por Álvaro Hauschild*
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| Dinarte Silva, pescador e morador de São José do Norte/RS a sofrer com a exploração indevida das mineradoras, conforme notícia abaixo. |
Recentemente, saiu a notícia[1] sobre um
projeto de uma empresa mineradora privada (a Rio Grande Mineração S/A) em São
José do Norte, no Rio Grande do Sul. Nela se descreve uma tragédia que, embora
pouco conhecida, expressa um fato deveras corriqueiro não só no Brasil, mas em
toda a América Latina: uma empresa privada, com uma propaganda alegre e
convidativa, emotiva, busca justificar uma verdadeira extorsão das muitas
comunidades locais e da pátria Brasil, a fim de arrancar riquezas de valor
inestimável a preço de banana e comercializar no mercado internacional. A
empresa ainda, com um vídeo-aula muito bonito, tenta convencer de que não
haverá qualquer tipo de sequelas naturais e ecológicas na região.
Contrariando a narrativa da empresa, as
comunidades locais, compostas sobretudo de pescadores, agricultores e pequenos
comerciantes, desconfiam plenamente das promessas da empresa. E dizem mais: o
vídeo-aula não toca em assuntos relevantes, como é o caso do equilíbrio
aquífero subterrâneo, que certamente seria violado, causando uma tragédia
ecológica que seria impossível reverter. E como os moradores dependem deste
equilíbrio para suas atividades e suas necessidades básicas, o fato causaria a
fome generalizada em toda a área circundante. Ademais, promessas muito
semelhantes já haviam sido feitas por outras empresas que, além de não
cumpri-las, causou demais desgraças para toda a região. De modo que as
populações locais, tradicionais, se sentem intimidadas e abandonadas pelas
autoridades brasileiras, que nada fazem para reverter a expropriação.
A empresa ainda diz que sua atividade
trará progresso e desenvolvimento ao país, fazendo-o subir na balança
comercial, ao simplesmente exportar todo material bruto recolhido das minas.
Mas onde está a lógica nisso tudo? Uma empresa privada que vem, se instala,
extrai o material e o embarca em portos para o exterior tem como último
objetivo um benefício ao país de onde extraiu o minério. Além de não alimentar
a indústria do país, o material será vendido a preço de banana para que
indústrias no exterior aproveitem a deixa para crescer e se tornar ainda mais
poderosas– sem falar das desgraças que ficam nas entrelinhas, impossíveis de se
cobrar pelos meios jurídicos, como é o fato do equilíbrio aquífero omitido pela
empresa, mas cuja importância é absoluta.
Assim sendo, também essa promessa de que
ajudará na balança comercial é falsa. Estaremos vendendo ouro a preço de
banana.
Mas, dados os fatos, o que nossa classe
intelectual tem a fazer? Onde estão aqueles que vivem dando atenção ao MBL
quando precisamos resolver questões urgentes de maior importância? Nossas
comunidades locais estão sendo esquecidas e abandonadas, não apenas por
políticos, mas primeiramente por nossos intelectuais.
Um dos fatores-chave da atual crise
política, econômica, sociológica, psicológica, moral do Brasil está em uma
enorme tragédia ocorrida com nossa classe intelectual nas últimas décadas.
Trata-se de uma classe formada no exterior, em época de florescimento do neoliberalismo,
no pós-segunda-guerra. Todo tipo de pensamento cosmopolita, urbano,
desenraizado, multicultural e internacionalista inculcado nas cabecinhas
inocentes dos brasileiros desenvolveu um paradigma neoliberal em toda esta
classe, submissa aos ditames dos intelectuais estrangeiros ao invés de produzir
teorias com suas próprias mentes. E ela se alimentou disso como uma classe
trabalhadora, proletária, que apenas reproduz textos ao invés de criar ideias –
tornamo-nos prostitutas. E com esses projetos na vanguarda do pós-modernismo,
como é o caso do Black Lives Matter financiado por Soros, FEMEN etc., nossa
classe intelectual sai do armário e se afirma orgulhosamente como prostituta.
Com tanta coisa para se fazer, nossa
classe preocupada com viagens à Disney e ao Canadá! E assim o Brasil ficou sem
uma ciência própria, sem linhas de pesquisa genuinamente brasileiras. Em
decorrência disso, ficamos sem uma indústria brasileira, sem um projeto
agropecuário, de modo que as consequências mais óbvias são a estagnação da
máquina estatal, o aumento das dívidas, a dependência dos empréstimos, a
submissão militar e noológica. Enfim, depois de tantos anos, “O Brasil não
serve para mais nada”, a não ser para receber gringo nas praias e vender-lhes
nossas mulheres como prostitutas, abrir as pernas para quem quiser enfiar em
nosso país suas máquinas que sugarão petróleo, água potável e demais minérios,
riquezas biológicas para alimentar o mercado farmacêutico, etc.
Cultuando os ideais cosmopolitas e
pós-modernos, nossa classe intelectual fomentou o surgimento de uma classe
média imensa, de caráter burguês, economicista, neoliberal, corrupta,
esquecendo-se do povo no interior, das tradições locais. E hoje, essa classe
intelectual, em sua maioria de “esquerda”, embora seja “anti-burguês” na
palavra é burguês na alma, neoliberal também, individualista, que preza uma
meritocracia baseada na ideologia e não na qualidade da produção. Então quando
atacam o MBL, é tão somente para manter as atenções do público para fora da
realidade, que é o povo local e tradicional. Servem apenas como distrações,
mantendo o país em constante queda moral, em disputas irrelevantes em torno de
formas artísticas, quando precisamos de um poderoso projeto estrutural e
econômico, desenvolvimentista para salvar o país.
Nosso povo, isto é, os pescadores,
pequenos agricultores, quilombolas, tribos indígenas, sertanejos etc., foram
abandonados por aqueles que mais deveriam dar-lhes atenção devida, que é a
classe intelectual brasileira. Esta classe julga que as comunidades locais são
“atrasadas” e impedem o “progressismo”, mas onde está o projeto
desenvolvimentista destes progressistas? Querem “progredir” em quê, exatamente?
Pelo contrário, o conhecimento prático popular tem muito a colaborar e até
ensinar nossa classe intelectual, que deveria ser o cérebro do povo e ajuda-lo
a organizar seu conhecimento, ao invés de sabotá-lo. O povo é a alma do país,
mata-lo é matar o país, e matar o país é matar cada um de nós dentro dele.
Não há qualquer contradição entre
desenvolvimento científico e as tradições populares. Pelo contrário, ambas são
complementares. Pensemos na indústria brasileira, que depende da classe
intelectual: fortalecendo a soberania do país através da indústria, quem mais
se beneficiaria com ela senão o povo, que será amparado pelo desenvolvimento
tecnológico, mas também pela segurança militar e política? E quem mais se
beneficiará com o folclore e com a força do trabalho populares, que servem de
base psico-social e econômica de todo um país, senão a própria classe
intelectual, sem a qual viverá em um limbo negro e obscuro, instável e inseguro
como um mapa cartesiano, além de sujeita aos interesses científicos de empresas
privadas e internacionais?
Podemos comparar o estado do Brasil com o
da Rússia no século XIX, quando a classe intelectual russa, eurófila, traiu os
interesses populares, desenvolvendo uma instabilidade interna que gerou à
dissolução final na Revolução de 1917. Os anos seguintes, as décadas que
sucederam, se tornaram um verdadeiro inferno para várias gerações, que ainda
hoje sentem muito fortemente o trauma. Mas ainda no século XIX, escritores como
Dostoevsky estavam conscientes disso, alardeavam o perigo dessa desunião entre
a classe intelectual e o povo, prevendo desde muito cedo o que viria a ocorrer
apenas no final da segunda década do século XX.
O Brasil, embora com suas
particularidades, está em uma situação muito semelhante à Rússia do século XIX,
e poderia aprender com a história. Se nossa classe intelectual se unisse ao povo,
encontraria força o bastante para derrubar não só o governo corrupto, mas
também retomar tudo o que foi saqueado por “investidores” internacionais. O
povo é a força que move montanhas, mas a classe intelectual é o cérebro que
orienta essa força para o ponto certo; ambos são partes de um mesmo corpo, por
onde corre o mesmo sangue.
E quando falamos “povo”, referimo-nos às
comunidades locais, não à imensa classe média aburguesada (a chamada “gentalha”
nos livros de filosofia-política) que se formou às sombras da própria classe
intelectual. E vejamos ainda que paradoxal: é contra essa massa burguesa, hoje
apoiadora de tudo que há de pior na política, a chamada “direita”, contra qual
a classe intelectual, em geral de “esquerda”, vive disputando protagonismo. São
mãe e filho brigando uma discussão doméstica, histérica, sexual, protagonizando
nossas mídias, enquanto toda uma rede popular de pescadores, quilombolas,
agricultores alemães, sertanejos, caipiras estão sofrendo um verdadeiro assalto
a mãos armadas, às ocultas, pelo que há de pior na pirataria internacional!
Deixaremos isto acontecer com nosso povo?
Ou, se ainda pudermos chorar por ele, mudaremos de atitude e, mesmo com
lágrimas nos olhos, levantaremos e marcharemos com um novo objetivo em mente?
*06/10/2017
[1] https://rsurgente.wordpress.com/2017/09/26/comunidades-tradicionais-recusam-promessas-da-mineracao-a-primeira-coisa-que-vamos-perder-e-nossa-agua/
