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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A Mulher como um Símbolo de Cristo

Nosso Senhor descreveu-Se como uma mulher porque as mulheres são mais cuidadosas que os homens com sua propriedade ao manter a casa em ordem e ao receber os visitantes.
 
As Dez Dracmas:
O Senhor na Imagem de uma Mulher
Você pode acreditar que Cristo, o Salvador, retratou-Se na imagem de uma mulher em duas de Suas parábolas? Uma é a da mulher que tomou três medidas de farinha e fez massa. Mas antes falemos de outra, em que o Senhor nos conta sobre a mulher que tinha dez dracmas e as perdeu. Estas são as mais misteriosas de todas as parábolas do Salvador. Já que a parábola das dracmas perdidas é curta, citamo-la por inteiro.

Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas e perder uma, não acende a lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente até encontrá-la? E encontrando-a, convoca as amigas e vizinhas, e diz: 'Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma que havia perdido!' (Lucas 15:8-9).

À primeira vista essa parábola parece simples, ou até mesmo ingênua, que não impressiona o leitor da Bíblia. Na verdade, no entanto, o mistério do universo é revelado nessa simples parábola.

Se a tomamos literalmente, ela evoca espanto. A mulher perdeu apenas uma dracma. Mesmo dez dracmas não representam uma grande soma; na verdade, a mulher que tem apenas dez dracmas deve ser de fato muito pobre. Vamos assumir, antes de tudo, que o ato de encontrar a dracma perdida significa um grande ganho para ela. Assim, ainda apresenta um paradoxo, pois como é que uma mulher tão pobre acende lâmpadas, varre a casa e chama todas suas amigas e vizinhas para compartilhar da sua alegria? E tudo por causa de uma dracma! Que perda de tempo acender uma vela e pôr a casa em ordem! Além disso, se ela convida suas amigas ela é obrigada, de acordo com o costume oriental, a oferecer a eles algo para comer e beber, um custo nada baixo para uma pobre mulher. Falhar nisso seria ignorar um costume inalterável.

Um outro ponto importante a notar-se é que ela não convidou apenas uma mulher a quem ofereceria doces, que não envolveria tanto custo. Mas ela convidou muitas amigas e vizinhas, e, mesmo se ela as divertiu modestamente, o custo excederia muito o valor da dracma que ela encontrou. Por que então ela deveria procurar a dracma tão cuidadosamente e alegrar-se ao encontrá-la, apenas para perdê-la de novo de outra forma? Se tentamos entender esta parábola em sentido literal, não se enquadra no nosso cotidiano, mas deixa a impressão de algo exagerado e incompreensível. Então tentemos descobrir seu sentido místico e oculto. Quem é a mulher? E por que é uma mulher e não um homem, quando é mais comum um homem perder dinheiro na rotina? De quem é aquela casa que ela varre e preenche com luz? Quem são suas amigas e vizinhas? Se olhamos para o sentido espiritual da parábola ao invés do literal, devemos encontrar a resposta para aquelas questões. O Senhor disse: buscai e achareis.

A mulher representa o próprio Jesus Cristo, o Filho de Deus. As dez dracmas são Suas. É Ele Quem perdeu uma delas e parte em busca dela. As dracmas não são moedas de ouro ou prata. De acordo com os teólogos ortodoxos, o número dez representa a completude. As nove dracmas não perdidas são as nove ordens dos anjos. O número de anjos está além do conhecimento dos mortais, pois excede nosso poder de cálculo. A dracma perdida representa a humanidade em sua totalidade. Portanto Cristo, o Salvador, desceu dos céus à terra, para Sua casa, e acendeu uma vela, a luz de Sua sabedoria. Ele limpou a casa - ou seja, Ele purificou o mundo da impureza diabólica - e encontrou a dracma perdida, a humanidade errante e perdida. Então Ele chamou Seus amigos e vizinhos (depois Sua gloriosa Ressurreição e Ascensão), ou seja, todas as incontáveis hostes de querubins e serafins, anjos e arcanjos, e os revelou Sua grande alegria. Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma que havia perdido! significa: encontrei homens para preencher o vazio do Reino dos Céus, causado pela queda dos anjos orgulhosos que se apostaziaram (esqueceram e distanciaram) de Deus. No fim do tempo o número dessas almas encontradas e salvas se tornaram bilhões, ou, na linguagem da Escritura, serão incontáveis como as estrelas no céu e como a areia na praia.

Nosso Senhor descreveu-Se como mulher porque as mulheres são mais cuidadosas que os homens ao olhar por sua propriedade, ao manter a casa em ordem e receber as visitas. Se esta curta parábola, que consiste de apenas duas frases, é explicada desse modo, qual coração não estremece? pois ela contém toda a tragédia do mundo, visível e invisível. Ela explica por que o Filho de Deus veio à terra. Ela lança um raio branco de luz sobre a história da humanidade e sobre a tragédia da existência individual de cada um. Ela nos confronta com uma decisão urgente, porque nossa vida é uma rápida passagem de uma decisão de se queremos ser a dracma perdida encontrada por Cristo, ou não. Cristo nos busca. Esconder-nos-emos dEle ou deixamos que Ele nos encontre antes que a morte nos esconda dEle, do mundo e da vida?

É uma questão vital e ela está dentro de nossa vontade de aceitá-lo ou rejeitá-lo. Depois da morte deixará ela de ser uma questão aberta, e então ninguém mais esperará uma resposta de nós.

Três Medidas de Farinha

E de novo Jesus disse, "A que compararei o Reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado" (Lucas 13:20-21).

Esta é outra das misteriosas parábolas de Cristo que muitos acham difícil de entender. O tema real tomado do cotidiano é simples e claro. Desde os tempos mais antigos as esposas eram padeiros; elas tomavam a farinha, colocavam-na em bacias, preparavam fermento, amassavam a massa e a assavam. Esta era uma tarefa diária da esposa no Oriente e no Ocidente por milênios. Mas aconteceu que ninguém tomou este simples trabalho como figura ou símbolo do Reino dos Céus. Apenas o Senhor Jesus Cristo, para Quem nada era muito simples e desimportante, tomou esta tarefa e a usou para explicar algo estupendo e extraordinário. Ele poderia pintar-Se como Sua própria mãe no trabalho.

Colocarei as seguintes questões ao leitor da Bíblia. Por que Cristo toma a mulher como Seu exemplo, ao invés do homem, quando os homens foram padeiros durante séculos? E por que o fermento, quando pão sem fermento também era comum? E por que a mulher toma três medidas, e não uma ou duas ou quatro? Finalmente, que conexão ou semelhança há entre o Reino de Deus e o trabalho de cozinha de uma esposa?

Se essas questões não podem ser respondidas, como podemos entender a parábola? Agora, respondê-las sem uma chave espiritual levaria somente a dificuldades. Todas as parábolas lidam com o superficial, mas seu significado real está nas profundezas. Elas apelam ao olho e parecem bastante óbvias, mas elas referem-se ao espírito e ao espiritual.

Essa parábola tem uma dupla interpretação espiritual. A primeira tem que ver com as três raças principais da humanidade, a segunda com as três faculdades ou poderes principais da alma humana. Em suma, o que é excelente e incomum nessa parábola é o processo histórico e pessoal da salvação humana.

Depois do Dilúvio, provieram dos filhos de Noé (Sem, Cam e Jafé) três raças da humanidade: os semitas, os camitas e os jafetitas. Estes são as três medidas de farinha nas quais Cristo pôs Seu santo fermento, o Espírito Santo. Significa que Ele veio como Messias e Salvador para todas as raças e nações da humanidade, sem exceção. Assim como uma mulher, com fermento, pode transformar a farinha em pão, Cristo, através do Espírito Santo, transforma os homens normais em crianças de Deus, em habitantes imortais do Reino dos Céus. Este é o motivo, de acordo com o ensinamento ortodoxo, de homens santos serem chamados de anjos terrestres ou homens divinos, porque, sendo "fermentados" pelo Espírito Santo, eles não mais são farinha comum ou biscoitos não-fermentados que deitam sobre a terra, mas são pão fermentado que cresce. De acordo com a Bíblia, o pão sem fermento foi o pão dos escravos, enquanto o pão fermentado era para os homens livres, crianças de Deus. Então, por essa razão a Igreja Ortodoxa usa pão fermentado na Santa Comunhão. O processo de fermentar começou no primeiro Domingo da Trindade ou Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu dos céus para os apóstolos. A partir daquele dia em diante esse processo continuou até os dias de hoje, e continuará até o fim dos tempos, quando todos serão fermentados. Isso, então, é a interpretação histórica da enigmática parábola sobre o padeiro mulher. A segunda interpretação é psicológica e pessoal, e concerne às três faculdades ou poderes da alma humana: o intelecto, o coração e a vontade ou, em outras palavras, o poder de pensar, o poder de sentir e o poder de agir. Essas são as três medidas invisíveis da alma do homem interior. Estes três poderes permanecem totalmente sem fermento, como o pão dos escravos, ou são fermentados com o fermento da malícia e da hipocrisia. Portanto, Cristo contou aos Seus discípulos para tomar cuidado com o fermento dos fariseus, que é hipocrisia, porque esse é o fermento mundano e humano, que enfraquece todos os poderes da alma e a deixa aleijada e doente. Mas Cristo, o Salvador, trouxe à terra um novo fermento para elevar os poderes da alma. Aqueles que recebem este novo e divino fermento através do batismo em nome da Santa Trindade são chamados de filhos e filhas de Deus, o gado do Reino eterno. Eles não morrerão, pois mesmo quando deixarem o corpo, estarão vivos e viverão para sempre. Esse divino fermento os preenche com a luz da razão, o calor do amor divino e a glória das boas obras. Todos os três poderes da alma crescem juntos em harmonia, e ascendem aos céus, para a perfeição. Como disse o Senhor, sejais perfeito como vosso Pai celeste é perfeito.

A mulher foi tomada como modelo e não o homem, e Cristo comparou-Se a um padeiro mulher, porque a mulher enquanto esposa e mãe prepara o pão para a família de maneira amável, enquanto o padeiro homem faz pão para vender. Tudo que Cristo tem feito para a humanidade foi feito de puro amor e, portanto, Ele compara-Se a um padeiro mulher. Essa é a segunda interpretação, mas ambas interpretações dessa parábola estão corretas. Os significados histórico e psicológico derivados dessa simples parábola são como ramificações de um carvalho que cresce para fora de uma bolota, pois é realmente majestoso em sua amplitude histórica e profundo em sua profundeza psicológica.


via Pravmir 

Nota do blog: Para a tradução ao português das passagens bíblicas utilizamos a versão da Bíblia de Jerusalém, ed. Paulus, 2002.

sábado, 8 de agosto de 2015

Ivan Ilyin sobre a Ortodoxia


O grande filósofo russo do século XX, Ivan Ilyin (1883-1954), atacado pela mídia ocidental depois que Putin o recomendou para seu governo, explica como a nação russa não foi forjada apenas através da guerra, mas também pelo amor e beleza divinos - a fé cristã ortodoxa. Abaixo, texto do filósofo.

A cultura espiritual nacional foi criada de geração em geração não por pensamento consciente nem por escolha arbitrária, mas por uma longa, integral e inspirada tensão de todo o ser humano; e sobretudo por um instinto inconsciente, forças noturnas da alma. Essas forças misteriosas da alma são capazes de criatividade espiritual apenas quando são iluminadas, enobrecidas, formadas e cultivadas pela fé religiosa.

A história não conhece um grande povo cultural e espiritualmente criativo que habitou na divindade. Mesmo os mais antigos selvagens tiveram sua fé. Caindo na descrença, as nações degeneraram e morreram. Que a elevação da cultura nacional depende da perfeição da religião é incompreensível.

Desde tempos imemoriais a Rússia foi uma nação cristã ortodoxa. Seu principal núcleo nacional-linguístico criativo sempre confessou a fé ortodoxa. (Ver, por exemplo, os dados estatísticos de D. Mendeleiev. Sobre a Sabedoria da Rússia. pgs. 36-41, 48-49. No início do século XX a Rússia contou com uma população em torno de 66% ortodoxa, em torno de 17% cristãos não ortodoxos e em torno de 17% de religiões não-cristãs - alguns 5 milhões de judeus e povos turco-tártaros). Eis porque o espírito da ortodoxia sempre definiu e continua definindo profundamente a criatividade nacional russa.

Pelos presentes da ortodoxia todos os povos russos viveram, educaram-se e encontraram salvação ao longo dos séculos. Eles foram todos cidadãos do Império Russo - tanto aqueles que esqueceram estes presentes quando aqueles que não os perceberam, renunciando e até mesmo blasfemando sobre eles; cidadãos pertencentes a outras confissões cristãs; e outros povos europeus além das fronteiras russas.

Precisaríamos de todo um estudo histórico para uma descrição exaustiva destes presentes. Posso apontá-los apenas com uma breve enumeração.

1. Toda básica composição da revelação cristã foi recebida pela Rússia do Leste Ortodoxo na forma da Ortodoxia, em línguas grega e eslava. "A grande revolução espiritual e política do nosso planeta é o cristianismo. Dentro desse elemento sacro do mundo desapareceu e foi renovado" (Pushkin). O povo russo experienciou esse elemento sacro do batismo e a investidura no Cristo, o Filho de Deus na Ortodoxia. Foi para nós o que foi para os povos ocidentais antes da divisão das igrejas; deu-as o que elas logo mais perderam, e o que nós preservamos; pois este espírito perdido eles começam agora a se voltar para nós, chocalhados pelo martírio da Igreja Ortodoxa na Rússia.

2. A Ortodoxia estabeleceu na fundação do ser humano a vida do coração (os sentimentos e o amor), e a contemplação derivando do coração (a visão e a imaginação). Aqui está a mais profunda distinção do catolicismo, que leva a fé da vontade para a razão, e do protestantismo, que leva a fé da razão para a vontade. Essa distinção, definindo a alma russa, permanece eterna; nenhuma "União", nenhum "rito oriental", e nenhuma atividade missionária protestante pode refazer a alma ortodoxa. Todo o espírito russo e todo o caminho foram feitos pela Ortodoxia. Aqui está o porque de que quando o povo russo cria, busca ver e expressar o que ama. Esta é a base do ser e da criatividade nacional russa. Eles foram fundados pela Ortodoxia e cingidas pelo eslavismo e pela natureza da Rússia.

3. Na esfera moral, isto deu ao povo russo um sentido vivo e profundo de consciência; um sonho de retidão e sacralidade; uma acurada percepção do pecado; o presente de um arrependimento que renova; a ideia da catarse ascética; e um agudo senso de "verdade" e "mentira", bem e mal.

4. Por isso o espírito de piedade e fraternidade popular, sem-castas, supranacional tão característico do povo russo, a simpatia pelo pobre, pelo fraco, doentes e oprimidos, e até mesmo criminosos (vejam, por exemplo, no Diário de um Escritor de Dostoievsky de 1873, Artigo III "Ambiente" e Artigo V "Vlas"). Por isso nossos mosteiros e tsares que amam os pobres; por isso nossos hospícios, hospitais e clínicas criadas com doações privadas.

5. A Ortodoxia cultivou no povo russo esse espírito de sacrifício, servidão, paciência e lealdade, sem o que a Rússia nunca teria resistido a seus inimigos nem construído uma morada terrena. No curso de toda a história, os russos aprenderam a construir a Rússia "beijando a cruz" e a basear-se sua força moral na oração. O presente da oração é o melhor presente da Ortodoxia.

6. A Ortodoxia afirmou a fé religiosa sob liberdade e seriedade, conectando-as em uma só; com esse espírito informou-se a alma russa e a cultura russa. As missões ortodoxas trouxeram pessoas "ao batismo" "através do amor", e de nenhum modo através do medo (Da instrução do Metropolita Makário ao Arcebispo Gury em 1555. As exceções só confirmam a regra básica). Por isso vem da história russa precisamente aquele espírito de tolerância religiosa e nacional que os cidadãos russos de outras confissões e religiões valorizam por seu mérito apenas depois das perseguições revolucionárias da fé.

7. A Ortodoxia trouxe ao povo russo todos os presentes do sentido cristão de justiça - uma vontade para a paz, para a fraternidade, justiça, lealdade e solidariedade; um sentido de dignidade e categoria; uma capacidade para o auto-controle e respeito mútuo; em uma palavra, tudo o que pode levar o mais perto dos mandamentos de Cristo.

8. A Ortodoxia nutriu na Rússia o sentido de uma responsabilidade cidadã, aquela de um oficial diante do Tsar e de Deus, e acima de tudo consolidou a ideia de uma monarquia, clamada e ungida, que serviria a Deus. Graças a isto os governadores tirânicos na história russa foram uma completa exceção. Todas as reformas humanas na história russa foram inspiradas ou sugeridas pela Ortodoxia.

9. A Ortodoxia russa fielmente e sabiamente resolveu a mais difícil tarefa com a qual a Europa Ocidental quase nunca lidou - encontrar uma correta correlação entre a Igreja e o poder secular, um apoio mútuo sob lealdade mútua e sem usurpações.

10. A cultura monasterial ortodoxa deu à Rússia não apenas tropas de homens retos. Deu a ela crônicas, i.e. estabeleceu uma fundação para a historiografia russa e para a consciência russa. Pushkin expressou isso assim: "Somos obrigados perante os monges por nossa história, e consequentemente por nossa iluminação" (Pushkin, Notas Históricas de 1822). Nós não podemos esquecer que a fé ortodoxa foi desde muito considerada como o verdadeiro critério de "russidade" na Rússia.

11. A doutrina ortodoxa sobre a imortalidade da alma de uma pessoa (perdida no protestantismo contemporâneo, interpretando a "vida eterna" não no sentido de imortalidade da alma, que é vista como mortal); sobre a obediência às autoridades superiores por uma questão de consciência; sobre a paciência e a entrega da vida "por seus amigos" deram ao Exército Russo todas as fontes de seu conquistador espírito cavalheira e individualmente destemido e sacrificial, que desenvolveu em suas guerras históricas e especialmente no ensinamento da prática de Alexandr Surovov - e foi frequentemente reconhecido por grandes capitães inimigos (Frederico o Grande, Napoleão, etc.).

12. Toda a arte russa derivou da fé ortodoxa, no início nutrindo seu espírito de contemplação profunda, crescente oração, livre franqueza e responsabilidade espiritual (vejam "O que, ultimamente, é a essência da poesia russa?" e "Sobre o lirismo de nossos poetas" de Gogol; vejam meu livro Fundamentos da Arte. Sobre a Perfeição na Arte). A pintura russa veio do ícone; a música russa foi inspirada pelos cantos da Igreja; a arquitetura russa veio do trabalho das catedrais e monastérios; o teatro russo nasceu dos "atos" dramáticos sobre temas religiosos; a literatura russa veio da Igreja e das obras monásticas.

Por acaso foi tudo enumerado aqui, tudo mencionado? Não. Ainda não falamos dos anciões ortodoxos; das peregrinações ortodoxas; do significado da língua Antiga Eslavônica Ortodoxa; da escola ortodoxa e da filosofia ortodoxa. Mas tudo o que é ainda impossível exaurir.

Tudo isso forneceu a Pushkin a base para estabelecer a seguinte e inquebrantável verdade: "A confissão grega, separada de todas as outras, nos dá um caráter nacional especial" (Notas Históricas, Pushkin, 1822). Este é o significado cristão ortodoxo na história russa. Assim é como essas perseguições selvagens e nunca expostas contra a Ortodoxia, que agora endurece com os comunistas. Os bolcheviques entendem que as raízes do cristianismo russo, o espírito nacional russo, da honra e consciência russas, a unidade estatal russa, a família russa, e o senso de justiça russo - são estabelecidos em nome da fé ortodoxa, portanto tentam desenraizá-la.

Na luta com tais tentativas, o povo russo e a Igreja Ortodoxa trouxeram toda uma tropa de confessores, mártires e santos mártires; e ao mesmo tempo eles restauraram a vida religiosa da era das catacumbas em todo lugar - nas florestas, nas ravinas, nas vilas e cidades. Por vinte anos o povo russo aprendeu a concentrar-se em silêncio, limpar-se e forjar suas almas diante da face da morte, orando em sussurros e organizando a vida da Igreja em perseguições, fortalecendo-a em segredo e silêncio. E no momento, depois de vinte anos de perseguição, os comunistas tiveram que admitir (no inverno de 1937) que um terço dos residentes em cidades e dois terços da população nas vilas continuam abertamente a acreditar em Deus. E quantos dos que restaram ainda acreditam e rezam em segredo?

As perseguições estão despertando dentro do povo russo uma nova fé, uma força plena toda nova e um novo espírito. Corações sofridos restauram sua contemplação antiga e religiosa. E a Rússia não apenas não deixará a Ortodoxia, mas seus inimigos no Ocidente esperam, mas serão fortalecidos nos fundamentos sacros do seu ser histórico.

As consequências da revolução superará suas causas.

sábado, 18 de julho de 2015

Gogol e o Mundo Russo


Nikolai Gogol não é um escritor muito bem conhecido no Ocidente. A imagem dele se adquire em fontes em inglês - Wikipedia e introduções à traduções de sua ficção - é um escritor talentoso, mas não realizado. Um nacionalista cripto-ucraniano apesar de nunca escrever em Ucraniano, mesmo quando escrevia em casa para sua mãe. Um religioso fanático até o fim de sua vida e finalmente, ridiculamente, talvez um homossexual. Sua ficção é pouco apreciada, desesperadamente mal interpretada e superficialmente analisada, e seu pensamento fora disso é quase desconhecido.

Mas Gogol teve muito a dizer. Sobre Deus, sobre a Santa Igreja, Rússia, Europa, iluminismo, futuro. Estes temas o dominam e preocupam inclusive em sua ficção.

Sem tentar um estudo exaustivo de seu pensamento com constante referência ao seus escritos sobre todos os temas enumerados, eu gostaria de comentar sobre ele, desenvolver seu pensamento no contexto dos nossos dias que temos diante de nós, e fazer precisamente porque seus insights são tão vivamente relevantes agora.

Gogol viveu com seus olhos no futuro esperando pelo melhor. Não, como muitos frequentemente, com eles fixados sobre o que é comumente apenas uma caricatura auto-maquinada do passado e realçar o pior. Muito do que ele disse é assim. Muito do que ele antecipou aconteceu. E nós podemos investigar em que ele esperou de melhor.

O que eu escreverei parecerá ingênuo. Sejamos ingênuos. Se fôssemos um pouco mais seriamos todos muito mais felizes.

***

Русь! Русь!
. . .Что пророчит сей необъятный простор?
 Здесь ли, в тебе ли не родиться беспредельной мысли,
когда ты сама без конца?
[Russ! Russ!
... O que a vasta extensão prevê para ti?
Por acaso ela não nasce dos pensamentos infinitos,
já que tu mesma é infinita?]

Você fez seu voo nos bons tempos e a taça de champanha que brilhou no salão incandesce dentro de você enquanto você se acomoda. Lembra como soou quando foi derramada? Você pôs sua bolsa em cima, caminhou para seu assento na janela e se afundou na almofada. Desliga seu telefone. Por acaso a aeromoça não é bonita? É sim.

Quando chega em Moscou no Aeroporto Internacional de Sheremetievo há duas capelas para escolher na qual rezar. Depois que você fez o sinal da cruz pela última vez e beijou as portas na saída - você pode querer pegar o trem. E então quando você o pega você pode ligar o rádio e ouvir a vida dos santos e a história da Santa Russ.
Processão em São Petersburgo

Quando chega ao apartamento do seu amigo ou faz o check-in no hotel, você pode querer ligar a televisão por apenas uma hora, ou mais, antes de tomar banho. E você encontrará documentários que exploram frequente e excelentemente os assuntos ortodoxos. Uma novela em torno de um ícone. Um seriado de televisão sobre a Guarda Branca.

Mas não se acomode tanto. Você não pôde dispor que o hotel e seu amigo pudessem assistir 1612, um filme esplêndido sobre a derrota dos invasores poloneses vindos de fora da Moscou Ortodoxa.

A Rússia é hoje um país ortodoxo. A Federação Russa é o maior pode ortodoxo no mundo hoje.

Aproximadamente 7 a cada 10 russos são ortodoxos. De acordo tanto com o Centro Levada como com o Patriarcado de Moscou, o número aumenta.

Ícones retornaram, templos e mosteiros são restaurados, novas igrejas são construídas - em um ritmo de quase 1 por dia.

A educação religiosa está aumentando, e o comparecimento no Domingo está melhor a cada ano.

E isto é apenas o começo. Quais são as possibilidades?

Eu não pergunto o que podemos esperar, já que expectativas aqui estão fora de lugar. A convicção religiosa considera a livre consciência dos indivíduos. 50 anos antes da Revolução de Outubro ninguém poderia esperar o erguimento do comunismo soviético. E ninguém que viu a Revolução pôde esperar o milésimo Aniversário de Batismo da Russ. Possibilidades, na Rússia, são o que podemos pensar de melhor. A troika de Gogol, escancarando bocas em espanto na medida em que toma um caminho, apesar de tudo, pode prever. Mas as possibilidades, pelo menos, como eu disse, podem ser consideradas. Eu gostaria de focar em uma.

Suponha, conceda, imagine que a Santa Ortodoxia continue rapidamente satisfazendo as mentes, os corações e as almas de cada vez mais pessoas russas nas próximas décadas. Quais são as possíveis consequências e implicações geopolíticas disso? Eu tenho três que penso serem dignas de análise.

1. Unidade, cooperação e mente comum da Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, pelo menos em nível público e não no político (no caso de Kiev: quase certo que não neste último caso). Ou seja, o mundo russo (Русский мир).

2. Monarquia ortodoxa como uma viva possibilidade, pelo menos na Federação Russa.

3. Monarquia ortodoxa como modelo de governo, e ainda mesmo se não ressurgir a monarquia ortodoxa, um competidor em alguns lugares: uma alternativa à democracia liberal do Ocidente. Nestas instâncias onde um tal modelo de governo pode ser alternativa viável, este será o mundo ortodoxo (Православный мир).

Estou perfeitamente consciente e igualmente confortável de que todas as três possibilidades acima não serão consideradas boas por muitos leitores. Muitos descartam a primeira como sendo uma corrente tão fraca que não será capaz de aguentar o fardo de quaisquer esperanças. A segunda até mesmo Vladimir Vladimirovich publicamente descartou como impraticável. A terceira é material de imaginação da Rússia contemporânea, da postura do Estado e do orgulho histórico.

Mas depois da reação reflexiva, que eu generosamente permiti a você, pensemos um pouco sobre se haverá ou não algo do tipo.

Eu não quis tratar as três sistematicamente ou ainda necessariamente em ordem. Apenas tudo que eu disse circulará em torno de um ou outro de todos os três pontos.

***

É sobre o primeiro ponto que Gogol tem algo a nos dizer.

Gogol viveu em um Império Russo em que a Grande Rússia, a Pequena Rússia e a Rússia Branca estiveram unidas pela fé, pela esperança e pelo amor. Depois do colapso da URSS surgiram os nacionalismos e países surgiram - Federação Russa, Ucrânia e Bielorrússia. Mas nenhum amontoado de votos pode alterar a história. Ainda há uma cultura e uma memória comum. O termo cunhado para isto é o Mundo Russo.
Maly Kitezh, por Ilya Glazunov

A Russ que se tornou Império Russo tem seu início na conversão do Grande Príncipe Vladimir cuja capital foi Kiev, mãe de todas as cidades russas cuja fé cristã ortodoxa foi herdada de Bizâncio.

Nossos ancestrais fora batizados na água viva de Dnieper - a Dnieper que flui através da Ucrânia, da Rússia e da Bielorrússia. É isto que une a maioria dos russos, ucranianos e bielorrussos, e que pode unir todos nós de um modo que nem mesmo o nacionalismo estatal pode (nota: o nacionalismo estatal é um nacionalismo baseado na fidelidade ao Estado muito antes do que à etnia).

Há uma Russ histórica que é a fonte compartilhada e história comum de todos os três países contemporâneos - e há uma Igreja Ortodoxa Russa da qual a maioria em todos os três países são filhos e filhas.

Quem não notou que as fronteiras e a pronúncia importa menos para os dois povos ortodoxos? Em minha experiência, como Gogol foi um descendente de ucranianos, encontrei pessoas da Rússia que não enxergam diferença alguma entre mim e eles, mesmo com meu sobrenome rústico derivado de algum grão. (nota: o próprio nome Gogol é estranho o suficiente).

Então encontrei pessoas que têm um respeito "legal demais" por Deus, o epítome de russos que têm certeza de que eu sei que minha família não vem da Federação Russa, e que gracejam a minhas custas sobre a suposição de que as bocas ucranianas estão cheias apenas de linguagem chula, vodka ou varenniki. Nós os vemos como se fossem um centímetro maior que um bonobo em nosso desenvolvimento mental.

A mais sincera e séria está na Fé Ortodoxa, quanto mais eles conhecerão sobre a história da Santa Russ. Mais familiar com a vida dos santos e histórias de monastérios, locais de catedrais e templos. Espalhadas por todos os três países, mais inclinados ficamos a visitá-los. Quanto mais contato, mais unidos e menos pessoas estrangeiras serão uns aos outros.

A Santa Ortodoxia é o único poder unificador deixado por um momento antes que fôssemos "outros" uns para os outros. Tomados em conjunto com o fato de que o ensinamento da Igreja é inteiramente amor, bondade, não julgamento, harmonia de espírito, pureza de alma e balanço da mente. Supondo que por isto é que russos, ucranianos e bielorrussos estarão trabalhando ao alcançar e tentar seu melhor na prática. Ou até mesmo com estas coisas incansavelmente mantidas diante deles na vida e na devoção à Igreja. Paz, estabilidade e cooperação seriam consequências bem-vindas.

A Santa Ortodoxia é supra-racional. Os políticos e oligarcas não podem se opor ao inevitável. Unidade. E se o governo nesses países é representativo, a política virá para refletir isto.

A unidade do Mundo Russo hoje se estende a uma Fé compartilhada, a um calendário, uma cultura e uma história em comum. É possível que haja um nível ainda superior de unidade, um caminho aberto pela Santa Ortodoxia com destino à esta unidade?

Via souloftheeast

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Doença, Sofrimento e Morte

Este artigo se encontra dividido, no original, nos três seguintes links:

Como este texto é tradução do inglês e cita trechos da Bíblia, decidimos manter o original no inglês e disponibilizar a tradução do blog entre colchetes. A tradução das citações, portanto, não são confiáveis, se o leitor desejar uma análise aprofundada dos trechos bíblicos.


A DOENÇA

A doença existe no mundo somente por causa do pecado. Não haveria doença de modo algum, mental ou física, se o homem não tivesse pecado. De acordo com Cristo, a doença é serva do mal. (Matheus 8:16, 12:22; Lucas 4:40-41, 13:10-17) E Cristo veio para "destroy… the devil [destruir... o mal]." (Hebreus 2:14) Com Jesus, o perdão dos pecados, a cura do corpo, a destruição do mal e a ressurreição dos mortos são todos um único e mesmo ato de salvação.

Qual é mais fácil dizer: "Seus pecados estão perdoados" ou "Levanta e caminha"? Mas você deve saber que o Filho do Homem tem autoridade na terra para perdoar os pecados - Ele então disse para o paralítico - "Rise, take up your bed and go home [Levanta, toma teu leito e vai para casa]". E ele se levantou e foi para casa. (Matheus 9:4, Marcos 2:9-12, Lucas 5:23-25)

Nesse momento Ele curou muitas doenças e pragas e espíritos malignos, e em muitos que estavam cegos ele restituiu a visão. (Lucas 7:21)

Fazendo essas coisas Jesus mostrou que Ele é Cristo, o Messias, o cumprimento dos profetas, que traz o Reino de Deus ao mundo.

... os cegos recebem sua visão, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, os pobres têm boas notícias do evangelho pregado. E abençoado é aquele que não se escandalizou comigo. (Lucas 7:22-23; cf. Isaías 29:1 8-19, 35:5-6, 61:1; Matheus 4:23-24, 11:4-6)

Quando alguém é libertado do pecado e do mal, é também libertado da doença e da morte. No Reino de Deus "no sickness or sorrow or sighing, but life everlasting [não haverá doença, tristeza ou gemidos, mas vida eterna]". (Réquiem Kontakion da Igreja) Quando alguém é visitado pela doença neste mundo, seja física ou mental, ele é vítima do mal e do "sin of the world [pecado do mundo]" (João 1:29). Isso não significa que as pessoas são necessariamente punidas com suas doenças. Significa, antes disso, como no caso daqueles nascidos com enfermidades e crianças naturalmente doentes, onde o pecado abunda, a doença e a enfermidade são também violentas. É o ensinamento da Igreja que aqueles que são inocentemente vitimizados pela doença, tais como crianças pequenas e deficientes naturais, estão certas de serem salvas no Reino de Deus.

Este é o ensinamento do livro do Gênese. Deus não disse ao homem "Peque e então matar-te-ei". Ele disse que, se e quando você pecar, "you will die [você morrerá]" (Gênese 2:17, 3:3). Assim quando o homem peca e se arruína com o mal, ele atrai as doenças e o sofrimento para o mundo, para si e para suas crianças; e sua vida se torna um fardo até que ele retorne à poeira da qual foi feito - e que ele é por natureza sem a graça de Deus em sua vida. (cf. Gênese 3:17-19) É nesse sentido que o "príncipe deste mundo" é o mal (João 12:31, 14:30, 16:11)

Dada a pecaminosidade do mundo, sua servidão ao diabo, seus "groaning in travail [gemidos de dores de parto]" (cf Romanos 8:19-23) até sua salvação em Cristo, Deus propriamente usa a doença e a morte para seus próprios propósitos providenciais como meio para a salvação do homem. Deus não é a causa da doença, do sofrimento e da morte; mas dada sua existência por causa da fraude do diabo e da fraqueza do homem em pecar, Deus os emprega em vista de que o homem possa ser curado e salvo no perdão dos pecados. Nesse sentido, e somente nesse sentido, pode ser dito que "Deus envia a doença ao homem".

Quando uma pessoa espiritual está doente ela reconhece que sua doença é causada pelo pecado, seus próprios e os do mundo. Ela não blasfema contra Deus por conta disto, porque sabe que Deus não causou sua doença e não a deseja para Seus servos. Ele sabe que através do plano de providência e da salvação de Cristo sua doença será curada. Ele sabe também que se Deus assim quer, ele pode ser curado da sua doença em sua vida com fim de ter mais tempo para servir a Deus e o homem na terra, e alcançar o que ele deve de acordo com o plano de Deus. Ele também sabe que a própria doença em si pode ser meio de servir a Deus, e ele a aceita de seu modo, oferecendo-a em fé e amor por sua própria salvação e pela salvação de outros.

Não há testemunho maior ao amor de Deus e da fé em Cristo do que a doença suportada com fé e amor. Aquele que carrega suas enfermidades com virtude, com coragem e paciência, com fé e esperança, com agradecimento e alegria, é o maior testemunho da salvação divina que pode possivelmente ser. Nada pode comparar-se a uma tal pessoa, porque o louvor de Deus na aflição e na angústia é a maior oferta possível que o homem pode fazer de sua vida na terra.

Todo santo que tenha vivido sofreu enfermidades físicas. E todos eles, virtualmente sem exceção - até mesmo quando curavam outros por suas rezas - não pediam ou recebiam salvação para eles próprios. Este é o caso mais evidente de Jesus, o servo sofrido de Deus.

Ele foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de tristezas, íntimo com  o pesar; como alguém do qual os homens escondiam seus rostos...

Certamente Ele deu nascimento aos nossos sofrimentos, e carregou nossas tristezas; contudo O reputávamos como angustiado, ferido por Deus e oprimido. Mas Ele foi machucado por nossas transgressões, Ele foi machucado por nossas iniquidades, sobre Ele foi o castigo que nos curou, e com as feridas dEle somos curados... o Senhor pôs sobre Ele a iniquidade de todos nós.

E eles fizeram Sua tumba com os perversos e com um homem rico (i.e. José de Arimateia, Matheus 27:57) em Sua morte... quando Ele fez de Si mesmo uma oferta para o pecado... (Isaías 53, cf. Salmos 22, 38, 41)

Cristo "poured out His soul to death [derramou Sua alma para a morte]" (Isaías 53:12) quando Ele esteve apenas na terceira década de Sua vida. Muitos dos santos dificilmente viviam muito, e virtualmente todos sofreram, como São Paulo, de algum "thorn in the flesh [espinho na carne]", normalmente compreenderam como aflição corporal.

...a thorn was given me in the flesh, a messenger of Satan to harass me, to keep me from being too elated. Three times I besought the Lord about this, that it should leave me; but He said to me, “My grace is sufficient for you, for my power is made perfect in weakness,” that the power of Christ may rest upon me…for when I am weak, then I am strong.
[...um espinho foi me dado na carne, uma mensagem do Satã para me molestar, impedir-me de ser tão exultante. Três vezes eu supliquei ao Senhor sobre isso, que isso deveria me soltar; mas Ele disse para mim, "Minha graça é suficiente para você, porque meu poder é perfeito na fraqueza", que o poder de Cristo pode repousar sobre mim... porque quando estou fraco, então estou forte]. (2 Coríntios 12:7-10)

Todas as pessoas espirituais seguem o exemplo de Christo e de São Paulo e todos os santos em sua apreciação da doença. Eles dizem ao Pai, "Thy will be done [Teu será feito]", e transformar sua fraqueza, pela graça de Deus, em meios para a salvação deles mesmos e de outros.

O SOFRIMENTO

Não há vida neste mundo sem sofrimento. A cessação do sofrimento acontece somente no Reino de Deus. Há geralmente três fontes de sofrimento neste mundo: sofrimento da perseguição de outros no corpo e na alma, sofrimento de doença e enfermidade, e sofrimento no espírito por causa dos pecados do mundo. Há apenas dois modos possíveis de lidar com tais sofrimentos. Ou humildemente se aceita ou se os transforma no caminho da salvação de si e de outros; ou se é derrotado por eles com a rebelião e rejeição, e então "curses God and dies [blasfema Deus e morre]" tanto fisicamente como na eternidade nos tempos que virão (cf. Jó 2:9-10)

Temos visto já que "all who desire to live a godly life in Christ Jesus will be persecuted [Todos os que desejam viver uma vida divina em Jesus Cristo serão perseguidos]" (I Timótio 3:12); e que os cristãos deveriam "count it all joy [considerar tudo alegria]" quando "meet various trials [encontram várias provações]" (Tiago 1:2), "rejoicing that they were counted worthy to suffer dishonor for the name [regozijando-se de que eles foram dignos de sofrer desonra pelo nome]" (Ats 5:41)

Nós também vimos que aqueles que sofrem por conta de doenças e enfermidades com toda a virtude de Cristo receberão "sufficient grace [graça suficiente]" de Deus para serem fortes no Senhor na sua fraqueza corporal, e então tornar seus sofrimentos "not unto death [não em morte]", mas em "glory of God [glória de Deus]" (cf 2 Coríntios 12:7-10, João 11:4)

Since therefore Christ has suffered in the flesh, arm yourselves with the same thought, for whoever has suffered in the flesh has ceased from sin, so as to live for the rest of time in the flesh no longer by human passions, but by the will of God. [Desde que então Cristo sofreu na carne, armem-se com o mesmo pensamento, porque quem quer que tenha sofrido na carne deixou de pecar, para então viver pelo resto do tempo na carne e não mais sob paixões humanas, mas pela vontade de Deus] (I Pedro 4:1-2)

Now I rejoice in my sufferings for your sake, and in my flesh I complete what is lacking in Christ’s afflictions for the sake of His body, that is the church… [Agora eu me regozijo em meus sofrimentos por tua causa, e em minha carne eu completo o que está faltando nas aflições de Cristo por causa do Seu corpo, que é a igreja](Colossians 1:24)

Assim não perdemos o coração. Embora nossa natureza externa esteja definhando, nossa natureza interna está sendo renovada todos os dias. Por isso a angústia leve momentânea está preparando para nós um peso eterno de glória para além de toda comparação, porque olhamos não as coisas que são vistas, mas as coisas que não são vistas; porque as coisas que são vistas são passageiras, mas as coisas não vistas são eternas.
Pois sabemos que se a tenda terrena na qual vivemos é destruída, temos uma construção de Deus, uma casa não feita com as mãos, mas eterna nos céus. Aqui de fato nós gememos, e muito para vestir nossa habitação celestial, a fim de que vestindo-a não nos encontremos nus. Por enquanto estamos silentes nessa tenda, suspiramos com ansiedade; não que deveríamos nos descobrir, mas que deveríamos estar ainda mais bem vestidos, a fim de que o que é mortal possa ser engolido pela vida. Quem preparou-nos para isso é Deus, aquele que nos deu o Espírito como garantia.

So we are always of good courage; we know that while we are at home in the body, we are away from the Lord… [Assim somos sempre de boa coragem; sabemos que enquanto estivermos em casa no corpo, estamos sempre longe de Deus...] (2 Coríntios 4:16-5:6)

A pessoa espiritual, quando sofre na carne, usa suas angústias para se libertar do pecado e se tornar "perfect through suffering [perfeita através do sofrimento]" como o próprio Jesus.  (Hebreus 2:10) Ele sabe que conforme sua "outer nature is wasting away [natureza externa definha]" ele está nascendo no Reino de Deus se ele sofre em e com Jesus, o Senhor.

Em um sentido bem real o sofrimento mais penoso de todos não é na carne, mas no espírito. Este é o sofrimento que atormenta a alma quando, pela graça de Deus e na luz de Cristo, a pessoa espiritual vê a suprema futilidade, feiúra e mesquinhez do pecado que destrói os homens que são imagem de Deus. De acordo com o grande teólogo da Igreja, este sofrimento foi o mais penoso de todos para o próprio Jesus Cristo (cf. Anthony Khrapovitski Metropolitano, 20º, o Dogma da Redenção)

Jesus conheceu a plenitude e a perfeição da beleza divina de Deus; Ele conheceu Sua piedade e Seu amor, a glória do paraíso, a bondade de Sua criação. Contemplando tudo isto, dado ao homem como presente, e contemplando ser desprezada e rejeitada em Sua própria pessoa, foi infinitamente mais doloroso e torturante ao Senhor que qualquer espancamento, flagelação e a pregação na cruz. Pois a cruz em si foi o grande escândalo do ódio e da rejeição do homem ao amor, à luz e à vida de Deus dada ao mundo na pessoa de Cristo. Assim, a agonia e o tormento do Senhor em Seu ser morto na cruz foi a agonia divina, em corpo e alma, da recusa do homem contra a vida divina. Nenhuma agonia maior que esta pode existir, e nenhuma mente humana pode sondar o infinito escopo de seu horror e tragédia.

A pessoa espiritual, de acordo com a graça dada por Deus, participa espiritualmente nessa agonia de Cristo. Este é o maior sofrimento dos santos, infinitamente mais insuportável que qualquer perseguição ou doença humana. É o tormento da alma sobre a suprema imbecilidade do pecado. É a agonia do amor sobre aqueles que perecem. Foi em tal retitude da alma que o Apóstolo Paulo pôde exclamar: "...I have great sorrow and anguish in my heart, for I wish that I myself were accursed and cut off from Christ for the sake of my brethren, my kinsmen by race [... tenho grande tristeza e angústia no meu coração, pois desejo que eu mesmo fosse amaldiçoado e rompido de Cristo em benefício dos meus irmãos, meus parentes pela raça]." (Romanos 9:3)

É com esta mesma agonia do amor que Santo Isaac da Síria pôde dizer sobre os santos, "se eles fossem lançados ao fogo dez vezes por dia em benefício do homem, para eles isso ainda seria bem pouco". (Mystic Treatises [Tratados Místicos], Wensick, ed.) Este mesmo Santo Isaac foi conhecido por derramar lágrimas ferventes de amor sofrido por todos os homens, por toda a criação, e até mesmo pelo mal.

Assim, a última forma de todos os sofrimentos que pode levar à salvação é o amor compassivo por tudo que perece pela ridícula imbecilidade do pecado. Cristo sofreu por este amor até a mais ilimitada extensão de Sua divindade. E cada pessoa sofre conforme a extensão que ela é deificada em Cristo pela graça do Espírito.

A MORTE

Não há pessoa alguma que não morrerá. A preparação para a morte é o centro da vida espiritual.

Lord, let me know my end, and what is the measure of my days; let me know how fleeting my life is! Behold, Thou hast made my days a few handbreadths, and my lifetime is as nothing in Thy sight. Surely every man stands as a mere breath! Surely man goes about as a shadow! Surely for nought are they in turmoil; man heaps up, and knows not who will gather! [Senhor, deixe-me conhecer meu fim, e o que é a medida dos meus dias; deixe-me conhecer o quão fugaz é minha vida! Contempla, Tu tem feito dos meus dias palmos, e meu tempo de vida não é nada como Tua visão. Certamente todo homem é como mero suspiro! Certamente o homem vai como uma sombra! Certamente por nada estão em desordem; o homem amontoa, e não conhece aquele que colherá!] (Salmos 39-4-6)

Que o homem morra não é vontade de Deus, pois como as escrituras dizem, "God did not make death [Deus não criou a morte]".

God did not make death, and takes no pleasure in the destruction of any living thing; He created all things that they might have being. [Deus não criou a morte, e não tem prazer algum na destruição de qualquer coisa viva; Ele criou todas as coisas que podem existir] (A Sabedoria de Salmoão 1-13)

For I have no pleasure in the death of anyone, says the Lord God; so turn and live [Pois não tenho prazer na morte de coisa alguma, diz Senhor Deus; então vá e viva]. (Ezequiel 18:32)


Death is the result of sin. It is the final victory of the devil, the result of his destructive activity. If man had not sinned, he would not have died. His body may have changed and evolved over great periods of time, but it would not have been separated from his spirit to return to the dust, And man’s soul itself would not have been corrupted, losing power over its body and becoming its slave. This is the meaning of the sin of Adam, that man has emerged on the face of the earth, made in God’s image and inspired with His Spirit, and has chosen death instead of life, evil instead of righteousness, and so through defilement of his nature in rebellion against God, brought corruption and death to the world. [A morte é o resultado do pecado. É a vitória final do mal, o resultado de sua atividade destrutiva. De o homem não tivesse pecado, não teria morrido. Seu corpo pode ter mudado e evoluído durante grandes períodos de tempo, mas não estaria separado do seu espírito para retornar ao pó, A a alma do homem em si não teria sido corrompida, perdendo poder sobre seu corpo e se tornando escrava. Este é o significado do pecado de Adão, que o homem emergiu na face da terra, feito imagem de Deus e inspirado em Seu Espírito, e tendo escolhido a morte ao invés da vida, o mal ao invés da justiça, e assim através da corrupção de sua natureza em rebelião contra Deus, trazido corrupção e morte ao mundo] (cf. Gênese 3, Romanos 5:12-21)

"Sin spread to all men because all men sinned [O pecado se espalhou para todos os homens porque todos os homens pecaram]" (Romanos 5:12); e no pecar o homem trouxe a morte às crianças que participam dessa natureza e vida mortais. Em um mundo limitado pelo pecado, ninguém escapa, até mesmo aqueles que são pessoalmente sem-culpa e inocentes, pois todos são tomados pelos pecados do mundo.

Behold, I was brought forth in iniquity, and in sin did my mother conceive me. [Contempla, fui trazido para a iniquidade, e no pecado minha mãe me concebeu] (Salmos 51:5)

Até mesmo a toda-pura Virgem Maria, que deu a luz ao Cristo na carne não poderia escapar das armadilhas da morte. Pois toda sua inocência e perfeição espiritual, ela também precisava da salvação da morte por seu Filho, e seu espírito regozijou-se em Deus seu Salvador (cf. Lucas 1:47).

De acordo com a fé do Cristianismo Ortodoxo, apenas Jesus Cristo, de todos os homens, como Filho encarnado e Palavra de Deus, não precisa morrer. Da morte de todos, só a dEle foi perfeitamente voluntária. Ele veio com fim de morrer, e por Sua morte libertar todos que estivessem presos pelo poder da morte.

For this reason the Father loves me, because I lay down my life that I may take it again. No one takes it from me, but I lay it down of my own accord. I have the power to lay it down, and I have the power to take it again; this charge I have received from my Father [Por esse motivo o Pai me ama, é porque eu entrego minha vida que eu a retomo de volta. Ninguém a toma de mim, mas eu a entrego de minha própria vontade. Tenho o poder de entregá-la, e eu tenho o poder de tomá-la de volta; este peso eu recebi do meu Pai]. (João 10:17-18)

Now is my soul troubled. And what shall I say? “Father, save me from this hour?” No, for this purpose I have come to this hour.

Now is the judgment of the world, now shall the prince of the world be cast out; and 1, when I am lifted up from the earth, will draw all men to my- self.

He said this to show by what death He was to die (i.e. crucifixion).

The crowd answered Him, “We have heard from the law that the Christ (i.e. Messiah) remains forever. How can you say that the Son of Man must be lifted up? Who is this Son of Man?”

Jesus said to them, “The light is with you for a little longer…” 
[Agora minha alma está perturbada. E o que eu deveria dizer? "Pai, salva-me desta hora?" Não, para este fim eu vim para esta hora.

Agora é o julgamento do mundo, agora o príncipe do mundo deve banir; e eu, quando sou erguido da terra, atrairei todos os homens para mim.

Ele disse isso para mostrar por qual morte Ele teve que morrer (i.e. crucificação).

A multidão O respondeu, "Nós ouvimos das leis que o Cristo (i.e. Messias) permanece para sempre. Como você diz que o Filho do Homem deve ser erguido? Quem é este Filho do Homem?"

Jesus disse a eles, "A luz ainda está com vocês por pouco tempo..."] (João 12:27-35, cf. Matheus 16:21-23, 17:9-13)

Jesus veio "para nós, homens, e para nossa salvação" com fim de morrer. (Credo Niceno) Ele veio para que por Sua morte e ressurreição todos os homens devem ser erguidos da morte para a vida eterna no Reino de Deus. Essa é a fé cristã.

...for the hour is coming when all who are in the graves will hear the voice of the Son of God, and come forth, for those who have done good, to the resurrection of life, and those who have done evil, to the resurrection of damnation [pois a hora está chegando, quando todos aqueles que estão nos túmulos ouvirão a voz do Filho de Deus, e virão, pois aqueles que terão feito o bem, a ressurreição da vida, e para aqueles que terão feito o mal, a ressurreição da danação] (João 5:25-29)

Isso também é a doutrina dos apóstolos (cf. Atos 2:22-36)

But in fact Christ has been raised from the dead, the first fruits of those who have fallen asleep. For as by a man came death, by a man has come also the resurrection of the dead. For as in Adam all die, so also in Christ shall all be made alive. But each in his own order: Christ the first fruits, then at His coming those who belong to Christ. Then comes the end, when He delivers the kingdom to God the Father after destroying every rule and every authority and power. For He must reign until He has put all His enemies under His feet. The last enemy to be destroyed is death. [Mas na verdade Cristo foi ressuscitado dos mortos, os primeiros frutos daqueles que caíram dormentes. Pois como a morte veio com um homem, com um homem veio também a ressurreição dos mortos. Pois como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos devem viver. Mas cada um em sua própria ordem: Cristo os primeiros frutos, então em Sua vinda aqueles que pertencem a Cristo. Então vem o fim, quando Ele entrega o reino a Deus, o Pai, depois de destruir toda regra e toda autoridade e poder. Pois Ele deve reinar até que Ele tenha posto todos os Seus inimigos sob Seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte] (I Coríntios 15:20-26)

Pois o trompete soará, e os mortos serão erguidos imperecíveis, e nós devemos estar mudados. Pois esta natureza perecível deve vestir a imperecível, e esta natureza mortal deve vestir a imortalidade. Quando o perecível vestir o imperecível, e o mortal vestir a imortalidade, então deve ocorrer o que está escrito:
"A morte é engolida na vitória.
Ó morte, onde está tua vitória?
Ó morte, onde está teu ferrão?"
O ferrão da morte é pecado, e o poder do pecado é a lei. Mas graças a Deus, que nos deu a vitória através do nosso Senhor Jesus Cristo. (I Coríntios 15:52-57)

The whole essence of the spiritual life is to die with Christ to the sins of this world and to pass through the experience of bodily death with Him in order to be raised up “on the last day” in the Kingdom of God. [Toda a essência da vida espiritual é morrer com Cristo para os pecados do mundo e passar através da experiência da morte corporal com Ele com fim de ser ressuscitado "no último dia" no Reino de Deus] (cf. João 6:39-44, 54)

Pelo poder de Cristo e pela graça do Espírito Santo, os cristãos podem e devem transformar suas mortes em atos de vida. Eles devem enfrentar a tragédia da morte com fé no Senhor, e derrotar o "último inimigo - a morte" (I Coríntios 15:26) pelo poder da fé.

Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor, se morremos, morremos para o Senhor, então se vivemos ou morremos, somos do Senhor. Pois para este fim Cristo morreu e viveu de novo, que Ele pode ser Senhor tanto dos mortos quanto dos vivos. (Romanos 14:8-9)

Truly, truly I say to you, he who hears my word and believes in Him who sent me has eternal life; he does not come to judgment, but has passed from death to life. [Em verdade, em verdade vos digo: aquele que ouve minha palavra e crê nEle, que me enviou, tem vida eterna; ele não vem para ser julgado, mas passou da morte para a vida.] (João 5:24, cf. João 6:29-58)

I am the resurrection and the life; he who believes in me, though he die, yet shall he live, and whoever lives and believes in me shall never die. [Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que acredita em mim, embora morra, viverá, e quem quer que viva a crê em mim nunca morrerá.] (João 11:25-26)

Para os cristãos, como para todos os homens, a morte é uma tragédia. Quando confrontados pela morte, como todos os homens, e como Jesus e Seus apóstolos, os cristãos podem apenas gemer e chorar. (cf. João 11:35, Matheus 26:37-38, Marcos 14:33-34, Lucas 22:42-44, Atos 8:2) Mas para os cristãos, plenos de fé em Cristo e em Seu Pai, a tragédia da morte pode ser transformada em vitória.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Jesus não era simpático, nem você deveria ser um

Este artigo foi retirado daqui e traduzido sob algumas adaptações necessárias.


Não há escassez de heresias nos nossos tempos.

Se você quer adotar alguma visão blasfêmica, pervertida e divertida do cristianismo, você encontrará um verdadeiro buffet de opções. Você pode peneirar todas as variantes e construir sua própria versão pet da Fé. É o Cristianismo do Sorvetinho Social: faça seu próprio sundae! (ou Sunday, como era uma vez).

E, de todas as escolhas heréticas, provavelmente a mais comum - e possivelmente a mais danosa - é a que eu chamo de Doutrina Simpática.

Os propagadores da Doutrina Simpática podem ser vistos e ouvidos a qualquer momento em que qualquer cristão toma uma postura ousada em qualquer assunto cultural, ou usa uma desagradável linguagem de qualquer tipo, ou condena qualquer ato de pecado, ou luta contra o mal com qualquer força ou convicção. Tão logo este se põe de pé a afirmar: "Isto é errado, e eu não vou aceitar", os hereges atacam com seus crentes mantras.

Eles insistem que Jesus era um cara simpático, e que Ele nunca teria feito nada de desagradável para as pessoas. Eles dizem que Ele desceu dos Céus para pregar a tolerância e aceitação geral, e que Ele não teria usado palavras que machucariam os sentimentos das pessoas. Eles confiantemente pregam sermões sobre um Messias manso e suave, que nasceu no seio da Terra em missão de construir um diálogo construtivo.

Os crentes no Jesus Simpático são em geral ignorantes das Escrituras, mas eles realmente sabem que Ele era 'amigo das prostitutas', e uma vez disse algo sobre como nós não deveríamos nos sentir incomodados com as coisas, ou o que seja. Em suas cabecinhas, ele é essencialmente um Cheech Marin (um comediante dos EUA, N. do B.).

Leia os comentários no meu post anterior sobre os militantes dos direitos gays e você verá essa heresia ilustrada. Aquele post gerou um email digno de nota, no qual se diz que eu não estou "agindo como cristão", porque eu "chamo as pessoas pelo nome". Ele diz, em parte:
"Você não está espalhando o cristianismo quando fala desse jeito. Toda a mensagem de Jesus foi que deveríamos ser simpáticos com as pessoas porque nós queremos que elas sejam simpáticas conosco também. Assim é que todos ficamos felizes. Um círculo. É assim simples."

Seja simpático comigo, e eu serei com você, e então todos seremos felizes. Essa é "toda a mensagem" do cristianismo? É sério?

Jesus Cristo pregou uma Verdade não mais profunda ou mais complexa que um slogan em um cartaz de uma sala de aula do jardim de infância? É sério isso?

Uma reivindicação provocadora, para dizer o mínimo. Eu decidi investigar o assunto e, com certeza, encontrei esse excerto do Sermão na Montanha:
"Somos melhores amigos como os amiguinhos devem ser. Com um grande abraço, e um beijo meu em você, você não dirá que me ama também?"

Na verdade espere, desculpe, isso é o tema original do Barney.

Deus nos ajude! Nós transformamos o Filho de Deus em um bonequinho roxo de dinossauro.

Não há jeito de estar certo disso, mas a maior parte dos teólogos acreditam que, apesar da sensação popular, Cristo não tinha nada que ver com isto.

Eu não reconheço este Jesus. Este moderado. Este pacifista. Este cara simpático.

Ele não é o Jesus sobre o qual eu li na Bíblia. Eu li sobre um Salvador forte, viril, durão e ousado. Compassivo, sim. Indulgente, talvez. Amável, sempre amável. Mas não simpático. Ele condenou. Ele denunciou. Ele causou tumulto. Ele rompeu a ordem.

Em uma ocasião - ou pelo menos em uma ocasião relembrada - Ele usou da violência. Este Jesus viu os câmbios de moedas no templo e como Ele respondeu? Ele não foi nem um pouco polido. Eu diria ademais que Ele foi totalmente intolerante. Ele fez um chicote (isso é o que os juízes chamariam de "premeditação") e fisicamente varreu os mercadores para fora. Ele virou mesas e gritou. Causou uma cena. [João 2:15]

Assalto a mãos armadas. Vandalismo. Perturbação da paz. Pior ainda, intolerância. Em duas palavras: nada simpático. De nenhum jeito simpático.

Você pode imaginar como alguns cristãos moderados, piedosos, "simpáticos" de hoje reagiriam ao espetáculo no Templo? Você pode prever os proponentes da Doutrina Simpática, com seus dedos apontados e seus suspiros agressivos e passivos? Estou certo de que eles mandariam ao Jesus um desdenhoso email, talvez deixariam um comentário de desaprovação sob os artigos com relação ao incidente, relembrando Jesus de que Jesus nunca teria sido o que Jesus de fato era.

Pessoalmente, estudei o Novo Testamento e não encontrei um único momento em que Cristo chamava para um "diálogo" com o mal ou buscava o meio termo em um problema. Vejo um absolutista destemido em confronto. Vejo um homem que não hesitou ou deu crédito ao outro lado. Vejo alguém que nunca evitou uma disputa dizendo que Ele simplesmente "concordaria ou discordaria".

Vejo um Cristo que chama as Escrituras e os Fariseus de cobras e víboras. Ele os rotula de assassinos, guias cegos e ridículos, publicamente [Matheus 23:33] Ele mina suas autoridades. Os insulta. Os castiga a todos. Ele não foi simpático com eles.

Jesus repreende e condena. Em Matheus 18, Ele utiliza de imagens mórbidas e violentas, dizendo que seria melhor mergulhar no mar com uma pedra amarrada no pescoço do que perverter uma criança. Estariam nossos políticos modernos em dois mil anos atrás, e estou certo de que eles divulgariam pelas notícias, chocalhando suas cabeças, que "não há lugar para esse tipo de linguagem".

Não há lugar para a linguagem de Deus.

Jesus deliberadamente fez e disse coisas que Ele sabia que atormentaria as pessoas. Ele agitou divisões e controvérsias. Ele provocou. Ele não precisou romper com os costumes estabelecidos, mas Ele fez. Ele não precisou curar a mão do homem no Sabbath, sabendo como isso causaria tumulto e irritação, mas Ele fez, e Ele fez isso com "raiva" [Marcos 3:5]. Ele poderia ter ido com a onda um pouco mais. Ele poderia ter relaxado e ter deixado o passado ser passado, mas Ele não fez assim. Ele poderia ter sido diplomático, mas não foi.

Ele poderia ter dito para todos relaxar, mas ao invés disso Ele tirou-as do conforto. Ele poderia tê-las posto em paz, mas Ele escolheu colocá-las no fio da espada.

Ele convenceu a plebe de não jogar pedra na adúltera [João 8], e você notará que Ele então se voltou a ela e mandou-a parar de pecar. De fato, ele nunca encontrava o pecado e a corrupção e dizia simplesmente "Hey, companheiros, meus manos. Divirtam-se. ULA ULA!"

Os seguidores do Jesus Simpático amam a citação "atire a primeira pedra" - e por boa razão, é uma bela e constrangedora história - mas você raramente ouve a menção da troca que ocorre apenas alguns momentos mais tarde, no mesmo capítulo. Em João 8:44, Jesus repreende os judeus e os chama de "filhos do Mal".

Uau, isto não foi simpático, Jesus! Ninguém lhe contou que você pode catar mais moscas com mel, Jesus? Claro, cataria ainda mais moscas com um monte de lixo, então talvez "catar moscas" não é o ponto. Enquanto frequentemente nos lembramos que Jesus disse "viva pela espada, morra pela espada", parecemos ignorar esta e outras referências de espadas. Como quando ele contou aos seus discípulos para vender seus mantos e comprar uma espada [Lucas 22], ou quando Ele disse que Ele "não veio para trazer a paz, mas a espada" [Matheus 10].

Agora, é verdade que Ele é Deus e nós não. Jesus pode dizer o que Ele quiser. Mas nós somos chamados a sermos como Cristo, que solicita a questão: o que significa ser como Cristo?

Bem, Ele é, entre outras coisas, inflexível. Ele é intolerante com o mal. É intrometido. É às vezes muito severo. É às vezes grosseiro. É às vezes raivoso. É sempre amável.

Cristo não foi e não é um conselheiro-guia cósmico, e Ele não é o melhor amigo da humanidade, nem quer ser. Ele fez os cães para esse papel - nosso destino é mais substancial, e nosso caminho para ele é mais bem mais desafiador e perigoso.

E simpático? Onde está o caráter simpático em tudo isso?
Simpático: afável, macio, fofo.

Simpático não tem nada que ver com o cristianismo. Não tenho nada contra o simpático - simpático é simpático - mas até mesmo os serial killers podem ser simpáticos com as pessoas. Ele geralmente são excepcionalmente afáveis, exceto quando estão matando. Isso significa que eles são simpáticos com 97 ou 98% de todos com quem encontram. Certamente eu devo pensar que eles seguem Cristo quase todo o tempo, certo?

É a tolerância? Tolerância é fácil. Qualquer covarde pode aprender a tolerar. Tolerância é inação; intolerância é ação. Somos chamados a rechaçar a tolerância com o mal. Somos chamados a esbravejar contra ele e trabalhar para destruí-lo.

Quem compreendeu isso - a raiva é tão mais divina do que a tolerância poderia  vir a ser. Obviamente não estou sugerindo que a raiva é automaticamente, ou geralmente, justificada. Cristo exibiu uma raiva verdadeira; raiva verdadeira é o tipo de raiva que naturalmente preenche nossa alma quando confrontamos os abismos da perversão e do pecado. É errado fervilhar em raiva porque alguém passou-nos na frente no trânsito ou fala sobre nós nas nossas costas, mas também é errado não sentir raiva quando os bebês são assassinados e a instituição da família é minada e atacada.

Raiva é bom quando é dirigida para coisas que não nos ofendem, mas ofendem a Deus. Assim como a intolerância de Cristo, como a intolerância que somos comandados a ter, deriva de um desejo de salvar as almas e defender a Verdade.

Até mesmo quando temos raiva verdadeira, não temos carta branca para agir de modo algum. Mas, de acordo com a Bíblia, momentos em que se deve usar de linguagem pesada, momentos em que devemos causar uma cena, momentos que devemos ferir os sentimentos das pessoas, e momentos que devemos usar de força física. Jesus nos mandou oferecer a outra face quando somos atacados; Ele nunca nos disse para dar as costas e deixar a mentira se espalhar e o mal crescer à solta.

Então: basta de simpatias!

É tempo da cristandade resgatar seu espírito guerreiro, o espírito de Cristo. É tempo de se perguntar: "O que Jesus faria?"

E devemos nos responder: Jesus viraria as mesas e berraria.
É hora de segui-lo!

domingo, 29 de março de 2015

Uma menina, a morte e Deus (+Fotos)

 Um ótimo artigo que prova que ainda não morreu no mundo a capacidade de se voltar a Deus, que acontece na simplicidade da vida e na disposição para descobrir o tesouro do silêncio, da introspecção e da oração. Segue, retirado de um site ortodoxo:

Vejo essas pinturas quase todos os dias... conheci sua história há um longo tempo e contei a muitas pessoas sobre ela... É hora de ocupar-se dela... E então, eu quase choro toda vez que as vejo.

Sim, sou sentimental, mas isso é diferente. Estas não são lágrimas penosas, mas doces. Talvez sejam só minhas fantasias, mas essas pinturas me fazem sentir um hálito DAQUELA vida. Não sei nada sobre aquela vida, mas quem desenhou essas pinturas soube. É um hálito de eternidade. Está aqui, diante das pinturas, onde eu posso sentir, como em mais nenhum lugar, que a morte não existe. Uma porta simplesmente se abrirá e terá luz e calor do outro lado. Você dará um passo, girar-se-á, sorrirá em um Adeus e vai para LÁ em direção a Deus... Haverá felicidade, silêncio e calmaria, e não haverá amargura, maldade nem doença. Lá tudo está bem e todos o amam e o esperam... Lá é sua morada...

É uma história muito triste, mas iluminada... A história sobre uma menina, a morte e Deus...e sobre um mistério irresoluto...

...Um dia, cinco anos atrás, levei minha filha mais velha Varenka para uma escola dominical na região da Igreja de Arcânjo Miguel em Troparevo pela primeira vez. Ela tinha três anos de idade.

Nós fomos para lá cedo. Estávamos muito preocupadas e aflitas pensando que tínhamos chegado tarde como todos os novatos. Tiramos nossos casacos e fomos para o corredor. Ninguém estava lá...Estava silencioso...Tateamos o disjuntor na parede e ligamos a luz. Vimos pinturas. Não eram desenhos, mas pinturas de fato, e havia muitas delas, talvez algumas dúzias. Nos aproximamos delas.

"Mãe, lembra das nossas leituras?" sussurrou Varya. "Veja, é Deus. Ó, e Theotokos. Ó, olha!, aqui é Zaqueu em uma árvore..." "Sim, sim, lembro" eu disse também em um sussurro, por alguma razão, embora estivéssemos a sós.

Toda a doutrina de Cristo foi desenhada com lápis de cor de uma forma muito bela e amável. Sim, sim. Eu até mesmo pensei então: "Incrível. É realmente a doutrina para as crianças. Ou para aqueles que não ouvem ou não podem ler. Até mesmo uma criança de três anos reconhece tudo"... Tudo que aconteceu no tempo de Jesus Cristo foi pintado tão cuidadosamente, passo por passo, sem perder um único detalhe. Em minha opinião de amadora, foi feito de um modo muito profissional. "Algum artista", concluí.

Enquanto isso, minha filha puxava minha mão para ir adiante: "Mãe, aqui eles estão afundando, mas Jesus salvará eles, não vai? Aqui um homem doente, mas esqueci quem é... Ó, aqui Ele está carregando a cruz. Está tão triste! Olha, ele está quase chorando". Nós fomos de uma pintura para outra e Varyushka comentava sem parar.

"Vocês gostam delas?" alguém disse atrás de nós. Estávamos tão fascinadas com as pinturas que não notamos quando uma mulher entrou. Mais tarde descobrimos que era uma professora das crianças da "pré-escola", chamada Ksenia Ivanovna. Logo passamos a amá-la muito.

"Incrivelmente, foi uma vida curta, mas tão completa!" ela disse depois de uma pausa. "Maravilho-me toda vez que vejo". "Por que curta?" retruquei. "Por que, vocês não sabem? Ah, vocês são os novatos", Ksenya Ivanovna sorriu tristemente. "Foi desenhado por uma menina. Ela morreu. Estas pinturas são presente dela para nós."

Puxei Varyushka para mais perto por algum motivo, "Como era o nome dela? Ela veio para cá?" "Não, ela não era daqui. Não sabemos no nome dela", Ksenya Ivanovna respondeu. "Nós sequer sabemos alguma coisa dela... alguns dizem que ela tinha quinze anos, outros dizem que tinha doze. Hoje ninguém mais se lembrará exatamente".

... Foi há muito tempo, quase vinte cinco anos se passaram. Serviços divinos tiveram então apenas retomado para manter depois de um período de desolação em nossa igreja. Um dia um homem veio e se dirigiu ao reitor da igreja, Padre Georgy Studenov. O homem pareceu ser o padre da criança. Ele trouxe uma pasta de papeis bem grande, na qual estavam estas pinturas.

"Ele disse que sua filha estava muito doente e morreu. Ela amava a Sagrada Escritura", o reitor lembra. "Ela pintava e pintava... ela pintou Deus e tudo o que leu sobre. Mesmo morrendo, ela continuava lendo e pintando". Depois de sua morte, seus pais decidiram dar as pinturas para a igreja, para a escola domincal. Depois, um pai de um estudante da escola, sendo um artista, fez molduras para as pinturas.

"Por que eles não ficaram com isso? Não sei... talvez, era dolorido demais para eles olhar para as pinturas", notou Padre Georgy. "Talvez eles tiveram esperanças de que o Senhor manteria sua filha viva, mas Ele julgou diferente. Eles rezaram para Ele, enquanto que os Anjos já carregavam sua alma pura para Ele, terna e alegremente".

O homem deixou seus contatos, mas infelizmente eles se perderam durante a restauração da igreja. Os seniores da escola disseram que tentaram encontrar sua família e sonhavam em falar com eles sobre esta menina maravilhosa e saber mais sobre ela. Eles perguntaram a todos sobre ela... "Mas, talvez, o Senhor desejou manter seu nome oculto para nós", disse Tatyana Borisovna (ela foi uma professora na escola antes). "Ainda assim, temos esperanças... embora muitos anos tenham se passado, ainda esperamos que alguém dos seus parentes ou conhecidos venham para nós algum dia..." confessou o Padre Georgy.

... Anos se passaram... as crianças da nossa escola cresceram. Alguns já trouxeram suas crianças para a escola. Todo novato, assim como eu naquele dia, param diante daquelas pinturas e perguntam: "Quem desenhou?" Então eles ouvem a história sobre a curta vida de uma criança que era plena de Deus. Tendo ouvido isto, todos caem em silêncio. Alguns escondem as lágrimas. Quase todo mundo começam a se afligir...

A menina há muito se fora, mas suas pinturas vivem. E de fato, ela não está morta. Ela apenas se foi do mundo, aquele que ela desenhou e pintou. Tendo retornado por um momento e sorrido, se foi para Deus... essas pinturas são seu sorriso compartilhado conosco... e tendo a felicidade do encontro com Deus, com Quem ela tanto amou...


via Pravmir