sábado, 14 de outubro de 2017

A Cisão entre a Classe Intelectual e o Povo, ou: Um Apelo à União

por Álvaro Hauschild*
Dinarte Silva, pescador e morador de São José do Norte/RS a sofrer com a exploração indevida das mineradoras, conforme notícia abaixo.
Recentemente, saiu a notícia[1] sobre um projeto de uma empresa mineradora privada (a Rio Grande Mineração S/A) em São José do Norte, no Rio Grande do Sul. Nela se descreve uma tragédia que, embora pouco conhecida, expressa um fato deveras corriqueiro não só no Brasil, mas em toda a América Latina: uma empresa privada, com uma propaganda alegre e convidativa, emotiva, busca justificar uma verdadeira extorsão das muitas comunidades locais e da pátria Brasil, a fim de arrancar riquezas de valor inestimável a preço de banana e comercializar no mercado internacional. A empresa ainda, com um vídeo-aula muito bonito, tenta convencer de que não haverá qualquer tipo de sequelas naturais e ecológicas na região.

Contrariando a narrativa da empresa, as comunidades locais, compostas sobretudo de pescadores, agricultores e pequenos comerciantes, desconfiam plenamente das promessas da empresa. E dizem mais: o vídeo-aula não toca em assuntos relevantes, como é o caso do equilíbrio aquífero subterrâneo, que certamente seria violado, causando uma tragédia ecológica que seria impossível reverter. E como os moradores dependem deste equilíbrio para suas atividades e suas necessidades básicas, o fato causaria a fome generalizada em toda a área circundante. Ademais, promessas muito semelhantes já haviam sido feitas por outras empresas que, além de não cumpri-las, causou demais desgraças para toda a região. De modo que as populações locais, tradicionais, se sentem intimidadas e abandonadas pelas autoridades brasileiras, que nada fazem para reverter a expropriação.

A empresa ainda diz que sua atividade trará progresso e desenvolvimento ao país, fazendo-o subir na balança comercial, ao simplesmente exportar todo material bruto recolhido das minas. Mas onde está a lógica nisso tudo? Uma empresa privada que vem, se instala, extrai o material e o embarca em portos para o exterior tem como último objetivo um benefício ao país de onde extraiu o minério. Além de não alimentar a indústria do país, o material será vendido a preço de banana para que indústrias no exterior aproveitem a deixa para crescer e se tornar ainda mais poderosas– sem falar das desgraças que ficam nas entrelinhas, impossíveis de se cobrar pelos meios jurídicos, como é o fato do equilíbrio aquífero omitido pela empresa, mas cuja importância é absoluta.

Assim sendo, também essa promessa de que ajudará na balança comercial é falsa. Estaremos vendendo ouro a preço de banana.

Mas, dados os fatos, o que nossa classe intelectual tem a fazer? Onde estão aqueles que vivem dando atenção ao MBL quando precisamos resolver questões urgentes de maior importância? Nossas comunidades locais estão sendo esquecidas e abandonadas, não apenas por políticos, mas primeiramente por nossos intelectuais.

Um dos fatores-chave da atual crise política, econômica, sociológica, psicológica, moral do Brasil está em uma enorme tragédia ocorrida com nossa classe intelectual nas últimas décadas. Trata-se de uma classe formada no exterior, em época de florescimento do neoliberalismo, no pós-segunda-guerra. Todo tipo de pensamento cosmopolita, urbano, desenraizado, multicultural e internacionalista inculcado nas cabecinhas inocentes dos brasileiros desenvolveu um paradigma neoliberal em toda esta classe, submissa aos ditames dos intelectuais estrangeiros ao invés de produzir teorias com suas próprias mentes. E ela se alimentou disso como uma classe trabalhadora, proletária, que apenas reproduz textos ao invés de criar ideias – tornamo-nos prostitutas. E com esses projetos na vanguarda do pós-modernismo, como é o caso do Black Lives Matter financiado por Soros, FEMEN etc., nossa classe intelectual sai do armário e se afirma orgulhosamente como prostituta.

Com tanta coisa para se fazer, nossa classe preocupada com viagens à Disney e ao Canadá! E assim o Brasil ficou sem uma ciência própria, sem linhas de pesquisa genuinamente brasileiras. Em decorrência disso, ficamos sem uma indústria brasileira, sem um projeto agropecuário, de modo que as consequências mais óbvias são a estagnação da máquina estatal, o aumento das dívidas, a dependência dos empréstimos, a submissão militar e noológica. Enfim, depois de tantos anos, “O Brasil não serve para mais nada”, a não ser para receber gringo nas praias e vender-lhes nossas mulheres como prostitutas, abrir as pernas para quem quiser enfiar em nosso país suas máquinas que sugarão petróleo, água potável e demais minérios, riquezas biológicas para alimentar o mercado farmacêutico, etc.

Cultuando os ideais cosmopolitas e pós-modernos, nossa classe intelectual fomentou o surgimento de uma classe média imensa, de caráter burguês, economicista, neoliberal, corrupta, esquecendo-se do povo no interior, das tradições locais. E hoje, essa classe intelectual, em sua maioria de “esquerda”, embora seja “anti-burguês” na palavra é burguês na alma, neoliberal também, individualista, que preza uma meritocracia baseada na ideologia e não na qualidade da produção. Então quando atacam o MBL, é tão somente para manter as atenções do público para fora da realidade, que é o povo local e tradicional. Servem apenas como distrações, mantendo o país em constante queda moral, em disputas irrelevantes em torno de formas artísticas, quando precisamos de um poderoso projeto estrutural e econômico, desenvolvimentista para salvar o país.

Nosso povo, isto é, os pescadores, pequenos agricultores, quilombolas, tribos indígenas, sertanejos etc., foram abandonados por aqueles que mais deveriam dar-lhes atenção devida, que é a classe intelectual brasileira. Esta classe julga que as comunidades locais são “atrasadas” e impedem o “progressismo”, mas onde está o projeto desenvolvimentista destes progressistas? Querem “progredir” em quê, exatamente? Pelo contrário, o conhecimento prático popular tem muito a colaborar e até ensinar nossa classe intelectual, que deveria ser o cérebro do povo e ajuda-lo a organizar seu conhecimento, ao invés de sabotá-lo. O povo é a alma do país, mata-lo é matar o país, e matar o país é matar cada um de nós dentro dele.

Não há qualquer contradição entre desenvolvimento científico e as tradições populares. Pelo contrário, ambas são complementares. Pensemos na indústria brasileira, que depende da classe intelectual: fortalecendo a soberania do país através da indústria, quem mais se beneficiaria com ela senão o povo, que será amparado pelo desenvolvimento tecnológico, mas também pela segurança militar e política? E quem mais se beneficiará com o folclore e com a força do trabalho populares, que servem de base psico-social e econômica de todo um país, senão a própria classe intelectual, sem a qual viverá em um limbo negro e obscuro, instável e inseguro como um mapa cartesiano, além de sujeita aos interesses científicos de empresas privadas e internacionais?

Podemos comparar o estado do Brasil com o da Rússia no século XIX, quando a classe intelectual russa, eurófila, traiu os interesses populares, desenvolvendo uma instabilidade interna que gerou à dissolução final na Revolução de 1917. Os anos seguintes, as décadas que sucederam, se tornaram um verdadeiro inferno para várias gerações, que ainda hoje sentem muito fortemente o trauma. Mas ainda no século XIX, escritores como Dostoevsky estavam conscientes disso, alardeavam o perigo dessa desunião entre a classe intelectual e o povo, prevendo desde muito cedo o que viria a ocorrer apenas no final da segunda década do século XX.

O Brasil, embora com suas particularidades, está em uma situação muito semelhante à Rússia do século XIX, e poderia aprender com a história. Se nossa classe intelectual se unisse ao povo, encontraria força o bastante para derrubar não só o governo corrupto, mas também retomar tudo o que foi saqueado por “investidores” internacionais. O povo é a força que move montanhas, mas a classe intelectual é o cérebro que orienta essa força para o ponto certo; ambos são partes de um mesmo corpo, por onde corre o mesmo sangue.

E quando falamos “povo”, referimo-nos às comunidades locais, não à imensa classe média aburguesada (a chamada “gentalha” nos livros de filosofia-política) que se formou às sombras da própria classe intelectual. E vejamos ainda que paradoxal: é contra essa massa burguesa, hoje apoiadora de tudo que há de pior na política, a chamada “direita”, contra qual a classe intelectual, em geral de “esquerda”, vive disputando protagonismo. São mãe e filho brigando uma discussão doméstica, histérica, sexual, protagonizando nossas mídias, enquanto toda uma rede popular de pescadores, quilombolas, agricultores alemães, sertanejos, caipiras estão sofrendo um verdadeiro assalto a mãos armadas, às ocultas, pelo que há de pior na pirataria internacional!

Deixaremos isto acontecer com nosso povo? Ou, se ainda pudermos chorar por ele, mudaremos de atitude e, mesmo com lágrimas nos olhos, levantaremos e marcharemos com um novo objetivo em mente?

*06/10/2017


[1] https://rsurgente.wordpress.com/2017/09/26/comunidades-tradicionais-recusam-promessas-da-mineracao-a-primeira-coisa-que-vamos-perder-e-nossa-agua/

Um comentário:

  1. Ótimo post. A mentalidade caipira da "elite" educada é de importar todos os modismos europeus decadentes. Sempre foi assim infelizmente. Nossa "elite" é uma paródia da desgraça europeia.

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