas tradicionais. Seu criticamente aclamado filme Almas Silenciosas, nomeado pela Golden Lion como melhor filme no Festival de Filmes de Veneza em 2010, centrou em torno de rituais antigos de sepultamento aquático da extinta tribo russa Meriana. Fedorchenko se baseia nessas sutis, pessoais e ainda inacreditáveis e poderosas histórias de seu colaborador, o escritor Denis Osokin. Esposas Celestiais dos Prados de Mari é baseado livro de novelas homônimo de Osokin. O filme é compilado por 23 histórias de 23 mulheres - uma exploração às vezes tocante, às vezes hilária da sexualidade e do comportamento social, das tradições e rituais ainda amplamente praticados pelo povo de Mari.

A realidade e a mágica estão proximamente entrelaçadas na cultura Mari: a grande altaneira bétula pode amaldiçoar e perdoar, pães e pássaros são sacrificados aos deuses em bosques sagrados, mulheres fazem sexo com o vento, jovens meninas têm de soprar um tubo especial no topo de um penhasco para celebrar a chegada do seu primeiro período. Conversamos com Fedorchenko antes das filmagens em Londres em 2 de Dezembro.

Broadly: Qual foi seu primeiro contato com a cultura Mari?
Aleksey Fedorchenko: Eu primeiro trabalhei com a cultura Mari quando fazia o filme Shosho [2006]. O filme é feito em língua Mari e poderia ser chamado de Maridos Celestiais dos Prados de Mari. É sobre os homens Mari, karts [líderes religiosos] e sacerdotes dos bosques sagrados. Todas as partes foram filmadas com sacerdotes reais. Para uma visão completa esses filmes deveriam realmente ser apresentados juntos.

Como você se preparou para as tomadas? Você ficou muito tempo nas vilas Mari?
Quando filmamos Shosho moramos na vila de Shorudzha, é o principal enclave do paganismo na Europa. É na Mari El (República), e os mais fortes shamãs, karts e sacerdotes vivem lá. Ficamos lá por um tempo tentando pegar a primavera, essencial para o filme. Quando chegamos era menos de 40ºC, e quando deixamos havia grama fresca. Quando chegamos para filmar o Esposas Celestiais todo mundo já nos conhecia, encontramos o principal kart da República e ele nos abençoou para o filme.

Vocês participaram em algum ritual?
Claro. O filme mostra rituais reais que ainda são praticados. O bosque sagrado com o sacrifício de gansos, a vigília - participamos em todos esses. Todos foram fascinantes. É um mundo mágico que existe muito perto de nós, completamente esquecido. É o bastante dirigir alguns quilômetros - e você termina em um universo completamente diferente. A TV nos dá falsos estereótipos, nos conta que para ver algo diferente você precisa viajar milhares de milhas. Na verdade, é só ir para o interior.

Os costumes mostrados no filme são autênticos?
São todos autênticos, e certos costumes são de mais de cem anos.

A cultura de Mari está sendo transmitida para a geração jovem? Há risco de um declínio gradual?
A cultura Mari data de milhares de anos e seu fio não foi interrompido. O único momento em que algo pode ter sido perdido foi durante os anos 1970 e 1980, quando o governo soviético ativamente lutou contra o culto. No momento, o interesse nas crenças tradicionais está crescendo. Há uma dupla fé na República de Mari, o povo vai tanto às igrejas ortodoxas como nos bosques sagrados. O paganismo Mari é muito tolerante; eles aceitam tudo. Muitas pessoas vêm para uma grande reza pública - mais de 5.000. São principalmente os mais velhos, mas há famílias e jovens também. Eu amo essas grandes rezas, são como grandes celebrações. O paganismo, entretanto, é ainda exótico e não é para qualquer um.

Para os papeis principais no seu filme você elencou não apenas atrizes, mas mulheres reais do povo Mari.
Sim, há atrizes russas, atrizes Mari e mulheres que não são atrizes profissionais. Eu pus junto pessoas diferentes, mas todas atuaram na língua Mari.

Você pensa que as narrativas femininas tem o bastante de presença no cinema russo contemporâneo?
Não acho, mas há diferentes tipos de narrativas. A mídia pega uma imagem feminina que é apenas de três a cinco porcento de toda diversidade da beleza feminina. Meu interesse é mais amplo, ampliar os limites e mostrar diferentes tipos de beleza, diferentes mulheres. Por ora não é muito representado. A maioria das atrizes jovens parecem realmente idênticas, então eu dificilmente vou às agências.

A imagem predominante da Rússia construída pela mídia não é tão diversa: cristã ortodoxa, eslava, branca. O paganismo e toda a diversidade das religiões não são representados. O que você pensa disso?
A verdade é que a Rússia não é totalmente ortodoxa e não apenas eslava. O território onde o povo eslavo vive hoje pertence às nações fino-úgricas e foram assimilados pelos russos, então no final das contas é mais sangue finlandês do que eslavo. O impacto do cristianismo ortodoxo é raso; penso mesmo para pessoas que creem em Deus, é muitas vezes um deus pagão e rituais pagãos. Na verdade todos os rituais ortodoxos são baseados no paganismo. A Páscoa, o Natal, a Comunhão, as relíquias sagradas - é tudo muito pagão e é o motivo de ser tão amado.

Nota do blog: não compartilhamos da visão parcial e quase depreciativa do cineasta em relação aos eslavos e à Ortodoxia, tampouco com a superficial visão histórica de que a Rússia pertence aos fino-úgricos, motivo, aliás, por ter sido divulgado amplamente em Londres, que deseja ver uma Rússia dividida. Ficou claro, no entanto, como as tradições até mesmo pagãs são tão importantes para a Ortodoxia, com a atual valorização e o crescimento da importância que as tradições dos povos pagãos recebem de um país cuja base é cada vez mais ortodoxa.

domingo, 6 de setembro de 2015

Jihadistas chechenos deixam Síria e juntam-se a Kiev


 Não é de se surpreender: jihadistas do Estado Islâmico, grupo terrorista financiado pelos Estados Unidos e que saiu do controle de seus tentáculos (aqui, aqui e aqui), e que se opõem à Rússia nos confrontos chechenos, estão saindo da Síria e rumando para a Ucrânia (cujo governo também é financiado pelos Estados Unidos), onde se supõe com isto uma reunião de forças por parte da OTAN em uma possível Terceira Guerra Mundial. Com o exército de Assad tomando controle do território sírio, os terroristas são realocados para outro ponto de atuação: governo de Kiev, ou o Praviy Sektor, batalhão neonazista também financiado pela OTAN, e que também está saindo de controle do governo de Kiev. A reportagem abaixo se trata de uma entrevista a um terrorista jihadista que fala um pouco sobre o deslocamento de forças islâmicas para lutar pelo Ocidente, por aqueles que supostamente desejam destruir.
"Morte separatista", escrito na faca
 [Anna Nemtsova para o Daily Beast]Um batalhão de combatentes do Cáucaso é entregue a Kiev na Guerra da Ucrânia. Contudo, a sua presença pode causar mais estrago do que auxiliar.

MARIUPOL, Ucrânia – Apenas a uma hora de distância dessa cidade sitiada, em um antigo resort localizado no mar de Azov*, que hoje é uma base militar, militantes da Chechênia – veteranos jihadistas em suas próprias terras e, mais recentemente, na Síria – agora servem no que é chamado de Batalhão Xeique Mansur. Alguns deles afirmam terem sido treinados, pelo menos, no Oriente Médio junto a combatentes do conhecido Estado Islâmico, ou EI.

Em meio às forças desiguais que se alistaram na luta contra os separatistas da região oeste da Ucrânia, Donbass, apoiado pela Rússia, poucos são mais controversos e mais nocivos para a reputação da causa que eles dizem querer servir. O Presidente russo Vladimir Putin adoraria apresentar os combatentes que ele apoia como cruzados enfrentando perigosos jihadistas, ao invés do governo Ucraniano que pretende integrar intimamente o país com a Europa Oriental.

Ainda assim, muitos ucranianos patriotas, desesperados para conquistar terreno na luta contra as forças apoiadas pela Rússia, estão dispostos a aceitar os militantes chechenos para seu lado.

Ao longo do último ano, dezenas de combatentes chechenos cruzaram a fronteira da Ucrânia, alguns de maneira legal, outros de maneira ilegal, e em Donbass encontraram-se com o Pravyi Sektor, uma milícia de extrema-direita. Os dois grupos, com dois batalhões, possuem muito pouco em comum, mas eles compartilham um inimigo e compartilham essa base.

O Daily Beast conversou com os militantes chechenos sobre o seu possível apoio ao Estado Islâmico e os seus afiliados no Norte do Cáucaso, que agora é chamado de Estado Islâmico e Emirado do Cáucaso e é considerado uma organização terrorista tanto pela Rússia quanto pelos Estados Unidos.

Os combatentes chechenos declararam-se motivados com a chance de lutar contra os russos na Ucrânia, a quem eles chamam de “invasores do nosso país, Ichkeria”, outro termo para designar a Chechênia.

De fato, eles estavam aborrecidos com as autoridades ucranianas por não terem permitido a entrada de mais militantes chechenos vindos do Oriente Médio e das montanhas do Cáucaso. O batalhão Xeique Mansur, fundado em outubro de 2014, “precisa de reforços”, eles afirmam.

O homem que os chechenos deferem como o seu “emir”, ou líder, é chamado “Muslim”, um nome de batismo comum no Cáucaso. Ele relatou como cruzou a fronteira ucraniana no ano passado: “Levei dois dias para atravessar a fronteira ucraniana, e as autoridades que controlam a fronteira atiraram em mim,” ele disse. Ele vive tranquilamente nessa base militar, mas está indignado porque um número maior de seus recrutas não pode chegar até ali. “Três dos nossos chegaram vindos da Síria, e quinze ainda estão esperando na Turquia” ele disse ao Daily Beast. “Eles querem abraçar o meu caminho, querem juntar-se ao nosso batalhão agora mesmo, mas as autoridades que patrulham a fronteira ucraniana não estão deixando que eles entrem”.

Muslim mostrou um pedaço de papel com o nome de outro checheno que está vindo juntar-se ao batalhão. O bilhete escrito à mão relata que Amayev Khayadhzi foi preso na Grécia no dia 4 de setembro de 2014, e agora poderia ser deportado para a Rússia. (na Grécia, o advogado de Khayadhzi contou ao Daily Beast via telefone que há uma chance de seu cliente ser transferido para a França, onde está sua família).

“Outros dois amigos nossos estão presos e ameaçados de deportação para a Rússia, onde eles ficariam presos por toda a vida ou seriam mortos por Kadyrov”, Muslim contou ao Daily Beast, referindo-se ao aliado de Putin e presidente da Chechênia, Ramzam Kadyrov.

O comandante apontou a um jovem militante próximo a ele: “Mansur veio para cá da Síria”, disse Muslim. “Ele utilizou o EI como base de treinamento para aprimorar as suas habilidades em combate”. Mansur esticou a sua mão direita, que estava desfigurada, segundo ele, por um ferimento de artilharia. E outros dois projéteis continuam cravados em suas costas, ele relatou.

“Sem fotografias”, Mansur sacudiu negativamente a sua cabeça quando um jornalista tentou tirar uma foto sua. Nem de sua mão, e nem de costas: “Minha religião não permite isso”.

De fato, para demonstrar que são perigosos, armados, e que seu número estava crescendo, esses chechenos postaram uma fotografia na rede social russa Vkontakt, que em realidade é controlada pelo governo russo. Porém, muitos deles tiveram seus rostos censurados, provavelmente para evitar processos, seja na Rússia ou no Ocidente.

“Kadyrovtsy [Kadyrov] conhece meu rosto e minha mão muito bem”, Mansur explicou ao Daily Beast.

Mansur disse que não teve de correr ao longo da fronteira sendo alvejado por balas como Muslim. “Nós conseguimos chegar a um acordo com os Ucranianos”, ele relatou.

A chegada de combatentes chechenos pró-Ucrânia do estrangeiro ajudou a aliviar os problemas de imigração dos chechenos já residentes na Ucrânia, os militantes explicaram.

Kadyrov enviou alguns de seus chechenos para lutar no conflito ao lado dos russos no ano passado, disse Muslim, e como resultado “havia um risco temporário de algumas famílias chechenas serem deportadas da Ucrânia... mas desde quando nós começamos a chegar aqui em Agosto do ano passado, nenhum checheno vivendo na Ucrânia teria razões para reclamar”.

Os ex-combatentes da Síria estavam indo para a Ucrânia porque estavam desapontados (ou horrorizados) pela ideologia do EI?

“Nós estamos lutando contra a Rússia há mais 400 anos; hoje eles [os russos] explodem e queimam vivos os nossos irmãos, juntamente com suas crianças, então aqui na Ucrânia nós continuamos lutando nossa guerra,” disse o comandante. Muitos chechenos hoje na Ucrânia relembraram a guerra da Chechênia nos anos 90 como uma guerra pela independência, que foi reconhecida por um breve período, e depois revogada.

Desde então a guerra no Cáucaso transformou-se em terrorismo, vitimando aproximadamente mil civis, muitos deles crianças, em uma série de ataques terroristas. E independentemente do inimigo em comum, isso se apresenta como um sério problema para Kiev, se ela aceitar receber esses combatentes.

“O governo ucraniano devia estar ciente de que os islâmicos radicais lutam contra a democracia,” diz Varvara Pakhomenko, uma especialista do International Crisis Group. “Hoje eles aliam-se com os nacionalistas ucranianos contra a Rússia, amanhã eles estarão lutando contra os liberais.”

Pakhomenko disse que algo similar aconteceu na Geórgia em 2012 quando o governo de lá foi acusado de cooperação com radicais islâmicos da Europa, Chechênia, e do Pankisi Gorge, uma região habitada por chechenos na Geórgia.

Para os observadores internacionais cobrindo o terrorismo na Rússia e no Cáucaso nos últimos quinze anos, a presença de radicais islâmicos na Ucrânia soa de maneira “desastrosa”, disseram ao Daily Beast os membros do International Crisis Group.

Não obstante, muitos ucranianos e oficiais em Mariupol apoiam a ideia de contratar mais milicianos chechenos. “Eles são guerreiros corajosos, prontos para morrer por nós, eles são amados, e da mesma maneira serão todos aqueles que nos protegerem da morte,” relatou Galina Odnorog, um voluntário que abastece os batalhões com equipamento, água, comida e outros itens. Na noite anterior as forças ucranianas contabilizaram seis soldados mortos e mais de uma dúzia de feridos.

“EI, terroristas – qualquer um é melhor do que nossos líderes preguiçosos,” disse Alexander Yaroshenko, deputado do conselho legislativo local. “Eu me sinto mais confortável ao redor de Muslim e seus rapazes do que com o nosso prefeito ou governador.”

O batalhão do Pravyi Sektor, que coopera com os militantes chechenos, é uma lei em si mesmo, no que diz respeito às suas ações, e frequentemente está fora de controle, tendendo a incorporar qualquer um em suas fileiras, de acordo com a própria vontade. Em julho, duas pessoas foram mortas e oito ficaram feridas em uma batalha entre a polícia e o Pravyi Sektor, houve troca de tiros e granadas. Na segunda-feira, militantes do Pravyi Sektor provocaram batalhas nas ruas do centro de Kiev, deixando três policiais mortos e mais de 130 feridos.

Ainda assim, o governo de Kiev está considerando a transferência do Pravyi Sektor para uma unidade especial do SBU, o serviço de segurança ucraniano, o que fez com que muitas pessoas questionassem se a milícia chechena irá juntar-se às unidades do governo também. Até agora, nem o batalhão do Pravy Sektor nem o batalhão de milicianos chechenos estão registrados com as forças oficiais.

Na Ucrânia, que continua perdendo dezenas de soldados e civis toda semana, muitas coisas podem sair fora do controle, mas “seria inimaginável permitir que os atuais e os ex-combatentes do EI viessem a participar de qualquer unidade controlada ou apoiada pelo governo” diz Paul Quinn-Judge, principal conselheiro do International Crisis Group na Rússia e na Ucrânia. “Seria politicamente desastroso para a administração de Poroshenko: nenhum governo Ocidental em sã consciência aceitaria isso, e seria um enorme presente para a propaganda do Kremlin. O governo ucraniano estaria melhor servido promovendo as suas decisões para encaminhar o EI de volta para a fronteira”.

*N.T. – A autora refere-se ao tempo do trajeto percorrido de carro entre os dois lugares.

Traduzido por Maurício Oltramari e revisado por Portal Legionário

Dostoievsky: Racionalismo Demoníaco

Em seu trabalho Dostoievsly e a Metafísica do Crime, o sociólogo dr. Vladislav Arkadyevich Bachinin analisa a aparentemente única correlação contraditória entre o racionalismo iluminista e o surgimento de forças infernais na obra Os Demônios de Dostoievsky. Segue abaixo:

A Razão Imoral de um Automaton Vivo

Pyotr Verkhovensky, o cínico sangue-frio que facilmente ultrapassa quaisquer obstáculos morais, representa um tipo especial de criminoso, ao qual é aplicável a metáfora de "homem-máquina".

Na França de 1748, o livro de Lematrie sob aquele título foi lançado. Seu autor molda o homem como uma máquina auto-regulada que se move por linhas perpendiculares. Na concepção de Lametrie um ser humano foi a direta semelhança a um relógio ou cravo, e ao mesmo tempo uma necessidade natural. Mas possuindo instintos, sentimentos e paixões, ele é privado de uma alma. Lametrie assumiu que o termo alma carecia de qualquer substância essencial qualquer que seja. O mundo no qual o homem-máquina habita é antropocêntrico; não há lugar para Deus. A realidade é arranjada de acordo com os princípios da mecânica newtoniana, e o mundo se apresenta como um conglomerado mecânico de elementos inanimados. Os processos naturais e sociais são movidos por uma e mesma força mecânica.

A filosofia da racionalidade mecânica se abre como único resultado da evolução do racionalismo clássico. A eliminação de todo conteúdo metafísico prepara o fundamento tanto para a chegada do positivismo quanto para a realização de planos a fim de construir a futura sociedade estritamente racionalizada com parâmetros calculados inteiramente sob o controle de uma vontade diretora. O homem-máquina e o Estado-máquina, que precisam um do outro, surgem como algo que lembra as razões télicas de Aristóteles, e direta e gradualmente determinarão o desenvolvimento de esquemas antropocêntricos positivistas.

De acordo com a pintura mecanicista do mundo, sempre existe a ameaça de deformações intencionais nas estruturas da ordem cósmica. Objetivamente existem possibilidades de violação da medida e da harmonia, da destruição da ordem e ascensão do caos. Um assassino pode realizar a possibilidade objetiva da morte que existe para sua vítima. Um ladrão ou bandido é capaz de realizar a possibilidade objetiva de alterar valores materiais no espaço social de umas mãos para outras, etc. Ou seja, fica apenas para o homem aplicar certos esforços para a possibilidade de desintegração das estruturas existentes, seu movimento para a realidade. Em tempos as forças mecânicas foram suficientes para isto. Ademais, quanto maior o grau de mecanismo de tais empresas, menor o espiritual, ético, religioso e de outros componentes similares, e mais efetivas provarão ser as ações destrutivas.

Dostoievsly tem a filosofia do homem-máquina aplicável primeiro e acima de tudo aos caracteres que representam o prático homem de negócio junto de tipos comerciais do modelo ocidental, i.e., a tais homens como Luzhin, Rakitin, Epanchin, Totsky, Ferdyschenko, etc. Indiferentes à realidade metafísica, eles subscrevem aos "ideais de Geneva" de Rousseau permitindo a possibilidade da "virtude sem Cristo". Imersos no orgulho de uma existência sem graça, prosaica e pragmática, "tendo ouvidos, eles não ouvem, e tendo olhos eles não veem". Tudo que vem de cima, das esferas da realidade metafísica, não chega às suas almas, e portanto estão imersos na escuridão da ignorância e incompreensão das coisas mais significativas da vida. Os pensamentos e sentimentos destes "Bernardos" carregam um caráter mundano e não diretamente dirigidos além. Eles não gostam de pensamentos abstratos, considerando um passa-tempo inútil. Para eles, como para Lametrie, Deus e a alma são magnitudes de falsa moral. Para eles todo o mundo habita no estado "desencantado" de um gigantesco conglomerado de elementos inanimados. Em nenhum deles Deus brilha faiscante. Todos estes homens são espiritualmente máquinas vivas empobrecidas, doentes, no entanto, por uma mão misteriosa, mas como Lev Shestov diria sobre eles, não são conscientes que suas vidas não são vidas, mas mortes.

Em suas descrições Dostoievsky expôs sua crítica da mente longe-da-limpeza, inteiramente imunda e imoral, mais precisamente a razão banal e básica "euclidiana" que é que são surdos à metafísica das morais absolutas, a mente que vê na alma "só vapor", que é governada por razão fria solitária e vê todo o mundo como aglomerado de ferramentas para alcançar seus insípidos objetivos.

Entre os espécimes do homem-máquina replicados por Dostoievsky, Pyotr Verkhovensky representa o exemplar mais odioso. Ele é calculista, impiedoso, e está pronto a ir toda a distância para alcançar seus objetivos, sem parar diante das mais vis infâmias e crimes.

A realidade criminal, dentro do que existe a verdade de Verkhovensky, o "eu", é distinguida por características tais como um duro distanciamento de outros mundos valorativos, e acima de tudo do mundo dos absolutos religiosos, morais e das leis naturais. Em segundo lugar, inerente a isto está uma aguda tensão nas relações com a realidade valorativa oficial. E sua terceira particularidade é uma vulnerabilidade para o desmaio, explicada pelo fato de que por toda sua posição antagônica, aspira copiar as estruturas das realidades legais em seu próprio estilo. Assim como o mal parodia Deus, tentando imitá-lo, o mundo criminoso busca, por toda sua natureza caricatural de seus esforços, reproduzir estereótipos normativo-valorativos dos mundos legítimo e sacro, tentando adquirir vitalidade adicional a seu custo.

Não é acidental que o assassinato de Chatov em Os Demônios traz as marcas de um sacrifício ritual. Juntamente com isto toma a forma de uma monstruosa paródia de um ritual antigo: ao invés da solenidade de um rito sagrado, há a imunda baixeza de toda a cena; ao invés da aberta oficialidade, há a covardia, o ato secretamente cerrado; ao invés de clamar em favor de forças superiores, há um jogo sobre elementos obscuros do mal, uma comiseração de todos os participantes do assassinato através do sangue derramado da vítima e do medo mútuo de um diante do outro.

O Espaço Normativo da Associação Político-Criminoso

Verkhovensky deliberadamente forma um espaço normativo-valorativo de "moralidade" corporativa-criminosa com princípios ásperos de auto-organização e auto-preservação. Ele requer aquela atitude de membros associados para que suas tarefas e objetivos sejam extremamente sérias, sem permitir ceticismo, auto-ironia ou crítica. Violadores são imediatamente punidos. Violência aplicada preenche uma função protetora, atuando como meios de soldadura e auto-defesa para seu micro-mundo artificial.

À parte da similaridade na estrutura e nas formas da atividade político-criminosa e organizações puramente criminosas, entre as duas há distinções essenciais. E assim, se os fins últimos de um grupo criminoso são limitados à resolução de tarefas mercantis auto-interessadas, então os fins das associações político-criminosas ultrapassam os limites dos interesses mercantis e são orientadas em direção ao alcance de domínio político, através do qual os membros da associação passam a uma posição de elite reinante.

Se criminosos associados, como regra, não emitem um desafio ao Estado e ao sistema estatal, mas preferem lidar com cidadãos individuais, uma associação político-criminosa audaciosamente caminha a um antagonismo com o poder estatal e suas instituições.

Se um grupo criminoso representa uma única forma de "coisa em si" e não esconde seu egoísmo corporativo, então uma associação político-criminosa mascara seus interesses fundamentais com a cortina de fumaça de mentiras sobre os interesses do povo que supostamente concernem a ele.

A última circunstância, notada por Dostoievsky, permite homens tais como Verkhovensky recrutar apoiadores não apenas do espectro de "perdedores" pouco-educados e fanáticos com um desejo doente por intrigas e poder, mas também envolver jovens com bom coração, mesmo que com "vibrações" nas suas visões. O fato da última provar-se genuinamente trágica, desde que estes encrenqueiros confidentes, que estudaram o lado magnânimo do coração humano e foram capazes de mexer em suas cordas como se fosse um instrumento musical, ultimamente transformaram estes jovens em criminosos.

Dostoievsky lamentava que a juventude contemporânea, em caminho da maturidade de firmar convicções e dureza morais, estava indefesa contra o "demonismo". Entre muitas unidades materiais elas dominam uma ideia superior, e uma educação genuína é substituída por estereótipos de negação impúdica através da voz de alguém, da insatisfação e impaciência. Como resultado "mesmo o menino honesto e puro, mesmo aquele estudioso, poderia de repente se tornar um Nechaevita... ou seja, de novo, se ele se cruzasse com Nechaev..." (21, 133). Para tais garotos, os atos criminosos de Nechaev e Verkhovensky se pintam como proezas políticas.

As transformações fatais que tomaram lugar nas almas de muitos "garotos russos" foram facilitadas por um "momento de tormentas", que forçou a civilização russa em primeiro lugar calmamente, e depois mais rápido, a escorregar por uma superfície lisa rumo ao caos.

"Em minha novela Os Demônios", escreveu Dostoievsky, "eu tentei expressar aqueles vários e diversos motivos pelos quais mesmo o mais puro dos corações e a mais sincera pessoa pode ser levada a cometes a mais monstruosa vilania. O terror está em que aí pode-se fazer a coisa mais infâmia e horrível, algumas vezes completamente sem ser um canalha! E não é algo apenas entre nós, mas por todo o mundo é assim, sempre e no início das eras, durante tempos de transição, em tempos de descontrole na vida das pessoas, de dúvidas e negações, ceticismo e instabilidade nas convicções sociais fundamentais. Mas temos mais do que em qualquer lugar, e especialmente em nossos tempos, e esta característica é a característica mais dolorosa e triste de nosso tempo presente. Na possibilidade de ver a si mesmo, e até mesmo, quase por vezes,  como uma questão de fato, não como um canalha, ao trabalhar em uma abominação clara e indefensável - eis nossa tragédia contemporânea!" (21, 131).

Racionalidade de "Máquina" de um Programa Político

Verkhovensky, possuindo um poder forte e mecanicamente voluptuoso, encontrou um programa político mecanicista que corresponde à sua natureza. Suas posições básicas remontam aos seguintes pontos:

- Um novo tipo de Estado com formas predominantemente totalitárias de governo é necessário.
- Este Estado deveria manter seus súditos em constante terror, sem cessar, conduzindo a vigilância de todos "a qualquer hora e a qualquer minuto".
- Desde que gênios, talentos e indivíduos admiráveis representam uma ameaça ao poder dos "líderes-máquinas" por sua natureza extraordinária, todas as pessoas serão levadas a um nível padrão de desenvolvimento através de terror ideológico e político, no curso do qual Cícero terá suas línguas cortadas, Copérnico seus olhos arrancados, Shakespeare amarrado em pedras, etc.
- Para o decreto deste programa, é necessário começar com a total destruição de tudo, na prática levando à transição da ordem ao caos.

Dois vetores uniram-se nesse programa político-criminoso - a racionalidade "de máquina" dos vilões desalmados com a irracionalidade demoníaca dos maníacos em fúria.

Um dos paradoxos mais impressionantes da personalidade de Verkhovensky é aquela combinação surpreendente do "tipo máquina" com um entusiasmo maníaco por destruição. Isto concede à figura do demônio político um caráter especialmente sinistro. Com a direta participação da insensível "máquina" em produzir desordem, eventos na novela tomam a forma de uma vindoura tempestade, um caos entronado, quando uma dúzia de assassinatos e suicídios são cometidos, ao lado de muitas lutas de loucura e fogo grandioso de um incêndio. Como resultado, o mundo fechado no quadro da novela começa a se parecer com um monstruoso covil de bestas, onde há ausência de amor e misericórdia, onde há somente lutas impiedosas de todos contra todos.

Dostoievsky viu uma das fontes desse caos nas mentalidades filosóficas de conteúdo racionalista, materialista e ateu que penetraram [na Rússia] do Ocidente. Caindo em solo russo, as doutrinas de Darwin, Mill, Strauss e outros representantes do pensamento "progressivo" europeu, como regra foram tomados na consciência eslava, não experiente de tantos séculos de escolas filosóficas, como axiomas filosóficos adamantinos. Ademais as conclusões práticas foram frequentemente tiradas deles, conclusões de possibilidade das quais os professores ocidentais não suspeitavam.

Claro, o conhecimento positivo não diretamente ensinou qualquer vilania. E se Strauss, Dostoievsky nota com ironia explícita, negou e brincou com Cristo, por sua vez ao homem e à humanidade ele demonstrou o amor mais carinhoso e desejou o futuro mais radiante.

Mas então isto é o que me parece indubitável - dar a todos estes professores superiores contemporâneos a completa oportunidade de destruir a antiga sociedade e construir uma nova - então virá uma tal escuridão, um tal caos, algo tão cru, cego e desumano, que toda a construção colapsaria sob o curso da humanidade antes que ele pudesse ter sido completado. Uma vez rejeitado Cristo, a mente humana pode chegar aos resultados mais espantosos. Isto é um axioma. A Europa, pelo menos nas representações superiores de seu pensamento, rejeita Cristo, e como é sabido, estamos obrigados a imitar a Europa. (21, 132 - 133)

Para Dostoievsky, a atividade valorativa-orientadora e prática-transformadora da consciência moral, legal e política deve ser fundamentada em princípios do teocentrismo. Ele dissemina o espírito da Teodiceia sobre todas as esferas da vida social e espiritual, sem exceção. A consciência legal ocidental é predominantemente antropocêntrica, e como regra não aceita fundamentos normativos-valorativos religiosos ou metafísicos.

Estes fundamentos são desnecessários para o homem-máquina, que descobre por suas ações que a imoralidade aberta, o crime e o maquiavelismo político são tudo de uma e mesma natureza. Todas elas começam com a negação dos princípios superiores do ser, dos valores e normas absolutos.

via souloftheeast

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

EUA assumem agora o lado fascista na história


Em uma celebração em Pequim na quinta-feira, dia 3 de setembro de 2015, marcando o aniversário de 70 anos da liberdade chinesa do agressor Japão logo do final da Segunda Guerra Mundial na China, os Estados Unidos conspicuamente evitaram de se posicionar ao lado de seu antigo aliado da Segunda Guerra, a China, que foi um dos aliados pró-democracia durante a guerra, e ao invés disso retrospectivamente mudou de lado, para o lado do antigo eixo dos poderes fascistas, entre eles Japão e Alemanha.

A diplomacia internacional está duramente focada no simbolismo historico, algo que qualquer um que está envolvido em diplomacia internacional entende. A diplomacia internacional é constantemente sobre história, e sobre fazer historia; esta é a natureza dessa profissão; e o simbolismo histórico neste evento diplomático em particular foi claro: os EUA retrospectivamente deixaram o lado anti-fascista dos Aliados, e mudaram para o lado do Eixo; os EUA agora se identificam com as nações do Eixo da Segunda Guerra - os agressores. Os EUA não mais se identifica com o lado das nações que foram agredidas.

A BBC, reportando as preparações da China para o evento, referiu-se à "notável ausência dos líderes ocidentais" da lista de pessoas que aceitaram os convites. "A parada serve a um papel duplo: uma reflexão sobre o passado e um sinal para o futuro. Os discursos dos oficiais chineses sobre os horrores do passado chinês - humilhação histórica nas mãos de poderes coloniais - estão diretamente ligados aos atuais interesses chineses sobre soberania e integridade territorial, incluindo os Mares Oriental e Sul chineses. Em um nível visceral dentro da sociedade chinesa, é impossível separar o passado do presente". A reportagem ainda fechou reconhecendo a resolução do presidente chinês, Xi Jinping, de "proteger os interesses essenciais da China". Esta é uma referência simpática e não de todo hostil, no fim de um artigo. A captação da BBC de uma foto que era similarmente honesta, e sem qualquer coloração propagandística do então planejado evento: "A parada comemora o que a China chama de 'Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa'". É de fato como a China a chama, e como de fato foi; e a BBC estava honestamente apresentando a perspectiva chinesa sobre uma parte momentânea da história chinesa. Os comuns noticiários anti-chineses e anti-russos do Ocidente não estavam presentes nesta admirável reportagem da BBC.

Então, na quinta, 3 de setembro, o dia do evento, a agência de notícias oficial da China, Xinhua (agora chamada "Nova Agência de Notícias da China", a fim de enfatizar o rompimento da China com relação à posição marxista-leninista dos tempos da Guerra Fria) manifestaram que "Xi chama os países a lembrar da história e perseguir o desenvolvimento pacificamente", e suas notícias abriram:

O presidente chinês Xi Jinping disse na quinta que todos os países deveriam tomar lições da história da Segunda Guerra e buscar um desenvolvimento pacífico.

Xi fez as observações enquanto saudava uma grande parada militar para comemorar o aniversário de 70 anos da vitória da Guerra de Resistência do Povo Chinês Contra a Agressão Japonesa e a Guerra do Mundo Anti-Fascista.

"É nossa sincera esperança que todos os países adquiram sabedoria e força da história, persigam pacificamente o desenvolvimento e trabalhem juntos para abrir um futuro promissor de paz mundial", disse ele a mais de 800 convidados chineses e estrangeiros.

A vitória da China na guerra foi um grande triunfo vencido pelo povo chinês em luta, ombro a ombro, com seus aliados anti-fascistas e com os povos em todo o mundo, disse ele.

"Como o principal cenário oriental da guerra anti-fascista, a guerra chinesa de resistência fez uma crítica contribuição para a vitória de todo o mundo", acrescentou Xi.

"Nenhuma força é maior que as que trabalham juntas em uma mente" ele disse, notando que durante a guerra, pessoas de todos os aliados anti-fascistas e outras forças em torno do mundo uniram mãos na luta contra seu inimigo comum.

"Nós os chineses nunca esqueceremos o incalculável apoio dado pelos países amantes de paz e justiça, pessoas e organizações internacionais, à nossa luta contra os japoneses agressores."


A reportagem descreveu a visão de Xi para o futuro da China:

Com uma memória dolorosa do passado, disse Xi, que o povo chinês têm persistentemente se comprometido em um caminho de pacífico desenvolvimento e uma estratégia de abertura em que todos ganham.

"Uma China mais forte e mais desenvolvida significará uma força mais forte para a paz mundial", disse o presidente.

O Jornal de Notícias Econômicas Alemão, em reportagem, notou:

Muitos líderes se abstiveram de participar na parada militar - a fim de não ofender os EUA entre outros aliados do Japão. A Alemanha e os EUA enviaram apenas seus embaixadores. O único líder da União Europeia lá era o presidente da República Tcheca, Milos Zeman. O muito criticado na China, conservador de direita, primeiro ministro japonês, Shinzo Abe, negou o convite para o memorial à vitória da resistência chinesa.

Então, quem esteve lá? Quem de fato aceitou o convite?

Entre os aproximadamente 30 convidados estatais foram Vladimir Putin, os Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, o Presidente Park Geun-hye da Coreia do Sul, que também sofreu com as agressões japonesas. Na parada também marcharam em torno de 1000 soldados de 17 países como Rússia, Cuba, Kazaquistão, México, Paquistão e Sérvia.

Em outras palavras, este evento, que foi sobre Segunda Guerra, teve uma lista atendida que refletiu, ao invés da Segunda Guerra, a Guerra Fria - guerra entre o capitalismo e o comunismo - embora o comunismo esteja hoje completamente morto e só deixou vestígios na simbologia geopolítica, que já se apagam. A ideologia contra a qual os EUA travou a Guerra Fria deveria, portanto, agora ser ignorada, não mais tratada como se a Guerra Fria estivesse ainda viva e fosse ainda o foco central da política externa dos EUA. O foco desta Guerra Fria dos EUA sobre o evento da Segunda Guerra é doente, especialmente na era das ameaças reais dos jihadistas islâmicos ao redor do mundo, uma ameaça real tanto para o Oriente quanto para o Ocidente. Essa Segunda Guerra Fria pode produzir uma Terceira Guerra Mundial, uma guerra nuclear global. Para quê? Sobre o quê? Não sobre terrorismo islâmico. Mas isto é, apesar de tudo, o que os líderes dos EUA estão procurando: restaurar a Guerra Fria, depois de todo senso decente para uma coisa dessas foi deixada de lado. Um artigo de Xinhua foi mancheteado "Poucos no Ocidente se lembram do papel da China na Segunda Guerra: especialista de Oxford", e abriu: "Poucos no Ocidente se lembram do fato de que a China foi o primeiro país a entrar no que se tornou a Segunda Guerra, e foi um aliado dos Estados Unidos e da Grã Bretanha logo depois de Pearl Harbor até a rendição do Japão em 1945, disse um especialista de Oxford".

CCTV America mancheteou em 25 de agosto "China divulga lista de líderes mundiais a atender a parada do Dia da Vitória", e notou: "repórteres na conferência mostraram interesse sobre os líderes que não atenderão ao convite da celebração".

O BRICS Post reportou que, "Com exceção da presidente brasileira, Dilma Rousseff, que está lutando contra a oposição doméstica, os líderes dos Estados do BRICS são esperados a atender a parada chinesa no próximo mês para fortificar laços".

O Portal Matutino do Sul da China, na mais minuciosa de todas as reportagens sobre a lista dos que atenderão, mancheteou "Apenas os 'amigos verdadeiros' da China atenderão à parada de aniversário ao passo que os líderes-chave ocidentais e Kim Jong Un não estarão lá". A reportagem afirmou: "O único chefe de Estado ou governo da União Europeia é o presidente Milos Zeman da República Tcheca. O primeiro ministro Shinzo Abe do Japão não atenderá, embora o antigo primeiro ministro japonês Tomiichi Murayama atenderá. Pyongyang [Coreia do Norte] mandará seu membro Politburo, Choe Ryong-hae. Os EUA, o Canadá e a Alemanha enviarão representantes das suas missões diplomáticas na China [alguém da embaixada], enquanto a França e a Itália enviarão ministros estrangeiros". No entanto, o antigo primeiro ministro britânico, Tony Blair, também atendeu, como fez o presidente Vladimir Putin da Rússia e Park Geun-hye da Coreia do Sul.

Em outras palavras: os EUA, Canadá, Alemanha e Coreia do Norte enviarão os representantes de níveis mais baixos; a República Tcheca, a Coreia do Sul e a Rússia enviaram o de maior nível; e França, Itália, Bretanha e Japão ficaram no meio. China é um dos países do BRICS, assim é natural que os BRICS enviem representantes de nível maior. A Coreia do Norte enviou apenas um membro da Politburo, isto indica que Pyongyang está profundamente insatisfeita com o grau de apoio que a China alcançou recentemente. Japão enviou um antigo primeiro ministro, isto mostra que o governo japonês realmente não quer outra guerra entre dois gigantes econômicos da Ásia: é uma concessão extraordinária do país cuja derrota foi celebrada no evento.

A lista de convidados é um livro completo de informação sobre onde as coisas realmente estão na estrutura das relações internacionais. É um estatuto histórico, sobre o presidente, bem como sobre o passado. O simbolismo pode não ser tão descaradamente claro como palavras, mas é tão mais significativo, porque é a realidade crua, que palavras podem representar apenas (ou talvez até confundir). Claramente, a administração de Obama fez de tudo que pôde para apoiar as potências antigamente fascistas, Japão e Alemanha, contra a China, retrospectivamente, nesta ocasião. Japão é menos disposto que a Alemanha para andar junto ao esforço da Alemanha para reconstruir relações mundiais sobre a fundação da Segunda Guerra com os EUA tendo mudado 180 graus para se tornar agora o poder líder fascista (substituindo o que a Alemanha foi). A Itália também não tende a abraçar inteiramente o papel dos EUA como líder fascista mundial. Assim, também, o Reino Unido não tende inteiramente a aceitar (a aliança EUA-RU está se esgaçando). A Coreia do Norte está aparentemente junto dos EUA apenas por causa da sua relação com a China. Coreia do Sul é mais interessada em não ofender a China do que contribuir a fortalecer a relação de vassalo que tem com o fascista EUA. É extraordinário, mas isto se fortalece enquanto a Coreia do Norte enfraquece os laços com a China.

No entanto, ao passo que os EUA adota uma liberdade simbólica do nazismo, como faz com o financiamento do Praviy Sektor na Ucrânia e de grupos neonazistas por todo o mundo, sua ideologia continua liberal. EUA precisam desesperadoramente de homens fortes que lutem por seus interesses, e não há nada de mais inteligente do que apoiar grupos neonazistas para que façam o trabalho sujo e manter o controle à distância. Na Ucrânia, todavia, estes grupos, que caíram na armadilha de George Soros e outros, estão gradativamente percebendo o erro, e se voltando contra o governo de Kiev em favor do qual lutavam, passando para o lado anti-EUA, dos separatistas pró-russos.

parte deste artigo foi retirado de estrategicculture