quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O Sionismo Cristão

Por Alberto Buela

Em um muito bom artigo publicado por Eladio Fernández sob o título de Evangélicos cristãos, seita financiada por Israel e Washington, onde aparece uma foto de Netanyahu falando em um congresso evangélico, afirma que: "Os evangelistas cristãos acumulam uma história de grupo político mais que religioso. Seu vínculo com a AIPAC (lobby hebreu) e o potente lobby gay é indiscutível, como ferramenta político-social, mais que religiosa. O investimento na Espanha é notável, e se multiplicam por dois em tão somente dez anos. As igrejas evangélicas são um sistema similar ao utilizado pela CIA para infiltrar suas ONGs como sistema de penetração ideológica unilateral, que maneja coincidências veladas".

O que não disse o artigo é que o evangelismo cristão norteamericano para atuar assim encontra seu apoio e seu embasamento no denominado "sionismo cristão". Sim, ainda que a primeira vista pareça uma contradição flagrante, instalou-se desde anos um grande movimento sionista cristão no seio das igrejas evangélicas. A nós isso soa raro porque por estes pagos nem se fala do assunto. Por isso vamos tentar explicá-lo.

Como consequência da Reforma protestante se impôs o método literal de interpretação das escrituras que veio para substituir os métodos alegóricos, analógicos e hermenêuticos praticados pelo catolicismo. Assim, quando o texto bíblico realiza promessas a Israel estas são interpretadas como realizadas ao Estado de Israel atual, e não à Igreja como povo de Israel ou Israel espiritual.

O autor conclui com a afirmação de que os judeus têm direito divino de ocupar territórios no Levante ou Oriente Médio. Que Jerusalém seja sua capital exclusiva. Que os muçulmanos são seus inimigos. E além de tudo, que o [Estado] de Israel atual não tem nenhuma responsabilidade com os crimes que pratica sobre os palestinos. Este último apoiado na teoria da dispensa das responsabilidades dos judeus de seus atos atuais e passados.

Segundo esta teoria teológica a história humana passou por uma série de mordomias ou períodos administrativos de tratamento com Deus que culminarão com a segunda vinda de Cristo. Assim, em um primeiro momento foram os judeus, a descendência de Abraão, Isaac e Jacó, logo a Igreja católica, logo as igrejas protestantes, mas como as igrejas cristãs (católicas e protestantes) fracassaram em seu trato com Deus, sobretudo depois da segunda guerra mundial, há que devolver a representação de Deus aos judeus instalados no Estado de Israel, para que eles preparem a Segunda Vinda do Senhor.

Encontramos na voz do sionismo cristão na Internet a seguinte caracterização de seu poder na atualidade: "hoje, Jerry Falwell, que chama o Cinturão Bíblico estadunidense de Cinturão de Segurança de Israel, calcula que existem 70 milhões de sionistas cristãos e 80.000 pastores sionistas cujas ideias são disseminadas por 1.000 emissoras cristãs de rádio e 100 redes cristãs de televisão. Constituem de forma clara uma facção dominante do Partido Republicano e representam um quarto dos votantes".

De uma perspectiva católica o caso mais emblemático de sionismo cristão encontramos no filósofo francês Pierre Boutang (1916-1998), sucessor de Emmanuel Levinas na cátedra de metafísica de Sorbona-Paris IV.

O sionismo de Boutang não é político, mas teológico, e seu raciocínio é o seguinte: o fracasso da cristandade na Europa depois da barafunda da segunda guerra mundial desqualificou o cristianismo e, então, restituiu a Israel seu cargo original.

A única vitória que trouxe a segunda guerra mundial para o cristianismo foi a criação do Estado de Israel. É que a Igreja que é o verdadeiro Israel, não podendo conservar esse privilégio e como consequência do Vaticano II restituiu Israel que foi o primeiro depositário. "nous Chrétiens, en un sens, avec nos nations cruellement renégates, avons pris le rang des Juifs de la diaspora" (nós cristãos, em certo sentido, com nossas nações que cruelmente renegaram o cristianismo, tomamos o lugar dos judeus da diáspora).

E em suas conversações com George Steiner observa que os efeitos do caso Dreyfus foram o fracasso de uma França católica e monárquica estigmatizada pela vitória da democracia parlamentária que tem em seu seio o messianismo judeu laicizado. Isso é, quando se carnalizou o desjudaizado de seu sentido originário.

Boutang, como nosso Nímio de Anquim, vem denunciar a descristalização do poder político e a "carnalização" do mesmo através do judaísmo.

Só os enraizadamente católicos como Boutang são os únicos que estão em condições de entender o que quer dizer. O resto dos mortais, como nós neste assunto, temos que guardar silêncio para não pecar.

Que tire cada um suas conclusões, segundo seu real saber e entender. Nós só nos limitamos a apresentar o tema.

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