domingo, 14 de fevereiro de 2016

Sobre Enéadas I, Tratado 6: da Beleza


William Blake, Feton e os Cavalos do Sol
Da Beleza foi, de acordo com Porfírio, o primeiro tratado de Plotino - e ele revela o filósofo em seu estilo mais poético. Ele serviu como iniciação à sua filosofia por séculos, não apenas por causa de seu estilo mais acessível aqui, mas também porque ele aponta para o que é mais imediata e facilmente disponível a nós por nossa experiência direta: a beleza no mundo.

Nosso encontro com a beleza aparece mais prontamente através do sentido da visão bem como através do da audição, tanto no mundo natural como na arte. Mais abstratamente, mas ainda capaz de revelar a beleza, é o hábil arranjo da linguagem que encontramos na poesia, na prosa e na oratória - não apenas em sons, mas os significados e as ideias que eles carregam nos inspiram em um maravilhamento do mundo, e na vida virtuosa. Uma vida virtuosa é vista não apenas como boa ou justa, mas também bela.

A beleza funciona como uma janela através da qual podemos ver através do mundo extrínseco e empírico para capturar um vislumbre da unidade do cosmos em si, uma experiência do mundo intrínseco e ontológico. Ou, posto diferentemente, a beleza é um fio dourado que percorre através de todos os níveis do Ser, do qual podemos traçar todo seu caminho de retorno à fonte, ao Bem em si. Assim, a beleza serve como um convite à alma, despertando-a para sua jornada rumo à integração e unidade.

Plotino aqui é visto em sua mais reta afirmação do mundo. É fácil perder a visão do aspecto crucial de sua filosofia que não nega o mundo material ordenado, ou seja, a natureza. Enquanto a matéria se submete à ordenação unitiva (como na imagem do Uno), o mundo natural tem seu lugar certo na hierarquia ontológica do todo. Apenas enquanto a desordem e a desintegração ocorrem que a matéria decai para longe da ordem do Ser, onde, em nossa ignorância, buscamos substituir a verdadeira ordem ontológica das coisas. É por esta razão que Plotino caracteriza a matéria bruta como 'má'. Mas a natureza em si (que é ordenada) não é má, mas, pelo contrário, um reflexo do Bem.

Assim na natureza podemos testemunhar a beleza, por exemplo um nascer do sol por sobre o oceano, que transforma as cores do céu, que é por sua vez encrespado nas ondas da água, e nós estamos deslumbrados pela luz do sol. Tudo isso ocorre através do material que está ordenado de um modo particular. Podemos oferecer uma consideração extrínseca e técnica do porquê uma cena assim se parece do jeito que é: a composição química da combustão do sol do hidrogênio, a luz refratando na atmosfera da terra que faz surgir miríade de cores, o olho humano que recebe as frequências da luz e o cérebro interpretando o que o olho toma. E uma consideração científica desse tipo não é certamente falsa. Mas -crucialmente - uma tal consideração não resume nem pode resumir a experiência intrínseca de um tal momento. Isso aponta para algo fora do escopo estreito da explanação empírica, caçando na dimensão ontológica na qual participamos: 'Há um bom negócio [uma boa diferença] entre ser corpo e ser belo' [I.6.1]

Isso é verdadeiro também quanto às explanações estéticas de uma obra de arte, por exemplo uma paráfrase de um poema. A crítica literária tem seu valor, mas não pode substituir a experiência intrínseca do poema em si. E os princípios técnicos sozinhos, aplicados em qualquer obra de arte (tal como simetria e proporções corretas) não produzem a beleza sublime, mas a coisa é bem o contrário: a soma é maior do que as partes [ou: o todo é maior do que a soma das partes]. A beleza não pode ser mecanicamente reproduzida por regras meramente seguidas de fórmulas, na arte. Em outro lugar na Enéadas, Plotino escreve que 'a beleza é o que irradia mais simetria do que a própria simetria' [VI.7.22]

Algo outro toma lugar no rosto da beleza que transcende a matéria formada apresentada, algo que está além dela, para o que somos despertados. Esse é o ponto crucial do argumento de Plotino em seu tratado: nosso encontro com a beleza é algo muito além de qualquer explicação extrínseca e formal. A beleza nos impulsiona para algo inteiramente outro, transcendendo as partes constituintes da coisa bela que testemunhamos. O encontro com a beleza não é meramente estético, mas possui uma dimensão ética e ontológica maior. Este é o significado por trás da trindade platônica da Beleza, do Bem e da Verdade.

A beleza pode ser descoberta em toda a natureza - é um reflexo do Bem. O Bem produz a Mente Noética, e a Mente Noética por sua vez produz a Alma, que por sua vez molda a natureza: 'Assim, então, é como a coisa material se torna bela - comunicando no pensamento [noético] que flui do Divino'. [I.6.2]. Este fluxo [que flui] do Bem pode ser seguido até sua fonte, e a alma em si é capaz de reconhecer seu traço:

E a alma inclui uma faculdade particularmente reservada para a Beleza - uma incomparavelmente certa na apreciação de si, nunca em dúvida quando quer que qualquer coisa amável se apresente para julgamento. Ou talvez a alma em si atua imediatamente, afirmando o Belo onde quer que encontre algo que acorde com a Forma-ideal dentro de si...[I.6.3]

Isso é uma beleza que facilmente reconhecemos na natureza: o fulgor do nascer do sol, o rugido do oceano, o balançar dos narcisos amarelos na brisa, um panorama estelar no céu noturno: 'Assim longe das belezas do domínio dos sentidos, as imagens e cenas sombreadas, fugitivas, entraram na Matéria - para adornar, e para violentar, onde elas são vistas' [I.6.3].

Avistar a beleza dentro do mundo material é apenas o início da ascensão plotiniana. Plotino diz que há belezas 'anteriores' àquelas do mundo natural [I.6.4] - com as quais ele quer dizer não espaço-temporais, mas de prioridade ontológica:

À visão destas devemos subir, deixando o sentido no seu lugar inferior... tal visão é apenas para aqueles que veem com a visão da alma - e na visão eles se rejubilarão, e a admiração cairá sobre eles e um problema mais profundo que todo o resto poderá bulir, e agora estão se movendo no reino da Verdade. Este é o espírito que a Beleza deve sempre induzir, espanto e problema delicioso, saudade e amor e um tremor que é tudo deleite. [I.6.4]

Onde o olho corporal é despertado pela beleza do mundo natural, o 'olho' da alma é despertado pela beleza do 'Ser-Real' [I.6.5] - a ordem ontológica ou 'espiritual' do mundo da qual a natureza é apenas seu reflexo. Assim a beleza não é apenas encontrada no domínio da arte, no mundo natural, mas na vida virtuosa, no silêncio superior, na intuição noética ou no intelecto que busca sempre além rumo ao Uno, que está ainda além do Ser-Real. O primeiro passo na jornada ontológica em direção ao Uno é o encontro com a beleza, que está disponível a nós em qualquer lugar, se verdadeiramente observamos o mundo natural ao nosso redor.

Assim como a beleza molda o mundo material em coisas belas, a beleza molda a alma em virtudes belas - se permitimos. E então podemos subir mais alto. Mas a ascensão 'para cima' é, em algum sentido, um movimento 'para dentro':

Aquele que tem a força, deixe-o subir e se afastar para si mesmo, para além de tudo que é conhecido pelos olhos, indo para longe mesmo da beleza material que uma vez lhe trouxe prazer. Quando ele percebe aqueles moldes da graça que se mostram no corpo, deixe-o não perseguir: ele deve conhecê-las por cópias, vestígios, sombras, e se apressa rumo àquilo que elas expressam. [I.6.8]

A jornada não tem nada que ver com o mundo empírico: 'Isso não é uma jornada para os pés... você deve fechar seus olhos e clamar por outra visão que está para ser desperta dentro de você...' Aqui é absolutamente essencial entender que Plotino não está apontando para o que é popularmente conhecido como 'mundo sobrenatural' - o erro em tais noções é que as assunções empíricas são implicitamente distorcidas em tal pensamento: uma 'substância material' é meramente transposta a uma 'substância sobrenatural' que de outra forma opera sobre modos empíricos. Ao permitir que assunções baseadas no empírico sejam sobrepostas ao Ser-Real, o significado ontológico da visão de Plotino é inteiramente perdido. Do que Plotino está falando 'não é medido pelo espaço... mas é incomensurável' [I.6.9] - e não é mensurável em nenhum sentido natural ou sobrenatural. Isso é precisamente o mesmo tipo de obstáculo que Agostinho enfrentou: 'Meu coração estava procedendo através de imagens do mesmo tipo de formas através das quais meus olhos foram acostumados a proceder...'[Confissões, Livro VII]

Em caso de necessidade, Plotino recorre à linguagem mitopoética para expressar o que a linguagem humana é inteiramente incapaz de descrever: o mito de Narciso, a Odisseia de Homero, a alegoria da caverna de Platão, e as religiões-mistério dos tempos de Plotino. Essas imagens não deveriam ser tomadas literalmente, mas como interjeições poéticas que nos incitam em direção ao que não pode ser expresso, apenas experienciado. Ele busca, usando linguagem figurativa, apontar para uma integração da consciência que é fundamentalmente muito mais psico-ontológica do que sobrenatural. Somos tão facilmente condicionados por nosso quadro empírico da experiência que não facilmente reconhecemos como a permitimos da mesma forma qualquer coisa 'além' do mundo material em modos pseudo-materialistas. O que Plotino fala está muito além nas profundezas em relação ao 'sobrenaturalismo'. É nesse sentido que Plotino era único entre os neoplatônicos.

O reconhecimento inicial do 'Ser-Real' é como a já existente alegoria da caverna de Platão: o olho da 'alma' é inicialmente fraco, e então deve adaptar-se ao brilho da luz radiante que desce do Uno. Agora o trabalho da filosofia pode começar a sério, cultivando a si mesmo, permitindo que a beleza e a bondade de alguém brilhe. Em uma das mais memoráveis passagens de Plotino, ele compara a vida filosófica com a da escultura:

Retire-se [do mundo] para si mesmo e veja. E se você não se encontra belo ainda, atue como o criador de uma estátua que deve se tornar bela: ele corta um tanto aqui, alisa lá, torna essa linha mais leve, a outra mais pura, até que um rosto amável cresça do seu trabalho. Então faça você também: corte tudo que é excessivo, corrija o que está torto, traga luz a tudo que está escuro, labore para fazer um fulgor de beleza,, e nunca cesse de esculpir sua estátua, até que brilhe em você o esplendor divino de virtude, até que você deve ver a perfeita bondade certamente estabelecida no santuário imaculado. [I.6.9]

O impulso de Plotino em direção a essa visão finalmente culmina na união com o Uno, uma integração fundamental da consciência com o todo do Ser-Real, e 'nada agora que permanece pode destruir aquela unidade interior'. O vidente, a visão e o visto são unificados em um todo ontológico indivisível: 'você se torna cada visão'. Nesse ponto, a linguagem simplesmente falha (especialmente a gramática, que demarca as divisões de sujeitos, verbos e objetos): 'O olho nunca viu o sol a menos que ele tenha se tornado solar, e nunca pode a alma ter a visão da Primeira Beleza a menos que ela tenha se tornado bela' [I.6.9].

Encontramos ecos do 'olho poderoso' de Plotino além do tempo de sua própria vida, nos sermões de Mestre Eckhart: 'O olho através do qual eu vejo Deus é o mesmo olho através do qual Deus me vê...' - e também em Emerson quando ele escreve na Natureza, 'Eu fui transformado em um globo ocular transparente; sou nada; vejo tudo; a atualidade do Ser Universal circula em torno de mim; sou parte ou partícula de Deus... sou o amante da incontida e imortal beleza'.

via Plotinianlight, tradução de Álvaro Hauschild

Nenhum comentário:

Postar um comentário