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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Escritora best-seller italiana tem mensagem às mulheres

Constanza Miriano, autora de Case com Ele e Seja Submissa [Marry him and be submissive], discute com Register sobre seu livro e sobre o porquê de ter escrito.

Quando a mãe italiana de quatro filhos, Constanza Miriano, escreveu Case com Ele e Seja Submissa, ela não tinha ideia de que se tornaria tão popular, esperava que seria de interesse apenas da família e dos amigos. Mas o livro se tornou um best-seller na Itália e foi traduzido para muitas línguas.

Uma coleção de cartas endereçadas aos amigos de Miriano, em sua maioria mulheres, trata as diferenças entre homens e mulheres, união, casamento, vida familiar, abertura para a vida, ter crianças, educá-las, experiências sexuais como um presente de Deus.

"Essas cartas podem parecer engraçadas -- em algumas lojas de livros, meus livros são colocados na seção de humor --, mas o conteúdo é muito sério: é de fato o pensamento da Igreja", ela explica em seu site, acrescentando que o título do livro foi inspirado pela carta de São Paulo aos Efésios. "Mulheres deveriam tentar ser submissas, escreve Paulo. Eu penso que isso significa que elas deveriam ser abertas, carinhosas e pacientes. Esta não é uma atitude fraca, pelo contrário, enquanto mulher é forte e firme; bem-vindas e tranquilas, elas são capazes de criar boas relações com as pessoas. Mulheres que são profundamente conectadas com sua natureza são verdadeiramente felizes e podem dar luz a uma nova vida, seja biológica ou espiritualmente".

Nesta entrevistar, Miriano explica mais sobre seu livro, sobre como seu conteúdo pode servir como um antídoto contra o feminismo e de como os maridos e as esposas podem ter um relacionamento mais harmonioso, vivido na fé.

Por que você escreveu o livro?
Eu tive muitos amigas que não conseguiam arrumar coragem para casar com apenas um homem por toda sua vida, então foi mais por causa do meu desejo de ver minhas amigas tão felizes quanto eu. Mas eu não pensei que elas iriam ler. Pensei que só minha mãe, irmã e tia leriam. Nunca esperei tudo o que aconteceu desde então.
O título, e particularmente a palavra "submissa", é provocativo. Por que escolheu-a?
Eu não quis ser provocativa ao escolher esta palavra. Meu diretor espiritual costumava me contar que eu deveria tentar ser como Maria, como a Maria das Medalhas Milagrosas: ela tem suas mãos abertas e dá graças. Ele disse que eu deveria ter minhas abertas para receber o que eu estava recebendo de meu marido, mas minhas mãos deveriam estas abertas; eu não precisava checar primeiro se eram boas o suficiente. Eu apenas deveria receber sem olhar, com as mãos abertas.
Também como Maria, que com seus pés mata a serpente, eu devo matar minha língua -- porque eu não preciso sempre arrumar algum comentário, criticar meu marido. Então ele disse que desse modo eu seria uma boa esposa -- não que eu deveria ser submissa apenas por ser, mas porque eu deveria parar de ser tão crítica, tão intratável como eu era no início do casamento.

Você diria também que, em um nível espiritual, é como que morrer para alguém? Que tanto a mulher quanto o homem devem morrer para seus egoísmos com o fim de que o casamento funcione?
Sim, porque no nível cristão há um processo de morte, de conversão a Deus -- porque na mentalidade corrente, homens e mulheres apenas precisam ter um emprego, alimento, saúde e felicidade, e então eles são felizes. Mas nós não estamos "bem" -- estamos "doentes", feridos pelo pecado original, então mesmo que tudo esteja bem para nós, não estamos felizes. Há algo que não funciona dentro de nós, como uma paralisia no nosso sistema.
Assim, o casamento é uma das maneiras pelas quais esta paralisia pode ser curada. Nós estamos doentes, mas meu marido é minha via para o Cristo, e quando ele me faz sofrer -- bravo -- e eu penso que não posso me comportar como ele, este é o momento em que o "esculpir" acontece. Precisamos encontrar nossa beleza [através deste caminho]. Michelangelo disse que, ao retirar da escultura coisas que não necessitamos no mármore, encontramos a beleza ali dentro.

Você diria que seu livro é como um antídoto contra o feminismo, de muitas maneiras?
 Sim, porque penso que as feministas escolhem os caminhos diferentes para afirmar as mulheres, empoderar as mulheres, porque nós adotamos o modo masculino. Nós tentamos ser como os homens, mas nós não somos homens, então não precisamos de poder, força ou independência. Nós somos diferentes. Mas nós não somos felizes [por causa do feminismo]. Eu sei de muitas mulheres que têm poder, sucesso em suas carreiras, mas no fim do dia não são felizes, estão emocionalmente destruídas. Penso que no início o feminismo era algo como uma reivindicação: nós precisávamos ser olhadas por alguém mais, precisávamos dos olhos de alguém mais sobre nós, e quando implorávamos por isso, implorávamos por atenção, a alguém para nos dizer que somos lindas e amáveis. Então no início o feminismo era uma reivindicação sobre nossa aparência, e era como uma fonte, porque as mulheres queriam ser vistas. Mas então adotamos estratégias masculinas e perdemos nosso caminho -- porque nós chamamos o aborto de "direito", direito de matar nossas crianças, matar através da contracepção. Nós demos aos homens o direito de usar nossos corpos sem responsabilidade. Não é uma vitória. Perdemos.
Diz-se que o feminismo se tornou tão amplamente disseminado que também adentrou a Igreja. Como você vê isto?
Nosso Rei morreu na cruz, então até os homens devem ser cristãos desse modo, mas uma mulher deve ser duplamente deste modo porque é uma mulher -- foi feito uma morada [para a vida] no seu interior. Se precisamos definir uma mulher, a imagem mais apropriada é a de uma morada para outras pessoas. Uma mulher é um espaço vazio, e ela tem o poder de dar luz e, para tanto, fazer [do espaço vazio] uma morada dentro de si. Assim, uma mulher cristã, católica, que esquece sua missão perdeu tudo.
Você diria que todas as mulheres agora têm um sentido distorcido de independência, até mesmo entre as católicas, e que isso é consequência do feminismo? Se sim, como isto pode ser superado?
Penso que ser independente é uma ilusão, porque nós dependemos do nosso chefe no escritório, por exemplo. Dependemos de muitas coisas. Então trata-se de uma ilusão. Nós dependemos um do outro, e especialmente as mulheres dependem de outras pessoas. Eu conheço muitas mulheres que são chefes no trabalho e são interiormente muito fracas e frágeis. Nós podemos ser livres quando sabemos profundamente que somos amadas pelo outro.
G.K. Chesterton costumava dizer que as mulheres no passado estavam em casa, não para serem escravas, mas para estarem livres para seguir seus próprios interesses, porque nós não somos mono-automáticas como os homens. Temos muitos interesses em nossas vidas. Se você vê a agenda de uma mulher, ela tem amigas, seu marido, sua casa; ela toma cuidado de seu lar; ela quer encontrar com pessoas e também ter um emprego.

Mas o homem tem um emprego, e é isso. Não quero dizer que vocês [homens] não têm interesses, mas vocês conseguem dar um on/off. Quando vocês trabalham, apenas trabalham. Nós estamos sempre conectadas com nossas crianças -- nunca estamos longe deles, então sempre dependemos de alguém. E penso que é lindo depender de alguém. Não tenho problema em dizer que, quando me perguntam algo que não sei, eu chamo meu marido e pergunto, por exemplo, "o que você sabe sobre a guerra na Síria?". Porque isso é parte do mundo que eu não sei, preciso dele para explicar certas coisas. Penso que é lindo deixar essa parte com ele.

Os homens não devem ter um passe-livre, claro, cada marido tem a responsabilidade de ser comprometido com sua esposa e tomar cuidado dela. Quão importante é isto para a mulher, de modo que ela possa ser aquilo que supõe-se que ela é? Há tanta responsabilidade quanto da parte dos homens.
Sim, com certeza, mas o mais problema dos homens é o egoísmo. Eles não querem morrer [para o ego] em prol da família, eles querem ter uma parte de sua vida em separado, salvar algo [para si mesmos]. Então eles devem estar no caminho da conversão também. Mas eu apenas questiono as mulheres: o que podemos fazer para ajudar a relação? O que podemos fazer é aprender a observá-los com os olhos radiantes. Nós temos que ver os bons aspectos no homem; devemos ser como um espelho que dá a ele uma imagem bela de si mesmo. Nós temos que dar esta boa imagem. Quando um homem sente-se observado dessa maneira, ele quer morrer, dar sua vida. Se pararmos de criar intrigas, de criticar, de ficar dizendo "você não é digno de minha vida", eu ando vendo milagres.
Fiz muitas apresentações do livro na Itália e eu conheci talvez milhares de pessoas agora. E eu sempre conto a história de um casal vivendo nas montanhas: o marido, Gudbrando, um dia vai ao mercado no vale para vender uma de suas duas vacas, mas ele não consegue. Então começa a trocar a vaca por um cavalo, então o cavalo por um porco, o porco por uma ovelha, a ovelha por um pinto, o pinto por um pato e assim por diante. Finalmente, ele volta para casa sem coisa alguma porque ele sempre trocava o animal por um menor. Então ele volta para sua esposa, mas visita seu vizinho, que lhe diz que não gostaria de estar na sua pele, porque sua esposa ficará muito raivosa. Mas ele diz: "não, minha esposa está sempre contente pelo que eu faço".

Então o vizinho apostou algum dinheiro, e ele ouviu a conversa entre Gudbrando e sua esposa, de modo que pudesse checar e ver se a esposa realmente estava feliz com qualquer animal com o qual ele tivesse trocado. Ele disse que primeiro trocou a vaca por um cavalo, então ela ficou feliz porque ela teria agora um cavalo para ir à missa. É uma longa história, mas no fim a esposa diz: "não importa, Gudbrando, mesmo que você viesse sem coisa alguma, porque, para mim, não é importante o que você faz -- é importante que você volte para mim, que me ame, e assim tudo o que você faz está bom para os meus olhos".

Eu encontrei verdadeiras esposas de Gudbrando, o homem da montanha, ao redor da Itália, de Turim a Palermo, e elas enviaram-se emails. Dizem coisas como "estou no estágio de Gudbrando nº22, e meu marido me ama mais do que nunca porque ele viu isto nos meus olhos". Não é um truque; é o desejo real de ter uma aparência leal diante do marido. Você decide que quer ver todas as boas coisas que ele faz para você, e isto faz milagres na vida. Algumas vezes até os maridos me escrevem para agradecer.

Você também diria que tudo isso realmente vem através da fé, que a fé é central para um bom casamento?
Sim, porque o esposo real é o Senhor. Como dizia o papa São João Paulo II, há uma distância real entre o marido e a esposa que nunca será coberta, e esta distância é o espaço para Deus no par. E em uma relação viva e real com o real Esposo você pode amar o outro com um coração que não é exigente, que não fica fazendo reivindicações. Você está livre para amar porque é profundamente amada por alguém mais. Então diariamente a missa e a oração são a defesa da minha vida em casamento.
Você quer dizer algo mais para terminar?
 Eu apenas gostaria de dizer que eu espero que muitas esposas, como a de Gudbrando, possam se tornar como um exército ao redor do mundo para lutar pelo casamento, que está em perigo.




sábado, 5 de novembro de 2016

TSIDMZ: A Busca por Beleza, Majestade e Metafísica

por Mindaugas Peleckis

TSIDMZ significa THULESEHNSUCHT IN DER MASCHINENZEIT, isso quer dizer Sehnsucht (nostalgia) por Thule em um Tempo de Máquinas. Thule é um “espaço primordial”, provavelmente um lugar físico, mas indubitavelmente, um domínio metafísico. De acordo com a mitologia indo-europeia, os povos indo-europeus que outrora habitaram as terras da Eurásia eram descendentes de Thule, a última terra remanescente do continente Hiperbórea. De uma maneira muito breve e grosseira, podemos dizer que Thule é equivalente ao Éden bíblico. É o lugar da “perfeição” original, o lugar dos ancestrais e heróis que viveram próximos ao divino. A TSIDMZ expressa exatamente esse tipo de nostalgia de um ponto de vista pessimista, significando “ausência”, e também de um ponto de vista construtivo, significando uma nova realização. Portanto, essa nova realização deve ser alcançada em nossos tempos, “In Der Maschinenzeit”. Será possível realizar uma sociedade justa, sublime e “espiritual” na era pós-atômica? Será possível combinar a máquina com a Tradição? De acordo com a TSIDMZ uma possível resposta pode ser encontrada no Futurismo, a nível artístico e cultural, e no Socialismo, a nível político e social. Como consequência, música eletrônica e toda forma de arte “industrial” tornam-se imperativos. No que tange aos níveis social e político o Homem deve ser o mestre da máquina, e não mais um escravo ou vítima. Da mesma forma, a nível cultural o Novo Homem precisa se integrar com a máquina, que deve tornar-se parte de sua nova cultura com o objetivo de dar continuidade aos valores tradicionais com essa nova ferramenta. Como resultado, isso irá criar uma identificação artística e estética, que dará uma nova identidade apropriada ao Arbeiter, como Jünger o entendeu (o Arbeiter é o conceito de E.Jünger sobre o Novo Homem que combina técnica e visão ascética/metafísica). “A técnica é o meio pelo qual a figura do trabalhador mobiliza o mundo.” – E. Jünger. Como consequência, a TSIDMZ apreciou a ideia, o conceito e o tema eurasianos: equilíbrio social, superar todas as ideologias, uma weltanschauung metapolítica e metafísica para reconquistar a Eternidade na pós-modernidade. A TSIDMZ é parte da Associação de Artistas Eurasianos: https://www.facebook.com/EurasianArtistsAssociation. [Fonte: página da TSIDMZ no facebook]. Em minha opinião, a TSIDMZ é uma das melhores e mais interessantes bandas da atualidade: letras profundas, temas sérios, música dramática: é uma bomba que irá explodir sua mente se ela está sob o controle do Big Brother. A entrevista com o líder da banda, Tetsuo, também conhecido como Uomo D’Acciaio (ideias, música, atmosferas, amostras, distorções, efeitos) foi feita em 17 de Outubro de 2016.

Você trabalhou com uma pletora de artistas ao longo dos anos. Quais colaborações foram/são as mais interessantes e importantes pra você, e por quê?

Eu tive a chance de trabalhar com muitos artistas e amigos que eu sempre gostei e apreciei. Cada colaboração foi importante para o enriquecimento cultural e musical do som da TSIDMZ e teve uma origem e história excepcional.

Das primeiras colaborações com Lonsai Maikov, Rose Rovine e Amanti, Heiliges Licht, [distopia], Narog, etc. até as últimas com Gregorio Bardini, barbarossa Umtruk, Order Of Victory, L’Effet C’Est Moi, The Wyrm, Corazzata Valdemone, Gnomonclast, Strydwolf, Suveräna, Horologium, Porta Vittoria, Sonnenkind, Le Cose Bianche, Valerio Orlandini, Winterblood, the Serbian poet/writer Boris Nad etc, eu posso dizer com orgulho que a música sempre foi e é muito variada e em constante evolução e enriquecimento.

Você pode me dizer, resumidamente, quais são as principais ideias por detrás de sua música? Você poderia mencionar suas composições, álbuns e colaborações favoritos?

Por detrás da música da ThuleSehnsucht há a fascinação pela relação dos opostos, a descoberta do desconhecido e a busca pela beleza, majestade e metafísica.

Eu gosto de tudo que fiz ainda se em uma viagem hipotética ao passado eu quisesse melhorar ou mudar algumas coisas. Cada música, CD, compilação, trabalho avulso e colaboração possui uma história, origem, desenvolvimento e esforço único, então é difícil dizer o que eu prefiro. Tudo foi útil para o nosso crescimento.

Uma menção especial vai para Barbarossa Umtruk. Um artista francês muito prolífico, original e talentoso que eu amava antes de começar minha própria música. Ele encontrou uma alquimia de sons única e temas que me fascinaram muito e influenciaram profundamente minha abordagem pessoal à música e a alguns temas.

Por essa razão e em primeiro lugar pela amizade que estabelecemos de maneira espontânea, nós fizemos muitas músicas em colaboração e por isso ele é o único artista presente em toda a trilogia da TSIDMZ (Pax Deorum Hominumque, Ungern Von Sternberg Khan, René Guénon et la Tradition Primordiale) com duas músicas em cada álbum. Da mesma forma, eu tive a chance de estar em alguns de seus trabalhos: La Fosse De Babel, Der Talisman Des Rosenkreuzers: La Mission Secrete Du Baron Sebottendorf, Tagebuch eines Krieges (2005-2015).

O novo álbum está indo bem, mas não como os últimos três CD’s físicos. Ele é menos marcial e muito mais meditativo. Se Pax Deorum Hominumque, por exemplo, possui uma abordagem fácil, o álbum René Guénon et la Tradition Primordiale requer maior concentração e interesse sobre o assunto que eu trato em cada música. Uma boa maneira seria escutar o álbum acompanhando os textos (disponíveis através do Facebook e Bandcamp da TSIDMZ). E dali em diante minha esperança é que todos comecem uma pesquisa e um estudo de maneira profunda e pessoal, interessando-se pelos temas.

O som é mágico. Você provou isso. Porém, o que resta quando não há música?

Som é energia e Deus é pura energia (pensante) então talvez o som puro nunca irá acabar.

O que é e o que não é um som artístico?

Arte em geral deveria estar em primeiro lugar na promoção/educação da beleza, natureza e espiritualidade. As artes deveriam elevar a humanidade, deveriam proporcionar visões do todo e da eternidade e ao mesmo tempo deveriam exorcizar a realidade. Esses são os elementos menos presentes nas “artes” modernas.

Arte, nesse caso, arte musical, significa também trazer algo (em ideias, ou sons, ou em textos em um estilo específico de voz) do “mundo das ideias” platônico para esse mundo. Imitar outro artista, repetir o que já foi dito por outros e “copiar e colar” não é arte. É muito mais uma questão de ser bom ou ruim tecnicamente ou como banda cover.

O que você pensa sobre as relações entre a arte antiga e a arte de computador? Elas são compatíveis?

O computador, como toda coisa inanimada, é uma ferramenta. Uma arma não mata até que alguém a utilize para matar e o computador não mata a arte ou a música até que você o utilize para fazê-lo. Em toda coisa inanimada o que importa é qual o “espírito” que há por detrás dela. Com qual espírito, valor, princípio, visão de mundo e filosofia você utiliza o laptop, a arma, o carro, a família, música, sexo, matemática etc. Aqui se encontra a questão principal e a primeira de todas.

Ferramentas são só coisas inanimadas até que você decida como e quando usá-las. É claro que algumas ferramentas são mais perigosas que outras e requerem mais atenção e mais consciência, mas uma sociedade doente não deveria usar sequer uma colher. Tudo o que uma sociedade doente ou uma filosofia doente ou uma pessoa moralmente doente usa e faz estará errado. De maneira oposta, uma sociedade saudável ou uma pessoa saudável ou uma Weltanschauung saudável irão usar de uma maneira apropriada até mesmo o fogo. Para concluir, tudo pode ser feito (não por todos), mas depende como é feito.

O que você pensa a respeito dos milhares de projetos de bandas eletrônica, neofolk, industrial, ambient, tribal, eletroacústico, avant-guarde etc? É um tipo de tendência, ou uma inclinação em direção à músicas melhores?

Em todos os lugares e em todas as épocas da história sempre houve muitos artistas, músicos, instrumentistas e assim por diante. A única diferença é que agora com as tecnologias, internet, plataformas web e etc. é mais fácil divulgar a própria música e as performances. O que você escutava na taverna, na festa do vilarejo ou nas ruas, hoje pode ser escutado em casa através de um dispositivo, porque as tecnologias permitiram gravar o que uma vez só podia ser tocado e escutado em um evento público.

Agora nós podemos ter tudo imediatamente e a primeira consequência disso é a produção em série e desvalorização de tudo, a falta de entendimento profundo acerca do que escutamos.

O problema toca a questão da socialização e da qualidade.

Se outrora a música foi um agregador social e cultural, agora o homem pós-moderno pode isolar-se completamente de qualquer contexto social e pode escutar o que quiser no momento em que quiser (e na maioria das vezes, o que o sistema quer que você escute. É o zeitgeist! A solidão pós-moderna, consequência do extremo individualismo, a desintegração social e a falta de valores tradicionais e naturais controla mais e mais as nossas vidas. É claro que até no passado a música era tocada e escutada em solidão ou em situações muito privadas, mas o que era uma exceção ou apenas uma das muitas formas de se escutar música agora se tornou a norma.

Então nós chegamos na qualidade. O fato de que agora podemos gravar qualquer coisa que quisermos não significa que estamos indo em direção a uma música superior ou a coisas de maior qualidade. Quantidade raramente significa qualidade. Nós temos uma sobrecarga de álbuns que saturam a escuta. Muitos desses álbuns são só boas composições técnicas, repetição das estruturas habituais de grandes artistas históricos que são chamadas incorretamente de arte.

Imitação não é arte, é apreciável e legal, mas não é música ou arte superior. Ter uma atitude de “banda cover”, uma “atitude de DJ” ou possuir uma boa técnica no que tange à música não é suficiente para preencher a palavra arte. Um som original, textos originais ou músicas originais ou composições originais não são poucas, mas também não são propriedades de qualquer músico. Como eu disse, arte significa trazer algo do “Mundo das Ideias” para esse mundo; quantos dos ditos artistas fazem isso?

Então com a internet a qualidade definitivamente caiu. A internet deveria ser uma maneira de promover e começar para observar como a sua arte funciona; a pós-modernidade é um mundo líquido (dinheiro falso que não existe; o deus invisível chamado mercado que hoje governa tudo; a ideia de que tudo é permitido e não há certezas) e o mp3 sem graça e de baixa qualidade em uma plataforma web que hoje existe, mas amanhã talvez não, é outro elemento da decadente “sociedade líquida” em que vivemos. Não se tem certeza sobre nada, nada mais é qualitativo, tudo é massivo, quantitativo, plastificado, em série, sem nenhum entendimento profundo e mensurável unicamente através do dinheiro... e hoje nem o dinheiro possui um valor real; dinheiro líquido, sem ouro ou um papel correspondente, devido ao fato de que uma grande quantia de dinheiro é criada diariamente na virtualidade (com a consequente usura e especulação).

Concluindo, o primeiro passo urgente é retornar à natureza, nos tornarmos “muito humanos”, e libertarmo-nos desse mundo desumanizado e cada vez mais mecanizado. Referente às artes, um bom ponto de partida poderia ser recuperar o prazer de ler um livro físico ou escutar música em um vinil ou em um CD; na verdade, é impossível ter um controle total e uma compreensão completa de algo até que esse algo esteja somente na virtualidade ou em estado líquido.

Quando conseguirmos re-descobrir o valor de uma sociedade real-concreta que raciocina pelo bem comum, para a beleza física e metafísica e para as raízes das pessoas e identidades e não para os interesses do mercado, talvez será mais fácil iniciar um novo caminho em que a música também se incline ao melhor e em direção a ideias mais originais...

 O que mais inspira você?

Deus, beleza, majestade, eternidade, opostos, filosofia, metafísica, metapolítica, geopolítica, mitologia, religiões, tradições, identidades, pessoas, ideias e ideologias, história, arqueologia corrente e arqueologia oculta, futurismo, cinema, a relação homem-máquina, surrealismo, vida e morte, música industrial, clássica, folk, étnica, eletrônica e rock (metal).

No que você está trabalhando agora?

Está sendo planejado um novo álbum com um som novo, novas ideias e novos temas, mesmo que os anteriores ainda estejam sempre presentes de uma forma ou de outra. Além disso, o projeto está sempre ativo em suas colaborações, compilações temáticas e trabalhos separados.

O que o nome da sua banda significa para você? Que ideologia/religião/visão de mundo você segue?

Significa tudo que eu fui e ainda sou. Significa minha principal Weltanschauung. TSIDMZ é um acrônimo para ThuleSehnsucht in Der MaschinenZeit; isso quer dizer Sehnsucht (nostalgia) por Thule em Tempos de Máquinas. É uma frase que une a parte espiritual com a parte filosófica e a parte artística e musical da minha pessoa. Em poucas palavras, sou eu.

É uma frase que também foi influenciada profundamente por esta famosa frase de E. Jünger: “A técnica é o meio pelo qual a figura do trabalhador mobiliza o mundo.”.

“O Trabalhador” é o Novo Homem de E. Jünger, que combina a técnica moderna e visão ascética/metafísica; em um nível cultural esse Novo Homem precisa se integrar com a máquina, que se tornou parte de sua nova cultura, para que ele possa dar continuidade aos valores tradicionais com essa nova ferramenta.

Eu não me prendo a nenhuma definição. Nem na filosofia e nem na música. Para todo campo humano há muitos rótulos como se fossem marcas comerciais e muitas pessoas que não pensam, são monótonas, iguais em tudo (iguais de maneira inferior e não superior).

As pessoas estão cada vez mais cegas que nunca irão ver o quanto já está condicionado pelos contravalores pós-modernos e antinaturais e pela miríade de mentiras e pseudomitos modernos e pós-modernos em que vivemos. Pensar com seu próprio cérebro significa ser humilde para escutar, descobrir, ler, comparar e entender profundamente (e não com um punhado de frases encontradas nas mídias sociais) o que é totalmente oposto ao que a mídia e o presente sistema orwelliano mandaram você pensar até agora. Esse é só o primeiro ponto para começar a dizer: “Eu penso”.

A humanidade pós-moderna está no ápice da desumanização, no ápice do afastamento da natureza e da vida concreta e real.

Iluminismo, uma espécie de nova religião sem um deus transcendente (como todo materialismo, progressismo, evolucionismo, internacionalismo, ideologias de liberação, feminismo, veganismo e assim sucessivamente com todo o resto de “religiões” modernas construídas ao redor de falsas construções mentais e elementos singulares transformados em absolutos para toda realidade), realizou o primeiro passo para o afastamento de Deus (com o slogan/desculpa frequente de “oh como são ruins as religiões”... seria a bomba atômica ou todo o mal materialista e “laicista” dos últimos séculos uma consequência das religiões!?), e o último passo foi dado com a atual desconexão pós-moderna em relação à vida, à natureza, ao pensamento lógico e simplesmente de sermos humanos.

Em suma, nós podemos dizer que de um deus transcendente no centro do universo nós ganhamos o mercado no centro do universo.

A melhor solução é ter fortes princípios tradicionais e só então considerar qualquer tipo de música, qualquer filosofia e qualquer ideologia. Quando você possui princípios fortes, identitários, naturais, eternos e espirituais, quando você possui uma filosofia holística verdadeira (e não sectária como muitos modernos erroneamente chamam as “filosofias”/conhecimentos), quando você sabe que tudo possui uma origem divina ou espiritual (apenas leia Platão) e limites muito específicos impostos por princípios metafísicos (e portanto você é forçado a não fazer qualquer coisa permitida pela tecnologia ou humanos comuns) quando você entende que a matéria é limitada e o ilimitado (como é o mercado) é um contravalor antinatural, quando você entende que o bem comum é o valor mais alto em uma sociedade, quando você entende que primeiro existe a família e os povos com suas histórias/identidades próprias, únicas, específicas que precisam ser preservadas para que sobrevivam (esse sentimento deveria ser instintivo e padrão, e o fato de que a modernidade o destruiu em muitos povos, é outro sinal da completa desconexão com tudo que é natural e lógico), você também é capaz de compreender o melhor de cada situação e construir a sua “vontade de poder” / moralidade e talvez estar “além do bem e do mal”.

É claro que o mundo pós-moderno não ajuda de modo algum. O “pensamento fraco” e o pior relativismo dominam.

O Novo Homem, o “Übermensch” deve lidar com isso, é a última luta.

“Atualmente nós não estamos em guerra contra uma nação, contra um fenômeno, contra um partido ou uma ideia política, mas sim contra o surgimento de um novo e apavorante aeon, um aeon que irá varrer tradições, irá inverter valores, irá aniquilar e substituir a essência profunda, real e espiritual do ser humano com identidades falsas, baixas e demoníacas. Como consequência nós precisamos ser Futuristas: assistindo ao futuro e à técnica como uma continuação em relação ao passado e à tradição.”

TSIDMZ –ThuleSehnsucht In Der MaschinenZeit-


Obrigado

Tradução: Maurício Oltramari

sábado, 30 de julho de 2016

Huldufólk: crença islandesa em elfos

Elfos dançando sobre um lago no crepúsculo. O conceito nórdico de elfo era muito semelhante às Criaturas da Terra ou espíritos protetores da natureza.
August Malmström, 1866.
 
Religião na Islândia Medieval

Capa de um manuscrito da Prosa Edda,
mostrando Wotan, Heimdallr, Sleipnir e
outras figuras da mitologia nórdica.
Islândia foi estabelecida pelos Nórdicos no século IX. Quando os vikings chegaram da Escandinávia, eles trouxeram com eles sua língua, cultura e religião nórdicas. Devido à localização da Islândia, sendo isolada por uma boa distância da Europa, a religião Nórdica sobreviveu muito mais na Islândia do que em qualquer outro lugar. Mesmo depois da cristianização, o clima cultural na Islândia era de tal modo que os costumes antigos conseguiram sobreviver juntamente da nova religião.

Na verdade, foi um cristão quem relembrou os mitos nórdicos como os conhecemos hoje. Snorri Sturluson reescreveu a Prosa Edda, também chamada de Edda Juvenil, bem como as Sagas dos Reis Nórdicos no século XIII. Embora a Islândia tenha se tornado decididamente cristã muito antes dos tempos de Snorri, o povo não se afastou de suas raízes como aconteceu aos outros europeus.

Embora a Igreja Católica Romana tenha sido responsável pela (frequentemente forçada) conversão da Europa nórdica, o catolicismo, em muitos casos, permitiu que as práticas dos povoados regionais mantivessem seus costumes como se houvessem entes cristãos sendo ali venerados. O culto aos santos é um bom exemplo. As deidades locais eram frequentemente re-rotuladas como santos locais. Assim, os locais puderam continuar venerando-os. Quando a Renascença ganhou força, entretanto, os reformadores investiram contra os aspectos "pagãos" do catolicismo. Crenças populares, vistas como remanescentes do paganismo, foram pisadas com grande fervor. Embora houvessem caçadas às bruxas na Islândia, a população era removida o bastante dos acontecimentos da Europa ao ponto das crenças sobreviverem comparativamente intactas.

Entre as antigas crenças que se mantiveram estava uma forte conexão com o Landvaettir e Huldufólk - as "criaturas da terra" e o "povo oculto".
Parque Nacional Jökulsárgljúfu, Islândia. Foto: Karl Kerling.

A Paisagem Mística
Ilha de Lava no Lago Mývatn.
Foto: Andreas Tille

Enquanto o isolamento da Islândia pôde tê-los separado ao ponto de proteger sua cultura, pode ter havido outra razão pela qual o folclore antigo sobreviveu. A paisagem da Islândia é... bem, é difícil de resumir em uma palavra. A paisagem é drástica, poderosa, dramática, que inspira temor, e você ainda poderá dizer que é mágica.

Apesar do nome da Islândia (N.T.: Terra do Gelo), a terra é bastante fértil, com uma abundância de verde durante partes do ano. Sendo uma nação-ilha, o mar era (e é) uma fonte de renda e sustento. Assim, os laços com a terra e o mar permaneceram fortes.

Ainda mais aguda é a ostentação da Islândia de incomuns fenômenos geológicos. É uma das mais ativas regiões vulcânicas da Terra. A atividade geotermal tal como os geysers (gáiseres) e as fontes termais são também abundantes. O que torna essa região tão única é que os vulcões e as fontes termais estão justapostos com as formações de rocha nevada e com os glaciares.
Gígjökull, glaciar se desprendendo de Eyjafjallajökull, Islândia. Foto: Andreas Tille

Terra de Fogo e Gelo
Erupção vista em Þórolfsfell.
Foto: David Karna

Assim, o que a geologia única da Islândia tem que ver com a sobrevivência da mitologia nórdica? Bem, é quase como se a terra fosse um vivo mensageiro de certos mitos. Fogo e Gelo são uma grande parte do imaginário envolvido no mito de criação nórdico.

Mustpelheim é a terra do calor e do fogo. É são quente que nada pode sobreviver ali exceto criaturas indígenas, como os jötunn (gigantes) de fogo.

Niflheim, por sua vez, é o oposto. É um frio nebuloso, terra do gelo. Nove rios de gelo fluem através desta gélida realidade.

Entre estas duas terras está um grande vazio chamado Ginnungagap. E estava no vazio onde o fogo e o gelo se encontram, faiscando a criação dos Nove Mundos.
Pôr do sol no Goðafoss, Winter, Islândia. Foto: Andreas Tille

A Crença nos Elfos nos Nossos Dias
Casinhas de elfos perto de Strandakirkja,
sul da Islândia.
Foto: Christian Bickel

Uma grande minoria da população islandesa abertamente admite acreditar em elfos e outras Entidades Ocultas nos nossos dias. Estas crenças sobreviveram o máximo possível nas áreas rurais, onde fazendeiros podem ainda comunicar-se com as Criaturas da Terra. Entretanto, a crença é surpreendentemente prevalecente em áreas urbanas também. Muitas casas residenciais prestam homenagem aos elfos do jardim construindo casinhas para eles. Casinhas de elfos podem ser vistas pontilhando o país.

Embora apenas uma pequena porcentagem de pessoas admitirão acreditar neles, uma muito alta porcentagem da população ainda não negará sua existência. Muitas pessoas não abertamente dizem que os elfos são reais, mas ao mesmo tempo tomam precauções para evitar incomodá-los. É algo como que dizer que "os elfos provavelmente não existem, mas eu não quero de qualquer forma me precipitar, caso eles mesmo existam!".

Elfos Moram em Grandes Rochas
Álfaborg, castelo das criaturaspróximo a Borgarfjörður.
Foto: Schorle

Islandeses acreditam que elfos vivem dentro de pedregulhos e grandes formações rochosas. Se um pedregulho é conhecido por ser morada de um elfo, é considerado desrespeitoso escalá-lo ou se intrometer no local de qualquer modo. Má sorte pode cair sobre alguém que incomoda os elfos.

É interessante que mesmo que o número de pessoas que abertamente dirão "eu acredito em elfos" é uma minoria, o público ainda aconselhará a parar projetos de construção que passarão por cima de terra acreditada ser ocupada por elfos.

Estradas e construções de autoestradas foram abortadas e alteradas quando o público soube que as rochas dos elfos iriam ser demolidas.

As bases militares dos Estados Unidos na Islândia foram investigadas pelos locais por pôr em perigo o bem-estar dos elfos indígenas. Em 1982, 150 pessoas apareceram na base naval dos EUA clamando que as atividades militares dos EUA estavam pondo em perigo a vida dos elfos nativos.

Algumas vezes "portas de elfos" foram feitas de madeira e pintadas em colorido pelos locais para serem colocadas em frente a rochas conhecidas por serem povoadas por elfos. Isto serve como uma marca de identificação a fim de que os outros saibam não se intrometer nestas rochas.

Comunicação com os Elfos
Um garotinho fala com uma princesa elfo.
Ilustração: John Bauer

Os elfos islandeses se comunicam com os humanos de vários modos. Eles podem expressar insatisfação de modos que não são verbais, mas nunca menos descaradamente. Por exemplo, eles podem fazer rolar pedras e causar outros desastres naturais a fim de fazer conhecer que a atividade humana está os ameaçando e enraivecendo. Eles podem também causar doenças em humanos, destruição de colheitas e doenças em mantimentos.

Quando os elfos estão contentes, no entanto, eles podem abençoar um fazendeiro com uma abundante safra, ou agraciar sua região com climas agradáveis e mares calmos para a navegação.

Sonhos são outro modo de comunicação do elfo com os homens. Um construtor islandês registrou que estava planejando remover um pedregulho em seu projeto, e uma elfo que nele vivia veio a ele em sonho. Ela suplicou que ele deixasse sua família por um tempo até que recolhessem seus pertences a fim de encontrar alojamento temporário até que o pedregulho fosse realocado, momento em que eles poderiam voltar. O construtor estagnou a realocação do pedregulho por alguns dias, adiando a construção. Quando questionado por isso, o construtor recusou mudar os planos. Tratar os elfos com respeito era simplesmente a coisa certa a se fazer.

Elfos podem falar diretamente com os homens em ocasiões. A maioria das pessoas não são capazes de vê-los, mas indivíduos agraciados com habilidades psíquicas mediúnicas podem ser capazes de ver e se comunicar com os elfos.

Entretanto, se você andar por alguma vila islandesa, você possivelmente encontrará a dona de casa que diz que pode ver e falar com os elfos residentes no seu jardim.
 
via exemplore

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Os Saami: povo de pastores de renas do extremo Norte

Família Saami na Noruega em torno de 1900 (imagem de domínio público)
 
Quem são os Saami?

Os Saami, também falado Sami, são um povo indígena que viveram no extremo norte da Escandinávia por centenas, senão milhares de anos. Embora fossem vizinhos dos Antigos Nórdicos, eles eram um grupo étnico inteiramente distinto. Enquanto as línguas oficiais da Noruega, Suécia e Dinamarca são germânicas, a língua dos Saami pertencem à família fino-úgrica (juntamente com finlandeses, húngaros e outros). Assim, enquanto estão espalhados por estas nações (exceto Dinamarca) eles são uma cultura distinta e separada.

Discriminação Histórica
Os Saami ocupam Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia

A região tradicionalmente ocupada pelos Saami é conhecida como Sápmi. Ela é considerada uma "região cultural", mas não é uma nação.

Embora os Saami estejam espalhados por uma vasta extensão de terra, eles foram historicamente discriminados e não têm seu próprio estado-nação.

Como povos indígenas de outras terras, tais como os Nativos Norte Americanos por exemplo, foram submetidos a programas de assimilação, tentativas foram feitas para romper a cultura Saami e assimilar seu povo às culturas maiores dos países onde viveram.

Por causa dessas campanhas, elementos da cultura Saami começaram a morrer e entraram em perigo de desaparecerem para sempre. Esforços massivos para converter os Saami de sua religião nativa foram instituídos pelos luteranos durante os séculos XVIII e XIX. Muitas crianças Saami foram forçadas a falar norueguês ou sueco ao invés de sua própria língua.
Bandeira dos Saami e da "região cultural" Sápmi

Infelizmente, isto não era incomum durante as eras recentes. Há paralelos não apenas com os nativos da América do norte, mas isto também ocorreu com os falantes de língua celta na Irlanda, no País de Gales e outras áreas da Grã-Bretanha.

Assim como muitos outros grupos foram tratados como inferiores pela população dominante, os Saami foram frequentemente zombados e olhados por cima. Por muitos anos eles foram chamados de "Lapões" e sua morada conhecida por "Lapônia". Até hoje muitas pessoas não sabem que o termo "lapão" é ofensivo aos Saami. Aparentemente o termo se refere a trapos e implica que eles são um "povo que veste trapos". Hoje, o termo Saami ou Sami é preferido.

Os Saami e Suas Renas
"Pastor Laestadius instruindo os lapões" por François-Auguste Biard, 1840

Um homem e uma criança Saami, em Finnmark, Noruega, 1900
Dever-se-ia dizer que os Saami, como alguns outros povos, tiveram uma ampla variedade de ocupações. Pastoreio de renas é uma pela qual eles são mais conhecidos, mas isso não é tudo que os Saami fazem ou fizeram historicamente. Isso pode algumas vezes ser um ponto de contenção quando afirmações são feitas de que todos os Saami são pastores de rena. Dito isto, é verdade e justo dizer que o pastoreio de renas é um grande aspecto da cultura Saami por gerações.

Até os nossos dias, o pastoreio de renas é ainda praticado por muitos Saami. Os animais vivem uma vida semi-selvagem, gastando muito do seu tempo vagando para pastar em amplos espaços abertos do extremo norte. Os Saami dirigem as renas para casa em determinados momentos para contar e alimentar o gado.

As renas e o povo Saami viveram juntos em harmonia por centenas de anos. Os animais providenciam aos Saami comida, couro para roupas, e as galhadas eram usadas para fabricar ferramentas e outros utensílios domésticos.

Uma mulher sueca vestida em trajes tradicionais Saami com uma rena branca. Foto: Anthony Randell
Mas a conexão com as renas é mais antiga do que se pode datar. As renas constituem um significado espiritual e cultural simbólico para o povo Saami. Eles aparecem bastante em mitos, lendas e artes tradicionais.

Cartão postal vintage da "Lapônia".

Shamãs do Norte

Conforme dito acima, os Saami enfrentaram injúrias e perseguições durante séculos. Um elemento maior de sua cultura que foi atacado com grande vigor foi sua religião ancestral.
Cópia do tambor rúnico pertencente ao centenário Saami Anders Paulsen. Departamento Cultural do Museu em Olso, Noruega. O tambor rúnico foi confiscado pelas autoridades de Vadsø em 1691. Foto por Sandivas.

A espiritualidade indígena dos Saami é uma forma antiga de animismo. Central ao seu sistema de crença era a presença de shamãs. Estes shamãs são conhecidos por seus tambores do espírito fabricados à mão que eram usados para bater um transe induzindo um ritmo para uma jornada ao mundo do espírito. Os tambores dos shamãs eram feitos de couro animal, frequentemente pele de rena. Desenhado no tambor estaria um mapa que dirigia o shamã para os Outros-mundos.

Uma ilustração antiga de um shamã Saami tocando tambor em transe. Note que o artista interpreta a jornada do espírito do shamã como demoníaca.
Contrariamente à crença popular, punhados de povos europeus ainda não tinham sido cristianizados ao fim da Idade Média e até mesmo durante a Idade Moderna. Os Saami foram um destes grupos. A Europa do Norte foi por muito tempo considerada o último bastião do paganismo, e muitos livros ensinavam que os nórdicos vikings eram os últimos europeus a se converterem ao cristianismo. Isto é falso. Muitos outros povos mantiveram-se firmemente fiéis a suas religiões nativas por centenas de anos depois da conversão dos povos germânicos e nórdicos. Os bálticos são assim um exemplo, quando o grande reino da Lituânia se manteve antes de sucumbir aos invasores teutônicos. O povo de Mari El, que vivem profundamente adentro da Rússia, são outro grupo de pessoas que mantiveram-se fortemente agarrados aos costumes nativos.

Em torno do século XVIII e XIX, e até mesmo do XX, os Saami foram mirados por missionários luteranos para conversão e assimilação. Suas crenças espirituais ancestrais foram incompreendidas e rotuladas de demoníacas. Ao mesmo tempo que sua religião era dissolvida, os Saami foram desencorajados a falar as línguas nativas. Eles foram também subjugados à propriedade privada, e perderam muito de suas pastagens ao longo dos anos. Mesmo aos nossos dias os Saami lutam para reconquistar a terra na qual viveram e puseram seu gado para pastar por centenas de anos.

Renovação e Renascimento da Cultura
Homem Saami em vestes tradicionais. Foto: Norbert Kiss

Nos últimos anos houve uma renovação do orgulho popular entre os Saami. Eles usam recursos como a internet para conectar com outros Saami por longas distâncias e promovem caminhadas para promover seus interesses comuns. Eles deram vozes ao demandar os direitos e o respeito que eles merecem.

Assim como outros grupos na Europa e em outros lugares estão revivendo suas crenças ancestrais, alguns Saami estão revivendo sua própria religião indígena e reintroduzindo o shamã Saami.

Outros aspectos da cultura estão recebendo atenção também. Muitos artistas Saami estão trazendo sua música tradicional ao escopo internacional. Sua música tende a possuir insinuações do som de uma tribo ouvido em outras culturas indígenas ao redor do mundo, com um nível de influência folk escandinávia, mas um som que é distintamente Saami.

Há muitas culturas belas ao redor do mundo. Mas há algo de especialmente mágico nos Saami. Pode ser o simples mas profundamente significativo modo com o qual eles tradicionalmente existiram no esbranquiçado de neve extremo norte. Pode ser sua assombrosamente bela música folk, ou o contraste entre as vívidas cores de suas roupas tradicionais contra o branco limpo da neve. Este povo parece manter algo que muitos de nós há muito perdemos; uma profunda conexão com a natureza e com os animais com os quais eles compartilham sua morada.
 
 
 
via hubpages

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Trabalho, educação e cultura

por Alberto Buela

Trabalho

Costuma-se recomendar na filosofia, assim como fizeram entre outros Heidegger, Zubiri, Bollnow e nosso Wagner de Reyba, que a primeira aproximação (aproximación) ao objeto de estudo seja através de um aperfeiçoamento (acercamiento) etimológico. Porque, como afirma Heidegger: "a linguagem começa e termina ao fazermo-nos sinais da essência de uma coisa"[1]. Assim comprovamos que o trabalho provém do verbo latino tripaliare que por sua vez provém de tripalium=três varas (palos), que era um poste ou jugo feito com três varas onde se atavam os bois e também os escravos para açoitar. Vemos como o aperfeiçoamento etimológico ao termo trabalho nos revela sua vinculação ao sofrer, a qualquer atividade que produz dor no corpo. Daqui que o verbo tripaliare significa em latim atormentar, causar dor, torturar.

Esclarecido o termo passemos agora a sua descrição fenomenológica. O trabalho, que pode ser definido como a execução de tarefas que implicam um esforço físico ou mental para a produção de algum tipo de bens ou serviços para atender as necessidades dos homens, tem duas manifestações: como opus= obra e como labor=labor. Enquanto a obra expressa o produto ou bem objetivo que produz, assim como labor expressa o produto subjetivo que logra.

Sobre a obra não há discussão, a obra está aí, ao alcance da mão e da vista, no máximo se pode discutir se esta está bem ou mal feita. O assunto se complica no trabalho como labor, pois implica uma subjetividade, a do trabalhador. Pois no labor está implicado a expressão do próprio trabalhador. Até não muito [tempo atrás] se reservava o termo de "labores" a uma matéria nos colégios de senhoritas. Creio que a matéria se denominava "manualidades e labores", onde tecido (hilado), o bordado, o tecido (tejido) e a costura constituíam sua temática. É que o trabalho como labor implica a formação profunda do homem que trabalha. Não é necessário esclarecer que o termo homem compreende tanto a mulher quanto o varão, pois ambos formam parte do gênero homem. A língua alemã possui também dois termos para designar as manifestações do trabalho: Arbeit para obra e Bildung para labor. E este último tem o sentido de formação.

E aqui é onde encontramos nós a vinculação entre o trabalho e a escola: na busca não tanto da informação, de conhecimentos, mas na busca da formação do educando.

E a isto sobretudo ajuda o trabalho em uma época tão dessacralizada como a que hoje nos toca viver, pois o sagrado desapareceu de nossa consciência habitual. E a educação nos valores morais se tornou muito difícil, tendo em conta que o que o menino vê diariamente é corrupção, crimes, assassinatos, roubos, golpes, droga, desordem, anomia etc.

Assim o trabalho é o único meio que temos em mãos para criar virtude[2], pelo menos pela repetição de atos, de nos levantarmos todos os dias cedo ainda que não gostamos. De lavarmos o rosto e nos pentearmos. A cumprir um horário. De ter que escutar o companheiro de trabalho com suas diferenças e nos acostumarmos a conviver com o outro, ainda que mais não seja por oito ou seis horas diárias. O trabalho limita e faz moderar (morigera) o capricho subjetivo, de onde nascem todas nossas arbitrariedades e nossos males.

E como a virtude se funda na repetição habitual de atos bons, o trabalho nos permite o passo inicial à virtude, que é fazer as coisas bem, corretamente, evitando o dano ao outro e ao meio ambiente.

Em nosso país temos tido o privilégio de proclamar que existe uma só classe de homem: o que trabalha. Ou outro: governar é criar trabalho. Incluso a máxima obra teórico-política que com traços próprios e originais se realizou na Argentina durante o século XX foi a Constituição do Chaco de 1951, onde em seu preâmbulo afirma: Nós o povo trabalhador... e não como as Constituições de 1853, incluso a de 1949 e a atual 1994: Nós o povo... ao típico estilo liberal, filho dos jjuristas da Revolução Francesa.

É que em uma época não tão longínqua se sustentava e se proclamou aos quatro ventos o ideal da liberação pelo trabalho e através dele, a poupança (ahorro).

Hoje, pelo contrário, o não-trabalho e o subsídio vieram substituir o ideal da liberação pelo trabalho. Esperemos que não seja para sempre e possamos retomar tão louvável ideal.

Educação

Como fizemos com o termo trabalho, observamos que educação vem do latim ducere que significa guiar, conduzir. De modo que educar consiste em poder guiar conduzir o educando ao logro de sua formação de homem como tal.

Este ideal educativo nos chega dos gregos com sua famosa paideia, que significou a formação do homem de acordo com seu autêntico ser; o da humanitas romana do Varrón e Cicerón, de educar o homem de acordo com sua verdadeira forma humana; o do mundo cristão com sua ideia de exemplariedade em todos os tratados De Magistro dos pensadores medievais que têm Cristo como mestre dos mestres e o do mundo moderno com Johann Pestalozzi e seu método.

Todo este ideal educativo se plasmou em nosso país a partir da lei 1420 pela qual a educação primária tem como objetivo a eliminação do analfabetismo e a formação no menino dos valores morais. (Ensinam-se modos maneiras, costumes. Em uma palavra, ensinam-se hábitos práticos etc.) De igual maneira a educação média tem por objetivo fortalecer a consciência de pertença histórico-política à Nação a que se pertence. (Ensinam-se valores cidadãos e pátrios. Em uma palavra hábitos socio-políticos)

E finalmente a educação superior que tem por objetivo entregar um método de estudo sistemático e reconhecido, onde os logros dos níveis prévios podem se expressar e se detectem as carências. Todo este ideal educativo se questionou a partir do último quarto do século XX quando massivamente a escola deixou seus ideais de formação para se limitar, no melhor dos casos, a ser uma simples transmissora de conhecimentos.

A escola, e há que recordar mais uma vez, como seu nome indica é e deve ser antes que nada o lugar do ócio. O termo vem do latino schola, o que por sua vez vem do grego (scholé, N.A) que significa ócio. Antes que qualquer coisa, a escola é o lugar do ócio. Se se quer, o lugar onde não se faz nada. Nada de útil, nada que não tenha seu fim em si mesmo. Nada em vista de outra coisa que não seja a formação do próprio educando. O caráter de útil, a utilidade, vem depois da escola e é em geral uma preocupação dos pais. Uma vez que se determinou a escola se verá se seus ensinos são úteis. Mas a escola não é outra coisa que o lugar para aprender no ócio. É o desfrutar jogando na aprendizagem, uma aprendizagem que vale por si mesmo e não em vista de outra coisa. Este aprender é por nada. Tem um fim em si mesmo que é o acesso ao saber e à sabedoria.

Faz 2500 anos Platão na Carta VII nos legou um ensino perdurável de como nos aproximarmo-nos do saber e da sabedoria: primeiro através do nome, depois buscando a definição, em terceiro lugar a imagem representada para chegar por último ao conhecimento mesmo. E para que se entenda põe o exemplo do círculo. Em primeiro lugar temos um nome chamado círculo, depois buscamos a definição composta de nomes e predicados: aquele cujos extremos distam todos igual do centro. Em terceiro lugar a imagem como representação sensível, cópia imperfeita e não permanente exemplificada por círculos e rodas. Para chegar finalmente ao conhecimento mesmo, tudo o que "depois de uma longa convivência com o problema e depois de ter ganhado intimidade com ele, de repente, como a luz que salta da faísca, surge a verdade na alma[3].

Cultura

Cada vez que escutamos falar de cultura ou de gente culta, associamos a ideia com a gente que sabe muito, que tem títulos, que é lida, como diziam nossos pais, longe e há tempo. É por isso que fez fama, apesar de sua demonização política, a frase de Goebbels: Cada vez que me falam de cultura levo a mão ao meu revólver. Porque sintetiza melhor que nada, em um brevíssimo juízo, o rechaço do homem comum, do homem de classes mais baixas (pueblo llano), ao monopólio da cultura que desde a época do Iluminismo para cá possuem e exercem os ilustrados e suas academias.

Cultivo

Por outro lado, para nós cultura é o homem se manifestando. É tudo aquilo que ele faz sobre a natureza para que esta lhe outorgue o que de seu e espontaneamente não lhe dá. É por isso que o fundamento último do que é cultura, como seu nome indica, é o cultivo.

Cultura é tanto a obra do escultor sobre a pedra amorfa quanto a obra do torneiro sobre o ferro bruto ou como a da mãe sobre a manualidade do menino, quando lhe ensina tomar o talher.

Vemos de início não mais, como esta concepção é diametralmente oposta a essa noção livresca e acadêmica que mencionamos no começo.

O termo cultura provém do verbo latino colo/cultum que significa cultivar.

Para o pai dos poetas latinos, Virgílio, a cultura está vinculada no genis loci (o nascido da terra em um lugar determinado) e ele lhe outorgava três traços fundamentais: clima, solo e paisagem.

Caracterizado assim o genius loci de um povo, este podia compartilhar com outros o clima e a paisagem, mas não o solo. Assim como nós os argentinos compartilhamos o clima e a paisagem com nossos vizinhos, mas não compartilhamos o solo. E isso não apenas porque é que neste último se assenta o Estado-Nação, mas da perspectiva de Virgílio o solo é para ser cultivado pelo povo[,] sobre ele assenta para conservar sua própria vida e produzir sua própria cultura.

Enraizamento

Mas para que um cultivo frutifique, este deve deixar boas raízes, profundas e vigorosas que deem seiva ao plantado. Toda cultura genuína exige um enraizamento (arraigo) como o exige toda planta para crescer vigorosa e forte, e neste sentido recordemos aqui de simone Weil, a mais original filósofa do século XX, quando em seu livro L'Enracinement nos diz: o reconhecimento da humanidade do outro, este compromisso com o outro, só se faz efetivo se há "raízes", sentimento de coesão que enraiza as pessoas a uma comunidade"[4]. A filósofa deu um passo além, pois, passou do mero deixar raízes ao enraizamento que sempre indica uma pertença a uma comunidade em um lugar determinado. O enraizamento, diferente da terra natal que é o pedaço de terra natal, abarca a totalidade das referências à vida que nos são familiares e habituais. O enraizamento genuíno se expressa em um ethos nacional.
Fruto

Logo de ter arado, rastreado, semeado, regado e esperado o amadurecer, aparece o melhor que dá o solo: o fruto, que quando é acabado, quando está maduro, quer dizer perfeito, dizemos que o fruto expressa plenamente o labor e então nos gosta.
Sabor

E aqui aparece um desses paradoxos da linguagem que nos deixam pensando sobre o intrincado emparelhamento entre as palavras e as coisas Nós ainda usamos para expressar o gosto ou o prazer que nos produz um fruto ou uma comida uma velha expressão em castelhano: o fruto nos "sabe bem". E saber provém do latim sapio, e sapio significa sabor. De modo tal que podemos concluir que o homem culto não é aquele que sabe muitas coisas, senão o que saboreia as coisas da vida.

Sapiente

Existe para expressar este saber um termo que é o de sapiente, que nos indica, não só o homem sábio, mas aquele que une a si mesmo sabedoria mais experiência pelo conhecimento de suas raízes e sua pertença ao meio[5]. Os antigos gregos tinham uma palavra para expressar este conceito: (phrónesis)

Vemos, então, como a cultura não é algo externo, mas que é um fazer-se e um manifestar-se da coisa mesma (uno mismo). Por outro lado a cultura, para nós argentinos, tem que se americanizar, mas isto não se entende se se concebe a cultura como algo externo. Como uma simples imitação do que vem de fora, do estrangeiro.

Não há que esquecer que por detrás de toda cultura autêntica está sempre o solo. Que como dizia nosso mestre e amigo o filósofo Rodolfo Kusch: "Ele simboliza a margem de enraizamento que toda cultura deve ter. É por isso que se pertence a uma cultura e se recorre a ela nos momentos críticos para enraizar-se e sentir que está com uma parte de seu ser preso ao solo"[6].

Cultura e Dialética

É sabido desde Hegel para cá que o conceito é "o que existe fazendo-se", que para ele, encontra sua expressão acabada na dialética, que tem três momentos: o suprimir, o conservar e o superar. E não a vulgar expressão de tese, antítese e síntese a que não têm se acostumado os manuais. Temos visto até agora como a cultura põe fim, faz cessar a insondável completude (oquedad) da natureza primitiva com o cultivo, a pedra ou o campo bruto, por exemplo, e em um segundo momento conserva e retém para si o sabor e o saber de seus frutos, vgr.: as obras de arte. Falta ainda descrever o terceiro dos momentos desta Aufhebung ou dialética[7].

Se bem podemos, em uma versão sociológica, entender a cultura como o homem se manifestando, "a cultura, afirmamos em um velho trabalho, não é só a expressão do homem se manifestando, mas que também envolve a transformação do homem através de sua própria manifestação"[8].

O homem não só se expressa através de suas obras, mas que suas obras, finalmente, o transformam ele mesmo. Assim na medida em que passa o tempo o campesinato se mimetiza com seu meio, o obreiro com seu trabalho, o artista com sua obra.

Esta é a razão última, em nossa opinião, pela qual o trabalho deve ser expressão da pessoa humana, porque do contrário o trabalhador perde seu ser nas coisas. O trabalho devém trabalho alienado. E é por isso, por um problema eminentemente cultural, que os governos devem privilegiar e defender como primeira meta e objetivo: o trabalho digno.

Esta imbricação entre o homem e seus produtos onde em um primeiro momento aquele quita o que sobra da pedra dura ou o ferro amorfo para dar-lhe a forma preconcebida ou se se quer, para desocultar a forma, e, em um segundo momento se goza em seu produto, para, finalmente, ser transformado, ele mesmo, como consequência desse deleite, desse sabor que é, como vimos, um saber. Esse saber gozado, experimentado, é o que cria a cultura genuína.

Assim a sequência cultura, cultivo, enraizamento, fruto, sabor, sapiência e cultura descreve esse círculo hermenêutico da ideia de cultura.

Círculo que se alimenta dialeticamente neste fazer-se permanente que é a vida, onde compreendemos o mais evidente quando chegamos a conjecturar o mais profundo: que o ser é o que é, mais o que pode ser.

Resumindo, vimos como o trabalho gera virtude, pelo menos mundana ou não transcendente, que se relaciona com a educação enquanto ambas atividades buscam a formação do homem em seu ser, para que este possa plasmar em sua vida uma cultura genuína, isto é, vinculada a seu enraizamento.

NOTAS

[1] Heidegger, Martín: Poéticamente habita el hombre, Rosario, Ed. E.L.V., 1980, p. 20.-

[2] Outro grande iniciador laico, em algumas virtudes, é o esporte.

[3] Platão: Carta VII, 341 c4. Também em Banquete 210e 

[4] Weil, Simone: Echar Raíces, Barcelona, Trotta, 1996, p. 123.-

[5] Buela, Alberto: Traducción y comentario del Protréptico de Aristóteles, Bs.As., Ed. Cultura et labor, 1984, pp. 9 y 21. "Temos optado por traduzir phronimós por sapiente e phrónesis por sapiência, por dois motivos. Primeiro porque nossa menosprezada língua castelhana é a única das línguas modernas que, sem forçar, assim o permite. E, segundo, porque dado que a noção de phrónesis implica a identidade entre o conhecimento teórico e a conduta prática, o traduzi-la por "sabedoria" a seca, tal como se fez habitualmente, é mutilar parte da noção, tendo em conta que a sabedoria implica antes de nada um conhecimento teórico".

[6] Kusch, Rodolfo: Geocultura del hombre americano, Bs.As. Ed. F.G.C., 1976, p.74.

[7] Buela, Alberto: Hegel: Derecho, moral y Estado, Bs.As. Ed. Cultura et Labor- Depalma, 1985, p. 61 "Em uma sucinta aproximação podemos dizer que Hegel expressa o conceito de dialética através do termo alemão Aufhebung ou Aufheben sein, que significa tanto suprimir, conservar como superar. A palavra tem em alemão um duplo sentido: significa tanto a ideia de conservar, manter como ao mesmo tempo a de cessar, pôr fim. Claro está que estes dois sentidos implicam um terceiro que é o resultado da interação de ambos, que é o de superar ou elevar. Daí que a fórmula comum e escolástica para explicar a dialética é a de: negação da negação".

[8] Buela, Alberto: Aportes al pensamiento nacional, Bs.As., Ed. Cultura et labor, 1987, p.44.-