quinta-feira, 23 de abril de 2015

Benoist: "Há que ser de uma ingenuidade vergonhosa para considerar o sistema capitalista conservador"

por Nicolas Gauthier – Recordemos A declaração de François Hollande quando estava em campanha eleitoral: "meu inimigo é a finança!". Hoje, aparentemente ela se tornou sua amiga, como testemunha a chegada ao comando do banqueiro Emmanuel Macron. Quanto à lei que leva o nome deste último, enquanto o MEDEF [a Patronal francesa] sonhava com ela, o Partido Socialista (PS) o fez. Isto lhe surpreende?

Alain de Benoist: Em absoluto. Desde que se uniu oficialmente, se não à sociedade de mercado, pelo menos ao princípio do mercado, em 1983, o PS não fez mais do que caminhar cada vez mais longe até o liberalismo social... cada vez menos social. Isso confirma e ilustra o planejamento de Jean-Claude Michéa, segundo o qual o liberalismo econômico e o liberalismo "societal" ou cultural estão chamados a se unir já que ambos procedem de uma mesma matriz ideológica, começando por uma concepção da sociedade percebida como uma simples soma de indivíduos que só estariam ligados entre si pelo contato jurídico ou pelo intercâmbio mercantil, quer dizer, pelo mero jogo de seus desejos e interesses.

"O liberalismo econômico integral (oficialmente defendido pela direita) leva em si a revolução permanente dos costumes (oficialmente defendidos pela esquerda), do mesmo modo que esta última exige, por sua vez, a liberação total do mercado", escreve ainda Michéa. Ao contrário, a transgressão sistemática de todas as normas sociais, morais ou culturais se converte em sinônimo de "emancipação". Lemas de maio do 68 como "gozar sem travas" ou "proibido proibir" eram lemas tipicamente liberais, que proíbem pensar a vida segundo seu bem ou segundo seu fim. A esquerda, hoje, entrega-se com mais razão ao liberalismo societal na medida em que se converteu inteiramente ao liberalismo econômico globalizado.

NG: O neo-capitalismo financializado e globalizado, que alguns se empenham em considerar como "patriarcal e conservador", não seria finalmente mais revolucionário que nosso "socialismo" francês, manifestamente já quase sem fôlego?

Alain de Benoist: Há que ser de uma ingenuidade vergonhosa para ver no sistema capitalista um sistema "patriarcal" ou "conservador". O capitalismo liberal repousa sobre um modelo antropológico, que é o do Homo economicus, um ser produtor e consumidor, egoísta e calculador, que se supõe que sempre trata de maximizar racionalmente sua utilidade, ou seja, o do "cada vez mais" (cada vez mais intercâmbios, cada vez mais mercado, cada vez mais benefícios, etc.). Esta propensão intrínseca à desmedida conduz a considerar tudo o que pode impedir a extensão indefinida do mercado, a livre circulação dos homens ou a mercantilização dos bens como outros tantos obstáculos que há que suprimir, já que se trata da decisão política, da fronteira territorial, do juízo moral que incita à medida, ou da tradição que nos faz céticos a respeito da novidade.

NG: Não é aí onde o sistema capitalista de une à ideologia do progresso?

Alain de Benoist: Marx já havia constatado que o advento do capitalismo tinha posto fim à sociedade feudal tradicional, cujos valores de solidariedade comunitária tinham sido em sua totalidade afogados "nas águas gélidas do cálculo egoísta". Observando que a ascensão dos valores burgueses tinha sido feito em detrimento dos valores populares, assim como dos valores aristocráticos ("tudo o que tinha solidez e permanência se desvanece no ar, tudo o que era sagrado é profanado"), escrevia que "a burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produção, portanto, as condições de profissão, portanto, o conjunto das relações sociais". Nesse sentido, falava  da "função eminentemente revolucionária" desempenhada ao longo da História pelo capitalismo, começando pela expulsão dos camponeses das sociedades rurais através de um processo de despossessão de massas que tinha visto a destruição do vínculo imediato entre o trabalho e a propriedade, com o fim de criar um vasto mercado no qual, transformados em assalariados, comprariam desde então os produtos de seu próprio trabalho.

Mais próximo de nós, Pier Paolo Pasolini dizia que, desde o ponto de vista antropológico, "a revolução capitalista exige homens desprovidos de vínculos com o passado [...] exige que estes homens vivam, desde o ponto de vista da qualidade de vida, do comportamento e dos valores, em um estado, por assim dizer, de imponderabilidade - o que lhes permite eleger como o único ato existencial possível o consumo e a satisfação de suas exigências hedonistas". De fato, o capitalismo liberal exige homens sem solo, homens intercambiáveis, flexíveis e mobilizáveis ao infinito, cuja liberdade (começando pela liberdade de adquirir, de intercambiar e de consumir) exige que estejam desligados de suas heranças, de suas pertenças e de tudo o que poderia, por cima deles mesmos, impedi-los de exercer sua "livre eleição". Desde esta perspectiva, romper com as tradições herdadas do passado, romper com a humanidade anterior equivale necessariamente a um bem. Daí a inconsequência trágica desses conservadores ou "nacional-liberais" que querem por sua vez defender o sistema de mercado e uns "valores tradicionais" que este sistema não deixa de laminar.

terça-feira, 21 de abril de 2015

A verdade é inimiga de Washington

 representante dos EUA Ed Royce (R, CA) está ocupado com a tarefa de destruir a possibilidade da verdade ser dita nos EUA. Em 15 de abril em uma audiência antes do Comitê de Relações Internacionais do qual Royce é presidente, Royce usou de duas comitivas de imprensa (presstitute: imprensa + prostituta) para ajudá-lo a redefinir tudo o que não coincide com as mentiras de Washington como "ameaça" que, por sua vez, deve pertencer a uma propaganda cult pró-Rússia.

O problema de Washington é que onde quer que Washington controle a imprensa e a televisão nos EUA e nos seus vassalos na Europa, Canadá, Austrália, Ucrânia e Japão, Washington não controla os sites de internet, tais como esta ou outra mídia, como a RT, de Estados não-vassalos. Consequentemente, as mentiras de Washington estão sujeitas a desafios, e enquanto pessoas perdem confiança na imprensa e na televisão por causa da sua natureza propagandística, as agendas de Washington, que dependem em mentiras, estão experimentando um precipício brusco.

A verdade borbulha através da propaganda de Washington. Confrontada com a possibilidade de perda de controle sobre qualquer explanação, Hillary Clinton, Ed Royce e o resto estão de repente se queixando de que Washington "está perdendo a guerra da informação". Enormes somas de impostos dificilmente serão agora usados para combater a verdade com mentiras.

O que fazer? Como ofuscar a verdade com mentiras com fim de permanecer no controle? A resposta é dada por Andrew Lack, Royce, e outros, que é redefinir o contador-de-verdades como um terrorista. Assim, vem a comparação da RT e de blogues dissidentes (como o nosso Portal Legionário) com o Estado Islâmico e o grupo designado como terrorista Boko Haram.

Royce expandiu a redefinição dos contadores-de-verdade para incluir blogueiros, como Chris Hedges, John Pliger, Glenn Greenwald e o resto de todos nós, que nos opusemos à falsa realidade que Washington cria com fim de servir suas agendas. Por exemplo, se Washington quer despejar lucros no complexo militar/de segurança em troca de contribuições em campanhas políticas, os políticos não podem dizer isto. Ao invés disso, eles clamam por proteger os EUA de um perigoso inimigo ou de armas de destruição em massa ao iniciar uma guerra. Se os políticos querem avançar o imperialismo financeiro ou energético dos EUA, eles precisam fazer isso "para trazer liberdade e democracia aos povos". Se os políticos querem prevenir o crescimento de outros países, como a Rússia, o presidente Obama precisa pintar a Rússia como uma ameaça comparável ao vírus Ebola e ao Estado Islâmico.

Noam Chomsky resumiu isso quando ele disse que Washington considera qualquer informação que não repete a propaganda dos EUA como intolerável.

O assalto de Washington contra a verdade com uma ameaça ajuda a fazer sentido sobre o sistema gigante de espionagem da National Security Agency exposta por William Binney e Edward Snowden. Um dos propósitos da rede de espionagem é identificar todos os dissidentes que confrontam com a "Verdade" do Big Brother.

Há, ou haverá, um dossiê para cada dissidente com todos os emails, pesquisas de internet, sites visitados, chamadas telefônicas, aquisições e viagens dos dissidentes. A vasta soma de informação sobre cada dissidente pode ser combinada fora de contexto com fim de jogar contra ele, se necessário. Washington foi bem sucedida em afirmar seu poder sobre a Constituição para indefinidamente deter sem obstáculos e torturar e assassinar cidadãos americanos. Foi há poucos anos atrás que Janet Napolitano, chefe da Segurança Nacional, disse que o foco do departamento mudou de terroristas para extremistas domésticos. Aglomerados na categoria de extremistas domésticos estão ativistas pró-meio ambiente, pró-direito dos animais, ativistas anti-guerra que inclui veteranos desiludidos, e pessoas que acreditam em direitos de Estados, governo limitado e governo responsável. Consequentemente, muitos dissidentes, os melhores cidadãos americanos, serão qualificados como extremistas domésticos em muitos aspectos. Chris Hedges, por exemplo, advoga pelos animais tanto quanto pelo meio ambiente e pelo término das intermináveis guerras dos EUA.

A espionagem e a vindoura repressão dos dissidentes pode também explicar o contrato federal de U$ 385 milhões com a firma de Dick Cheney, Halliburton, com fim de construir campos de detenção nos EUA. Parece que muitos estão conscientes sobre quem serão os presos nesses lugares. Não há investigação da mídia nem do congresso. Parece improvável que os campos serão para refugiados de furacões ou incêndios de florestas. Campos de concentração são comumente feitos para pessoas não confiáveis. E como Lack, Royce, e outros tornaram claro, pessoas inconfiáveis são aquelas que não apoiam as mentiras de Washington.

Uma necessidade percebida por Washington, e o poder privado ao qual Washington serve, para proteger a si mesmos dos dissidentes pode também ser o motivo para as muito estranhas operações militares em vários estados para infiltrar, ocupar e isolar "ameaças" entre a população civil. A imprensa (pressititude) CNN informou que as tropas da Guarda Nacional enviadas para Ferguson, Missouri, foram programadas para ver os protestantes civis como "forças inimigas" e "adversários", e nós sabemos que a polícia militarizada estatal e local são treinadas a ver os civis dos EUA como ameaças.

Conforme pode-se ver, não muitos estadunidenses, sejam democratas ou republicanos, liberais, conservadores, ou patriotas, educados ou não, compreendem que Washington definiu, com cooperação com sua mídia de imprensa (pressititute), a verdade como ameaça. Na opinião de Washington, a verdade é maior que Ebola, Rússia, China, terrorismo e que o Estado Islâmico combinados.

Um governo que não pode sobreviver à verdade e precisa recorrer à ocultação da verdade não é um governo que país algum quer. Mas um governo indesejável como este é o de Clinton, Bush, Cheney, Obama, Hillary, Lack Royce. Satisfaz você, cidadão americano? Satisfaz você, cidadão do Brasil? Você está contente com o domínio internacional dos EUA que, em nome de todos os cidadãos de todos os países, acumula e rouba poder dos povos através de impostos, cartéis, espionagem, sistema de bancos, infiltração nos governos estrangeiros e ameaça e suborno de pessoas importantes mundo à fora, e se reserva o direito de ditar as regras do mundo, matar milhões de pessoas e destruir culturas e países? Este país agora quer empurrar o mundo todo contra a Rússia, China, Coreia do Norte e Irã, que se mantêm firmes e inabaláveis para proteger tudo o que para eles é de mais sagrado: o povo e a tradição.

De que lado você está?

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Geopolítica por trás da guerra do Yemen - um front anti-iraniano

Por Mahdi Darius Nazemroaya

EUA e Reino da Arábia Saudita se incomodaram consideravelmente quando o movimento yemeni ou yemenita dos huties ou Ansar Allah (Os Partidários de Deus, em árabe) conseguiu o controle da capital de Yemen, Sanaa/Saná em setembro de 2014. O presidente yemenita Abd-Rabbuh Man S our Al-Hadi, apoiado pelos EUA, foi humilhantemente obrigado a compartilhar o poder com os huties e com a coalizão de tribos do norte de Yemen, que os tinha ajudado a penetrar em Sanaa. ALl-Hadi declarou que havia negociações para um movimento yemenita da unidade nacional e seus aliados, EUA e Arábia Saudita, trataram de usar um novo diálogo nacional e negociações mediadas para cooptar e pacificar os huties.

A verdade sobre a guerra no Yemen foi posta de pernas para baixo. A guerra e a derrota do presidente Abd-Rabbuh Man S our Al-Hadi no Yemen não são resultado de um 'golpe huti' no Yemen. É bem pelo contrário, Al Hadi foi derrotado porque, com apoio saudita e estadunidense tratou de esquecer-se dos acordos para compartilhar o poder que tinha feito e de devolver ao Yemen um regime autoritário. A derrota do presidente Al-Hadi executada pelos huties e seus aliados políticos foi uma reação inesperada diante do apoderamento do poder que Al-Hadi estava planejando com Washington e com a Casa de Saud.

Os huties e seus aliados representam um corte transversal diverso da sociedade yemenita e a maioria dos yemenitas. A aliança interior do movimento huti contra Al-Hadi inclui muçulmanos shiitas e sunitas. EUA e a Casa de Saud nunca pensaram que os huties se imporiam e derrubariam Al-Hadi do poder, mas essa reação se desenvolveu durante uma década. Com a Casa de Saud, Al-Hadi tinha se envolvido na perseguição dos huties e na manipulação de políticas tribais no Yemen, inclusive antes de ser presidente. Quando chegou a ser presidente do Yemen, ampliou os negócios e trabalhou contra a implementação dos acordos que tinha fechado mediante consenso e negociações no Diálogo Nacional do Yemen, que foi convocado depois que Ali Abdullah Saleh foi obrigado a ceder o poder em 2011.

Golpe ou contragolpe: o que passou no Yemen?

Em primeiro lugar, quando tomaram Sanaa no final de 2014, os huties rechaçaram as propostas de Al-Hadi e suas novas ofertas para um acordo formal de compartilhamento do poder, qualificando-o de personagem moralmente corrupto que em realidade tinha renegado suas promessas anteriores de compartilhar o poder político. Nesse momento, as tentativas do presidente Al-Hadi de obedecer Washington e a Casa de Saud o tinham convertido em profundamente impopular na maioria da população de Yemen. Dois meses depois, em 8 de novembro, o próprio partido do presidente Al-Hadi, o Congresso Geral Popular Yemenita, também despojou Al-Hadi de seu cargo.

Os huties finalmente deteram em 20 de janeiro o presidente Al-Hadi e ocuparam o palácio presidencial e outros edifícios do governo yemenita. Com apoio popular, um pouco mais de duas semanas depois, os huties formaram formalmente um governo de transição yemenita em 6 de fevereiro. Al-Hadi foi obrigado a renunciar. Os huties declararam em 26 de fevereiro que Al-Hadi, EUA e Arábia Saudita estavam planejando a devastação do Yemen.

A renúncia de Al-Hadi foi um revés para a política externa dos EUA. Levou a uma retirada militar e operacional da CIA e do Pentágono, que foram obrigados a retirar pessoal militar e agentes de inteligência do Yemen. Los Angeles Times informou em 25 de março, citando funcionários estadunidenses, que os huties tinham capturado numerosos documentos secretos quando ocuparam o Secretário de Segurança Nacional yemenita, que trabalhava em estreita colaboração com a CIA, o que afetou as operações de Washington no Yemen.

Al-Hadi fugiu da capital yemenita Sanna para Adén em 21 de fevereiro e declarou em 7 de março que essa cidade-porto era a capital temporal do Yemen. EUA, França, Turquia e seus aliados europeus ocidentais fecharam suas embaixadas. Pouco depois, no que foi provavelmente uma ação coordenada com EUA, Arábia Saudita, Kuwait, Bahréin, Qatar e Emirados Árabes Unidos transferiram suas embaixadas de Sanna para Adén. Al-Hadi anulou sua carta de renúncia como presidente e declarou que estava formando um governo no exílio.

Os huties e seus aliados políticos se negaram a aceitar as demandas dos EUA e da Arábia Saudita, articuladas através de Al-Hadi em Adén e por Riad, cada vez mais histérica. Como resultado, o ministro de assuntos internacionais de Al-Hadi, Riyadh Yaseen, pediu em 23 de março que Arábia Saudita e os petro-emirados árabes interviessem com suas forças armadas para impedir que os huties obtivessem o controle do espaço aéreo do Yemen. Yaseen disse ao porta-voz saudita Al-Sharq Al-Awsa que necessitava de uma campanha de bombardeio e que tinha-se que impor uma região de não-voo sobre Yemen.

Os huties deram conta que ia começar uma luta militar. Por isso os huties e seus aliados nas forças armadas yemenitas se apressaram em controlar o mais rapidamente possível a maior parte dos aeroportos e bases aéreas yemenitas, como Al-Anad. Se apressaram em neutralizar Al-Hadi e penetraram em Adén em 25 de março.

Quando os huties e seus aliados entraram em Adén Al-Hadi tinha fugido da cidade-porto yemenita. Al-Hadi reapareceu na Arábia Saudita quando a Casa de Saud começou a atacar Yemen em 26 de março. Desde Arábia Saudita, Abd-Rabbuh Man S our Al-Hadi voou então para o Egito a uma reunião da Liga Árabe para legitimar a guerra contra Yemen.

Yemen e a mutante equação estratégica no Oriente Médio

A ocupação huti de Sanaa aconteceu no mesmo período como uma série de êxitos ou vitórias regionais para o Irã, Hezbollah, Síria e o Bloco da Resistência que estes e outros protagonistas locais formam coletivamente. Na Síria, o governo conseguiu reafirmar sua posição enquanto no Iraque o movimento EI/ISIL/Daesh era obrigado a retroceder pelo Iraque com a evidente ajuda do Irã e de milícias iraquianas aliadas com Teerã.

A equação estratégica no Oriente Médio começou a mudar na medida em que ficava claro que Irã começava a ocupar uma posição central para a arquitetura e estabilidade de sua segurança. A Casa de Saud e o primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu começaram a choramingar e a queixar-se de que o Irã controlava quatro capitais regionais - Beirut, Damasco, Bagdad e Sanaa - e que tinha-se que fazer algo para deter a expansão iraniana. Como resultado da nova equação estratégica, os israelitas e a Casa de Saud se alinharam perfeitamente com o objetivo estratégico de neutralizar o Irã e seus aliados regionais. "Quando israelitas e árabes se encontram na mesma página, a gente devia prestar atenção", disse em 5 de março o embaixador israelita Ron Dermer a Fox News sobre o alinhamento de Israel com Arábia Saudita.

A campanha de medo israelita e saudita não teve resultado. Segundo a pesquisa Gallup, só 9% dos cidadãos dos EUA viam o Irã como o maior inimigo dos EUA, quando Netanyahu chegou a Washington para falar contra um acordo entre EUA e Irã.

Os objetivos geoestratégicos dos EUA e dos sauditas depois da guerra no Yemen

Enquanto a Casa de Saud considerou há tempo Yemen uma espécie de província subordinada e parte da esfera de influência de Riad, EUA quis assegurar-se de poder controlar o Bab Am-Mandeb, o Golfo de Adén e as ilhas Socotra. O Bab Al-Mandeb é um importante ponto crítico para o comércio marítimo internacional e os embarques de energia que conecta o Golfo Pérsico através do Oceano Índico com o Mar Mediterrâneo através do Mar Vermelho. É tão importante como o Canal de Suez para as vias de transporte marítimo e para o comércio entre África, Ásia e Europa.

Israel também estava preocupado porque o controle do Yemen poderia cortar o acesso de Israel ao Oceano Índico através do Mar Vermelho e impedir que seus submarinos chegassem facilmente ao Golfo Pérsico para ameaçar o Irã. Por isso o controle do Yemen foi em realidade um dos temas de discussão de Netanyahu quando falou diante do Congresso dos EUA em 3 de março, quando precisamente New York Times apresentou em 4 de março como "o pouco convincente discurso de Netanyahu diante do Congresso".

Arábia Saudita temia visivelmente que Yemen poderia chegar a se alinhar formalmente com Irã e que os eventos poderia conduzir a novas rebeliões contra a Casa de Saud na Península Arábica. EUA também estavam preocupados, mas também pensavam em termos de rivalidades globais. Impedir que o Irã, Rússia, ou China tivessem um ponto de apoio estratégico no Yemen, como meio de impedir que outras potências controlassem o Golfo de Adén e se posicionassem em Bab Al-Mandev, era uma preocupação importante para os EUA.

Acrescenta-se à importância geopolítica do Yemen na supervisão de corredores marítimos estratégicos seu arsenal de mísseis militares. Os mísseis do Yemen poderia alcançar quaisquer barcos no Golfo de Adén ou Bab Al-Mandeb. Nesse sentido, o ataque saudita contra os depósitos de mísseis estratégicos do Yemen serve tanto aos interesses dos EUA como os de Israel. O objetivo não é apenas impedir que sejam utilizados para tomar represálias contra o uso de força militar saudita, mas também impedir que estejam em disposição de um governo yemenita alinhado com Irã, Rússia ou China.

Em uma posição pública que contradiz totalmente a política síria de Riad, os sauditas ameaçaram empreender uma ação militar se os huties e seus aliados políticos não negociassem com Al-Hadi. Como resultado das ameaças sauditas, protestos estalaram em todo Yemen em 25 de março contra a Casa de Saud. Portanto, a situação se preparou para outra guerra no Oriente Médio, quando EUA, Arábia Saudita, Bahréin, os EAU, Qatar e Kwait começaram a se preparar para reinstalar Al-Hadi.

A marcha saudita rumo à guerra no Yemen e um novo front contra Irã

Apesar de tudo o que se diz sobre Arábia Saudita como potência mundial, é muito débil para enfrentar sozinha o Irã. A estratégia da Casa de Saud foi erigir ou reforçar um sistema de aliança regional para um prolongado enfrentamento contra Irã e o Bloco da Resistência. Por isso, Arábia Saudita precisa do Egito, da Turquia e do Paquistão - uma mal chamada aliança ou eixo "sunita" - para que ajudem a enfrentar o Irã e seus aliados regionais.

O príncipe herdeiro Mohammed bin Zayed bin Sultan Al Nahyan, o príncipe herdeiro do Emirado de Abu Dabi e vicecomandante supremo das forças armadas dos EAU, devia visitar Marrocos em 17 de março para falar de uma resposta militar coletiva ao Yemen por parte dos petro-emirados árabes, Marrocos, Jordânia e Egito. Em 21 de janeiro, Mohammed bin Zayed se reuniu com o rei da Arábia Saudita Salman bin Abdulaziz Al-Saud para discutir uma resposta militar ao Yemen. Isso ocorreu enquanto Al-Hadi chamada Arábia Saudita e o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) para que ajudassem mediante uma intervenção militar no Yemen. As reuniões foram seguidas por negociações sobre um novo pacto regional de segurança dos petro-emirados árabes.

Dos cinco membros do CCG, só o Sultanato de Oman se manteve distante. Oman se negou a unir-se à guerra contra o Yemen. Muscat tem relações amistosas com Teerã. Além disso os omanitas estão cansados do projeto saudita e do CCG de utilizar o sectarismo para provocar um enfrentamento contra Irã e seus aliados. A maioria dos omanitas não são muçulmanos sunitas nem shiitas; são muçulmanos ibaditas, e temem o avivamento da sedição sectária feita pela Casa de Saud e os outros petro-emirados árabes.

Os propagandistas sauditas se mobilizaram afirmando falsamente que a guerra era uma resposta à intrusão iraniana nas fronteiras da Arábia Saudita. Turquia também anunciaria seu apoio à guerra contra Yemen. No dia em que se lançou a guerra, Erdogan da Turquia afirmou que Irã estava tratando de dominar a região e que a Turquia, Arábia Saudita e o CCG se sentiam irritados.

Durante estes acontecimentos, Sisi, no Egito, declarou que a segurança de Cairo e a segurança da Arábia Saudita e dos petro-emirados árabes eram idênticas. De fato, Egito disse em 25 de março que não participaria em uma guerra no Yemen, mas no dia seguinte Cairo se somou à Arábia Saudita no ataque de Riad contra Yemen ao enviar seus jets e barcos a este país.

Do mesmo modo, o primeiro ministro paquistanês Nawaz Sharif publicou em 26 de março uma declaração dizendo que qualquer ameaça contra Arábia Saudita "provocará uma forte reação" do Paquistão. A mensagem se dirigia tacitamente contra o Irã.

O papel dos EUA e de Israel na guerra contra Yemen

Em 27 de março anunciou-se no Yemen que Israel estava ajudando Arábia Saudita no ataque contra o país árabe. "É a primeira vez que os sionistas [israelitas] realizam uma operação conjunta em colaboração com árabes", escreveu na Internet o chefe do Partido Al-Haq do Yemen, para destacar a convergência de interesses entre Arábia Saudita e Israel. A aliança israelita-saudita sobre o Yemen, não obstante, não é nova. Os israelitas ajudaram a Casa de Saud durante a Guerra Civil do Norte do Yemen que começou em 1962 financiando armas para Arábia Saudita para ajudar os realistas contra os republicanos no Norte do Yemen.

EUA também estão metidos e comandam desde longe. Enquanto trabalham para chegar a um acordo com Irã, também querem manter uma aliança contra Teerã utilizando os sauditas. O Pentágono financia o que chama de "inteligência e apoio logístico" à Casa de Saud.

Não há que equivocar-se: a guerra contra o Yemen é também a guerra de Washington. O CCG foi desencadeado contra o Yemen pelos EUA.

Desde há muito tempo se fala da formação de uma força militar pan-árabe, mas propostas para sua criação foram renovadas em 9 de março pela dócil Liga Árabe. As propostas para forças armadas árabes unidas servem os interesses estadunidenses, israelitas e sauditas. As propostas em favor de forças armadas pan-árabes foram motivadas por seus preparaticos para o retorno de A-Hadi e para enfrentar regionalmente o Irã, Síria, Hezbollah e o Bloco de Resistência.

A instabilidade no Yemen é causada não por Irã ou pelos huties, mas pela interferência estadunidense e saudita no país - desde a invasão por Arábia Saudita em 2009 aos ataques com drones dos EUA - e as décadas de apoio que Arábia Saudita financiou ao regime autoritário e impopular do Yemen.

"Linhas de batalha estão sendo determinadas no Yemen, o país mais pobre do mundo árabe e o último candidato no Oriente Médio para o fracasso do Estado. Sim, como parece cada vez mais provável, a guerra aberta estala em breve, só será piorada pela competência pela supremacia regional entre Arábia Saudita e Irã. Ambas potências mostraram seu desejo de armar grupos que consideram que podem controlar, apesar do legado que esta destrutiva rivalidade já tem causado em Síria e Iraque" afirmou a revista Foreign Policy em 6 de março.

A aliança huti com Irã: pragmatismo ou sectarismo?

Os huties não são de nenhum modo capachos do Irã. O movimento huti é um protagonista político independente que emergiu como resultado da repressão. Qualificar os huties de capachos iranianos não é empírico e ignora a história e a política do Yemen. "Se estourar uma guerra seguindo linhas sectárias, não será porque ali se estabeleceram divisões históricas no Yemen, será porque os financiadores estrangeiros da guerra inflamam divisões que antes careciam de importância", inclusive admite Foreign Policy.

Reconhece-se que dirigentes hutis rechaçaram afirmações de que aceitam ordens de Teerã. Isso não impediu que funcionários e mídias sauditas e khalijis (do Golfo) utilizassem e manipulassem as declarações de funcionários iranianos, como a comparação dos huties com os basijs do Irã; que apresentam os huties como agentes ou clientes iranianos.

Precisamente como os huties não são capachos iranianos, não existe nenhuma aliança shiita entre Teerã e eles no Yemen. Histórias que se concentram nessa narrativa sectária simplista ocultam a natureza política e as motivações do conflito no Yemen e deforma de maneira insultante a luta dos huties contra a repressão. Desde os anos 70 a Casa de Saud apoiou realmente as facções realistas no Yemen, que eram predominantemente muçulmanos shiitas.

Ademais, os muçulmanos shiitas no Yemen ou são imamitas ou duodecimanos como a maioria dos muçulmanos shiitas no Irã, na República de Azerbaijão, Líbano, Iraque, Afeganistão, Paquistão e a região do Golfo Pérsico. Além de focos de shiitas ismaelitas - que também podem ser chamados septimanos - nas governações de Saada, Haja, Amran, Am-Mahwit, Sana, Ibb e Al-Jawf a maioria dos muçulmanos shiitas no Yemen são zaiditas. Os ismaelitas no Yemen são em sua maioria membros de seitas davidianas e salomônicas do islailismo mustalita que se distanciou do grupo maior dos ismaelitas nizaritas.

A hostilidade estadunidense e saudita contra o movimento huti é o que fez com que inadvertidamente os huties se envolvessem pragmaticamente com Irã em busca de ajuda como contrapeso. Em palavras de Wall Street Journal, "militantes huties que controlam a capital yemenita estão tratando de forjar laços com Irã, Rússia e China para contrabalancear o apoio ocidental e saudita em prol do presidente deposto do país". "O governo interino dos huties enviou delegações ao Irã em busca de financiamento de combustível e à Rússia em busca de investimento em projetos energéticos, segundo os altos funcionários huties. Outra delegação planeja visitar China nas próximas semanas, disseram", informou também o Wall Street Journal em 6 de março.

Como resultado do esforço do movimento huti, Irã e Yemen anunciaram que farão voos diários entre Teerã e Sanna desde 2 de março. É uma importante linha aérea de apoio para o movimento huti.

A narrativa sectária e a carta sectária

A instabilidade no Yemen não é causada por Irã ou pelos huties, mas pela interferência estaunidense e saudita nesse país - a invasão em 2009 pela Arábia Saudita e os ataques de drones dos EUA - e as décadas de apoio que Arábia Saudita financiou ao regime autoritário e impopular no Yemen.

Yemen não é um país completamente envolvido. Além do apoio à Al-Qaeda pela Arábia Saudita e pelos EUA, não existe nenhum divisão ou tensões shiitas-sunitas. Para impedir que Yemen se torne independente, os sauditas e EUA apoiaram o sectarismo na esperança de criar uma divisão shiita-sunita no Yemen.

A diferença da falsa narrativa, as alianças do Irã no Oriente Médio não são realmente sectárias. Todos os aliados palestinos de Teerã são predominantemente muçulmanos sunitas enquanto no Iraque e na Síria, além dos governos, Irã apoia uma variedade transversal de grupos étnicos e religiosos que incluem não-árabes e cristãos. Isso inclui os predominantemente muçulmanos sunitas curdos sírios e iraquianos e a ala assíria Sutoro do Partido da União Siríaca (SUP) na Síria. No Líbano, além do Hezbollah, os iranianos também são aliados de partidos muçulmanos sunitas, drusos, e cristãos, inclusive o Movimento Patriótico Livre de Michel Aoun - que é o maior partido cristão no Líbano.

Se alguém está metido no sectarismo como política, é EUA e seus aliados nos petro-emirados. Tanto EUA como Arábia Saudita tinham metido os huties antes contra a Irmandade Muçulmana no Yemen. Além disso, durante a Guerra Fria, tanto Washington como a Casa de Saud trataram de usar os shiitas yemenitas contra os republicanos no norte do Yemen e a República Democrática Popular do Yemen no sul . EUA e Arábia Saudita iniciaram sua hostilidade contra ele quando o movimento huti demonstrou que não ia ser um cliente de Washington ou Riad.

Preparando a invasão do Yemen

Em 20 de março, atacantes suicidas atacaram as mesquitas Al-Badr e Al-Hashoosh durante asr salat (orações da tarde). Morreram mais de trezentas pessoas. Abdul Malik Al-Huti acusou EUA e Israel de apoiar os ataques terroristas e EI/ISIL/Daesh e Al-Qaeda no Yemen. Também culpou-se Arábia Saudita.

Enquanto teve silêncio em Marrocos, Jordânia, e os petro-emirados árabes, a porta-voz do Ministério de Relações Internacionais iraniana Marziyeh Afkham condenou os ataques terroristas no Yemen. De uma ou outra maneira, Síria, Iraque, Rússia, China também condenaram todos os ataques terroristas no Yemen. Para mostrar o apoio de Teerã a Yemen, dois aviões de carga iranianos com carga humanitária enviados ao Yemen e a Sociedade da Meia Lua Vermelha iraniana levou mais de cinquenta vítimas yemenitas dos ataques terroristas a hospitais dentro do Irã para tratamento médico.

O fracasso da Casa de Saud no Yemen

O movimento dos huties é o resultado das políticas da Arábia Saudita no Yemen e de seu apoio para o regime autoritário. A respeito disso, os huties são uma reação à brutalidade saudita e ao apoio da Casa de Saud ao autoritatismo yemenita. Emergiram como parte de uma rebelião que foi dirigida por Hussein Badreddin Al-Huti em 2004 contra o governo yemenita.

Os regimes yemenitas e sauditas afirmaram falsamente que os huties queriam estabelecer um imanato na Arábia como meio para satanizar o movimento. Isso, não obstante, não conseguiu repelir que este se fortalecesse. Os militares yemenitas não puderam dominá-los em 2009, o que conduziu a uma intervenção saudita, chamada Operação Terra Calcinada, lançada em 11 de agosto de 2009.

Arábia Saudita não conseguiu derrotar os huties quando enviou seus militares ao Yemen para combatê-los em 2009 e 2010. Não conseuiu obrigar o Yemen e o movimento huti a se pôr de joelhos em sinal de obediência. Quando exigiu que os huties e o governo de transição yemenita seguissem a linha saudita e forssem a Riad para negociar, foi diretamente rechaçada pelos huties e pelos Comitês Revolucionários do Yemen, porque as negociações e qualquer sistema de compartilhamento do poder apoiado pelos sauditas realmente marginariam aos huties e outrs forças políticas no Yemen. Por isso a União de Forças Populares, o próprio Congresso Geral do Povo de Al-Hadi, e o Partido Baaz de Yemen apoiaram todos a posição huti contra Arábia Saudita.

Dividindo Yemen?

Yemen viveu numerosas insurreições, intervenção militar pelos EUA e Arábia Saudita, e o fortalecimento de um movimento separatista em suas governações do sul. Os militares do Yemen se fragmentaram e existem tensões tribais. Se fala cada vez mais sobre sua transformação em um Estado árabe falido.

Em 2013, New York Times propôs que Líbia, Síria, Iraque e Yemen fossem divididos. No caso do Yemen a proposta era que voltasse a ser dividido em dois. O New York Times disse que isso poderia acontecer ou aconteceria depois de um possível referendo nas governações do sul. O New York Times também propôs que "tudo ou parte do Yemen poderia então converter-se em parte da Arábia Saudita. Quase todo o comércio saudita é por via marítima, e o acesso ao Mar Arábico diminuiria a independência do Golfo Pérsico - e os temores da capacidade do Irã de fechar o Estreito de Omuz".

Arábia Saudita e Al-Hadi agora apoiam os separatistas do sul no Yemen, que contam com o apoio de mais ou menos 10% da população. A próxima opção para EUA e Arábia Saudita seria dividir Yemen como meio para mitigar a mudança estratégica causada por uma vitória huti. Isso asseguraria que Arábia Saudita e o CCG teriam um ponto de trânsito meridional ao Oceano Índico e que EUA conservaria um ponto de apoio no Golfo de Adén.

via paginatransversal: parte 1 e 2

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Acordo nuclear iraniano e luta por influência na Eurásia

por Yusuf Fernández – 

Desde a Revolução Islâmica no Irã que derrubou a ditadura de Shah Reza Pahlavi, apoiado pelos EUA, em 1979, uma constante na política externa estadunidense foi uma implacável hostilidade contra o Irã. Washington apoiou a guerra de Saddam Hussein contra esse país (1980-1988) e em 2003 a Administração de Bush preparou planos para a guerra contra ele. Desde 2011, EUA e seus aliados da União Europeia submeteram o Irã ao regime de sanções econômicas mais duro da história.

Não obstante, a estratégia norteamericana mudou nos últimos anos. Depois do fracasso das guerras dos EUA no Afeganistão e no Iraque, onde Washington foi incapaz de derrotar as respectivas insurgências ou convencer os governos desses países a se submeter a seus ditados, a opinião pública e o establishment político dos EUA não querem ver o país arrastado em novos conflitos no Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, Washington desconfia da ascensão da China na região da Ásia, no Pacífico e no mundo em geral. Obama aprovou a nova estratégia do "giro para a Ásia", que busca opor-se ao crescente papel da China na região, onde os EUA estão tratando de construir uma nova aliança anti-Pequim. O executivo pró-estadunidense da Austrália e o governo de Shinzo Abe no Japão, que está determinado a executar um papel mais agressivo na Ásia e busca eliminar a assim chamada "cláusula pacifista" na constituição japonesa, foi convertido nos aliados naturais dos EUA nesta estratégia.

A crise da Ucrânia empurrou também o EUA e seus aliados da OTAN a um confronto político e estratégico contra Rússia. Moscou tomou medidas com o fim de reforçar seu poder militar, incluindo o desenvolvimento de novos barcos, aviões e mísseis nucleares. Também está promovendo a União Eurasiana com alguns estreitos aliados, como Bielorrússia, Cazaquistão, Armênia e outros Estados.

Irã é um ator central neste jogo. Além de ser um grande e populoso país, Irã possui as segundas reservas de gás e as terceiras de petróleo no mundo. Sua posição geoestratégica é única. O país une a Ásia Central com o Oriente Médio e o Golfo Pérsico, e construiu uma sólida aliança com alguns países da região, incluindo Síria, Iraque e o Líbano. Milhões de muçulmanos no mundo seguem também o Imam Ali Jamenei e os líderes religiosos iranianos. Suas relações com a África, Ásia e América Latina estão se tornando cada vez mais importantes.

Durante mais de uma década, os EUA, que sempre souberam que Irã não tem intenção de construir armas nucleares como numerosas evidências mostra, utilizou desse tema com o fim de pressionar este último país a obstaculizar seu desenvolvimento tecnológico e econômico. Agora, a situação no mundo mudou e os EUA estão tentando levar o assunto para sua perspectiva real. A crise nuclear com Irã se converteu em um fardo para Washington porque lhe impede de pôr em prática sua estratégica anti-chinesa e anti-russa e, desse modo, teria que ser resolvida.

Irã se converteu em um baluarte na luta contra o terrorismo no Oriente Médio. Teerã apoia Iraque, Síria e o Líbano contra a agressão terrorista, que estão sendo alimentada pela Arábia Saudita, pelo Qatar e pela Turquia. Os EUA e seus aliados europeus apoiaram durante anos o esforço destes países para utilizar os terroristas como instrumentos na região contra os governos amigos de Irã, mas agora eles temem a crescente ameaça destes grupos, que estão determinados a atacar também as nações ocidentais. Alguns governos e mídias ocidentais estão mudando sua posição com relação ao Irã e Síria e começando a advogar por uma cooperação com tais países nesta luta.

Ao mesmo tempo, as companhias norteamericanas estão ansiosas por entrar no mercado iraniano. Elas vêem o Irã como um novo El Dorado, onde podem lograr enormes benefícios. Até agora, as companhias russas e chinesas, e em menor escala europeias, estão muito melhor posicionadas para se aproveitar do levantamento das sanções sobre o Irã. As empresas estadunidenses estão tratando de mudar essa situação e voltar ao Irã, mas necessitam que Washington elimine as sanções unilaterais com o fim de alcançar este objetivo.

A influência israelense e a pressão do lobby sionista sobre o Congresso se converteram em um obstáculo principal para a implementação desta nova estratégia. Eles têm uma grande influência sobre a política externa norteamericana, mas desta vez seus interesses chocam com os de uma parte importante do establishment político e militar e com das grandes corporações estadunidenses. Isso poderia fazê-los perder sua batalha contra o acordo sobre o Irã. Em um desafio aberto ao lobby sionista, as mídias corporativas, tais como New York Times ou Washington Post, mostraram seu apoio ao acordo nuclear e dizem abertamente que uma acomodação com Irã reforçaria a mão dos EUA contra suas mais importantes e formidáveis rivais geo-estratégicas: Rússia e China.

Um recente artigo no New York Times, escrito por Michael Godeon e David Sanger, ambos autores com estreitos vínculos com o establishment militar e de inteligência dos EUA, mostrou um apoio ao acordo nuclear. Os autores salientaram que um entendimento com Irã reforçaria a posição mundial dos EUA frente a Rússia e China em múltiplas formas.

China é agora o maior sócio econômico do Irã e o mais importante investidor. Rússia foi durante muito tempo seu principal provedor de armamento. Não obstante, esta associação sofreu um revés em 2010 quando Moscou negou implementar um contrato de provisão de mísseis terra-ar S-300 ao Irã citando as sanções da ONU. Washington espera que um acordo nuclear e a necessidade de cooperar contra o terrorismo lhe permitirão competir pela influência geopolítica e econômica no Irã com o objetivo de neutralizar a influência russa e chinesa nesse país.

EUA, no entanto, necessita da Rússia e da China como mediadores em suas comunicações com Teerã, mas está convertendo-se em algo cada vez mais problemático para Washington o fato de depender de Moscou e Pequim neste esforço em um momento em que as relações estão piorando.

A reposta da Rússia e da China

Não há dúvida de que a China e a Rússia compreendem este perigo e tomaram medidas para manter sua influência sobre o Irã.

Em Janeiro, durante uma visita do ministro de defesa russo, Serguei Shoigu, em Terrã, os dois lados firmaram um novo acordo de cooperação. Em uma conferência de imprensa onde explicou o mesmo, o ministro de defesa do Irã, Hossein Dehqan, disse que seu país e Rússia "compartilham uma análise da estratégia global dos EUA e sua ingerência nos assuntos regionais e internacionais" e eles puseram assim mesmo de relevo a necessidade de cooperar na luta contra o terrorismo".

Algumas horas depois do anúncio do acordo de Lausana, Igor Korotchenko, que lidera o think tank Centro de Análise do Comércio Global de Armas de Moscou, disse a Sputnik que "o levantamento de sanções ao Irã, incluindo o embargo de armas, seria o mais absolutamente lógico". "De grande importância para nós é a entrega de mísseis atualizados S-300 ao Irã. Um contrato nesse sentido poderia ser renovado em termos aceitáveis para Moscou e Teerã", acrescentou.

Rússia salienta que está também disposta a vender automóveis, aviões e barcos ao Irã depois da eliminação das sanções contra a República Islâmica. "Estamos interessados nas provisões a este país. Isso inclui os automóveis, aviões, construção de barcos e outras indústrias", disse o ministro de Indústria e Comércio Denis Manturov na cidade de Javarovsk, no leste da Rússia, salienta Interfax. "Estamos preparados para trabalhar juntos para incrementar a cooperação e os projetos conjuntos", salientou.

Por sua vez, o ministro de relações internacionais, Wang Yi, visitou Teerã em fevereiro com o fim de incrementar os vínculos políticos e econômicos entre os dois países. As importações chinesas de petróleo do Irã aumentaram quase 30% no ano passado e Wang disse que "existe aliás um enorme espaço para a cooperação no terreno da energia e nos parques industriais de acordo com as necessidades de desenvolvimento do Irã e as capacidades da China", disse o ministro citado pela agência Reuters.

Wang visitará Moscou em abril e os dois países analisarão a situação criada depois do alcance do acordo com Irã e as medidas dirigidas a impedir que os EUA incrementem sua influência na Eurásia.

Rússia e China podem agora abrir a porta para a adesão do Irã à Organização de Cooperação de Shangai. Esta grande organização busca garantir a estabilidade, promover a unidade da Eurásia e contrabalancear a influência norteamericana neste grande espaço.

domingo, 12 de abril de 2015

Heremitas que largaram sociedade para viver na natureza (+fotos)

Por Connor Brian
Em certos momentos sentimos desejo de largar tudo. Mesmo para uma breve caminhada ou uma viagem ao longo do país, não há maior companhia que nós mesmos. Há poucos que podem se libertar da dependência social, longe dos confortos urbanos, para viver sozinhos na natureza. A fotórgafa Danila Tkachenko documentou heremitas russos e ucranianos que cruzaram a linha da árvore para se isolar completamente da sociedade.

"Estou preocupada com o problema da liberdade internacional na sociedade moderna: é tudo alcançável quando se está rodeado por um paradigma social? Escola, trabalho, família - uma vez nesse ciclo e você é um prisioneiro da sua própria posição" escreve Tkachenko.

A solidão é um tanto incompreensível para o século XXI; todos, aliás, confundem solidão (solitude) com sentir-se sozinho (loneliness). Mas quando estamos sozinhos e começamos a sentir o espaço crescer vasto ao nosso redor, o que acontece é que você está começando a andar em direção ao auto-entendimento. Isso é o por que de muitos de nós que, embora tenhamos crescido no coração de uma grande cidade, encontramo-nos atraídos pela natureza crua (wild).

Tkachenko questiona: quando se vive fora da estrutura da sociedade organizada uma pessoa "se torna pragmática ou forte, ou se torna um louco e lunático? Como você continua sendo você mesmo no meio disso?"

E esta É a questão, mas até que você tome um momento para se colocar fora do contexto social e os papeis que prendem você, você nunca será capaz de responder a questão.

"Eu fui para as florestas porque desejei viver deliberadamente, enfrentar os fatos essenciais da vida. E ver se eu não poderia aprender o que ela tinha a me ensinar e não, quando eu morrer, descobrir que eu de fato não vivi" - Henry David Thoreau.

Você pode conseguir as fotos aqui.

via theplaidzebra

Para além das Malvinas, o colonialismo moderno no mundo

 Por Frederico Larsen - A reivindicação argentina pela soberania sobre as Ilhas Malvinas não é o único pedido de descolonização pendente no mundo, 17 territórios são hoje monitorados para terminar com o colonialismo a nível global.

Durante o século XX deu-se a grande onda de descolonização a nível global que permitiu o surgimento de novos Estados-Nação em todo o mundo. Se bem a África e a Ásia foram os continentes mais afetados pelo fenômeno, em todas as latitudes se sentiu com firmeza a reivindicação pela autodeterminação dos povos a eleger suas formas de governo e exercer sua soberania.

Depois de acompanhar esse processo e acabar com o colonialismo europeu no mundo, as Nações Unidas instituíram a "Declaração sobre a concessão da independência aos países e povos coloniais", conhecida também como a Declaração sobre a Descolonização, em 1961. Um ano mais tarde se constituiu o Comitê Especial de Descolonização, conformado por 24 países que devem assegurar a aplicação dos princípios fundamentais da declaração. No último fevereiro, Equador foi reeleito na presidência do comitê.

Atualmente existem 17 "territórios não autônomos", como os define a ONU, onde vivem milhões de pessoas. Dez deles são controlados pelo Reino Unido: Anguila, Bermudas, Gibraltar, Ilhas Caimã, Ilhas Malvinas, Ilhas Turcas e Caicos, Ilhas Virgens Britânicas, Montserrat, Pitcain e a ilha de Santa Elena; três pelos Estados Unidos: Guam, Ilhas Virgens dos EUA e a Samoa Americana; e dois em mãos da França: Nova Calcedônia e a Polinésia Francesa. A estes é necessário acrescentar dois mais, que recebem uma atenção especial por parte da ONU, e são Porto Rico, considerado um "Estado livre associado", mas não incorporado aos EUA, e a República Árabe Saharaui Democrática, ocupada por Marrocos depois da cisão espanhola.

Contrariamente ao que se pode pensar, na maioria dos casos estes territórios não constituem nenhuma vantagem econômica direta para os colonizadores. Pelo contrário, o status econômico que conseguiram, especialmente entre os anos 70 e 90, comporta uma série de obrigações administrativas muitas vezes onerosas para as potências administradoras.

Embora os povos "não autônomos" possam eleger um poder legislativo e um primeiro ministro, o Poder Executivo é compartilhado com um governador eleito diretamente da potência colonial, que toma as decisões sobre a política externa, militar e de comércio internacional, e os pressupostos de investimentos em infraestrutura são geralmente cobertos pelo país colonizador.

Não obstante, em sua maioria -10 de 17 - estão incluídas dentro da lista internacional de paraísos fiscais da OCDE, dando conta de um nível altíssimo de vida alcançado sob esta organização ao amparo da especulação financeira a nível mundial. Boa parte destes países são conhecidos por informação "de cor" que as potências difundem em muitos casos para refletir um estado de paz.

Samoa, por exemplo, se tornou famosa recentemente por sua seleção de futebol, reconhecida pela FIFA e considerada a pior do mundo, mas também a primeira a incorporar uma jogadora transexual entre seus homens.

Assim a atualidade destes territórios não se reduz a seu status de paraísos fiscais ou turísticos. Sua submisão aos governos centrais e os movimentos independentistas que surgiram ao longo dos anos trouxeram não poucos conflitos.

Um dos mais ressonantes é o que enfrenta hoje Paris contra a Polinésia Francesa, que reivindica uma boa indenização por ter sido durante 30 anos a zona de provas nucleares da República Francesa.

Entre as 118 ilhas que compõem este enclave colonial no Pacífico, se encontram as tristemente famosas Mururoa e Fangataufa, onde entre 1968 e 1996 França exportou 193 artefatos nucleares deixando, segundo denunciaram as autoridades polinésias ano passado, 3200 toneladas de material radioativo em suas costas.

Paris deve também atender outra frente no âmbito da descolonização nos próximos meses. Trata-se da Nova Calcedônia, que fará cumprir uma das cláusulas do Acordo de Noumea firmado em 1998 entre os moradores das ilhas e França, que prevê a celebração de um referendo independentista "entre 2014 e 2018".

Embora a força política majoritária há 25 anos ali seja a direitista UMP - partido liderado por Nicolás Sarkozy - que se opõe a qualquer reivindicação independentista, o Front de Libération Nationale Kanak et Socialiste (FLNKS), com forte presença indígena, está cobrando cada vez mais força e hoje lidera a campanha em favor da independência.

Os domínios britânicos tampouco estão livres de conflitos. O Primeiro Ministro de Anguilla, Hubert Hughes, voltou no final de 2013 a insistir na celebração de um referendo, de comum acordo com Londres, para definir o status colonial da ilha. A última vez que se levou a cabo uma iniciativa similar foi em 1967 quando 1813 moradores da ilha contra 5 votaram em favor da independência. Dois anos mais tarde os paraquedistas britânicos chegaram para estabelecer a ordem.

A política plebiscitária para resolver este tipo de controvérsias também está sendo fortemente criticada. Existem casos, como o do referendo nas Ilhas Malvinas de 2013, onde o resultado da consulta é evidentemente influenciado pela política colonial da potência administradora.

Este sentou precedentes no âmbito internacional, como no caso de Guam, no Pacífico Ocidental sob o controle norteamericano. Ali em 1982 os 180.000 habitantes da ilha foram chamados a um plebiscito que não chegou ao quórum necessário. Dois anos mais tarde, a ONU culpou a uma das mais imponentes bases militares dos EUA, instalada em 1976, de ser "o maior obstáculo" para que a população possa eleger livremente seu destino.

Em outros casos, as promessas de autodeterminação nunca se cumprem, como na República Árabe Saharaui Democrática, que espera a celebração de seu referendo independentista desde 1991 depois do estabelecimento dos primeiros acordos de paz com Marrocos e Espanha.

O direito internacional tentou estabelecer regras para a descolonização dos territórios não autônomos em várias ocasiões sem obter resultados confiantes. Basta recordar que a resolução da ONU 2708 de 1970 e concordantes -35/119; 36/38; 37/35; 39/91-, estabelecem a proibição de instalar bases militares nestes territórios. Mas a militarização dos mesmos cresce ou decresce em função das necessidades geopolíticas das potências administradoras e não das resoluções internacionais.

A isto se acrescenta que a maioria das ações multilaterais que se levam adiante passam por um Conselho de Segurança da ONU anacrônico, dominado pelas três potências coloniais que se opõem a qualquer discussão sobre a situação atual.

O caso Malvinas resulta então de profunda relevância internacional. É o único - excetuando algum muito débil protesto espanhol pelo Penhão de Gibraltar - onde um Estado decidiu avançar diplomaticamente na resolução do conflito por vias pacíficas. Qualquer avanço que se alcance nesse sentido poderia sentar precedente para as demais populações sob o domínio colonial.

Via paginatransversal

sábado, 11 de abril de 2015

Dos 74 países com base militar dos EUA, Alemanha se destaca com 179 bases

Os EUA possuem bases em pelo menos 74 países e tropas praticamente em todo o mundo - é um imperialismo global que rotineiramente intervém em assuntos de outros Estados usando a força

Em 24 de março, o presidente estadunidense Barack Obama anunciou que todas as 9.800 tropas estadunidenses atualmente estacionadas no Afeganistão permanecerão lá até o fim de 2015. Isso gerou grande crítica: foi, depois de tudo, a promessa de Obama que a última tropa americana deixaria o país em 2014.

A fins de comparação, a Rússia tem apenas 10 bases no exterior
Aqueles que esperam que os EUA deixarão o Afeganistão, entretanto, deveriam parar um minuto para considerar isto: os EUA ainda não deixaram a Alemanha. De fato, há poucos lugares que os EUA não deixaram, e enquanto certamente a maioria deles não impõem uma ameaça aos soldados americanos, eles revelam um padrão sobre a estada dos EUA, mais que ir embora.

De acordo com informação oficial providenciada pelo Departamento de Defesa (DoD) e seu Centro de Informação de Defesa (CMDC) há ainda em torno de 40.000 tropas americanas e 179 bases americanas só na Alemanha, mais de 50.000 tropas no Japão (e 109 bases), e dezenas de milhares de tropas, com centenas de bases, em toda a Europa.

Mais de 28.000 tropas americanas estão presentes em 85 bases só na Coréia do Sul, e estão lá desde 1957.

Ao todo, baseado em informação contida no último relatório da estrutura de base (BSR) do DoD, os EUA têm bases em pelo menos 74 países e tropas em praticamente todo o mundo, variando de milhares a apenas um em alguns países (um adido, por exemplo).

A fins de comparação, a França tem bases em 10 países, e o Reino Unido em 7.

Calcular a extensão da presença militar dos EUA não é uma tarefa fácil. A informação providenciada pelo Departamento de Defesa é incompleta, e se encontram inconsistências nos documentos. Quartz pediu esclarecimento do Departamento de Defesa, mas não recebeu resposta.

Em seu livro Base Nation: How US Military Bases Abroad Harm America and the World, David Vine, professor associado de antropologia na Universidade Americana, detalha as dificuldades para acessar os dados da presença militar dos EUA no exterior. Ele escreve:

"De acordo com a contagem publicada mais recentemente, os militares dos EUA ocupam ainda 686 "sítios base" nos 50 estados e Washington, DC.

Enquanto 686 sítios-base são uma simples figura em seu próprio direito, essa talha fortemente exclui muitas bases dos EUA bem conhecidas, como as em Kosovo, Kuwait e Qatar. Menos surpreendentemente, a contagem do Pentágono também exclui bases secretas, como aquelas em Israel e Arábia Saudita. Há tantas bases que o próprio Pentágono desconhece o número total."

Isso não é o único problema - até uma contagem definitiva de bases incluiria uma ampla variedade de facilidades. "Base" em si é um termo guarda-chuva que inclui locais como "postos", "estações", "campos", "fortes". Vine explica:

"As bases são de todos os tamanhos e formas, desde sítios massivos na Alemanha e no Japão até pequenos radares em Peru e Porto Rico. [...] Até resorts militares e áreas de recreação em locais como a Toscana e Seul são um tipo de base; em torno do mundo, os militares têm mais de 170 pistas de golfe."

O mapa abaixo representa as bases no exterior, de acordo com a contagem da BSR, e de pesquisas independentes conduzidas por Vine (e Quartz) usando notícias verificadas assim como informação cruzada com o Google Maps. Este mapa não toma em conta as bases da OTAN, incluindo uma no Turcomenistão e na Algéria, publicado por Wikileaks por ser uma base só dos EUA.

A maioria dos países parecem ter uma concentração pequena de bases dos EUA (abaixo 10). Comparado com as 179 na Alemanha, 37 em Porto Rico, 58 na Itália. O maior índice de militares permanece em países que os EUA invadiram na Segunda Guerra Mundial, enquanto sua presença em áreas de contenção mais recente, como o Oriente Médio, são um tanto reduzidas, pelo menos em termos de número de base.

Tem sido notado pelos comentadores antes que não todas as bases são de tamanho significantes. No entanto, dadas as informações disponíveis é difícil de realmente calcular o tamanho das diferentes instalações. Vine escreve:

"O Pentágono diz que são apenas 64 'instalações maiores' pelo mar e que a maioria de suas bases são 'instalações pequenas ou em locais pequenos'. Mas define 'pequeno' como tendo um valor acima de US$ 915 milhões. Em outras palavras, pequeno não é tão pequeno assim."

A informação sobre tropas no exterior, também, é incompleta, que torna difícil de saber a verdadeira extensão do contingente militar americano. O analista de forças armadas de IHS Jane, Dylan Lehrke, contou ao Quartz que é difícil até mesmo de localizar em definição a presença militar - para o governo, isso significa bases ou tropas desenvolvidas, embora pareçam aceitáveis de incluir outras formas de presença:

"Com certeza pode-se dizer que os EUA têm presença militar na Síria no momento. Eles podem não ter bases e tropas no chão, mas devemos incluir a força aérea. Os militares dos EUA indiscutivelmente têm mais presença na Síria do que na Alemanha [...]. Levando essa ideia adiante, seria também racional dizer que os EUA têm presença militar onde utiliza veículos não tripulados para destruir alvos."

Todos os países que têm alguma soma de presença militar americana - desde um adido militar até as tropas envolvidas no Iraque e no Afeganistão - estão em destaques pelo mundo (a Rússia inclusive, onde as publicações do DoD dizem ter 24 militares).

Levando em conta uma presença militar considerável, existência de bases, e se os EUA conduzem drones (Yemen, Síria, Paquistão) em um país resulta em representação geográfica do poder militar dos EUA no exterior, conforme abaixo:

via russiainsider

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Quais são os países mais endividados do mundo?


Conheça quais países possuem o maior índice de dívida pública em relação ao PIB nacional para 2015 e quais regiões 'sofreram' mais desde a crise financeira mundial de 2008.

Japão é o país mais endividado do mundo em janeiro de 2015, já que sua dívida pública alcançou 245,5% do PIB nacional, revela 'Der Spiegel'. Ao mesmo, quase todos os principais países industrializados lideram a lista, como os EUA (105,1%), Reino Unido (93,1%), Canadá (86,8%) e os países europeus.

Na União Europeia os mais endividados são a Grécia, com dívida de 171% do PIB, seguida da Itália (136,4%), Portugal (128,7%), Irlanda (111,7%), Bélgica (101,7%), Espanha (101,1%) e França (97,7%).

Por outro lado, entre os países dos BRICS a maioria de seus integrantes possuem uma dívida pública igual ou menor que 50% do PIB. Entre estes países a dívida mais baixa para janeiro de 2015 é da Rússia (16,5%), seguida pela China (41,8%), África do Sul (50,8%), índia (59,5%) e Brasil (65,6%).

Com relação à evolução da dívida pública, o seguinte mapa mostra que os países mais 'chacoalhados' pela crise que iniciou em 2008 são Japão, EUA e a maioria dos países europeus (sobretudo Irlanda, Espanha, Grécia e Portugal). A dívida da Rússia aumentou 7,9% e a da China 7%. A dívida de quase todos os países latinoamericanos aumentou de maneira insignificante, enquanto que o Panamá, Perú, Bolívia conseguiram reduzí-la em 10,4%; 12,7% e 13,4% respectivamente.

via RT

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Homens desistem do casamento: "as mulheres deixaram de ser mulheres".


Nunca antes os homens nos EUA quiseram tão pouco se casar, enquanto o desejo pelo casamento está crescendo nas mulheres, de acordo com o Pew Research Center.

Pew recentemente descobriu que o número de mulheres entre 18 e 34 anos que dizem que ter um casamento bem sucedido é uma das coisas mais importantes cresceu de 28 para 37% desde 1997. O número de homens jovens dizendo o mesmo caiu de 35 para 29% no mesmo período.

As descobertas de Pew chamaram atenção de uma escritora que sustenta que o feminismo, profundamente enraizado em todos os segmentos da cultura, criou um ambiente no qual homens jovens pensam ser melhor desistir totalmente da relação conjugal.

O artigo de Suzanne Venker, "A Guerra Contra os Homens", que apareceu no site da Fox News nos fins de novembro, se tornou uma pedra-ímã para escritores feministas que atacaram sua posição de que a instituição do casamento está ameaçado, não aprimorado, pelos supostos ganhos do movimento feminista durante os últimos 50 anos.

"Para onde foram todos os homens bons (quer dizer, casáveis)?" é uma questão muito falada ultimamente na mídia secular, Venker afirma, mas sua resposta, apoiada por estatísticas, não faz o tipo dos comentadores da mídia de massa influenciados pelo feminismo.

Ela aponta que pela primeira vez na história dos EUA o número de mulheres na força de trabalho superou o número de homens, enquanto mais mulheres adquirem graus universitários do que homens.

"O problema? Esse novo fenômeno mudou a dança entre homens e mulheres", escreveu Venker.

Com o feminismo empurrando-os para fora do papel tradicional de ganha-pão, protetor e provedor - e as leis de divórcio criando um prospecto financeiro perigosamente precário para os homens os corta do casamento - os homens simplesmente não encontram mais benefício no casamento.

Como escritora e pesquisadora em tendências de casamento e relacionamento, Venker disse que ela "acidentalmente tropeçou na subcultura" dos homens que diz que "em nenhum termo incerto, eles nunca se casarão".

"Quando eu questiono-os por quê, a resposta é sempre a mesma: as mulheres não são mais mulheres." O feminismo, que ensina a mulher a pensar nos homens como inimigos, tornou-as "raivosas" e "defensivas, embora muitas vezes inconscientemente."

"Agora os homens não têm mais para onde ir. É precisamente essa dinâmica - mulheres boas/ homens maus - que destruiu o relacionamento entre os sexos. E de alguma forma os homens ainda são culpados quando o amor vai embora".

"Os homens estão cansados", escreve Venker. "Cansados de ouvir que há algo fundamentalmente errado com eles. Cansados de ouvir que se as mulheres não estão felizes é culpa dos homens".

O feminismo e a revolução sexual simplesmente tornou o casamento "obsoleto" para as mulheres como um refúgio social e econômico, mas essa é uma situação que não deveria ser celebrada por feministas, diz Venker.

"É a mulher que perde. Não só estão seladas com as consequências do sexo, recusando a natureza masculina elas estão interminavelmente em busca de uma vida balanceada. O fato é que as mulheres precisam dos objetivos de carreira lineares dos homens - elas precisam dos homens para pegar uma folga no trabalho - com fim de viver a vida balanceada que elas procuram".

Um cruzamento de dados de pesquisa do Pew Research Center nos últimos meses de 2012 mostra a tendência alarmante para o casamento e a maternidade nos EUA. Uma notícia publicada em meados de dezembro disse que o último censo mostrou que "apenas metade" de todos os adultos nos EUA estão atualmente casados, um "recorde de baixa". Desde 1960, o número de adultos casados vem diminuindo de 72 para 51% hoje e o número de novos casamentos nos EUA diminuiu em 5% entre 2009 e 2010.

Além disso, a idade média para o primeiro casamento continua aumentando com as mulheres casando pela primeira vez aos 26,5 anos e homens aos 28,7 anos. Os declínios no casamento são "os mais dramáticos" entre jovens adultos. Apenas 20% dos jovens entre 18 e 29 são casados, comparado com os 59% de 1960.

"Se a tendência atual continuar, os adultos casados cairão para menos da metade em poucos anos", disse a reportagem.

Ademais, a ligação entre o casamento e a maternidade se tornou desconectada na mente dos tão chamados "geração do milênio", aqueles entre 18 e 29 anos de idade. Enquanto 52% dos "milêniuns" dizem que ser bons pais é "uma das coisas mais importantes" na vida, apenas 30% dizem o mesmo sobre ter casamento bem sucedido, um levantamento de atitude descobriu.

A lacuna, os 22 pontos de porcentagem, entre o valor que os "milêniuns" colocam na parentalidade sobre o casamento, foi apenas de 7% em 1997. A pesquisa descobriu que os "milêniuns", muitos dos quais são crianças de pais divorciados e solteiros, são também menos parecidos com seus pais ao dizer que uma criança precisa tanto de um pai como de uma mãe em casa, que apenas um deles e um casal não-casado são ruins para a sociedade.

via lifesitenews

terça-feira, 31 de março de 2015

Os Demonizados Filósofos Preferidos de Putin

Prefácio por Alexander Mercouris

Publicamos este longo artigo inteiro não só porque intelectualmente falando é algo brilhante, mas porque contém ideias excepcionais tanto sobre a Rússia como sobre a política externa dos EUA e seus métodos utilizados por alguns apoiadores de sua política externa.

Antes de comentar sobre os pontos feitos no artigo, faríamos um pedido de atenção: deve haver alguma dúvida sobre a verdadeira extensão da familiaridade de Putin com os três filósofos discutidos no artigo.

Contrariamente à sua imagem no Ocidente, Putin é altamente educado e um homem muito lido que conhece trabalhos acadêmicos de história e música clássica.

Se ele tem tempo ou inclinação para se familiarizar com o muito complexo e difícil material contido nos trabalhos dos três filósofos discutidos nesse artigo é outra questão. É mais provável que Putin tenha conhecido estes filósofos de resumos providenciados por seus assessores do que por estudo pessoal.

Pondo este ponto de lado, o artigo faz um válido e importante apontamento - os filósofos que Putin aprova são genuínos pesos intelectuais, cujas ideias não se explicam em um programa ou diagrama para uma agressiva, expansionista, etnocêntrica, autoritária e "mssiânica" Rússia, como os críticos de Putin alegam, mas, pelo contrário, de uma forma diametralmente oposta.

Conforme o artigo afirma, os filósofos sob discussão foram altamente reconhecidos no Ocidente até que Putin os apoiasse. No momento - mas não antes - suas ideias de repente se tornaram "perigosas" e "sinistras".

Isso nos traz ao nosso ponto. O artigo mostra como cinicamente as ideias dos três filósofos estão sendo mal representadas com fim de provar a tese de uma Rússia perigosa, agressiva e autoritária.

O tipo de des-representação não é mais a exceção, mas a regra.

Como um princípio geral nenhuma citação de Putin ou de algum outro oficial ou político proeminente russo que aparece na mídia ocidental pode ser assumida como verdade. Dada a agenda implacavelmente hostil anti-Putin e anti-Rússia que agora domina os comentários ocidentais, qualquer citação é quase certa de ser distorcida e até mesmo através de más traduções ou serem tomadas fora de contexto.

A situação é agora tão ruim que mesmo alguém como um sênior como o anterior presidente da comissão europeia irá deliberadamente citar frases distorcidas que Putin lhe contou em conversa privada. Recentemente ficou claro que algumas citações atribuídas a Putin foram inventadas por seus críticos ocidentais.

O que este artigo mostra é que o processo agora se estende não apenas aos russos vivos como Putin, mas também aos intelectuais russos que já há muito morreram. Parece que as palavras de qualquer russo, vivo ou morto, são agora um jogo de sorte para aqueles no Ocidente que querem convencer os outros de que a Rússia é uma ameaça ao Ocidente. Isso é um processo muito sinistro, que faz (e que busca fazer) um entendimento com a Rússia ser totalmente impossível. Nota do inteligente comentário de Dr. Grenier sobre isto:

"Os críticos dizem que a Rússia recentemente se tornou uma nação cheia de ódio. Mas como estão os cidadãos russos e o presidente Putin por verem distorcidas (e o que vimos acima é apenas a ponta do iceberg) suas próprias palavras e suas mais caras tradições de um modo aparentemente rancoroso e até mesmo violento?"

Isto no entanto não é o pior.

Um tal crescente impiedoso de manipulação das palavras e ideias de pessoas há muito mortas pode ser muito bem chamada de Owelliana.

Pessoas que mostram um tal desrespeito pela verdade são perigosas. Ao engajar-se em falsidades tão cínicas eles revelam de onde vem o real perigo para a paz mundial. Eles também expõem quem é realmente responsável pela desastrosa relação entre Rússia e Ocidente.

Isso também mostra a propósito que qualquer coisa que uma pessoa diz simplesmente não pode ser invocado como verdade salvo a extensão que serve aos seus propósitos políticos. Quando eles portanto dizem coisas como "o exército russo está invadindo a Ucrânia" não há mais razão para acreditar neles do que quando eles dizem que pessoas como Putin ou Solovyov disseram coisas que eles de fato não disseram.

Dr. Garnier, o escritor deste artigo, é claramente consciente disto. Um outro modo no qual este artigo se posiciona é na sua compreensão do pensamento ideológico e ultimamente corrupto daqueles que estão por trás da política externa dos EUA. Considere isso um resumo muito brilhante no fim do artigo com seu implícito pedido de atenção do incipiente totalitarismo do atual pensamento dos EUA:

"... se o ideal político da América é quase tão perfeito que pode ser alcançado neste "mundo decaído", então a coisa vai adiante e vence, desse modo trazendo o bem perfeito (somos nós!) para todos.

Por que preocupar-se seriamente em familiarizar-se com um sistema competidor? Claramente Brooks and Co. não fazem nenhum esforço. Foi o bastante para eles saber que o ideal político da Rússia significantemente difere do americano: logo é ilegítimo, Q. E. D.

Conforme Hannah Arendt escreveu em The Origins od Totalitarianismo, "a curiosa logicalidade de todos os ismos, sua simplista crença no valor de salvação da teimosa devoção sem consideração por fatores específicos e variáveis, já acolhe os primeiros germes do desprezo totalitário pela realidade".

Essa América realmente não vive seus próprios ideais, como tenho escrito anteriormente, não muda nada para o ideólogo. Afinal, todo aumento no poder da América traz mais perto o dia em que suas ações (que são geralmente realistas) e seu discurso (que é sempre democrático e idealista) podem encontrar harmonia. Então a história pode verdadeiramente e finalmente terminar."

Este artigo originalmente apareceu em Consortium News. Anteriormente apareceu na Johnson's Russian List.

DEMONIZANDO OS FILÓSOFOS PREFERIDOS DE PUTIN

O que deu início à Guerra Fria? De acordo com o Departamento de Estado, foi a violação ilegal da Rússia das fronteiras nacionais ucranianas. O Kremlin, por sua vez, insiste que foi um golpe na Ucrânia facilitado pelos EUA, que destruíram a ordem constitucional por lá, causando caos e perigos à segurança russa, em vista do quê a Rússia não tinha o que fazer senão responder.

De acordo com a política externa "realista", a causa foi a iminente ameaça da integração ucraniana em um pacto expansivo dominado pelos EUA. De acordo com George Friedman, presidente de Statford, empresa privada de inteligência estratégica, a crise ucraniana é mais efeito do que causa: o conflito começou em 2013 quando os EUA decidiram que o aumento do poder russo estava se tornando uma ameaça.

E de acordo com Kiev, o presidente Vladimir Putin criou toda a crise. Ele inventou a ameaça do "fascismo" ucraniano e foi motivado por uma combinação de ambição imperial com medo de democracia.

Não é meu objetivo aqui tentar julgar entre as alegações acima. Apesar das óbvias diferenças, elas também compartilham de um traço comum: ninguém fornece qualquer direção clara de como resolver essa bagunça. É hora de nos aproximarmos disso de um ângulo completamente diferente.

Quando a primeira Guerra Fria terminou, Francis Fukuyama explicou, mais em tristeza do que em triunfo, que o modelo capitalista liberal-democrata americano venceu e que este foi o motivo da "história" - a luta para encontrar a resposta correta para a questão política considerando a forma ótima de sociedade - terminou.

O que venceu, de fato, foi um tanto de respostas para questões-chave da vida política como a origem e propósito do Estado; o que significado ser humano; o que fazem os humanos todos, ou o que deveriam fazer, empenhar-se. As fontes clássicas das respostas especificamente americanas para estas questões são bem conhecidas: são as fontes da política liberal pensada enquanto tal.

Eis uma outra coisa bem conhecida a ponto de ser um clichê: desde 2001, a tese do fim da história foi repetidamente mudada por acontecimentos. Ns verdade, a tese de Fukuyama não pode ser desafiada por meros acontecimentos, porque ele nunca disse que dissabores deixariam de ser parte da experiência humana. Ele disse que os humanos improvavelmente se engajariam mais efetiva e atrativamente em compromisso com a solução para a chave das questões políticas do que para as fatigadas respostas que formaram o mundo liberal, democrata e capitalista.

Para aqueles que assinalam que o Estado Islâmico desaprovou esta tese de "fim da história", Fukuyama poderia responder com razão: "Bem, se você achar que este tipo é atrativo, você pode aceitar minhas congratulações".

Mas eu estou escrevendo não para defender nem atacar Fukuyama. Estou simplesmente sugerindo que não estamos fazendo favor algum a nós mesmos ao ignorar todas as respostas para as questões políticas que diferem da ortodoxia liberal. Pode haver no liberalismo e na democracia e no capitalismo muito de correto, mas há muita razão para suspeitar que ainda não descobrimos nem a verdade nem sobre os seres humanos ou sobre o homem político.

O próprio Fukuyama oefereceu sua própria critica: seu ceticismo sobre o material humano é que fez colocar seus pensamentos tão devagar. Não é necessariamente uma crítica de Fukuyama salientar que há muitos no mundo hoje que aspiram por algo além do nosso mundo de autonomia confortável e de posse de direitos no sentido puramente lockeano.

Entre aqueles que aspiram muitos estão no mundo eslavo, com suas raizes no Cristianismo Ortodoxo Oriental; ou na esfera chinesa, com sua herança confuciana que está apenas despertando; e claro, no Oriente Médio. E isto é apenas para nomear os grupos que os EUA identificaram como necessitados de reformas.

Diversidade e Liberalismo

O Ocidente, e especificamente os EUA, tem diante de si uma escolha fatal: deveriam procurar uma coexistência "live and let die" [viva e deixe morrer] das nações liberais e não-liberais do mundo, ou deveriam tentar fazer do resto do mundo liberal uma mão armada, e nesse sentido provar realmente que a história chegou ao fim? Deveríamos nós tornar o mundo a salvo para a diversidade, ou deveríamos tornar o mundo uniforme para a segurança dos EUA?

No Oriente Médio a escolha já foi feita. É para torná-lo um braço armado liberal e democrata. As enormes dificuldades que isto apresentou convenceram o partido de guerra americano, que pareceram ser maioria, que é hora de dobrar e se fortalecer, não só no Oriente Médio, mas agora no mundo eslavo também.

Isto traz uma questão crucial sobre diversidade e diferença. O que torna uma nação ela mesma e não algo mais? É a presença das fronteiras? São as eleições sob o poder humano? Claramente, não é nenhuma dessas coisas, nem nada parecido.

Ser uma nação autêntica, continuar existindo de fato, significa exatamente continuar a realizar sobre o tempo sua própria ideia nacional, ou seja, como Ernst Renan pôs (Qu’est qu’une nation?, 1882, conforme citado por Hannah Arendt), "preservar dignamente a herança indivisível que foi mantida até então".

Que nações frequentemente emprestam conteúdo cultural de outras é inegável, e muitas vezes louvável. Mas é crucialmente importante, como notou uma vez o historiador americano William Appleman Williams, quem faz a escolha destes empréstimos. Eles são adaptados livremente de dentro, ou são forçosamente impostos? A falha para compreender esta distinção é o que continua acarretando A Tragédia da Diplomacia Americana (também o título de um livro de William).

Quando nações totalmente compartilham da visão liberal americana, estas nações separadas se tornam, em um certo sentido, não mais "separadas". Isto é necessariamente algo ruim. As nações do norte da Europa não sofrem tanto por sua próxima aliança com os EUA,  inclusive no sentido cultural.

Mas aqui está a questão dos seis trilhões de dólares: os EUA estão tentando mascarar a existência, em base permanente, dos outros grandes poderes que não aceitam os valores liberais como a América os define? Digo "grandes poderes" porque a longo prazo só um grande poder, ou um protetorado de um grande poder, pode assegurar a continuidade de sua existência.

O status não-liberal da Rússia foi apresentado recentemente como uma horrenda ameaça à segurança tanto da América como do mundo. Em apoio dessa linha historica, o presidente russo foi associado com pensadores do passado russo que foram, supostamente, a fonte de um fanatismo que justifica falar de Putin e da Rússia (os dois são mesclados juntos em uma interminável repetição "Rússia de Putin") no mesmo sentido do Estado Islâmico.

Mas as ideias dessa Rússia não ou não-inteiramente-liberal são de nenhum modo perigosas. Pelo contrário, oferecem um caminho frutífero para repensar algumas das nossas mais queridas suposições sobre a natureza da política e a natureza da ordem internacional.

Passado e Presente

Quando o comunismo foi abandonado nos fins de 1980 e início de 1990, ficou evidente para pensadores russos e estrangeiros que um novo conceito de Estado, um novo conceito de homem, e uma nova pública filosofia deveria ser criada. Foi então, e permanece hoje, uma questão aberta de que se a nova identidade russa acabaria por ser importada do Ocidente, algo tirado do pensamento filosófico pré-comunista, ou talvez uma combinação das duas.

Como pode ser esperado do país que trouxe ao mundo Dostoievsky e Tolstoy, quando se chega à filosofia, a Rússia tem uma profunda banca. Nos meses imediatamente seguintes de fevereiro de 2014 muda o poder em Kiev, e resulta a crescente tensão entre Washington e Moscou, três filósofos russos, só dois deles amplamente conhecidos fora da Rússia, vieram a ser cada vez mais associados com o nome de Vladimir Putin. A interpretação subsequente desses filósofos nas páginas de muitos dos jornais mais influentes dos EUA merecem ser consideradas em detalhe.

Maria Snegovaya, uma doutoranda em ciência política na Universidade de Columbia, iniciou a discussão com um artigo em 2 de março de 2014 no Washington Post. "A visão de mundo pró-soviética de Putin", escreveu Snegovaya, é pobremente compreendida:

"Para entender... precisa-se checar o que são as preferidas leituras de Putin. As preferidas incluem um monte de filósofos nacionalistas russos do início do século XX - Berdyaev, Solovyev, Ilyn - que são muitas vezes citados em seus discursos públicos. Ademais, recentemente o Kremlin especialmente salientou aos governantes regionais da Rússia que lessem os trabalhos desses filósofos durante as férias de inverno de 2014. A principal mensagem desses autores é o papel messiânico da Rússia na história mundial, a preservação e restauração das fronteiras históricas russas e da Ortodoxia".

Mark Galeotti, escrevendo na Foreign Policy ("O Império Mental de Putin", 21 de abril de 2014) também encontrou defeitos nesses mesmos três filósofos. "Esses três, a quem Putin costuma citar", escreve Galeotti, "exemplificam e justificam a crença [de Putin] no posto especial da Rússia na historia. Eles romantizam a necessidade de obediência ao forte governador - seja manipulando os boiardos ou defendendo o povo da corrupção - e o papel da Igreja Ortodoxa em defender a alma russa e o ideal russo".

Finalmente, David Brooks, escrevendo para o New York Times ("Putin não pode parar", 3 de março de 2014), do mesmo modo expressou alarme sobre a influência de Solovyov, Berdyaev e Ilyn. "Putin não apenas cita estes caras; ele quer que outros os leiam", escreve Brooks. Três ideias principais unificam os trabalhos de Solovyov, Ilyn e Berdyaev. Brooks escreve:

"O primeiro é o excepcionalismo russo: a ideia de que a Rússia tem seu próprio e único status espiritual e propósito. O segundo é a devoção à fé ortodoxa. O terceiro é a crença na autocracia. Misturados juntos, estes filósofos apontam uma Rússia que é uma autocracia nacionalista quase-teocrática destinada a desempenhar um papel no mundo".

Sob a influência desses "caras", Brooks continua, "O tigre do nacionalismo quase-religioso, que Putin tem montado, pode agora tomar controle. Isso torna as coisas muito difíceis para Putin parar neste conflito onde o cálculo racional lhe mandaria parar." Brooks conclui que a Rússia pode não mais ser considerada um regime "normal" e que "um conflito huntingtoniano de civilizações com a Rússia" pode ser o resultado.

Analisando os Analistas

O que somos nós para fazer algo com estas análises, todas elas publicadas em jornais autorizados dos EUA? Uma coisa é certa. Essas afirmações representam uma enorme e surpreendente reviravolta no ponto de vista da opinião educada no Ocidente, particularmente com relação a Solovyov e Berdyaev (com Ilyn, conforme já afirmado, sendo muito menos conhecido).

Até estes artigos, em março-abril de 2014, eu não lembro de ler uma única afirmação negativa de qualquer um desses pensadores, pelo menos não entre especialistas ocidentais, nem um único indivíduo acusando-os de serem hostis ao Ocidente, ninguém sugerindo que eles são amigáveis ao chauvinismo ou nacionalismo russo.

Em Russian Thought after Communism, James Scanlan, um importante especialista ocidental do pensamento russo, descreveu Vladímir Soovyov (1853-1990) como "por consenso o maior e mais influente de todos os pensadores filosóficos da Rússia". Em algo recente da Imprensa da Universidade de Cambridge sobre a história da filosofia russa, Randal Poole escreve que "Solovyov é amplamente considerado como o maior filósofo da Rússia".

Há, é verdade, dissidentes de mão cheia dessa unânime aceitação de Solovyov. O filósofo russo contemporâneo Sergei Khoruzhy considera Solovyov um muito grande filósofo, mas muito ocidental em orientação para merecer o título de grande pensador russo em sentido estrito.

Ademais, até mesmo intelectuais souberam ser geralmente hostis às coisas russas, tal como o professor de Harvard Richard Pipes, no entanto fala respeitavelmente sobre Solovyov: "A Igreja Ortodoxa nunca encontrou uma linguagem comum com o educado porque sua perspectiva conservadora tornou-o pronunciadamente anti-intelectual... um por um ela abandona as mentes religiosas mais finas do país: os eslavófilos, Vladimir Soloviev, Leo Tolstoy e os leigos engajados no início dos anos 1900 em torno da Sociedade Filosófica Religiosa..." (Russia Under the Old Regime, 243.)

Em resumo, a incompreensão de Snegovaya quanto a Solovyov dificilmente poderia ser mais completa. Em que sentido possível pode Solovyov, que não teve nenhuma ideia de soviético, pode ser considerado como apoiador de uma alegada "visão de mundo pró-soviética" de Putin? Na verdade, os escritos desse filósofo supostamente "pró-soviético" - exatamente como os de Berdyaev e Ilyn - foram banidos pela censura soviética.

Como pode Solovyov ser descrito como "nacionalista" quando sua magnun opus, A Justificação do Bem (o livro que Putin foi acusado de recomendar aos seus governadores), estabelece precisamente o oposto? É difícil de imaginar uma condenação mais absoluta do excepcionalismo nacional que a contida no trabalho de ética deinitivo de Solovyov:

"Deve ser um ou outro. Ou devemos renunciar ao cristianismo e ao monoteísmo em geral, de acordo com o qual 'não há bem que não seja um, Deus', e reconhecer nossa nação como sendo o bem mais alto em lugar de Deus - ou devemos admitir que um povo se torna bom não em virtude do simples fato de sua nacionalidade particular, mas somente enquanto conforma e participa do bem absoluto".

O mesmo sentido anti-nacionalista percorre todo o corpus de Solovyov. Ele argumenta agressivamente contra os nacionalistas eslavófilos do seu tempo. Para ler os pensamentos de Solovyov a respeito do assunto, Snegovaya, que lê russo, pode ter consultado o livro Estado, Sociedade, Governo, um voluma acadêmico de ciência social liberal co-publicado em 2013 por Mikhail Khodorkorsky (não conhecido por seu carinho com relação a Putin). Nesse compêndio em língua russa de ensaios feitos por teóricos liberais russos, Solovyov é rotulado como um crítico autoritativo do nacionalismo russo, inclusive o nacionalismo ocasionalmente falado por Dostoievsky [S. Nikolsky e M. Khodorkovsky, ed., Gosudrastvo. Obshchestvo. Upravlenie: Sbornik statei (Moskva, Alpina Pablisher: 2013)].

No artigo crítico feito pelo Prof. Sergei Nikolsky, Solovyov é citado longa e precisamente como um crítico autoritativo do desrespeito de Dostoievsky com relação a outras fés e nações e especialmente com relação à Europa. A fim de um balanço, Nikolsky pode ter notado que em mais algum lugar, por exemplo em seu "Três Discursos em Honra ao Dostoievsky", Solovyov homenageia Dostoievsky nos termos mais altos possíveis e especialmente nega que seu ideal político é nacionalista.

É digno de nota que Nikolsky, no mesmo artigo, ataca Ilyn por suas visões demasiadamente rosadas do imperialismo tsarista russo. Nikolsky provavelmente tem um ponto aqui.

Criticando a Igreja

Finalmente, longe de ser um proponente fanático da Igreja Ortodoxa Russa, Solovyov duramente criticou a Igreja Russa, taxando-a por "ser totalmente subserviente ao poder secular e destituído de toda vitalidade interior". Seguindo adiante, isto soa decididamente fraco. E de novo, tudo isso é bem sabido. Muitos, inclusive aqueles teólogos proeminentes como Urs von Balthasar, acreditam que Solovyov renunciou à Ortodoxia e se tornou um Católico, tão fortemente abraçou a Igreja Católica.

Solovyov, o suposto fanático conservador Ortodoxo, louvou a Igreja Católica, entre outros motivos, porque ele viu sua independência com relação às tentações nacionalistas, e por sua prontidão em agir no mundo. "O Oriente [quer dizer, a Ortodoxia Oriental] reza; o Ocidente [quer dizer, o Catolicismo Romano] reza e atua: quem está certo?" questiona Solovyov retoricamente em seu famoso Rússia e a Igreja Universal. Misturar com o mundo é bom se é o mundo que muda, Solovyov continua. Mudanças em quê sentido? De algum movo, no mesmo sentido como advogado pelo progresso Ocidental.

O que a Revolução Francesa destruiu - tratando os homens como coisas, bens ou escravos, merece ser destruído. Mas a Revolução Francesa, no entanto, não instituiu a justiça, porque a justiça é impossível sem a verdade, e a primeira de todas as verdades sobre o homem, mas a Revolução Francesa "perseguiu no Homem nada além da individualidade abstrata, um ser racional destituído de todo conteúdo positivo".

Como resultado, "o indivíduo livre e soberano", Solovyov continua, "encontra-se condenado a ser vítima indefensável do Estado absoluto ou da 'nação'".

É impossível reconciliar o Solovyov que encontramos nesses escritos com o retrato de Snegovaya e de Brooks de um religioso chauvinista e nacionalista russo, alguém com tendências pró-soviétias para aplicar.

A referência ao messianismo, vindo de Brooks, também demonstra uma total falta de auto-consciência. Mas aquele exemplo particular da chaleira chamando o pote preto já tem sido habilmente manuseado por Charles Pierce ("Nosso Sr. Brooks e o Messiânico Sr. Putin", Esquire, 4 de março de 2014).

Filósofo da Liberdade

Berdyaev (1874-1948) escreveu um grande tratado, e em um número de assuntos alterados em sua mente, mas, já que foi A Filosofia da Desigualdade que Putin sugeriu que seus governadores lessem, faz sentido começarmos com este.

Encontramos aqui um repositório de visões 'pró-soviéticas'? Nem perto disso. Pelo contrário, encontramos uma condenação emocionalmente desempenhada de tudo o que a União Soviética buscava (o livro foi escrito imediatamente depois da Revolução de 1917 e Berdyaev estava cheio de raiva e tristeza).

Berdyaev gasta muito do livro repreendendo o movimento bolchevique por sua exaltação exagerada de uma forma política particular. Mas em verdade, Berdyaev insiste, as formas políticas são secundárias ao espírito humano. Se uma pessoa é agradável ou viciosa, devota à justiça ou o seu oposto, tem pouco que ver com se alguém é um monarquista ou um democrata, um partidário da propriedade privada ou um socialista.

Por que especificamente "A Filosofia da Desigualdade"? Não porque o filósofo é indiferente à exploração e à injustiça. E menos ainda porque ele favorecia a tirania - ele foi, pelo contrário, um incansável crítico do despostismo, que é a palavra usada para descrever a ordem tsarista.

Berdyaev nunca abandonou completamente seu interesse por Marx quando jovem, mesmo depois de sua conversão ao Cristianismo perto da virada do século. Ele foi por temperamento uma pessoa mais à esquerda que à direita, apesar de sua duradoura influência de Nietzsche.

No que concerne Berdyaev é a desigualdade entre o que é superior ou inferior no âmbito do espírito e cultura. Berdyaev na maioria das vezes aprova algo do liberalismo e encontra nele algo de aristocrático ou de algum modo não revolucionário. Não obstante, a democracia e o socialismo, precisamente porque eles foram pretensiosos em preencher toda a vida com seu conteúdo, pode facilmente se tornar uma falsa religião.

Em algumas vezes a filosofia de Berdyaev até mesmo coincide com o libertarianismo, que por sua vez rejeita todo abuso de liberdade do indivíduo para fins utilitários.

A visão religiosa de Berdyaev é difícil de caracterizar. Ele foi um Cristão, um existencialista e alguém que acreditou na primazia absoluta da liberdade, mas não necessariamente todas as três de uma só vez (elas não são inteiramente compatíveis, mas então Berdyaev não foi sempre consistente). Os escritos de Dostoievsky tiveram uma enorme importância religiosa para ele.

É fácil de não compreender Berdyaev por causa de sua carência de sistema, e porque ele olha algumas vezes para o mesmo conceito de perspectivas diferentes. Tomamos por exemplo a compreensão paradoxal de Berdyaev da unidade nacional.

Dostoievsky, Berdyaev escreve, "é um gênio russo; o caráter nacional russo é estampado em todo o seu trabalho criativo, e ele revela ao mundo as profundezas da alma russa. Mas este mais russo dentre os russos ao mesmo tempo pertence à toda humanidade, ele é o mais universal de todos os russos".

E o mesmo pode ser dito para Goethe e outros gênios nacionais, que por sua vez são universais não por serem genéricos, mas precisamente por serem mais que eles mesmos; no caso de Goethe, sendo especificamente alemão. A perspectiva de Berdyaev aqui é particularmente útil se nós quisermos um mundo salvo para tanto a unidade e a diversidade. Uma civilização global que nivelaria todas as diferençasé feio, enquanto um messianismo que exaltaria uma nação sobre as outras é mal [N. Berdyaev, Sud’ba Rossii [O Destino da Rússia], (Moskva: Eksmo-Press, 2001), p. 353 e 361]

O Cristianismo, entretanto, é messiânico, porque afirma o que considera verdade universal, a verdade de Cristo. Mas essa verdade não tem poder coercitivo.

Até o início de 2014, a visão de que Solovyov e Berdyaev representam particularmente alternativas humanas e atrativas para a Rússia não foi, tão quanto sou consciente, posta em dúvida por ninguém, ao menos ninguém que deu  ao assunto qualquer pensamento.

Nos tempos da Perestroika, quando a filosofia russa foi finalmente redescoberta dentro da Rússia, a influência positiva desses filósofos foi calorosamente afirmada. Bill Keller, escrevendo para o New York Times, louvou a revista soviética Novy Mir por focar atenção em "os pensadores russos do século XIX mais inclinados ao Ocidente tais como Nikolai Nekrasov, Aleksandr Herzen, e os filósofos cristãos Vladímir Solovyov e Nikolay Berdyaev".

Estes foram o tipo de pensadores, enfatizados por Keller, que ajudariam a encorajar "uma alternativa humana ao fanático leninismo e ao obscuro nacionalismo russo". Ao publicar estes escritos, Keller continuou, Novy Mir estava demonstrando que "ocupa uma posição centrista chave a tentativa de reconciliar os ocidentalistas e os patriotas russos em uma base comum de tolerância e ideais democráticos".

O 'Liberal Conservador'

O caso de Ivan Ilyn (1883-1954), quem Putin regularmente cita e por quem Putin reconhecidamente tem respeito, é mais complexo. Algumas das suspeitas de Snegovaya nesse caso são de fato bem feitas. Ilyn tem um temperamento conservador.

É justo chamá-lo de nacionalista, embora um só preocupado com a Rússia e mais nada, e sem ambições messiânicas. Como veremos mais adiante, Ilyn não foi contra o autoritarianismo. Ilyn foi, no entanto, complexo e digno de consideração mais cuidadosa.

A sugestão de que Ilyn é uma fonte da postura "pró-soviética" é facilmente desfeita. Os interrogadores de Cheka que prenderam e interrogaram Ilyn seis vezes entre 1918 e 1922 ficariam muito surpresos com uma tal caracterização.

De acordo com o Prof. Iu T Lisitsa, que revisou os registros sobre Ilyn dos arquivos da KGB, Ilyn "mesmo nas mãos da Cheka, sob ameaça de execução... permaneceu reto, preciso, e articula em sua oposição ao regime bolchevique". [From “The Complex Legacy of Ivan Il’in, Russian Thought after Communism, in James Scanlan, ed., Russian Thought After Communism: The Recovery of a Philosophical Tradition (Armonk, Nova Iorque, M.E. Sharpe: 1994), 183.]

A caracterização "pró-soviética" também não faz jus com o fato de que Ilyn, ao lado de Berdyaev e um grupo de outros filósofos líderes russos, foi banido da URSS em 1922 por sua "agitação" anti-soviética. Diz-se que o corpus literário de Ilyn inclui mais de 40 livros e ensaios, alguns deles escritos em linguagem técnica e acadêmica, então não é coisa fácil caracterizar seu pensamento, mas um bom lugar para começar é Nossas Tarefas, de Ilyn.

Esse não só é um livro que Putin gosta de citar, é também um outro dos livros, ao lado com a Justificação do Bem de Solovyov e com A Filosofia da Desigualdade de Berdyaev, que Putin sugeriu para que seus governantes lessem.

O livro Nossas Tarefas é uma compilação de ensaios jornalísticos escritos por Ilyn entre 1948 e 1954. Seu tema primordial é a necessidade de pôr um fim à regra soviética, derrotar o comunismo e planejar para a restauração da Rússia e recuperar-se das desgraças físicas, morais e políticas impostas à Rússia pelo sistema soviético. É difícil imaginar uma condenação mais descompromissada da ideologia e prática soviética que essa coleção de ensaios de Ilyn. Se houver alguma, deve faltar em exagerar as deficiências do sistema soviético. Deve ser lembrado, apesar disso, que Ilyn (que morreu em 1954) não viveu para ver a era pós-soviética, ou mesmo para ouvir o discurso de Khrushchev condenando Stalin (em 1956).

E Ilyn não foi só um crítico do comunismo, ele foi também um crítico dos líderes passados da Rússia quando eles foram viciosos (como no caso de Ivan IV) ou incompetentes, como no caso de Nicolau II. Como Berdyaev, Ilyn foi também, na ocasião, um crítico agressivo do povo russo, que ele pensou que eram politicamente imaturos e em necessidade de uma quebra de curso em consciência legal.

Depois da queda do poder soviético, uma queda que ele esteve certo que iria acontecer, ele foi cético ao extremo de que o caráter do povo na Rússia seria capaz de sabiamente se auto-governar, que é o motivo pelo qual ele instou, como um expediente temporário, um período de  transição do governo autoritário.

'O Homem Soviético'

Aqui é como, em Nossas Tarefas, Ilyn descreveu o caráter do "homem soviético" que a futura Rússia herdaria: "O sistema totalitário... impõe um número de tendências e hábitos doentios... entre os quais nós podemos encontrar a seguir: uma vontade para informar sobre outros (e conhecida e falsamente), distorcer e mentir, perda de sentido de dignidade pessoal e a ausência de todo patriotismo bem enraizado, pensando de uma maneira escrava e aceitando cegamente o pensamento de outros, sujamente combinados com servidão e medo constante.

"A luta para sobrepor estes hábitos doentios não será fácil... exigirá tempo, uma auto-consciência honesta e corajosa, uma repetição purificadora, a aquisição de novos hábitos de independência e auto-confiança, e, o mais importante de tudo, um novo sistema nacional de educação espiritual e intelectual.[I. A. Il’in, Nashi Zadachi (Nossas Tarefas), sobr. soch. (obras coletadas), vol. 2 (Moskva, Russkaya Kniga: 1993), 23-24.]

 Ilyn era de fato profundamente preocupado com o perigo da desintegração da Rússia e de fato era preocupado com a defesa de suas fronteiras, embora, claro, não por sua restauração. Para evitar tal desintegração, Ilyn instou os russos a não repetir o que ele considerou erro fatal da Revolução de Fevereiro - seu empurrão prematuro por repleta democracia.

Nisso, como em respeito a muitas outras coisas, as recomendações políticas de Ilyn conciliam-se com as de Solzhenitsyn, que foi profundamente influenciado por Ilyn. Que Ilyn é uma grande influência sobre a marca de Putin como "liberal conservador" foi notado já em 2012 pelo acadêmico canadense Paul Robinson.

Diferente de Solovyov e Berdyaev, nos primeiros anos da Perestroika Ivan Ilyn era pobremente conhecido tanto dentro como fora da Rússia, embora Ilyn tenha sido proeminente durante os anos precedentes e seguintes da Revolução Russa, inclusive enquanto vivia no exílio.

Sua fama no início do século XX veio largamente de um celebrado estudo acadêmico dos escritos de Hegel, um trabalho ainda louvado tanto dentro como fora da Rússia como entre os melhores já produzidos.

Ilyn estourou na cena pós-soviética em 1991, quando os ensaios das Nossas Tarefas foram primeiramente publicados, incluindo o presciente "O Que o Desmembramento da Rússia Pressagia para o Mundo?" Em seu ensaio, Ilyn escreve que o resto do mundo, em sua ignorância das prováveis consequências, avidamente subscreverá a destruição da Rússia e providenciará muitas assistências de desenvolvimento e encorajamento ideológico.

Como resultado, Ilyn escreve "o território da Rússia fritará em intermináveis protestos, combates, e guerras civis que constantemente escalarão em confrontos mundiais..." Para evitar esse fato, como mencionado anteriormente, Ilyn instou a Rússia um período de transição de governo autoritário.

Esse ponto é enfatizado por Philip Grier em seu Complexo Legado de Ivan Ilyn. Grier, deve ser acrescentado, que é o antigo presidente da Sociedade Americana de Hegel, é também o tradutor da análise em dois volumes de Ilyn sobre Hegel publicada por Northwestern University Press em 2011.

Embora Ilyn admire os Estados Unidos e a Suíça pelo que ele viu como auto-governos democráticos maduros, não está claro que Ilyn era confidente de que a democracia tenha sido feita sob medida por uma nação e uma cultura do tipo russo.

O que está absolutamente claro, no entanto, é a devoção fervente de Ilyn em governar a lei e a consciência legal, algo que o coloca à parte dos eslavófilos, a quem ele em outros assuntos se assemelha.

Uma Rússia Liberal ou Cristã?

Há muitas diferenças importantes entre estes três pensadores. No entanto, todos os três escritores consideraram a liberdade essencial à cultura humana e ao espírito humano, embora eles difiram na ênfase. Indubitavelmente, então, a visão de mundo de todos os três é irredutível à fórmula liberal até mesmo se suas visões incluem elementos importantes liberais ou modernos.

Todos os três concordam com o mundo liberal de que todos os humanos, independentemente da nação, religião ou qualquer outra diferença, são igualmente dotados de dignidade infinita. Mas para eles isto não é uma frase jogada fora quando eles acrescentam que sua dignidade é conferida aos humanos por Deus, o que significa, entre outras coisas, que um direito a ser absolutamente seguro não pode ultrapassar o direito de alguém de não ser torturado (a proibição absoluta de Ilyn contra a tortura, ou qualquer coisa relacionado à tortura, no livro acima mencionado é excelente e oportuna).

Não houve espaço aqui para tentar mais que uma breve introdução a estes pensadores. Mas deveria ficar claro que a tradição que nós acabamos de descrever oferece, se nós nos engajaríamos nisso, uma oportunidade: uma chance de formar uma parceria com a Rússia que, embora diferente de nosso estado presente da mente, compartilha muito de nosso passado, e talvez sugere alguns caminhos para negociar em um mundo cada vez mais perigoso.

Conforme sua recomendação de lista de leituras fortemente sugere, "a Rússia de Putin" representa uma tentativa de reconectar com sua tradição, embora possa ser falha se tomarmos o famoso discurso de Putin (à Assembleia Federal) em abril de 2005. Embora os comentadores ocidentais tem ad nauseum o repreendido por mostrar suas verdadeiras cores ao despreender nostalgia pela ordem soviética, em verdade, como todo o texto e o seguinte excerto tornam claro, ele não fez tal coisa:

Putin disse: "O poder do Estado, escreveu o grande filósofo russo Ivan Ilyn, 'tem seus próprios limites definidos pelo fato de que é a autoridade que alcança o povo de fora... o poder estatal não pode sobrepor e ditar os estados criativos da alma e da mente, os estados interiores do amor, da liberdade e do bem-querer. O Estado não pode demandar de seus cidadãos fé, oração, amor, bondade e convicção. Não pode regular criação científica, religiosa e artística... não deveria intervir na moral, na família e na vida privada cotidiana, e só quando extremamente necessário deveria impingir na economia do povo iniciativa e criatividade'".

É ser inocente imputar um tal idealismo a Putin? Talvez. Mas Putin não é de fato o ponto, e sim a Rússia. Nós nos engajamos depois de tudo num país, não numa simples pessoa nele, e a tradição que estamos descrevendo tem raizes suficientes na Rússia que atualmente existe que, se nós escolhermos nos engajar nela, haveria a chance de uma conversação produtiva, capaz de reconstruir a confiança e criar uma ordem.

Os críticos dizem que a Rússia recentemente se tornou uma nação cheia de ódio. Mas como estão os cidadãos russos e o presidente Putin por verem distorcidas (e o que vimos acima é apenas a ponta do iceberg) suas próprias palavras e suas mais caras tradições de um modo aparentemente rancoroso e até mesmo violento? Uma sábia análise corretamente notou que os nacionalistas russos como Alexandr Dugin consideram os Estados Unidos como inimigo implacável da Rússia. Representantes desse campo "eurasiano" esperam a queda de Putin.

Os esforços da América para a "mudança de regime" podem ser bem sucedidos e facilitar uma mudança drástica para pior. E então, por meios da "logicalidade curiosa" da ideologia americana, nós mais uma vez, com a "teimosa devoção sem consideração por fatores específicos e variantes" vamos a mais uma catástrofe.

Uma Breve Nota sobre Ideologia

Para a tão alardeada liberdade dos Estados Unidos, exibe surpreendentemente pouca liberdade de manuseio quando vem à política externa. Longe de ser tomado em consideração a necessidade da segurança vital da Rússia, para não dizer nada da identidade russa, os ideólogos dos EUA se comportaram como se ambos não fossem existentes ou fundamentalmente ilegítimos. Tais comportamentos políticos compulsivos é um claro sinal de infecção ideológica.

Brooks, Snegovaya e Galeotti aparentemente fizeram todo o uso da mesma base lógica quando eles examinaram as fontes filosóficas do pensamento de Putin. Essa lógica foi algo como isso: a) Washington considera a Rússia um problema, logo b) Vladimir Putin é um bandido; e logo c) o filósofo do século XIX Vladimir Solovyov sonhou em restaurar a União Soviética em sua anterior glória e poder cristãos.

Um pensamento tão desleixado não aconteceria se essas três pessoas inteligentes não (espera-se temporariamente) fossem previamente incapacitados por cegadores ideológicos. Infelizmente, o mesmo pensamento ideológico domina todo o discurso dos EUA que se refere à Rússia, fazendo com que se torne impossível qualquer afirmação política.

Afinal, se o ideal político da América é quase tão perfeito que pode ser alcançado neste "mundo decaído", então a coisa vai adiante e vence, desse modo trazendo o bem perfeito (somos nós!) para todos.

Por que preocupar-se seriamente em familiarizar-se com um sistema competidor? Claramente Brooks and Co. não fazem nenhum esforço. Foi o bastante para eles saber que o ideal político da Rússia significantemente difere do americano: logo é ilegítimo, Q. E. D.

Conforme Hannah Arendt escreveu em As Origens do Totalitarianismo, "a curiosa logicalidade de todos os ismos, sua simplista crença no valor de salvação da teimosa devoção sem consideração por fatores específicos e variáveis, já acolhe os primeiros germes do desprezo totalitário pela realidade".

Essa América realmente não vive seus próprios ideais, como tenho escrito anteriormente, não muda nada para o ideólogo. Afinal, todo aumento no poder da América traz mais perto o dia em que suas ações (que são geralmente realistas) e seu discurso (que é sempre democrático e idealista) podem encontrar harmonia. Então a história pode verdadeiramente e finalmente terminar.

E então, em luz da revisão acima de uma parte importante da tradição russa, há algo que agora sabemos de forma muito mais acurada: a Rússia também tomou o problema de ter ideais.

Paul Grenier é um ex-intérprete simultâneo russo e um regular escritor sobre assuntos político-filosóficos. Depois de avançar no estudo sobre assuntos russos, relações internacionais e geografia na Universidade Columbia, Paul Grenier trabalhou para o Pentágono, para o Departamento de Estado e para o Banco Mundial como intérprete russo, e no Conselho de Prioridades Econômicas, onde foi um diretor de pesquisa. Ele escreveu para o Huffington post, Solidary Wall, Baltimore Sun, Godspy e Second Spring, entre outros lugares, e suas traduções de filosofia russa apareceram no jornal católico Communio.












via russianinsider