Mostrando postagens com marcador capitalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador capitalismo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Capitalismo, não o Socialismo, que Levou aos Direitos Gays

Por David Boaz


Alguns historiadores gostam de declarar que ideias socialistas ajudaram a trazer os direitos gays na era moderna. Mas eles estão erroneamente tomando a teoria acadêmica pela realidade.


Jim Downs é um historiador no Connecticut College e em Harvard. Um especialista na história da raça e da escravidão, ele publicou recentemente um novo livro, Stand by Me: The Forgotten History of Gay Liberation, no qual ele tenta remover a história gay recente de um foco excessivo no sexo e na AIDS.

Há várias coisas erradas nisto. Primeiro, é superestimado. Eu estive por perto, em torno dos anos da década de 1970, e eu diria que o socialismo era uma parte bem marginal da comunidade gay ou mesmo do movimento dos direitos gays. Ativistas gays definitivamente se inclinavam para a esquerda, mas eles eram focados no avanço dos direitos gays através do Democratic Party. Downs também tem um novo artigo na revista digital Aeon, no qual ele escreve que "ao longo dos anos 1970, as pessoas LGBT teorizavam sobre os benefício do socialismo em livros e panfletos e criticavam o capitalismo nos jornais e na cultura impressa". Ele segue adiante para discutir os "grupos LGBT" e os jornais que "fizeram do socialismo um assunto principal do interesse político no movimento". Mais significativamente, ele argumenta que "se você quiser dar crédito para a liberação gay e para a igualdade do casamento, crédito deve também ser dado ao socialismo".

Segundo, houveram escritores libertários gays na época, também, na academia, na imprensa popular, e se juntavam em torno do Libertarian Party, salientando os benefícios dos livre-mercados e os problemas do socialismo.

Terceiro, o uso do LGBT é anacrônico. O termo foi dificilmente, se é que foi, usado nos anos 1970. (Ele não usa muito no livro.)

Mas a declaração é mais que superestimada. É errada. E o artigo do próprio Downs oferece a evidência. Em meio ao seu artigo sobre como o socialismo infundiu o movimento dos direitos gays e levou à liberação gay, ele nota o trabalho do historiador John D'Emilio sobre como "o capitalismo tornou possível que o LGBT se movesse para as cidades e se tornasse independente da família como uma fonte de renda. Uma vez que o capitalismo criou a oportunidade para que pessoas vivessem autonomamente, ele involuntariamente permitiu que as pessoas LGBT privilegiassem o desejo homossexual como força diretriz em suas vidas".

Apesar das inclinações à esquerda, D'Emilio viu o mundo de modo mais claro que Downs. Todos os avanços nos direitos humanos que nós vimos na história americana -- abolicionismo, feminismo, direitos civis, direitos gays -- partem de nossa fundação de ideias pela vida, pela liberdade, e pela busca de felicidade. A ênfase na mente individual no Iluminismo, a natuyreza individualista do capitalismo de mercado, e a demanda pelos direitos individuais que inspiraram a Revolução Americana naturalmente levaram as pessoas a pensar mais cuidadosamente sobre a natureza do individual e a gradualmente reconhecer que a dignidade dos direitos individuais deveria ser estendida para todas as pessoas.

Aquelas tendências intelectuais rapidamente levaram aos sentimentos feministas e abolicionistas. Levou mais tempo para que as pessoas tomassem a sério a ideia da atividade homossexual como uma questão de liberdade pessoal e para reconhecer os homossexuais como um grupo de pessoas com direitos. Mas os libertários e seus ancestrais liberais-clássicos chegaram lá primeiro. De Adam Smith e Jeremy Bentham ao Libertarian Party e ao Cato Institute (onde eu trabalho), os libertários estiveram à frente da curva intelectual ao aplicar as ideias da liberdade individual às pessoas gays.

É claro que o capitalismo é mais que uma ideia. É um conjunto de instituições sociais, que Downs corretamente nota que veio sob ataque contundente dos socialistas gays. Mas, como D'Emilio reconheceu, foi o capitalismo que, na verdade, permitiu que os indivíduos vivessem autonomamente e florescessem. O capitalismo libertou as pessoas do feudalismo e da fazenda da família. Ele permitiu a eles que construíssem suas próprias vidas em uma sociedade de mercado com espaço para vidas pessoais e profissionais separadas. Ele deu a elas liberdade e afluência para viver por sua própria conta. O capitalismo levou à industrialização, que levou à urbanização, que ofereceu a anonimidade da cidade para qualquer um que atritava sob as constrições da família e da vila, bem como a chance de encontrar pessoas que compartilhassem seus próprias interesses.

O escritor Eric Marcus produziu um livro de entrevistas com ativistas gays chamado Making History. O que seus assuntos ilustraram -- mesmo quando eles não se davam conta -- foi que era a liberdade de sair de casa e a afluência que permitiu às pessoas que fizessem assim que tornou possível que elas se movessem e escolhessem estilos de vida que quisessem.

Em 1982 o intelectual australiano Dennis Altman escreveu:

"A mudança real na década passada foi um movimento de massa político e cultural através do qual mulheres e homens gays se definiram como uma nova minoria. Este desenvolvimento foi possível apenas sob o capitalismo moderno consumista, que, por todas as duas injustiças, criou as condições para uma maior liberdade e diversidade que são presentes em qualquer outra sociedade conhecida até então. Para aqueles de nós que são socialistas, isso apresenta um importante dilema político, a saber como guardar aquelas qualidades do capitalismo que permitem a diversidade individual enquanto abandona suas iniquidades, exploração, desperdício e feiura."

É claro, qualquer um que encontrar "iniquidades, exploração, desperdício e feiura" nos países capitalistas provavelmente não viveu em países socialistas. Mas como D'Emilio, Altman entendeu as fundações institucionais reais para a vida gay moderna e a identidade gay.

Estes efeitos do capitalismo não aconteceram apenas na Europa e nos Estados Unidos. Em China's Long March to Freedom, o acadêmico chinês-americano Kate Zhou escreve que quando a habitação pertencia e era alocada pelo Estado, era apenas alocado geralmente para casais casados. Uma vez que a habitação foi privatizada, pessoas solteiras e casais gays poderiam providenciar ou alugar acomodações. Mercados de propriedade mais livres também levaram à criação de bares gays, algo que as autoridades estatais de habitação provavelmente não aceitariam. Olhe ao redor do mundo, e está claro que os países com maior liberdade para pessoas gays são aqueles com um grau maior de liberdade econômica. Países que são realmente socialistas estão no nível mais baixo de qualquer medida de liberdade política, liberdades civis, liberdade pessoal, e os direitos LGBT.

Claro, alguns países que são chamados de "socialistas", tais como Dinamarca, Suécia e Canadá, não são realmente socialistas. Eles têm sistemas políticos e econômicos baseados na propriedade privada, no livre-mercado, nos valores liberais, e altos níveis de taxas e transferência de pagamentos -- não tão libertário, mas definitivamente economias de mercado.

Não é o que socialistas gays dos anos 1970 buscavam. Eles queriam o socialismo real, o fim das relações de mercado. Os países que implementaram um tal sistema, desde a União Soviética à Tanzânia e à Venezuela, tiveram menos sucesso em sustentar tanto a prosperidade quanto a liberdade individual do que os países capitalistas.

Aqueles gays intelectuais disseram muito sobre socialismo, mas eles viveram no capitalismo. E se tratava da realidade capitalista, não dos sonhos socialistas, que liberaram o povo gay.

Homo-Imperialismo: Gayzificando o Mundo em benefício do Capital


por Jonathan McCormack

Há -- contam-nos os políticos com os olhos marejados -- povos primitivos ainda tateando de modo obscuro neste ano sem as bênçãos de nossos próprios e iluminados valores sexuais ocidentais. O presidente Trump, portanto, jurou civilizar estas terras atrasadas, promovendo guerras contra a criminalização da homossexualidade. Seu pronunciamento veio logo depois de um relato sobre o enforcamento feito pelo governo iraniano de um homem de 31 anos culpado por sequestrar e estuprar dois garotos de 15 anos de idade. Uma vez que a sodomia lá é ilegal, muitas agências de notícias pensaram apenas em incluir este estuprador de crianças entre a minoria LGBT perseguida no Irã. Neste caso, é provável que a administração de Trump esteja usando os direitos gays como um pretexto sutil para obter influência sobre o Irã. Afinal, a diferença entre um ato de agressão e um de emancipação é apenas um adesivo com arco-íris. Contudo, os direitos globais LGBT conforma um espectro maior. Mobilizar toda uma campanha ao redor do mundo em nome de uma subdivisão menor da população pode parecer extravagante, mas há uma lógica colonial em jogo aqui. A liberdade sexual é meramente um preâmbulo fundamental para a liberação maior -- a liberação do capital.
O gênero, assim nos dizem, é uma construção social. Certamente, há alguma verdade nisso. Segue-se, então, que arranjos sociais diferentes efetivarão uma variedade de identidades sexuais. Foucault, ele mesmo, o queridinho da Esquerda, documentou a construção da identidade homossexual moderna, nascida, diz ele, no século XIX em meio à medicalização da sexualidade. Foi nesse período, ele concluiu, que a sodomia deixou de ser um ato e passou a ser parte da essência interna da personalidade de alguém.

Sem dúvidas, há indivíduos, no Oriente Médio e em outros lugares, que praticam sodomia, mas -- confusamente -- isso não significa que eles necessariamente constroem identidades em torno de tais atos, e certamente não da mesma maneira que ocidentais fazem. O Ocidente está exportando suas próprias noções culturais determinadas da sexualidade enquanto arrogantemente presumem sua universalidade. É uma sexualidade de estilo euro-americana que tem pouco que ver com identidades sexuais estrangeiras. E, conforme Edward Said nos lembra, "imperialismo é a exportação da identidade".

O homem europeu, no sonho febril rousseauniano, imagina um homem universal abstraído da história, o puro sujeito. E então ele se encaixa no molde de um homem do século XXI, branco, cosmopolita de classe média -- l'homme naturel, primitivo, sem civilização, grunhindo na selva -- que ouve NPR e lê The Washington Post.

Um dos filhos de Columbia, Joseph Massad, professor de Política Moderna Árabe e de História Intelectual, reiterou exatamente isto por anos em seu trabalho. Com um fanatismo que supera o da Igreja Católica no auge do fanatismo evangélico, Massad diz que a pressão pelos direitos gays no Oriente Médio é resultado de uma campanha "missionária" orquestrada pelo que ele chama de "Internacional Gay". Em seu livro Sesiring Arabs, ele escreve que "é o próprio discurso da Internacional Gay que produz os homossexuais, assim como gays e lésbicas, onde eles não existem". Ele acrescenta que "é a publicização das identidades socio-sexuais, e não os atos sexuais eles mesmos, que induzem à repressão", e que ao forçar os árabes que praticam sexo entre mesmo gênero para que vão a público, "A Internacional Gay está destruindo as configurações sociais e sexuais de desejo no interesse de reproduzir um mundo à sua própria imagem".

Embora isso se refira ao mundo árabe, a análise de Massad é aplicável a outros países também. Na Rússia, por exemplo, bares gays operam abertamente e sem perseguição. As paradas gay, contudo, são proibidas. Não é a homossexualidade em si, mas a intrusão dela na esfera pública que os russos pensam ser censurável.

O negócio da liberação gay global oficialmente começou quando o presidente Obama fez dos direitos LGBT um pilar da política externa. Mais de US$41 milhões foram destinados ao complexo industrial do glitter, ao lado de uma porção de U$700 milhões reservados para grupos marginalizados para apoiar as comunidades gays e as causas gays em todo o mundo. Uma quantidade substancial foi destinada para a crise na África subsaariana, aparentemente necessitada de paradas de orgulho gay. Para outros desconfortos menores -- epidemia de fome, altas taxas de mortalidade infantil, AIDS, pobreza descontrolada e assim por diante -- Obama estrategicamente usou a ameaça da descontinuidade da assistência para o desenvolvimento como uma arma para oprimir e forçar os Estados africanos a descriminalizar a homossexualidade. Depois do presidente da Uganda assinar uma dura lei anti-gay, por exemplo, a administração Obama astutamente anunciou que o dinheiro para assistência seria cortado ou redirecionado.

Ao mesmo tempo, o Banco Mundial anunciou que estaria atrasando um empréstimo de US$90 milhões para Uganda, alegando que a lei adversamente afetaria os programas de saúde que o empréstimo visaria apoiar. Uma posição intrigante para um banco. Eles justificaram a decisão afirmando que "quando sociedades promulgam leis que previnem pessoas produtivas de participar plenamente na força de trabalho, economias sofrem". A lei de Uganda não preveniria pessoa alguma de trabalhar, embora tenha demandado que nenhum trabalho houvesse que envolva sodomia.

Este é parte de um padrão de subversão da soberania nacional em nome do que o Papa Francisco chamou de "colonização ideológica". Não é surpreendente que o Terceiro Mundo considere que a imposição de valores sexuais estrangeiros seja outra instância da supremacia branca. Na revista do The African Holocaust Society, um grupo de acadêmicos africanos argumentam que os direitos LGBT são 'a porta de entrada para o controle político ocidental sobre nações soberanas (Uganda etc.) e, mais importante, uma ameaça ao nosso populismo (peoplehood) e ao caminho que nós escolhemos como agentes livres para determinar nossa realidade africana".

Em conjunto com as pressões políticas, corporações têm sido, curiosamente, instrumentais em exaltar os benefícios da sodomia. Poder-se-ia argumentar que eles estão apenas lucrando com o capricho, mas estudos mostraram que há pouca evidência de que as iniciativas de responsabilidade social resultam em lucros positivos para os negócios. A verdade é que os direitos gays foram agressivamente promovidos e defendidos por grandes negócios. Centenas de companhias globais, em uma estranha reversão de sua usual neutralidade social, vieram para assinar cartas de amicus para afirmar o casamento entre mesmo sexo em Obergefell.

De acordo com informações dos Funders for LGBTQ Issues, doações corporativas contam para uma considerável porção do grantmaking LGBTQ. Em 2016, o apoio totalizou US$20,4 milhões. Mais de 500 fundações e agências governamentais deram um total de US$524 milhões para causas LGBT em 2015 e 2016 juntos, quase um quarto mais que nos dois anos anteriores. Muito generosos estes CEOs.

E poder-se-ia questiona por que exatamente republicanos bilionários, como o maior doador do Republican Party Paul Singer, estão doando milhões para grupos de ativismo gay. Singer, a propósito, declara para a BBC que "virtualmente inventou os fundos abutres". O financiamento abutre, como descrito pelo The Guardian, acontece quando o país "está em um estado de caos. Quando o país se estabilizou, os fundos abutres retornam para demandar milhões de dólares em interesse de repagamentos e soldos sobre o débito original".

Aqui nós nos movemos mais próximo da verdade. Os avanços dirigidos pela elite de mudar sexualidades alimentam indivíduos desavergonhados que se definem não pela família, nação, filiação religiosa ou tradição, mas antes através de auto-criação de acordo com a vontade libertária individual. Com este chão de fundo, corporações podem então obter controle da população ao ditar e manipular identidades multiformes baseadas em nada mais que apetites atomizados a partir de redes culturais mais amplas.

O objetivo é não criar mais pessoas gays. O casamento de mesmo sexo tem uma importância simbólica; sua vitória no quadro público valida todas as outras relações sexuais libertadas de gerar filhos e compromissos familiares. Controlar a gramática simbólica da sociedade é um meio incrivelmente efetivo de alcançar o domínio. Casais homossexuais são meramente a ponta de lança contemporânea mobilizada na produção de novos ideais normativos.

Sobre a função social do eros liberador, Zygmunt Bauman escreveu que:

"A grande maior das pessoas, homens bem como mulheres, estão hoje totalmente integrados através da sedução mais do que do policiamento, através da propaganda mais do que da doutrinação, necessidade de criação mais do que da regulação normativa.
O erotismo de livre-flutuação é, portanto, eminentemente útil para a tarefa de tencionar para o tipo de identidade que, como todos os outros produtos culturais pós-modernos, é (nas palavras memoráveis de George Steiner) calculado pelo "máximo impacto e pela obsolescência instantânea."

É um alfaiate de identidade feito para o livre-mercado. O homo-capitalismo global disciplina, e então exporta, estas subjetividades revolucionárias mundo afora.

Em seu famoso ensaio "Capitalism and Gay Identity", o historiador John D'Emillo ilustra como a ascensão do trabalho assalariado e a produção de commodity quebrou os agregados familiares, enfraqueceu as relações de parentesco, e produziu o indivíduo moderno -- sem relações fortes com lugar, história ou comunidade, com o sexo separado da função social. Agora liberados da família como uma fonte de renda, os indivíduos podem voar para a anonimidade das grandes cidades em que novas normas sociais, não mais dependentes da organização familiar, permitiram que as identidades homossexuais distintivas florescessem. O desejo sexual foi agora abstraído das obrigações sociais embutidas, inerentes na criação de crianças, e o desejo homossexual pôde funcionar como fator decisivo para a identidade de alguém.

A homossexualidade é comensurável com a ascensão do capitalismo. Países que são realmente socialistas estão bem abaixo no rank de toda medição de liberdade política, liberdades civis, liberdades individuais, e direitos LGBT. Em nome da liberdade individual, os laços sociais são dissolvidos no ácido da lógica de mercado (escolha consumista expandida, disponibilidade e mutação de objetos, competição impiedosa) aplicada às relações humanas. Volker Woltersdorff, escrevendo no Institute for Queer Theory em Berlim, conclui assim: "A des-solidarização é a precondição histórica do reconhecimento estatal de alguns modos não-heterossexuais de viver".

Além disso, isso requere um enorme apoio estatal, pois o pequeno governo é incompatível com a "homossexualidade oficial". Nós vemos no Ocidente como agências de governo tecnocráticos continuamente expansivos chegaram para substituir as antigas instituições intermediárias como a Igreja e a família, que costumavam vigiar e constranger o discurso de normas. Para assegurar os meios de produção discursiva das identidades gays euro-americanas, são necessárias massivas intervenções institucionais.

A estrutura da família estável baseada em identidades sexuais tradicionais -- na transmissão da herança de geração para geração, inseridas em uma comunidade maior -- deve ser derrubada e reconstruída na imagem do Homem-Homo-Neoliberal, do qual o homossexual -- infantil, auto-determinado e autônomo -- é o arquétipo ideal.

Gundula Ludwig, que explora o nexo da ciência política com a teoria queer, descreve como as demandas do novo fluido pós-moderno de uma economia neoliberal impactam a formação de gênero:

"Imaginar um 'estilo de vida' homossexual no qual os sujeitos são flexíveis, dinâmicos e auto-determinados configura gays e lésbicas como modelos de papeis neoliberais...
A diversificação e a pluralização do que conta como uma forma 'normal' ou 'aceitável' de sexualidade, de desejo, de parceria ou família implica que indivíduos e a população são governados de um modo que os ajuda a integrar a governabilidade neoliberal nas práticas e nos comportamentos cotidianos.
A flexibilização do aparato da sexualidade ajuda a produzir uma realidade social que pressupõe a existência de governabilidade neoliberal."

O objetivo é substituir as subjetividades tradicionalmente constituídas com fim de reconstituir as relações sociais maduras para a exploração neoliberal.

No momento, na maioria das nações do Terceiro Mundo, o casamento gay é uma proposição ininteligível, mesmo para casais de mesmo sexo. Para eles, a autoridade para definir relações sociais é recebida da tradição e da religião. A ideia de que alguém pode redefinir o que significa o casamento pressupõe um conjunto de ideologias ocidentais e práticas sociais que não têm qualquer lógica simbólica nestes lugares. Escrevendo em The Encyclopaedia of African Religion, Molefi Kete Asante, um professor na Temple University, afirma que:

"A filosofia africana em geral é a de que a vida e a reprodução da vida sentam no núcleo da sociedade humana. Homens e mulheres têm crianças que ritualizam seus pais e ancestrais. No processo da construção da comunidade, a cultura africana não tem lugar, nem categoria e nem conceito que possa acomodar a homossexualidade enquanto modo de vida porque isto não se encaixa na visão segundo a qual humanos deveriam se reproduzir com o fim de serem lembrados pela eternidade."

Ele segue adiante e afirma que "nada é mais importante que o ciclo da vida a partir dos não-nascidos até os ancestrais; qualquer coisa que romper este ciclo, tal como a homossexualidade enquanto modo de vida, ameaça o próprio núcleo da sociedade africana e de sua filosofia."

O Ocidente deseja usurpar tal autoridade e entregá-las às maquinarias científicas e políticas que se disseminaram como ervas asfixiantes em nossos países.

Na luz da disrupção potencial para modos de vida ancestrais, afirmações chocantes como essas feitas recentemente por Kingsford Sumana Bagbin, o orador adjunto do parlamento de Gana, se tornaram incompreensíveis. À chamada de Theresa May para a inspeção de leis anti-gays, Bagbin respondeu com desprezo: "a homossexualidade é pior que a bomba atômica", ele disse, acrescentando que "não há modo de aceitarmos isso em meu país". Esta estratégia de catalizar e reforçar a poluição sócio-cultural para a governança neoliberal é o que John Millbank chamou de "tirania biopolítica". Em suas palavras,

"a relação (exchange) heterossexual e a reprodução sempre foi precisamente a 'gramática' da relação social como tal. O abandono dessa gramática implicaria, assim, uma sociedade não mais constituída pelo parentesco estendido, mas antes por um estado de controle e de trocas (exchange) e reproduções meramente monetárias."

Esta Ocidentoxização espalha seu próprio, bem único, conjunto de crenças, significados e prioridades sociais na base dos atos sexuais. Uma vez contraído, ele atacará os laços sociais até que tenham se tornado anêmicos, se rompam e feneçam. Corpos governamentais estrangeiros podem então astutamente invadir, injetando forças de mercado implacáveis na cultura hospedeira.

Instalar a lógica do casamento gay nas sociedades tradicionais, finalmente, é trazer à tona todo um novo cosmos, uma regra neoliberal receptiva. Relações, estruturas econômicas, auto-conhecimentos, mesmo palavras elas mesmas, devem tudo passar por um processo de transvaloração radical. Os mestres da nova colonização usam o chicote da ideologia para recriar o logos de um povo. De fato, o direito humano mais ameaçado, no fim das contas, pode ser o direito natural de uma cultura não-Ocidental.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Judiaria corrupta ataca Ciro Gomes


Recentemente, Ciro Gomes (PDT), depois de ter sido sabotado nas eleições pela esquerda, pela mídia, pelo centrão, e atacado pela direita do Bolsonaro (que desde o início da campanha sabia que seu maior adversário era Ciro Gomes), começa a ser atacado pela comunidade judaica brasileira (CONIB), que o processará por ter denunciado os atos de corrupção da judiaria brasileira.

Em entrevista ao Huffpost Brasil, Ciro disse que "agora Bolsonaro diz aos grupos de interesse o que eles querem ouvir. Por exemplo, para os amigos dele aí, esses corruptos da comunidade judaica, que acham que, porque são da comunidade judaica, têm direito de ser corrupto...”.

Anteriormente, Ciro havia dito, em várias oportunidades em palestras, que Bolsonaro havia recebido dinheiro do sionismo internacional "radical" para a campanha. Bolsonaro teve gastos bilionários com contratação de pessoal e maquinaria cibernética para impulsionar fakenews, em cima das quais ele obteve a vitória nas urnas. Até hoje, essas informações permanecem inexplicadas.

Temos que lembrar também que igualmente permanece inexplicada a "facada" em Bolsonaro às vésperas das eleições, cujo caso simplesmente sumiu do debate jurídico e das mídias após as eleições, não tendo sido encontrado um culpado e um punido sequer.

Temos que lembrar ainda que permanece inexplicada a dupla relação do Bolsonaro com as milícias envolvidas no assassinato de Marielle (que não é um problema identitário: ela foi morta porque investigava as milícias, não por ser negra nem por ser mulher!) e com as instituições americanas e israelenses, que forneciam armas e verbas milionárias. Bolsonaro muito provavelmente pode ser apontado como mediador entre as organizações criminosas internacionais da judiaria e as milícias locais[1], que faziam o trabalho de eliminar opositores aos projetos internacionais que visavam a destruição da soberania brasileira e a entrega das riquezas pátrias.


Não é só no Brasil

A comunidade judaica não age localmente. Seu projeto é internacional, seu projeto não é de defesa; é um projeto de ataque, de destruição das instituições tradicionais e de domínio global.

Na França do judeu sionista banqueiro Macron, onde o povo dos Gillets Jeunes sai às ruas há meio ano pedindo sua saída do governo, recentemente houve a queimada da Notre-Dame e a prisão do intelectual Alain Soral. Alain Soral foi preso porque negou o holocausto, tendo então sido acusado de "antissemitismo" (como Ciro Gomes!).

Notre-Dame não é só uma igreja. Ela é símbolo da cristandade europeia, seja por sua arquitetura gótica, por sua longevidade, por sua influência cristã e estritamente europeia, seja por seus traços tradicionais e portanto não modernos (como quer a judiaria iconoclasta) e por sua herança renascentista. Depois da queimada, que até hoje não encontrou os culpados, Macron imediatamente recebeu doações milionárias do mundo todo para a reconstrução da igreja, mas com traços modernos e globalistas -- fechando os olhos para a tragédia humana, a mídia replicando este comportamento. Só a motivos de comparação, vale citar o fato de que as Torres Gêmeas, depois de terem sido destruídas (pelo governo americano, é óbvio), imediatamente obteve fundos milionários para a reconstrução da área destruída, fechando os olhos para a tragédia humana que havia acontecido e que até hoje fica sem explicações concretas, sem culpados concretos, sem punições concretas (o pobre do Bin Laden no Oriente Médio, o povo do Afeganistão, Saddan Hussein e o povo do Iraque tiveram que pagar).

A América Latina está sob assalto sionista. O governo Macri da Argentina permitiu que Israel patrulhasse as fronteiras e mapeasse o relevo geográfico. Isso significa que a inteligência israelense está obtendo informações valiosíssimas sobre prováveis cenários de batalhas onde sairao com vantagens, bem como sobre as riquezas naturais que a América Latina tem e que, por um simples deslize, poderão passar para as mãos da judiaria criminosa e assassina, como estão fazendo com o pré-sal, a Amazônia brasileiras, e inúmeras outras riquezas como o subsolo dos aquíferos, os minérios terrestres e, recentemente, a serra gaúcha. Ademais, para quem não sabe, a Venezuela possui a maior reserva de petróleo do planeta -- toda semelhança não é mera coincidência!

A judiaria internacional apátrida e assassina está assaltando e fatiando nossas riquezas. Uma das grandes armas deles é o vitimismo do "antissemitismo", que nunca existiu em lugar algum. Pelo contrário, são esses canalhas que invadem países, destroem povos, genocidam países inteiros, maquiando tudo através das mídias e mentindo descaradamente, usando o "antissemitismo" como aquele argumento contra o qual não deve haver respostas.

Para terminar, vale lembrar que, de fato, até hoje essa judiaria assassina não apresentou quaisquer indícios sobre o Holocausto. É ônus de quem acusa apresentar provas. Enquanto elas não chegam, o Holocausto, ou Holoconto, permanece uma mentira. Vale escutar as palavras de Ahmadinejad sobre o assunto. E de Siegfried Castan também[2].

Ciro Gomes, como Adolf Hitler, Getúlio Vargas, Leonel Brizola, é só mais um homem nacionalista, patriota, acusado por essas organizações judaicas assassinas, que vivem de calúnia e de mentiras, sendo cruéis e covardes.

O povo brasileiro deve expulsar essa podridão, esses parasitas, do seu país. Antes disso, não haverá paz.

Sobre as ligações de Bolsonaro com o interesse internacional: https://www.correiodobrasil.com.br/bolsonaro-visita-cia-polemica-armamento-milicias/

domingo, 27 de janeiro de 2019

O Que é a Modernidade?


Por Rachid Achachi (رشيد العشعاشي)

O Que é a Modernidade? (ما معنى الحداثة؟)
(Tradução: Álvaro Hauschild)

Primeira parte do texto 'O que é a modernidade?', que se inscreve na continuidade da análise precedente 'O momento moderno ou o desencantamento do mundo'.

Definida às vezes como uma fase histórica, às vezes como um paradigma (نموذج فكري) ou uma representação do mundo (تصوّر للعالم/ Weltanschauung), ou ainda como sendo movimento do progresso técnico, vista como uma ruptura ontológica (قطيعة وجودية),... a "modernidade/ الحداثة" é e não é tudo isso. Ela é antes de tudo a emergência de um sujeito individual (individualismo: الفردية، الفردانية) sempre retrocedendo, evanescente (متلاشي), nascido de um décosmie (قطيعة مع الكون) a partir do qual definirá para si os fundamentos e os contornos.


- A modernidade ou o eterno retorno do novo:

Etimologicamente (etimologia: علم أصول الكلمات), a modernidade procede de um "mode", do latim "modus", significando literalmente isso que é "recente/ novo: حديث، جديد" e se opõe a "arcaico/antigo: قديم ". Ela não é por conseguinte confundida com a "contemporaneidade: المعاصرة", uma vez que as pessoas da antiguidade ou da Idade Média são contemporâneos de sua antiguidade ou sua Idade Média. Não é menos verdade que eles não são modernos. Pois o "culto ao novo: عبادة الجديد" da modernidade não é o desejo de um evento único (hapax: حدث فريد), sendo uma ruptura definitiva, nem o advento de uma nova era (حقبة جديدة) e realizada na qual um novo mundo será construído, mas é a razão de ser da modernidade, sua essência, e é por isto que ela é indefinidamente nascente.


تعريف أولي للحداثة : التجديد أو القطيعة المتواصلة باستدامة. القطيعة لا لغاية مُحَدَّدة، لكن كغاية لذاتها. القطيعة من أجل القطيعة.

Uma primeira definição da modernidade pode ser dita assim: "o novo sempre recomeçado". Um novo que, uma vez engendrado, deixa de existir quase que imediatamente, e assim sucessivamente. Um eterno retorno da mudança. Ela é uma dialética negativa.

Contudo, a modernidade não é redutível à novidade (الحداثة لا تختصر في مستجدَّاتِها), esta última não é senão a convulsão crônica (تَشَنُّجات مُزمِنة). Suas múltiplas rupturas convulsivas serão comparáveis às ondas que a modernidade mantém e cavalga para nunca se afogar, em uma fuga para frente, o mais longe possível da sombra do passado (فرارا من جَزَعِ الماضي). Mas não muito longe, o novo tem necessidade do antigo para a ele se opor. Ela é assim uma função negativa em relação ao passado. Particularmente ao passado "imediato", sendo ela o ultrapassamento permanente. A modernidade é o que transborda os modernos que, enquanto contemporâneos, "não param de correr atrás dela"[1].


Citamos o exemplo filmado (clica aqui) do jornalista Daniel Schneidermann diante do célebre personagem não-binário. Neste diálogo incomum, o único "moderno" sobre o tablado foi o "personagem não-binário" na medida em que ele incarna neste instante a vanguarda da modernidade em movimento. Enquanto isso, Schneidermann, ele se crendo "moderno", vendo-se tendido à fase precedente (feminismo, homossexualidade, ...) doravante no ultrapassamento da modernidade, se torna reacionário.

Dito de modo mais simples: a "modernidade" é um desejo e uma dinâmica permanente de ultrapassamento do passado. O mais longe em relação a que ela julga arcaico ou retrógrado e que é uma questão de desconstruir para se libertar. Então, o mais recente, sabendo-se "mais recente" é o produto mesmo da modernidade. Mas como ela segue de novo para mais longe nas rupturas, pois é esta sua natureza, ela se põe a considerar isto que ela engendrou no passado como um passado a ser desconstruído.


- A modernidade como função negativa do passado:

Ela não existe senão como um "contra", um negativo de sua anterioridade mais recente. Não pode haver, como aponta Fabrice Hadjadj [2], "tradição da modernidade", e é esta sua fragilidade intrínseca (الحداثة تفتقر إلى أصالة. و هنا يكمن ضعفها و هشاشتها). Isso que aponta Rosenberg em sua obra "a tradição do novo" nestes termos: "no século XX a única tradição vital cuja crítica pode se reclamar é esta do rejeito de toda tradição" [3]. Pois a tradição precisa de um ancoradouro (مرسى) e um enraizamento (تَجَدُّر),, permitindo uma transmissão de sentido (tradição, do latim, "traditio", do verbo "tradere", ação de transmitir). Mas a modernidade não produz sentido, ela é intrinsecamente um desvio de sentido (انحراف معنوي و دلالي). Dito de outro modo, uma "anomia [4] permanente, لامعيارية و انحلال مستدام " e sempre renovada. Ela é por consequência uma dinâmica anti-predicativa graduada por saltos qualitativos (نَزْلَةٌ نوعية).

الحداثة حَرَكِية يترتَّب عنها تفكيك و نزع تدريجي للحجاب المعنوي الذي يغلف الأشياء، الظواهر و الكائنات.


Sua suposição (نشأتها و صعودها) se faz por regressão gradual (تراجع تدريجي) através de ersatz (بدائل زائفة)
da sua anterioridade. Dito de outro modo, cada vez que a modernidade desconstrói um predicado ou
um sentido, ela propõe em seguida uma alternativa semântica (بديل معنوي و دلالي) qualitativamente
inferior, para retomar de novo e desconstruir um outro predicado, e assim por diante,...
O Ocidente cristão passou, em questão de alguns séculos, de uma concepção "teísta" de
Deus (ألوهية و ربوبية) como criador de todas as coisas e que interfere nos assuntos 
humanos (revelações, milagres, graça, teofanias,...) a um ateísmo absoluto (إلحاد مطلق).
Isto não aconteceu de um golpe. A emergência, em um primeiro momento, de uma
concepção "deísta" de Deus (ربوبية مع إنكار صفة الألوهية) (um Deus arquiteto do mundo,
mas que não interfere nos assuntos humanos: o Deus dos filósofos) no contexto de
uma modernidade não mais realizada permitiu que se qualificasse as relações
religiosas com o divino de superstições (خرافات) a se combater. Da mesma forma,
seguindo em paralelo, a emergência de uma concepção panteísta de Deus (Deus é natureza,
natureza é Deus: imanência absoluta de Espinoza) (الواحدية / وحدة الوجود / الله هو الكَون),
vem terminar de desconstruir a ideia de um Deus pessoal, moral e criador do mundo.
O século XX será aquele do ateísmo, da negação absoluta da existência de Deus.
Será da mesma forma o século da crise do mundo moderno, a crise do "sentido":
"Deus está morto! Deus permanece morto! E nós o matamos! Como nós nos consolamos,
nós assassinos entre os assassinos? Disto que o mundo possuía até então de mais santo e
de mais poderoso, nossas facas esvaziaram o sangue -- quem nos lavará deste sangue?
Com que água poderemos nos purificar? Quais cerimônias expiatórias, quais performances
sacras teremos de inventar? A grandeza deste ato não é grande demais para nós? Não
nos é necessário tornarmo-nos deuses para somente parecermos dignos dele?"
Nietzsche, Gaia a Ciência.
As quatro fases da degradação semântica por saltos qualitativos da ideia de "Deus":
1. Tradição: Concepção teísta de Deus.
2. Modernidade (fase I): Concepção deísta de Deus.
3. Modernidade (fase I): Concepção panteísta de Deus.
4. Modernidade (fase II): Deus não existe.

Nós passamos gradualmente de um Deus onisciente e onipotente a um Deus que não existe. Entre os deuses, a cada etapa, a cada salto qualitativo, o conceito é progressivamente esvaziado de sua substância semântica (محتواه المعنوي) até a sua negação.

E acontece da mesma forma para uma multiplicidade de conceitos como o do "Estado", que é passado de uma concepção monárquica tradicional incarnada por um Rei, o "Pontifex" condecorado por Deus, a um Estado-nação dessacralizado, para terminar, por sua vez, de ser diluído progressivamente na marcha pela mediação do conceito moderno de "governança".

1. Tradição: Monarquia tradicional e sagrada.
2. Modernidade (fase I): Estado moderno secularizado.
3. Modernidade (fase II): governança e diluição do Estado.
4. Modernidade (fase III): tirania do mercado/ o Estado não existe.


- A modernidade como tendência descendente do conteúdo semântico:

Dito de outro modo, a modernidade se alimenta e vampiriza sua anterioridade em termos de sentidos, de conceitos e de ideias. Ela a esvazia gradualmente de sua substância ao representá-la de maneira recomposta e de uma forma diminuída (ersatz) como novidade.

São seus "Conatus" [5], seus movimentos mais profundos. É por isso que ela é um desvio de sentido através de um processo em que o conteúdo semântico (المضمون و المحتوى المعنوي و الدلالي) marginal é sempre decrescente. Pode-se falar a priori de uma "tendência descendente do conteúdo semântico" (الميل إلى الانخفاض للبعد المعنوي و الدلالي للمفاهيم) com o "terminus": o niilismo (العدمية) pós-moderno. Não podendo produzir um conteúdo positivo, a modernidade se desdobra "se retorcendo sobre si mesma, segundo uma série de posturas e imposturas, de pantomimas e de mímicas indefinidamente propostas" [6].

No entanto, na fase extensiva (في مرحلتها التوسعية), a modernidade se inscreve em um impulso com uma aparência emancipatória (دفعة تحريرية في الظاهر) e com um vitalismo que será absurdo de negar. Sua ontogênese (نشأتها) toma historicamente a forma de rupturas revolucionárias se pretendendo emancipatórias com uma tradição em putrefação (في تعفن) (revolução científica: Copérnico, Galileu/ Política: 1789,.../ artística: quattrocento/ religiosas: a reforma, o anti-clericalismo,...). A glória do surgimento primeiro da modernidade procede, na verdade, do prestígio do objeto ultrapassado: da tradição, mesmo que morredoura.

« استمدت الحداثة مجدها الأولي من عظمت الشيء المتجاوز، ألا و هو الأصالة حتى و إن كانت في مرحلتها المنحطة آنذاك ».

Mas quanto mais a modernidade se distancia desse passado prestigioso, mais o ultrapassamento
proposto perde seu conteúdo revolucionário, e parece mais e mais brando, desprovido de interesse
maior.
Isto explica em parte a apatia (اللامبالاة) e a astenia (الوهن) da modernidade terminal em que
predomina sua fase intensiva, ou depois de ter liquidado os resíduos de sua
anterioridade (ما قبلها), a modernidade começa uma fase de autofagia (الالتهام الذاتي)
epistemológica e semântica: desconstrução do Estado moderno (الدولة المعاصرة)
pelo conceito de governança (الحكامة), da ciência pela epistemologia (Karl Popper,...),
da ideologia pelo mercado, do sujeito individual pelo sujeito rizomático, da nação
pelas minorias (sexuais, raciais, culturais,...), du real pelo virtual,...
  • [1] Henri Meschonnic, « Modernité Modernité ».
  • [2] F. Hadjadj, « Puisque tout est en voie de destruction ».
  • [3] Rosenberg « la tradition du nouveau ».
  • [4] Emile Durkheim
  • [5] Dans « L’éthique » de Spinoza, le « Conatus » est défini comme« la tendance/effort » que déploie un « mode / un étant » en vue de persévérer dans son être.
  • [6] Henri Meschonnic

sábado, 12 de janeiro de 2019

Do Ciro Gomes e do Brasil de Bolsonaro

Poster de grupos trabalhistas em Porto Alegre


por Álvaro Hauschild

Em 22 de abril de 2018 saiu um artigo meu no blog Portal Legionário[1] a respeito das eleições brasileiras, no qual eu faço um breve e panorâmico balanço das necessidades da nossa pátria e concluo com um caloroso apoio ao candidato Ciro Gomes, que em outubro ficou em terceiro lugar e, assim, ficou de fora do segundo turno.

Em 2018, aconteceu o que é de tradição no Brasil: o PT tira o trabalhismo (ou alguma outra opção mais interessante) do segundo turno e condena toda uma pátria aos ditames do choque liberal, seja sem o PT, seja com o PT. Aconteceu em 1989 com Brizola (PDT), em 1994 com Enéas (PRONA), em 1998 com Ciro Gomes (PPS) e agora de novo, em 2018, com o Ciro Gomes (PDT). Além disso, o PT monopolizou os debates desde os anos 90 até o ano passado 2018, determinando uma ideologia de cunho liberal para um bloco “de esquerda” que acabou por sufocar o verdadeiro populismo trabalhista, por exemplo em 2002, de novo com Ciro Gomes, que sequer chegou em terceiro lugar no ranking final.

No meu artigo, eu enalteço a necessidade que o Brasil tem de um braço forte, viril, masculino, para conter o grau de liberalização pátrio que acabou por erodir nossas bases civilizacionais, o que inclui economia, mas também história, moralidade, religiosidade, educação etc. Infelizmente, Ciro Gomes, que vinha fazendo uma campanha muito interessante, depois de anunciado o isolamento que o PT projeta contra ele através de bloco de partidos e alianças em geral, se entregou à mais absurda estratégia que foi a de apoiar os movimentos de esquerda como “Ele Não” e o das “Mulheres contra Bolsonaro”, na esperança de tomar do PT o eleitorado da juventude esquerdóide e burguesa. O resultado foi o mais óbvio: Ciro não apenas não ganhou o eleitorado da esquerda como até mesmo maculou gravemente sua imagem a toda uma pátria que não queria mais saber do PT no governo.

Além disso, ao invés de levantar o braço forte e usar da simbologia nacionalista para defender sua candidatura, Ciro escolheu baixar o tom e fazer a figura de “menino comportado” para agradar os mais sensíveis esquerdistas e, ao mesmo tempo, não dar margem para a falação na mídia sobre sua suposta “truculência”. Errou feio! Ciro Gomes, no alto de sua torre de marfim acadêmica, “ilustrada”, não foi capaz de perceber os elementos emocionais que estão em jogo na política e que constituem a natureza humana. Preferiu fazer cálculos quando era hora da espada e acabou sendo esgrimado.

Assim, Ciro Gomes comete dois erros terríveis no xadrez das eleições, um de diplomacia e outro de simbolismo. Ambos os erros estão enraizados na crença moderna de que política se faz com a razão abstrata, quando, ao menos na política, ela é apenas coadjuvante de um torvelinho de emoções e necessidades básicas concretas imediatas. Mais do que isso, a política tem seu caráter religioso, e envolve símbolos que inspiram e interconectam as mentes humanas, a respeito dos hábitos, dos costumes culturais, dos papeis e das funções públicas, e isso tudo requer uma abordagem do político para que ele se torne o símbolo da pátria que nele vota. Em nenhum desses aspectos Ciro Gomes demonstrou maestria no manejo, muito embora ele seja um grande conhecedor do Brasil como um todo.

Ao invés de um pai para o povo, capaz de guiar e de formar, sua imagem foi a de um simples amigo com bons conselhos. Ao invés de um braço forte que demonstrasse força para conter a loucura generalizada no país, fez de si mesmo um homem carinhoso e passivo à linguagem branda que lhe impõem através das mídias. Ao invés de se tornar um símbolo da pátria, vestiu o caráter de um teórico cosmopolita capacitado para consertar o maquinário público.

Ciro é um grande homem, um grande político, um grande exemplo de pessoa e de administrador público. Mas faltou-lhe esgrima e muito possivelmente alguma inspiração, algum ideal, alguma intuição que faça perceber a religião e a política como uma coisa só, um só fenômeno. A cisão entre religião e política, moderna e iluminista, é um erro do qual só os ilustrados não se aperceberam ainda.

A pátria não é só um conjunto de elementos e fatores isolados que se juntam para formar uma sociedade. A pátria é um fenômeno holístico e deve ser visto, experimentado enquanto tal. As funções do chefe de Estado não diferem daquelas de um líder religioso ou de um pai; o elemento sacro e o elemento paterno, masculino, são essenciais – e foi assim que surgiram as civilizações: homens, inspirados por um ideal e envoltos em misticismo, arrastaram massas para um propósito transcendente, para o sacrifício voluntário do ego.

Desse modo, embora um sujeito como Bolsonaro seja completamente inepto, rodeado por pessoas ineptas, ele, com sua simploriedade de levantar a bandeira do Brasil e arrumar barraco com a Rede Globo, foi capaz de passar na frente e vencer muito folgado as eleições. E nisso foi assessorado por Olavo de Carvalho, que segue a mesma estratégia enganosa de se vender ao brasileiro como patriota, mestre e gênio da moral, quando na verdade não passa de um sádico encrenqueiro sem conhecimento algum a respeito do que fala. O apoio do brasileiro a essas figuras demonstra duas coisas: 1) que, até um certo nível, o brasileiro “fascista” tem boas e saudáveis inclinações, uma vez que prefere, naturalmente, figuras que demonstrem representar a pátria de alguma forma, que falem sobre os problemas morais e religiosos causados pela esquerda e não fechem os olhos para os perigos da mídia e da classe “ilustrada” das academias. Mas, por outro lado, 2) isso também mostra que o brasileiro padece de uma doença espiritual bastante avançada e profunda, uma vez que a imagem de Bolsonaro e do Olavo, embora envoltas em belos símbolos, são extremamente levianas e grosseiras na sua expressão mais nítida e descarada; não perceber o vazio no discurso superficial contra a “corrupção” e contra o “comunismo” de ambos é sinal notório de cegueira extrema, de um ansiedade absurda para votar tão prontamente nas impressões mais imediatas e superficiais de um político, sem capacidade para perceber o mínimo de malícia e inépcia que seus olhares exprimem com clareza.

O resultado de um amontoado de ações, dentre eles a astúcia e o dinheiro dos liberais e os erros estratégicos do seu oponente Ciro Gomes (talvez estes erros não sejam apenas estratégicos, mas teóricos também, uma vez que ele acredita ainda no tal do Iluminismo e nos falsos ritos da democracia moderna, que seus oponentes facilmente deturpam e ultrapassam), causou mais uma vitória do liberalismo e a chegada de um novo choque liberal capaz de botar o Brasil, de fato e finalmente, no caos, na selvageria social, na desordem, na injustiça generalizada.

Aliando a força policial, jurídica e militar do país, Bolsonaro constrói sua muralha para que, atrás delas, lhe esteja permitido a aprovação de projetos absurdamente antipopulares como as privatizações em massa, a manutenção dos juros em alta, o corte de financiamento às instituições públicas e à assistência social, o perdão das dívidas milionárias ou bilionárias aos capitalistas, o sucateamento e a ideologização da educação (que já vinham acontecendo nos governos do PT, porém), a garantia da migração do direito brasileiro romano e positivo para o direito anglo-saxão consuetudinário, a garantia do monopólio da religião e da cultura para uma máfia evangélica e neopentecostal (é a versão cristã do ISIS e do wahabismo em geral) – e tudo isso sob o mando de George Soros através de seus dois principais agentes: Olavo de Carvalho, agitador de massas que mora nos EUA e teme vir ao Brasil e serem descobertas suas artimanhas (similares à empregada por Soros no golpe da Ucrânia durante e após o maydan, com agentes da CIA e empréstimos do FED americano para apoiar os grupos neonazistas, que serviram como bucha de canhão no campo de batalha defendendo o governo golpista), e Paulo Guedes, banqueiro e economista formado pelos “Chicago Boys”, promotores de ditaduras nas Américas como meio para impor medidas de choque liberais que país nenhum no mundo (muito menos os EUA e o UK!) engoliria de outro modo.

Enquanto a esquerda ainda chora pelo “machismo” do 38º presidente brasileiro, ele trata de apressar o pacote de medidas econômicas e jurídicas, cada vez mais absurdas, que visam desmontar o Estado brasileiro e fazer dele uma “Terra Média” onde os bancos e os latifúndios constroem seus mais novos impérios, com direito a usar das armas para defende-los contra os “invasores” famintos e sem teto. E assim os 65,5 milhões de brasileiros que nem trabalham nem procuram trabalho porque já desistiram [2] continua aumentando e tende a aumentar, com a falta de oportunidades, que cada vez mais carecem no setor público, por conta dos cortes do governo às instituições públicas, e também no privado, por causa do fechamento e da falência de incontáveis indústrias [3] e comércios [4] brasileiros que continuam a dar lugar à rapina das empresas escravagistas multinacionais que lucrarão com a demanda brasileira agora com o mínimo ou sem qualquer tipo de imposto e fiscalização.

Ciro Gomes tentou fazer o papel de bom moço, se comportou muito bem nas eleições e depois delas, e o que conseguiu em troca disso? Levou de presente os distúrbios e os massacres que as facções dos presídios, enraizadas em SP, disseminaram no Ceará e nos estados vizinhos. Assim, o Ceará teve que pedir ajuda do governo federal, simbólica e concretamente dobrar-se à força e autoridade do novo governo. Isso foi uma mensagem que a politicagem de SP e RJ preparou para aqueles que representam uma ameaça para o tratamento de choque do capitalismo feroz. Os liberais capitalistas falam de direitos individuais e de discurso pacífico, mas por trás do belo discurso eles usam de nada menos do que forças concretas, políticas, morais e físicas, para levar seus projetos adiante, custe o que custar, e sem poupar outros indivíduos que não eles próprios; porque os direitos, como o de propriedade e de auto-preservação, são só para eles, e não para os indivíduos do povo [5].

Diante desses “dois pesos e duas medidas” e da relativização do discurso da paz, esvaziada de seu sentido, que atitude se espera de um político trabalhista, populista, que preza pelas vidas do seu povo e pela sua própria? Convencimento, argumentos? Diante dessa atitude de vida e morte, em que não há para onde fugir, em um beco sem saída, o que cabe à caça fazer diante do caçador que se prepara, engatilhando a arma? E o caçador é um conjunto de seitas e mafiosos enraizados no poder econômico internacional, a saber os bancos e os “investidores”; e no caso do Brasil, seus principais agentes são Paulo Guedes e Olavo de Carvalho, que são os verdadeiros 38ºs presidentes do Brasil.

NOTAS

[1] “Eleições 2018 e a Questão Brasil” https://portal-legionario.blogspot.com/2018/04/eleicoes-2018-e-questao-brasil.html (12/01/2019)

[2] https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/09/28/desemprego-fica-em-121-em-agosto-e-atinge-127-milhoes-de-pessoas-diz-ibge.ghtml (12/01/2019)

[3] Em três anos, mais de 13 mil indústrias fecham: https://g1.globo.com/economia/noticia/em-tres-anos-138-mil-industrias-foram-fechadas-no-brasil-aponta-ibge.ghtml (12/01/2019)

[4] A pesquisa é de 2014-5, mas o problema persiste: http://cnc.org.br/imprensa/releases/economia/crise-provoca-fechamento-recorde-nas-lojas-do-varejo (12/01/2019)

[5] O leitor deve lembrar também que Bolsonaro se opõe claramente aos Direitos Humanos. O que pode parecer, à primeira vista, uma recusa consciente do internacionalismo e do globalismo ocidentais (como é o caso da crítica de Alain de Benoist a respeito dos Direitos Humanos) pode ser, na verdade, um rompimento com todo compromisso de respeito para com as vidas humanas do seu próprio país e daquelas de outros países que sofrem com suas intervenções, como é o caso da Venezuela. Desse modo, Bolsonaro avança em um discurso intervencionista e antipopolar muito mais radical e desumano que os Estados Unidos, que ainda se esforça por fazer com que suas intervenções na Líbia, na Síria, no Iraque, no Líbano etc., sejam apenas por questões humanitárias.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Alexandr Dugin: "Síria é importante para acabar com a hegemonia ocidental de destruição de países árabes"

Alexandr Dugin (nascido em Moscou, 7 de janeiro de 1962) é um dos grandes ideólogos da Rússia contemporânea. Analista político, filósofo político e historiador de religiões com estreitas conexões com o Kremlin e os militares. É um homem vinculado à alta política há anos sendo, além disso, o grande ideólogo da Quarta Teoria Política, do Neo-eurasianismo, com uma grande e crescente influência e autoridade entre o povo russo, dentro do Kremlin e, cada vez mais, fora da Rússia. Teve a graça de conceder uma entrevista para a Oltracultura.com.(Tradução: Álvaro Hauschild)
1- Quais foram os desafios internos que Rússia teve que operar, particularmente desde a chegada de Vladimir Putin ao poder depois da década dos anos noventa (a década Yeltsin) na qual a Rússia teve uma brutal crise econômica, viu-se nas mãos de oligarquias ou de países estrangeiros (Estados Unidos enviava grandes quantidades de dinheiro para a Rússia), viu-se com um gravíssimo problema na Chechênia e com grande descrédito internacional. Quais foram os desafios que Putin teve que superar e como se chegou a essa situação tão delicada e perigosa para a Rússia de aberto comprometimento com a grande superpotência internacional que são os Estados Unidos? Como a Rússia se recuperou nestes quinze anos de governo de Putin?
Dugin: Sim, este foi o momento mais difícil, mais dramático da história da Rússia atual. Quando Putin chegou ao poder, foi o momento de mudança total do curso, mas, paradoxalmente, Putin foi posto lá por Yeltsin, não veio de fora do sistema, era membro do grupo dos liberal-democratas de São Petersburgo, trabalhava com Anatoly Sobchak, que era figura simbólica do liberalismo ocidentalista demagógico russo, dos piores; interessante que Putin chegou ao poder não como a alternativa a Yeltsin, mas como o representante de seu sistema, de seu grupo. Desde os anos noventa, [este grupo] era chamado "a família" de Yeltsin, não no sentido de sua família real, natural, mas no sentido da gente, dos oligarcas que sustentavam Yeltsin.
O liberalismo, esta ocupação do país pelo Ocidente, precisamente porque nos anos noventa foi a ocupação... Gorbachov quis fazer um acordo com o Ocidente para deixar a Guerra Fria, mas Ocidente entendeu isto como uma capitulação da Rússia, e a resposta foi a expansão da OTAN, da pressão sobre a Rússia para acelerar seu término, seu fim. Brzezinski declarou abertamente que se deveria destruir totalmente a Rússia. Era a política geral do unipolarismo ocidental nos anos noventa. A elite que chegou ao poder, liberal-democrata, era uma elite pró-ocidentalista que ajudava o Ocidente com a destruição do país, eles venderam quase tudo, e Putin era um deles; é muito importante compreender, entender, o que se produziu no momento de sua chegada ao poder.
Era uma parte deste sistema. Este sistema rumava no sentido da destruição total do país, a posição era fraca, não se pôde opor em nada contra este caminho dos liberais, dos oligarcas, dos traidores, e Putin era parte deste grupo. Mas quando ele chegou ao poder, ele mudou tudo de supetão, completamente. Sendo o homem de Yeltsin desde seus primeiros passos no poder, Putin começou a seguir uma linha completamente oposta à linha de Yeltsin.
Yeltsin não pôde nem quis acabar com a guerra na Chechênia, o que ele quis era continuar colaborando com o Ocidente, e Putin transformou tudo isso imediatamente, com vontade e decisão acabou com a guerra na Chechênia, começou a reconstruir a Rússia, saindo do Fundo Monetário, dos preceitos do Banco Mundial, e começou a reafirmar, reconstruir a soberania nacional da Rússia. Nisso ele foi apoiado completamente pelo povo russo, totalmente; faltava a Putin o partido, a estrutura, a ideologia, a elite também lhe faltava; foi apenas posto pelos liberais, os oligarcas e Yeltsin mesmo, mas mudou tudo, era uma forma.
Não era a oposição que vencera as eleições; pelo contrário, era integrante do grupo de Yeltsin nos anos noventa que se revoltou, depois de chegar ao poder, contra tudo isso e, desde então, começa outra história para a Rússia. A história de Putin com o conservadorismo, a soberania nacional, o patriotismo, com o curso em geral, com a multipolaridade, com a integração do espaço pós-soviético no sistema eurasiático. Uma mudança completa e radical com respeito ao curso de Yeltsin. Putin era o oposto, mas há que compreender que Putin não mudou a elite; a elite é a mesma. É a elite liberal dos anos noventa que não pode se revelar abertamente contra Putin, mas conserva suas opiniões e ideias liberais. Putin não criou outra elite, não criou instituições para o apoio de seu decurso.
Por isso devemos considerá-lo um líder solitário, um Czar solitário, que tem o apoio do povo geral, mas da elite nas instituições não têm qualquer apoio nem mesmo estrutura, exceto talvez o exército, o círculo dos militares, do Estado profundo russo, mas no nível da elite não tem apoio.
2- Há um tema muito interessante, falando sobre os liberais na Rússia, como muitos desses oligarcas como, por exemplo, citando nomes, Abramovitch (que comprou o Chelsea, um time de futebol britânico), como Berezovsky; eles abandonam a Rússia e se refugiam no Reino Unido, assim como Ahmad Zakaev, que foi presidente da Chechênia quando foi independente e que obviamente fugiu da Rússia para o Reino Unido; e do Reino Unido quero falar porque há pouco, há apenas uma semana se difundiu uma notícia sobre uma operação do Estado profundo britânico na Europa, cuja função consistia, precisamente, em evitar através de diferentes lobbys na Europa continental (entre eles Espanha) que a influência russa fosse avançando. Por acaso estamos agora mesmo na Europa, evidenciando o caso da Ucrânia, sobre o qual falaremos depois, por acaso estamos assistindo a uma guerra entre um eixo que é o Reino Unido e os Estados Unidos, de um lado, e a Rússia por outro?
Dugin: Sim, você perguntou muitas coisas em uma só questão; para começar, falemos dos oligarcas. Putin não destruiu os oligarcas, ele apenas fez uma diferenciação, uma divisão entre os oligarcas. Uns aceitaram sua inclinação, como Abramovitch, os outros se revelaram contra Putin, como Berezovsky. Putin não é anti-oligarquista, sua política consiste na promoção dos oligarcas leais à sua inclinação, à ideia da soberania da Rússia; o reconhecimento dos valores conservadores soberanos lhes deixa viver. Os que se revelam contra esta inclinação, contra Putin e os valores que esta inclinação representa, saem do país, como Berezovsky.
Berezovsky foi assassinado, creio eu, pelos britânicos porque quis voltar à Rússia. Ele tinha saudades, pensava que tinha cometido o erro de se mostrar contra Putin, quis voltar e foi assassinado; ele tinha os contatos com os serviços secretos britânicos e americanos, e foi assassinado porque enviou uma carta a Putin com a explicação de sua saudade pela Rússia, com o reconhecimento de seus erros etc. etc., e foi assassinado por isso.
Sobre o Reino Unido agora. A Inglaterra sempre foi o inimigo geopolítico da Rússia, o ponto central do imperialismo anglosaxão, e esta tradição continua. No Reino Unido, recentemente se publicaram documentos que mostram que Reino Unido quis apresentar a Rússia como agressora, apresentá-la também como influenciadora das eleições na Catalunha para destruir a Europa, apoiando os elementos extremistas. Tudo era mentira, tudo era completamente falso e foi organizado com fakenews e propaganda pelos britânicos.
Não creio que as relações com os Estados Unidos sejam muito diferentes das relações com o Reino Unido, porque, apesar de certa simpatia entre Trump e Putin, Trump não pode sair dos limites do atlantismo e da elite americana. A elite norte-americana não deixa Trump se aproximar de Putin e ele entende isto perfeitamente, por isso [Putin] busca o apoio mais a oriente, na China, no Irã, na Turquia e outros países orientais e com alguns representantes conservadores alternativos antiglobalistas europeus de esquerda ou direita. Por isso, apesar de que Putin não faz grandes coisas para o apoio do movimento alternativo no Ocidente, creio que este movimento de esquerda e de direita vê em Putin precisamente este símbolo da luta contra a globalização, o globalismo, contra a hegemonia das elites liberais mundiais que destroem não apenas o mundo asiático, africano ou latino-americano, mas também a própria Europa.
A Europa começa pouco a pouco a se revelar, como os gilets jaunes na França atual. Putin, como o defensor da ordem multipolar, é o inimigo geopolítico do globalismo e da hegemonia americana, e representa um símbolo nesta luta. Os britânicos estão em pânico precisamente porque a autoridade de Putin cresce no mundo e na Europa. A Europa quer um líder como Putin, forte, popular, que defenda a sociedade e que luta contra os que querem debilitar as sociedades. Creio que hoje Putin seja o líder mais popular em toda a Europa; apesar das pretensões dos liberais e dos oligarcas europeus que querem demonizar Putin, ele não é um demônio, é um líder muito querido na Rússia precisamente porque representa o povo, não tanto as elites, mas o povo.
3- Sobre isso eu quis falar. Durante muitos anos na Europa os líderes se encontraram distanciados dos diferentes povos da Europa porque se encontram ao serviço de organizações internacionais, em muitos casos dentro desta ordem mundial também imposta pelo liberalismo estadunidense, falo de presidentes que seguiam diretamente as diretrizes do Banco Central Europeu, do FMI etc...o domínio dos Estados Unidos sobre a União Europeia e, agora, o fato de que Reino Unido saiu da União Europeia também levou a que os países da União Europeia se encontrem sob controle dos Estados Unidos, evita boas relações de dependência entre Rússia e a União Europeia a nível financeiro, a nível econômico, enquanto Europa necessita de recursos naturais que Rússia possui, e Rússia precisa do financiamento que a Europa tem. Essa ruptura, completamente artificial, é devido ao liberalismo vindo dos Estados Unidos, o atlantismo. Qual é a opção que a ideologia, o movimento Eurasiático, que você tem desenvolvido em seus textos para salvar estas relações entre União Europeia e Rússia, oferece?
Dugin: Sim, estou de acordo que Rússia e Europa têm todos seus interesses regionais comuns ao serem aliados, porque a Rússia contemporânea não tem mais ideologia radical comunista ou socialista, não é mais imperialista ou colonialista como nos tempos passados. A Rússia contemporânea é bastante fraca para representar perigo para a Europa.
Essa fraqueza é muito importante para compreender que Rússia não representa perigo, mas que representa a possibilidade positiva, os recursos, grande mercado para os produtos, investimentos, frandes recursos naturais para apoiar a economia europeia. Graças ao desenvolvimento das relações normais, naturais, entre a Europa contemporânea e a Rússia, que não representa mais este perigo para a Europa, lutam com esta elite liberal dos americanos, porque as elites europeias lutam contra os interesses regionais de seus povos, são não tanto antirussos, mas sobretudo antipopulares e antieuropeus estas elites, são traidores dos interesses regionais dos europeus, e por isso querem trazer mais e mais imigrantes para destruir esta classe média europeia e destruir as sociedades tradicionais e democráticas europeias, querem destruir a Europa essas elites, os governantes atuais da Europa não são europeus, não são representantes dos povos.
Macron, Merkel e todos os demais. Creio que com líderes com responsabilidade, que defendam os interesses da Europa, seria necessário um pacto comum com a Rússia, desenvolver as relações. Contra isso estão mobilizadas as forças antieuropeias e antirussas. Querem mostrar a Rússia como o perigo, como o poder autoritário e totalitário, e creio que o problema com a Ucrânia foi criado artificialmente, precisamente para destruir essa imagem (positiva da Rússia) e provocar a guerra civil dentro da Rússia. Nós somos o povo eslavo, cristão, eslavos orientais. Creio que os líderes europeus que apoiaram o Maydan, este golpe de Estado dos ultranacionalistas, ultraliberais ucranianos contra Rússia, quiseram precisamente destruir completamente as relações entre Rússia e Europa.
Sobre a ideologia, a Rússia atualmente não tem qualquer ideologia, não tem ideologia comunista, nacionalista ou liberal. O Eurasianismo, sobretudo a Quarta Teoria Política, está se desenvolvendo como a teoria política do Estado profundo ou da corrente nacional patriótica independente da Rússia contemporânea, porque no nível das elites a Rússia está na situação de confusão com muitos aspectos do liberalismo dos anos noventa, os restos do comunismo e socialismo, e não está organizada intelectualmente, mas o grupo dos patriotas desenvolveram esta ideia do eurasianismo. A teoria do mundo multipolar, a Quarta Teoria Política, fora do liberalismo, fora do comunismo e do fascismo.
(A Quarta Teoria Política) propõe superar estas teorias do mundo moderno para unir a pré-modernidade com a pós-modernidade, a fim de criar uma crítica radical da modernidade ocidentalista. A Europa precisa desta nova ideologia para sair da modernidade política, no interior da qual o liberalismo mostra sua essência niilista, sua essência suicida; porque o liberalismo, depois de vencer o comunismo e o fascismo, mostrou a essência da própria modernidade na Europa moderna, que representa, como disse Heidegger, o niilismo puro, total.
O liberalismo hoje se mostra como a ideologia totalitária que impõe os princípios da correção política como a forma necessária junto com a política de gênero ou a imigração, que não correspondem em nada aos interesses dos europeus normais, concretos. Contra esta ideologia liberal há que lutar, mas sem cair no comunismo ou no fascismo, que são duas formas superadas desta visão antiliberal. Precisamos de uma forma mais atualizada e totalmente diferente, totalmente fora do comunismo e do fascismo, porque ambos são, também, produtos da modernidade, da Europa moderna e do niilismo que operam com os sujeitos artificiais de classe, nação ou raça, que são artificialmente compostos na mesma medida em que o conceito de indivíduo, que é o conceito central do liberalismo.
Não existe, na verdade, indivíduo nem raça nem classe. Tudo isso são abstrações; existe homo, existe o Dasein heideggeriano, existe a existência pensante, a presença pensante como Heidegger dizia. Precisamos construir a Quarta Teoria Política, baseando-a nesta instância nova e ao mesmo tempo eterna.
4- Sobre esta Quarta Teoria Política, e na verdade que foi muito interessante sua resposta, eu gostaria de lhe perguntar: quais seriam as respostas desta Quarta Teoria Política para os problemas que transcorrem agora mesmo na Europa ocidental, por exemplo, respostas do Eurasianismo frente à problemática migratória que está acontecendo agora na Europa, frente aos movimentos homossexuais e feministas histriônicos que estamos encontrando desproporcionalmente belicosos, frente à questão econômica; falo de salários muito baixos, vida muito cara que cada vez mais está destruindo a classe média que, em muitos casos, se perdeu -- qual seria a resposta para estes problemas citadinos concretos que seriam resolvidos pelo Eurasianismo na Europa ou na América Latina?
Dugin: sim, para começar em ordem, primeiramente deve-se compreender que o problema é o liberalismo, o liberalismo é o mal absoluto. Todos os problemas que afetam hoje as sociedades ocidentais provêm diretamente da ideologia liberal, que traz os imigrantes, que destrói a classe média pela política liberal, que faz com que os ricos se tornem mais e mais ricos enquanto os pobres se tornem mais e mais pobres, sem pensar na justiça social, porque o liberalismo leva ideologicamente, dogmaticamente, a ideia da justiça social. Quando não há mais justiça social. Não se deve estranhar que quando aceitamos os liberais de esquerda e direita, a ambos, votamos para que não haja justiça social.
Deve-se entender que a política de gênero também é consequência direta do liberalismo, porque o liberalismo é a ideologia que insiste que devemos liberar o homem, o ser humano, de todos os vínculos com a identidade coletiva. A identidade coletiva da igreja, da nação, mas também a identidade coletiva do sexo, porque o sexo também é coletivo, identidade coletiva. Os homens e as mulheres são tais como são enquanto coletivos, não individualmente. A política de gênero é a política liberal; em breve, o último passo será o de que ser humano também é uma opção, assim como hoje é a respeito do gênero, da nação, da religião. Isso é liberalismo.
Temos o mesmo a respeito dos imigrantes; são indivíduos iguais aos demais, não há qualquer diferença entre os imigrantes europeus tradicionais, aos olhos dos liberais, porque não existe qualquer identidade coletiva (neles). Esta é a ideia dos Direitos Humanos, que é uma forma de ideologia que destrói o ser humano. É uma ideologia totalitária a dos Direitos Humanos, porque insiste sobre a identificação entre os direitos dos cidadãos e a dos não-cidadãos. Desta maneira, os liberais destroem os Estados, as nações e as identidades, destroem os povos.
O povo começa a compreender que se trata de uma forma de política completamente destrutiva e começa a se revoltar, mas não pode encontrar a ideologia correspondente para explicar e dar um apoio a esta revolução, porque a ideologia de direita, o fascismo, perdeu sua luta historicamente e é muito fácil demonizar os que estão a favor do Estado fascista e acabar com eles; a mesma coisa ocorre com os comunistas, socialistas tradicionais, uns são traidores e aceitaram ser liberais como muitas da esquerda tradicional, e os outros são marginalizados como os stalinistas etc. etc.
A esquerda anticapitalista e a direita conservadora perderam a possibilidade de estarem presentes na estrutura política, e não podemos, nem devemos, salvá-los. A Quarta Teoria Política propõe lutar contra o liberalismo sem se apoiar no fascismo ou no comunismo. Como salvar a situação? Por exemplo, deve-se mudar o poder na Europa, deve-se mudar as elites que estão contra o povo, para que o poder seja tomado por um governo popular, como na Itália.
A Itália é um exemplo. Se a elite não quer sair, deve-se organizar os protestos e as revoluções como na França hoje, com os gilets jaunes, mas é muito importante que a exemplo do êxito ocorrido na Itália, a revolução popular dos gilets jaunes na França não seja nem de direita nem de esquerda. O governo italiano está criado com os populistas de direita e os populistas de esquerda, a fim de criar o populismo integral; os gilets jaunes também não são de esquerda ou de direita, são os representantes do povo. A Quarta Teoria Política quer dar o apoio ideológico, a doutrina ideológica, para que o povo se revolte contra as elites; tudo deve ser mudado, todo este dogmatismo liberal, em todos os aspectos, na economia, na política cultural, na política de gênero, mas não deve ser o retorno para trás, e sim o passo em direção ao futuro.
Podemos imaginar a vida depois do liberalismo, depois dos liberais, depois do fim do dogmatismo e do totalitarismo contemporâneo. Podemos encontrar respostas fáceis para salvar a situação, porque a raiz do problema está precisamente no liberalismo. O liberalismo deve ser aniquilado completamente, os liberais não porque não são responsáveis. Precisamos lutar contra a ideologia, contra a ideia, mais que contra a pessoa; não deve ser brutal, deve ser a mudança ideológica e política acima de tudo, e só depois podemos salvar o problema de quem deve governar, não as identidades dos políticos, dos grupos ou partidos, mas as ideias. Precisamos começar com as ideias e mudar o idealismo.
Somente depois poderemos salvar os problemas, quando os liberais deixarem de estar em seus cargos; enquanto nada puder ser mudado, nada absolutamente, este sistema não tem a possibilidade de evolução. Insistirá sobre seus princípios, imigração ilimitada, política de gênero mais extremista, o enriquecimento dos mais ricos até o momento último da catástrofe; esta elite catastrófica leva a Europa ao abismo; para salvar a Europa desta situação devemos destruir o liberalismo, não os ideais, mas a ideologia e a dogmática.
Com isso, também, devemos entender que as raízes desta situação está na modernidade política europeia, o modernismo; a modernidade que destruiu os vínculos com a tradição, o sagrado, a identidade profunda europeia era o começo do fim.
5 De fato, temos visto, durante um tempo, tentativas por parte de diferentes organizações internacionais vinculadas a serviços secretos ocidentais de introduzir esta ideologia na Rússia com a mão das famosas Pussy Riot, por um lado, FEMEN por outro. De fato, FEMEN foi um dos elementos desestabilizadores nos protestos contra Viktor Yanukovitch. Em chave geopolítica, como poderíamos ler a situação na Ucrânia, a ruptura da Ucrânia, a aparição do Estado da Novorrússia, por um lado, e, por outro, a reintegração da Crimeia ao território da Federação Russa, as relações diplomáticas e de inteligência entre Rússia e Europa, isto é, entre Quarta Teoria Política e liberalismo?
Dugin: Na Rússia, os que se opõem a Putin diretamente, como o Pussy Riot ou outros, não representam o perigo, não são perigosos, são muito pouco conhecidos e sua importância é exagerada demais no Ocidente, são nada. Pussy Riot não representa coisa alguma. Neste sentido, nós chamamos isto de quinta coluna e não representa perigo; um perigo maior representa a sexta coluna, que são os liberais que estão em torno de Putin e que não compartilham de seus princípios, seu conservadorismo ou a ideia da soberania. Eles calcularam que não é possível se voltar contra ele diretamente, sem Putin não é possível conservar sua posição, por conformismo são leais, porém são os representantes da rede ocidentalista-liberal pró-atlantista e representa mais perigo do que a quinta coluna.
A quinta coluna não representa tanto perigo, já a sexta sim é perigosa de verdade. Contudo, mais perigosa é a forma geopolítica. Por exemplo, o fato de que temos vencido a situação na Chechênia não apenas com armas, mas que propusemos aos chechenos uma lealdade à Rússia e, ao mesmo tempo, permitimos que conservassem e desenvolvessem sua própria identidade islâmica e étnica etc. etc.
Kadyrov é leal a Putin, não por sua servidão, mas, pelo contrário, pelo cálculo lógico de que Putin é a única possibilidade de assegurar a independência e a identidade dos chechenos, e porque o Ocidente nunca poderia assegurar o mesmo porque está contra a religião, a tradição, a etnicidade e a cultura tradicional. O Ocidente utiliza as minorias para destruir as grandes identidades, mas depois de destruir as grandes identidades, as grandes nações, acabará com as pequenas, após usar os pequenos nacionalismos contra os grandes nacionalismos. Os chechenos entenderam isto perfeitamente, são leais baseando-se no entendimento de seu futuro, porque são tradicionalistas, são muçulmanos, querem conservar sua identidade, e a Rússia, tradicional, eurasianista, permite esta possibilidade.
O que acontece na Ucrânia? Na Ucrânia, a situação é muito difícil, porque, depois do Maydan, começou a guerra civil entre os povos irmãos, que são dois ramos do mesmo povo dos eslavos orientais, pequenos russos e grandes russos. É catastrófica a tragédia organizada pelos ocidentais atlantistas e os elementos extremistas da Ucrânia ocidental; depois da reunificação com a Crimeia e a declaração de independência das repúblicas do Donbass, a situação é muito, muito difícil. Não é a vitória do eurasianismo, a Quarta Teoria Política, não, de modo algum; é uma tragédia, porque a maioria da Ucrânia permaneceu sob o controle da junta de Poroshenko, dos pró-ocidentalistas liberais e neonazistas ucranianos, e a maioria da população sofre esta pressão de Kiev.
Nós libertamos uma parte pequena da Ucrânia, mas seria muito melhor não libertar, e sim ter uma Ucrânia integral, inteira e unificada, porém neutra ou aliada da Rússia. Não obstante, depois do Maydan não era possível contar com sua neutralidade ou amizade, e era necessário realizar os passos que Putin fez, embora não fosse o ideal. Devo reconhecer que teve muitos erros por parte da própria Rússia, que não entendia a importância da Ucrânia e que não desenvolvera uma política efetiva para salvar a Ucrânia como um país neutro ou irmão. A situação de hoje não é boa para os dois povos, porque não corresponde à visão natural, nem é harmônica, porque a Ucrânia está separada internamente.
Estão os que aceitam a junta e os que estão contra a junta ucraniana, que hoje declarou o estado de emergência e a militarização plena em sua guerra contra a Rússia. Mas é uma provocação, porque Poroshenko perde suas posições e não há qualquer possibilidade de ser reeleito, por isso precisa de um estado de emergência para salvar sua posição política; mas, apesar disso, nada está de verdade decidido na Ucrânia, a situação catastrófica está congelada, mas não está, ainda resolvida.
6- O papel de Lukashenko foi muito interessante nas conversações entre Rússia e Ucrânia. Mas me chama muito a atenção uma coisa, e eu gostaria de perguntar sobre isso, e é o fato de que com Crimeia, a Rússia assegura uma posição de superioridade no Mar Negro, porém, realmente, também Sebastopol é o início de uma rota muito interessante que termina em Tartous, na Síria. Estaríamos dizendo que Sebastopol era necessário para assegurar o interesse russo tanto no Mar Negro quanto no no leste do Mediterrâneo, e para poder ter uma rota segura para a Síria, a fim de ajudar o presidente legítimo Bashar al Assad dentro da guerra que está lutando contra os mercenários e grupos terroristas pagos pelo Ocidente?
Dugin: Sim, acredito precisamente nisto, e que a Síria era necessária não apenas para assegurar os interesses estratégicos da Rússia, mas também para acabar com esta hegemonia ocidental de destruição de países árabes; era necessária para poder fim ao unipolarismo, porque os americanos destruíram Afeganistão, destruíram Iraque, sem quaisquer explicações, e depois interviram na Líbia e mataram o presidente Gaddafi, depois começaram a fazer o mesmo no Egito e na Síria.
Era necessário, era absolutamente necessário acabar com isso e demonstra que existem outras potências que não estão de acordo com estas maneiras de intervir onde bem entenderem, matando líderes, querendo impor sua visão vem perguntar as população, criando massas de refugiados, imigrantes, criando o caos, governar com o caos. Rússia interveio na Síria não tanto para assegurar seus interesses nacionais egoístas, mas para pôr fim ao caos organizado ou manipulado que os Estados Unidos e o Ocidente, os liberais globalistas usaram em toda parte com as revoluções coloridas, com as redes apoiadas pelo fanático, totalitário, maníaco, terrorista Soros, cuja organização Open Society é criminosa. Ele apoiou feitos ilegais e se trata de uma organização terrorista, sendo reconhecida em alguns países como organização terrorista, George Soros é mais perigoso que Bin Laden.
É o perigo à estabilidade dos países, à liberdade, à lei, e deve ser julgado. Deve ser preso e julgado por seus feitos, seu apoio ao terror e às mortes da gente, milhões de pessoas que são vítimas das revoluções organizadas com seu apoio, suas redes, seus grupos de influência e financiados por este grande capitalista, é um criminoso número um.
Isso acontece na história: se começas a lutar contra Hitler, pouco a pouco surge um Hitler em ti mesmo. Esta velha história da transformação do herói que luta contra o dragão e se converte ele mesmo em dragão. Soros é a demonstração desta forma de loucura, porque seu antifascismo e anticomunismo pouco a pouco se tornaram fascistas e comunistas, totalitário. Sua luta contra o totalitarismo é totalitária e se transformou na nova forma de totalitarismo. Por isso creio que nossa intervenção na Síria foi a intervenção contra esta forma de governo pelo caos imposta aos países árabes pelo Ocidente.
E era o caminho necessário para a afirmação da ordem multipolar das coisas, e Putin é a forma e a garantia não tanto para o presidente Assad, mas também para todos os povos árabes para elegerem. Podem optar pelos Estados Unidos, pela Rússia ou pela China, com isso obtêm a liberdade de escolha, creio que a Rússia se torna mais e mais o polo mais atraente, simpático quase a todos os grupos no mundo. Os árabes eu vejo, mais e mais, os representantes dos países muçulmanos que vêm para Moscou para encontrar com os representantes russos e estabelecer contatos conosco, e estão muito interessados na Quarta Teoria Política, no Eurasianismo e na Teoria do Mundo Multipolar.
7- De fato, isso explica as boas relações entre a Rússia e outro Estado do Oriente Médio, como o Irã. É mais para os muçulmanos em geral o exemplo da Chechênia como comentávamos há pouco, o respeito que se oferece desde Moscou em relação a Grozny, e como Ramzan Kadyrov responde a este respeito com uma lealdade total. Pois também está penetrando nos países islâmicos, porque, obviamente, a diplomacia russa é muito mais sofisticada, muito menos agressiva que a norte-americana ou liberal, mas, ao mesmo tempo, consegue muitas más coisas; ganha a adesão destes países e, para is terminando, gostaria de perguntar sobre George Soros e sua implicação nesta onde de imigrantes que atravessaram os balcãs desde a Turquia e chegaram no centro da Europa, falamos de entre um e dois milhões de pessoas. Como Soros instrumentalizou este problema dos refugiados e como ele e certos serviços de inteligência penetraram em países europeus e nos submeteram a seus planos de introdução destes refugiados que vêm de fora da União Europeia?
Dugin: Seria, a meu ver, um erro identificar gentes como George Soros como estando a favor do islã e que desejam desenvolver ou fortalecer a influência muçulmana na Europa. Soros é o inimigo jurado de todas as religiões e tradições, dos valores verticais transcendentes do cristianismo, do islã, mas também do judaísmo, porque Soros está muito mal visto em Israel também.
Soros é um fanático dogmático do liberalismo que quer destruir todas as identidades coletivas, todas. Precisamente o livro que é mais caro a Soros é o livro de Karl Popper, que Soros considera seu mestre, que se chama "A Sociedade Aberta e seus Inimigos"; os inimigos da sociedade aberta é a gente que tem religião, pátria, identidade, consciência de classe, nação, valores tradicionais. Todos são representantes para esta ideia do liberalismo radical extremista, eles são os inimigos.
Para destruir a Europa com os valores tradicionais e sua identidade, Soros quer, praticamente, organizar esta corrente de imigração artificial para destruir a identidade europeia, mas com os imigrantes, que representam outras sociedades tradicionais religiosas como islã e outras tradições. Os curdos tradicionalistas, e tenho visitado o Curdistão, são profundamente tradicionalistas, mas quando chegam na Europa, os curdos, afegãos, árabes, africanos, sírios, todos, todos perdem sua identidade e começam a se dissolver em sociedade pós-moderna, liberal, de gênero, perdem sua religião ou transformam esta religião na forma radical, na caricatura do islã.
Porque o islã, sem o ambiente cultural oriental, se transforma em uma caricatura, um simulacro. Precisamente esta é a ideia de Soros e suas redes, destruir ambas as identidades. Destruir a identidade da sociedade europeia com os imigrantes de identidades opostas ou diferentes, e assim também destruir a identidade dos povos tradicionais do Oriente, como muçulmanos principalmente, ou ainda africanos, com esta confusão na sociedade pós-moderna europeia. Depois de voltar da Europa para seus países, os imigrantes levam com eles também os aspectos desta pós-modernidade que destrói sua identidade. Soros quer destruir todas as sociedades tradicionais, todas as identidades coletivas, porque a identidade coletiva é o inimigo maior da sociedade aberta.
É seu fanatismo, mas Soros é muito forte que representa parte do governo mundial, sua força não é tanto seu dinheiro, mas seus princípios liberais. O liberalismo é uma ideologia criminosa, e Soros é um dos manipuladores, por detrás dele estão Rothschild, Rockefeller, os grandes monopólios globais, o governo mundial que em sua campanha eleitoral Trump declarou que esta era a coisa mais poderosa, maior que o presidente dos Estados Unidos. A organização é mais forte que os Estados Unidos, seu exército... sua estrutura é mundial, a seita dos globalistas, e Soros é um dentre os quais controlam toda a terra atualmente.
Por isso têm também relações com os serviços secretos, governos e chefes dos Estados que são seus escravos. Macron foi posto por Rothschild, Macron é um algoritmo. O homem é um servo, uma forma de ordenador, é virtual, criado por gente como Rothschild e Soros, por isso a maioria dos deputados europeus estão pagos por Soros, para promover a agenda de destruição das identidades coletivas, por isso é muito perigoso.
Os povos não são livres até o momento em que este governo mundial caia, precisamos lutar todos contra este governo em todos os países. Temos o governo italiano, temos na Hungria a Orban, temos Vladimir Putin com o apoio do povo russo, temos Irã, temos em novo curso Erdogan, temos a grande China que representa a potência, a segunda economia do mundo, que rechaça e nega esta hegemonia unipolar, este globalismo ocidental. Temos Trump, Bannon, temos a revolução da América profunda que se mostrou nas eleições de Trump, temos muito, mas não devemos subestimar sua força atual.
Os grupos do Soros são muito poderosos, podem influenciar os governos. Tenho esperança de que um dia na Espanha também apareça a frente populista comum entre a direita populista e a esquerda populista, mas precisará superar o antifascismo e o anticomunismo, porque servem aos liberais para dividir entre os populistas de direita e de esquerda, portanto em luta comum contra os liberais, os populistas podem ter vitória.
8- Para ir terminando, por exemplo, desde a frente liberal, desde a União Europeia, existe uma tendência de alarmar a população sobre o papel da Rússia, sobre a infiltração da Rússia na U.E., o papel da Rússia no movimento de extrema direita, movimentos de extrema esquerda, no nacionalismo catalão etc...., mas quando nos atemos aos fatos, vemos que o peso dos lobbys em Bruxelas recai sobre os Estados Unidos, apenas Rússia tem presença em Bruxelas ou Londres. Temos que ver, por exemplo, que a União Europeia está fagocitada pela CIA e pelo MI6. Ao mesmo tempo, qual é a maneira que a Rússia terá de aumentar sua presença na Europa Ocidental? por exemplo, temos o canal Russia Today, mas essa presença da Rússia aumentando na Europa Ocidental não pode fazer com que os liberais busquem uma guerra com a Rússia, que estão desejando-a, atendendo aos fatos que estamos vendo com a expansão da OTAN em direção a leste, a presença da OTAN na Estônia, Letônia e Lituânia e a situação na Ucrânia?
Dugin: Sim, é tradicional para os criminosos dizer que as vítimas são os criminosos eles mesmos, por isso os serviços secretos britânicos que se ocupam das fakenews, de acusar a Rússia de intervir nas eleições, apoiar os movimentos radicais. São eles que fazem estas coisas, que se ocupam da desinformação, da propaganda, das provocações etc. etc. isso é tradicional.
Eles querem fazer da Rússia o monstro ou o inimigo, dizendo que a Rússia quer dominar a Europa Oriental e Ocidental etc. etc., todos estes mitos existem para não mostrar diante dos olhos dos europeus o verdadeiro inimigo, que são os liberais. Querem mobilizar a consciência europeua contra a Rússia porque não representa qualquer perigo, não representa tampouco a salvação nem a alternativa, entretanto, o que é seguro é que a Rússia não representa perigo.
Se não representa o perigo, qual é o grande problema? Pois é o governo que é completamente incapaz de satisfazer os interesses dos povos, e Rússia não têm nada que ver com tudo isso, por isso creio que os europeus conscientes devem compreender que se trata de propaganda pura, mas não de propaganda russa, porque os russos não estão promovendo propaganda. Russia Today e outros meios dizem mais verdades, mas não se trata de propaganda. Não dizem que Rússia é o melhor de tudo ou que as ideias da Rússia devem ser aceitas pelos demais, nada que ver com a propaganda liberal, a propaganda comunista ou fascista.
A Rússia se defende com esses meios e também mostra outra versão, outra posição, não é propaganda. É muito neutro. Creio que importa compreender mais e mais uma coisa: o que de fato a Rússia pode ser -- não é amiga da Europa ainda, não é inimiga nem o perigo. O perigo maior são os liberais. Depois de entender isto, amar ou odiar a Rússia não importa nem para os russos nem para os europeus. A Rússia é uma civilização à parte, ao lado.
Pode provocar interesse, simpatia, amor, ou pode ser totalmente indiferente para os europeus, mas qual é a verdade concreta? que Rússia não representa perigo. Não quer e não pode invadir a Europa ou submeter a Europa Oriental, não temos tantos desejos ou capacidades. Não queremos e não podemos fazer isto. Não somos mais comunistas nem imperialistas, somos russos que queremos defender nossa identidade e nossa soberania nacional -- e isso é tudo.
Isso é mais importante, mas é verdade que, depois disso, o problema europeu se tornará totalmente diferente, o problema serão os liberais, o governo mundial da maneira que não corresponde aos interesses de seus próprios povos. Por isso creio que não são o problema os grupos extremistas. Os verdadeiros extremistas são a gente do Soros, são os liberais que organizam e utilizam, às vezes, estes grupos como utilizam o radicalismo islâmico, wahabismo, salafismo, fundamentalismo, muçulmano para chegar a seus próprios interesses e ter a razão de intervir em todos os países para desestabilizar a situação nas sociedades. Eles são os verdadeiros criminosos, a Rússia é o poder neutro que luta para sobreviver e pelo mundo multipolar -- não bipolar, mas multipolar, o que é muito importante.